22 de maio de 2017

Historiando - Padre Manuel de Carvalho

Pouco se sabe da biografia do Padre Manuel de Carvalho, que foi pároco de S. Mamede de Guisande em grande parte da primeira metade do séc. XVIII (de 1710 a 1754), para além da referência que na lista de párocos lhe é feita pelo Cónego António Ferreira Pinto na sua monografia sobre Guisande "Defendei Vossas Terras", publicada em 1936, que abaixo se transcreve:

-Manuel de Carvalho, foi nomeado em 1710. Alma verdadeiramente apostólica, fundou uma obra, que ainda hoje está florescente e é o orgulho de Guisande. Refiro-me à Confraria de N. S. do Rosário, fundada em 1733, com todas as licenças dos Dominicanos e autorizações necessárias, cujos Estatutos foram aprovados em 2 de Setembro de 1734 e modificados em Janeiro de 1794. O segundo livro do registo paroquial foi rubricado por este zeloso pároco, em virtude da comissão que lhe deu o Provisor, em 24 de Novembro de 1733. Por motivo de grave doença, resignou, em 1752, em favor do seu sucessor e faleceu, a 4 de Fevereiro de 1758, deixando muitas esmolas e legados. Esteve sepultado na capela-mor da igreja de Guisande e as ossadas foram removidas para o cemitério, por ocasião do bicentenário da erecção da confraria, acompanhada de 8 dias de sermões, que pregou um sacerdote dominicano, em Dezembro de 1933.

Ficamos por isso a saber alguns dados importantes, desde logo que foi o fundador da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, a qual ainda existe e está activa  na nossa paróquia, embora já sem a importância que teve noutros tempos e que lhe trazia irmãos provenientes de muitas freguesias vizinhas.
Infelizmente, e será um assunto para futura pesquisa, não sabemos a sua naturalidade, sendo de considerar que não seria natural de Guisande, já que o Cónego António Ferreira Pinto não o inclui na lista dos sacerdotes naturais de Guisande que elencou na sua monografia atrás referida. Sabe-se que por sua vontade foi sepultado no solo da capela-mor da nossa igreja matriz, tendo os seus restos mortais sido exumados e transferidos para o cemitério paroquial duzentos anos após o seu falecimento, aquando da comemoração do segundo centenário da Confraria, em 1933.
A sua sepultura durante muitos anos esteve assinalada por uma simples mas imponente lápide em pedra, encimada por uma cruz, que se destacava das simples lápides em ardósia das demais sepulturas, em campa rasa, com então era norma. Esta lápide, por desleixo ou incúria e até de desrespeito pela memória de tão importante figura, aquando da realização de obras no cemitério no início dos anos 70,  foi removida para local incerto ou até mesmo transformada em cascalho como uma vulgar pedra. O local ocupado pela sepultura, certamente foi vendido pela Junta de Freguesia de então, dando lugar a um novo jazigo. Foi uma grande perda e de facto lamentável e até reprovável. Desconhece-se também qual o destino que foi dado aos seus restos mortais caso ainda fossem existentes à data das obras e se houve ou não esse cuidado. Eventualmente terão sido removidos para campa comum, a qual também foi vendida posteriormente. À falta de testemunhos e documentos, tudo indica que o descuido neste assunto foi muito ou mesmo total.

 Felizmente, para além da memória e como única prova da existência dessa lápide, existe uma  fotografia datada de Julho de 1966, que abaixo se reproduz, com vista para o cemitério da Guisande, nela sendo perfeitamente visível a lápide e o local da sepultura.



 Como sabemos pela referência deixada na monografia "Defendei Vossas Terras", o Padre Manuel de Carvalho, por doença, resignou em 1752 e faleceu poucos anos depois, precisamente em 4 de Fevereiro de 1758 e sepultado no dia seguinte. Após a sua resignação, sucedeu-lhe no cargo o Padre Dr. Manuel Rodrigues da Silva, natural de Santo Ildefonso, Porto. 
Abaixo reproduzimos as páginas do livro de assentos paroquias (com registos entre 1733 e 1780), em que se verifica o último assento lavrado pela mão do Padre Manuel de Carvalho, relativo ao falecimento de um Domingos Ferreira, viúvo do lugar do Outeiro, curiosamente com a data de 14 de Janeiro de 1754, o que se deduz que apesar da sua doença e da sua resignação, continuou à frente da paróquia pelo menos mais dois anos. já que o primeiro registo do seu sucessor, Padre Dr. Manuel Rodrigues da Silva, no livro de assentos paroquiais, tem a data de 15 de Maio de 1754, referente ao falecimento de Anna (10 anos de idade), filha de José da Mota e Maria Pinto, do lugar da Barrosa. Em face destas duas datas, é natural concluir que o Padre Manuel de Carvalho terá sido efectivamente substituído nas funções de pároco entre Janeiro e Maio do ano de 1754.



 Abaixo, o assento de falecimento do próprio Padre Manuel de Carvalho, lavrado pela mão do seu sucessor Padre Dr. Manuel Rodrigues da Silva.



A. Almeida