15 de abril de 2020

A freguesia de Guizande, segundo Pinho Leal


Num anterior artigo (ligação) falei aqui das estórias à volta da sineta da Capela de Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António, popularizada como Capela do Viso. 

Nesses apontamentos, falando então da Capela de Santo Ovídio, à qual está ligada a falaciosa teoria de que a sua sineta foi roubada pelos fregueses de Guisande para a colocarem na Capela do Viso, transcrevemos a anotação que Pinho Leal, no seu "Portugal Antigo e Moderno" de 1873, a páginas 370 do vol. III, dedicou à freguesia de Guisande  dizendo que "...tem uma capela dedicada a Santo Ovídio onde se fazem três festas no ano, muito concorridas. A quem tiver padecimento nos ouvidos, tem (segundo a crença da gente d´aqui) um óptimo remédio. É furtar uma telha e levá-la de presente a este santo; fica logo bom e a ouvir perfeitamente. É medicamento muito experimentado e aprovado pela gente da terra da Feira. A telha há-de ser furtada senão não o vale".

Apesar desta referência à Capela de Santo Ovídio como sendo da freguesia de Guisande, admite-se que Pinho Leal (que casou com Maria Rosa de Almeida, do lugar do Carvalhal, freguesia de Romariz, onde construiu casa e nela ali morou) tivesse feito confusão, porque na sua mesma obra e na sua descrição referente à freguesia de S. Tiago de Lobão também lhe atribui a pertença da capela do Santo Ovídio. Não nos parece, pois, que a capela fosse meeira das duas freguesias vizinhas nem que existissem duas distintas capelas sob a mesma invocação. Seja como for, essas referências de Pinho Leal, mais do que dissipar dúvidas, porventura aumentou-as e deixa ambas as freguesias a reclamar a capela, até porque o arraial onde se implanta é partilhado por ambas as aleidas.

A obra deixada por Pinho Leal, com o título pomposo de "Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorographico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias…", comporta 12 volumes, publicados em Lisboa pela Livraria Editora de Mattos Moreira entre 1873 e 1890, foi importante no seu tempo. 

Todavia, tal obra não é propriamente conhecida ou reconhecida pelo rigor de muitas das suas entradas, o que de de resto seria uma missão quase impossível. Se o critério fosse mesmo o rigor e o detalhe, precisaria Pinho Leal de várias vidas e dedicação exclusiva a tão grande empreendimento, sobretudo numa época em que quase não existiam estradas nem meios de transporte nem elementos que o ajudassem na pesquisa. Certamente que pelos cargos que teve, nomeadamente enquanto administrador da Casa do Côvo, em Oliveira de Azeméis, visitou muitas das aldeias e vilas, consultou arquivos e documentos e contou com a ajuda por correspondência de muitas pessoas a quem terá certamente pedido ajuda, mas seria exigir demais no que se refere a pequenas aldeias quase sem grandes documentos e elementos da sua história.
Por isso, algumas das suas referências não deixam de ser meras curiosidades e que em muitos casos referidos pouco esclarecem, como é o caso da propriedade e localização da Capela de Santo Ovídio. 

Para além da referência à dita Capela de Santo Ovídio, não deixa de ser curiosa a sua anotação sobre a Capela de Nossa Senhora da Boa Fortuna, bem como a indicação de que na sua envolvente, se realizava uma feira (nova) de vários géneros e gado cavalar, suíno e bovino, então conhecida como "Feira da Boa Fortuna". Terá sido mesmo assim? Nesta referência, em contraponto à questão da capela do santo protector dos ouvidos, tudo indica que sim, com mais fundamento, já que os mais antigos guisandenses falam de referências de seus pais e avós a essa dita feira.
Igualmente curiosa a indicação de que havia prémios para os melhores expositores, prémios esses atribuídos pela Câmara Municipal. Um assunto a confirmar junto dos arquivos do município.

Não é referida por Pinho Leal  a periodicidade da feira, presumindo-se que, a ter em conta a maioria das feiras na região, que fosse mensal e a feira de ano a coincidir com a data de celebração da titular da Capela, podendo aí ter sido a origem da Festa do Viso, que se realiza sempre no primeiro Domingo de Agosto.

Em todo o caso, as feiras eram por esses tempos relativamente regulares e numerosas pois constituíam basicamente uma das poucas formas de comerciar artigos em geral, pois eram poucos os estabelecimentos comerciais, sobretudo quanto à venda de certos produtos ou bens, como o caso do gado, ferramentas, etc.

A realizar-se tal feira, seria de facto nova, como menciona o autor, já que a capela era recente. De facto à data do início da publicação da obra, por 1873, a Capela do Viso tinha sido construída há poucos anos, concretamente dada como concluída em 1869. Ou seja, partindo do princípio que Pinho Leal escreveu a entrada sobre Guisande uns anos antes da publicação do respectivo volume, poderia, perfeitamente, ter visitado a freguesia quase por altura da sua construção  e mesmo presenciado as obras, até porque por esses tempos já viveria no lugar do Carvalhal, freguesia de Romariz, onde, como atrás se disse, construiu casa e ali terá vivido com regularidade até pelo menos 1865, altura em que passou a residir em Lisboa depois de ter ganho uma disputa judicial sobre o seu descobrimento das jazidas de carvão no concelho de Castelo de Paiva. Sendo apenas uma mera suposição nossa, não custa a acreditar que pela proximidade Pinho Leal tivesse estado em Guisande.