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28 de outubro de 2020

Negacionistas

 A situação que vivemos decorrente do contexto da pandemia da Covid-19 é realmente séria, desde logo pela saúde, pois claro, e também por todo o resto, como a economia e as finanças das pessoas e famílias, com perda de empregos e quebra de rendimentos e deles a miséria e pobreza.

Obriga-nos a todos a cuidados redobrados, na higiene, no uso de máscara e distanciamento social. Por outro lado, condiciona-nos mesmo com sentimentos de medo e insegurança. Porque todos, impossibilitados de vivermos numa redoma hermética, estamos sujeitos ao mesmo.

Esta chamada segunda vaga, vão-nos fazendo crer que resulta do relaxamento e incumprimento por parte dos "malandros dos portugueses", quando está-se a verificar que a vaga está a atingir todos os países, nomeadamente os europeus. Por outro lado, estava já anunciada por aquela entidade estranha e de posições erráticas, a Organização Mundial de Saúde.

Assim, não! Não nos venham dizer que foi de um relaxamento geral dos portugueses porque do relaxamento de Julho e Agosto, no pico do Verão e das férias, em que se andou relativamente à vontade, por feiras, praias, restaurantes e viagens, não houve uma imediata repercussão nos meses seguintes.

Esta chamada segunda vaga está a ocorrer neste mês de Outubro e por isso, em teoria e de acordo com o que vamos ouvindo sobre as características do vírus e sua incubação, quando muito teve origem em infecções originadas já final do mês de Setembro, precisamente quando as pessoas na generalidade abrandaram e voltaram às escolas e aos empregos. Este crescimento relativamente repentino dever-se-á, pois, a outras causas que não necessariamente um relaxamento de situações de lazer, para além do recomendado .

 Apesar disso, apesar desta percepção e destes sentimentos, e da seriedade do contexto e consequências, não temos que concordar nem pactuar com certas posições e medidas que nos vão sendo enfiadas de forma arbitrária e com critérios díspares e mesmo atentatórias dos direitos e garantias previstas pela Constituição.

Inventar num fim-de-semana normal, a proibição de circulação em municípios limítrofes, com excepções igualmente absurdas, é outra aberração e sem qualquer fundamento prático e que só visa atacar a religião e os seus costumes e tradições, como já havia sido feito na Páscoa. Por outro lado, leva a perguntas óbvias: Por exemplo, qual a diferença de uma curta deslocação ao concelho vizinho para um almoço num qualquer restaurante local e, pelo contrário, realizar esse almoço no concelho de residência, porventura num restaurante mais frequentado? Nenhuma, nicles, zero. Qual a diferença de um residente, por exemplo, na freguesia do Vale ou Romariz, ser impedido de ir almoçar a um restaurante a Escariz (a 2 ou 3 Km) e em contrapartida poder fazê-lo em Espargo ou em Argoncilhe, fazendo 20 ou 30 Km?

Este tipo de absurdos a juntar a outros, são de facto prova de que as coisas têm andado ao calhas, sem qualquer rumo e lógica. 

Para além de tudo isso, a permanente negação do excessivo aumento de mortes não relacionadas à Covid-19, continuando-se a dar ênfase apenas ao falecimentos decorrentes da Covid, é de arrepiar pela indiferença a uma realidade que é por demais óbvia. Para trás ficam milhares de actos médicos, tratamentos e cirurgias levando ao agravamento de doenças e ao tal excesso na média de mortes, que continuam a ser irrelevantes para quem manda e que não fazem parte das contas. 

Os nossos governantes e os serviços que tutelam são assim os principais negacionistas. Criticar estas situações, criticar estas políticas erráticas, não é sinal de negacionismo, como alguns gostam de apelidar. Uma coisa não pode relevar a outra. 

Sendo certo que o contexto é difícil para todos, e certamente para o Governo e suas entidades, pelo menos poderia existir um pouco mais de transparência e objectividade, mesmo que a mesma resulte de uma confissão da incapacidade do SNS em lidar com a situação e um pedido de desculpas aos portugueses por durante várias décadas, sob vários Governos, terem andado a maltratar o sistema e a desconsiderar os seus profissionais. Agora, perante uma situação destas, a coisa tinha necessariamente que dar nisto, porque não só admitem a falha e a incapacidade como, pelo contrário, vão apregoando que a coisa funciona. Mesmo afirmando que a coisa funciona, no fundo já admitem recorrer aos serviços privados, tantas vezes considerados como os maus da fita e que só são chamados quando a coisa está mesmo feia. Essa opção de contratação dos hospitais públicos deveria ter continuado e não ter sido, como foi,  interrompida logo que houve sinais de abrandamento. Pior cego é aquele que não quer ver, diz o povo. 

Há limites para a compreensão e paciência para com tantos tiros ao lado ou, pior do que isso, nos próprios pés..

25 de outubro de 2020

516 metros de inutilidade

 

Era uma vez um político prometedor. Prometedor não quanto à sua carreira mas porque era mesmo bom a fazer promessas. 

Em certa campanha para as eleições na aldeia, reunidos os aldeões, fez saber que "- Se eu for eleito mando caiar a capelinha de Santa Ana!" . Mas aldeões olhando-se entre si, responderem: "- Mas nós não temos nenhuma capelinha de Santa Ana! Temos a de Santa Bárbara e não precisa de ser caiada porque é em pedra!". O político não esmoreceu e ripostou: "- Pois então, mandarei fazer uma capelinha para Santa Ana e com um anexo para o S. Joaquim. Os avós de Jesus não são menos importantes que Santa Bárbara!". O povo lá encolheu os ombros e disse entre si: "-Bem mais uma capela não faz mal e dará para outra festa com foguetes!".

O político prometedor lá continuou a desfiar promessas como quem reza um rosário, tudo coisas que o povo considerava inúteis. Por fim prometeu: "- Se eu for eleito, mandarei construir uma ponte sobre o vosso rio Tronchuda!" - O povo novamente ficou surpreendido e respondeu que  "- Nós cá na aldeia não temos nenhum rio, muito menos com nome de couve!" - O político lá remediou o desconhecimento: "- Pois então, mandarei fazer um rio!.

Conclusão: Passe a ironia, há políticos um pouco assim, não só prometedores e com a mania das grandezas mas acima de tudo desconhecedores das realidades e verdadeiras necessidades locais.

Vem isto um pouco a propósito da já popular ponte suspensa sobre o rio Paiva em Alvarenga - Arouca. Em rigor tal ponte não corresponde a nenhuma necessidade objectiva e como tal dispensava-se. E quem conhece Arouca e suas freguesias, apesar de um desenvolvimento interessante ainda padece de muitas necessidades, nomeadamente em aldeias isoladas. De resto, os especialistas dizem que já por si só os passadiços representam um impacto negativo sobre a galeria do rio Paiva na zona onde se desenvolve. É certo que foram impostas algumas limitações de acesso, mas no geral a coisa continua como uma feira ou romaria à Senhora da Agonia.

É certo, ainda, que há o outro lado da moeda, o impacto de visitantes e o crescimento de alguma economia local, porque em torno desse afluxo de visitantes, criaram-se algumas oportunidades de negócio, os restaurantes servem mais bifes e batatas fritas e o alojamento local verifica um acréscimo. Quanto a isso reconheça-se a coisa.

A ponte, designada de "516 Arouca", pelo seu comprimento, é já considerada a mais extensa do mundo no seu género de suspensa e entretanto será inaugurada. Não temos dúvidas que, sobretudo quando passar a pandemia, terá um novo impacto de visitantes e com isso um crescimento  não só dos aspectos positivos como dos negativos.

Nestas coisas, o ideal é procurar soluções equilibradas que de algum modo tenham em conta as necessidades, tanto de preservar o eco-sistema do rio e sua galeria como também fazer disso uma mais valia para a economia local. Mas, apesar do entusiasmo de muitos, e será a maioria, não nos parece que a ponte fosse mesmo necessária e dispensava-se. Com ela o tal equilíbrio mais ou menos adequado, fica posto em causa. Pode-se argumentar o que se quiser, e nisso os autarcas são bons, mas a ponte era dispensável. Assim reforça-se de forma artificial o fluxo e o impacto de visitantes. Se a coisa não abrandar, daqui a uns tempos monta-se ali um parque de diversões ou um parque temático à volta dos bifes de arouquesa. E o problema é que, à imagem do que aconteceu com os passadiços, a coisa tende a gerar um seguidismo nacional e não tarda que daqui a nada se comecem a erigir pontes em tudo quanto é garganta e desfiladeiro de rio. E o que não faltam são lugares bonitos e adequados para isso. 


Não havia, pois, necessidade de mandar fazer mais uma capela e pôr lá uma peanha com mais um ou dois santos, mas que a coisa dará festa rija, dará, porque seja em capelas ou pontes, o povo gosta é de farra e de experiências.

De resto, para se ver a bela cascata das Aguieiras, bastaria fazer o percurso a pé. Pessoalmente já lá estive com alguns amigos há cerca de 10 anos, bebendo umas minis com os pés na fresca água da ribeira que ali se despenha para o Paiva. Que é bonito e deslumbrante, é.

Enquanto houver políticos visionários, tudo é possível. De resto a ponte, por mais atributos e adjectivos que lhe imponham, não é novidade e parece-nos mais uma chinesice, um divertimento e um teste às vertigens. O Youtube está cheio dessas coisas.

Mas, deixemos o pessimismo de lado, porque, quer se queira quer não, por mais comichão que a coisa faça aos ecologistas e amigos do Paiva,  no final, vencerá sempre o apelo do dinheirinho. Já tratar da qualidade da água do rio e dos pecados ao longo do seu eco-sistema, estamos conversados. O rio passa lá em baixo e se se queixa, ninguém ouve no cimo da ponte.

21 de outubro de 2020

O antes, o depois e o agora

 

Anda pelo Facebook uma mensagem que grosso modo diz que no tempo de Salazar, Portugal não tinha dívida pública e tinha uma das maiores reservas de ouro.

O "Observador" pegou no assunto e depois de analisada a questão classifica a mensagem como enganadora e isto porque Portugal tinha nessa altura efectivamente dívida pública.

Em todo o caso, confirma que em 1974 a nossa dívida pública "equivalia a 

cerca de 13,5% do PIB, ou seja, da riqueza gerada na altura em que se deu a revolução dos cravos, segundo os dados do FMI. Em contrapartida " ....Hoje, a dívida representa 117,7% do PIB, segundo dados oficiais da Pordata, que também podem ser encontrados no relatório do Conselho de Finanças Públicas. Portanto, a dívida pública é hoje muito maior, apesar de ter existido dívida nos dois períodos de tempo.

Quanto à questão do ouro:

"...De facto, Portugal tinha uma das maiores reservas de ouro do mundo. Segundo o Banco de Portugal, em 1974, o país tinha 865,94 toneladas de ouro, estando em oitavo lugar num ranking a nível mundial, sendo essa uma das marcas históricas do legado de Salazar. Neste momento, e segundo os dados mais recentes (que são de 2019), Portugal está em 14º lugar no ranking mundial de países com as maiores reservas de ouro, segundo dados do World Gold Council".

Em resumo, a mensagem é enganadora porque não é totalmente correcta, mas no essencial é verdadeira. Obviamente que as razões que concorreram e concorrem para isso são várias e conforme o interesse de cada um. Argumentos válidos não faltarão. 

Mas se é certo que, apesar de em 1974 o país estar envolvido numa guerra estúpida e ceifadora de vidas e recursos, estava nessa posição de percentagem de dívida e detenção de reserva de ouro, também é verdade que, para além da questão do regime político, era notório o atraso em relação a muitos índices de qualidade de vida de outros países europeus.

Mas também é certo que tendo já passado quase 50 anos, Portugal inverteu em grande parte  essa situação e podemos dizer que praticamente estamos a par da Europa, mas a que custo? Pela responsabilidade, rigor, organização, produtividade, combate à corrupção e interesses partidários? Seria bom sinal que assim fosse, mas, infelizmente, e como já comentei outro dia, devido a grandes apoios e subsídios a fundo perdido da União Europeia ao longo de mais de 30 anos, mas sobretudo a custo do endividamento, que é brutal e certamente inamortizável nas próximas décadas. Não só do Estado, mas das famílias, empresas e instituições.

Portanto, cada um que pense e analise como bem entender, mas há coisas que não podem ser escamoteadas, nem no antes, quase há meio século, nem no depois, nem na actualidade. 

20 de outubro de 2020

Porque não o Natal a 17 de Outubro?

Sobre o encerramento dos cemitérios nos dias 31 de Outubro e 1 de Novembro.

Não concordo nem discordo, antes pelo contrário. A esta altura do campeonato já pouco importa dar opinião. No final pouco ou nada conta para o totobola. Manda quem pode e o povo manso respeita, se não a ordem, o portão fechado a cadeado. 

Em todo o caso, é sempre mais fácil decidir pela via mais fácil. Estudar e implementar um protocolo de regras e procedimentos que de algum modo sejam equilibrados e proporcionais é o mais difícil e poucos irão por aí. 

Quem manda, passa o tempo a tecer loas e a elogiar os portugueses mas na hora de certas decisões, tomam-nas como se fossem todos uma cambada de arruaceiros e incumpridores, incapazes de seguir regras. 

Dizer-se que se concorda com a decisão de encerramento só porque os familiares e amigos têm o ano todo para visitar os seus ente-queridos, é por si só uma justificação indigna, porque há datas que pelo seu simbolismo não podem ser substituídas pelos restantes 364 dias. 

Porque raio temos que celebrar o Natal a 25 de Dezembro quando o podemos fazer a 11 de Fevereiro, a 17 de Março, 12 de Agosto ou  17 de Outubro, e por aí fora nos demais trezentos e tal dias do ano?

16 de outubro de 2020

Espontaneidade

 “As medidas só são autoritárias se as pessoas não as fizerem já, espontaneamente.” 

Parece que a frase foi proferida pelo nosso Primeiro Ministro, António Costa. Custa a acreditar, mas foi mesmo, esta quinta-feira, à margem de um encontro em Bruxelas e a propósito da intenção do Governo em tornar obrigatória a instalação nos telemóveis da aplicação portuguesa com um nome estrangeiro "Stayawai Covid" bem como penalizar quem o não fizer.

Aparte a questão da constitucionalidade, que constitucionalistas já disserem que não respeita, bem como da Comissão Nacional de Protecção de Dados, arrepia esta simplicidade da declaração porque desde logo abre lugar a outras considerações que podem parecer exageradas mas vai dar ao mesmo porque têm o mesmo significado. Uma delas, explorada nas redes sociais é precisamente esta: Com a argumentação do Costa, pode-se concluir que as mulheres violadas só o são porque não aceitaram espontaneamente o acto.

Decididamente, começa a faltar paciência para certas coisas. Mas importa não as aceitar "espontaneamente, sob pena de alinharmos na carneirada.

15 de outubro de 2020

Ó Costa, o crime ainda compensa


Já todos percebemos que o Governo se prepara para obter receitas extraordinárias, algumas delas com a aplicação de multas de trânsito e coimas decorrentes da pandemia. Só nas multas de trânsito, Costa e os seus acólitos preveem para 2021 um aumento de 5500% em relação a 2020.

Já percebemos que o Governo se prepara igualmente para lançar para o cano de esgoto o direito da privacidade, defesa e protecção de dados, ao pretender obrigar os cidadãos a instalar uma aplicação que lhes vigia os passos bem como a obrigar as autoridades a consultarem os dados e a terem acesso ao telemóvel e daí aplicar coimas pesadas caso não se mostrem "cumpridores". Apesar do entendimento negativo da Comissão Nacional de Protecção de Dados, a coisa pode vir  mesmo a avançar. Para já vão dizendo que "é uma tentativa". Veremos ate onde vai a tentação.

Tudo isto parece surreal, digno de um grande Big Brother, não da TVI mas de George Orwell já previsto em 1949. De resto, é apenas uma especulação, mas COVID rima com PIDE.

Pela sua natureza e violação dos direitos salvaguardados na Constituição, a coisa ainda vai fazer correr alguma tinta, mas o mais certo é que a maioria dos cidadãos aceitem estas medidas como gado manso e inocente a caminho do matadouro.

Paradoxalmente, o Governo e as autoridades desleixam-se no combate à corrupção e fuga aos impostos. Basta dizer que, no nosso concelho, e certamente nos demais, há, diria, milhares de habitações habitadas e sem licença de utilização e prédios que nas Finanças ainda pagam IMI de apenas terreno para construção quando na realidade já têm habitações em utilização plena há dezenas de anos. 

Mais tarde, quando por algum arrepio de consciência, tais proprietários decidirem declarar a construção, vão ser "castigados" com o pagamento do IMI dos últimos quatro anos. Ora para quem durante 10, 15 ou 20 anos ou mais esteve nesse incumprimento, o crime e o incumprimento compensam. Porque pagar 100, 130 ou 150 euros anualmente durante vinte anos,  convenhamos, que é diferente de pagar 300, 400, 500 ou mais. Como diria o Guterres "...é só fazer as contas".

Mas é assim que as coisas vão indo. O crime fiscal ainda vai compensando. É sempre mais fácil ir à carteira de quem é manso e cumpridor.

14 de outubro de 2020

Ditadura democrática

 Se há coisa que a pandemia veio trazer, foi o gosto por proibir. Quem manda ou tem algum tipo de poder, político, social ou administrativo, encontra na proibição um acto de demonstração desse mesmo poder. O problema nem será proibir, porque também é preciso, mas quando se generaliza e a coisa vai a eito, tantas vezes sem fundamentos fundamentados, passe o pleonasmo, mas só porque faz parte da onda.

Ora por estes tempos as coisas parecem ir nesse sentido, e depois de tudo quanto proibiram ou limitaram preparam-se para mexer com coisas que ainda dizem muito às pessoas, enquanto ser material mas espiritual. Será o caso de alguns municípios que já avançaram ditatorialmente para o encerramento dos cemitérios, impedindo, no início de Novembro a celebração dos ente-queridos nos locais onde estão sepultados. Sem meios termos, sem regras, sem condicionantes que possam parecer equilibradas e proporcionais. A eito. Cadeado à porta.

Parece que já há ditadores a preparar a proibição ou restrição da celebração do Natal. O que virá a seguir?

Apetece assim  perceber a génese das ditaduras. No fundo, em cada um de nós, que manda ou exerce poder, coabita um pequeno ditador. Pode ser insignificante mas se lhe derem corda a coisa descamba e com tempo e espaço não faltarão por aí rivais dos velhos generais.

Mas soa a estranha esta ditadura, e isto porque ao contrário da ditadura pura e dura, que se impõem por si, esta,  a actual, parece legitimada pela democracia. 


12 de outubro de 2020

Estranhos tempos


Sabemos que as coisas não têm andado bem no que toca ao nosso SNS - Sistema Nacional de Saúde. Nunca andaram e temos essa percepção na justa medida da importância que lhe damos.

Sabemos que esta situação de pandemia associada à Covid-19 veio complicar e trocar as voltas ao sistema. De um inicial "estamos preparados", com o aumento dos casos de infecção, cedo se percebeu que a suposta "preparação" assentou em canalizar os meios para essa nova narrativa, descurando-se quase por completo todas as restantes ocorrências de saúde. Os números têm sido divulgados com o adiamento, cancelamento de milhares de actos médicos, desde consultas e exames a tratamentos e cirurgias. Ninguém sabe ao certo, ou não quer saber ou que se saiba, quantos mortos decorreram deste desleixo ou mudança de paradigma do SNS. Sabe-se, isso sim, que para além dos "importantes" casos de mortes associados à Covid-19, há milhares de mortes acima da média de idênticos períodos de anos transactos. Mas quanto a isso assobia-se, como se o cancelamento de todos os actos médicos não possam corresponder a aumento efectivo de falecimentos. 

Esta percepção geral é de quem está por fora e vai analisando as coisas com base nas notícias e números e mesmo de testemunhos de terceiros. Mas na primeira pessoa a coisa tem um impacto ainda mais avassalador. Ainda ontem, decorrente de um caso de urgência médica num hospital da nossa zona, percebi que no geral as pessoas são tratadas quase abaixo de cão (e estes são cada vez mais bem tratados), não por desrespeito dos funcionários, mas pelas limitações e protocolos impostos pela tal narrativa do medo e do SNS a funcionar quase exclusivamente para a pandemia.

Mesmo num dia de aparente baixa afluência, um Domingo, percebia-se que as pessoas, familiares e acompanhantes são cartas fora do baralho, enxotadas para o exterior, para o sol, frio vento ou chuva, sem cadeiras, sem condições. Fico na certeza de que são melhor tratados e atendidos aqueles estrangeiros que de forma ilegal e clandestina arribam às praias do Algarve. 

Quanto a informações, só de duas em duas horas a quem tem que esperar numa fila no exterior e sujeitos às agruras do tempo. Lá dentro, para os doentes, a atenção é reduzida quanto baste. São diagnosticados sem grandes atenções, exames, quando muito uma rápida análise ao sangue e despachados se possível pelo próprio pé.

Mas os serviços, tal como tudo quanto é repartição pública ou ligada à administração do estado e autarquias, estão-se a dar bem com este atendimento quanto baste, por marcação, sem alaridos, sem pressões, sem multidões. Os utentes, os contribuintes, como carneiros, têm estado açaimados neste sistema a conta gotas e não surpreenderá que daqui a algum tempo se percam as estribeiras e as coisas possam ficar feias com pequenas revoluções e desordem popular. 

Mas por ora é assim, mesmo que o "papagaio-mor" da nação vá agoirando que porventura "será preciso repensar o Natal". Se calhar temos é que repensar em mudar quem por ora nos vai dando ordens. Vamos, pois, estando todos a marcar passo e expostos a serviços mínimos mesmo no que de mais essencial temos, o direito à assistência médica e hospitalar. Podemos morrer à vontade. Conveniente será que não por Covid porque isso gera alarme.

Já agora, pensei que quem dá entrada nas urgências com sintomas que podem estar associados à Covid-19 tivesse que efectuar o teste, mas, afinal, não. A pressa, essa velha inimiga da perfeição, é demasiada. Siga! Próximo!

Estranhos estes tempos em que revoluções precisam-se.


[foto: fonte]

29 de setembro de 2020

Pastores e ovelhas

As mudanças de párocos têm sempre um lado algo intrigante. Da Sé, pretende-se que não se dê a perceber que é mudança a pedido, vinda dos sacerdotes, vinda dos paroquianos ou facções destes. E todas as paróquias devem ter os seus "queixinhas", os guardiões da moralidade e boas práticas. Por outro lado, obviamente, é fácil congeminar que algumas vezes o Bispo procura juntar o útil ao agradável, buscando resolver e equilibrar a distribuição dos serviços, aliviando quem já tem muitos anos pela frente, mas, também, certamente para pôr as "peças" no sítio certo do tabuleiro e sanar ou mitigar conflitos latentes entre "pastor" e "ovelhas". E quer se queira quer não, isso adivinhava-se ou pressentia-se nalgumas das paróquias agora incluídas nas recentes mudanças de paroquialidade na nossa Vigararia da Feira.

Certamente que o Bispo e a Sé, conhecem ou têm quem os informem das reais capacidades dos diferentes sacerdotes diocesanos. Como homens que são, naturalmente todos com diferentes atributos e  "talentos". Uns mais pela palavra, outros mais pela acção; uns mais pelo diálogo e inclusão permanente com as "forças vivas", outros por alguns apontamentos de prepotência e de tiques já em desuso, ou pelo menos já não tolerados, do "quero, posso e mando", ou então muito assoberbados com o seu "rei na barriga".

Nos tempos que correm, para além da recorrente falta de vocações e delas de sacerdotes, mesmo que contrabalançados pelo diaconato, certo é que os párocos, não generalizando, obviamente, há muito que o deixaram de ser por pura vocação, humildade e despreendimento, mesmo que sem os extremos dos "votos de pobreza". São, por conseguinte, bem assalariados, não dispensando nem se privando de todo os luxos e confortos modernos. Nem sempre são exemplo a seguir e vão mais pela recomendação do "olha para o que eu digo e não para o que faço". Só que os fiéis actuais, no que perderam de dedicação e prática religiosas, ganharam no sentido crítico e de escrutínio e já "não vão à missa toda" de um qualquer pároco com o "rei na barriga". Pelo contrário, sabem reconhecer e respeitar  os sacerdotes com vocação religiosa e espiritual, pois claro, mas também como um dos seus, humilde, franco, receptivo e serviçal, capaz de ouvir e fazer-se ouvir, acolher e não enxotar. Em resumo, em plena comunhão com a comunidade que serve e dirige.

Neste contexto, importa que os sacerdotes e párocos sejam isso mesmo, representantes da Igreja e pastores, e que para além das funções ordinárias do calendário religioso e serviços decorrentes e inerentes, saibam compreender a cultura e identidade específicas de cada paróquia e sua comunidade, suas práticas e tradições e dentro do possível respeitá-las e até aprofundá-las. Fazer o contrário, pondo e dispondo, confrontando, alterando e inventando, não vão lá, e para além de dividirem e tresmalhar as ovelhas, correm o risco de despoletar conflitos, desrespeitos e desconsiderações, até que o Bispo, cansado dos reparos e queixas,  volte a dar-lhes guia de marcha, mesmo que levando a mesma forma de estar e actuar a outras terras, porque podem ser fracos pastores mas a necessidade obriga a fechar os olhos ou a encolher os ombros por algum tempo. De resto, há gente que nunca aprende  e nem se emenda. Ora quem nasce torto, diz o povo, tarde ou nunca endireita.

Parte do que atrás ficou dito é num sentido geral. Quanto às recentes alterações, mesmo não sendo um expert e até arredado das missas desde o confinamento, parece-me que foram equilibradas e necessárias quanto baste.  Mas o tempo o dirá.

A cultura do "mete-me nojo"


Há dias, o inefável e bom português André Vilas Boas, que foi treinador de sucesso no F.C. do Porto, disse para quem quis ouvir, que "lidava mal com o sucesso do Benfica", o que até é normal para um adepto rival, mas pior e mais sórdido do que isso, disse que "se assistir a um jogo do Benfica na final de uma prova europeia, quero que perca". Ou seja, demonstrou o seu bom patriotismo e portugalidade. Siga.

Por estes dias, diz quem viu, que o antigo jogador e capitão do mesmo F.C. do Porto, Rodolfo Reis, disse num programa televisivo onde é paineleiro, que "tudo no Benfica lhe metia nojo". Isto é, não só o seu presidente Luis Filipe Vieira, suspeito de envolvimento em alguns crimes fiscais, como também, directores, técnicos, sócios e adeptos, mesmos aqueles de tenra idade. Até mesmo eu, simples adepto, daqueles que até quase nunca vê os jogos, meto nojo ao Rodolfo, como lhe metem nojo todos aqueles demais adeptos que nem o conhecem, dos de mais tenra idade aos mais velhos. Metemos-lhe nojo só por sermos adeptos de um outro clube que não o seu.

É triste, é lamentável, é mesmo doentio. E seria igualmente se fosse alguém do Benfica a ter esta postura pública para com qualquer outro clube. 

Mas, mesmo que não generalizando, há muitos que se orgulham desta "cultura à Porto", não aquela que faz do clube um grande clube e vencedor, que é, mas da cultura do desrespeito, da ofensa e do anti-desportivismo. Ora se isso é sinal de grandeza, estamos conversados. Por aí, será bom que todos os demais clubes, a começar pelo Benfica, sejam pequeninos.

Há coisas que se dizem, pedras que se atiram, que depois já não são esquecidas só porque a conselho de um  advogado manhoso se pretenda "virar o bico ao prego", ou depois de uma entrada de leão, uma saída de sendeiro.

Há pessoas assim, vulgares, ordinárias mesmo que tenham a realeza no nome. Não pode valer tudo, tanto mais quando se tem memória tão curta.

28 de setembro de 2020

Números assustadores

Na narrativa oficial de que o SNS - Serviço Nacional de Saúde tem estado a funcionar,  os números de actos médicos, exames, diagnósticos e cirurgias, desmarcados, adiados e cancelos desde Março, são avassaladores, "assustadores". Mas do Governo ainda não ouvimos assumir uma relação directa desta situação com o aumento médio de milhares de mortes que se tem vindo a registar nos últimos meses, comparativamente com períodos homólogos de anos transactos, para além da quase exclusiva atenção à Covid-19. Pelo contrário, é o quase silêncio e a desculpa das "ondas de calor".

Num certo sentido, radical, se quisermos, o Governo e as directrizes que tem tido relativamente às entidades e organismos de Saúde, que tem levado a descurar tudo o resto para além da pandemia, é directamente responsável por largas centenas de mortes que poderiam ser adiadas ou poupadas numa situação de normalidade em que o combate à pandemia não fosse levado a extremos de quase exclusividade. 

“São números assustadores e muito relevantes, que nos devem preocupar e merecem uma análise crítica”, referiu Joana Sousa, durante uma apresentação do estudo na Ordem dos Médicos, em Lisboa, na sessão de lançamento do Movimento Saúde em Dia - Não Mascare a Sua Saúde.

Alguns dos números:

Menos 10 milhões de consultas presenciais nos cuidados de saúde primários.

Menos dois milhões de consultas presenciais nos hospitais.

Menos de 214 mil cirurgias nos hospitais do SNS.

Menos 7 milhões de contactos presenciais nos cuidados de saúde primários, quer médicos quer de enfermagem.

Menos dois milhões de contactos presenciais nos hospitais, no conjunto de consultas, cirurgias, urgências e internamentos.

Menos 17 milhões de atos realizados em meios complementares de diagnóstico e terapêutica (como exames, análises clínicas ou tratamentos na área da medicina física e reabilitação).

- Menos 26 mil mulheres com mamografia realizada; menos 30 rastreios ao cancro do colo do útero; menos 26 mil no rastreio do cancro do cólon e do reto.

Apesar desta realidade, que até pode ser ainda mais grave, vamos todos continuar a fazer de conta que neste país o que contam são as 3, 4, 6 ou 9 mortes diárias por Covid, anunciadas directamente. O resto é paisagem e de um modo geral a imprensa, lubrificada, não quer nem tem mexido muito na coisa e alinha por quem lhe dá pão. 

É mau, muito mau, mas é disto que a casa vai gastando e gostando.

25 de setembro de 2020

Profecias...

"Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suíça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa

Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie, que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República.""

Este pensamento foi proferido a propósito do 25 de Abril de 1974 por Marcello Caetano, à época, o Presidente do Conselho, que havia sucedido a António de Oliveira Salazar.

Pode-se pensar que Marcello Caetano, mercê da ditadura que representava, teve pouca ou nenhuma moral para tecer essa profecia. E isso é verdade, mesmo que apesar das suas ideias, que deram azo à designada  "primavera marcelista", não tivessem seguimento no sentido da transição para a democracia. Porventura o regime já não dependia do chefe do Governo, mas da estrutura que consubstanciava o regime em si. Mas isso é matéria de historiadores.

Certo é que pela época em que a proferiu (relembre-se que faleceu em 26 de Outubro de 1980), ainda havia muito caminho a percorrer até aos dias de hoje para que o país e os governantes que conseguiram emergir das tropelias do PREC, rumando a uma democracia em detrimento de uma nova ditadura, já não de direita mas de esquerda, pudessem provar precisamente o contrário da profecia do Caetano, seguindo por caminhos e políticas que nos conduzissem a um país livre, independente, transparente, sem corrupção, sem clientelismos, inovador e sustentável, com políticas que garantissem a coesão total do país, de sul a norte, do litoral ao interior, capaz de suster a emigração, mantendo um país povoado a produzir e orgulhoso das suas raízes mas também do presente e futuro.

Em resumo, exceptuando das contas o período em que o país andou a brincar aos governos provisórios e os militares a brincar "às casinhas"  a decidirem entre si e alguns partidos se haviam de seguir pela direita se pela esquerda, foram pelo menos 40 anos, até auxiliados pela UE, em que andamos a dar tiros nos pés. Agora, por mais que isso nos azie e doa, somos obrigados a, senão dizê-lo, pelo menos admiti-lo, que o "caixa-de-óculos" tinha razão. Relevando o óbvio exagero de que o Portugal de Marcello estava a caminho de se transformar numa Suiça, bem como da necessária dependência dos países ultramarinos, inviável na sua manutenção enquanto colónias, e de resto o principal cancro da ditadura ao persistir numa guerra devastadora, consumidora de vidas e de recuros, há de facto ali muitas previsões concretizadas. Desde logo, à cabeça, o estarmos reduzidos à indigência, ou seja à caridade de outras nações. A cada vez mais galopante dívida pública é disso prova. Muitos dos nossos governantes, políticos e administradores ainda continuam a não servir para criados de quarto, mas estão alçados no poder e nas estruturas politicas que lhes dão acesso à mina. Ora esses são bem mais que as quatro dezenas da gruta do Ali Bábá. Não, foram, pois, apenas 40 os ladrões deste país, mas mais, muitos mais, mas também 40 anos roubados à esperança que nos dizem que trouxe o 25 de Abril de 1974. 

Serão precisos outros 40 anos para reverter a profecia? Ou daqui a outros 40 anos, decorrido quase um século, ainda andaremos a desculpar a situação com o Salazar e o Caetano? Ou será mais do mesmo, a dobrar, vivendo aparentemente à grande e à francesa, subtraindo a quem trabalha e gera riqueza e distribuindo-a a uma classe de malandros e subsídio-dependentes, dando cama, mesa e dinheiro a quem nos assalta, envergonhando-nos da nossa cultura e história para não ferir susceptibilidades de quem devia respeitar e adaptar-se à nossa casa? Somos, pois, um país que vive em permanente estado de cócoras.

22 de setembro de 2020

Academia do oportunismo


Por vezes temos estas manias das grandezas, umas epifanias que nos deslumbram num acesso entusiasmado próprio de quem acabou de descobrir a pólvora ou inventado a roda. 

Talvez neste espírito, o grande clube português Sporting Clube de Portugal, de que não sou adepto mas nutro simpatia, anunciou que em homenagem ao Cristiano Ronaldo vai mudar o nome da sua Academia de formação de futebol para Academia Cristiano Ronaldo.

O caso já está a dar que falar, pois o Nacional da Madeira, clube onde também teve formação o jogador madeirense, reclama direitos sobre a marca já que a sua academia designa-se desde 2007 de "Cristiano Ronaldo Campus Futebol".

Confesso que ainda não li nem ouvi eventuais reacções do próprio Cristiano Ronaldo, e se no caso do clube de Alvalade foi tido e achado, mas certamente que terá algo a dizer.

Em todo o caso, no que se refere ao Sporting, e mesmo respeitando a posição do clube e as opiniões a favor, parece-me de todo um despropósito e até uma enorme desconsideração e desrespeito pela sua história. Cristiano Ronaldo e a sua fama dispensam apresentações e considerandos, mas, porra, jogou apenas uma época na equipa principal do Sporting. Estreou-se em 14 de Agosto de 2002, com 17 anos, e em 13 de Agosto de 2003 já estava de malas aviadas para o Manchester United - Inglaterra.

Assim, em bom rigor, Cristiano Ronaldo tem mais história em qualquer um dos clubes que passou (Manchester, Real Madrid e Juventus) do que no clube de Alvalade, onde aqui apenas teve uma curta e rápida montra. 

Fico algo surpreendido por perceber que enormes jogadores e figuras lendárias do Sporting, nos diferentes períodos da sua história, tenham sido ignorados a troco de um oportunismo bacoco, um endeusamento despropositado. Ninguém nega nem esquece a ligação de Ronaldo ao Sporting, e vice-versa, mas não era preciso tanto. As coisas são bonitas quando proporcionais e quando as pessoas ou instituições se respeitam a si próprios.

21 de setembro de 2020

A egiptóloga candidata a presidenta


Considero que Cavaco Silva foi um fraco presidente da República, fraquinho, cinzento e amorfo quanto baste. De resto de um presidente da nossa República, nunca se esperam grandes feitos, porque limitados a pouco mais que corta-fitas e câmaras de eco dos quadrantes que os elegem. Abraços, beijinhos e condecorações a quem vença uma corrida de mota ou corrida de saco, são o lado popularucho que se pode acrescentar, como tem feito o cidadão/presidente Marcelo que tem tido a capacidade de manter de chama acesa o namoro com o primeiro ministro, a ponto deste não ir de amores com a camarada Ana Gomes. Nem mesmo uns aguaceiros os separam porque há um guarda-chuva pronto a partilhar.

Apesar disso, mesmo a contra gosto dos demais, porventura a figura mais famosa de Boliqueime, teve a "ousadia" de se ver eleito três vezes primeiro ministro e duas presidente da República, obtendo, reconheça-se, votações ímpares na história da nossa democracia.

Ora, não comparando perfis e posições ideológicas entre alguém, como a inestimável Ana Gomes, que se lhe refere publicamente, mesmo que de forma indirecta, de "múmia paralítica", e um qualquer extremista ou burgesso do Chega, a diferença parece-me pouca para não dizer, nenhuma. Há limites para a mal criação e ordinarice e Ana Gomes,  parece não ter percebido nem encaixou que o Cavaco, mesmo que bem ou mal, por mais que a azedasse e lhe revirasse a bílis, governou legitimado pelo voto maioritário de milhões de portugueses. Pelo menos por esses, os milhões de portugueses, merecia algum decoro no trato, tanto mais que se candidata, creio eu, a presidente de todos eles.

16 de setembro de 2020

Percepção de que isto é uma brincadeira

 


É a todos níveis incompreensível que, com as empresas a trabalhar em pleno, as escolas a reabrirem, os transportes, comércio e serviços a funcionar, mesmo que com os ajustamentos, medidas e regras a cumprir, as entidades como repartições públicas de finanças, conservatórias, tribunais, câmaras municipais, notários, etc, continuem a funcionar a conta gotas, com restrições de todo injustificadas, limitando e restringindo as actividades que deles carecem.

O presidente da república, referindo-se à eventual realização das cerimónias do 13 de Outubro, em Fátima, falou de um tal "sentido de percepção" dos portugueses quanto à situação. 

Ora a percepção que podemos ter relativamente à forma como os referidos serviços estão a ser limitados a quem deles necessita, é de uma total incompreensão e injustificação e até mesmo segregação.

No fundo é com este tipo de contradições e diferenciação de tratamentos que fazem de tudo isto uma espécie de brincadeira, numa multiplicidade de diferentes realidades quando, afinal, a pandemia é a mesma.

Assim a nossa percepção é de que os nossos governantes continuam a fazer o que melhor sabem, o brincar com o povo.

13 de setembro de 2020

Sementes de azia e rancor


Não! Parece-me, que o que está propriamente em causa não é o Luís Filipe Vieira, o António Costa, o Fernando Medina, o Fernando Seara e muitos outros, figuras mais ou menos públicas, por fazerem parte da lista de honra de uma candidatura à presidência de um clube. O que está em causa não são as suspeitas e acusações à vida privada ou empresarial de senhor Vieira, que, até saber, de nada e por nada foi condenado. Parece que o que está em causa, para a generalidade dos inquisidores, é mesmo o Benfica, o rancor e azia ao clube, os mesmos que levam figuras como o portuguesíssimo Vilas Boas a dizer que não quer o Benfica, clube português, a vencer na Europa, sob pena de ficar furioso, doente e mal disposto. Bem sei que disse que preferia ser sincero do que hipócrita. Porventura um racista dirá o mesmo e não é isso que o justificará.

Em suma, pode-se questionar ou mesmo regulamentar se figuras com cargos públicos devem ou não exercer ou abdicar do tão simples direito à sua liberdade de expressão e de vida social e particular, a ponto de fazerem parte ou não de uma comissão de honra de uma candidatura de um qualquer clube, nacional ou de bairro, de que são simpatizantes ou sócios, mas, à falta dessa clara definição, o que por ora se vai exacerbando é mesmo o rancor e até certos laivos de ódio a um clube. O mesmo ódio e rancor que levam à beatificação de alguém que nos assalta e divulga a nossa privacidade num aparente vale tudo desde que depois da porta arrombada nos descubram alguns esqueletos e vídeos pornográficos no armário, tão somente porque numa das casas assaltadas está um clube rival.

E isso obviamente não é bom e dá pena, para mais numa altura em que se organizam manifestações e derrubam estátuas por outras coisas consideradas de desrespeito e ofensa às liberdades e garantias de cada um e de cada uma.

Pessoalmente, benfiquista que bateu palmas e torceu por um clube rival nas competições europeias, desde a final de Viena em 1987, fico arreliado com esta santa inquisição, mas percebo que vai sendo disto que a casa gasta. 

Bem vistas as coisas, as misteriosas sementes que por aí dizem que nos chegam vindas da China à caixa de correio, porventura não serão mais que as sementes de tais ódios e rancores clubísticos. E parece que há quem as lance em boa terra a ponto de já poderem estar a dar fruto.

11 de setembro de 2020

Ah Leão...


O homem ainda não aqueceu o lugar do Centeno, mas dizer na mesma entrevista que ao nível do desemprego o pior está para vir e simultaneamente que o salário mínimo nacional deve ter um aumento com "significado", é uma coisa extraordinária senão paradoxal. 

Não me quer parecer que com as empresas a encerrarem, a falirem ou a dispensarem funcionários, porque "doentes" e daí o "pior que está para vir", estejam em contexto de poderem aumentar com "significado" o salário mínimo. É como esperar que uma vaca magra encha o canado de leite para farta quinzena.

Parece de todo um paradoxo, este o do ministro João Leão, mas vamos a ver no que dá. Afinal leão que se preze sabe apanhar gazelas e outros inocentes animais.

10 de setembro de 2020

Coerência

A propósito da questão da discutida reposição das freguesias, libertando-as da reles reforma administrativa parida pelo Relvas, diz o PCP - Partido Comunista Português, que as freguesias  “...são o primeiro patamar do poder local democrático” ... essencial para o combate à desertificação e às assimetrias regionais.Louve-se esta coerência e análise do PCP que pretende propor na Assembleia da República a reposição das freguesias extintas sendo essa a vontade das suas populações. 

Nesta questão da supressão das freguesias, PSD-CDS fizeram merda da grossa e o PS vai cagando baixinho sem sabermos se está obstipado ou de caganeira.

9 de setembro de 2020

A ditadura dos números

Dizem as fontes da DGS que em Agosto deste ano morreram 8866 pessoas em Portugal, um número que representa um acréscimo de 506 em relação à média deste mês nos cinco anos anteriores. 

É uma tendência que vem de trás e o mês de Agosto não foi excepção. Portugal está a registar um excesso de mortalidade face à média dos últimos anos, mas este não é explicado pela doença Covid-19. 

De resto em Agosto terão morrido 87 pessoas directamente relacionadas com a pandemia. 

Ou seja, o Governo e a Direcção Geral da Saúde continuam apenas a dar importância às mortes por Covid enquanto que continua sem admitir que estes acréscimos resultam na sua larga maioria pela rotura do SNS e pela redução dos cuidados de saúde primários, suspensões e adiamentos de consultas, exames e cirurgias, no que é uma política totalmente errada. Todas as doenças contam mas esta "xenofobia" estatal diz-nos que não. 

Por este andar vamos chegar a Novembro ou Dezembro e o Governo, como já será ridículo justificar a coisa com as vagas de calor, vai virar-se para as vagas de frio. Ou até talvez culpará o Pai Natal.

Assim vamos indo num faz de conta, em que à comunicação social amestrada importa dar destaque apenas aos "casos". O resto não conta. Pode-se morrer, seja do que for, mas não convém que seja de Covid.

8 de setembro de 2020

Toques de Midas, petinga, peixinhos da horta e outras chulices

 

Circula por aí, nas redes sociais, pois claro, a imagem (acima) de um talão de uma despesa no famoso café Magestic, na cidade do Porto, com um absurdo valor aplicado a dois cafés, um descafeinado e  duas garrafas de 1/4 de água sem gás.

Pela data, parcial, deduz-se que a coisa não é de agora o que é de supor que de lá para cá a coisa ou manteve-se ou mesmo aumentou. É claro que, supondo que a imagem não está manipulada, é de facto um valor absurdo face aos preços tidos como correntes, mas nestas coisas quem quer experienciar coisinhas fofas e jetsetianas tem que pagar e não bufar.

Ainda há dias, por sugestão de alguém e pela experiência de "conceito", decidi um jantar a dois num já popular restaurante moderno, dito winebar, localizado numa aldeia recentemente requalificada e por isso num contexto ou cenário com o bucolismo apetecíveis, tanto mais que o fim de tarde ia quente, adequada a comer na esplanada. 

O tal "conceito" é o de comer ou degustar tapas, em rigor petiscos e entradas. Mas porque a coisa é "fina", e embalada como tal, comer petinga, pexinhos da horta e ovos estrelados, só porque com uns pós de perlim-pim-pim, e com um toque gourmet, coisa de "chefs", a coisa é cobrada ao preço do melhor caviar e filé mignon.

Assim, para muitos restaurantes, como cafés e afins, vocacionados para uma certa classe endinheirada, nada como o dom do toque de midas e facilmente da merda se faz ouro, como quem diz, da petinga e peixinhos da horta se fazem uma "experiência interessante num conceito moderno". 

Em suma, cada vez mais vale o antes parecer que ser. E nós gostamos disso, gostamos de ser fodidos, desde que seja algo de magestic.

Paga Quim!