16/12/2023
Trail da Aletria - 1.º e último
04/12/2023
Livros, tempo e vontade
Estou em falha para comigo e para com os meus leitores, na publicação do livro de apontamentos monográficos sobre a freguesia de Guisande, que havia perspectivado para a primeira metade deste ano que está quase a terminar. Razões? Várias, mas sobretudo por alguma preguiça, porque no essencial tenho quase todo o conteudo que quero incluir e mesmo em quantidade que daria para um segundo volume. O principal trabalho prende-se com a paginação e correcção ortográfica já que não tenho dinheiro que me permita dispensar esse serviço e pagá-lo à editora.
Por outro lado, e sabendo que até é possível uma candidatura ao programa de apoio cultural da Câmara Municipal, o mesmo ainda está bastante burocratizado e por isso desmotivante. Creio e parece-me, que neste tipo de situação, publicação de livros, os mesmos poderiam ser apoiados já depois de publicados, mesmo que mediante uma análise qualificada ao seu eventual interesse cultural e importância. Mas isto é apenas uma opinião e de resto a minha vontade de publicar não dependerá de qualquer apoio monetário, prévio ou à posteriori. De resto assim foi com os meus dois livros já publicados em que não recebi um cêntimo que fosse da Câmara Municipal. Além do mais, foi manifestada a vontade de apoio o meu livro infantil com a aquisição de 50 exemplares para a rede pública da Biblioteca Municipal mas tal nunca se concretizou. Nem o espero, diga-se.
Posto isto, serve este apontamento para dizer, até porque o têm perguntado, que a intenção mantém-se mas para já sem data definida. Eventualmente para o próximo ano. A ver vamos se reúno vontade e tempo de finalizar a parte editorial, paginação, correcção, estudo de capa, etc porque no que toca a investimento e gastos terá que ser, naturalmente, à minha custa. Em todo o caso, ao dar mais algum tempo à coisa até permite-me amadurecer e melhorar um ou outro assunto a incluir no livro e há sempre coisas novas e interessantes a surgirem e que será importante incluir.
Para além deste livro de apontamentos monográficos, há ainda a vontade de publicar um segundo livro de poemas, pequenos contos e outros textos, que até poderá acontecer ser publicado antes. A ver vamos!
18/11/2023
04/11/2023
Treinito matinal 04112023 - Rio Uíma
01/11/2023
Sessenta mais um
O que pode um homem escrever no dia do seu próprio aniversário? Tantas e tantas coisas, mas já de tanta experiência a fazer anos, já pouco importa o que escrever. Há um ano, a dobrar o cabo dos sessentas, fiquei-me por um poema, que a seguir relembro. Por conseguinte, é mais uma onda a rebentar na praia e cada vez mais, mansa e a espumar-se. Talvez já não valha a pena ter ondas à moda de Peniche, enormes, alterosas, como que ainda com toda a praia por sua conta onde rebentar. A esta altura da caminhada, uma onda tépida, macia, a massajar os pés, é quanto basta.
Seja como for, escreva-se o que se escrever, com mais ou menos filosofias, mesmo na forma de um poema, no fim de contas tudo se resume a elas, às contas. Mas, felizmente, ainda bem, a quantos anos chegaremos é uma dúvida que de algum modo nos aguenta. Os muitos que ao longo da história não resistiram à dúvida, determinaram eles o desfecho. Mas, porra, ainda não sou um Camilo, um Antero ou uma Florbela!
Haja caminho para se caminhar e vida para se viver!
Eis-me aqui, sereno, nos sessenta,
Se é que nisso haja importância;
Não mais que onda que arrebenta
Na dura costa da irrelevância.
Deixe-se, pois, que o mar do tempo
Se debata até que a falésia caia;
Virá depois, manso, em contratempo,
A espumar-se, sereno, na praia
07/10/2023
Centenário - Ti Neca do Viso
Manuel Joaquim Gomes de Almeida, ou familiarmente o Ti Neca do Viso, completa 100 anos de vida neste dia 7 de Outubro de 2023. Detém desde há vários anos, o estatuto de ser o homem mais velho da nossa freguesia de Guisande. É meu tio, irmão do meu pai.
Nasceu, pois, no mesmo dia e mês do ano de 1923 em Cimo de Vila, naquele casarão mesmo por detrás da capela do Viso.
É filho de Joaquim Gomes de Almeida, nascido em 27 de Abril de 1885 e falecido em 23 de Dezembro de 1965) e de Maria da Luz , nascida em 18 de Novembro de 1890 e falecida em 1967.
Pelo lado de seu pai é neto de Raimundo Gomes de Almeida, nascido a 19 de Janeiro de 1849 e falecido em 10 de Dezembro de 1905, e de Delfina Gomes de Oliveira (esta de Casal do Monte - Romariz), nascida em 19 de Julho de 1859 e falecida em 15 de Fevereiro de 1934. Pelo lado de sua mãe é neto de José Joaquim Gomes de Almeida e de Maria da Conceição de Jesus.
Pelo lado de sua mãe é neto de Domingos José Gomes de Almeida (falecido em 1894) e de Joaquina Rosa de Oliveira (falecida em 1884). Pelo lado de sua mãe é bisneto de António Joaquim Gomes de Almeida e Joaquina Antónia de Jesus.
Pelo lado da sua avó paterna, é bisneto de António José de Oliveira e Maria Joana Rodrigues e de Manuel José Rodrigues e de Maria Rosa.
Pelo lado do seu pai é trineto de Domingos José Francisco de Almeida e de Maria Felizarda de São José Gomes Loureiro. Ainda pelo lado se seu pai e tetraneto de Domingos Francisco de Almeida Vasconcelos e de Clara Angélica Rosa, (estes de Mafamude-Vila Nova de Gaia) e pentaneto de Manuel Francisco da Trindade e de Maria de Almeida (estes da cidade do Porto).
Pela ramificação familiar acima descrita, percebe-se que tanto pelo lado do pai como da mãe tinha antepassados comuns. Por conseguinte, os seus pais eram primos em grau afastado. Ou seja, os bisavôs de meu Tio Neca, tanto pelo lado do pai como da mãe eram irmãos (Domingos José Gomes de Almeida, nascido em 22 de Março de 1813, e António Joaquim Gomes de Almeida, nascido em 1820).
O meu Tio Neca teve vários irmãos, sendo ainda viva a Laurinda, a mais nova da prole, também a caminho dos 100 anos. Já partiram a Delfina, o José, o António (meu pai), o Joaquim José e a Maria Celeste.
Houve ainda uma primeira Laurinda que faleceu pouco depois do nascimento.
Foi seu padrinho de baptismo o Sr. Manuel Moreira da Costa, da casa Moreira do lugar de Trás-da-Igreja (Igreja), de quem dizia que uma vez recebeu de prenda uma pata. Foi sua madrinha Josefina Gomes de Oliveira, do lugar do Viso.
Os pais do meu tio Neca (meus avôs paternos), Joaquim Gomes de Almeida e Maria da Luz.
18/09/2023
Notas genealógicas - Porquê?
A propósito das notas de genealogia que tenho por aqui publicado sobre algumas famílias em Guisande e suas interligações, incluindo dos vários ramos da minha família paterna e materna, alguém me perguntou o porquê e qual o interesse.
Pois bem, antes de tudo, um mero interesse documental e para memória futura, espero. Também procurar perceber as ramificações das famílias e como elas, ao fim e ao cabo, são a teia com que se tece a nossa comunidade. Finalmente, e não menos importante, interessa-me conhecer as pessoas da minha família mas também da minha comunidade. Um pessoa para se conhecer a si própria tem que conhecer as suas origens.
Bem sei que na actualidade, a maior parte dos que andamos por cá, e sobretudo os mais novos, para além dos pais, conhecem ou conheceram os seus avôs, paternos e maternos, mas já dificilmente os seus bisavôs. Pessolamente dos meus bisavôs, pais dos meus avôs, apenas conheci a bisavô materna Margarida, mãe do meu avô materno, Américo José da Fonseca.
Por conseguinte, se a coisa já é assim difícil ao nível do conhecimento dos nossos avôs e ainda mais difícil quanto aos bisavôs, naturalmente que esse desconhecimento, mesmo que meramente documental se torna mais denso quanto mais se recua no tempo, porque os documentos onde é possível pesquisar e procurar dados nos diferentes arquivos, nos velhos registos e assentos de nascimentos, casamentos e óbitos, são escassos, de difícil acesso e com baixa qualidade de leitura porque em suportes deteriorados pelo tempo e incúria no seu manuseamento e conservação e ainda por caligrafias e ortografias quase sempre difíceis de decifrar.
Em resumo, as notas que tenho publicado e espero continuar por aqui a partilhar, não têm outras pretensões para além de serem meros apontamentos e início de pontas de intrincados novelos que depois outros, ou familiares interessados, eventualmente poderão deslindar. Mas mesmo que procurando ir até ao nível dos nossos bisavôs, ou trisavôs, eventualmente tetravós, recuar pelo séc. XIX ou até a meados do séc. XVIII, parece-me que já não é mau e já dá pano para muitas mangas Mas claro que isso obriga a tempo e paciência, coisa que ainda não tenho, pelo que, para já, estes apontamentos que vou produzindo sem nenhuma ordem especial, são meramente curiosidades superficiais.
02/09/2023
Guelras sem sangue
Algumas das notícias deste Sábado, JN e RTP, dizem que as dádivas de sangue em Portugal continuam a diminuir apesar dos apelos. Em dez anos, entre 2012 e 2022, foram quase menos cinquenta mil os dadores. Por sua vez, os dadores são cada vez menos e mais velhos.
Tenho para mim que estas notícias têm o mesmo efeito de surpresa de alguém que por um elaborado estudo científico e matemático nos vier dizer que a soma de 2 +2 é 4.
Esta constatação adivinhava-se há vários anos, principalmente quando os governantes desrespeitaram no seu todo os dadores benévolos, ao cortar nos já poucos incentivos e privilégios. Mais tarde vieram tentar emendar o erro mas mesmo assim repondo apenas uns pózinhos, mas já sem resultado.
Veja-se o que aconteceu na nossa freguesia, em que de uma situação de várias dezenas de participantes, que, duas vezes ao ano, faziam fila para doar sangue, agora aparecem a conta-gotas, e na sua larga maioria adultos e, como eu, quase rés-vés campo de ourique no limite de idade, mesmo que já, desde Fevereiro de 1991, com quase meia centena de dádivas válidas. Há quase um ano que, esclarecido o histórico, me prometeram a merecida medalha prateada correspondente às dádivas, mas a coisa ainda não chegou à caixa-de-correio. Mesmo para o reconhecimento do número de dádivas efectivas foi uma luta travada e o bater a muitas portas reclamando da injustiça e da falta de rigor no registo.
Perante estas desconsiderações, o que esperam os senhores que mandam nestas coisas?
Além do mais, os mais jovens, e também analisando por Guisande, sujeitam-se às picadelas de tatuagens em tudo quanto é centímetro de pele, mas mostram relutância por serem picados para doar sangue. Por outro lado, das 9 às 13 de sábado, na sua maioria ainda estão a dormir de ressaca.
É o que é e, mesmo sem generalizar, e passe algum sarcasmo, a coisa não anda longe desta realidade.
27/08/2023
Avançando
Sim, claro, ainda me lembro disso,
Mesmo que trinta e cinco passados;
Eu e tu, ali juntinhos, enlaçados,
Nesse sim ao amor, ao compromisso.
É prosseguir, porque só avançando,
Rumo ao destino, mesmo que incerto,
A cada passo ficaremos mais perto
E o caminho só se faz caminhando.
A.A. /P.G. -27-08-1988/27-08-2023
02/08/2023
Colheita
Na borda daquele caminho, além,
Num terrão que o sol beija todas as manhãs,
Há uma macieira, não sei se plantada por mão ou vento.
Mas, meu Deus, como sabe tão bem,
Quando no fim do Verão colho nela as maçãs,
Em ansiada canseira em dia e hora marcadas p´lo tempo.
Há frutos assim, que se desejam colher,
Como a chegada cansada ao fim de um trilho,
Ou se no ventre lançada a semente na mulher,
Que germine pura e, no tempo, se colha um filho.
A.Almeida - 25072023
Um mundo ao contrário
Tenho um mundo todo meu, imaginário
Por onde vagueio absorto, dormente;
Tudo nele é estranho, ao contrário:
Nasce-se da terra, morre-se no ventre.
É de nuvens macias a casa onde moro,
Os regatos e os rios nascem no mar,
As fontes são olhos em eterno choro,
As flores têm lábios e sabem beijar.
Mas nesse mundo estranho, imperfeito,
Vives a meu lado nessa igual desarmonia,
A envolver-me como amante em seu leito
À luz do sol, porque o luar só nasce de dia.
Tenho um mundo só meu, imaginário,
Por onde corro livre, sem destino;
Sou actor de uma peça sem cenário,
Onde nasci velho e morrerei menino.
A.Almeida - 01082023
01/08/2023
Uma imagem que precisa de mil palavras
É da gíria dizer-se que uma imagem vale por mil palavras, mas nem sempre a imagem só por si é reveladora de tudo quanto possa dizer. Nem sempre tem a objectividade óbvia, a leitura clara e por isso importa que o texto, as palavras, complementem tanto o que os olhos veem como o que está para além dela.
Uma imagem pode mostrar, por exemplo, um simples caminho, com pedras gastas pelo tempo e para muitos olhares não passará disso mesmo, um trecho incaracterístico já gasto por passos e rodados de outros tempos, agora pouco percorrido, desinteressante e mais ou menos similar a muitos outros. Mas as palavras podem acrescentar que é um trecho de uma milenar calçada romana, das muitas realizadas por todo o império e que ligavam cidades, províncias e regiões, da Hispânia, Gália e Britannia a Roma, segundo técnicas de construção que permitiram que chegassem sólidas aos nossos dias, quando, obviamente, não destruídas pela voragem dos tempos modernos e pela indiferença e indistinção dos valores do património histórico e cultural.
Mas adiante, porque a imagem que ilustra este artigo nada tem a ver com romanos, suas estradas ou outras façanhas de engenharia. Mas, como um caminho, ainda que metaforicamente, a imagem com a casa e o espaço onde se ergue, conduzem a outros tempos e lugares, a pessoas e a momentos, unicos e singulares.
Para quem não conhece, esta casa ali nas traseiras da capela do Viso, foi de meu bisavô paterno, Raimundo Almeida, depois de seu filho Joaquim, meu avô, que a ampliou e que já pelo fim da sua vida a transmitiu a alguns dos seus filhos, uma parte das quais a meu pai. Por conseguinte, pertence por herança e por aquisição de algumas das partes a alguns dos irmãos, a meus pais, e ainda uma parte inferior a primos.
Pela sua antiguidade, pelas vicissitudes e efeitos de desgaste do tempo, bem como ainda por não pertencer todo o edifício a uma só propriedade, por conseguinte com os obstáculos inerentes a um edifício que é de todos e de ninguém, certo é que se tem acentuado o seu desgaste e por isso está hoje em dia com um aspecto triste e decadente, de resto como tantas outras similares construções, espalhadas pelo nosso concelho como por outros, nem sempre, ou nunca, protegidas no seu valor arquitectónico pelos organismos e instrumentos de gestão territorial, ficando assim entregues às garras do tempo e de outras vontades urbanísticas. No fundo são, em muito, umas ilustres casas de Ramires, testemunhando a decadência de homens e seus tempos, porque o tempo e as suas mudanças não se compadecem com lirismos de nobres tempos antigos e dos seus vetustos valores. O progresso e o vendaval das suas mudanças trouxeram igualmente rupturas e decadência porque quase sempre num barco a navegar sem homens ao leme.
Em grande parte, estas casas ditas de lavrador eram os solares de gente abastada mas que vivia essencialmente do seu trabalho e da vida ligada ao campo, à floresta e aos animais. Gente que no geral não nascia já rica por desígnio maior, mas que se fazia a si própria com muito sacrifício, trabalho e esforço. Por conseguinte, são estas casas uma espécie de solares minhotos ou beirões, bem mais modestos, sem brasão no cimo do portão da entrada, porque não foram erigidas sobre dinheiro de emigrantes fazendeiros arrancado lá pelos brasis, ou de condes, viscondes ou morgados, ou de qualquer outro título de nobreza de fachada, tantas vezes cimentada à custa do suor dos demais que os serviam a preço de uma côdea e água por jeira. Ainda por um oportunismo avaro da ignorância inocente de gente mal remediada. Sempre foi assim porque "em terra de cegos quem tinha um olho era rei".
Não faltam, pois, por aí e mesmo por aqui, histórias de gente e famílias que foram salteadas em cartórios, porque quem sabia ler e escrever redigia contratos e escrituras que eram assinadas literalmente de cruz. Surripiar à luz de contratos ardilosos várzeas e soutos a gente boa mas iletrada, era como roubar doces a bébés. Assim se consolidaram fortunas, ampliaram tapadas e largas ribeiras, ao abrigo do resgate por incumprimento tantas vezes falhado, não por falta de palavra, que era lei e honra, mas por ratoeiras e estratagemas de clérigos e doutores.
Mas adiante, porque ali por aquela casa do Ti Jaquim do Viso sempre morou gente, não tica mas remediada e sobretudo honrada, e não fosse assim, o património de terras ao luar seria imensuravelmente superior. Ainda sobrou um bom naco e feita a partilha ainda em vida, cada um dos muitos filhos pôde herdar um bom quinhão composto de leiras, campos e matos, porque dinheiro vivo esse era raro, mesmo em casa dos mais abastados lavradores. Pena que apenas alcondorados em montes íngremes e ribeiras apertadas, longe das ruas que ladeiam o casario e que o progresso urbanístico valoriza. Servem agora para pasto de chamas e alfobres de giestas e tojo. E nem o raio da auto-estrada ali passou para serem expropriadas a preço de ouro. Por ali até o diabo perderia as sandálias.
Todavia, em rigor não é principal propósito deste texto falar da casa em si, embora naturalmente me entristeça assistir à sua decrepitude num misto de naturalidade e impotência. Acima de tudo, pela sua proximidade, porque ali à sombra da capela de Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António, quero realçar a relação da casa com o nossa festa do Viso.
Tanto a capela como a parte mais antiga da casa serão mais ou menos contemporâneas, por isso construídas ali pelo ano de 1869 onde naquele monte nascia apenas carqueja, esteva e alguns sobreiros. Por conseguinte, a casa e a gente que nela foi habitando, em diferentes tempos e gerações, assistiram a muitas festas, a momentos de devoção, de partilha e diversão. Gente que trabalhava no campo mas que naquele dia, no primeiro Domingo do estival Agosto, celebrava a vida na abundância de uma pipa de vinho aberta e do sacrifício de um porco ou galo subtraídos ao aido ou à capoeira. Ainda e principalmente a celebração da fé e a sua religiosidade na figura e invocação materna de Maria, sob o título de Nossa Senhora da Boa Fortuna. Também a Santo António porque por esses tempos o gado e os animais tinham valor de gente e o lisboeta que morreu francsicano em Pádua era o seguro a quem se recorria. Não surpreende que por ele e na exaltação das suas virtudes ali no púlpito da capela, em dias de festa, se tenham proclamado inflamados sermões por abades mestres da oratória, principalmente em tempos em que a importância de chamar um afamado pregador tinha a mesma que agora contratar um Quim Barreiros ou outro que tal.
Havia foguetes, bandas de música, como sardinhas em lata aninhadas em pequenos e coloridos coretos; tascas a aviar vinho e iscas de bacalhau. Na própria casa funcionou durante muitos anos uma mercearia e taberna que nesses dias de festa eram uma roda viva de forasteiros com o balcão repleto de copos de quarteirão inundados de vinho a empurrar azeitonas, iscas e pataniscas; havia à volta da capela tendas onde se vendia fruta e sobretudo melão que grupos de rapazes e namorados compravam a partilhavam em doces talhadas ali à sombra do velho sobreiro; havia concertinas, harmónicas, violas e bailaricos onde homens e mulheres, rapazes e raparigas ganhavam ali o direito e permissão para se enlaçarem ao ritmo de um vira ou malhão.
Chegava gente com promessas a cumprir, da nossa terra mas também das aldeias vizinhas, de Louredo, do Vale e Romariz, entre outras. Durante muitos anos, ainda criançola, habituei-me a ver ali as mesmas pessoas que depois da missa estendiam a toalha à sombra do sobreiro ou das austrálias e a cesta de verga paria coisas boas, como enchidos, doces e fruta.
É claro que com o tempo foram envelhecendo, os romeiros e a casa avoenga, esta perdendo as suas cores, atapetando-se já o musgo nas paredes e telhado, cumes levantados pelo vento, que no Viso sopra mais alto. Também as pessoas que ali passaram as suas vidas, subindo e descendo escadas, abrindo e encerrando portas e janelas, também, uma a uma, foram partindo e no que diz respeito à festa, senão radicalmente, é pelo menos diferente, mas com coisas e ritmos que permanecem imutáveis tanto hoje como há cem anos, desde logo a fé, a devoção, o amor à terra e às suas coisas. A casa e a capela, como irmãs, já velhinas, permanecem ali, de algum modo imutáveis nos seus alicerces sob a fraga do monte, na sua essência e na sua alma mesmo que desbotadas na cor e com a cal e o saibro a cairem às lascas.
Pode mudar tudo, porque até as pedras envelhecem, mas que não se mude nem perca o mais fundamental: a alma, a nossa identidade, o sentido de pertença e o respeito por nós próprios e pelo terrão onde se implantam as nossas mais profundas raízes. Quando estes valores forem desconsiderados e mesmo esquecidos, então, mesmo que não mortos, estaremos irremediavelmente pobres, ocos e escancarados como uma velha casa sem telhado, sem portas e janelas ou se ainda com elas, já empenadas e sem gonzos.
Há imagens que precisam de mil palavras, mas estas serão sempre escassas e insuficientes na descrição que se queira fazer sobre as visões que apenas estão presentes no mais profundo de cada um de nós.
Esta imagem, pois, para além dela própria, tem muitas outras que mesmo que invisíveis são bem mais indeléveis porque profundas.
31/07/2023
Onde habita o segredo
Para lá das portas onde habita o segredo
Há labirintos intrincados, imaginários;
Teu corpo é prisão que me tem em degredo
Onde vou penando por pecados solitários;
Não sei quantos quartos tens fechados
E neles quantas camas já remexidas,
Com lençóis húmidos de corpos suados
Onde se encontraram ou perderam vidas.
Mas há em mim esta constante tentação
De te ter toda aberta, acolhedora, pura,
Possuir a chave mestra da fechadura,
Aceder à profundidade do teu coração.
Não sei que segredos guardas, zelosa,
Como a mais bela pérola a rude ostra,
Como espinhos a envolver a suave rosa,
Como seguro jogador a fazer a aposta.
Não sei que segredos tens escondidos
Nem em que gavetas e cofres encerrados,
Tão pouco se os tens, porque já perdidos,
Ou se apenas, sem pena, desencontrados.
A.Almeida - 31072023
Sofreguidão
Possa eu condensar todas as histórias,
Como espremer o sumo de uma laranja,
Beberei a doçura de tantas memórias
Num trago só, quanto a sede abranja.
Vigorado nessa densa, doce frescura,
O meu ser, todo eu ficarei então assim,
Saciado de uma sede sôfrega, pura,
De condensar-me no princípio e fim.
A.Almeida - 30072023
25/07/2023
Céu cinzento
Há em mim memórias,
umas boas, outras más,
uma brisa de aromas e cores
que me levam como folha outonal
a uma viagem sem labéu
antes do final adormecimento,
do retorno à terra, ao pó.
Pinto as minhas histórias
com o vermelho das romãs,
o roxo das minhas dores,
também com o verde do matagal,
o azul do mar e do céu
quando não calha estar cinzento,
como os dias em que estou só.
A. Almeida - 24052023
23/07/2023
Vai-se indo e andando
Há dias, um guisandense seguidor desta minha página na internet, dizia-me que enquanto emigrante tinha-a como um elo de ligação à terra e que por conseguinte a visitava todos os dias na esperança de ver publicadas notícias e novidades sobre a freguesia e mesmo para ler os meus artigos sobre a mesma. Disse ainda que nesse sentido esta página acaba por ser serviço público e que como tal deveria ter reconhecimento, tanto das pessoas em geral como por parte de quem de direito.
Naturalmente que agradeci a simpatia, e fico satisfeito de que uma boa parte das visitas diárias à página sejam precisamente de emigrantes, mas quanto à história do reconhecimento, muito, pouco ou nada, é questão que não me preocupa nem é isso o que me faz manter este projecto desde há 23 anos. É um espaço pessoal e como tal sobre as minhas coisas, mas claro está que desde sempre com muito foco na freguesia, tanto ao nível do dia-a-dia como de escrita e divulgação de elementos documentais e históricos. Muito tem sido feito mas mais há por fazer ou complementar.
Tenho ainda noção que poucas páginas desta natureza existem por aí e mesmo que com muita procura uma ou outra possa ser encontrada, são projectos que depressa foram postos de lado e interrompidos ou mesmo mal começados e logo acabados. Veja-se o caso do que já foi o popular blogue das Caldas de S. Jorge...
Em todo o caso, como disse, é coisa que não me preocupa nem pretendo nem espero ecos positivos e muito menos reconhecimentos, seja de quem for. Recebo-os, de vez em quando de algumas pessoas, sobretudo emigrantes, e isso basta. Importa é ir registando momentos e elementos para que um dia alguém lhes possa dar outro merecimento. Até lá, é na desportiva e sem compromissos e por isso sujeita a ritmos certos ou inconstantes e pode até acontecer uma ou outra pausa, que podem ser retemperadoras. De resto, e pelo contrário, até não faltará por aí alguém que queira ver a coisa pelas costas porque, como analogia, um escaravelho da bosta há-de passar sempre a sua vida a arrastar bolinhas de bosta. Está-lhes no instinto.
Em resumo, na boa maneira portuguesa de explicar estas coisas e este meu já adulto projecto online, "vai-se indo e andando".
16/07/2023
Não venhas tarde
Não! Não venhas tarde,
Como alguém diz a cantar;
Em meu corpo um fogo arde
Que só tu, amor, podes apagar.
Vai, pois, mas vem depressa
Bem antes, amor, do fim do dia.
Não vá que, por maré, aconteça
Chegares e a cama estar vazia.
Mas se vieres tarde demais
Juro que vai haver sarilho,
Porque não sou dos pardais
Que se contenta com o milho.
Não! Não venhas tarde,
Não procures o contratempo;
Com muito ou pouco alarde
Importa que venhas a tempo.
A.Almeida - 16 Julho 2023
13/07/2023
O senhor Destino
Quem é esse senhor importante
A quem todos chamam Destino,
Que determina cada instante
Do ser, à morte desde menino?
Que poder tem tal criatura,
Que desfecho decide em nós,
Desde a calma doce e pura
Ao fim mais doloroso, atroz?
Por mais as voltas e revoltas
Feitas e que com ele trocadas,
Não há casos com pontas soltas;
No emaranhado das redes fiadas.
Mas se é assim tal fatalidade
Do encontro com esse senhor,
Importará tão pouco a idade:
- Que o destino seja o que for!
A. Almeida - 13 de Julho de 2023
Uma interpretação:
O poema acima procura uma reflexão e uma abordagem poética sobre a figura do Destino. Através de uma série de questões, o poeta pretende levar o leitor a contemplar a importância e o poder desse misterioso senhor a que todos chamam de Destino.
No primeiro verso, surge a pergunta "Quem é esse senhor importante", evidenciando a curiosidade e a incerteza que envolvem essa entidade. O poeta procura compreender como o Destino determina cada instante da existência, desde a infância (desde menino) até a morte.
Na segunda estrofe, o poema indaga sobre o poder que essa criatura detém, capaz de decidir o desfecho de nossas vidas. Desde momentos de calma e pureza até os mais dolorosos e cruéis, o Destino parece ter o controle sobre todos os aspectos de nossas experiências.
A terceira estrofe reforça a ideia de que não há acasos ou coincidências soltas nas tramas tecidas pelo Destino. Mesmo diante das reviravoltas e trocas feitas com ele, tudo se encaixa nas redes que ele tece. Aqui, há uma sugestão de uma ordem cósmica, uma fatalidade inexorável que permeia nossa existência.
Por fim, na última estrofe, o poema nos faz refletir sobre a importância da idade diante do Destino. Independentemente de sermos jovens ou idosos, o poder dessa entidade é indiferente. O Destino não se restringe ao tempo, mostrando que seu domínio transcende a linearidade temporal.
Essa análise poética e filosófica leva-nos a contemplar a complexidade do Destino e sua influência sobre nossas vidas. O poema nos convida a refletir sobre a existência humana e a confrontar a ideia de livre-arbítrio diante da inevitabilidade dos desígnios do Destino.
12/07/2023
Água para Aysha
Não sou, de todo, rico. Como a maioria dos portugueses, vivo do trabalho para sustentar-me e à família, para pagar as contas do mês e os altos impostos. Fosse rico, e naturalmente que poderia ajudar mais e muitos, mas apesar disso, apesar de ainda continuar a pagar crédito à habitação, serviços de água, esgotos, electricidade, telefone, televisão, internet, seguros de carro, seguros de vida, seguros de casa, seguros de saúde, taxa de audiovisual, comissões bancárias (roubos), IMI, IRS, IVA, imposto de combustíveis, impostos de tudo e mais alguma coisa, procuro ter ainda um restinho que me permita ajudar uma ou outra causa.
Ainda há poucos meses, no contexto da venda do meu livro, foram 250 euros para a Unicef para mitigar os seus apoios às crianças da região do corno de África.
Mas isto de dar e ser generoso, mesmo que um bom princípio cristão, nos dias que correm tem os seus quês, porque, é sabido, à porta de quem dá são mais que muitos os pedientes. E pedem os que precisam e os que não precisam, os que envergonhadamente e os que de forma descarada e recorrente. Por isso, no pensamento de quem pede e recebe, está a ideia de que quem dá uma vez dá duas ou três, ou as vezes que se pedir. Às portas de quem diz não, por vezes ainda com um sermão ou pedra na mão, muito dificilmente alguém bate uma segunda ou terceira vezes.
Ora isto é verdade para o habitual pedinte que toca à campaínha como é para as instituições e entidades. No caso da UNICEF, apesar de já ter feito donativos de várias centenas de euros e em várias ocasiões, acaba por ser a entidade que mais pede, e via online ou por correio, como ainda hoje, os seus pedidos são recorrentes.
Desta feita, traz-nos o caso de crianças como Aysha, de 13 anos, que vive em Afar numa região remota da Etiópia, que sai de casa todos os dias bem de manhã cedo, com o seu camelo, para uma viagem de ida e volta que demora 9 horas para ir recolher água para si e para a sua família. Todos os dias, invariavelmente sob temperaturas superiores a 40 graus e por caminhos duros. Compreende-se que é uma vida dedicada a uma tarefa árdua quanto fundamental para a sobrevivência mas com isso perde quase a totalidade da sua infância. Mas é o que é!
Por conseguinte, todos os apelos da UNICEF, mesmo que recorrentes e insistentes, fazem sentido e justificam-se, mesmo que os donativos sejam simbólicos. Certamente que há muitos que bem poderiam ajudar de forma bem significativa e sem qualquer dificuldade, e muitos ajudarão concerteza, mas a larga maioria passa ao largo destas questões humanitárias porque as Ayshas deste mundo vivem lá ao longe e não lhes vemos os olhares tristes, os lábios sequiosos em rostos sem sorrisos e vidas sem infância, quase sem presente e com futuro muito incerto. Temos que chegue e sobre para as nossas vaidades e coisinhas supérfluas e nem vale a pena aqui fazer a lista.
Por tudo isto, voltei a contribuir para a UNICEF, tendo já realizado a transferência bancária, na expectativa de que todos os donativos, grandes ou pequenos, serão bem aplicados por esta credível entidade e farão diferenças para muitas crianças nessas regiões de pobreza e dificuldades extremas. Seja no contexto da saúde, como no da educação como no simples direito à água. E dizem as estimativas que serão mais de 2 mil milhões de pessoas sem acesso a água potável, em que 600 milhões serão crianças.
Velho sobreiro
Já velho estou!
Como um velho, cansado e dorido!
O fresco vigor do tempo primeiro
Dissipou-se como um névoa matinal
Elevando-se no vale fresco de um rio,
Como peregrino num caminho de fé.
Sou como sou!
Chego aqui numa vida com sentido,
Maduro e forte como bom sobreiro,
Que não teme o tempo, o vendaval,
A chuva, o calor, sem tremer de frio,
Porque, como árvore, morrerei de pé.
A.Almeida - 12 de Julho de 2023
Uma interpretação:
Este poema procura evocar reflexões sobre o envelhecimento, a passagem do tempo e a força interior. Retrata um sobreiro mas igualmente um homem.
O verso inicial, "Velho estou!", expressa uma sensação de idade avançada e exaustão. Essa frase pode ser interpretada literalmente, indicando que o eu poético, o sobreiro ou o homem, está envelhecido e cansado. No entanto, também pode ser compreendida de forma mais abrangente, simbolizando uma jornada pessoal ou existencial na qual o eu lírico se sente desgastado emocionalmente ou espiritualmente.
"Como velho, cansado e dorido!" amplifica essa sensação de fadiga e desconforto físico e emocional. Essas palavras sugerem a experiência de um corpo que já não possui o vigor e a energia da juventude, além de transmitir uma possível carga emocional relacionada ao peso das experiências vividas.
A imagem da "névoa matinal" que se dissipa pode ser entendida como a fugacidade do tempo e da juventude. Assim como a névoa que se eleva com o nascer do sol, a vitalidade e o frescor dos primeiros anos também se dissipam com o passar do tempo. Essa metáfora cria um contraste entre a efemeridade da juventude e a realidade da velhice.
A alusão ao "vale fresco de um rio" e ao "peregrino num caminho de fé" pode sugerir uma busca espiritual ou um sentido de jornada pessoal. O envelhecimento pode ser visto como uma jornada em que se caminha com fé, enfrentando desafios e superando obstáculos, assim como um peregrino em seu caminho sagrado. Essa interpretação traz uma dimensão filosófica ao poema, abordando questões existenciais e a busca por um propósito ou significado na vida.
Na segunda estrofe o eu lírico reafirma sua identidade e autoaceitação, afirmando "Sou como sou!". Essa afirmação pode ser interpretada como uma aceitação do próprio eu, com todas as suas imperfeições e limitações. É uma expressão de autenticidade e uma recusa em se conformar a expectativas externas.
A comparação com um "sobreiro" traz uma imagem poderosa. O sobreiro é uma árvore conhecida por sua resistência e longevidade, simbolizando força e solidez. Essa metáfora sugere que o eu lírico se sente maduro e forte, capaz de enfrentar os desafios da vida sem medo. Assim como o sobreiro não teme os elementos naturais, o eu lírico não se abala perante o tempo, as adversidades e as intempéries da existência.
A frase "Porque, como árvore, morrerei de pé" reflete uma postura de dignidade e coragem diante da morte. Ela evoca a imagem de uma árvore que permanece ereta mesmo no momento final, reforçando a ideia de uma vida vivida com integridade até o fim. Essa afirmação pode ser interpretada como um desejo de viver uma vida autêntica e plena, sem se curvar diante das inevitabilidades e desafios.
Em suma, esse poema trata de temas profundos, como o envelhecimento, a jornada pessoal, a busca por significado e a aceitação de si mesmo. Por meio de metáforas e imagens poéticas, o poema nos convida a refletir sobre a fugacidade do tempo, a importância da autenticidade e a coragem de viver com dignidade e propósito.









































