29 de abril de 2022

Nota de falecimento


Faleceu António Baptista Tavares, de 84 anos (08 de Fevereiro de 1938 a 29 de Abril de 2022).

Natural de Lobão, residia no lugar de Arosa (Rua da Ponte, 1474). Lobonense mas com bastante ligação a Guisande.

O funeral será amanhã, Sáábado, dia 30 de Abril, pelas 11:00 horas, na igreja matriz de Lobão, indo no final a sepultar em jazigo de família.

Sentidos sentimentos a todos os familiares. Paz à sua alma! Que descanse em paz!

O caminho da infância perdida



Era uma vez um caminho como muitos outros, sinuoso e largo quanto baste para nele transitar o carro-de-bois, essa importante máquina de simbiose de homem e animal, que ajudou a mover montanhas, a arrotear e a lavrar campos, a transportar milho, uvas, pasto, lenha, madeira, pedra e tudo o mais que importasse à sobrevivência de quem labutava no dia a dia no campo e na floresta.

Vieram outros tempos, outras capacidades, e o difícil tornou-se fácil, o longínquo chegou-se ao perto, o estreito alargou-se e assim esse velho caminho também foi ampliado nas suas costuras e de um carro-de-bois à justinha, poderiam agora passar grandes tractores e maiores camiões.

Mas, ironia, esse alargar, vestido de uma semântica chamada progresso, afinal não serviria de nada porque os campos há muito abandonados e ocupados por uma fila de enormes lipares de betão, os pinhais e matos desprezados e entregues aos incêndios e a urbanização dos sítios estrangulada pela burocracia dos PDMs definidos nos gabinetes. 

Desse ímpeto inicial, parecia que a coisa era para ser pavimentada e assim o povo de Cimo de Vila pouparia 2 minutos caso quisesse ir ver a bola ao Reguengo. Pela poupança e comodidade, valia o esforço e o investimento. Mas até a bola deixou de rolar e o velho caminho, agora dito novo, continuou ali inoperacional na sua largura, sem pavimento cinzento que o aplainasse, sem trânsito, sem gente de Cimo de Vila para ir à bola.

Depois, numa magestosa manhã de Primavera vieram os construtores da auto-estrada que haveria de mutilar a amazônia cá do sítio e ali ao pé do campo da bola, vazio e deserto, montaram um estaleiro. Alguém ganhou com isso. Então essa gente de capacete nas cabeças, começou, por conveniência, a usar esse velho novo caminho e para nele transitarem dezenas de camiões e máquinaria pesada, aplainaram-no e parecia um tapete de barro e saibro. 

Foi assim durante  largos meses. Na altura falava-se que como compensação, essa gente das obras iria no final dos trabalhos pavimentar o dito cujo caminho novo. O tanas! Foi usado e abusado e ao contrário de uma mulher da má vida, a quem no final se paga pelo uso, o velho caminho, fodido a valer, nada recebeu em troca para além do abandono. Em pouco tempo voltaria a ser um caminho erodido pelas águas, um depósito de lixo, onde oficinas de carros, jardineiros e empresas de construção ali cagavam à tripa farra os seus dejectos. Tudo boa gente.




Pois bem, por estes dias voltei por ali a passar e no mesmo sítio onde há bem pouco existia uma pilha de pneus e lixos de uma qualquer oficina automóvel, encontrei ali mais uma descarga de lixo, essencialmente roupas e calçado de criança, mas também brinquedos.

Para quem vê estas coisas sem poética, era apenas um monte de lixo ali deixado cobardemente por alguém a coberto do lusco-fusco ou mesmo da noite, num caminho por onde ninguém passa a não ser raposas e texugos. Mas aquele lixo era mais do que isso, era nitidamente a memória de uma qualquer infância ali despejada, sem qualquer pejo ou constrangimento. Porventura cada um daqueles brinquedos tinha uma história a contar porque usado por uma ou mais crianças. Aqueles pequenos sapatos devem ter servido aos primeiros passos e passeios pela casa ou jardim. 

Tudo ali naquela anarquia disruptiva, num universo distópico. Com um pouco de atenção por ali ainda se ouviriam os primeiros passos, titubeantes, os choros, os risos, as algazarras infantis.


Poderiam ainda ser resgatados naquele inferno alguns brinquedos, em que alguns bonecos descompostos e desarticulados pareciam gritar a pedir que os salvassem. Às suas feridas, de nada lhes valeria aquela bisnaga de Betadine. 

Não os pude salvar, mas sempre lá resgatei um pequeno elefante cinzento, de tromba esticada como se o seu pedido de socorro soasse como uma trombeta nos últimos dias do Apocalipse. Está agora em casa, depois de um banho de álcool. Está mais sorridente e os seus dentes mais brilhantes e os olhos mais luminosos.

Chama-se Agrelas, lembrando o sítio onde esteve às portas do desprezo de uma infãncia da qual fez parte. A vida como ela é.

Entretanto, convinha que alguém que representa a nossa incapacidade colectiva mandasse limpar aquele montão de infância destroçada. Em nome do ambiente e da decência. Mas será sempre um caso perdido porque a seguir virá mais do mesmo, porventura lixo com outras histórias a contar.

Instinto

Os julgamentos hão-de ser feitos por quem de direito. Espera-se!

Como adepto do ciclismo, sempre me pareceu que a supremacia dos atletas da W52-F.C. Porto ía para além das pernas e treino, não dando hipótese mesmo aos melhores da concorrência. Sobretudo pelos espanhóis que apesar do peso da idade pareciam reis em terras de cegos, ganhando umas atrás das outras com a facilidade de um actual Roglic ou Pogaçar.

A ver vamos, mas compreende-se a tentação desta e doutras equipas e dos seus atletas em quererem mostrar serviço, mesmo em contextos controlados e escrutinados. Os prémios, os troféus, o prestígio, valem o risco, pensarão. No fundo nada se aprendeu com casos como o do Lance Armstrong. De resto a coisa nem é exclusiva desta modalidade.

Mas percebe-se a tentação. Afinal, mesmo os simples amadores, e eu vejo-os por aí, andam todos artilhados e neles vemos o sentido de competição sempre ao rubro e as pastilhas e super gelatinas vão andando nos regimes só para se fazer boa figura. Os troféus são estampados nas redes sociais com médias, ritmos e poses. A febre generaliza-se.

Em rigor somos todos da mesma massa e como tal egocêntricos e vaidosos, sempre tentados a mostrar que o nosso pirilau é maior que o dos outros. Dizem que isto faz parte do nosso ancestral instinto, mesmo de quando não tínhamos inventado a roda. 

26 de abril de 2022

O 26 de Abril deveria ser feriado

O 26 de Abril deveria ser feriado. É que o 25 de Abril é um feriado cansativo, com muito protocolo, cerimónias solenes, discursos, cravos na lapela, marchas, grândolas, etc, etc. 

Ainda ter que apanhar com o extremista e  idiota do Ventura e o canto do cisne dum PCP em agonia, é dose a mais. 

Os políticos foram quem mais ganharam com o 25 de Abril e todos os anos temos que apanhar com eles, bem dispostinhos na suas vida fartas, como se fossem os baluartes e garantes da liberdade, direitos e garantias. O tanas. 

O povo anda a cantar desde então que unido nunca mais será vencido mas vencido é todos os dias porque já com mais tempo de liberdade do que ditadura, ainda tanto continua por cumprir e daqui a outros 50 anos ainda vamos andar nisto sempre cerimoniosos, sem liberdade e independência plenas porque endividados publicamente até às orelhas.

Não fosse outro 25, o de Novembro, e a liberdade talvez fosse uma quimera, porque em rigor quem fez o de Abril teve sempre como propósito primeiro um sentido militar corporativista e, logo depois, inverter a ditadura, resgatando-a da direita para encaminhar para a esquerda. Felizmente a liberdade e a democracia escaparam dessa garra em 25 de Novembro e daí talvez se justificasse mais que fosse esse o feriado e Dia da Liberdade e Democracia. Mas dizem, certos fosquinhas, que a coisa é fracturante e que não interessa nela mexer porque levanta a casca de certas feridas. 

Finalmente, como uma boa parte dos portugueses festeja o 25 de Abril, dia da Liberdade, como o Dia do Turismo, sobretudo quando o calendário permite uma ponte ou extensão do fim-de-semana, a coisa torna-se mesmo cansativa. 

Proponha-se, pois, o 26 de Abril a feriado nacional.

25 de abril de 2022

25 de Abril

 


Do meu livro "Palavras Floridas":


A revolução saíu à rua,

Num grito sufocado,

Mas libertado

Pelo querer.

A seiva da liberdade,

Na aurora da Primavera,

Jorrou fecunda

E as armas floriram cravos,

De vermelho e verde,

Natureza desfraldada

Como bandeira,

De novo erguida,

A anunciar

Portugal.

24 de abril de 2022

Pe. André Almeida Pereira - Missa Nova













Neste dia 24 de Abril de 2022 celebrou Missa Nova na sua terra Natal, S. Vicente de Louredo, o Pe. André Almeida Pereira, dos Missionários Passionistas.

Um orgulho ter um sacerdote na família. Que Deus o proteja e lhe dê uma vida repleta de bênçãos ao serviço da Igreja.

21 de abril de 2022

Os burros também se ensinam

Tenho para mim que o Belmiro é um revoltado. Mas de uma revolta obscura, enigmática, porque nunca sabemos distinguir se apenas com os outros, com o mundo, ou se apenas com ele próprio. 

O raio do homem não está sossegado em lado algum e se está aqui, já está a pensar em ir ali, e se ali, já pronto a ir acolá. Depois, se está aqui está como se não estivesse, porque com o olhar distante como se já  a ver o que mais ninguém vê.

Apesar disso, o Belmiro é figura indispensável numa roda de amigos, no café ou num evento da aldeia. Todos, à sua roda, gostam de o ouvir contar histórias, que são anedotas ou anedotas que são histórias. E quanto mais se riem os seus ouvintes, mais ele conta e encanta. Mesmo que uma história repetida, porque já contada mil vezes, ele adorna-a e veste-a com diferentes roupagens e passa por ser nova.

Mas num repente, ainda Fernando, o Musga e o Neves se riam desbragadamente  da sua última história, sobre aquela vez em que o Quim Correia enfrentou o padre da aldeia a propósito deste ter mandado interromper a música nos altifalantes na festa de S. Januário, porque queria dormir a sesta, e já o Belmiro estava a engrenar a primeira a caminho de um sítio que naquele momento nem próprio sabia para onde. Como muitas vezes, daria a volta ao quarteirão, passaria à casa da Helena na esperança de a ver de cócoras a mexer nos bolbos das tulipas e dali a nada estaria de novo cercado por uma plateia atenta às suas novas velhas histórias. Com sorte, ouviriam aquela em que o Manduca indo arriar o calhau ao mato acabou a limpar o dito cujo com um sapo que inadvertidamente por ali passava ou do Zé da Canoa que ia às putas e lhes pagava com bolachas Maria, torradas e uma garrafa de Sumol de ananás.

É, pois, este Belmiro, uma figura revoltada mas apreciada, mesmo estimada. Ademais a sua revolta não é revolucionária, daquela que assalta quartéis e derruba governos, mas antes espiritual, psicológica mesmo. 

Não espanta que nessa dualidade de cómico e de revoltado o Belmiro também divida opiniões sobre a sua forma de ser e estar. Há quem de facto o aprecie, mas também quem lhe tenha um certo fastio para não dizer ódio de estimação porque o consideram um montador nato de minas e armadilhas, um mestre de intrigas capaz de virar a unha contra a carne. Cose aqui, descose ali, compõe acolá, descompõe além e num repente consegue o que quer. Não surpreende que nessa agilidade teatral o Belmiro tenha já feito deitar por terra negócios apalavrados e revirado acordos e contratos mesmo a quem tem a palavra por honrada.

Mas o Belmiro tem andado mais soturno e as suas histórias já cheiram a rançosas e os ouvintes já são menos e não riem tanto, desde que há bem pouco ele próprio foi apanhado numa teia que andou minuciosamente a tecer para emperrar um negócio da venda de um porco que o Manel da Nanda tinha prometido ao Silva da Lamosa. Acabou por ser ele próprio a comprar o porco, entregue prontinho em casa, morto e desmanchado, aviado em  febras, lombos e rojões. Só depois de convocada a família para a rojoada e papas de sarrabulho é que percebeu, que aquilo não sabia a nada, uma vulgar carne industrial de um qualquer talho.

Rapidamente descobriu que afinal o Manel da Nanda, com rebate de consciência à palavra dada, vendera mesmo o bicho caseiro ao Lamosa. Desculpando-se e justificando a queixa do Belmiro pela carne de fraca qualidade, sem gosto nem sabor a caseiro, rogou-lhe o Manel que lhe perdoasse a troca, ...que matara dois iguais mas que o que a ele lhe calhou não gostava de couves nem milho e apenas comia ração industrial e o que sobrava da ração dos cães.

Feitas as contas, verificados os factos, o Belmiro nem foi enganado, apenas provou da sua velha estratégia e tem que admitir que por vezes os melhores planos têm furos.

Não sei se contará esta como uma das suas histórias à malta do costume quando de novo o cercarem, mas acredito que sim, nem que lhe dê uma caiadela e que troque os nomes aos intérpretes. Afinal sempre ouvimos dizer que rir de nós próprios é melhor que uma consulta no médico ou psicólogo.

Certo é que o Belmiro, mesmo fazendo rir os outros com as suas histórias, parece andar agora mais revoltado desde que comeu os rojões vulgares a pensar que eram caseiros. 

Quem não se importou com a infelicidade do Belmiro, foi o Silva da Lamosa, que, por despeito o tendo como "um burro", sentenciou “...Que se foda! Os burros também se ensinam!”