Em dia de maias, nada como uma boa caminhada pelas encostas da sempre bela Freita. 15 km com valentes subidas e magestosas paisagens salpicadas de amarelo.
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Em dia de maias, nada como uma boa caminhada pelas encostas da sempre bela Freita. 15 km com valentes subidas e magestosas paisagens salpicadas de amarelo.
Os meus olhares sonhados voltam ao velho lavadouro de Cimo de Vila, ali onde dizem que é o Quartel, mesmo que sem tropa, fandanga ou militar.
Como já por aqui escrevi há dias, os meus olhos de criança teimam em sonhar e de novo ali a ver as mulheres do lugar ocupando as pedra de lavar, numa tagarelice quotidiana, a esfregaram as roupas cardidas de quem trabalhava no campo ou nas obras. Sentia-se, então, um cheiro a água fresca e sabão. Ao lado, a presa, recolhia a água que escorria da fonte para o lavadouro. Essa água, na altura vinha da generosa nascente de Centes e desde as obras destruidoras da A32 chega do Monte de Mó, partilhada com a fonte do Monte do Viso. Essa água, através de rego, que no lugar passava a descoberto, regava campos na encosta que descai de Cimo de Vila para a Igreja e Quintães mas também até ao fundo do lugar do Viso. Escusado será dizer que a maior parte desses regos já não existem, apenas na memória de quem a tem.
Nesse lavadouro de Cimo de Vila, lavavam mulheres como a Ti Laurinda do "Canão", a Ti Gracinda do "Repolho", a Ti Isaura, mulher do Ti João do "Cabreiro", a Ti Madalena do Martinho, as do Sebastião, as irmãs Fonsecas, a Ti São, mulher do Ti Franquelim do Martinho, e outras mais, todas mulheres que eram uma força da natureza.
Em casa de meus avôs sempre existiu um tanque também com lavadouro, com água corrente vinda de uma abastada mina localizada no Monte de Mó, e que ainda hoje lá cai. Por isso a minha mãe, ocasionalmente e dependendo da roupa, também lavava em Cimo de Vila. Apesar disso, eu criança, pela proximidade da casa e pelo facto de, com o meu irmão mais velho, andar ao cuidado de minha bisavó Margarida, a mãe Guida, como a tratáva-mos, era por ali que passáva-mos o tempo ainda antes de ir para a escola e mesmo durante.
Por conseguinte, muito do meu imaginário de infância situa-se ali entre o Viso e Cimo de Vila e todo o pedaço de terra, de monte e ribeiras, entre esses lugares e a freguesia de Louredo.
Não é o Ti Domingos Lopes - que nestas coisas de memória e de olhares sonhados nem sempre se acertam os rostos -, mas bem podia ser. E com mais funda razão e propriedade. De facto, foram muitas, tantas que nem se contam, as vezes que, com a sua parelha de bois, passou este portal bonito e singular, ali na casa do lugar da Igreja. Este, se não é peça única no concelho, é seguramente coisa rara: o baixo-relevo talhado na pedra dura, numa bordadura de elementos decorativos e encimado pela cruz, como que envolve e dá respeito ao trabalho diário do laboureiro.
Ora saía com o carro cheio de estrume, a caminho dos campos; ora levava a charrua e a grade, prontas para lavrar e gradar; ora ia de carro vazio, entaipado ou com a caniça, para trazer tojo, palha, espigas ou uvas. Era assim a vida - de lavrador, carreteiro e laboureiro - num tempo em que não havia tractores. E mesmo depois de aparecer o primeiro, para espanto da aldeia, comprado pelo Raimundo da Lama, em Guisande ainda muito trabalho se fez a bois.
Foi então que, devagar mas inexoravelmente, começou a perder-se o ofício. Homens como o Ti Domingos Lopes, o irmão Joaquim ou o Ti António “Simeão” foram ficando para trás. Mas os bois, mansos e certos, por muitos anos rasgaram a terra. Era um trabalho duro mas de paciência, sem pressas, uma arte.
Depois, como tudo, veio o seu fim. Foram-se esses homens, rijos como o chão que lavravam. Os bois deixaram de encher os aidos escuros. Aos poucos, este e outros portais foram-se fechando, a ganhar silêncio, a perder cor.
Mas fica a lembrança. Este olhar sonhado é só um tributo a essa gente de trabalho: homens que, ao romper do dia, emparelhavam os bois ao jugo, prendiam-no à cabeçalha do carro e saíam pelo portal ainda com a capoeira a dormir, para voltarem já noite feita, depois do toque das Trindades, com o luar já a alumiar os caminho do monte do Mó ou das ribeiras.
É bom sonhar e trazer à memória a gente e modos de vida que ajudaram a entretecer o ninho que temos como nossa casa, como nossa aldeia.
Fotografia do Ti Domingos Lopes com a sua parelha de bois.
Cimo de Vila - Casa da Ti Ilda Fonseca (prima de minha mãe), que foi de seus pais, Joaquim José da Fonseca e Albertina Oliveira (do Grilo).
Na minha infãncia por ali passei muitos dias a brincar. Ali, daquela janela no sobrado, era uma sala de costura em que trabalhavam algumas das irmãs Fonseca.
Tempo bonito que não volta. O tempo passado deixou as rugas nas fachadas. As rosas ainda são perfumadas mas já não há meninice nem crianças a brincarem no largo com o Ti Manel do Martinho sentadito na escada da rua. Já não há rego de água vindo do lavadouro de Cimo de Vila onde, junto ao campo da Cancela, montava rodízios de bogalhos ou lançava à aventura barcos moldados de casca de pinheiro.
Tudo mudou e apenas um olhar sonhado permite uma viagem a esse passado já longínquo. Mas dizem que é bom sonhar...
Em tempos passados, as nossas juntas de freguesia, ali pela década de 1980 e seguinte, procuraram dar melhores condições a quem utilizava os lavadouros públicos, nomeadamente dotando alguns deles com coberturas. Apesar disso, fizeram-no sempre sem qualquer assomo de estética, preferindo uns mostrengos em betão ou umas miseráveis chapas, numa filosofia de gastar o menos possível. Foi assim nos lavadouros em Estôze, Casaldaça, Fornos e Cimo de Vila.
Num mero exercício do que poderia ficar mais de acordo com uma estética rústica, ilustro aqui o lavadouro de Cimo de Vila, com a sua abundante fonte de água corrente. É certo que os tempos em que os meus olhos de criança ali viam as mulheres do lugar ocupando toda a pedra de lavar, numa tagarelice quotidiana, a esfregaram as roupas cardidas de quem trabalhava no campo ou nas obras. Sentia-se um cheiro a água fresca e sabão.
É certo que os tempos mudaram e são pontuais os casos em que alguém ainda utiliza os lavadouros mas, pelo valor patrimonial e de memória colectiva que representam deviam ser uma preocupação das juntas de freguesia na sua conservação. Um castelo também já não tem utilidade prática e apesar disso conserva-se.
Pretender comparar um singelo lavadouro a um vetusto castelo pode não fazer sentido para muitos, mas deve fazer. Afinal, um castelo podia ser morada de um qualquer senhor feudal enquanto que um lavadouro é do povo, o que era explorado pelo fidalgo.
Podia ser verdade...