11/03/2026
10/03/2026
27/12/2024
Falta um ano para daqui a um ano
Se não me engano,
Falta, inteiro, um ano
Para daqui a um ano.
Haverá tempo para o Natal,
Nascimento, renascimento.
Também para o Ano Novo,
De novo necessário ao calendário,
à celebração e ao espumante.
Depois o Carnaval,
Sempre igual, carnal,
Em folia estonteante.
Cinzas e Quaresma,
Penitência, caminhada
Rumo à Páscoa, à ressureição.
Haverá rosas nos jardins,
Aromas de jasmins,
Pêssegos e cerejas.
Pelo S. Tiago
Virá o pintor
A pintar os bagos.
E logo, em riso,
A festa do Viso.
Haverá tempo a vindimas
E a colheitas.
Mas também virá o tempo
Para a revelação,
Dos que darão
O rosto pela traição,
Os zelosos traidores,
Os que cometeram o pecado,
Os que venderam o legado
De quem os precedeu,
Os que sempre souberam
Defender o que era seu,
Como homens inteiros;
Os que não se venderam.
Por 30 dinheiros.
Falta um ano para daqui a um ano!
25/04/2024
Seiva da liberdade
A revolução saiu à rua,
Num grito sufocado,
Mas libertado pelo querer.
A seiva da liberdade,
Na aurora da Primavera,
Jorrou fecunda;
As armas floriram cravos,
De vermelho e verde,
Natureza desfraldada,
Apetecida,
Como bandeira triunfal,
Erguida,
A anunciar Portugal.
Este meu poema foi seleccionado pela editora Chiado Books para integrar a sua Antologia "Liberdade" - Vol. III, cujo lançamento público decorreu no passado sábado, 20 de Abril.
Trata-se de um poema que já publiquei no meu livro "Palvras Floridas", sendo que ligeiramente revisto.
À passagem dos 50 sobre o 25 de Abril de 1974, fica aqui partilhado.
12/04/2024
Fonte
Lá para os lados do monte,
Que cansaço e suor espera,
Há uma singela fresca fonte
Que mata a sede, retempera.
Tem sobre ela um carvalho
Que do quente sol perserva;
De manhã há neblina, orvalho
E brilha dele a fresca erva.
Bebe dela o homem, a mulher,
E do mato toda a bicharada;
Mata a sede a quem a tiver,
Renova o alento à caminhada.
Bendita fonte, toda singela,
No monte de duras fráguas;
Toda generosa a quem dela,
Se abeira às frescas águas.
11/04/2024
Perdão
Oro e laboro,
Como pecador confesso,
De humana fraqueza moldado;
Rio e choro,
Mas, contrito, a Deus peço
Perdão, por todo meu pecado.
Tem que haver dimensão
Para tudo quanto fazemos
Na labuta do nosso viver,
Seja destino ou mero fado;
Ora se Deus é todo perdão
E se assim o concebemos,
A vida oração tem que ser,
Em perdoar e ser perdoado.
10/04/2024
Por quem o sino chora?
Por quem o sino chora
Naquela torre esguia,
De pedra áspera, fria,
Num lamento sentido?
Morreu, foi-se embora,
Alguém que além vivia,
Deixando a melancolia
Em seu lugar perdido.
Não sofre! Em paz agora
Estará, no céu, sim, creio,
Num doce, materno seio,
Como paga, recompensa;
Quem fica, perde, chora,
Vazio, mas de dor cheio,
Num sofrimento alheio
Do fim de vida intensa.
09/04/2024
Deslumbramento
Cai a tarde, o sol declina
Num adeus breve, perene,
Na promessa de voltar já;
Então sonho, vejo-te menina,
De branco, em pose solene,
Esperando-me em cada manhã.
Nesta renovação repetida
Sobra um sentimento fundo
Do que somos por fundamento;
Em cada ciclo renasce vida,
Infinitas voltas do mundo
Em constante deslumbramento.
28/03/2024
Eu, pecador, me confesso
Confessou-se Torga, o poeta,
Como pecador que era
No bom e no mau da vida,
Ambos ao leme da sua nau,
Mareando em deriva.
Também eu, pobre pecador,
Aflito, me confesso contrito,
Do pecado herdado
E construído
Mas nunca consentido.
Mas se para o perdão pleno
Necessário é o arrependimento,
No meu entender pequeno,
De tão pouco provento
Estou condenado,
Porque não me arrependo,
Do que possa ter pecado
Por conta do meu viver,
De animal, institivo,
Gravado à força de cinzel,
Qual cobre derretido,
Moldado em forma de sino
Que na torre a mesma nota replica,
Numa vida presa, que implica
Aceitar a cantiga do destino.
26/03/2024
Poetas do campo
As gentes do campo, simples,
Não saberão o que é poesia,
E dos poetas desconfiarão
Como de pessoas estranhas,
Sem saberem o que vendem,
A soltar, presumidos,
Palavras, que não entendem,
Vazias de sentidos.
E, todavia, nessa gente do campo,
Tudo é poesia e funda a prosa
No que fazem, dizem e cantam,
No colher e cheirar uma rosa,
Nas preces que ao céu levantam.
Nos olhares mais absortos,
De paz ou intempestivos.
Não há tempos mortos
Mas de poesia, bem vivos.
O pão semeado,
A espiga colhida,
A terra ressequida
A ser regada.
Até o pasto colhido
Em Domingo, como pecado,
Tem poesia e sentido
Porque a matar a fome ao gado.
25/03/2024
Ansiedade
Não sei que calor arde no peito
Que me consome sem extinguir,
Deixando nele a cinza fria
Como restos de uma fogueira
Vivo assim em dor, insatisfeito,
Sem que perceba este existir;
Serei apenas melancolia
Ou tronco seco na lareira?
20/03/2024
Desfecho
Chegará o tempo dos ais, lamentos,
Dores, angústias contadas a fio,
O resumo de todos os sofrimentos,
De lágrimas que somadas dão rio.
Que mais esperar desta serena
Prostração desolada numa cama,
Em que mais que lamento ou pena
Esvai-se a vida de quem se ama?
Mas cada um seguirá, só, pelo seu pé
Até ao limiar da porta de saída,
Numa aceitação natural mas de fé,
A representar o acto final da vida.
12/03/2024
O amor! O que é o amor?
O amor! O que é o amor?
Já o cantaram e choraram poetas,
Despiram-lhe a alma,
Vestiram-no de dramas,
Pintaram-no de risos,
Afogaram-no em lágrimas.
Declamaram que era fogo a arder sem se ver,
Ferida não sentida a doer,
E tudo e em tudo o mais,
No que se possa dizer e escrever.
Será tudo isso, o amor,
Mas mais do que isso o que for
Aquém e além dele.
Porventura, até será tudo ou nada,
Relação de ódio ou apaixonada,
Enlaces e desenlaces
Carnais, entre humanos e bestas,
Num palco universal, teatral,
Numa realidade fingida
Ou num fingimento real.
O amor pode, pois, ser tudo,
Do mais profundo sentimento
À mais serena aragem;
A carícia do vento na seara,
A fonte a matar a sede,
O grilo a cantar no prado,
Um afago macio, um encosto,
A doçura macia do mel,
Na carne o sabor do sal
Uma lágrima a rolar no rosto,
Uma mão delicada na pele
De homem, mulher ou animal.
11/03/2024
Na brisa dos dias
Sente-se no ar a serenidade
Dos dias tristonhos,
Dos lamentos contidos,
Das angústias esmagadas,
Dos gritos sufocados.
Mas espreita a oportunidade,
De realizar os sonhos,
Com mil abraços sentidos
E nas costas palmadas,
No triunfo dos vingados.
29/02/2024
Iluminado
És vela acesa na escuridão,
A rasgar o mais denso breu
Como na falésia o farol;
O dia tem luz do teu clarão
A iluminar todo o meu céu
Como se dele foras o sol.
Desejado fruto
Olha, vê amor,
Os pessegueiros já a florir
Num dia assim, ameno, enxuto;
Com tempo e calor
Em cada flor há-de ressurgir
O esperado, desejado fruto.
Vê que singeleza,
O rosado das flores,
Em sabores prometidos;
Há nelas a certeza
Da leveza das cores,
Do peso dos sentidos.
Poema à Ti Elisa
Partiu a Ti Elisa, num dia assim,
De Fevereiro com cheiro a quaresma,
Promessa de uma Páscoa de aleluias.
Sabemos, todos sabemos, que há fim,
Porque a morte ao homem é a mesma
Soma final, total, da conta dos dias.
Foi irmã, criada, afilhada fiel,
Presença certa em quem confiar,
Companheira no espírito de missão.
No resumo final cumpriu o papel,
De mão a decidir, luz a iluminar,
Fazer da sua vida a do seu irmão.
Na vida temos isto como certeza
Ainda que a deixar máguas, penas:
Uma alma pode ser toda grandeza
Mesmo que por coisas tão pequenas.
27/02/2024
Poema à minha mãe
Eu queria fazer um poema
À minha mãe, à sua vida,
Da infância que não teve,
Do fulgor da juventude
À fraqueza na velhice.
Uma vida lógica, teorema
A provar a verdade vivida,
Sem temer porque não deve
Nada à riqueza ou saúde,
Nem mal que Deus visse.
Foi somente mulher de luta
Mãe de filhos que tantos são
Na diária freima da labuta
De lhes dar de si amor e pão.
No fim de tudo, tudo é vitória,
Numa vida vivida com sentido,
Na prostração, oração e glória,
De todo o modo, dever cumprido.
15/02/2024
Querer e poder
Dizem que basta querer para poder,
Mas que fazer quando se quer e não pode?
E ao homem, fazer o que não quer
Mesmo querendo não fazer, quem lhe acode?
Querer e poder, o antagonismo
Entre a vontade e possibilidade
De um resultado por si funesto;
O poder querer que o dualismo
Seja uno, anátena da divisibilidade,
Número perfeito, conta sem resto.
O poema aborda um dilema interessante sobre a relação entre querer e poder, explorando a tensão entre a vontade e a capacidade de realizar algo ou quando a razão prevalece sobre a vontade ou o contrário.
Também questiona a noção de que basta querer para poder realizar. Ele sugere que há situações em que se quer algo, mas não se tem a capacidade ou condição da sua realização, criando um conflito interno entre o desejo e a possibilidade.
O poema ressalta a dualidade entre querer e poder, destacando-os como forças opostas que muitas vezes entram em conflito. A vontade humana (querer) pode se chocar com as limitações da realidade (poder), criando um antagonismo que gera frustração e incerteza.
A expressão "resultado por si funesto" sugere que essa luta entre querer e poder pode levar a consequências inconsequentes ou mesmo negativas. Quando a vontade não é acompanhada pela capacidade de realização, pode-se entrar em um estado de impotência ou desespero.
O poema alude à ideia de que o ideal seria a unificação do dualismo entre querer e poder. Ele propõe a ideia de um "número perfeito" ou "conta sem resto", onde a vontade e a capacidade se tornam uma só entidade. Isso sugere uma busca pela harmonia e equilíbrio entre o desejo e a capacidade de realização.
Em suma, o poema oferece uma reflexão profunda sobre as complexidades da vontade humana e sua relação com a realidade circundante. Ele nos lembra que nem sempre podemos realizar o que queremos e que essa luta interna entre querer e poder é uma parte intrínseca da experiência humana, nas suas forças e fragilidade.
14/02/2024
Eternamente namorados
Num destino que Deus tece,
A idade, a vida, amadurece,
Mas antes da fruta, a flor,
Com ou sem perfume ou cor.
Desejo de abundância, prece,
Generosa a colheita acontece
Na prosperidade de cada dia,
Amor, na tristeza ou n´alegria.

















