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17 de novembro de 2022

Rio Uima







Velho e sempre novo rio Uíma

De lágrimas frescas do monte,

Num misto de alegria e mágoa,

Correndo sereno, todo encanto.

Das fraldas do Mó, logo acima,

Brota num bolhão dito de fonte

E nem sabemos se feito de água

Ou, tão somente, rio de pranto.


Rio Uíma, antigo e velho Uma

Vais sem pressa, sem fulgores,

A saciar amieiros e carvalhos

A tecer com fio de prata e ouro.

De Duas Igrejas até Crestuma,

Seja lá mais por onde fores,

Segues o caminho, sem atalhos,

Ao encontro materno do Douro.

14 de novembro de 2022

Dilema



Pensou com seus dourados botões

A bela fidalga Dona Ana Maria:

-Quero casar, ter filhos varões

Que perpetuem minha fidalguia.


- Neste dilema profundo fico

Entre D. Gil, glamoroso nobre,

Feiote mas poderoso de rico

Ou então Antão, bonito e pobre


Quem deles escolher p´ra casar

Com tão ilustre e fina donzela,

Se ao amor ou estatuto atentar?

Decisão ingrata de tal chancela.


- Sobra tempo e não tenho pressa!

Adiou a setença.- Fica pra depois!

Um dia, decidida, à coisa regressa

Resolvendo assim: - Fico c´os dois!

13 de novembro de 2022

O tempo e o vento

 


O vento é vento, Contratempo da brisa Alterada; O tempo é tempo, Sentimento que pisa A passada.
O tempo é o vento A soprar Enfurecido, em ronco Ou em murmúrio apenas; Ora a derrubar o tronco, Ora a afagar penas.
O tempo e o vento São a alma a esvair Num despreendimento Total da vida, Como um abraço lento, Na calma a resumir O descontentamento Da despedida.

Ilusão



De quem é o olhar que te espreita,

A boca que te sorri e beija,

As mãos que o cabelo te ajeita?


E quem o teu corpo macio deseja?


Serei eu? Mereço-te?

Quero manter a ilusão,

De que me queres a mim.

Mas se não, peço-te,

Não me digas que não,

Mesmo que não digas que sim.

11 de novembro de 2022

S. Martinho

Bom dia, este de tradição

Em celebrar o S. Martinho;

Logo com sol do seu Verão,

Fogueira, castanhas e vinho.

3 de novembro de 2022

A chuva e a ribeirinha

Esta chuva miudinha,

Parecendo que não molha,

Vai caindo boa, fecunda;

Bebe dela a ribeirinha

Sedenta na sua recolha

Quando o vale se inunda.


Corre, corre, ribeirinha,

Vai assim toda ligeira

Como prata feita num fio;

A chuva cai, vais cheiinha,

Numa correria de canseira

Ao encontro de maior rio.

2 de novembro de 2022

Movimento perpétuo

São já frescas as manhãs 

em Novembro,

Depois, deixado p´ra trás,

Virá Dezembro,

Com o Natal, mais adiante,

Apetecido;

O tempo corre em instante

Ressurgido;

A roda roda em todo o tempo

Sem se deter,

Num só perpétuo movimento,

A renascer.

O tempo tem tempo demais,

Não se cansa;

Com começo e fim iguais

Quem o alcança?

1 de novembro de 2022

Sessenta



Eis-me aqui, sereno, nos sessenta,

Se é que nisso haja importância;

Não mais que onda que arrebenta

Na dura costa da irrelevância.


Deixe-se, pois, que o mar do tempo

Se debata até que a falésia caia;

Virá depois, manso, em contratempo,

A espumar-se, sereno, na praia.

30 de outubro de 2022

Serra da Freita
















Há em toda a serra da Freita,

Um não sei quê de encantamento

Que nos extasia de cor, de luz;

Uma beleza singela, perfeita,

Um horizonte a planar no vento

Um seio farto que dá-se e seduz.

24 de outubro de 2022

O oleiro do tempo

Deixem-me, amigos, que vos diga,

O tempo, esse nunca volta p´ra trás,

Um ano, um mês, sequer um dia.

Os anos têm um peso que fustiga,

Que da frescura viçosa dum rapaz

Transforma-a em doce melancolia.


O tempo é assim, um laborioso oleiro

A moldar o barro de que somos feitos,

Inacabados desde o momento primeiro

Como vasos a girar na roda, imperfeitos.

21 de outubro de 2022

Quadro cinzento



No céu da velha Europa

Há névoas a amortalhar a plenitude

Da liberdade conquistada,

De cada homem, mulher, criança,

Como se toda fora vã a esperança,

A de viver, somente viver.

Já não há neste jardim a quietude

De uma rosa fresca cheirada,

De uma carícia desejada,

De um sol morno pela manhã,

De um retempero fraternal.

Há uma ânsia desmedida

A de ceifar a vida, a esborratar

A frescura de um desenho infantil,

Devastando as coloridas flores mil

Pintando um triste e vil excremento

Num quadro só de cinzento.

20 de outubro de 2022

Sem pressa



Que adianta ao homem ter pressa

Numa constante busca do incerto,

Quando, afinal, o que lhe interessa

É de si próprio estar bem perto?


A ânsia, perturbada, desmedida,

É uma névoa espessa de fatalidade,

Que num ápice nos absorve a vida

A devolver-lhe toda a efemeridade.


Um após outro, seja firme cada passo

Num caminhar sentido, de peregrino;

Não haja esmorecimento ou cansaço,

Mas tão somente o esperado destino.

19 de outubro de 2022

Maria levantou-se e partiu apressadamente

Como Maria, urge levantar

E partir apressadamente,

Para ao destino se chegar

Todo missão, plenamente.

Não fiquemos sós, parados

No meio da vã indiferença,

Tristes, vazios, cansados,

Mas antes de alma intensa.

Pés ao caminho, que é novo,

Importa partir p´ra chegar.

Os jovens serão esse povo

Num futuro já a despontar,

Vamos partir, bem depressa,

Somos jovens, povo, gente,

Com fé. Pouco mais interessa,

Importa é caminhar em frente.

Apressadamente, já eu decidi

Fazer o caminho na diferença;

Chegar e dizer:- Eis-me aqui!

Faz-me, ó Jesus, tua pertença!

14 de outubro de 2022

Náufrago do tempo

Eis-me aqui, todo em pleno mar,

Sem farol a guiar a porto seguro,

Sem barco, sem âncora, nem bóia

Em água temerosa.

Fugi, perdi-me para me encontrar,

Mais livre, solitário, mais puro,

Como quem busca tesouro ou  jóia

Mais rica, valiosa.


Talvez nesta imensidão ondulante,

Espelho da negrura da alma e céu,

Eu encontre uma rocha firme, a fé,

Que me resgate desta morte certa.

Serei então um solitário mareante

Digno, sereno, despojado de labéu,

Um novo e renovado homem Crusoé

No reencontro da ilha deserta.


Eis-me aqui, náufrago em verdade

Já com fundada, renovada esperança,

Porque passada a dor, a tempestade, 

Ressurge a doce e vindoura bonança.

Eis-me aqui, vivo, já fora do mar,

Seguro, mesmo que a noite caia,

Porque um homem pode naufragar

Mas dará sempre à sua praia

12 de outubro de 2022

Lugar do Viso


Quando à tardinha o sol se põe, dolente,

O lugar do Viso fica todo dourado,

Como se nele toda a sua gente,

De ouro o tivesse pintado.


Que benção, que graça, concerteza,

Prendar os olhos com esta vista;

Só mesmo do pincel da natureza

Sai um quadro de fino artista.

11 de outubro de 2022

Contentamento

Contentamento é sair pela manhãzinha

Ainda com o sol, sonolento, a levantar,

Seguir o caminho que dará a algum lugar

E ver a sair do ninho a doce avezinha.


Contentamento é beber no puro regato

A frescura prateada da sede consolada,

Sentir no bosque a sombra esverdeada,

Até mesmo acariciar o tojo no mato.


Contentamento é entrar no velho moinho,

Já nú, vazio, despojado da alma sem dó,

A moer uma doce compaixão naquela mó.

Como um velho entre paredes, sozinho.


Contentamento é mergulhar na limpidez

Da água fresca da mina na velha represa,

Sentar na erva do chão como se fora mesa

E, em merenda, saciar o suor outra vez.


Contentamento é subir ao outeiro no Outono

E aos prenhes ouriços, abrir-lhes as entranhas,

Encher os bolsos fartos de doces  castanhas

Porque dizem, se no caminho, não têm dono.


Contentamento, é afinal, ter tão pouco,

Bastando, não mais, que o poder sentir,

Que se tem tudo mas sem nada possuir,

Ser inocente, puro ou, porventura, louco.

9 de outubro de 2022

Guardador de tesouros



Canastro de espigas douradas,

Que te fez o tempo, amigo?

De chuvas, ventos e geadas, 

Foste fiel, fraterno abrigo.


E agora assim, velho, escorado,

Mas ainda seio de ouro a luzir.

És um viajante já alquebrado

Com o destino ainda a cumprir.


Já no campo não cantam as moças,

As desfolhadas já não têm eiras;

Envelheceu a aldeia, já sem forças,

Para outras novas velhas canseiras.


Velho amigo canastro, espigueiro,

Guardador de ouro, lingotes de milho

Guarda-o dentro de ti, companheiro,

Como um pai a proteger um filho.

8 de outubro de 2022

Ciclo do tempo - Lugar do Viso

Num sossego materno, matinal,

Há no Viso um ninho sentido

Onde o pássaro guarda o ovo.

Foi-se a festa, já aí o Natal,

E o tempo a correr, desmedido

Na pressa de recomeçar de novo.

7 de outubro de 2022

Desconsolo

Quando uma alma vive perturbada

Sem noite, sem cama onde se deite,

Sob uma luz mortiça quase apagada

Como lamparina já sem o azeite,

Tudo é tristeza e dor, um vazio.

Melhor seria não ter nem ser nada,

Como mãe estéril, seca, sem leite.

Talvez nessa pobreza assim reclamada

Encontrasse o louco algum deleite

Ainda que sem consolo, murcho e frio.

5 de outubro de 2022

Noite



Chega a noite e a aldeia cega,

Sem dissipar esta melancolia,

De um caminho envolto em treva

Até que a luz rompa a fazer dia.