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10 de agosto de 2022

Fingir é preciso

É por demais conhecida a parte do poema "Autopsicografia" em que Fernando Pessoa diz que:

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

Ora este fingimento em Pessoa, que lhe é reconhecido, é mesmo para levar a sério. Senão vejamos: Desde logo o recurso aos seus heterónimos como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares, em que cada um é uma personalidade própria.

Depois, para lá de tudo, da poética e da linguagem, um exemplo concreto desse fingimento, e dele a contradição descarada e comprovada: Como Bernardo Soares, no "Livro do Desassossego", diz que:

"Porque é bela a arte? Porque é inútil. Porque é feia a vida? Porque é toda fins, propósitos e intenções."

O mesmo Pessoa, in "Ideias Estéticas da Arte", diz que:

"Só a arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes- tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte se vê, porque dura."

Ou seja, resumindo o fingimento, Fernando Pessoa, dá uma no cravo e outra na ferradura. Vê e julga a arte com a mesma desenvoltura e contradição filosóficas,  considerando-a agora "útil", e logo como "inútil".

Pessoa julga bem. O jogo de palavras, ideias, metáforas, sentimentos, analogias, etc, etc, não tem que brotar do real sentimento do poeta nem da sua coerência. Se assim fosse, era um desgraçado à deriva num mar revolto em constante turbilhão de sentimentos e emoções. 

Fingir, pois, é preciso!

2 de junho de 2022

Ao Zé Coelho


Velho amigo, Zé Coelho,

Chamou-te, Deus, agora,

Clamando-te como pertença;

Sentiu que estavas velho

Achando chegada a hora

De te ter em Sua presença!


Viajaste, correste mundo,

Num vai-e-vem de canseira

Agarrando os cornos da vida;

Nesse viver duro, profundo

A morte surgiu derradeira

A reclamar a tua despedida.


Mas ainda ficas por cá,

A viver na nossa memória,

Bem alto como uma torre;

A tua passagem não foi vã

Teve honra, teve glória,

Teve vida que não morre.


Partiste, simples, sem nada

Sem malas, sem a guitarra,

Rumo ao porto da santidade;

Ficamos nesta dor chorada

Que nos prende como amarra

Ao cais da sentida saudade.


Mas virá em nosso mar a maré

Em que um a um todos iremos

Ao teu encontro, a esse além;

Até lá connosco vives em fé

Porque com ela bem sabemos

Que continuas a viver, e bem!


Adeus, velho amigo!

30 de maio de 2022

Paz interior



Tanta canseira afadiga o homem

Além de tudo quanto diz e faz;

Coisas fúteis que o consomem

Quando, afinal, lhe basta a paz.


Esse afago de mansidão interior,

É, afinal, o bem mais precioso:

Desperta sereno o negro turpor

De um viver triste, só, doloroso.


A paz calma como bem supremo,

É como lago na placidez da água,

Em que apenas o doce bater do remo

O desperta à vida, o viver sem mágua,


Homem, pára! Afrouxa esse fragor

Medonho de todos os teus rios

Feitos de água de lágrimas e suor

E dá-lhes a calma dos vales macios


A.Almeida

28 de maio de 2022

Luz de Maio

Não! Não há luz como a de Maio

Porque límpida, desenevoada,

Quase um esplendor em ensaio.


Nasce na manhã fresca, solteira

Como noiva bela, perfumada

No seio em flores de laranjeira.


Ao poeta tão pouco lhe basta

Mas Maio, farto, dá-lhe tanto

Chegando a sobrar inspiração.


Então a palavra sai pura, casta,

Num devaneio de singelo encanto

E dela o poema brota de emoção.


A. Almeida

26 de maio de 2022

Recuar no tempo



P´los caminhos da minha aldeia

Percorro paisagens de infância

Captando o tempo com o olhar.

Renovado, de alma plena, cheia,

Volto aos montes numa ânsia

De rever lugares... recomeçar.


Quem dera que o tempo, teimoso,

Atrás voltasse, por instantes,

Como num sonho dormente, feliz;

E pudera, então, infantil, viçoso

Rever coisas e rostos radiantes

Repetir tudo quanto de bom fiz.


A. Almeida

23 de maio de 2022

Segunda-Feira

Ó Saudosa e fugidia Segunda-Feira,

Sejas bem-vinda ao ciclo infernal

Daqueles que do trabalho penam.

Não temas, chega-te aqui, à beira,

Sê na nossa carne o tempero de sal.

E que se fodam os que te condenam!


Segunda-Feira, linda, deslumbrante,

Fada madrinha, bruxa, ou feiticeira,

Bela sereia no teu rabinho de prata,

Deixa que em ti todo eu me encante

No retomar desta benfazeja canseira

Porque o fim-de-semana, esse mata!


A. Almeida

19 de maio de 2022

Desespero

Desci já ao poço mais fundo,

Negro, frio, de uma tristeza sem fim;

Corri no alvoroço do mundo,

Cego, vazio, numa palidez de marfim.


Assim triste, indolente, sem vida,

Um mar de dúvidas logo se agiganta;

O caminho torna-se beco sem saída

E dele tentar fugir, que adianta?


Mas nessa lassidão de má sorte

Que nos tolhe, mutila, emudece,

Talvez ainda, por última prece

Venha o prémio, a paz, a morte.


A. Almeida

16 de maio de 2022

Lugar do Outeiro


O lugar do Outeiro é varanda

Onde a vista ao longe alcança

O verde vale da linda ribeira;

Doce contemplação que abranda

O tempo numa lentidão mansa,

Sem pressa, fadiga ou canseira.


É a torre mais alta, a ameia,

De um alto castelo de fantasia,

Sentinela desperta na aurora;

Dali, a alma fica mais cheia

Da frescura ou do calor do dia

Duma  aldeia que plena se aflora.


A. Almeida

Pés ao caminho

Pés ao caminho, 

toca a andar!

Em companhia ou sozinho, 

Importa caminhar!


Olha o casario,

A verde colina,

A ponte, o rio;

A fresca menina.


A velhinha quebrada

Pelo peso da idade,

Quanta vida andada

Desde a mocidade?


Importa caminhar, 

De olhos cheios 

De azul e verde

E pó no sapato.


Até a ave a voar,

Com seus chilreios,

A matar a sede

Desce ao regato.

25 de abril de 2022

25 de Abril

 


Do meu livro "Palavras Floridas":


A revolução saíu à rua,

Num grito sufocado,

Mas libertado

Pelo querer.

A seiva da liberdade,

Na aurora da Primavera,

Jorrou fecunda

E as armas floriram cravos,

De vermelho e verde,

Natureza desfraldada

Como bandeira,

De novo erguida,

A anunciar

Portugal.

14 de abril de 2022

Bora lá, borra cá

Por tudo e por nada,

Por esta palha dá cá,

Já é frase cansada,

O "malta, bora lá!"


Apetece dizer; -Basta!

De tão foleiro que soa.

Já cansa de tão gasta

Porque se diz tão à toa.


Não que não se possa,

Dizer a interjeição,

Mas, assim, faz mossa

Na fala da perfeição.


Pois, bora lá, isto!

Pois, bora lá aquilo!

O borá lá, está visto,

Vende-se, e bem, ao quilo.


De tanto falar, bora lá,

Calão usado e abusado,

Por borá lá, por borra cá,

Ainda se acaba borrado.


Vá lá, só mais um bora, lá!:

Pronto! bora lá! Acabou!

Já, pois, não está cá

Quem tal coisa assim falou.

Paradoxo existencial

E quem não sonha, acordado,

De olhos fixos, luzentes,

Ou quem não viaja, parado,

De pés cansados, dormentes?


Somos o que não somos, até,

Que sejamos o que quisermos:

Deitados, morrendo em pé,

Alevantados, no chão enfermos.

Ao Senhor do Bonfim


Ali, na capelinha sobranceira

Ao regato que embaixo passa,

Está Jesus, o Senhor do Bonfim;

Porque numa prece derradeira,

Em alcançando tamanha graça

Alguém lá a fez, simples assim.


Quando a fé ao divino se abraça

O Homem toma-se de tal coragem,

Mas poucos  sabem porque  o foi;

Dizem que por atendida a graça

De um bom fim em penosa viagem,

Ou por resgatado à morte um boi.


A. Almeida

13 de abril de 2022

Peregrinar



No bucolismo verde de antigos caminhos

Percorro com sede  memórias passadas;

Eu e minha alma, avançando sozinhos

Sem que nos acossem as almas penadas.


O caminho, diz-se, faz-se caminhando,

Com o passado atrás e futuro adiante;

Mas, que estranho, se recuo avançando,

Com o tão perto, lá atrás, bem distante.


Importará ao homem, a cada momento,

Por os pés ao caminho, enfim, caminhar,

Indo ao encontro como santo peregrino;


Nesse caminhar solitário, benfazejo,

Há rosto e lábios à espera de um beijo

Há uma vida e depois morte por destino.


A. Almeida

10 de abril de 2022

Luz e escuridão

 


Entre ramos de oliveira,

De verdes palmas juncado,

Envolto pela multidão,

Entra em Jerusalém, Jesus.


E dessa euforia primeira,

Em louvores aclamado,

Foi dado na condenação

À dor e morte na Cruz.


Que dia este, meu Senhor,

Fundo e denso turbilhão,

Em que da luz do esplendor

Te condenaram à escuridão.



Américo Almeida - Domingo de Ramos - 10 de Abril de 2022

1 de abril de 2022

Livros

Não sei quantos livros tenho,

De romance, aventuras, poesia,

Realidade ou simples quimera,

Nem os quero contar, confesso.

Sei quanto deles muito obtenho,

Como aconchego em noite fria,

Ou braços abertos na espera

Por alguém perdido em regresso


Mas tenho muitos, centenas,

Um oceano de páginas revoltas

Em ondas de prosas e versos

Que fustigam o barco do meu ser.

Mas dez que fossem, apenas,

Seriam aves livres, bem soltas,

Pensamentos densos, dispersos,

Convergentes no impulso de ler.


Não sei, nem saber isso me empenho,

Nem vontade nem  querer me assaltam,

Mas mais que saber os que tenho

Choro e lamento os que me faltam.


A. Almeida

31 de março de 2022

Rebentou o balão


Há quem case por amor.

Dinheiro, ou interesse;

Por mais seja o que for

Promessa ou até prece.


Mas isto de por tal casar,

Foi já chão que deu uvas

Agora é mais o ajuntar

Qual mãos justas nas luvas


Se no Inverno sabem bem,

Já no Verão, nem por isso;

Postas de lado por vintém

Lá termina o compromisso.


Casa, descasa, casa, descasa,

Como norma já tida em conta

É o fazer da coisa tábua rasa

Ambos, cada um, barata tonta


Pobre, ou  triste casamento,

Teste, prova, experimentação;

Logo ao simples contratempo

O castelo de cartas vai ao chão.


E lá partem e repartem,

A pior parte a cada um;

Com má sorte ou sem arte

Rebentaram o balão! Pum!


Américo Almeida

28 de março de 2022

Cerejeira florida

Tenho no meu quintal uma cerejeira,

Que por Abril se veste de florido

Numa alvura celeste, quase divinal.

As abelhas à sua volta em canseira

Sorvem o pólem por ela oferecido

Num banquete de partilha fraternal.


Mas a cerejeira, a tal do meu quintal

Tem esse defeito ou efeito, eu sei lá:

Mil flores e pouco mais que se veja.

Mas entendo-a e nem tal tomo a mal,

Por essa vaidade florida mas quase vã

Se ao menos me der, uma só, cereja.


Américo Almeida

Ciclo


Numa manhã plena, Primavera,

A árvore desperta e floresce,

E dessa fria e longa espera

A magia do fruto acontece.


Mas se o tempo é contratempo,

Não passa a flor de vã promessa.

Virá seco o Verão e sedento,

O adormecimento, e tudo recomeça.


Como seres feitos, imperfeitos,

Parece-nos este acto tão injusto:

Ver na natureza os seus defeitos

Por uma flor ser só ela, sem fruto.


A natureza, porém, tem este preço,

Uma roda de morte e vida, assim,

Em que há tempo para o recomeço,

Até que se cumpra o derradeiro fim.


Américo Almeida

26 de março de 2022

Hino de glória


Em meio século tanta coisa mudou

Numa vivência livre, sem cela,

Ali, na sombra solene da capela,

Ponto de partida do quanto sou.


Tanta coisa coisa já desaparecida:

As crianças, o recreio, a escola,

O monte livre, rude campo da bola,

Os grilos na toca na relva escondida.


Mas há a sombra do velho sobreiro,

Figura austera, dono desse monte,

Confidente, amigo, ou só companheiro.


Mas do tempo já passado a memória,

Embalada no canto da fresca fonte,

Ressoa no presente em hino de glória.


A. Almeida