" Eu e a minha aldeia de Guisande: Humor" "" Eu e a minha aldeia de Guisande
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27/07/2026

Crónicas do Viegas - Por causa de um 7


O Viegas já teve empregos de toda a espécie. Há alguns anos que trabalha na Agência EXCELCIA. Nem ele sabe explicar muito bem o que aquilo é, mas, quando lhe insistem, responde que se trata de uma prestadora de serviços nas áreas da solicitadoria, contabilidade e afins, onde tanto se trata de assuntos muito finos como de outros bem mais manhosos.

Tanto trata da escritura de compra e venda de um prédio, de um automóvel ou de uma carroça, como trata de licenciar um galinheiro na Câmara, renovar uma carta de condução ou redigir uma intimidação, com ares de parecer jurídico, ao vizinho cujo cão ladra demais ou cujos gansos grasnam sem respeito pelo descanso alheio.

Talvez por esta versatilidade, a agência goza de boa reputação e de uma carteira de clientes tão variada que vai de patrões a empregados, de empresários a pedintes e, segundo dizem as más-línguas, até de alguns chulos do sistema, que constantemente precisam de papeladas, requerimentos, comprovativos e certidões.

Quanto ao nome, EXCELCIA, foi uma invenção do Francisco Frazão — Doutor, como faz questão de ser tratado, apesar de o único diploma conhecido ser o nono ano tirado nas Novas Oportunidades. Na sua brilhante teoria de marketing, o nome resulta da fusão do Excel, pelas extraordinárias capacidades de cálculo e organização de dados e com a CIA, a agência de inteligência norte-americana, pela discrição com que afirma tratar os assuntos e pela alegada capacidade de investigar — ou, como ele prefere dizer, "obter informação privilegiada" — sobre a concorrência.

O Doutor Frazão gaba-se de ter "amigos" em todo o lado: Finanças, Conservatórias, Câmaras, Loja do Cidadão, Notários... Gente que lhe abre portas, acelera processos e atende telefonemas antes dos outros. Também cultiva uma criteriosa rede de restaurantes onde, entre um bacalhau e uma vitela assada, se "descomplicam" certos assuntos administrativos e se alimentam amizades muito úteis, relembradas com consoadas pela Natal e folares pela Páscoa.

O Viegas, por seu lado, é um funcionário raro. Escreve bem, argumenta melhor, domina informática, programação e praticamente todas as ferramentas de escritório. Tem ainda outras habilidades que nem o próprio patrão conhece — e talvez seja melhor assim. Por isso, apesar das frequentes discussões, o Doutor Frazão não prescinde dele.

Aliás, o Viegas já foi despedido centenas de vezes. E readmitido outras tantas... sempre antes de conseguir sair do gabinete do chefe.

Foi precisamente numa dessas habituais "lutas de galos" que aconteceu o episódio seguinte.

O Viegas estava absorvido na elaboração de uma defesa contra uma coima aplicada pela Câmara ao Zeca da Bernarda, que resolvera altear o muro confinante com o terreno do vizinho Simão. Este, mal deixou de poder observar a vizinha a apanhar banhos de sol no relvado, tratou logo de apresentar queixa. A Câmara, sempre diligente quando se trata de fiscalizar muros, galinheiros e capoeiras — embora frequentemente acometida de estranha miopia quando os requerentes são autarcas, doutores, engenheiros ou gente de respeito — enviou prontamente um fiscal que, cheio de zelo e autoridade, lavrou o auto de embargo sem pestanejar.

Nisto toca o telefone interno. O Viegas suspirou.

— Outra vez...

Atendeu.

— Sim, doutor?

Do outro lado ouviu-se aquele tom de voz que anunciava tempestade.

— Ó Viegas, tens aqui uma argolada no requerimento que fizeste para o Dr. Saraiva!

— Uma argolada? Então o que foi?

— No número do processo! Escreveste 779/2024. O processo é o 79/2024!  Tens aí um sete a mais!

— Bem... escapou-me. As teclas são sensíveis... carreguei uma vez a mais.

— Ó Viegas, sensíveis são os clitóris! Tens de ter cuidado! Isto não pode acontecer!

— Ok! Tem razão, doutor. Desculpe. Corrijo e imprimo já outro.

— Fazes já outro? O Dr. Saraiva já assinou! Queres que eu vá incomodá-lo outra vez para lhe dizer que a EXCELCIA meteu água? Temos um prestígio a manter!

O Viegas respirou fundo.

— Então... não dá para tapar o primeiro sete com corrector líquido?

A resposta saiu imediatamente.

— Ó Viegas, foda-se! Achas que vou andar a pintar requerimentos? O Dr. Saraiva é picuinhas! Aqui trabalha-se com rigor! Profissionalismo acima de tudo!

O Viegas começou a achar que toda aquela solenidade era muita parra para pouca uva. Já sabia do que a casa gastava.

— Está bem. Então o que quer que faça? Ligo ao Dr. Saraiva e explico-lhe a situação e certamente ele compreenderá?

— Não! Nem pensar!

Fez uma pausa teatral.

— Imprime outro,  e corrigido traz-mo cá. Como sempre, tenho de ser eu a resolver estas coisas.

— Mas... como é que vai resolver?

O Doutor Frazão terá sorridocom aquele ar de quem revela um segredo de Estado.

— Sabes que nestas coisas não dou milho a pintos. Vou à mesa de luz... e copio a assinatura do Dr. Saraiva. Pronto!

E desligou.

O Viegas pousou lentamente o auscultador.Não ficou propriamente surpreendido. Conhecia demasiado bem os talentos ocultos do patrão e as suas formas complicadas de resolver coisas fáceis. Mesmo assim, não resistiu a concluir:

— Foda-se... corrector líquido nem pensar, porque isso atenta contra o rigor profissional... mas copiar a assinatura já faz parte do controlo de qualidade. Olha-me este!

Dias depois, o Dr. Saraiva apareceu na agência e a Ana, a boazona da secretaria, entregou-lhe o requerimento já carimbado pela repartição.

Quando o velho cliente olhou para a assinatura durante alguns segundos, franziu o sobrolho e, num raro momento de boa disposição, comentou:

— Ó Frazão... o "S" da minha assinatura ficou hoje muito coninhas. Eu faço-o muito mais largo e fluido. Tremeu-lhe a mão?

O Doutor Frazão lançou um olhar fugidio ao Viegas, engoliu em seco, mas recompôs imediatamente a pose e respondeu:

— Ó Sr. Doutor, olhe que não! Olhe que não! Aqui trabalha-se com rigor, seriedade e profissionalismo. Além disso, sabe perfeitamente que duas assinaturas nunca saem rigorosamente iguais. Pergunte aos entendidos nessa coisa da caligrafia...

Fez uma pequena pausa, muito seguro de si e rematou:

— Exactamente iguais, só nas fotocópias!



[ilustração: IA]


26/07/2026

Crónicas do Viegas - O Cagão


O Viegas é um rapaz maduro, que já não é novo nem velho, antes pelo contrário. Ainda não está na reforma nem tem pressa de envelhecer, mas, como, verdade se diga, já não falta muito, começa a ter inveja dos amigos Jorge Brandão e Alcino Ferreira que, em plenas férias, passam os dias entre passear o cão, hidroginástica, futebol a caminhar e matinés dançantes, entre outras actividades com que o município procura entreter os seniores, eufemismo para os velhotes. E são tantas que já é escusado tentar marcar com eles um jantar ou uma saída sem que isso lhes perturbe a agenda.

A propósito, ainda há dias a Silvana, que não tem papas na língua, soltou:

— Foda-se! Esta gente que já está na reforma agora não tem tempo p'ra nada, nem para limpar a casa. É piscina, é dança, é ginástica, é pintura, é isto, é aquilo, é o caralho! Arre! Não é para mim! Reforma é sem estar a fazer a ponta dum corno!

Passe o exagero e, matutando com ares de sério, a desbocada da Silvana até tem razão. Estes nossos reformados, que ainda têm força nas canetas, ninguém os apanha em casa.

Retomando o fio à meada, o Viegas tem algo de especial e, se no geral todos lhe reconhecem capacidades e inteligência, há nele coisas que só ele sabe e de que desconfia, para si próprio, serem um dom. Não um superpoder, como daquela malta dos filmes em collants, como o Super-Homem ou o Homem-Aranha, mas algo que ultrapassa o instinto, quase como uma capacidade sobrenatural: a de ver o passado e adivinhar, ou prever, o futuro.

E sabe disso desde que, na primeira classe, quando na hora do recreio viu o Soutinho abaixar as calças, pôr-se de cócoras e arriar o calhau atrás de um pinheiro. Mas de forma tão descuidada que, às tantas, sem se aperceber, o cagalhão caía meio no chão, meio nas cuecas. A professora chamou para dentro e ele, de um salto, mal teve tempo para limpar o cu e puxar as calças remendadas de quadrados.

Num instante, o Viegas adivinhou o que se ia passar. Logo que o cheirete a merda inundasse a sala, com queixas do pessoal das cadeiras do fundo, vizinhos do repetente Soutinho, a mestra soltaria a cana preta de bambu na cabeça do desgraçado malcheiroso e, num instante, alterava-lhe o ângulo das orelhas, que escorriam sangue, enquanto era posto fora da sala, com a recomendação severa de ir a casa lavar-se no tanque e mudar de roupa.

E foi exactamente assim. Dali a nada, o Soutinho, acompanhado de moscas, galgava pelo monte abaixo.

Já no fim da aula, regressava a casa o Viegas e, de novo, a sua cabeça foi inundada por uma visão do que ia acontecer no dia seguinte: a mãe do Soutinho a arrastá-lo à escola, agarrado-o pela orelha ferida, a pedir desculpa à professora e contando que, logo que ele chegou a casa fedorento e lhe contou o que se passara, metera-o dentro do tanque e lavou-o por dentro e por fora, como quem lavava tripas de porcos para fazer chouriças. E que a professora não lhas poupasse, porque ela, a mãe, já as tinha acrescentado. E que se livrasse de o pai vir a saber, porque então as contas eram a dobrar.

Pobre Soutinho. Acabrunhado no fundo da sala, já a cheirar a rosmaninho, não se livrou, contudo, da crueldade dos colegas, que doravante passaram a chamar-lhe «o cagão», enquanto reforçavam o título com os dedos a apertar o nariz. Ainda hoje, pelas costas, lembram-se entre riso: - Olha, lá vai o Cagão!

Certo é que o Soutinho, no fundo bom rapaz, fez-se homem, andou por Franças e Araganças e hoje até é o sogro do excelentíssimo senhor presidente da Junta de Vale de Azeiteiros. Ele próprio, desconhecendo a alcunha do sogro, é apelidado pelos opositores, pela sua vaidade e presunção, de «o cagão».

Vá saber-se estas coincidências da vida e das suas voltas.

Mas, retomando a coisa, foram esses os primeiros lampejos de algo sobrenatural do Viegas.

Ora, estas suas capacidades, que ainda hoje não consegue explicar a si próprio, são muito mais do que intuição, mas, para o bem e para o mal, têm marcado toda a sua vida. Destas singularidades resultam muitas das crónicas de memórias do Viegas.

Voltaremos a elas? Talvez!


[ilustração: IA]


18/06/2026

Ainda faltam muuuuuuuitos jogos


Por estes dias, os nossos políticos, criticando-se mutuamente, fartaram-se de usar analogias envolvendo futebol, a selecção portuguesa e Ronaldo. Desde o primeiro-ministro ao chefe da segunda equipa da oposição, passando pelos partidos insignificantes, ninguém resistiu, como as marcas a explorar a publicidade.

Pegando na deixa, com este tipo de jogo e qualidade técnica, nem na 3.ª divisão regional estes artistas políticos teriam lugar. Talvez num jogo entre mal-casados e solteirões.

Quanto ao jogo da selecção, que, diz quem viu, foi um fantástico treino na praia, numa pura demonstração de ignorar a baliza, vamos ter esperança na malta e em Ronaldo e desejar que daqui a 4 anos ainda seja ele e mais 10. Além do mais, fomos campeões europeus sem jogar um caralho com empates e desempates.

Devemos, pois, pela amostra contra a potência congolesa, estar no caminho certo para sermos campeões do planeta, para além de que, segundo os jogadores no final da partida "ainda faltam muitos jogos". Como quem diz, sendo hoje Quinta-Feira, ainda faltam muitos dias para o fim-de-semana. 

11/05/2026

No mínimo, uma taça...

Um clube de futebol de topo, já consagrado campeão nacional, que venceu com justiça (e muita azelhice dos principais adversários), mas  que na penúltima jornada perde de forma categórica com o clube último classificado e já despromovido à divisão inferior, no mínimo deveria ter direito a uma taça dourada a lembrar esse feito. Não sendo inédito, não é para qualquer um. 

Tendemos a valorizar os grandes feitos, mas é injusto que os enormes defeitos sejam esquecidos. Também eles têm o seu quê de poético.

Quanto ao Benfica, depois de uma época miserável, mesmo depois de ter perdido a hipótese de conseguir o 2.º lugar, importante apenas pelo lado monetário, arrisca-se a ficar em 3.º sem perder qualquer jogo. Se a concretizar-se, também a merecer uma taça pela mediocridade invencível.


31/03/2026

O triângulo das Bermudas nos Quatro Caminhos


Em 8 de Agosto de 2023 escrevi por aqui:

"Não sei o que tem de apetecível a zona dos Quatro-Caminhos para que quase todos os anos seja varrida por incêndios. É certo que aquela mancha sem casario, que descontinua os lugares da Gândara, Leira, Estôse e Azevedo é propícia a que a bandidagem use o isqueiro e dê de frosques facilmente sem que sejam detectados. Mas que há ali coisa, há, e lembro-me a propósito do que acerca de coisas do outro mundo dizia a minha bisavó quando há muito e muito tempo ali passava, quando a acompanhava a casa do Ti Alexandrino no lugar de Azevedo. Também, pelo que vi já hoje de manhã, com o mato ainda a fumegar como se acabado de assar sardinhas, dinheiro em limpeza na margem da rua foi coisa que o dono não gastou. Tudo ajuda."

Tem 3 anos esta escrita, mas depois disso voltou a arder. Ontem, 30 de Março de 2026, novamente o mesmo circo. Objectivamente, anda por ali um qualquer incendiário que tem uma paixão por ver arder aquela zona. Creio que em mais algum local do nosso concelho são tão recorrentes os incêndios num tão pequeno espaço como este. Deve ser caso de estudo, quiçá a envolver especialistas judiciais, psiquiatras, entendidos em alienígenas, óvnis, bruxedos e coisas do além. Ou, porventura, apenas somar 2 + 2.

Bem aproveitada a coisa, podemos dizer que temos ali um enigmático "Triângulo das Bermudas", onde até a chover há incêndios.

10/03/2026

Retrete que se preze...

 



Retrete que se preze tem uma sanita. E cerveja...Cergal, que não faz bem nem mal!

09/03/2026

Ai, ai, IA


A IA veio, de facto, fazer luz sobre as trevas. Num piscar de olhos, num estalido de dedos, o mais inapto, medíocre ou incapaz transforma-se num talentoso artista, num descobridor da pólvora e das virtudes da concentricidade da roda.

Onde antes era só negrume, agora há luminosidade a rodos; onde havia azelhice, agora sobra mestria; onde escasseava a sensibilidade, agora crescem e multiplicam-se obras de arte no design, nos cartazes, na música, na poesia e na escrita em geral.

De muitos que não sabiam distinguir ovos de obos, trocando os "ves" pelos "bes", fazendo sujeira entre detergente e deterjente, confundindo perspectiva com prespectiva, agora tudo é perfeição, rigor e fluidez gramatical e ortográfica.

Bendita e louvada sejas, IA, que vieste trazer luz à escuridão e esperteza aos nabos. O mundo está um pouco mais instruído, mesmo que com os mesmos nabos. 

Ai, ai, IA!

Dizem que vai ficar assim...









06/03/2026

O papel do papel de jornal


Aprecio, gosto e sou fã da obra do artista Alexandre Manuel Dias Farto, dito Vhils. Um excelente e talentoso artista de arte contemporânea.

O agora falado retrato, de sua autoria, do presidente da república, de saída de Belém, está dentro da sua  linha plástica. Mas, no que se pretende do retrato da mais alta figura do Estado, não gosto. Não tinha que seguir a linha mais clássica ou conservadora de um Columbano ou Henrique Medina nem um borra telas como Pomar, mas era escusado uma tão grande ruptura. Com jeitinho, teria sido composto com materiais recolhidos no lixo.

Mas, pensando melhor, é bem ao estilo de Marcelo: Mais preocupado pela forma do que pela substância, fazendo do seu umbigo o centro do universo. Espalhafatoso, muito para os média, para as redes sociais, bem ao estilo do papagaio, fala-barato, em que se transformou, sobretudo no segundo mandato. Ficará para a história como o presidente de e para as selfies, em calções de banho e a chupar um gelado.

Um presidente nos nossos dias tem de ser, obviamente, próximo, afectivo e efectivo, atento, uma voz que se faça ouvir e respeitar, mas desvaloriza-se, rebaixa-se, indignifica-se quando se trona popularucho, banal, um influencer no pior sentido.

Mas isto é apenas uma opinião, outros considerarão o contrário, e estamos todos bem. 

Mas insisto, um presidente da república não tem de ser rígído, austero, como Cavaco, cinzento e partidariamente subalterno como Sampaio ou prepotente e espalha-brasas como Soares, mas com o formalismo equilibrado e que, sobretudo, seja uma figura respeitável, que respeite e se faça respeitado. O velho ditado que o "respeitinho é muito bonito" ainda faz sentido. Não fosse isso, e então mais valia eleger o Tino de Rans, o Ena Pá 2000 ou o Batatinha. Iria dar ao mesmo.

Voltando ao retrato, não gosto no sentido da finalidade, mas, porque de encomenda, em nada surpreende e está ao nível do retratado. Afinal bem sabemos o papel que o papel de jornal teve em tempos em que o dito higiénico era luxo de cuzinhos de ricos. É, pois, um respeitável papel e merece estar na galeria de Belém.

Não havia necessidade, é certo, mas os tempos recomendam que se goste e se exalte. A fábula do "rei vai nu" ainda tem peso. Muito peso.

24/02/2026

Há quem vá ao "Barrigas"; Há quem vá ao "Fidalgus"

Quase todos, eu e os que gostam de, pelo menos de vez em quando, ir almoçar ou jantar a um restaurante, já passaram por isto: Por vezes, relativamente próximos, em tempo e distância, dois mundos parecem colidir: Num local, o restaurante "Barrigas do Povo": sem peneiras, sem guardanapos de pano, um bacalhau, à casa ou à "liberdade", que precisa de dois pratos para caber, um vinho da região honesto e uma conta que nos faz sair a sorrir, mesmo com entradas, saídas e o habitual "cheirinho". Ainda a pedir um saco para levar as sobras para o cão ou mesmo para uma refeição no dia seguinte.. 

Noutro sítio, o "Fidalgus", com fundo musical suave, decorações estilosas: aí, uma dose que parece uma amostra grátis, uma lasca de bacalhau solitária no meio de um grande prato, pintalgada por azeite ou molho inglês, uma qualidade que, para além do estilo, não deslumbra de todo, e no final uma conta que parece o orçamento de defesa de um pequeno país. O vinho que sabemos que na loja do Pingo Doce custa 4,00 euros, ali não se contenta a custar, compreensivelmente, 10, mas 20 euros. Se for um Giroflé ou Giroflá, coisa de autor, ui, ui!

O mistério, diga-se e em boa verdade se esclareça.  não é só gastronómico, antes sociológico. Senão, vejamos: O "Imposto de Vaidade" - Por que é que no "Fidalgus", se a comida , não sendo pior, não é seguramente melhor? Quiça com umas pétalas de rosas, umas raspas de cenoura e duas folhinhas de beldroegas? A resposta é simples: o cliente não está ali para comer. O que está na mesa é um acessório, como um relógio de marca ou uma mala que custa mais que todo o dinheiro que nela se consiga meter dentro. O preço inflaccionado não é um erro de cálculo do dono ou do empregado de mesa; é apenas um filtro social, de estatuto, de diferenciação.

Num mundo (digamos, pelo nossa zona) onde qualquer um pode comer bem por 20 €, o verdadeiro luxo, para alguns mais abonados ou com reformas de médico ou professor, é pagar 50 € por algo parecido, apenas para garantir que o vizinho da mesa do lado tem o mesmo extracto bancário (ou, pelo menos, a mesma pretensão). É o chamado consumo conspícuo: a arte de gastar dinheiro para sinalizar que se tem dinheiro. Por regra, a ementa funciona apenas como um guião teatral.

Na verdade, no "Fidalgus", a dose é, regra geral, minimalista, apelidade de "gourmet", inversamente proporcional ao ego. Quanto menos comida houver no prato, mais "sofisticado" o cliente se sente. Afinal, comer até ficar satisfeito é coisa de quem trabalha no duro, de um qualquer trolha ou pedreiro; a elite, essa prefere a "experiência" da fome, do gourmet, da "comida de autor", seja lá que caralho isso queira dizer.

O vinho: É o mesmo que custa 4 € no supermercado, mas aqui, baptizado pela iluminação ambiente e por um escanção que nos olha de cima, que saca a rolha, e cerimoniosamente dá a provar e a cheirar, passa a valer 30 ou50 €. E o cliente paga, não pelo sabor, por vezes até a saber a rolha como um qualquer Malaquias, mas pelo som da rolha a saltar num sítio onde "toda a gente" o vê, num gestual teatral, de especialista, a percebe der "terroir".

O paradoxal da realidade: O mais irónico é que muitos destes clientes nem sequer têm o estatuto que tentam comprar. São os aspiracionais. Pagam o bife duro e caro com o cartão de crédito no limite, apenas para poderem dizer, no dia seguinte, que "estiveram lá". É uma espécie de masoquismo social: sofrem no estômago para brilhar na conversa de café ou nas redes sociais. Não falta gente dessa.

Enquanto isso, por vezes em local próximo, o cliente "esperto" mas ruidoso, delicia-se com um lombo de bacalhau suculento ou com um bife à Zé de Ver. E cebolada à fartazana. E queijo com marmelada, ambos fatiados sem cerimónia ou facas da Tramontina.

Conclusão: Qual é a sua fome? No final do dia, a restauração divide-se em dois tipos de serviço: os que alimentam o corpo e os que alimentam a vaidade. Mais ou menos isso.

Se procura qualidade e quantidade, siga o cheiro da comida boa e o barulho das pessoas satisfeitas, mesmo com algumas moscas no ambiente, toalhas e guardanapos de papel. Se procura sentir-se "superior" enquanto mastiga um bife médio, prepare a carteira. O estatuto tem um preço, e normalmente, esse preço é uma má digestão e uma conta pesada. Mas nada que não se aguente. Afinal, o estatuto paga-se.

A pergunta que fica é: da próxima vez que sair para jantar, vai levar o seu paladar ou o seu currículo?

Segue-se uma tabela toda bonita que compara ambas as experiências:

Característica Restaurante "Barrigas do Povo" (20 €) Restaurante "Fidalgus" (50 €)
Foco principal O estômago (Satisfação real) O ego (Satisfação social)
Perfil do cliente O "Esperto" (Procura valor) O "Vaidoso" (Procura sinalizar)
Pós-Refeição "Comi um bacalhau incrível e barato!" "Estive ontem no "Fidalgus""
Estratégia Passa-palavra da qualidade Exclusividade e preço como filtro

22/02/2026

Racismo e macacada


Racismo no futebol? Não me parece. Nos casos mediáticos, creio haver uma sobrevalorização em tudo o que mexe ou parece. Desrespeito mútuo, falta de cultura, atitudes provocantes e provocatórias, isso sim. Nada justifica o racismo, genuíno ou provocatório, como nada justifica o clima persistente e recorrente de más atitudes, entre adeptos, atletas mas também entre os clubes e seus dirigentes. Os maus exemplos tendem a ser seguidos.

Para além de tudo, supostamente chamar macaco a um futebolista, seja ele branco, amarelo ou negro, para além do desrespeito ao próprio, pode ser uma ofensa aos próprios macacos. Cada macaco no seu galho, mesmo que o futebol assim não passe de uma macacada.

Macacos me mordam se não é isto!

01/10/2025

Na paz do quintal

Aviso: O texto que se segue está num registo humorístico e é mera ficção. Qualquer semelhança com qualquer realidade é mera coincidência. A aldeia pode ser qualquer uma e o aldeão, idem.

Pretende o texto suscitar apenas uma reflexão sobre as nossas decisões, enquanto cidadãos, tantas vezes surpreendentes quanto contraditórias mas, no fim de tudo, prevalece a vontade legítima de qualquer um. O resto, a apreciação e os julgamentos, tanto mais no contexto de eleições, são os eleitores quem decidem e tantas vezes o que para uns são contradições ou incoerências, para outros são virtudes e até vantagens ou, pelo menos, nada que lhes mereça desconsideração. 

Não tem, pois, qualquer recado seja para quem for embora nestas coisas haja tendência de enfiar chapéus alheios só porque lhes cabem na cabeça.


É sempre de espantar, ou talvez não, que alguém que fez parte de uma associação cultural e recreativa na sua aldeia, e que raramente aparecia para trabalhar aquando da realização de eventos ou outras actividades da mesma, fosse para servir cerveja, assar sardinhas ou arrumar mesas e cadeiras, nem sequer aparecendo às trimestrais reuniões ou sessões da Assembleia, escusando-se e desculpando-se em compromissos pessoais, e que, não obstante, depois, dessa indiferença pela causa, apareça agora a fazer parte de uma lista eleitoral local, em lugar elegível para integrar a Junta de Freguesia da Aldeia. Espantam-se com isso alguns conterrâneos.

Claro está que o eleitorado dessa aldeia, toda cheia de gente boa, é quem decidirá, mesmo que nem sempre de forma esclarecida, ou porque entorpecida pela lealdade partidária ou por velhas azias, mas custa, a alguns vizinhos, perceber como é que depois, se vencer a eleição, o que é perfeitamente possível, esse aldeão vá assumir responsabilidades com dedicação face às exigências que serão constantes, mesmo, diárias. Pode acontecer essa mudança de dedicação? Pode! Concerteza que sim, acreditam alguns aldeões, mais dados a histórias da carochinha, mas custa a acreditar a outros tantos, mais desconfiados ou já avisados deste tipo de filmes, porque já vistos.

Se perguntam os leitores dessa aldeia quem é o aldeão em causa e em que aldeia isso ocorre, quem não souber também não merece saber, porque só não vê quem não quer ver, ou anda a leste das coisas que acontecem na sua terra.

Apesar disso, pela pessoa em causa, alguns aldeões, os que o conhecem, porque a maioria não,  têm o maior respeito, a melhor consideração e pintam-no como bom hortelão, mesmo que pouco seja visto, porque muito caseiro. O que os surpreende mesmo, com a novidade da candidatura, é a aparente mudança em ter de deixar a sua querida horta e aquele ambiente de sossego e descompromisso diário, para se arriscar a ocupar das necessidades e inquietações públicas e particulares.

A aldeia, surpreendida por essa inusitada determinação, aguardará para ver, se, caso eleito, o que pode bem acontecer, o seu aldeão assumirá as responsabilidades e as canseiras do cargo, ou se, ao contrário, logo no primeiro dia, dará o lugar a quem se segue na lista, no que desconfiam alguns que até será o mais certo, voltando então, de mansinho, para a paz do seu quintal, continuando a entreter-se a cultivar couves, alfaces, tomates e batatas.

Numa pequena aldeia, a vontade e o gosto em andar de volta das alfaces e dos tomates ainda tem mais peso que fazer parte do zeloso grupo de aldeões da Junta, duarante quatro anos a aturar todo o povo, a pagar por ter e não ter cão. Melhor, concluiu-se, é ocupar os dias na horta, porque, assim como assim, ali os tomates não se queixam nem batem à porta ao Domingo, a interromper o almoço ou jantar, nem as alfaces reclamam pela falta de responsabilidade, ausências ao serviço e falta de limpeza nas ruas ou jardins.

Mas, em boa verdade, comentam alguns aldeões, o aldeão candidato nem se queria meter nestas aventuras, porque é acima de tudo, boa pessoa, um amante da paz e tranquilidade. Mas foram incomodá-lo e, por sentido de dever ou outro motivo não descortinado, lá acedeu. Agora é andar p´rá frente!

Há coisas que de facto, de tão intrigantes, não são para comprender, porque envolvem uma certa ciência, como a das batatas e dos tomates. De resto,  os cientistas até dizem que aquelas evoluiram a partir destes. (1)


(1) Um estudo internacional, divulgado na revista Cell, revelou que a batata atual surgiu a partir de um cruzamento natural entre plantas aparentadas à batateira e espécies ancestrais do tomate, ocorrido há cerca de 9 milhões de anos. A descoberta ajuda a resolver uma questão científica que intrigava investigadores há décadas.

Durante muito tempo, a comunidade científica procurou compreender a origem evolutiva da batata. Agora, uma equipa de especialistas de vários países trouxe uma explicação inesperada: a batata resulta da fusão genética de espécies sul-americanas semelhantes à batateira com plantas precursoras do tomate.

A investigação baseou-se na análise genética de 450 variedades cultivadas e de 56 espécies selvagens. Os resultados apontam para uma herança equilibrada e estável de material genético proveniente tanto das espécies Etuberosum — originárias do Chile e semelhantes à batateira, mas incapazes de formar tubérculos — como do tomate, confirmando a sua dupla ancestralidade.

04/04/2024

Irritações

Eu irrito-me! Claro que sim! E quem com um bocadinho de senso crítico, capaz de distinguir uma sardinha de um arenque, não se irrita com certas coisas que se vão expondo ao público como em tendas das feiras os casacos, calças e cuecas?

Ora nesta feira, de vaidades, que é o Facebook, são mais que as mães as situações. É um sítio digital, é certo, mas bem que pode ombrear com qualquer terra de fenómenos e milagres, como o Entroncamento ou Fátima, tal é a quantidade de coisas dadas como extraordinárias. É ver os novos inventores da pólvora e da roda, os mestres das coisas fantásticas, os modernos Midas que em tudo que tocam, incluindo cagalhotos, se transforma em ouro. E todos bem considerados e como bons pastores, seguidos por rebanhos fiéis e bajuladores. Mée, mée, mée!

Olha p´ra mim em pé! Olha p´ra mim sentado! Olha p´ra mim a correr! Olha p´ra mim a saltar! 

Olha p´ra mim na praia, no restaurante, junto à cascata, no passadiço, na rua, a segurar o cão, a acariciar o gato! 

Olha p´ra mim vestidinho de cor-de-rosa, de azul, de amarelo, às riscas, aos quadrados, às pintas!

Olha p´ra mim! Olhem p´ra mim! Sim, porque tudo gira  à minha volta. Sou o sol, o centro do universo!

Arre, que é dose!

Estamos na era dos "influencers" e estes existem, prosperam, porque há sempre idiotas chapados que os seguem, e cada peidinho que os seus influentes traseiros tenham a bondade de partilhar, recolhem uma milada de gostos e partilhas. É disso que vivem!

Haja paciência! 

...Ups! Estava com o microfone ligado! Estava a brincar! :-)

30/03/2024

Compensações pascais

 




Declaração de interesses: Partilha do interesse de apenas dois ou três amigos. Os demais que não liguem. Nada de mais, apenas as compensações para os excessos do pão-de-ló e das amêndoas nesta Páscoa. 
Corridas de ontem (11,97 Km) e de hoje (8,06 Km). A somar à corrida de hoje um misto de caminhada e corrida com mais 3 Km,  junto ao rio Uíma na descoberta da sua cabeceira, na zona dos Valos-Romariz.

Mas foi missão impossível porque a zona a cerca de 50 a 100 metros da sua cabeceira está infestada de silvas e carrascos, intransponível. Infelizmente neste concelho gasta-se muita numa certa centralidade e a lateralidade continua isso mesmo, à margem. Mas sim, seria interessante efectuar a limpeza nas suas margens até à nascente e de modo a ser possível percorrer em trilho.. 
Também ali do lado nascente, junto ao campo de futebol de Romariz, e relativamente próximo do rio, um grande movimento de terras com aterro. Terá licenciamento? Perguntas difíceis em véspera de Páscoa?








24/03/2024

Dicas de aquecimento para corrida

 


Para quem faz corrida, fica aqui uma dica de aquecimento: Duas horas e meia a plantar batatas, passando pelas diferentes disciplinas técnicas de preparar regos, espalhar estrume, colocar as batatas, espalhar adubo e cobrir. 

Deve ter sido por ter feito este aquecimento tão técnico que ontem depois da plantação corri por Guisande, Pigeiros e Romariz, 12 Km e picos com um um ritmo simpático para a idade e peso de 5:12 m. Ou seja em pouco mais de uma hora. É que não encontro outra explicação, pelo que recomendo vivamente.












13/03/2024

Estar na horta e não ver as couves


É velho o provérbio de que andamos sempre a aprender. Independentemente do tamanho do rei que alojamos na barriga, mais ou menos viajados, estudados ou analfabetos, somos levados a concluir que já vimos de tudo no mundo e que já nada nos surpreende na vida e muitos até garantem que já viram um porco a andar de bicicleta, uma vaca a voar ou uma bicha de sete cabeças.

Certo é que passe os exageros e os exagerados, há realmente coisas que, fora do foro da fantasia, não deixam de nos surpreender e se não de completo pasmo ou de boca aberta, pelo menos o bastante para ficarmos a matutar como tal é possível. E o que não faltam são casos ou episódios a merecerem tamanha surpresa. 

E não estou a falar de alguém que, sabe-se lá com que motivação, anda a varrer a estrada em frente à sua porta, o que nem seria descabido, mas para além dela em largas dezenas de metros. Tivesse a Junta de Freguesia funcionários assim tão zelosos e tudo andaria num brinquinho. Ou mesmo se toda a gente varresse a rua na frente da sua porta. Mas o que me prendeu mesmo a atenção com mais espanto, foi o verificar que agora as pessoas enchem literalmente contentores de resíduos sólidos domésticos, incluindo com troços das couves da horta. Atestadinho. E surpreso, porque imaginei que quem tem uma horta com couves galegas saberá que os troços depois de secos até ardem na lareira, numa fogueira ou mesmo adequados para compostagem. Mas não. Bóra lá encher o contentor!

É de facto espantoso ver o que as pessoas conseguem colocar nos contentores do lixo ou junto dos eco-pontos. Já vi de tudo mas um dia destes vamos dar de caras com um porco amarrado a uma velha bicicleta pasteleira ou uma vaca presa a uma bigorna para não levantar voo.