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13 de junho de 2024

Postal do Dia - Os Ministros Extraordinários da Comunhão


Creio que quem vai frequentando os serviços litúrgicos e pastorais da nossa paróquia sabe o que são os Ministros Extraordinários da Comunhão, abreviados por MEC´s. Não serão necessárias grandes explicações.

Na nossa paróquia temos cinco ministros: o António Conceição, o José Almeida, a Fernanda Eva Silva, a Lurdes Lopes e a Cisaltina Coelho, embora esta, por dificuldades de saúde, não tem estado a exercer. Foi também, de forma dedicada, o Alberto Gomes de Almeida, mas já partiu há uns anos (Outubro de 2012).

Muitos, de forma ligeira e pouco dados a ver para além do óbvio, pensarão que é serviço ou função de pouca importância, mas na realidade é mais do que isso. Desde logo porque como qualquer serviço à igreja, implica comprometimento e dedicação e com isso, tantas vezes, incómodos para o dia-a-dia das nossas coisas. Por isso é que são poucos os que se aventuram a assumir serviços na comunidade. Nada se ganha de visível, passa-se por se ganhar, e à perda de tempo soma-se, não raras vezes, fama indesejada sem proveito.

Os nossos Ministros da Comunhão, para além do que é mais visível e notório, o ajudar o pároco a distribuir a sagrada comunhão durante as missas ou a orientar a reza do Terço, têm sobretudo um papel e missão importantes que é a da visita domiciliária aos doentes, pessoas em idade avançada e em situação de fragilidade e de mobilidade e que assim aos Domingos têm a oportunidade de manter essa ligação de fé e comunhão eucarística. E resulta deste acto, também uma função social, afectiva e caritativa já que há sempre tempo e lugar para uma pequena conversa de ânimo e que tão bem faz a quem durante a semana está preso na sua própria casa ou remetido à cama. Só quem passa por elas é que valoriza estas situações.

Por conseguinte, no que diz respeito à apreciação e entendimento que possamos ter em relação às pessoas que noutras ou na nossa comunidade asseguram este serviço, devemos ter em conta a sua importância e dentro do possível saber prestar esse reconhecimento ou pelo menos não o menosprezar.

[foto: voz portucalense]

7 de junho de 2024

Postal do Dia - O azulejo


Creio que nisto todos estaremos de acordo: Quando fazemos algo, de forma despretenciosa, a favor da nossa freguesia e comunidade, sem qualquer proveito que não o do simples prazer e gosto, é sempre bom ter do lado de quem recebe, algum eco dessa dedicação e que funciona assim como reconhecimento e incentivo.

Ora no contexto desta página que exige muita dedicação, mesmo algum custo monetário e muito tempo dispendido, frequentemente recebo esse reconheceimento, sobretudo de malta que está na condição de emigrante, em França e Suiça, e que quando regressam, sempre que me encontram, disso dão conta, de que seguem atentamente as novidades da freguesia por esta página.

Mesmo por aqui, sei que há visitantes frequentes e diários e que sempre que notam uma pausa nas publicações procuram saber pessoalmente o que é que se passa, pois habituados que estão não dispensam as "novidades" ou novos apontamentos sobre as coisas da nossa freguesia, do seu presente e do passado.

Assim foi, e um dia destes parou à porta da casa um desses visitantes frequentes, a dar conta de que já não publicava nada desde o dia 23 de Maio. 

Fiquei, pois, reconhecido por esse interesse e amizade e por ele e por todos os outros que diariamente ajudam a que esta minha/nossa página tenha médias de 500 a 1000 visitas diárias, uma boa parte da comunidade emigrante.

Obrigado a todos quantos valorizam este trabalho e o incentivam desta forma tão próxima, mesmo que nem sempre de forma assim reconhecida de modo tão pessoal e directo. Obrigado ao L.A.

E agora perguntarão pelo nexo da escrita com a fotografia e o título do artigo? 

Pois bem, considerando a quantidade de visitantes desta página, como analogia, cada um será um dos muitos azulejos que desde 1969 revestem a fachada principal da nossa bonita capela do Viso, dedicada à Senhora da Boa Fortuna e Santo António. Apesar de muitos, todos ali organizadinhos, a apanharem com o sol da tarde, há ali um azulejo em falta, e ele pode corresponder a um visitante da página que teve a amabalidade de me contactar pessoalmente para saber se havia algum problema comigo a ponto de nada publicar há quase três semanas. No fundo, muitas vezes basta um no todo para se fazer notar a diferença. É preciso é olhar com olhos de ver e perceber, como em tudo na vida, que o muito é feito de pouco.

23 de maio de 2024

Ad perpetuam rei memoriam


Nesta vontade e gosto de por aqui partilhar coisas do nosso presente e passado comuns, fico sempre numa ambiguidade quanto à resposta em saber a quem tudo isto interessa. Aos da minha idade, alguns, aos mais velhos, poucos, aos mais novos, muitos? Aos mais velhos, que melhor identificarão certas coisas, determinadas memórias, ficará um gosto amargo e de saudade em recordar pessoas e tempos passados; aos mais novos, porventura, uma mera curiosidade a que provavelmente não darão valor, porque, por um lado alheios a coisas, pessoas e factos que não conheceram nem vivenciaram, e por outro lado também sem o bichinho da curiosidade e interesse em saberem e conhecerem o passado dos seus e da sua terra. E assim não sendo, o futuro será de esquecimento do passado.

Diz-se que só podemos gostar ou mesmo amar algo ou alguém se apenas deles tivermos um bom conhecimento. Ora sem a faísca do interesse e curiosidade em saber, pouco adiantará ao conhecimento.

Seja como for, do muito que com teias de aranha aqui partilho, é num sentido não de missão mas simplesmente de procurar registar e deixar indícios para memória futura, como que a dar sentido ao secular termo latino "ad perpetuam rei memoriam".

Neste contexto, sabendo que já tenho falado nisto, e as coisas vão sendo adiadas, mas de facto é minha intenção e propósito que parte destas coisas e outras mais, venham oportunamente a dar lugar a um livro de apontamentos monográficos. Está praticamente feito em termos de estrutura e conteúdo, mas falta concluir a parte de composição gráfica, para poupar algum gasto, e depois a publicação. Não sei quando será, mas vou dizendo que oportunamente, sobretudo se chegar a vontade necessária para concluir o que falta do processo, o que nem sempre é fácil porque muitas outras coisas se sobrepõem.

Posto isto e quanto a isto, é ir andando e esperando. Se não neste ano, porventura no próximo. Além do mais, há sempre novos (velhos) apontamentos a surgirem ou a merecerem actualizações.

Tal trabalho será, nem mais nem menos, uma forma clássica, em livro, de dar novamente sentido à locução "ad perpetuam rei memoriam". Pouco interesse terá no presente, mas talvez no futuro alguém lhe dê a devida importância, quem sabe em algum momento em que haja uma geração mais interessada no passado, raízes e origens dos seus e da sua terra. Quem sabe...

22 de maio de 2024

Postal do dia - Partiu a Rosarinho


Não, não pretendo copiar a rubrica do jornalista Luís Osório, que bem melhor do que eu escreve, mas de quem nem sempre estou de acordo, porque também muito cingido a uma agenda politicamente correcta, mas porque postais do dia se deparam a qualquer um que tenha olhos e cabeça entre as orelhas. Olhar para o lado de pouco serve.

Ontem houve funeral em Guisande, com uma grande participação de que não tenho memória em tão grande número, senão o mais participado, seguramente  um deles, quer por uma boa parte da comunidade local, quer de gente vinda de fora.

E compreende-se o motivo: Dava-se sepultura a uma pessoa filha da terra, filha de boa gente e família, e que Deus permitiu que fosse praticamente a  meio de uma vida que se espera a um ser humano. Mas também sabemos que as contas de Deus, ou do destino para quem menos dado a esta amplitude da fé e crenças espirituais, não se fazem assim de forma académica, matemática, estatística. Todos sabemos que o mais comum é morrerem os mais velhos, mas pelo meio são muitos, e infelizmente cada vez com maior predominância, os que vão em idades jovens, na flor da vida, seja por acidente, porque cada vez mais nos expomos aos perigos, seja por doenças fatais, por  incidência genética mas em muito pelo modo de vida que levamos, pelo que comemos e bebemos, pelos medicamentos que ingerimos por tudo e por nada. 

Se é certo que já não se morre por causas que no passado eram comuns e frequentes, desde logo a falta de vacinas, cuidados médicos e hospitalares , ainda por má nutrição e condições deficientes de  higiene, a verdade é que tem vindo a aumentar a prevalência de mortes em idades consideradas jovens.

Seja como for, são contas e desfechos sempre imponderáveis e até que a ciência médica, já tão desenvolvida, chegue a um ponto de nos imortalizar ou prolongar a vida para além dos limites que consideramos actualmente como expectáveis, seremos sempre confrontados com mortes relativamente prematuras, como agora com a Maria do Rosário Giro, a Rosarinho para os mais chegados. Acontece a cada momento e em cada lugar, mas só damos conta do drama e profunda tristeza quando a fatalidade nos bate à porta, nos chega a casa, aos nossos, aos próximos, à comunidade.

Mas dizia, partiu a Rosarinho e às suas cerimónias fúnebres acorreram familiares, amigos e de um modo geral todos quanto tinham relações familiares, de amizade pessoal,  de mera relação comunitária ou até mesmo profissional ou de outras ligações. Concerteza que a maioria só conhecia a Rosarinho de forma circunstancial  e por conhecimento da sua relação com os demais familiares, desde logo o falecido pai, a mãe, os dois irmãos, o marido e a filha, e por isso ali estavam não tanto, a maior parte, pela homenagem pessoal a quem partiu mas em solidariedade para com quem cá ficou com a dor e a tristeza pela partida de um dos seus de sangue e de relação. É assim em todos os funerais e percebe-se.

De facto a Rosarinho, que naturalmente bem conhecia desde criança, e de um modo geral a freguesia, pelo rumo próprio que deu à sua vida pessoal, familiar e profissional, com certeza que  já não era uma pessoa de muita ligação à nossa paróquia nem foi dela participativa nos diferentes contextos. Todavia, era uma das nossas, e nestas coisas uma comunidade expressa-se sempre de forma sentida e comovida e a tristeza e pesar da família é também partilhada por cada um de nós. E quem passou por elas compreende o quanto é importante um abraço sentido, uma palavra de conforto e incentivo à coragem. 

É nisto que uma comunidade local e pequena como a de Guisande tem de positivo. Terá já sido mais solidária, é certo, mas mesmo com os desligamento dos novos tempos, felizmente, ainda tem muito de seu e por isso na hora de partida de um dos seus, sobretudo quando nestas idades e circunstâncias, une-se e partilha a mesma dor e tristeza. 

Assim, partilhei eu, e muitos dos presentes, um abraço sentido com o Rui Giro, de quem prezo ser amigo desde sempre, desde os 8 anos em que na escola primária partilhava comigo a sua caixa de 12 lápis de cor e depois no percurso e ligação que tivemos na Associação Cultural da Juventude de Guisande, no jornal, na rádio, no teatro, etc. E ainda depois na Associação “O Despertar”. 

Igualmente um abraço de conforto à D. Célia, a mãe, a professora, que não chegou a ser a minha, mas que também pela relação que tinha com o Rui, era naturalmente muito chegado e frequentava a casa com regularidade. Da D. Célia, todos reconhecemos as suas qualidades humana e pessoal e Guisande, freguesia e paróquia, é toda uma comunidade que lhe reconhece valor e prestígio ou não passassem por ela gerações a quem ensinou a ler, a escrever e a fazer contas, certamente que escolares mas também de vida. É doloroso a qualquer mãe ver partir um filho, uma filha, mas certamente que mesmo que com uma imensa dor e tristeza saberá ainda dar esta úlitma lição, a da coragem que sempre se reconhece a uma mãe.

Também um abraço ao Alexandre, sempre bem disposto e positivo, apaixonado pelas pombas e que numa certa analogia vê agora uma pomba próxima partir para mais não regressar ao pombal da casa, à família. Ambos, mãe e irmãos, com certeza que terão a Rosarinho bem viva nos seus corações e nas suas memórias.

Do marido Paulo e da filha Leonor, naturalmente que só conhecidos de vista, mas neste momento de perda e dor, certamente que a esposa e mãe permanecerá viva e contarão com a família para de algum modo mitigar a perda e a dor. O tempo tudo cura, mas leva tempo, mas será sempre um desafio encontrar na tristeza e vazio algo que ajude a superar. É aqui que entra a fé e a esperança. Creio que ambos, a família, serão capazes de encontrar esse lenitivo.

Na missa de corpo-presente, celebrada pelo Pe. Benjamim e acompanhado pelo nosso pároco Pe. António, as palavras e a homilia do Pe. Benjamim foram sempre motivo de reflexão e emoção, porque com o seu peculiar estilo, fala de coração e recorrendo a testemunhos de muita gente que em circunstâncias parecidas, também viu partir e que acompanhou nos últimos tempos de vida. Emociona, faz soltar as lágrimas de comoção mas conforta e reconforta.

Bem sabemos que mesmo nestes casos, há sempre uma tendência do elogio fúnebre, fácil, por vezes aqui e ali com uma pontinha de exagero ou sobrevalorização das virtudes de quem se sepulta, mas é perfeitamente compreensível e de algum modo positivo se for num sentido de chamar aos presentes a importância que devemos dar às nossas vidas e da relatividade das mesmas, por isso a ter em conta o desfecho que a todos está por natureza destinado e como tal importará valorizar cada vez mais as coisas boas, as pessoas, as nossas relações humanas com vista à preparação do destino que a todos espera. 

Com mais ou menos fé no que será o nosso destino depois da morte, é sempre bom e enriquecedor que enquanto por cá andarmos o façamos como se cada dia fosse o último e que no fim de contas, a nossa imortalidade permanecerá para quem quem cá fica, apenas pela memória e mérito do bem que formos capazes de fazer, quer a cada um de nós quer ao próximo ou à comunidade. 

Dos fracos não reza a história e quem por cá passa de forma fútil e negativa, poderá ser lembrado por algum tempo, por poucos,  mesmo que com despeito, mas dificilmente será lembrado e evocado para sempre e por todos. Facilmente cairá no esquecimento e permanecerá por todo o sempre sob a poeira do tempo.

Está em paz a Rosarinho e permanecerá viva entre a comunidade e seguramente entre os seus.

20 de maio de 2024

Moinhos de Jancido - Sonho e realidade


Porque já visitei e caminhei pelo local, e apreciei o resultado e a beleza do local, de vez em quando lá vou acompanhando o trabalho voluntário, altruísta e dedicado dos amigos dos moinhos de Jancido - Foz do Sousa – Gondomar. Recuperação dos moinhos, limpeza dos trilhos e matas envolventes, controlo de espécies florestais e fluviais invasivas, colocação de ninhos, plantação de espécies autóctones, como o castanheiro, carvalho, medronheiro,  etc, etc. 

É notável em todos os sentidos o esforço e amor à causa daquele grupo de pessoas, e que tem rendido frutos no que se refere a projecção turística do local e reconhecimento,  e como comparação penso em inúmeros sítios em que seria possível recuperar e entregar à fruição, até mesmo em Guisande. Apesar disso, creio que não passa de um sonho. 

Aqui há uns anos, quando funcionava em pleno a Associação Cultural da Juventude de Guisande, ainda realizamos umas acções de limpeza na ribeira da Mota, perante a incúria e desleixo de pessoas e autoridades, e havia uma vontade de fazer mais coisas, incluindo o manter limpo e transitável um trilho à face da ribeira da Mota.

Infelizmente os apoios oficiais eram inexistentes e num período de transição de gerações na Associação, a coisa não passou dali. Depois de mais uma geração e sem renovação, os afazeres e compromissos sociais, profissionais e familares e  hoje em dia e desde há muito tempo a colectividade está mesmo parada.

Dizia atrás que o replicar por aqui do que tem sido feito em Jancido, é mesmo uma utopia porque não sinto na juventude actual nem tempo nem vontade para estas coisas e mesmo nos mais velhos, como acontece em Jancido, sinto um desligamento, uma erosão do sentido de orgulho comunitário e identitário e já pouco ou nada se faz de forma colectiva e isso percebe-se mesmo na dificuldade de organização de eventos como uma Festa do Viso ou de cariz religioso, etc..

Noutros tempos, havia esse sentido comunitário e de entreajuda, mas isso é passado. 

Apesar disso, quando vejo certos entusiasmos à volta de outras coisas, mesmo que numa perspectiva de lazer, é fácil perceber que se tal entusiasmo e dedicação fosse voltado para outras causas mais comunitárias e não tanto individualistas ou de grupos, ainda seria possível fazer coisas interessantes. 

Mas, francamente, talvez pelo pessimismo próprio da idade e de quem já viu melhores tempos no que à comunidade diz respeito, face ao panorama actual, parece-me mesmo uma dificuldade intransponível. De resto, com a reforma administrativa e a extinção da Junta  e freguesia, foi a machadada final. Por mais vontade que uma qualquer Junta de União de Freguesias demonstre, nunca será a mesma coisa até porque é inevitável a perda de proximidade. A reversão poderá ainda vir a tempo de recuperar alguma coisa do que perdido tem sido, mas sinceramente não estou nada optimista e nem sei se o actual Governo irá dar andamento aos processos encalhados em S. Bento. Mas ver para crer.

Para já fica o bom exemplo da boa malta de Jancido.





5 de maio de 2024

Todos os dias da mãe


Não dou especial interesse ao que dizem ser o Dia da Mãe, que se celebra hoje. Pela minha própria natureza, pelos motivos de não ter sido educado a dar relevo a estas datas, assim como aos aniversários, mas também, desde logo, porque  nos tempos que correm é motivo o "dia de qualquer coisa" para uma vestimenta muito comercial. Não que seja negativo, porque é apenas a oportunidade de negócio, e onde há procura há oferta, mas também é verdade que com isso há uma tendência para que estas coisas sejam apenas rotinas, lugares comuns. Ainda hoje, antes das 10 horas, liguei para quatro restaurantes que frequento com regularidade e todos eles já estavam sem vagas e alguns a desculparem-se que se tivessem mais salas também as encheriam face à procura. E tão somente porque, disseram, é Dia da Mãe.

Por este e por outros motivos, dou pouca ou mesmo nenhuma importância ao Dia da Mãe, ao Dia do Pai e outros parecidos nas intenções. De resto à mãe e ao pai, impõem-se que sejam todos os dias e faz-me cócegas ver alguns gestos, mesmo que carinhosos, de filhos para com os pais, sobretudo com as mães, apenas neste dia e porventura os demais dias, sem proximidade, sem interesse. Mas somos assim, dados a estes impulsos e que a fama efêmera das redes sociais ajudam a espalhar e a mostrar aos outros, nem sempre o que somos, mas o que queremos que pensem que somos.

Felizmente ainda tenho mãe, mesmo que numa fase de debilidade crescente e por isso a necessitar de cuidados redobrados a que a irmandade, dentro das suas limitações, vai procurando atender. E desse modo, face a essa necessidade, são esses dias todos os dias da mãe, de lhe levar as refeições, de lhe fazer tomar os medicamentos, de cuidar da sua higiene, de a confortar mesmo sabendo que tudo o que por ela possa ser feito é uma ínfima parte do que merece e do que deu enquanto mãe. Quem com uma infância que não teve, dura e amargurada, com uma adolescência substituída pelo papel de mulher adulta, quem desde os 18 anos, na flor da vida, gerou, amamentou e criou oito filhos e depois ainda ajudando netos, só pode merecer que todos os dias sejam dela, da mãe. 

O resto é lirismo, muito para a fotografia, muito para o boneco, com frases e dedicatórias de circunstância que tantas vezes não têm correspondência no dia-a-dia.

Sem moralismos, sem lições, sem julgamentos, porque cada um é cada um, e há sempre verdadeiro amor pelas mães, mas mais do que mostrar importa fazer e se possível de forma discreta, sentida, interior. 

Visitei-a já hoje, a minha, mas estava a dormir e não a incomodei, porque nestas idades e neste estado de saúde, talvez haja alguma serenidade  quando se dorme,porque se acordados e de consciência mais ou menos alerta, há todo um mar de sofrimento e de angústia que se revela perante a incapacidade de sermos nós próprios, na plenitude das faculdades. Mas a vida é assim, nua e crua, no lado melhor e pior, caminho a percorrer até que se transponha a linha do destino e esse só a Deus é dado conhecer e traçar.

18 de abril de 2024

Aniversários e parabéns


Sempre que os recebo, mesmo virtualmente, respondo com simpatia e consideração, mesmo sabendo que na maior parte das vezes os votos de parabéns pelo aniversário, são feitos de forma automática ou circunstancial. E quantas vezes por pessoas que logo a seguir se cruzam connosco na rua e nem um sorriso nem um ólá. É o que é! Apesar disso, por respeito, estima e consideração, quando se propicia ou me lembro, também distribuo alguns parabéns.

Em todo o caso, cresci a dar pouca ou nenhuma importância aos aniversários, dos outros e do meu, talvez porque lá por casa, desde que me tenho como gente, também era assim. Regra geral os aniversários de toda aquela gente, avôs, pais e irmãos, passavam despercebidos e não havia lugar nem a bolo nem a velas a apagar. Nem me recordo de, por isso, o jantar ser melhorado. E se no meu caso há uma espécie de lembrete, é apenas pela particularidade de celebrar em dia feriado. Calhasse à semana, em dia de trabalho, e nem daria por isso.

Serve isto para dizer que na família alguém, alguém com a importância de uma mãe, celebra hoje, 18 de Abril, 82 anos. Mas, para meu profundo pesar, os tempos não são de celebração nem de especial tratamento, porque o peso da idade e as mazelas de uma vida dorida já não deixam lugar a coisas triviais, sem sentido. É apenas mais um dia e se é assim para todos, mesmo para os mais novos, é necessariamente para os mais idosos, doentes e debilitados, em que cada dia a somar, e com eles os anos, raramente acrescentam conforto, saúde e bem estar. Pelo contrário, pela lei natural das coisas, cada dia é de dores e só se pode esperar o agravamento e com isso mais sofrimento e menos vontade de  viver e muito menos em celebrar aniversários.

Com tudo isso, mais que celebrar ou recordar aniversários, mesmo que dos nossos, importa é fazer alguma coisa pelas pessoas, estar presente, quando mais necessitam, e isso vale mais que as costumeiras tretas de circunstância, cantigas da praxe, bolos e espumante.

14 de abril de 2024

Alicerces

Numa altura em que voltam a estar na espuma dos dias os conceitos de "família tradicional", em contraponto com o que possam ser outros tipos de família, tenho que concordar com o que por estes dias li algures na blogosfera, em que resumidamente se dizia que "...a morte dos avós é o divórcio da família, no sentido em que sendo, em muitos casos, o elo de ligação e de respeito patriacal ou matriacal, actuam como referência e alicerce a evitar a erosão de cada uma das famílias, por vezes tão diferentes.

Mas sejamos realistas, sendo que sempre continuará a haver famílias tradicionais (pai, mãe, filhos, avôs, netos e netas, e por aí fora), no geral o conceito de família está já há muito em processo de erosão, não porque os seus valores fundamentais, biológicos e cristãoas, tenham mudado, mas porque importa aos obreiros do politicamente correcto cimentar as novas narrativas e modelos onde se encaixem tudo e todo o resto, como as mono-parentais, homossexuais, etc, etc e o mais que possa vir na fila e que emprestem algum sentido a eufemismos.

Mas, meus caros, a sociedade, para o bem ou para o mal, vai por aí. Nem tudo é mau, nem tudo é bom, antes pelo contrário.

25 de março de 2024

Viver não custa, custa é saber viver

Não tenho inveja de quem vive bem à custa do seu talento, da capacidade de trabalho e seu suor. Já o contrário, dos outros é que não. E não faltam destes a viver à fartazana, rodeados, eles e os seus, de tudo, do bom e melhor. Ele é boas casas, de boas vistas, com amplas garagens, potentes carros, motas, bicicletas, relógios de ouro, piscinas, churrasqueiras, ginásios, etc, etc. Sempre bem vestidos e calçados, perfumados, unhas e cabelos nos trinques, férias a toda a hora, mesmo passando fronteiras, etc, etc. Alguns até se permitem a viver à grande e à francesa em suites de hotéis de luxo, não de férias, uma vez por outra, mas como residência. Outros até têm motoristas que acumulam a leal função de entregas de envelopes atestados de notas vindas dos cofres generosos de mãezinahs ricas e amigos empresários de sucesso. Vidinhas fartas, é o que é.

Ensinado pela vida de que só com o trabalho se pode aspirar a uma vida condigna, mesmo que sem luxos, e certo de que lotarias, totolotos e euromilhões são sortes tão prováveis acontecer como a uma hora certa cair um meteorito pelo buraco da nossa chaminé, sempre desconfio de quem vende cabritos sem ter cabras, mesmo que não um rebanho, pelo menos as suficientes para alimentarem um pastor e família.

Mas isto sou eu, com a mania de que na vida as coisas devem ser justificadas e merecidas e devem obedecer ás leis da física, da matemática e da biologia, ou, mais prosaicamente com o parecer a encaixar no ser. Mas, estou certo, ando de passo desacertado, porque isso é esperar ciência complexa quando a alguns basta fazer as contas básicas de contar pelos dedos para perceberem que juntar o que ao próximo se subtrai é somar para si. Afinal, o que vai dando é o viver à custa dos outros, com estratagemas, chico-espertices, burlar tanto o vizinho como o Estado, desenvolver uma teia de negócios escuros e obscuros e com trabalhos invisíveis ou nocturnos sem que sejam padeiros ou agraciados com milagres divinos.

Eles andam por aí, tantas vezes disfarçados de empreendedores, de empresários, de políticos, etc. Em suma, gente esperta e qualificada para viver sem nada fazer. É uma classe em crescimento, reconheça-se. 

19 de março de 2024

O meu pai não foi o melhor do mundo



Ao contrário do que toda a gente parece dizer por aí, neste dia que é do pai, eu não tive o melhor pai do mundo. Também não o serei. Somos uns exagerados, e como animais sociais vamos uns atrás dos outros, tantas vezes a repetir os mesmos clichês, os mesmos lugares comuns e o convencional ou politicamente correcto. Pastamos da mesma erva.

Mas não, eu não tive o melhor pai do mundo e pela simples razão de que não conheço os outros pais do mundo, a ponto de comparar o meu a cada um deles. De resto, poderia ser uma tremenda injustiça para com pais que foram realmente exemplos extremos de amor que em tantos casos ao longo da História deram literalmente a vida pelos filhos e levaram uma vida de penas e dores para lhes dar pelo menos o direito ao pão.

Agora o que eu tive, foi um pai, e basta-me isso. Nem melhor nem pior que os demais. Diferente como devem ser todos os pais. Porventura até teve mais defeitos que virtudes e não terá sido o melhor exemplo do pai modelo e várias vezes se terá demitido dos seus deveres de pai e marido. Mas sei também que não sei quais os motivos que o limitaram na sua paternidade, as lutas íntimas que travou, os obstáculos que lhe surgiram, as injustiças que lhe fizeram, nem quais os pecados que cometeu, se os confessou e se Deus o perdoou. 

Tenho do meu pai a imagem nítida de uma boa pessoa, honesta, inteligente e simples, até a ponto de ser enganado, roubado mesmo por outros mais "espertos", e basta-me que tenha sido apenas isso para ter a certeza que foi um bom pai e não o trocava por outro.

Um bom pai não é o que dá ao filho uma moto quando faz 18 anos, um carro novo, um relógio de marca, um computador da Apple, umas férias à grande e à francesa, casamento pago em quinta de luxo, lua-de-mel oferecida num qualquer paraíso terreno, chave na mão de um bom apartamento ou de uma moradia luminosa. Essse tipo de pai existe mas não vale nada, porque limita-se a dar o que pode dar, mesmo que a negar ao filho o valor da responsabilidade e a omitir a mensagem de que as coisas boas da vida devem ser conseguidas com mérito e suor próprios.

Se o meu pai nada me deu de material, porque não o podia fazer, e por isso tive eu que ganhar para comprar a minha primeira bicicleta, a minha motorizada, o meu carro velho, pagar o casamento, comprar terreno e nele construir casa, todavia, deu-me e transmitiu-me outros valores que tenho-os em maior conta que tudo o resto. Esses valores são imensuráveis e difíceis de descrever porque tantas vezes surgiram do nada, de pequenas centelhas que só mais tarde, já adulto, maduro e também na condição de pai, consegui decifrar.

Tive pois, um pai, simples como tantos outros, com defeitos e virtudes postas nos pratos da balança, ora a pender para um lado, ora para outro, porque o equilíbrio na vida é sempre uma labuta diária, constante. Basta-me isso!

Já partiu o meu pai, é certo, mas tenho-o presente quase diariamente nas minhas orações. Fico contente que toda a gente tenha o melhor pai do mundo. Eu também poderia alinhar e cantar em coro e afinado a mesma cantiga, mas, sem inveja de quem tem o melhor pai do mundo, fico-me pela simplicidade do meu.

15 de fevereiro de 2024

Quaresma - Caminho de introspecção

A Quaresma, um período, um caminho de quarenta dias, é o tempo que na liturgia católica antecede a celebração da Páscoa, oferecendo uma rica reflexão teológica e filosófica. Associada à penitência, reflexão e preparação para a celebração da ressurreição de Cristo, ela convida os fiéis a uma renovação da sua fé, à purificação espiritual individual para uma renovação do compromisso com os valores do Evangelho.

Filosoficamente, a Quaresma é um convite à introspecção e autoconhecimento, convidando-nos a examinar as nossas vidas, escolhas, relacionamentos e prioridades. Ela lembra-nos da natureza efêmera e transitória da vida humana, convidando-nos a viver de acordo com nossos valores mais profundos e procura de uma vida de significado e propósito.

Ao mesmo tempo, a Quaresma oferece esperança e promessa de renovação. Assim como a Primavera segue o Inverno, a Páscoa segue a Quaresma, simbolizando a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. É uma mensagem poderosa de que, mesmo nos momentos mais sombrios de nossas vidas, há sempre a possibilidade de renascimento, transformação e ressurreição.

14 de fevereiro de 2024

Tio Neca

Foi hoje a sepultar, em dia de cinzas, num simbolismo cristão e dobrado da nossa essência, a de condição de pó que à terra retorna, para em pó se transformar. Persistem a alma e a memória.

Não sei a quem, creio que ao Sr. Albertino, mas a alguém passou o testemunho do homem mais velho da nossa comunidade. É o ciclo da vida.

11 de fevereiro de 2024

Tio Neca - O simbolismo da partida

 


É meu tio, mas podia ser pai ou tio de qualquer um. A partida definitiva de alguém que tem nos seus ombros  e no seu nome o epíteto de "homem mais velho da freguesia", é e deve ser fortemente simbólica para a freguesia, para a comunidade. Afinal, de quantos compõem a comunidade, do mais velho ao mais novo bebé, todos nasceram depois dele. Por outro lado, de todos quantos nasceram antes e que conheceu, todos partiram à sua frente. Tem que haver nisto um simbolismo forte.

O tio Neca era um homem comum. Inteligente, bem disposto, de gargalhada fácil, e com boa memória até quase aos 100, capaz de recitar de cor longas lengalengas e leituras que aprendeu na escola e na tropa, e que desde que me conheço como seu sobrinho, sempre disponível para brincadeiras, nas malhas ou nas cartas. Não foi homem de grandes feitos ou aventuras. Pelo contrário, desde logo pela sua condição de solteiro, viveu sempre relativamente despreocupado, pacatamente tanto quanto possível, num dia-a-dia sem trabalho de horários e patrões, de criar e educar filhos e aturar ou ser aturado por esposa. Chegou a explorar a mercearia que na casa havia sido do pai, ali pela década de 1950, mas em tempo difícil em que o livro dos calotes andava sempre com as contas em débito, acabou por fechar. 

Ia vivendo dos rendimentos e da venda de uma boa parte do património que herdou dos pais e de muita poupança, inicialmente até em exagero, descontando para a Casa do Povo que lhe assegurou a reforma, mesmo que nos tempos no Lar já não cobrisse as despesas. 

Por si nunca foi homem de gastos, grandes ou pequenos, e não fossem os mais chegados da casa a pô-lo nos carris da normalidade, vestia sempre a mesma roupa e comia o que feito de véspera. Era apesar disso esquisito na comida e nem qualquer coisa o alegrava e com saudade e água na boca recordava amiúde a fartura na cozinha e mesa da casa dos pais, sempre abundante de broa saída a cada semana do grande forno, capoeiras cheias, salgadeiras fartas e panelas de três pernas sempre a fumegar na larga lareira com carnes de porcos de largas arrobas. 

A minha mãe e sua cunhada Eugénia compreendia-lhe os gostos e com frequência, para o desougar, preparava-lhe umas iguarias ainda com os sabores e aromas dos tempos antigos, no que se consolava mas com medida bastante porque a sua idade já não se compatibilizava com salgados e fumeiros. Para ele, ao contrário de qualquer judeu, carne de porco era sagrada, se possível salgada e fumada. Sopa, à lavrador e com muita substância, muito entulho, como dizia. Mas sim, era muito esquisito o que arreliava quem tinha a função de lhe por a comida na mesa. Por essa dificuldade em cozinhar aos seus gostos e escapar dos seus reparos, durante os últimos anos as refeições vinham da cantina do Centro Social de Lobão, mas raramente comia sem torcer o nariz e fazer cara feia à comida que classificava de branquita e desconsolada. Do muito que sobrava fartavam-se os cães e gatos.

É certo que quando vivia na companhia da sua irmã Celeste, portas meias com a de meus pais, tinha os seus momentos de alguma inquietação e mesmo arrelias, porque vivia nessa estranha condição em que lhe era simultaneamente irmão, filho ou mesmo uma espécie de marido no que tocava a orientar a casa e das necessidades do dia-a-dia. Tratava dos campos, das hortas, das podas, das regas, de algum gado, a lenha para a lareira, etc, etc. 

Mas apesar dessas singularidades de cão e gato, próprias de qualquer família, que iam das arrelias comuns, das zangas às rezas, era senhor do seu destino e por isso nunca se "matou" de trabalho. De resto, a morte na sua fatal tarefa só o procurou  agora, bem tarde, uns meses depois de ter soprado as velas do bolo do centésimo aniversário. 

Depois da partida da sua irmã acabou por ter que deixar, com natural tristeza, a parte da casa que durante muitos anos partilhou e teve como sua, mas encontrou abrigo na mesma casa, na parte de meus pais e amparado e cuidado pela minha mãe e sobretudo pelo seu sobrinho Adérito, em larga medida que  lhe foi como um filho, ali esteve independente, à sua vontade, uns bons anos até que já em tempo de pandemia e depois de um episódio que o levou de urgência ao hospital, acabou por ser encaminhado pelos serviços para o lar Hospital da Santa Casa da Misericórdia em Arouca onde esteve durante quase três anos, bem acompanhado, cuidado e com visitas regulares. Pode-se dizer que nada lhe faltou também pela sua condição de saúde sem grandes problemas e esteve sempre relativamente bem, apenas com alguma perda de mobilidade o que se compreende com a idade avançada.

A caminho dos 101 anos acabou por encontrar o seu destino. Uma infecção respiratória, que tem levado muita gente, até a um nada habitual excesso de mortalidade face à média, mas a verdade é que também foi. Estava, apesar de tudo, já a melhorar, mas foi, até com alguma surpresa dos médicos e cuidadores.

Está, pois, no lugar que acreditava que estaria, ao lado dos seus, dos avôs, dos pais e de quase todos os irmãos, ficando ainda a mais nova, a Laurinda, mas também esta já a caminho dos 100, bem cuidada pelas filhas mas já privada da memória e do conhecimento.

A vida é assim e a partida é uma fatalidade que a todos chega, em diferentes tempos e modos mas como diz o povo na sua sabedoria milenar, e de resto óbvia, "quem de novo não vai, de velho não escapa".

No resto, foi-se esse simbolismo do mais velho de todos e alguém certamente fica no seu lugar e será sempre assim nesta roda da vida no seu movimento perpétuo. Vai a sepultar na próxima Quarta-Feira, dia de cinzas, no que aumenta o simbolismo e significado da nossa condição de pó que como tal à terra há-de voltar.

Que Deus o tenha em descanso eterno e em paz!

30 de janeiro de 2024

Fonte de emoções

Há muito que me desacreditei da verdadeira utilidade ou motivo fundado das redes sociais, como o Facebook, e assim por entre pausas sanitárias lá vou ganhando fôlego para um novo mergulho e retomando a ligação, já não tanto para beber, que as fontes ou estão secas ou inquinadas, mas apenas como alguém idoso que à sombra de um beiral de uma casita de esquinas coçadas de algumas das nossas aldeias interiores e quase desertas, ainda aponta com sentido de utilidade a direcção certa para uma sítio ou curiosidade que um ou outro turista de roteiro nas mãos procura mas não encontra. - Ali à esquerda, ao fundo daquela vereda e depois a cerca de 100 metros a subir, corta à direita e vai descendo até encontrar do lado esquerdo! Não tem que enganar!

Em suma, já pouco de verdadeiro e de talento próprio que mereça a atenção, ali desagua, mas de quando em vez lá surge um vislumbre de que ainda há gente que para lá do seu umbigo partilha coisas interessantes e em resposta alguém expressa reconhecimento, acrescenta valor ou até se emociona. 

Ainda há dias, fora da lista de "amigos", alguém partilhava por cá um pedaço de prosa do José Saramago, a parte inicial do seu discurso aquando do recebimento do Nobel da Literatura, a descrever os seus avôs e os seus modos de vida e de pensamento parante a mesma, a ponto de dormirem com os porcos pequenos na mesma cama, não por questões de afecto mas tão somente para, preservando-os do frio, aumentar as suas possibilidades de sobrevivência e que depois de criados e vendidos seriam eles próprios pão-nosso-de-cada-dia dos criadores. A este pedaço de prosa, que poucos leem porque mal habituados a frases curtas e grossas, alguém respondeu "...que emocionante". 

Sim, de facto, até eu que não tenho em Saramago a leitura mais favorita, quando já havia lido o seu discurso, deliciei-me de princípio ao fim e também me emocionei, não pela qualidade da escrita mas por toda aquela cena, aquele quadro de vida, ser autêntico e com gente verdadeira. Era na Azinhaga do Ribatejo mas poderia ser aqui em Guisande, no Viso, no Reguengo ou em qualquer outro lugar no tempo dos nossos avôs e bisavós. A vida era de miséria e trabalho duro mas era plena e na mais profunda ligação entre o ser humano, a terra e os animais. Não tenho memória de lá por casa se ter dormido com porquinhos mas dormiu-se várias vezes no aido ao lado vacxa que estaria para parir.

Também eu, de talento escasso face à grandeza de Saramago, poderia aqui tentar descrever cenas desse tempo, de gente dessa cepa retorcida, em que nos poucos momentos em que o corpo não podia recusar o descanso, as noites eram passadas a olhar um tecto de estrelas e apesar da ignorância das letras e das ciências, o homem de antanho questionava Deus sobre todas as coisas e o sentido delas. Se antes de adormecer o corpo cansado era todo ele um poço de dúvidas, logo que volvidas poucas horas e o sol já a despontar pelos pinhais, a bater nas janelas ou por entre as folhas da árvores da horta, tinha na ponta da língua todas as respostas ao que era preciso fazer para mais um dia assegurar a sua sobrevivência e dos seus. Cuidava dos animais e dos filhos com o mesmo peso e medida e das coisas da terra tratava como um mestre, esclarecido e sem dúvidas. Se delas  persistia uma ou outra num momento de distracção dos afazares, à noite voltaria a questionar o Criador. 

A fonte das emoções jorra caudalosa mas são poucos aqueles que dela se abeiram com sede.

Atrás dos sonhos a coxear


Amiúde, porventura com uma frequência que mais que incentivar só banaliza, lá vamos ouvindo e lendo que não devemos deixar de ir atrás dos nossos sonhos e que importa sempre não desistir de lutar por eles. O que não falta nos livros são pensamentos sobre os sonhos, mais ou menos lineares ou filosóficos como o de Fernando Pessoa: "De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos" ou do António Gedeão com o intemporal "O sonho comanda a vida" no poema da "Pedra Filosofal".

Mas qual quê? Todos os sonhos ou só aqueles que é lícito pensar como exequíveis e no tamanho da nossa natural passada? É que também sempre fomos ouvindo como conselho que não é sensato dar passos maiores que as pernas, vender cabritos de cabras que não temos e que quem alto sobe mais dói a queda. Há ainda a fábula do sapo que queria ser boi a ponto de se insuflar até estourar. Como se não bastasse, ainda a realidade pura e dura sempre a dar lições mesmo que nem todos queiram aprender.

Além do mais, ouvir tais conselhos em ir atrás dos sonhos por parte de quem vive num mundo de fantasia, onde as nuvens são cor de rosa como as revistas que existem para falar deles próprios, não é lá grande pistola. Ou isso ou ler com todas as letras em livros de auto-conhecimento e auto-ajuda, como se os seus autores sejam gente experiente tanto na na caça aos sonhos como aos gambuzinos, desinteressada e metida a distribuir incentivos como a repartir fortunas ou a ensinar os truques e segredos de como as alcançar. Sempre fiquei de pé atrás quanto a maluquinhos que vendem a troco de tostões curas milagrosas, receitas milionárias, galinhas de ovos de ouro, heranças de príncipes tribais africanos, etc. Mas isto sou eu e poucos mais, porque no geral o que não faltam por aí é vítimas de sonhos, de aldrabices, contos do vigário, vendedores de banha da cobra, desde os mais suspeitos aos mais respeitáveis atrás de balcões de instituições, bancárias incluídas. Mas pior do que essa gente "preocupada" com os nossos sonhos é haver quem, mesmo acordada e de olhos abertos, se deixe embalar no dorso de unicórnios e cristas de dragões.

Os sonhos, para além dos aspectos e interpretações filosóficas e poéticas, são isso mesmo, sonhados a dormir ou  bem acordados, mas quase sempre longínquos e inalcançáveis que não por sortilégio de muito trabalho, de um grande prémio nos jogos da Santa Casa ou de ambos. Ora nos dias que correm poucos são os que chegam aos calcanhares dos mais ambiciosos sonhos apenas com vontade, trabalho e dedicação. No resto andamos todos a sonhar acordados, a fazer viagens a tudo quanto seja canto neste planeta esférico, a olhar as horas em relógios de ouro, a passar umas noites com as mais belas modelos, a pernoitar nas mais luxuosas suites, a ter segundas e terceiras casas em paraísos turísticos, um portefólio de máquinas como motos, carros, iates e jactos.

Ora, ora! Isso será apenas para alguns, pelo menos para o 1% das figuras que detêm 99% da riqueza mundial, onde talvez para além dos Musks, Gates, Bezzos e Zuckerbergs, estejam por lá o Ronaldo e o Messi. Para os restantes 99% resta-lhes, quando muito, irem sonhando os sonhos dos outros.

Não fora a importância da realidade e do ter ambos os pés bem assentes na terra, e também eu andaria ocupado a correr atrás de certos sonhos. Mas porque raio não sonho em ter fortuna material, casas, carros, motas, relógios e milhões no banco? Logo só me dá para sonhar em voar como as águias, correr como um alazão, saltar como o Spiderman, poder tornar-me invisível, viajar através do tempo, percorrer pelo universo como o Superman, etc, etc, como se fora um dos milhentos herói da Marvel. Que raio de sonhos! É que para estes não há receita que os transformem em realidade e por isso só mesmo sonhando, de preferência a dormir.

Em resumo, a mim, e creio que a todos, bastará ter saúde e ser feliz com o que temos, usando de honestidade e honradez e sem prejudicar os demais, mas haverá sempre quem ache isto sonhar rasteiro e sinal de falta de ambição e daí não surpreende que os sonhos de uns se concretizem com o atropelo e pesadelo de outros. Talvez por isso haverá sempre e cada vez mais no nosso modelo de sociedade ocidental uma legítima justificação dos meiso face aos fins, como parafraseava Maquiavel. Talvez...

29 de janeiro de 2024

O talento já foi chão que deu uvas


O talento pode ser definido como uma habilidade natural ou aptidão excepcional para realizar alguma atividade com destaque, muitas vezes demonstrando facilidade e excelência em comparação com os outros.

Além disso, o talento pode ser inato ou desenvolvido ao longo do tempo por meio de aprendizagem, prática intensiva e experiência. Ele pode manifestar-se em diversas áreas, como artes, desportos, ciências, e muitas outras, contribuindo para o sucesso e realizações individuais. O reconhecimento e cultivo do talento são fundamentais para o crescimento pessoal e profissional de uma pessoa.

Durante muito tempo a expressão do talento era ela própria, inconfundível, intrínseca. Quem o tinha, tinha e quem não, não. Mas desde há alguns anos e sobretudo agora com as ferramentas tecnológicas e a Inteligência Artificial a dar cartas, tanto ao nível do conhecimento em geral como na capacidade de produzir conteúdos gráficos, num instante somos todos artistas e criativos e um qualquer Zé da Esquina que nunca foi capaz da mais singela criação artística, ao nível de uma criança no Jardim de Infância, é agora poeta, desenhador, pintor, fotógrafo requintado, etc.

São, pois, tempos perigosos estes em que os vendedores da banha da cobra misturam-se a fazem-se passar por talentosos criativos. Os Photoshops vieram retocar e transformar o velho em novo e feio em bonito, mas até aí era necessária capacidade e mesmo talento para o processo. Apesar da perversão, são talentosos os pintores que falsificam quadros. Já com a AI (Artificial Intelligence) e com os inúmeros serviços que dela se aproveitam, basta pedir à lista o que se quer, desde um quadro com uma criancinha a dormir com um gatinho, uma paisagem deslumbrante ou exôtica até uma Taylor Swift em poses pornográficas, como tem sido noticiado, com milhões de visualizações, levando a indignações e reacções como a do CEO da Microsoft, Satya Nadella, que afirmou numa entrevista que considera “alarmante e terrível” a perspectiva de começarem a circular imagens geradas por Inteligência Artificial de nudez não consensual. 

Certo é que mesmo apesar das entidades governamentais e reguladores mostrarem que estão preocupadas com as perversidades da IA, a verdade é que a bomba já foi lançada e os estragos são e serão irreparáveis porque a experiência diz-nos que isto não vai parar. Poderia parar numa China, Rússia ou Coreia do Norte, mas não nos países onde a democracia não consegue cortar certos males pela raíz ou desfazer conceitos politicamente correctos. No fundo, para o bem e para o mal, temos que colher o que semeamos.

Neste contexto, neste mundo inundado de "merda talentosa", como diz uma certa cantiga (creio que de José Augusto), "Agora aguenta coração".

28 de janeiro de 2024

Herança dos afectos

Sou resultado de um tempo e de uma educação em que o lugar a carinhos e outras expressões de afectos filiais ou de outra natureza, eram escassos ou distribuídos com parcimónia. De um filho esperava-se que, logo que com passos firmes, cabeça com entendimento  bastante para compreender e aceitar ordens e corpo capaz de suportar tarefas,  fosse mais um criado de servir a casa e ajudar na parca economia arrancada da terra, mitigada nas tetas de uma vaca ou nos ovos que se confirmavam com o mindinho estarem no cu da galinha. 

Era assim no tempo dos nossos pais e antes deles, dos seus e nossos avós. Por conseguinte de uns para os outros foi passando esta herança de poucos recursos incluindo os afectos. Não surpreende por isso que a muitos, a juntar à fome, miséria e trabalho duro, se somassem valentes coças, daquelas que enegreciam o corpo mas que, paradoxalmente, a dar forma ao ditado de que "o que não mata engorda", ajudavam a formar gente dura e resistente ou, como modernamente se diz, resiliente.

Decorre destas ideias de que no geral somos fruto do tempo e das condições dele em cada época da nossa história e sociedade. Uma macieira dá maçãs e uma oliveira azeitonas. É, se quisermos, a ordem natural das coisas e mesmo da natureza.

Pela parte que me toca e creio que dos meus, nunca houve fartura, daquela que mesmo hoje em dia qualquer classificado como pobre, dispõe e até esbanja se não for da sua medida e agrado, mas também nunca se passou fome, nem necessário foi andar descalço, roto e despido, mesmo que as roupas de uns se acomodassem a outros. E também nunca houve maus tratos e coças para além das que hoje em dia faltam por defeito para repor algum sentido de disciplina e responsabilidade. Os afectos esses eram expressos pela sopa com pão colocada na mesa, pela roupa lavada e remendada, por um brinquedo, mesmo que simples, num momento especial, pelo aconchegar a roupa na cama em dia de frio, pelo lugar ao lado da fogueira em noites de frio, pelo rato de chocolate pelo Natal, por uma amêndoa na Páscoa. O resto, abraços e beijinhos, esses eram interiores e não havia tempo para eles. Sentiam-se mutuamente numa centelha espiritual mas raramente física.

Quanto à mão estendida para rectificar a indisciplina, lá sabem agora os novos o que isso é? De resto ainda por estes dias foi notícia de que as autoridades apreenderam nas nossas escolas algumas dezenas de armas entre os alunos (e nestas coisas apenas uma pontinha do icebergue). Além disto, notícias de agressões, como ainda agora no Vimioso, e de alunos a professores, tornaram-se banais e inconsequentes. As escolas, convenhamos, são tudo menos exemplos de disciplina e boas maneiras e mesmo no que ao ensino diz respeito, basta atentar nos resultados, com serviços mínimos ou mesmo negativos. É o que é. Um burro nunca há-de ser cavalo.

Mas onde queria chegar? À questão da herança dos afectos. Se nesses tempos passados foi como resumi, e cada um terá a sua própria memória e experiência, no geral os que assim foram moldados e cresceram raramente são expansivos na  manifestação para com os seus. Não porque não os tenham ou sintam, mas porque os consideram como supérfluos ou mesmo inúteis. De resto os sentimentos na sua essência são invisíveis quanto mais profundos. Se um filho não chora ao lado do caixão de um pai ou mãe é porque a sua dor é interior daquela que dilacera por dentro. Ao contrário, sem qualquer ligação afectiva, é ver algumas carpideiras agarradas aos mortos ou aos vivos num choro e numa dor patéticas e desproporcionadas porque fingidas ou encenadas.

Os tempos mudaram e a avaliar pelo que se vai vendo, nomeadamente pelas redes sociais, parece que hoje em dia é que as pessoas sabem amar e ser carinhosas. É só paixão, amor e carinho, abraços e beijos a filhos, a amantes e namorados, juras de amor, algumas patéticas porque inconsequentes. Mas vive-se disto, destas aparências, e para mal dos nossos pecados no geral não passa de uma teatralização onde se espera que as plateias aplaudam demoradamente. É certo que não será por aqui que virá o mal ao mundo e nestas coisas é como a presunção e água-benta que cada um toma a que quer, mas o artifício, como o fogo dele, é sempre efêmero, mesmo que deslumbrante e colorido por uns lapsos de segundo.

26 de janeiro de 2024

Há dias assim


Ele há dias em que damos connosco próprios a questionar do motivo do sentido da nossa existência, senão na vida, pelo menos naquele instante, tal é o peso da indiferença e o vazio que se sentem. Se estamos aqui já pensamos em estar ali, mas se lá chegados logo uma vontade de estar acolá e mais além e assim em todos os lugares e em lugar nenhum ou, numa divina ubiquidade, a de estar em todos simultaneamente. Mesmo se nos dispomos a fazer algo, físico ou mental, logo surge uma vontade de nada fazer ou porque isso implicará inspiração que não brota, forças que não sentidas ou então por falta da faísca que dá sentido e finalidade às coisas.

Se o tempo está com fraca cara, chuvoso e frio, a coisa quase se justifica à modorra e imobilidade, mas se o tempo está bom, ameno e soalheiro, ainda atentamos em dar uma caminhada, um passeio ou simplesmente ir ao jardim ou à horta ver as rosas a desabrochar ou a fruta a crescer, mas nesses momentos tudo nos parece na mesma e a natureza para nos maravilhar precisa de tempo, noite, dias, semanas e meses e não temos a paciência necessária para a ver dar frutos assim num repelão só porque nos apetece.

Há, de facto, dias assim, em que mesmo nada nos doendo nem preocupando, sente-se um vazio no corpo e na alma ou, então ao contrário, um sentimento de que estamos cheios de nada.

25 de janeiro de 2024

Alguém anda a roubar o meu naco

Segundo dados relativamente recentes da FAO - Organização para a Alimentação e Agricultura, uma agência especializada das Nações Unidas, Espanha e Portugal são os países que a nivel mundial mais carne comem. Estima-se que cada português consome em média 95 Kg de carne por ano, o que dá a bonita parcela de 260 gramas por dia, o que equivale a dois bons bife. Desta quantidade, quase metade corresponde a carne de porco e a restante entre a de origem bovina e de aves.

Faço as minhas contas e, mesmo contando com um ou outro exagero em dias festivos, não consigo chegar nem de perto a esses números e quantidades per capita, desde logo porque habitualmente o peixe entre com regularidade nas ementas cá em casa e mesmo quando carne pouco mais que 100 gramas já limpa de ossos. Além disso, por vezes, muitas, nem carne nem peixe e apenas um simples ovo ou umas pataniscas vegetais. 

Em resumo, as contas são fáceis de fazer e acreditando na FAO chego à conclusão que há muitos anos alguém anda a comer a quota parte a que tinha direito. Que há por aí muitos comilões a irem com frequência ao Zé de Ver, sei que há, mas assim a roubarem descaradamente a minha parte, o meu naco, ficando eu com a fama de comedor mas sem o proveito, é que não! 

As médias nas estatísticas têm esta particularidade, a de pagarem todos pela mesma medida e por elas até os vegetarianos comem carnes.

24 de janeiro de 2024

A palavra de um homem já não vale um molho de grelos

Neste último Sábado, não sei se repararam mas esteve um bonito dia de sol, como já não há algum tempo. Assim, porque isto de pedalar só é prazeroso se pelo menos com sol, lá tirei a bicicleta do sossego e lançámo-nos à estrada.

Ía ali por Cesar, já próximo das onze horas, quando me aproximei de um outro ciclista de fim-de-semana e porque se rolava no plano metemos conversa. Disse-me que já tinha subido e descido a Freita. Como os ciclistas tendem a exagerar  nas suas façanhas, respondi-lhe que também já tinha ido a Arouca e subido à Senhora da Mó, pelo que já trazia uns valentes quilómetros nas pernas e apanhado um frio do caralho. É certo que já subi à Senhora da Mó pelo menos uma meia-dúzia de vezes e mais do que isso à Freita, mas não nesse dia. 

Lá aceitamos como verdadeiras as gabarolices mútuas e com naturalidade continuamos a conversa, de onde era, idade, peso, etc, coisas relevantes para quem pedala. Disse-me que vivia ali pelos lados do Loureiro, de Oliveira de Azeméis, e seria um pouco mais novo e bem mais leve do que eu.

Já na estrada de Vale de Cambra para S. João da Madeira, ali por Pindelo, viu na berma um vendedor de frutas e legumes e ao ver uns bons molhos de grelos disse que ía parar para comprar. Achei estranho e fiquei curioso em como é que havia ele de transportar um molho de grelos até ao Loureiro. Talvez com a saca pendurada no volante, amarrada no quadro ou enfiada dentro da jérsey o que lhe daria um ar de barrigudo, mas que seria seguramente um empecilho. Mas lá parei com ele para assistir ao negócio, até porque também gosto de grelos, mas seguramente que não os compraria ali pela simples razão de não ver como os transportar e ainda longe de casa e com subidas pela frente.

Lá viu os grelos, pediu o preço, e dispô-se a levá-los e já os imaginava verdes, tenros e fumegantes a fazer companhia a uns rojões, mas quando ía para pagar deu conta que não tinha levado a carteira nem dinheiro. Então, porque pretendia ainda ir a tempo de a esposa os meter na panela ao almoço, questionou o vendedor se os poderia levar e que pela parte da tarde teria que ir a Carregosa pelo que passaria por ali e pagaria os grelos. Ora o vendedor, já estranhado por ver um ciclista em calças de licra a comprar grelos na berma da estrada, não lhe confiando na palavra, disse que não poderia fazer isso, que tivesse paciência. Que passasse ali depois do almoço, que ainda deveria ter, e que se quisesse até os reservava. O ciclista, desconsiderado e desacreditado na palavra e porque os pretendia comer ao almoço, desejoso com uma mulher prenha, virou costas e desistiu dos grelos. Pouco depois despedimo-nos. Ele cortou à esquerda  na variante e atalhou para Oliveira de Azemeis e eu para Cesar a caminho de casa.

Pela subida até ao Mergulhão, não pude, entre sorrisos e algum espanto, deixar de rever aquela cena, algo caricata mas que teve um significado profundo, o de que por estes tempos a palavra pouco ou nada vale. Noutros tempos a palavra dada era sagrada e honrada e até se pagaria com a vida se não cumprida, como aprendemos com o quadro histórico de Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques por quem dera palavra ao rei de leão e Castela, Afonso VII, para este levantar o cerco a Guimarães. O jovem príncipe recusou a vassalagem prometida e o aio ficou em incumprimento da sua palavra e honra e desse modo apresentou-se com a sua família de corda ao pescoço perante o rei castelhano, como penhor da sua promessa não cumprida.

 Mas isso foi noutros tempos e de gente que levava a palavra jurada a sério. Pelo contrário, nos tempos que correm a palavra de honra  já nada vale, nem sequer dois euros e meio, o preço de um molho de grelos.