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22 de janeiro de 2023

Adeus comunidade solidária

Confesso que não me apetece reflectir de forma profunda sobre isso, nem colher ou muito menos dar lições de moral, mas parece-me uma pura constatação de que os nossos jovens quase nunca participam em cerimónias fúnebres, excepto aqueles por questões circunstanciais especiais, desde logo os que pertencem à família dos que partem.

Mas se esta é uma realidade quanto aos jovens, também se nota que dos nossos adultos dos cinquentas para baixo, poucos ou nenhuns se veem num funeral ou mesmo numa missa de sétimo dia, mesmo que a um Sábado ou a um Domingo.

Não são, por isso, sob um ponto de vista moral, nem mais nem menos que os demais, mas que se nota, nota. 

Tenho, naturalmente, algumas razões que me parecem justificar esta realidade, mas para o caso pouco importam. Mais que um mero desrespeito, que não é, ou desinteresse por quem parte ou por quem da família fica e sofre as dores do luto, há sobretudo um comodismo, uma indiferença quase generalizada. E isso porque em grande parte as pessoas já não se conhecem numa perspectiva de comunidade. Cada um leva a sua vidinha sem grandes rasgos de vivência fora de portas ou do círculo restrito da família chegada. Cada um está por si, pelo que quando morre o Ti Manel ou a Ti Maria, mesmo que da vizinhança, ninguém sabe, ninguém conhece ou não quer saber. 

É certo que tantas vezes os funerais são marcados para horas impróprias e inadequadas para quem trabalha e tem responsabilidades. Eu próprio, por isso, acabo por não participar em alguns funerais, com pena, mas procuro sempre que posso e logo depois, transmitir pessoalmente os sentimentos aos familiares mais próximos.

Em todo o caso, há sim, porque é notório e evidente, um desinteresse generalizado, e não espanta, pois, que ninguém deixe de fazer o que tem a fazer, mesmo que no domínio do recreio e lazer, para ir participar comunitariamente nas cerimónias de despedida de algum dos dos nossos que partiu e para, de algum modo, ajudar a mitigar a dor dos familiares nesses momentos de tristeza e pesar. Quem passou por elas, sabe que é reconfortante um apoio da comunidade.

Mas é o que é e não há volta a dar. Estas coisas vão neste sentido e não tardará, daqui a mais duas ou três gerações, desaparecidos os actuais mais velhos, que um qualquer funeral seja um mero frete reservado apenas à participação e responsabilidade dos familiares, e nem todos. Cada um por si. A indiferença ganha campo.

Adeus, comunidade solidária! Descansa em paz!

9 de janeiro de 2023

Cristina, a popularidade é fundamental

Pobre que sou, não viajo, pelo que não sei se noutros países isto também acontece, mas em Portugal é certinho e direitinho, por exemplo: Se uma figura pública entrar num restaurante com a sua comitiva, o mais certo é que seja principescamente tratado, com recomendações à cozinha e pessoal de mesa, e no final o dono nada lhe cobre a troco de uma sorridente selfie conjunta que depois exibirá orugulhosamente num local visível do seu estabelecimento, para que todos comprovem que o sítio é bem frequentado. Em resumo, alguém que por princípio poderia comer e beber bem e pagar melhor, provavelmente comerá à borla. Por oposto, uma qualquer Zé Ninguém, de mau aspecto e mal vestido, mesmo que não impedido de entrar terá que ir para um canto, comer rápido e pagar por inteiro.

Este tipo de situações, paradoxais, são comuns e leva a um ciclo em que os mais ricos, mais importantes e famosos, levam sempre a melhor e são beneficiados. Ou seja, quem tem reconhecimento público é mais reconhecido. E isto acontece em muitas áreas de extractos da sociedade no nosso Portugal. O recurso à cunha, à influência de um amigo, está-nos no sangue. 

Outro exemplo, um qualquer desconhecido com pretensões a escritor, mesmo que com grande qualidade, tem um longo, penoso e custoso percurso até se tornar notado nas editoras e circuitos comerciais e depois almejar a viver da escrita. Já um outro, conhecido, com títulos que se vendem como pãezinhos quentes, tem todas as portas escancaradas e é disputado por editoras e orgãos da comunicação social. Está e aparece em todas!

Ainda agora, por estes dias, dei comigo a constatar que a artista musical Midus Guerreiro, compositora, baixista e vocalista, que actualmente trabalha em Londres, mas que se tornou conhecida a partir da década de 1980 quando fazia parte da banda Roquivárius, com temas que se tornaram populares como "Ela controla" ou "Cristina, beleza é fundamental" tem estado em tudo quanto é rádio, televisão, jornais e revistas, promovendo o seu último trabalho, o álbum "Minhas Canções, Meus Amigos". Só na rádio já a ouvi a dar entrevistas em pelo menos 3 estações, e ainda agora num jornal de âmbito nacional mas igualmente em plataformas digitais. Não vejo muita televisão mas presumo que tenha passado pelos Gouchas ou similares. Mas isto acontece não apenas com a Midus, de resto uma excelente artista e que aprecio, mas com muitos e muitas outras Midus, tanto na música, como no desporto, entretenimento, politica, etc, etc.. 

Em suma, nada é fácil para quem é desconhecido. Para os outros, para quem já tem estatuto, tudo é caminho aberto. E surpreendem-se alguns quando os indicadores dizem que cada vez mais os ricos são mais ricos e os pobres mais pobres. Tudo anda anda ligado a esta cultura diferenciadora em que o sermos iguais, com os mesmos direitos e  oportunidades é apenas uma treta escarrapachada numa qualquer constituição ou livro de regras politicamente correctas. A prática diz-nos que a coisa é bem mais dura e selectora.

É o que é! Por isso, para a Cristina e muitos outros, a beleza, mas sobretudo a popularidade, é mesmo fundamental.

Uma terra de todos e de ninguém

Contando por alto, mesmo com gente natural da freguesia mas que estava fora, mais coisa menos coisa foram mais de uma dúzia os falecimentos de guisandenses neste ano que terminou. E o mês de Janeiro do novo ano ainda está na primeira semana e já foram duas pessoas a partir. A última delas vai hoje a sepultar.

Costumamos dizer que isto é uma roda e que uns morrem e outros nascem. É certo! Mas também tomamos como adquirido que é normal que os nascimentos sejam mais que os falecimentos para assim haver crescimento da população e cumprir-se a velha regra divina do "crescei e multiplicai-vos". 

Todavia, há anos que esta regra está virada do avesso e não só na velha Europa, como em Portugal e Guisande, os nascimentos estão em redução e por isso as populações estão a reduzir e a envelhecer. E se em Portugal a coisa não tem sido mais dramática tal só acontece porque uma parte substancial dos nascimentos, sobretudo na área da Grande Lisboa, são filhos de pais estrangeiros. De resto, parece que os três primeiros nascimentos em 2023 cá em Portigal, foram precisamente de pais não portugueses.

Em Guisande o mesmo problema que já vem de há anos. Face a a essa dúzia de falecimentos no ano de 2022 quantos nascimentos ocorreram? Três, dois, um? Nenhum? 

Por mim já tenho falado e escrito sobre o assunto e pouco importa perder tempo com explicações e justificações. Elas são por demais evidentes, desde logo pelo nosso estilo e padrões de vida bem como pela falta de políticas sérias e consistentes de apoio às famílias, nomeadamente à natalidade. Hoje o conceito de família anda virado do avesso e até mesmo vandalizado ao abrigo de modernos paradigmas pelo que pouco ou nada há a fazer. Fica o dilema de continuar a assistir à redução da população e ao esvaziamento do já euxaurido interior ou então, como muitos defendem, abrir as comportas para o país ser inundado de gente proveniente do terceiro mundo para de novo povoar esta terra de velhos e passarmos a ser não uma pátria mas um ninho de vespas, uma  arca de noé com uma miscelânia de gentes de diferentes raças, culturas e credos com todos os riscos inerentes e decorrente dos extremismos e fundamentalismos. Parece-me, que se formos por aí, sem regras nem rei nem roque, deixaremos de ser uma pátria mas antes um acoradouro, uma terra de todos mas de ninguém. 

1 de janeiro de 2023

Saúde, paz e bem.

São estas as primeiras três palavras que escrevo neste início de novo ano.

Sabemos o que ficou para trás; Desconhecemos o que nos espera. Provavelmente daqui a 365 dias estamos a concluir que foi mais do mesmo. No fundo tudo é mais do mesmo porque a vida é assim mesmo, a rodar num movimento perpétuo. 

Vamos conhecer alegrias, tristeza, coisas boas, momentos trágicos e dolorosos. Gente que nasce e morre, gente boa que parte, gente má que fica.

Aspiramos, é certo, a uma vida baseada na trilogia da saúde, paz e amor, mas a mesma vida ao longo dos tempos e da nossa história enquanto humanidade, sempre nos mostrou os seus altos e baixos, momentos de paz, progresso e prosperidade mas igualmente períodos de guerras e mortandades. Nestes tempos é de guerra que se fala e desconfiamos que a coisa é para continuar e agravar.

Seja como for, o comboio está em marcha e só percorrendo o caminho daremos conta do que nos espera no virar de cada curva.

24 de dezembro de 2022

Ainda é Natal?


Tal como o disse num deste dias o meu amigo Mário Augusto, continuo a gostar muito do Natal, pelo que representa de valores cristãos, confraternização familiar e tradição, mas de facto já não é a mesma coisa como nós, os mais velhos, sentimos noutros passados tempos. E não porque antes fosse melhor, no que diz respeito a fartura de coisas boas, das que se põem na mesa e extasiam os olhares; bem pelo contrário, pois por esses tempos tudo o que ía à mesa na abençoada noite, era escasso e custoso. Mas era singular, genuíno e diferente de tudo  quanto se oferecia no resto do ano. Além disso, algumas das coisas associadas, só mesmo nessa altura do ano. Claro que ainda o bacalhau, as batatas e couve penca, as rabanadas, a aletria e pouco mais. Bolo-rei era um luxo para burgueses e a criançada animava-se com um rato de chocolate. Gente simples sempre teve gostos simples.

Hoje em dia a fartura e diversidade chega a enjoar e a tirar o apetite e quase que nos leva a desejar que esta quadra passe depressa, que não deixa saudades. Há de tudo e mais alguma coisa com a mesa inundada das coisas do costume e outras exôticas. As prendas são sofisticadas e qualquer pirralho de cinco anos é prendado com um smartphone ou um tablet de boa marca. Para as madames é coisa fina e perfumes só de 100 euros para cima. Já os homens, um vinho onde a qualidade seja o preço. Uma fartazana.

Para além de tudo, no que às tradições religiosas e espiritualidade do Natal diz respeito, a coisa ainda é mais sombria e passar a quadra com uma ida à igreja ou mesmo sequer abrir a alma para um pensamento mais elevado, é coisa que já não vai à mesa de muita gente, o que ajuda a reforçar a ideia de uma mera ocasião para comer, beber e divertir como se ao mesmo nível dum Carnaval. Não é por essa ligeireza que vem o mal ao mundo, concerteza que não, porque é sempre positiva a alegria e o são divertimento, mas nestas como noutras coisas é sempre importante colocar cada uma no seu próprio lugar.

Por tudo isso e mais alguma coisa, o Natal tornou-se escravo do mercantilismo, do comércio e do markentig associado, e os meios de comunicação social fazem o favor de nos lavar o cérebro já  a partir de Setembro.  Chega a ser um massacre de publicidade, com spots repetidos vezes sem fim como para terem a certeza de que os vimos e ouvimos. Durante semanas andamos a ser encharcados com perfumes a preços do ouro, algemados com relógios da mais sofisticada ourivesaria suiça e mais bucolicamente besuntados com azeites e tentados com postas de bacalhau dispostas na mesa por um tal de David, que também faz carreira nestas coisas de encher e vender chouriços.

Mas pronto, são sinais dos tempos e já não há volta a dar; Ou alinhamos pela velha máxima de que não os podendo vencer, juntemo-nos a eles, ou então já nada sobra do Natal porque atolado nesta torrente de vendilhões.

Posto isto, votos de um feliz e santo Natal para todos os familiares e bons amigos. Para os inimigos, para os invejosos e maldizentes, também um feliz Natal!

Nota à margem: A simples ilustração deste artigo é baseada na que em Dezembro de 1982 rabisquei para a capa do jornal "O Mês de Guisande" (na imagem abaixo), por isso uma memória com 40 anos.

8 de dezembro de 2022

Que hei-de-fazer?


Que hei-de fazer se me moldaram assim, a vida, os pais, a sociedade? Gostos não se discutem e, além do mais, mudar os nossos gostos para alinhar com os demais, já é pedir muito. Era só o que faltava andar a dançar ao ritmo do politicamente correcto!

Já não tenho paciência nem idade para mudar assim tão em contratempo. E depois uma coisa leva à outra: Não tenho paciência porque a idade já não a permite nem a idade tem espaço para a acomodar.

Assim, em rigor estou-me borrifando para pasmos ou narizes torcidos quando elenco algumas das minhas antipatias. Gosto da maior parte das coisas e das pessoas boas, honestas, generosas, simples, humildes, inteligentes, práticas e assertivas. 

Gosto e aprecio uma mulher elegante, bem vestida, sem piercings, tatuagens ou pinturas, mas apenas o veludo puro da sua pele; aprecio as rugas de quem as tem pela força da idade e das canseiras; simpatizo com gente harmoniosa, equilibrada, de concensos; aprecio uma obra prima ou despretenciosa, nas artes plásticas, na música, na literatura ou nas ciências. 

Mas, claro está, também não gosto de muitas coisas e de algum tipo de pessoas: gente egocênctrica e vaidosa como se os seus umbigos sejam os centros do universo; gente presunçosa, mesquinha e invejosa; gente tatuada, não para si mas para os outros; gente com argolas no nariz, nas orelhas, na língua e sabe-se lá mais em que reentrâncias; gente que compra calças rotas; pessoas que andam com as calças como se o traseiro seja nos joelhos; pessoas a mostrarem as cuecas ou o rego do cú; homens idosos que se vestem como se tivessem 16 anos; gente que paga caro por roupa de marca e ainda orgulhosamente lhe faz publicidade de borla;  gente que paga balúrdios em futebol para ajudar a manter ordenados principescos a uma classe de elite e comissões escandalosas a corjas de dirigentes oportunistas; políticos que se governam com ares  de honestos; pessoas que se expõem nas redes sociais como se as suas vidas, andanças ou carinhas felizes, tenham um interesse superior para os outros ou expõem de forma excessiva os seus estados de alma, a sua mais recôndita intimidade ao voyeurismo alheio. 

E mais não escrevo porque ficaria longo o texto. 

E, contudo, todos têm esse direito e liberdade de serem quem são, como são, como vivem, se vestem, despem, ou como se comportam. Não sou de todo contra essa liberdade e direitos, mas tenho igual direito e liberdade de não gostar, de não apreciar. De resto, essas minhas antipatias ou arrelias, são apenas íntimas e a terceiros não causam mal ou prejuízo algum. É apenas uma coisa interior. Mesmo este texto, é generalista e não aponta o dedo a alguém nem fornece chapéus para serem enfiados.  Além do mais, desse grupo de coisas ou predicados com que não morro de amores, até tenho amigos e pessoas que bem considero. A coisa não é, por isso, pessoal nem de preconceitos radicais. Apenas porque não vão de todo à minha mesa.

Em resumo, até mesmo nestas coisas de exprimirmos, ou não, as nossas antipatias, os nosos gostos, andamos muito castrados, porque os cânones do politicamente correcto são já uma pandemia das nossas sociedades ditas desenvolvidas e por eles há gente que apenas sendo o que são e dizendo o que pensam, perde os cargos, empregos, negócios, amigos, etc, etc. 

Mesmo que não oficialmente, temos por todo o lado uma invisível polícia de nova moralidade, só que esta, já subvertida ou invertida. Parecem opostas, a da moralidade e a do politicamente correcto,  mas na realidade são a mesma coisa, porque ambas castram, mesmo o direito de se não gostar.

7 de dezembro de 2022

Pedintes modernos


A campaínha tocou. Pela hora adivinhava-se que seria o "cliente" do costume. Assomou à porta e confirmando-se, protestou:

- Você outra vez? Não sai daqui para fora!

- Já não passava há quase um mês! - desculpou-se do lado de fora o pedinte.

- Mas você está com bom aspecto! Não tem quem lhe arranje um emprego? - Perguntou o dono da casa para lhe medir a reacção.

- Não posso! Eu sou um homem doente! - replicou num tom lamurioso.

- Pois, olhe que não me parece, vejo-o sempre por aqui, com bom ar, a caminhar ligeiro a dar a volta à freguesia! Olhe que não é para gente doente!

- Mas dê-me lá uma moeda! - pediu, desinteressado do sermão.

- Vou dar, mas não apareça aqui antes da Páscoa! - deu-lhe uma moeda de dois euros, como se fora a juntar à moeda habitual o subsídio de Natal.

O receptor olhou para a moeda, acariciou-a, fez uma pausa e disse: - Olhe que já passo aqui há muito tempo e é a primeira vez que você me dá uma moeda de dois euros!

- Ai é? Pois para além de ter boa memória, está com sorte! Mas está a queixar-se ou falar de contente? - questionou o dador. Ele, porém, encolheu os ombros e não lhe respondeu deixando-o sem saber, levando-o a replicar:

- Bem, olhe que não é mau! Se lhe derem dois euros em cada uma de cinquenta casas por aí acima, são 100 euros. Ganhará bem o dia! Mas vá lá à sua vida! - despediu-o para não alongar a conversa.

E lá foi o pedinte à sua vida, que não terá outra. O dono da casa ficou a pensar naquela justificação do ser doente Considerou que fosse mesmo doente, o que de todo não lhe pareceu, certamente  que o nosso amado estado social o socorreria. Ou será que não? Afinal estamos em 2022 e ainda há disto, pedintes, tal qual como no tempo da velha senhora. E já lá vão 50 anos sobre a mudança de direcção. Só que os do antigamente, parecia-lhe, esses pelo menos rezavam, recebiam o que calhasse e agradeciam encarecidamente. Os pedintes modernos, esses não pedem, exigem e resmungam se a moeda é pequena.

Nesta dúvida, ficou o dono da casa, e ficamos nós, sempre com muitas reservas sobre quem ainda anda de porta em porta, a pedir com verdadeiras necessidades ou sem elas. E são muitos, desde bombeiros, a supostas associações de não sei das quantas, para além dos peditórios para as diferentes situações no âmbito da freguesia e paróquia, seja para esta ou aquela festa, para a igreja, para os presuntos, para os pobres, para os ucranianos, para os africanos, para isto, para aquilo. É certo que é bem melhor poder dar do que precisar de pedir, mas para quem tem que trabalhar para poder pagar as suas contas e responsabilidades, sem chorudas pensões ou rendimentos que não sejam os do trabalho, mesmo o pouco que se dá tem peso perante tantas solicitações. 

Mesmo nestas dificuldades, porventura dar dois euros a um cliente recorrente, mesmo considerando que será apenas por vício, terá algum significado e mesmo valor, para quem dá e para quem recebe. Afinal, serão poucas as casas que darão dois euros a quem com insistência toca à campainha. Porventura, quase sempre, quando alguém bate à porta de quem realmente poderia dar, não 2 mas 5 ou mesmo 10 euros, sai despedido sem nada nas mãos e a única coisa que pode almejar levar é o sermão. Esse dá-se ao desbarato.

Não está fácil, pois não, tanto para quem pede como para quem dá!


[foto: sabado.pt]

29 de novembro de 2022

Vão-se foder, que também é de graça!



Vou contar-vos uma história verdadeira:

Há algumas poucas semanas encerrei um fórum que fundei e abri há já quase 20 anos. Não interessa para o caso especificar qual o tema, mas contava com uma comunidade já perto dos 20 mil utilizadores.

Encerrei por vários motivos: Para além do trabalho dispendido quase diariamente na administração, moderação e lançamento dos temas, tinha os custos com o registo de 3 domínios associados, ainda o custo do servidor do alojamento e ainda o preço de software, que periodicamente tinha que ser renovado caso contrário ficava desactualizado, sem suporte e com incompatibilidades nomeadamente ao nível do PHP.

A juntar a isso, frequentes ataques informáticos vindo de gente de áreas concorrentes. Neste mundo digital, como no real, anda sempre gente atenta para copiar e replicar ideias pioneiras e originais. Depois é uma guerra do mata ou morres.

Durante algum tempo, alguma receita publicitária angariada ajudava a mitigar os custos mas nunca deu para tal e esse mercado já foi chão que deu uvas.

Numa determinada altura abri aos utilizadores a possibilidade de poderem, com donativos de qualquer valor, mesmo que simbólicos, poderem contribuir voluntariamente com qualquer verba para ajudaram nas despesas. Mas em rigor, dessa comunidade de mais de 15 mil utilizadores, na altura, e durante um ano em que este aberta essa janlea, apenas um único se dispôs a colaborar com 5 euros. Ilucidativo!

Ainda coloquei a possibilidade de passar o fórum para alguém da área mas quando falava nos custos associados, desistiram porque pensavam que estas coisas funcionam do nada e que também eram de borla.

Em resumo: As coisas são mesmo assim e nada dura eternamente, nascem, crescem, eventualmente estagnam e desaparecem. Mas este meu fórum foi também assim mas não estagnou porque crescia diariamente em número de utilizadores registados.

Mas há alturas em que temos que equacionar se, a pretexto da nossa paixão e entusiasmo por um qualquer hobbie, faz sentido continuar a acumular canseiras e gastos efectivos quando tudo é pro bono.

Depois de encerrado, porque, para de algum modo manter algum relacionamenbte entre os utilizadores mais frequentes, criei um grupo no Facebook, vieram mil lamentos e carpir de penas, mas já nada havia a fazer. Posso, por enquanto, em qualquer altura retomar o projecto, mas não. Vou mesmo cortar o cordão e terminando a validade dos domínios e servidor a coisa extingue-se mesmo.

No fundo, esta situação retrata em muito a filosofias das pessoas e mormente os portugueses. São amigos de receber, de usufruir de tudo e mais alguma coisa mas sempre na filosofia da borla, e mesmo assim sentem-se detentores de direitos e de reclamações sobre algo para o qual nunca com nada contribuiram. É por isso que, não generalizando mas dentro desta espertalhna filosofia, temos largos milhares de pessoas a viverem de rendimentos mínimos dados pelo Estado e outros muitos milhares com serviços de televisão, filmes e músicas pirateados.

Somos, no geral, assim: Oportunistas e chicos-espertos a dar cobertura ao ditado de que somos meio mundo a foder outro meio. A cultura do pagar e compensar quem trabalha ou quem cria, é, em rigor, nula! Zero! Nada! Népias!

Para todos esses oportunistas, vão-se foder, que também é de graça!

21 de novembro de 2022

The show must go on

Sempre se soube que todo o processo que culminou com a nomeação do Catar como país organizador do Mundial de Futebol de 2022, ontem começado, foi uma farsa. Uma valente e muito bem paga farsa. 

Um dos Judas intervenientes, um tal de Blatter, já se mostrou arrependido, mas não foi ao ponto do final do Iscariotes, e tanto que saiba, há-de morrer de velhice e nunca por falta de dinheiro, incluindo as 30 moedas, e dos confortos que ele proporciona.

Para além dessa trafulhice imensa que só os ricos e os poderosos conseguem afinar como mestres relojoeiros, seguiram-se as questões relacionados com a segurança dos trabalhadores, ou falta dela, nas construções faraónicas ou das mil-e-uma-noites, o respeito pelos direitos humanos, sobretudo sobre as mulheres, o tratamento para com os homossexuais, etc, etc.

As nações e as selecções delas apuradas para tão majestoso evento, foram dandos uns palpites, uns bitaites, tudo dentro do politicamente correcto, mas em rigor, tanto quanto se saiba, nenhuma boicotou a prova primando pela ausência. 

Mesmos os jogadores, ali verdadeiros príncipes nas arábias, foram também dizendos umas porreirices avulsas, mas na verdade estão lá todos muito contentinhos.

Os adeptos, esses também aparte alguns arrufos, estão lá, senão todos, os que têm carteira para isso.

Finalmente, o chefão da FIFA veio menorizar a questão e esgrimir o velho engodo do copo meio cheio ou meio vazio. Louvou os esforços feitos pelo país anfitrião e o muito que mudou, mesmo sabendo que quando as tendas se levantarem e cada um seguir à sua vida, o mais certo é que tudo vai voltar ao mesmo. 

Em rigor, as declarações do senhor Infantino andaram mais ou menos como quem desculpa o violador pela atitude e aparência provocadoras da violada e pelos esforços em violar o menos possível. 

Posto isto, as tendas estão montadas e por uns largos dias vamos ter circo com palhaços pagos a peso de ouro. 

The show must go on!

19 de novembro de 2022

Broas da mesma fornada

Creio que o meu primeiro livro "Palavras Floridas", não foi mais que, até a propósito do nome, um despretensioso ramalhete de alguns poemas, mesmo simples quadras, que se envergonhariam na sombra das de um popular Aleixo, acrescentado com alguns textos e destes um ou outro a que me atrevi a equiparar a contos.

Seja como for, mesmo destinado exclusivamente a oferta, e por isso com todo o prejuízo inerente, em dinheiro e em tempo despendido, deu-me uma enorme satisfação publicá-lo e oferecê-lo, de resto num processo que ainda não concluí, já que amigos tenho que ainda não se proporcionou a oferta. E vou ter que reimprimir mais porque continuam a pedi-lo.

Apesar desse efectivo prejuízo, se olhado pela estreita janela que se abre para um horizonte onde o brilho do vil metal é mais esplendoroso do que o do astro rei, a verdade é que tenho recebido avantajada compensa no positivismo das boas reacções e delas algumas questões interessantes e reveladoras desse interesse. 

De facto têm sido vários os que alvoroçados com o formigueiro da curiosidade querem que lhes levante a ponta do véu que cobrem as personagens, como o Hipólito, o Júlio, Julião, o Ti Jacinto, o Anjos, os Loureiros, o Abel, e outros mais nomes que polvilham esses textos.

Creio que, no fundo da questão, os que me têm desafiado a isso até já saberão a resposta, não porque realmente a saibam e nem a poderiam saber, porque a base é mesmo ficcional, mas porque as linhas que tecem as suas diferentes personalidades são as mesmas que tecem as de toda a gente. 

No fundo todos nós estamos ali representados. Com maior ou menor dose satírica ou grau de ironia, a massa que nos molda tem a mesma composição, porventura com mais ou menos sal. Mas quem já viu, como eu vi dezenas de vezes a minha mãe, a amassar o pão para a fornada semanal, as broas que  se  moldam na masseira são da mesma massa, da mesma mistura e levedadas com o mesmo “crescente”, embora umas destinadas a grandes e outras a pequenas. Eram depois submetidas ao mesmo suplício do calor curador. Mas logo mais, quando resgatadas daquela antro infernal, e já dispostas a fumegar na larga mesa, cada broa era diferente, não no sabor nem na textura do miolo, mas seguramente na sua crosta, na sua côdea, como impressões digitais iniguais. 

Em resumo, somos todos iguais broas da mesma massa humana de cada fornada, mas todos diferentes porque sujeitos a variantes de natureza tão subjectiva quanto imensurável. 

Continuando com a analogia do pão, diferenciam-nos as mãos da amassadora, a natureza e qualidade do sal, da água, do fermento,  a temperatura do forno, o tipo de lenha usada, o tempo de cozedura e, até, o amor com que todo esse processo, mesmo ciclo, foi realizado, desde a primordial preparação da terra para o lançamento das sementes de milho, trigo ou centeio, até ao momento de levar à boca um naco desse pão.

É dessas pessoas, feitas com essa massa comum e simultaneamente diferenciada, a massa humana, que procurei dar alguma vida e sentido dela nas personagens que povoam esse meu simples livro. Por isso, não se apoquentem a saber respostas porque elas são, afinal, bem simples, ou nem por isso.

15 de novembro de 2022

Em inglês dá outra pinta


Eu não sei por que carga de água, talvez por provincianismo, para não dizer parolismo, insistimos em dar nomes ou designações em inglês às coisas só nossas. Até compreendo esta falta de amor próprio numa perspectiva de eventos ou negócios em muito virados para o turismo estrangeiro, em que há uma intenção de internacionalizar, de informar, mas já extender isso a coisas objectivamente portuguesas, comuns e para consumo próprio, é mesmo algo intrigante para não o adjectivar de outra forma.

Veja-se, no caso de eventos desportivos, nomeadamentes corridas agora ditas de runnings e trails e que são mais que as mães, no que parece, pelas muitas que são pagas, evidenciar ser um negócio interessante.

"Bio Run", "Xmas Trail", "Urban Run", "Last Man Standing", "Pisão Extreme", "Atlantic Clifs Adventure", "Trail Running Vila de Nisa", "Urban Trail Night Eurocidade" - Valença, "Mâmoa River Trail", "Noctis Trail", "Leiria X-Mas", "Vulcan Trail", "Lousa Mounatin Trail", "Linhas de Torres Challenge","Peninha Sky Race", "Trail of Road", "Wine Trail", "Extrem Trail", "Night Trail", "Trail Summer Chalenge", "OCR Fireman Sernancelhe", "Louza Sky Race", "Dark Side Night Trail", "Cork Trail Running", "Viana Race" e muitas, muitas outras.

Mas como nem tudo está perdido, ainda há provas que têm a designação tão portuguesa, tão nossa, de "corrida", "trilhos", "maratona" e "caminhada".

Posto isto, inglês é que é e dá outra pinta à coisa. Correr uma corrida ou simplesmente fazer uma caminhada, é démodé.

Mas, claro está, a coisa, o excessivo e mesmo despropositado uso de inglesismos é extensível e muitas outras actividades e sectores. Mas fiquemos por aqui como amostra.

12 de novembro de 2022

Santinhos



Hoje em dia, qualquer celebração religiosa, da mais simples à mais significativa, comporta um caderno de encargos detalhado, a que não faltam naturalmente as bodas, os copos de água e afins, em quintas, quintarolas e espaços de eventos, todos xpto. 

Os vídeos e a fotografias são indispensáveis e obrigam a sessões prévias e detalhadas. Tudo muito profissional. 

Os convites, esses obedecem a uma escolha a envolver design, papel, tipografia, originalidade, etc, etc. 

Dizem, e eu acredito, que, por exemplo, um casamento assim a seguir à risca todos estes aspectos indispensáveis, é mais duradouro, vacinado contra divórcios extemporâneos e por isso, com grandes probabilidades de, com vida e saúde, chegarem a bodas de prata e depois de ouro.

Pois bem, ainda bem que assim é. Afinal, a garantia da felicidade a dois custa dinheiro mas é possível.

Longe vão os tempos em que o convite de um casamento se resumia a mandar imprimir umas pequenas estampas, ditas "santinhos", do tamanho de um cromo de jogador da bola. 

Até  mesmo o nosso saudoso pároco Pe. Francisco quando fez Bodas de Prata paroquiais e sacerdotais, assim fez, mandando imprimir uns santinhos, com pelo menos três diferentes ilustrações e no verso os dados e data do acontecimento, de que reproduzo na imagem que ilustra este apontamento.

Outros tempos, em que o acessório era mesmo isso, acessório. Mesmo com uns convites tão simples, certo é que não só fez as Bodas de Prata em 15 de Agosto de 1964,  como 25 anos mais tarde, em 15 de Agosto de 1989, completou Bodas de Ouro. Afinal, parece que o aparato dos convites e  afins pouco ou nada contará para o totobola da felicidade e matrimónio duradouro. Mas conta, pelo menos, para o dia. O seguinte já pouco importa. Peanuts!

11 de novembro de 2022

-Bem vindo ao mundo da realidade!



Há dias, alguém que estimo e da minha reduzida rede de amigos facebookianos, dizia-me pessoalmente que não compreendia que algumas das coisas que pelo Facebook partilho, sobretudo artigos ou apontamentos relacionados à história da freguesia, fotografias, poemas e ilustrações, não tenham mais comentários e "gostos".

Respondi-lhe: - Caro amigo, bem vindo ao mundo da realidade! Aqui não é um espaço de reconhecimentos e de sinceridades. Aqui valem sobretudo os grandes grupos e os interesses que se estabelecem entre eles. Se tens uma grande tribo que cultivas na arte do bajulatório, basta dares um peidinho de uma qualquer insignificância ou egocentricidade do teu dia-a-dia para teres largas dezenas de likes e comentários e sentires-te importante, inflamado. Uma alarvidade ou, vá lá, banalidade, se dita por alguém que bajulas, é certinho e direitinho que tem direito a dezenas de deferências. Ao contrário, qualquer laivo ou rasgo de meritório, de inspiração artística ou poética, opiniões e pensamentos próprios e escritos pela tua caneta, se porventura a necessitarem de um qualquer incentivo à continuação e melhoramento, a coisa morre logo ali à nascença, quase sem ninguém que lhe acuda verdadeiramente.

Por conseguinte, farto-me de dizer o óbvio: As redes sociais não são mais que uma extensão do que somos lá fora, porventura com o mérito de realçar aquilo que somos, nas coisas boas e menos boas, nas qualidades ou falta delas. 

Posto isto, o que vou por aqui partilhando é mesmo uma teimosia a pensar numa boa dúzia de mentes sensíveis e com capacidade de admirar e valorizar. Nem mais nem menos!

Mas vejamos sempre a coisa pela positiva, até porque, de novo socorrendo-me da velha sabedoria popular, "ovelhas não são para mato" ou mesmo "os burros também se ensinam". Talvez por isso, muitos dos meus bons amigos, por quem tenho apreço cultural e de cidadania, andam afastados destas coisas e se até têm página pessoal, pouco ou nada escrevem e só aparecem esporadicamente como quem a abrir as janelas num dia de sol para arejar a casa fechada.  

De alguns, bons, que por cá andaram no início, acabaram por sair ou deixar de aparecer porque perceberam que isto de andar a partilhar e a escrever coisas próprias, a exercer cidadania, sem ser egocentrismos e banalidades, tem custos e sobretudo não gera clientela à altura. É o que é. 

Desses bons, tenho sobretudo saudade do José Marques Pinto da Silva, das Caldas de S. Jorge, figura de saber falar e melhor escrever, senhor de princípios e lutas a que nunca virou costas às vagas, mesmo com as bategadas fortes de quem não tinha estofo para estar à sua altura. Andou literalmente a chover no molhado e a malhar em ferro frio, porque sem concorrência à altura. Mas era um gosto ler e reflectir no que escrevia, mesmo não sendo da sua freguesia.

Obrigado pois a todos os bons amigos que ainda têm bom gosto, sabem ver a beleza de uma fotografia e o que ela apresenta e representa, o sentido transcendente de um poema, a reflexão de um qualquer pensamento ou opinião, a arte, mesmo que não académica, de um rabisco. 

Quanto ao resto, a caravana, esta passa e os cães ladram. Não fosse assim, esta lei da natureza, e um pai pinguim nunca conseguiria encontrar o seu filho no magote de milhares dos seus quando regressa do mar com o estômago cheiro de peixe para partilhar.

A natureza humana tem muito a aprender e a reflectir com a natureza animal, mas aquela sempre em desvantagem, porque esta, mais pura, genuína.

2 de novembro de 2022

O culto da ofensa

Num tempo de coisinhas politicamente correctas, andamos a criticar todo e qualquer acto de descriminação, xenofobismo, racismo, etc, apelando a princípios de civilidade e inclusão. Em suma, respeito.

Todavia, pelo que li e ouvi, um futebolista português ao serviço de uma equipa estranjeira, terá sido assobiado durante todo o tempo em que actuou num certo estádio, ofendido e desrespeitado, incluindo com a exibição de uma tarja insultuosa à sua vida pessoal.

E qual o pecado de tão vergonhoso tratamento: O de apenas, no exercício da sua profissão e liberdade, ter sido, antes do seu actual clube, um jogador de uma equipa rival.

Este tipo de comportamento, que é transversal ao nosso futebol e a alguns clubes ditos grandes, é de todo intolerável, porque comporta sentimentos de rancor e mesmo de ódio, de forma gratuita e sem qualquer motivo maior. Custa a crer que pessoas civilizadas, jovens ou adultos, vão para um estádio de futebol com comportamentos indignos como se a uma tribo se desculpe toda a animalidade, não para ver o espectáculo ou apenas para apoiar e incentivar o seu clube, mas para insultar um atleta tratando-o como um reles e indigno criminoso.

E andamos todos a assobiar para o ar e a dizer com o peito cheio que somos este ou aquele clube, no fundo a pactuar com estes comportamentos. 

Vai sendo tempo de as coisas irem mais além no que toca a consequências. Há limites, e o que se viu já não é so rivalidade, mas fanatismo do mais primário, porque mesmo a rivalidade deve assentar sempre no respeito pelos adversários. 

1 de novembro de 2022

Vela acesa

A missa do "Dia de Todos os Santos" é, sem dúvida, a mais participada de todas quantas se celebram na nossa paróquia. De há anos. Creio que não será diferente nas demais. Nem mesmo em dias tão solenes quanto a Páscoa e o Natal, a nossa igreja fica tão apinhada de gente. 

Creio que pela importância litúrgica, tanto a da Páscoa como a do Natal mereceriam mais participação, mas seja como for, é igualmente simbólico que assim seja neste dia. Afinal os santos que em primeiro lugar celebramos são os da casa, os nossos familiares, recentes ou antepassados que já partiram. Mas também amigos e demais pessoas da nossa comunidade. Porventura só depois virão os santos a sério, mais ou menos conhecidos, cuja lista é interminável, porque os populares, esses têm festa própria garantida e com festança a acompanhar.

Estou convencido que  em grande parte assim é porque tendemos a viver estas coisas de forma tradicional e rotineira, porque é feriado, porque é habitual, porque todos vão e mal parece que fiquemos por casa. 

Mas por outro lado, mesmo um relógio parado aponta horas certas duas vezes ao dia, e assim mesmo nestas nossas rotinas há sempre algo de genuíno e profundo e um sinal de que mesmo que por uma ou poucas vezes ao ano, damos conta de quem já partiu à nossa frente e isso chama-nos à realidade de que um dia, cada um no seu momento, também partiremos, sem malas nem bagagens. 

Aproveitemos pois este dia e o de amanhã, de resto, todos, para ter, tanto quanto possível, esta reflexão em conta. 

Uma vela, protegida do vento, dá sempre luz enquanto lhe durar a cera.

O comboio do tempo - A Estação dos Sessenta

Tinha eu embarcado na Estação dos Cinquenta, com ar de decidido, ainda alegre, bem disposto e fresco, já esquecido que a Estação dos Quarenta ficara para trás.

Mal o comboio do tempo deu sinal de partida, abri a janela da carruagem, respirei fundo, e naqueles primeiros metros de viagem  a Estação dos Sessenta parecia-me ainda bem distante e dei comigo a pensar que seria um percurso para saborear calmamente em cada curva da linha. Faltaria ainda muito caminho a galgar e carril a romper.

Mas agora, depois de várias paragens em outros tantos apeadeiros, com o olhar a comer planícies, montes e vales, cheguei finalmente à Estação dos Sessenta. E a viagem já passada pareceu-me agora  tão curta como uma noite bem dormida.

À chegada do comboio, que se deteve vagarosamente entre uma nuvem de vapor arrotada pela locomotiva negra e cansada, o chefe da Estação dos Sessenta anunciou cerimoniosamente com a sua voz forte e pausada: - Deu entrada na Linha 1 o comboio do tempo, proveniente da Estação dos Cinquenta. Os passageiros que se dirigem para a Estação dos Setenta é favor prepararem-se. O comboio vai parar em todos os apeadeiros. Gozem a viagem enquanto puderem porque nem todos lá chegarão!

O comboio apitou num lamento longo e todos os passageiros, mesmo os que tinham ido fazer xi-xi, apressaram-se a retomar os seus lugares porque não lhes era permitido ficar por ali suspensos no tempo. O fogueiro abriu as válvulas da caldeira e a pesada locomotiva envolta em fumarada começou a engolir metros daquele par de linhas de aço tão próximas quanto separadas.

A recomendação do chefe da estação tinha esmorecido o já reduzido entusiasmo dos viajantes. Não era necessária. Afinal, todos sabiam que entre as estações principais de um comboio, até mesmo este especial,  o do tempo, há sempre passageiros que ficam pelos apeadeiros intermédios e serão menos os que chegarão à Estação dos Setenta, prontos a seguirem viagem até à estação seguinte.

Seja como for, chegado aqui, que remédio senão embarcar. É que não há outro transporte alternativo nem algum que faça a viagem em sentido contrário. É contra as leis do Senhor do Tempo, dos seus comboios, locomotivas e carruagens.

Parto, pois, na expectativa de entretanto poder chegar ao primeiro apeadeiro e depois ao seguinte e por aí fora até que se possa avistar e atingir a Estação dos Setenta. Há quem diga que fica a longa distância mas outros auguram que é já ali ao virar da curva.

A vantagem, é que a partir destas estações  avançadas, há menos passageiros e há lugares de sobra nas poucas carruagens. Todavia, dizem que os carris que a ela conduzem são mais estreitos e irregulares e que são frequentes os descarrilamentos antes da chegada à estação seguinte.

Não há nada a fazer. Apenas embarcar e seguir em frente na linha. Dos apeadeiros e as estações que faltam percorrer a cada passageiro do velho comboio, só o Senhor do Tempo o saberá. Alguns chegarão concerteza à Estação dos Setenta, talvez menos à dos Oitenta, menos ainda à dos Noventa e seguramente já poucos à dos Cem. 

Dizem que para lá da Estação dos Cem, talvez nem haja estações, quando muito dois ou três apeadeiros. Poucos o sabem. Todavia, em boa verdade, talvez já nem interesse saber, porque com tantos quilómetros já percorridos, com passagens por apeadeiros e estações, os passageiros deste comboio do tempo vão ficando cansados, amassados dos ossos e com os olhos já turvos de ver as paisagens a fugir-lhes. Talvez seja mesmo preferível fechar os olhos e tentar dormir no embalo daquele torpor constante do comboio a rolar no aço frio e a velha locomotiva a gemer, a gemer, a gemer.

Quem, sabe, talvez o fim da linha, o final da viagem seja numa esplendorosa e imensa estação forrada de  brancas e fofas nuvens, e o seu chefe seja o S. Pedro, a colher-nos numa voz suave e murmurada por entre uma espessa barba da cor das neves: - Senhores passageiros do comboio do tempo, chegaram à Estação do Tempo Final. Terminou a vossa viagem! O Grande Senhor do Tempo espera-vos para vos dar as boas vindas com um chazinho quente e bolachinhas celestiais! Façam bom e eterno proveito!

30 de outubro de 2022

Os Manuéis da vida como ela é


Não é novidade. Num qualquer hospital e numa qualquer das suas enfermarias, mesmo no serviço de urgências, há vizinhanças que se estabelecem nas longas horas ali passadas. Uns mesmo mais novos, outros de idade parecida, outros ainda mais velhos parecendo mais novos ou mesmo mais novos parecendo mais velhos. É o que é!

Assim, ali ao meu lado direito, numa maca, alguém deitado, coberto pelo lençol, talvez para se proteger das luzes fortes no tecto, do ar condicionado, daquela algazarra de gente a gemer, a pedir ajuda, ou mesmo do emaranhado sonoro das gargalhadas do pessoal, porque nestas coisas não leva a lado algum ambientes carregados de tristeza, angústia e dor. Para isso lá estão os doentes.

Mas esse vizinho de circunstância estava ali, imóvel, a ponto de nem saber se morto se vivo ou se morto vivo. Entretanto, descobri que estava vivo, porque à solicitação cordial da enfermeira para colher sangue para análises, reagiu grosseiramente: - Outra vez! Já estou farto de ser picado! Porra! É demais!

- Mas, ó Sr. Manuel, tem que ser! Você não quer ser tratado? Você é que desmaiou, não fui eu! - rematou a enfermeira para o conformar e chamar à razão.

- Tá bem, tá bem! Tire lá o sangue! - anuiu vencido pela razão.

Pouco depois relatava a sua situação: Tinha 83 anos, era de Milheirós de Poiares e vivia ali pela Feira. Andara pela Guiné, logo desde o início de uma guerra onde pretos e brancos se matavam sem dó nem piedade, por razões e motivos que não entendiam mas que a mando de alguém e de um eufemismo chamado dever, assim o determinavam.

- Não morri na guerra, escapei a minas e armadilhas, a balas a zoar nos ouvidos e agora estou aqui derrotado, pronto para ir! Mas já pouco me importa! A minha boa esposa já foi há dez anos! Era uma santa! - Disse numa voz lamentosa. - Casamos antes três meses de ir para a guerra e um sacana de um vizinho que a desejava, andava sempre a moer-lhe a paciência a dizer que era melhor juntar-se a ele, porque eu, na guerra, não sairia de lá vivo. - Continuou a desfiar o rosário das suas memórias. - Era o filho do merceeiro local onde o carteiro ali depositava as cartas de todo o lugar e o “filho-da-puta” desviava todas  cartas que eu escrevia semanalmente, para convencer a minha mulher a desanimar e a dar-me mesmo como perdido e dela desinteressado. - Contou e continuou. - Mais tarde, a mãe dele descobriu a sua tramoia e obrigou-o a devolver as cartas. A minha mulher, que nunca perdera a esperança, recebeu um monte delas e levou uma semana para as ler.

Entretanto desligou o disco dessas memórias passadas e voltou-se para as do presente. Estava ali naquela situação porque, sem saber como nem porquê, começara a desmaiar como se alguém com um comando à distância o desligasse. Caiu, pois, na rua onde caminhava, desamparado, como morto, e torcera o pé, rachara a cabeça e outras amolgadelas menores. Dois ou três dias depois de deixar o hospital, onde passara duas intermináveis noites sem dormir, voltou a acontecer-lhe o mesmo, desta feita na casa-de-banho. Não sabia o que lhe estava a acontecer e receava o pior, pois os desmaios não davam qualquer aviso que lhe dessem tempo a prevenir-se e a preparar a pista de aterragem para o avião descontrolado. 

A história foi longa e os lamentos angustiantes, mas de facto pareceu-me uma situação extremamente perigosa. 

Entretanto, já quase todo examinado, fui deslocado para outra enfermaria mais confortável e ali ficou o Sr. Manuel, não sei das quantas, entregue à sua sorte ou falta dela. Nem tive tempo de me despedir e de lhe desejar as melhoras porque novamente debaixo do lençol procurava esconder-se da sua situação ou mesmo de si próprio.

De facto o que não faltam nos hospitais são estes senhores Manuéis, frutos de uma geração com histórias de vida, invariavelmente duras e reportadas a tempos difíceis, como se todas as suas existências tenham sido uma múltipla condenação, em que todas as fases das suas vidas, infância, adolescência, juventude, idade adulta e velhice não fossem mais que um ramalhete de muitos espinhos e poucas flores.

A vida é assim mesmo. Felizmente para as novas gerações, mesmo com as dificuldades próprias dos tempos modernos, jamais experimentarão as dificuldades e agruras dessas anteriores gerações. Ainda bem, mas bastará isso para que todos os senhores Manuéis deste país, enquanto por cá andarem, mereçam ser tratados com todo carinho e atenção  possíveis. Que mais não seja, é o mínimo que merecem e têm direito, em nome da dignidade, justiça e gratidão. 

As melhoras, Sr. Manuel, mesmo que, inevitavelmente, o botão do desligar um dia deste, mais cedo ou mais tarde, seja accionado pela última vez! 

[foto: JN]

28 de outubro de 2022

Estas coisas só acontecem aos vivos


E de repente, sem grandes alaridos, são mais que muitos a contactarem preocupados para saberem da minha estadia no hotel do SNS. Não só familiares, naturalmente, mas muitos amigos. 

Não é caso para tanto, e tudo esteve sempre bem, mas fico naturalmente satisfeito com a preocupação por muitos demonstrada. Sabe bem ter amigos sinceros. Bem hajam.

Quanto ao hotel do SNS, recomenda-se sobretudo pela excelência do pessoal, nomeadamente dos enfermeiros (em rigor das enfermeiras), do pessoal auxiliar e dos médicos, embora estes pouco se vejam.  E tudo gente jovem. E além disso, porque quase todos vestidos da mesma maneira, quase indiferenciados, não sabemos a quem chamar doutora ou enfermeira, Os médicos parece que usam agora umas batas iguais às que usam os serralheiros. Modernices e as batas brancas já são ali raras, talvez porque se sujem , tanto mais depois de 12 ou mais horas de serviço.

Não vi por ali profissionais seniores, como agora se diz.  Esses, porventura  já com menos paciência para as tropelias e desconsiderações do Ministério, deram à sola para sítios mais bem calmos e melhor remunerados. Vi por ali muita gente a fazer mais de doze horas, no fundo a queixarem-se tanto como os doentes com dores de costas, ossos partidos ou falta de ar.

Em rigor, todos aqueles dedicados profissionais também estão ali eles próprios em urgência, não nas macas nem ligados a ventiladores ou a soro, mas feridos na sua dignidade.

Gente boa, preocupada, simpática e atenta. Não fazem mais porque os meios são insuficientes e os hóspedes são muitos e não se pense que só velhinhos ou meias idades, mas também alguns jovens, naturalmente que por diferentes motivos.

Dos quase três dias ali internado, colhi sensações, emoções e realidades com significado fundo, que se os for a escrever, darão um livro.

Mas isto é coisa de quem gosta de adornar as palavras e as ideias a descrever emoções, sentimentos e estados de alma. No geral, um hospital e o seu serviço de urgências não se compadecem com lirismos.

O SNS é tão importante e necessário quanto a dimensão da sua doença e dos seus problemas crónicos,  porque os que lhe têm tratado da saúde (os sucessivos governos) têm sido, em regra, maus profissionais. Quando assim é, o SNS é ele próprio um doente em permanente serviço de urgências.

15 de outubro de 2022

A família como morangueiras

 


As famílias e os seus membros são como estolhos de morangueiras que às tantas começam por aí a enraizar e a dar frutos ao largo e quando transplantados, mesmo que para longe da cepa materna, continuarão a produzir os mesmos frutos.

Neste sentido, parece-me que em todas as famílias e sobretudo nas numerosas, às tantas perdemos o fio à meada e temos por aí dispersos, primos, segundos e terceiros,  que até, eventualmente, se cruzam connosco nos cruzamentos do dia-a-dia mas que não passam de desconhecidos e como tal não há partilha de acenos nem cumprimentos.

Isto acontece na minha família, tanto na parte de meu pai como de minha mãe e acontecerá no geral com todas as famílias. E claro, quando no estrangeiro já ramificados, a coisa piora quanto ao contacto próximo.

Pessoalmente tenho procurado pelo menos seguir os primeiros ramos da árvore paterna e deles os rebentos e frutos primeiros, mas depois disso a orgânica das células e a química da vida continuam os seus passos de multiplicação e torna-se tarefa mesmo impossível confinar todo o morangal num único vaso.

Mesmo com as actuais ferramentas que possibilitam o contacto com gente de longe, as coisas são mesmo difíceis e complexas tanto mais que, por força do desligamento e das circunstâncias da vida, a separação e o desligamento aconteceram já há muito. 

Não há papel capaz de comportar o desenho de uma tão grande árvore genealógica a abarcar gerações passadas e presentes. Mesmo uma árvore digital é complexa de gerir e de actualizar. Teria que ser uma tarefa comum a todos os ramos, mas isso, convenhamos, é uma missão digna de Hércules.

Neste aspecto, são importantes os encontros e convívios familiares, o registo e actualização das árvores genealógicas, e até temos alguns em Guisande, mas no geral, quando muito aparece apenas uma reduzida percentagem dos membros catalogados, muitos deles até de perto da base mas que desprezam esta questão de encontro a fraternização entre os seus.

Tantas vezes, somos estranhos dentro da própria família. De resto o que seria dos rebanhos sem as suas ovelhas negras e ronhosas?

Neste contexto de perda do caminho dos membros familiares, ainda há dias faleceu em Pigeiros um meu primo paterno, que sabia ali viver, até por informação de outro primo que de quando em vez o contactava, mas em rigor já não o veria há longos anos e por conseguinte nem a esposa, nem os filhos e muito menos os netos, meus segundos e terceiros  primos, são por mim conhecidos. Este é um exemplo comum a quase todas as famílias.

Para além disso, parece-me, no geral nota-se um desinteresse pela valorização da família e da sua história e por isso, não surpreende que ao fim de duas ou três gerações se perca o fio ao novelo base.

É o que é, porque nestas como em muitas coisas do nosso actual modo de vida, para o bem e para o mal, vão rolando desta maneira. Colocámo-nos como o centro do universo e tudo o resto é colateral.

13 de outubro de 2022

Vida de cão num filme com cabra


Porque já se faz tarde para bicicletar antes do jantar, ontem fui correr: Só para quem gosta de números, 10 Km em 55 minutos. É o que se pode arranjar para quem está à porta dos 60 e com a balança ainda a queixar-se. 

Mas não é isto que interessa porque interesse não tem para quem isto escreve muito menos para quem o lê.

Passe o prefácio, o principal da jornada é que já na parte final da corrida, ali pela Leira, vi uma cabra amarrada a um poste com um metro de corda, a balir insistentemente apesar de ter erva fresca à sua volta.

Estranhei e questionei a mim próprio quem é que ali amarraria o raio de uma cabra apenas num metro de corda? Seria para limpar as ervas da valeta, metro a metro? A ideia não seria inovadora mas teria a sua piada.

Por outro lado fiquei a pensar que as cabras às tantas são como as  galinhas, e àquela hora (19 e picos) já com o sol a esconder-se, quereria recolher à corte e mais não fazia que reclamar ao dono.

Mas logo de seguida, percebi: Afinal a cabra viera perdida do lugar de Azevedo, como um cão vadio sem rumo, e às tantas alguém ali na Leira meteu-lhe as mãos aos cornos e prendeu-a à espera do dono, que já estava a chegar com uma corda mais comprida, certamente para a levar de volta e agradecendo a quem ali a parou e reteve na sua caminhada de cabra solta que saltara a cerca. 

É claro que este filme foi exibido em poucos segundos.

Enquanto corria para casa fiquei a pensar na cena e a imaginar se em vez de cães vadios, de tantos que por aí andam, fossem cabras ou cabritos? Mas foi um pensamento inútil, porque se assim fosse ao fim de um dia já estavam todas, pelo menos os cabritos, recolhidas. 

Uma cabra dá leite e mesmo já velha come-se em chafana. Quanto a cabritos, que o diga o Relvas, que não dá mãos a medir a aviar assadeiras domingueiras lá para os lados da Gestosa.

Por conseguinte, andam por aí cães vadios porque em rigor ninguém os quer, nem dentro nem fora da porta muito menos salteados com batatas. É que nisto de os comermos, ainda não estamos na China.

Ora por cá ninguém abandona uma cabra, muito menos um cabrito, mas um cão não tem essa sorte e o que não faltam por aí é cabrões a abandonar cães ou a tê-los presos a um metro de cadeado em que, ao contrário da cabra deste filme, não têm erva verde mas um chiqueiro polido de pó ou lama.

Será por isso, com certeza, que se diz, em lamento, "vida de cão"!