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14/10/2026

A ignorância com montra


Com a generalização da Inteligência Artificial, enquanto modelo de linguagem e gerador de ilustrações, a sua utilização vulgarizou-se a um ritmo vertiginoso. Do cartaz para a festa da Catequese ou festa da aldeia ao esquema gráfico de uma apresentação corporativa, todos, todos, de particulares a associações e empresas, parecem ter rendido a sua criatividade a esta ferramenta.

Em si mesmo, este fenómeno de massificação talvez não incomodasse, não fosse o facto de parecer já ninguém se preocupar com a diferenciação, a personalização ou o talento individual de quem cria com nome e rosto. A tendência é a da adesão acrítica: «a Maria a deixar-se ir com as outras».

É verdade que a tecnologia não é intrinsecamente má; eu próprio a uso: facilita processos e potencia a execução de muitos trabalhos. Contudo, o resultado visível é uma homogeneização estética sufocante: os cartazes e gráficos parecem todos cortados pelo mesmo molde. São bonitos, apelativos e coloridos, mas profundamente vulgares e padronizados. Vivemos, sem dúvida, na era do fast-food gráfico, onde qualquer pessoa produz material visual sem precisar de dominar, ou sequer conhecer, as mais elementares regras de design, composição ou lógica.

A ilustração acima, recolhida numa partilha qualquer do Facebook, é o exemplo perfeito desta utilização cega. Sob o nobre pretexto de divulgar conhecimento,  neste caso, o princípio do «Parafuso de Arquimedes», propaga-se uma enorme e flagrante asneira técnica, ensinando-se, na prática, a ignorância. Dadas as dinâmicas de visualização rápida, arrisco dizer que tanto quem partilhou como a maioria dos que gostaram nem sequer se aperceberam do absurdo: a extremidade superior do mecanismo surge a descarregar a água contra a corrente (e não numa caleira ou conduta adequada) e a própria manivela de accionamento encontra-se na base, junto à água, em vez de estar no topo.

Tudo isto demonstra que, por mais potentes e sofisticadas que sejam as ferramentas, a IA não substitui o conhecimento. Alguém que não saiba fazer contas não aprenderá a calcular simplesmente por ter à frente um gráfico gerado por computador. Da mesma forma, quem desconhece os princípios básicos da mecânica ou da física aceitará sem hesitação aberrações, descontextualizações e erros grosseiros, só porque a imagem é "bonita". 

Nestas como noutras matérias, ter a noção dos mínimos e manter o espírito crítico é essencial. Infelizmente, a julgar pela velocidade da maré, a tendência será para continuar a trocar a literacia visual e o rigor pelo facilitismo da ilusão gerada por algoritmo. 

É o que é! O talento e o conhecimento tendem a perder lugar e importância. Mas quem se incomoda? Talvez, daqui a uns tempos, como na agricultura biológica, alguém esteja disposto a pagar pela arte de um artista e não de uma máquina, como comprar, ainda que mais caro, maçâs e morangos sem pesticidas. Mas desconfio que já não chegaremos lá. A caixa de Pandora foi aberta e tende a alargar-se.

27/09/2026

Espectáculos e imoralidade


Já o disse e escrevi e volto a dizer e a escrever: Parece-me um exagero e até imoral, que neste nosso país, muitos municípios, através das suas Câmaras, gastem verbas oxorbitantes do erário público em espectáculos e concertos musicais. Mesmo algumas juntas de freguesia, sempre a "cagar e a tossir" de dificuldades, não se coibem dos seus gastos nesta matéria.

É consultar a plataforma de contratos públicos para se ter uma noção do esbanjamento.

Podem dar as explicações que bem entenderem, mas é imoral  e um paradoxo, porque, na generalidade, apesar dessas festas e festarolas, continuam a existir carências em coisas bem mais essenciais ao dia a dia dos munícipes. Em todo o lado há ruas esburacadas que mais parecem caminhos de cabras, passeios danificadaos e transformados em ratoeiras, lixos depositados em caminhos, habitações ainda sem redes de água e saneamento, etc, etc.

Não osbtante, os responsáveis sabem do que a casa gasta e do que o povo gosta, e esbanjar dinheiro desta forma apresenta um saldo positivo em popularidade e até votos em tempos de eleições. Os que se indignam a reclamam, como eu, são poucos e por conseguinte, colocando-me também no rebanho, acho que, no fim das contas, temos o que merecemos.

20/09/2026

Os bons, os maus, os vilões e...os tolos


Houve um tempo em que os loucos tinham um certo ar que lhes emprestava uma aura de fascínio. Nos filmes dos anos sessenta e setenta, conhecidos como spaghetti western, em que os cowboys do oeste americano falavam italiano, sobretudo naqueles em que a realidade parecia ter sido deixada demasiado tempo ao sol, apareciam criaturas singulares, de olhos inquietos, gestos imprevisíveis e uma relação bastante livre com a razão. Não só um Clint Eastwood, como um Lee Van Cleef, mas outros mais, eram magníficos como intérpretes e figuras. Vistos do outro lado do ecrã, podiam ser admirados sem perigo, como se admiram os animais selvagens num documentário: há qualquer coisa de extraordinário neles mas desde que exista vidro entre nós.

O problema começa quando saem do filme. Ter um desses personagens à nossa frente é uma experiência bastante menos cinematográfica. Desaparece a música, acaba o enquadramento e percebemos que não há um Sergio Leone, Sollima, ou Corbucci para dizer quando a cena termina. Ficamos entregues ao homem. E o homem pode ser perfeitamente educado. É isso que mais inquieta.

Diz bom-dia, sorri, pergunta pela família, segura a porta para passarmos. Nas redes sociais agracia-nos com likes e comentários com erros mas lisonjeiros. Parece até um cidadão exemplar. Só que há qualquer coisa no olhar e no historial pessoal que recomenda prudência, uma espécie de meteorologia particular que não conseguimos interpretar. O céu está limpo, mas convém não esquecer o guarda-chuva.

Com certas pessoas, a conversa é uma caminhada sobre gelo fino. Não sabemos exactamente o que fizemos, mas sabemos que alguma coisa fizemos. Talvez o sorriso tenha durado um segundo a mais. Talvez o cumprimento tenha soado pouco sincero. Talvez tenhamos olhado para o lado no momento errado. Talvez uma uma faísca perto de gasolina. Há pessoas que possuem o raro talento de encontrar insultos onde os outros encontram apenas silêncio ou de ver o copo meio vazio quando todos juram que está meio cheio.

E então mudam. Não é preciso grande coisa. Uma sobrancelha levanta-se, a boca endurece, o rosto perde a cortesia e, de repente, aquele homem que há dez segundos parecia incapaz de fazer mal a uma mosca adquire uma expressão bíblica. Não é preciso que tire uma faca do bolso. Às vezes basta a maneira como olha para perceber que a civilização é uma película bastante fina e que, por baixo dela, há ainda qualquer coisa com dentes. Num instante, aquele que parecia todo cortesias, torna-se um inimigo visceral, espalha infâmias e calúnias mesmo que nos mude o nome.

Nessas alturas, fazemos o que a humanidade aprendeu depois de muitas guerras: ignoramos por completo e recuamos com elegância.

Sorrimos, até e continua-se a rotina do cumprimento, o levantar a mão quando passa de carro ou no final da missa ou na caixa do mercado.

Baixamos a voz. Concordamos, quando concordar não custa nada.

Não porque sejamos cobardes, como provavelmente gostaríamos de acreditar, mas porque descobrimos uma verdade prática que os heróis dos filmes com bons  mas sobretudo maus e vilões raramente respeitam: chegar vivo ao fim da conversa ou de uma contenda é uma forma respeitável de vitória.

Depois há os dias bons. Há manhãs em que o céu se conserva azul também dentro daquela cabeça e o homem aparece quase normal, como se voltasse a tomar a medicamentação a horas certas. É precisamente nesses momentos que, tomado talvez por uma estranha necessidade de contacto humano, decide interessar-se por nós, mesmo que sem pedir desculpas, como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse mesmo um filme.

Quer saber por que estamos tão afastados. Pergunta se sempre fomos assim. Questiona a saber de onde nos veio aquele gosto pela solidão, como se a solidão fosse uma doença hereditária que alguém tivesse obrigação de explicar.

É uma situação delicada. Podíamos dizer a verdade, naturalmente, mas a verdade é uma ferramenta que não deve ser usada indiscriminadamente. Há pessoas a quem se pode contar a vida de fio a pavio e há pessoas a quem é preferível falar  de coisas banais como do tempo com ares de meteorologista a antever sol, chuva e trovoada pela aparência das nuvens ou falta delas.

Por isso sorrimos. Dizemos qualquer coisa vaga. Fazemos um pequeno gesto de quem não percebeu bem a pergunta.

E, se percebermos que a conversa começa a tomar uma direcção pouco recomendável, fazemos o que tantos homens sensatos fizeram antes de nós diante de reis, loucos e cobradores de impostos: fazemos-nos de parvos.

É uma arte antiga e subestimada. O idiota, ao contrário do inteligente, raramente é considerado uma ameaça. Já discutir com ele, ganha-nos em experiência. Ademais, são da escola primária as leituras e fábulas das lutas entre moleiros e carvoeiros em que ambos ficam enfarruscados.

Para além de tudo, há momentos em que a melhor maneira de conservar a sanidade é deixar que o outro pense que não temos nenhuma. Afinal, dizem que dois tolos se compreendem como ninguém.

18/09/2026

O efeito borboleta

Em todo o lado as há: boas pessoas, excelentes pais, filhos amorosos, avós ternurentos, vizinhos prestáveis. Mas, no geral, para bem de todos, convém que a proximidade e a confiança se resumam a episódicas conversas de circunstância: «Como vai? Passou bem? Saúde lá para casa! Dê cumprimentos à patroa!»

Mais do que isso, as relações nem sempre batem certo e, às tantas, sobrevivem apenas graças a uma boa dose de hipocrisia ou fingimento. 

O cada vez maior número de divórcios mostra que também nos casamentos já não há vínculo, sagrado ou civil, que resista a tanto. As promessas mútuas e juras de amor e fidelidade não passam de banalidades pró-forma e ante-câmara de uma festança à grande e à francesa, onde até os pobres e remediados parecem ricos. Mas tudo assenta no vazio, na falta comum de compromisso, na incapacidade de compreensão, aceitação e, vá lá, algum espírito de sacrifício, seja lá o que isso for.

É assim, de um modo geral, mas de forma mais vincada onde o contexto propicia e implica comunidades ou grupos, como, por exemplo, no contexto das paróquias — esses redutos muito particulares onde nem sempre a bota dos ensinamentos evangélicos bate com a perdigota das ações e dos exemplos.

Por conseguinte, são todas excelentes pessoas, no geral prestáveis e voluntariosas quando toca a rebate, mas transformam-se num verdadeiro saco de gatos assanhados numa luta de egos, temperada com invejazinhas, recados indiretos e coscuvilhices. Todos querem ser o galo do poleiro ou o manda-chuva ou, pelo menos, que para além de preces e hóstias, lhes sejam dispensadas reverências ou, mais prosaicamente, colinho e mimos.

É certo que não é por aí que vem o mal ao mundo, mas ajuda a compreender e a aceitar a teoria do efeito borboleta: o bater de asas desse delicado e inofensivo insecto num canto do mundo que pode muito bem dar corpo a uma valente ventania no outro lado.

Resulta daqui, que quando sentimos o efeito de algumas "tempestades", mesmo caseiras, não será mais que alguma inocente borboleta, algures, a bater as asinhas coloridas.

17/09/2026

Questões do riso

O riso desbragado nunca foi especialidade do Vitorino. Por naturalidade ou para esconder os dentes e o céu da boca, ri-se, no geral, com ela fechada. Esporadicamente, lá se ri de forma mais descontrolada, nem sempre pela qualidade da anedota, da história contada ou da situação cómica vista, mas mais pelo contágio de alguém que ao lado também se ri.

Aprecia, naturalmente, uma boa anedota, o vigor de um dito perspicaz ou a habilidade refinada com que as pessoas de talento verdadeiro expõem o absurdo do quotidiano. O humor inteligente, como o inglês, agrada-lhe, a par de séries de comédia com qualidade — que, diga-se, cada vez mais escasseiam.

Mais do que alheias, certas manifestações de hilaridade provocam-lhe espanto, ficando sem conseguir entender o motivo de tais ditos ou piadas. Observar alguém a emitir urros, de boca escancarada e cabeça arremessada para trás num sobressalto quase epiléptico, é para ele uma experiência genuinamente desconfortável. Há na gargalhada desmedida uma perda de compostura que se aproxima do grotesco.

Esta aversão à gargalhada performativa é, aliás, uma das razões fundamentais que condiciona e limita a sua relação com a televisão, sobretudo com os programas de entretenimento, daqueles próprios de salas de espera e ocupação de reformados. Para o Vitorino, o ecrã transformou-se num recinto de histeria coletiva onde se ri em demasia e sem critério. A gargalhada no pequeno ecrã deixou de ser uma consequência natural do cómico para se converter num vício, numa forma artificial. Mesmo em programas e assuntos que mereceriam mais seriedade, os apresentadores e intervenientes comportam-se ao nível de criancinhas num jardim de infância.

Vão longe os tempos em que os locutores e apresentadores da nossa televisão sabiam comportar-se, ou, melhor dito, ser profissionais e conscientes da natureza de cada programa. De facto, na televisão contemporânea, a gargalhada opera como uma claque invisível e coerciva que dita ao telespectador o exacto momento em que deve achar graça, rir e aplaudir.

A gargalhada televisiva tornou-se uma obrigação contratual. Já não se procura o riso pela subtileza ou pelo enquadramento do absurdo, mas sim pela repetição mecânica de estímulos ruidosos. Perante este cenário de alegria forçada e gargalhadas estridentes, a atitude mais razoável e preventiva para o Vitorino continua a ser, invariavelmente, desligar o aparelho ou mudar de canal. Por alguns programas, já sabendo o que a casa gasta, nem perde tempo com eles, mesmo que sejam considerados de boas audiências — o que não o surpreende, pois há sempre testos à medida das panelas e chapéus ajustados a cabeças certas.

Mesmo no panorama nacional dos ditos cómicos ou humoristas (tipo Bruno Nogueira, Fernando Rocha, Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques, etc.), no geral acha que não têm piada alguma e recorrem ao desrespeito, à ofensa e ao palavrão fácil para compensar a falta de originalidade ou talento. A liberdade de expressão concede-lhes desculpa e proteção, as televisões e rádios dão-lhes palco e antena, mas, verdade se diga, quase sempre não passam de uns tristes com pretensões a fazer rir, mesmo que não falte quem se ria do mal alheio.

Nunca, como agora, faz tanto sentido para o Vitorino o velho ditado de que "quem tem muito riso tem pouco siso" ou "muito riso, pouco juízo".


[ilustração: adaptação por IA]

16/09/2026

Grátis? A sério?

[recorte do Jornal de Notícias]

Vamos lá ver, dissecar, como quem desmancha um porco e tripas para um lado e fêveras para outro: Ofertas? Grátis? Mas então serão os senhores presidentes de Câmara a pagar dos seus próprios bolsos? Também os vereadores? E os funcionários que cozinham e levam as refeições à mesa não se cobram dos seus salários? Quem vende os ingredientes, azeite, cebolas, batatas, arroz, massas, carnes, peixes, etc, dispensam-se dos custos e lucros? Oferecem como se fosse um permanente Natal?

Isto é a brincar com as pessoas, com os contribuintes que na realidade pagam estas "gratuitidades", tal como entre outras "prendas", os passes nos transportes públicos e portagens nas auto-estradas. 

Numa linguagem grosseira mas tão sábia, porque da boca do povo, isto de "foder com a piça dos outros" é fácil e até dá votos.

Andamos todos a ser tomados como palpavos e a comer estes eufemismos modernos. Quando o critério deixa de ser o utilizador/pagador, na realidade pagam todos, pelo que usar o termo "grátis" ou "oferta" é tão falso como Judas. 

Certamente devemos atender a situações sociais, devidamente justificadas, mas alargar este conceito a todos, mesmo aos filhos dos senhores doutores e engenheiros, tanto a quem tem rendimentos de 10 mil ou 100 mil anuais parece de todo desproporcionado. Mas, sobretudo, não publicitem que é "grátis". Não nos façam de lorpas.

Grátis deveria ser o IMI, porque corresponde a um imposto estúpido e injusto, uma renda sobre um bem que é nosso,não do Estado ou dos municípios e sobre o qual já  se pagou IVA na construção, juros no crédito bancário, taxas e licenças na Câmara. 

Pobre país, a fazer-se rico!

15/09/2026

Os biscateiros


Há homens que chegam a uma casa como quem chega a uma obra e há homens que chegam como se a casa já lhes pertencesse. São os biscateiros das obras.

Como numa farmácia, têm um pouco de tudo: um kit de ferramentas manuais e eléctricas, uma chave inglesa, uma serra, um serrote, maços e martelos, pás e picaretas, chaves de fendas, sextavadas, de estrela e a certeza, muito mais resistente do que qualquer material de construção, de que tudo sabem fazer. Derrubam velhas paredes e levantam novas, remendam telhados, mexem em fios, desentopem canalizações, pregam tábuas onde falta madeira. Se alguma coisa fica direita, foi porque tiveram mão para aquilo; se fica torta, a culpa é sempre da casa, do tempo, do material, do fornecedor ou de quem mandou fazer.

Ainda assim, quando aparece um trabalho, transformam-se. A voz amacia, as costas dobram-se ligeiramente, surgem os sorrisos e aquela familiaridade instantânea de quem nunca viu o cliente na vida, mas já lhe chama amigo. Tudo se resolve e as sugestões parecem de gente entendida. O preço pode ajustar-se, o prazo não será problema, a dificuldade é nenhuma. “Deixe connosco.” E o homem, que há pouco parecia capaz de demolir uma parede com as próprias mãos, passa a ser a mansidão em pessoa.

O contrato, porém, tantas vezes, tem uma propriedade curiosa: fecha-se a porta e abre-se o verdadeiro negócio.

A partir daí, qualquer reparo é uma afronta de discípulo ao mestre. Uma torneira que pinga não é uma torneira que pinga; é uma acusação de quem nada percebe de vedantes. Uma parede mal rebocada transforma-se numa ofensa pessoal ou efeito da luz. Um assentamento fora de esquadria é falta de óculos. Se o dono da casa ousa perguntar por que razão a janela não fecha, recebe primeiro um olhar de desprezo e depois um vocabulário que dispensaria dicionário. A obra pode ter ficado por acabar, mas a discussão fica sempre concluída: eles têm razão. 

É uma maneira peculiar de exercer a autoridade de certos biscateiros. Porque lhes sobram os clientes, não precisam de argumentos, porque têm o número. Não precisam de competência, porque têm confiança. E, sobretudo, não admitem contraditório, porque confundem facilmente a liberdade de falar com o direito de mandar calar.

Ao fim do dia encontram-se na tasca. A roupa traz ainda o pó da obra ou os borrões da tinta, as botas deixam marcas no chão e os copos tratam de apagar o que resta da diferença entre um homem e os outros. Ali, todos são iguais — sobretudo quando nenhum admite que o outro possa ser melhor.

Entre goles e pancadas no balcão, contam-se histórias de trabalhos que ninguém conseguiria fazer tão bem, de patrões que aprenderam a respeitá-los e de ocasiões em que “puseram cada um no seu lugar”. A conversa vai subindo de tom, como sobe o vinho, até chegar à grande descoberta política da noite: o mundo mudou, os antigos mandões acabaram e agora são eles quem decide.

E dizem-no com uma satisfação quase infantil, como se a democracia tivesse sido inventada naquela mesa para lhes garantir o direito de fazer tudo como lhes apetece.

Talvez seja essa a parte mais engraçada da história. Confundem o povo com o bando, a igualdade com a impunidade e a autoridade com a capacidade de falar mais alto.

Amanhã, se aparecer outra empreitada, voltarão a sorrir.

Porque até os brutos sabem que, para conseguir trabalho, é preciso parecer civilizado durante os cinco minutos que antecedem o aperto de mão. Depois, não raras vezes, é um inferno.

Deus nos livre destes biascateiros!


[ilustração: adaptação por IA]

11/09/2026

Mandar e ser mandado


Há pessoas que nasceram com uma admirável vocação para seguir, para serem mandados, obedecer.

Não é tudo defeito. Pelo contrário: há uma grande paz em não ter de decidir nada. Como dizem os italianos, um dolce far niente. Basta olhar em redor, verificar para que lado vai a maioria e acompanhar. Se toda a gente usa a mesma roupa, usa-se também. Se de repente todos descobriram uma nova maneira de comer, dormir, viajar, decorar a casa ou fotografar o almoço, lá se adopta o hábito com a solenidade de quem acaba de inventar uma vida. Nas redes sociais copiam-se as trends e comparece-se  ao chamamento a um qualquer evento, desde, claro, que não envolva trabalho.

Chamam-lhe, uns, personalidade, outros, ser sociável e modernista. É uma das grandes delicadezas do nosso tempo.

A pessoa escolhe cuidadosamente o seu lifestyle, aperfeiçoa o corpo, a barba, o cabelo, a casa, o vocabulário, a alimentação, as viagens e até a maneira de parecer indiferente às coisas que toda a gente deseja. Depois contempla a criatura que construiu e sente-se, legitimamente, única. O seu ego adensa-se e o umbigo é centro gravitacional.

À sua volta estão milhões de pessoas a fazer exactamente o mesmo. Mas não há mal nisso. Haveria, sim, se em contra-mão ou em passo desacertado.

O rebanho tem virtudes que a liberdade, essa velha senhora tão exigente, nunca conseguiu oferecer. O rebanho aquece, protege, recomenda restaurantes, escolhe destinos de férias, fornece opiniões e, sobretudo, poupa-nos ao esforço exaustivo de pensar e decidir pela própria cabeça. A Inteligência Artificial veio acentuar esse desligamento da vontade própria. Pede-se um texto, uma imagem, um relatório como quem na tasca pede moelas, rojões ou um bife com batatas fritas.

Há sempre um pastor. E um pastor é uma bênção para quem não quer perder tempo a descobrir onde fica a erva. Nada como saber que a horas certas, na manjedoura do costume, vai haver palha e ração.

Ele sabe para onde ir, conhece os melhores pastos, define o ritmo e, quando alguma ovelha se atrasa, dispõe de um argumento bastante antigo e de eficácia comprovada: o cajado da crítica e da desconsideração.

Depois existem as outras. As ovelhas que não encaixam. As negras, os rabujentos velhos do Restelo.

As que chegam atrasadas ao aprisco, comem onde não devem, desaparecem quando é preciso formar fila e aparecem precisamente quando ninguém lhes pediu opinião. Não são necessariamente corajosas. Seria bonito dizê-lo, mas nem sempre é verdade. Muitas são apenas teimosas, distraídas, mal-humoradas ou incapazes de perceber a utilidade de obedecer, sobretudo às cegas, sem escrutínio.

São as ovelhas ranhosas. Não melhoram o mundo por serem desobedientes. Apenas o tornam mais incómodo como um grão de areia no sapato ou uma formiga nos colhões.

Quando o cajado lhes acerta no lombo, protestam. Resmungam, afastam-se, fazem cara feia e, passada a indignação, voltam a cometer exactamente o mesmo erro. Há nelas uma espécie de fidelidade ao próprio defeito que chega a ser tão confrangedora quanto enternecedora.

Também não sabem muito bem para onde querem ir. Eventualmente, sabem apenas para onde não querem. E talvez seja esta a pior posição de todas.

Porque há os que mandam e os que aceitam ser mandados. Os que têm como mandamento de que necessários são os patrões e os empregados.

Neste universo, uns poucos descobriram cedo que nasceram para dar ordens; outros, com igual serenidade, que obedecer é muito menos trabalhoso. Entre uns e outros existe uma multidão que prefere não pensar demasiado no assunto, desde que lhe garantam salário, férias e a sensação reconfortante de pertencer a qualquer coisa, a uma seita, um grupo, um clube ou um partido.

Depois ficam os outros. Os que não querem mandar. Os que não querem obedecer.

Os que não aprenderam a andar ao compasso da manada, mas também não possuem talento para conduzir o rebanho. Esses são os verdadeiramente incómodos, porque não oferecem ao pastor nem a disciplina que ele espera nem a ambição que ele sabe utilizar.

São livres apenas na medida em que isso não lhes traz vantagem alguma. E liberdade, quando não vem acompanhada de poder, costuma ser uma coisa bastante mal paga.

O pastor não gosta deles e, com oportunidade, faz-lhes a cama em conformidade. As ovelhas também não.

E eles, para dizer a verdade, nem sempre gostam de si próprios. Talvez por isso existam tão poucos.

Uns nascem com o cajado na mão. Muitos aprendem a baixar a cabeça. E os que insistem em caminhar de lado, recusando tanto o comando como a marcha, descobrem cedo que há uma lei não escrita no rebanho: quem não conduz nem segue fica marcado e ignorado.

E, se houver favas para pagar, pode ter a certeza de que alguém já decidiu quem as come.

Eu sei. Tenho passado boa parte da vida a andar fora do compasso, a reclamar, a apontar defeitos, a irritar-me com chico-espertices, a incomodar quem se tem em conta por algum poder. Não é uma maneira especialmente inteligente de viver, bem o sei. Traz dissabores, rancores e reduz o círculo de gente concordante.

Mas, enfim, há vícios que, depois de tantos anos, já se confundem com carácter. Será, por isso, um problema de idade, em que se dá conta da falta de paciência para andar a seguir rebanhos, a dizer amém a qualquer pastor e a ser prestável com quem não merece mais que a indiferença.

Com a maior parte da vida já passada, o que falta dela é demasido valioso para ser desperdiçado em vénias e reverências. Era só o que faltava!


A. Almeida

09/09/2026

Os mestres da ilusão


Mais do que nunca, vivemos numa época em que mais vale parecer do que ser. O Governo, as autarquias e a comunicação social usam e abusam dos eufemismos e das meias-verdades, jogando constantemente com as percepções. Tal como num espectáculo de ilusionismo, o mágico precisa de distrair para iludir — algo que se torna simples porque, quase sempre, o público tende apenas a ver e a ouvir o que lhe convém.

Com frequência, lemos ou ouvimos anúncios como:

"No município X, os transportes públicos serão totalmente gratuitos";

"Os alunos passarão a ter manuais escolares completamente grátis";

"No município Y, as creches serão gratuitas";

"As autoestradas X, Y e Z deixarão de ter portagens";

"A Junta de Freguesia Z vai incentivar a natalidade com a oferta de um cheque de 500 euros por cada nascimento".

Esta narrativa cria a falsa percepção de que, com tais medidas, tudo se transformará num reino maravilhoso de bens e serviços gratuitos e de ofertas antecipadas de Natal.

Nada é mais falso. Quer seja no Estado Central, nas autarquias ou nas juntas de freguesia, tudo o que se anuncia como "grátis" continua a ter custos, financiados pela totalidade dos contribuintes. Trata-se de um modelo desequilibrado e injusto, uma vez que a factura é paga não só por quem usufrui dessas benesses, mas também por aqueles que delas nunca tirarão qualquer partido. 

É um pouco como a repetida história de que num certo município o evento X deixou um retorno económico de centenas ou milhares. A quem? A todos ou a quem mais bebe por estar perto da fonte. É que, no meu caso, em dezenas de anos de eventos cá no burgo, nunca senti caír um euro no meu bolso, antes, pelo contrário, a pagar quando há prejuízos na gestão ou exploração.

Em suma, assim continuamos: satisfeitos com supostos "benfeitores e altruístas" que, na verdade, não tiram um único cêntimo do próprio bolso para financiar as promessas que fazem ou medidas que implementam nesse conceito de gratuitidade. Antes, quando num populismo bacoco, tiram partido disso em tempos e contextos eleitorais.

Assim vamos andando!


[ilustração: IA]

12/08/2026

A festa no Viso e não do Viso - Tem razão o ti Alcides!


Abordou-me no Domingo à tarde na festa, o ti Alcides do Martinho. Num respeito e consideração que é mútuo, soltou no seu característico tom: - Américo, tens que escrever e fazer ver  ao povo que a nossa festa é de Guisande, é no Viso e não do Viso! 

Afinal, estava em causa  a aplicação de uma preposição gramatical. Importantes, mas que podem ter sentidos bem diferentes, a indicar pertença ou apenas localização.

Sem grandes delongas, uma preposição é uma palavra invariável cuja função principal é ligar dois termos numa frase, estabelecendo entre eles uma relação de dependência e de sentido.

Bem sei que o ti Alcides, que conheço dos meus primeiros anos, porque vizinho, ainda antes de rumar para França com os filhos atrás, tem razão. De resto, nem foi a primeira pessoa a dizer-me o mesmo. Eu próprio concordo. Não obstante, é daquelas coisas que, à custa de tanto malhar nelas, acabam por se entranhar na nossa forma de as dizer. Assim, de tão habituados, referimo-nos à nossa romaria como Festa do Viso. 

Posto isto, bem ou mal, e sem discordar do ti Alcides e de quem considerar o mesmo, será agora difícil mudar hábitos, porque ambos burros velhos, eu e o ti Alcides, mesmo que uma diferença de mais de vinte anos nos separe.

Bem ou mal, a pedra há muito que rola pela ladeira abaixo e já ninguém a conseguirá deter e teremos de aceitar que no presente e futuro será sempre a Festa do Viso.

Mas mais do que a importância de chamar os bois pelos nomes, este episódio aproveito-o para falar do ti Alcides.

Nasceu em 9 de Janeiro de 1939, filho de pai dado como incógnito e Adelina Rosa de Jesus, neto materno de Martinho Gomes da Silva (daí o apelido de ti Alcides do Martinho) e Olinda Rosa de Jesus. Deu-lhe a mãe, que bem conheci, o nome de Alcides Gomes de Jesus. Casou em Guisande em 31 de  de Janeiro de 1959 com Maria Alzira Pereira dos Santos, ambos do lugar de Cimo de Vila. Como tantos portugueses, mesmo de Guisande, emigraram pela década de 1970 para França, onde se fixou na região de Bordéus (Bordeaux). Levaram consigo os filhos, incluindo o Alberto, mais ou menos da minha idade, por isso amigo mais chegado. Durante anos regressavam de férias antes uns dias da festa e o Beto vinha logo a minha casa. Trazia sempre alguma coisa de lembrança, como umas cassetes com músicas ainda desconhecidas por cá, livros, filmes (até mesmo daqueles a fazer-nos perder a inocência), etc. Assim foi até à minha ida para a tropa pelo ano de 1983. Ele próprio casou, teve filhos e a ligação foi quebrada e de há muito que raramente nos vemos e muito menos falamos. A vida é mesmo assim. Cada um na sua. 

Mas são mais os filhos do ti Alcides e ti Alzira, como o António, a Conceição, a Fátima e a Armandina. Se alguns esqueci, é mesmo por isso, esquecimento.

Mas um dia, no cumprimento do sonho, embora cada vez menos a saudade seja doença que não se desapegue a ponto de muitos por lá ficarem definitivamente, o ti Alcides e a esposa lá regressaram  de vez à mesma casa, que melhorou, e por cá têm estado há já uns valentes anos. É gente boa e rija, ambos, ele e a esposa, já quase a queimar os noventa anos. Com queixas e ameixas lá vão indo e andando.

Que continuem por cá, e que o ti Alcides, que frequenta assembleias de freguesia e outras sessões de cidadania,  continue postivamente a tentar colacar os pontos nos is, bem como, frequentemente, também como é típico em muitos dos nossos e emigrantes, a bendizer aquelas terras que os acolheu, em contraponto à nossa, tantas vezes apelidando-a de “atrasada”. Como se vê, atrasada era já no tempo da velha senhora, o que levou milhares a procurarem outra vida noutras terras, mas mesmo que ela tenha já morrido e sido enterrada há mais de meio século, ainda continuamos um país e um povo com défices. Bem melhores, certamente, ou não servissem para alguma coisa os milhões e milhões que temos mamado da teta da União Europeia e o calote público, mas ainda com um atraso importante, sendo que este já mais de mentalidade e má governação. Daqui a mais cinquenta anos já não estaremos por aqui, eu e o ti Alcides e muitos outros, para ver como será então este nosso país, mas, pelo rumo e qualidade dos nossos governantes e políticos, da esquerda à direita, será um milagre que os nossos netos e bisnetos (quem os tiver ou chegar a ter) vivam num Portugal melhor, no que lhe falta de essencial.

Mas, bastando de pessimismo, mal da idade, fazem falta mais ti Alcides na nossa freguesia. Mesmo que à porta dos 90, ainda consegue ter mais intervenção e sentido crítico que muitos com 60 e 70 a menos. É o que é!

Obrigado, ti Alcides! Bem-haja por me chamar à atenção de que a nossa maior festa é no Viso e não do Viso. E não, não é pormenor de somenos importância! Recado dado e transmitido!

11/08/2026

Coisas que deviam fazer pensar

- Que nos seja negado o direito constitucional de livre acesso e circulação ao espaço público, numa zona nobre de uma vila ou cidade, durante quase duas semanas, a pretexto e favor de um evento de entretenimento.

Há quem ache isso normal e até aceite com um sorriso. Talvez os mesmos que dão as nádegas livremente à obrigação de uma vacina. Um dia destes aceitarão que lhes seja cravado nas orelhas um brinco identificativo, como se faz ao gado ou às ovelhas de um rebanho.

Apesar disso, são capazes, se os meterem num autocarro e lhes derem umas bandeiras e cartazes, de se juntarem numa manifestação em defesa dos direitos consagrados na santa Constituição ou contra a quem pretenda alterar, mesmo que pelas regras da democracia.

14/07/2026

Tempos estranhos estes


Vivemos tempos de profunda estranheza, nos quais a realidade parece redefinir-se a um ritmo quase irreconhecível. Este fenómeno, longe de ser exclusivo de Portugal, estende-se à escala global e manifesta-se de forma evidente no nosso quotidiano. A linha que outrora separava o expectável do invulgar tornou-se ténue, diluindo-se num degradê de constantes transformações.

A própria composição das selecções nacionais de futebol, como as de França, Suécia, Suíça ou Noruega, espelha esta mixórdia demográfica e cultural que reina na velha Europa. Para uns, esta diversidade representa o resultado inevitável de uma complexa transição multicultural na Europa moderna; para outros, constitui uma evolução enriquecedora assente na pluralidade. Distantes parecem os tempos em que figuras históricas, como Viriato, se batiam contra influências externas em nome de uma soberania a evitar o progresso da civilização romana. Paralelamente, entidades como a FIFA demonstram frequentemente que a lógica de mercado se sobrepõe a quaisquer outros valores, obedecendo a todos-poderosos, revelando um pragmatismo que, se não surpreende, pelo menos expõe de forma clara as suas prioridades.

A nível interno, assiste-se a uma resistência sistemática a reformas estruturais, quer no plano laboral, quer na justiça ou na educação. Numa era dominada pela transição digital e pela inteligência artificial, subsiste uma persistente relutância em abandonar métodos tradicionais, como as avaliações escolares físicas em papel, não se dispensando os clipes e agrafes, revelando o descompasso entre a velocidade do progresso tecnológico e a inércia institucional. Somos avessos a reformas e as entidades corporativas e sindicais impõem-se a quem ouse desafiar o status-quo.

Por outro lado, deparamo-nos com paradoxos inquietantes: enquanto as farmácias nacionais e seus utentes sofrem com a escassez de determinados fármacos, enviam-se toneladas de ajuda humanitária para países como a Venezuela, uma nação historicamente rica em recursos naturais e petrolíferos. Embora o espírito solidário português perante crises humanitárias seja inegável e louvável, ao qual muitos, de forma altruísta, se associam, como eu na justa medida, gera-se uma inevitável reflexão sobre a eficácia de apoios dirigidos a Estados e a povos que não se ajudam, que falham persistentemente na sua própria governação e autossuficiência.

Ao nível da gestão local, observa-se frequentemente uma canalização desproporcionada de fundos públicos para eventos de lazer e festivais, festas e festarolas, em detrimento do investimento em infraestruturas básicas e duradouras. A escassez de água, como agora em Almada, é o reflexo directo desta fragilidade de planeamento. Mesmo em regiões onde o abastecimento ainda se assegura, como no nosso concelho, o custo do recurso atinge valores exorbitantes, dos mais caros no país, enquanto ainda persistem habitações desprovidas deste bem essencial. A concessão gere-se apenas pelo objectivo de lucro, quanto mais, melhor. 

No âmbito comunitário, o investimento de somas avultadas em espectáculos artísticos associados a festividades locais, como ainda agora numa freguesia vizinha,  em que alguém estourará qualquer coisa como cem mil euros, em nome de uma santa, duvidando eu que ela aprovasse tal gasto, levanta dúvidas morais sobre as prioridades colectivas, parecendo contradizer o próprio espírito de sobriedade que deveria nortear tais celebrações. No entanto, prevalece frequentemente a máxima clássica do "pão e circo", onde o direito individual ao usufruto do próprio capital legitima qualquer opção de despesa. Além do mais, que importa questionar quem decide gastar o seu dinheiro desta forma e não de outra mais louvável? Responderão que "o dinheiro é meu, queimo-o como quiser". E com razão.

Em suma, enfrentamos uma época de transição e incerteza. A erosão de critérios éticos e de valores de referência parece sugerir que a sociedade contemporânea carece de um fio condutor ou de propósitos colectivos de longo prazo. Ao preterirmos as referências espirituais, humanistas ou metafóricas em favor de um imediatismo puramente material, corremos o risco de viver o presente como se não houvesse amanhã, abdicando da construção de um legado sólido para as gerações vindouras.

11/05/2026

A lição da fábula do ovo de Colombo


Pela década de 1970 aprendi a fábula do Ovo de Colombo  num dos livros de leitura da escola primária. Grosso modo, o navegador e descobridor da América, Cristóvão Colombo, um certo dia, a propósito do valor da sua descoberta, que muitos então desvalorizavam, desafiou os presentes a porem de pé um ovo fresco de galinha sobre a mesa sem que tombasse. Como ninguém encontrasse solução, o genovês, com cuidado quebrou um pouco de casca na extremidade do ovo, e assim, apenas com a película a segurar a gema e a clara, conseguiu uma ligeira base e com isso que o ovo se equilibrasse facilmente.

Depois disso, os presentes desvalorizaram, argumentando que, assim também eles. Então, como remate e lição da fábula, Colombo terá dito que as grandes descobertas eram mesmo assim, a parecerem fáceis depois de terem sido realizadas, Antes, porém, ninguém teve a ideia ou o valor capaz de as levar a cabo, de as realizar.

Esta lição, mesmo que uma metáfora e sem qualquer rigor histórico de que tenha realmente tenha acontecido, lembra-nos que ainda hoje não falta por aí quem diga ser capaz de equilibrar ovos sobre a mesa depois de ver como o fazer. Antes, porém, sem tomarem a iniciativa, sem mostrarem como se faz. Assim, ao invés de darem mérito e valor a quem o faz pela primeira vez, limitam-se a dizer que "...assim também eu".

Em Guisande, nesta pequena e bonita freguesia, também há quem desvalorize alguns dos nossos Colombos, sem mostrarem como fazer e sobretudo mais e melhor. O mérito raramente é reconhecido, antes desvalorizado, e o copo meio cheio de água é visto como meio vazio.

É a vida!

29/04/2026

É fartar, vilanagem!

As catástrofes naturais que têm assolado Portugal, desde os trágicos incêndios de 2017 às recentes tempestades que fustigaram, sobretudo, o centro do país no início deste ano, deixam marcas profundas no território e na alma das populações. Perante a destruição de habitações, fábricas e explorações agrícolas, a resposta do Estado foi rápida através de fundos de reconstrução é não apenas necessária, mas um imperativo de solidariedade social. Contudo, a par dos escombros, surge frequentemente um fenómeno igualmente corrosivo: o oportunismo de quem vê na tragédia uma oportunidade de lucro ilícito e que procura tirar proveita das facilidades burocráticas dadas pelo Estado como forma de se dar resposta tão rápida quanto possível aos danos e insuficiências.

É comum ouvirmos críticas contundentes à classe política, à burocracia das instituições e à alegada falta de transparência na gestão da coisa pública. No entanto, os relatos recorrentes de candidaturas fraudulentas (como alguém que pediu à volta de 3 mil euros quando na realidade apenas precisou de meia dúzia de telhas que lhe foram oferecidas) a apoios estatais revelam uma dissonância ética preocupante. Quando indivíduos ou empresas tentam obter financiamento para reconstruir estruturas que já se encontravam abandonadas ou em ruínas muito antes do desastre, ou quando inflaccionam prejuízos de forma desproporcional, estão a replicar precisamente os comportamentos que condenam nos seus representantes. Um pouco como, na estrada, alguém que tendo no seu automóvel umas valentes amassadelas, depois de um ligeiro toque de alguém, alega à seguradora que o carro estava impecável. Um simples Fiat Uno é descrito como um Ferrari.

Todos cohecemos, até por perto, casos de falsificação organizada de acidentes automóveis para enganar as seguradoras, e até mesmo em acidentes a envolver bicicletas, em que há quem se preste a substituir peças danificadas vulgares por mais caras para enganar o perito e aumentar a indemnização pela seguradora. Não somos anjinhos e todos conhecemos estas histórias.

Esta microcorrupção do quotidiano sugere que o problema ético não é exclusivo das esferas de poder, mas sim transversal a uma sociedade que, por vezes, confunde astúcia com sobrevivência e oportunismo com direito.

As ramificações destas acções enganadoras são vastas e prejudicam toda a comunidade. Os fundos públicos são finitos. Cada euro desviado para uma estrutura que já estava em ruínas é um euro retirado a uma família que perdeu o seu único teto ou a um empresário que luta para manter postos de trabalho.

A detecção de fraudes obriga o Estado a endurecer os processos de fiscalização. O resultado é um aumento da burocracia que atrasa o apoio a quem dele necessita com urgência, punindo o justo pelo pecador. Nesta situação o Governo confronta-se com a situação de pecar por excesso de zelo ou de abrir a porta e as mãos ao chico-espertismo e oportunistas, tantas vezes estes com o beneplácito de gente que está nas entidades que deviam fiscalizar e zelar pelo interesse público, usando da velha filosofia de que uma mão lava a outra e que em detrimento do Estado ganham todos.

A fraude alimenta o cinismo. Quando a comunidade percebe que o vizinho beneficiou indevidamente de um sistema de apoio, a confiança nas instituições e na própria solidariedade entre pares dissolve-se, dando lugar ao ressentimento.

Uma sociedade que aspira a instituições íntegras deve, obrigatoriamente, sustentar-se numa base de integridade individual. Criticar a corrupcção "lá em cima" enquanto se pratica o oportunismo "aqui em baixo" é uma falha moral que compromete o desenvolvimento do país.

A reconstrução de uma região após uma catástrofe deve ser física, mas também ética. Exigir transparência do governo é um dever cívico, mas agir com honestidade perante os recursos que pertencem a todos é a única forma de garantir que, na próxima tempestade, a rede de apoio seja robusta, rápida e, acima de tudo, justa. Infelizmente, de Pedrógão à região Centro, os exemplos de oportunismo mostram que nada aprendemos. No meio da catástrofe e miséria haverá sempre gente ao saque como na Idade Média. 

É fartar, vilanagem!


[ilustração: Observador]

28/04/2026

Santos da casa....

Não deixa de ser uma mero reparo, mas também curioso, quiçá sintomático, que fora do contexto da sessão pública de apresentação do meu livro de apontamentos sobre a história do Guizande Futebol Clube, em 10 de Abril passado, não tenha tido alguém da freguesia que de forma pessoal me reconhecesse o valor e importância do livro mas, em contrapartida, já algumas pessoas de fora da freguesia o fizeram, algumas delas mal conhecidas por mim.

Vale o que vale, porventura não mais que um acaso, mas, ainda assim, a fazer pensar. Seja como for, é velhinha a sentença de que "santos da casa não fazem milagres" e daí que não seja de surpreender alguma indiferença. Afinal,  nos dias que correm, vale mais um peidinho nas redes sociais, do que algo mais substancial como um livro a valorizar o que é nosso, o colectivo, o legado de muitos. 

O incentivo e apoio são fundamentais em qualquer área, em qualquer empreendimento, mas por aqui o que quer que tenha de ser feito terá de ser sem expectativas ou, pelo menos com estas em baixo.

É o que é!


 

16/04/2026

Pagar o que não se come


Como muitos portugueses, tenho serviço de telefone, televisão e internet. O básico. Não tenho canais prémium nem Netflixes ou coisas parecidas. A minha carteira não dá para tanto.

Apesar disso, um dos motivos que me levam a não subscrever Netflixes e quejandos é que, por regra, paga-se pelo pouco que se come e pelo muito que não se come. Ou seja, paga-se o menú completo, mesmo que só se comam as salsichas e não se toque nos bifes, no polvo ou no camarão. Do género, não comeu, comesse!

Infelizmente, sem regras de quem as devia implementar em defesa dos consumidores, habitualmente somos todos "comidos de cebolada". Por exemplo, pagamos serviço de televisão e mesmo assim temos que gramar doses exageradas de publicidade. Ora se temos de compreender essa filosofia em televisões de sinal aberto, já em serviços pagos a coisa fica estranha. Não surpreende, por isso, que muitos procurem esquemas ilegais de acesso a esses serviços de televisão e streaming.

Em resumo, quase todos comemos pela medida grande e conforme as coisas estão regulamentadas, de pouco ou nada serve reclamar. E isto não só neste género de serviços fornecidos por empresas, como até em alguns prestados pelo Estado.

É comer e não bufar, até porque quem bufa rapidamente passa por estar desalinhado, por negacionista, ovelha tresmalhada ou coisa do género. 

Num país de gente mansa e alinhada, custa até a acreditar que tenha havido uma revolução.

08/04/2026

Já não se leva água aos nossos moinhos

 


Ontem foi o Dia Nacional dos Moinhos. Por cá, pelo que se vai publicando, ficamos todos com a impressão que só há moinhos nas bordas do Uíma. Isto resulta de uma realidade de que só conhecemos o que nos dão a conhecer. Também porque o nosso poder central (concelhio) é isso mesmo, central, e para além da visão do seu umbigo nada mais há nem mexe.

Guisande, mesmo que terra minguada em léguas, tem a sua boa dose de moinhos. É certo que já não funcionais porque o desinteresse por estas coisas é estrutural e cultural, alguns em ruínas e outros já desaparecidos ou apenas com os alicerces. Os mais novos, não os conhecem nem conhecerão. Uma auto-estrada não deixa de se fazer ou não se desvia por causa de dois ou três moinhos e como tal esses foram-se à vida com a A32. Foi o progresso que trouxe à nossa aldeia que, como parasita, só leva e nada deixa. Deixou um rasto de destruição ambiental e paisagística. Sem qualquer esmorecimento de quem nos competia defender ou minimizar os prejuízos.

Mesmo assim, há condições para que pelo menos uns três possam ser restaurados, mas, para sermos realistas, milagres fez Jesus e foi morto por isso.

Posto isto, resta-nos (aos mais velhos) as memórias dos nossos moinhos, algumas fotografias e a certeza de que para lá do Uíma não há ribeiras nem moinhos. Isto é, o resto é paisagem.

Mesmo assim, fica a evocação de um dia que nos passa esquecido. Já não levamos a água aos nossos moinhos.


07/04/2026

O que é que se pode dizer?


Quando somos notícia pelos piores motivos. Ainda há dias falava-se aqui da estranha frequência de incêndios ali naquela zona. 

Pessoalmente, mesmo sem saber quem é em concreto, se um dos nossos, fico triste, mas pergunto qual o papel das autoridades quando se diz que, afinal, já havia antecedentes.  Muitos dos incêndios neste nosso Portugal têm origem em incendiários recorrentes, gente à solta ou sem tratamento. Quando assim é....

06/04/2026

Cada um que responda


A Páscoa, na boa e secular tradição cristã, é, sem dúvida, a mais importante das celebrações e aquela que deve corresponder a uma alegria não material, mas espiritual, por todo o seu significado e simbolismo. Por conseguinte, são naturais e compreensíveis todas as manifestações desse júbilo, nas mais diferentes formas. Nos tempos actuais, muito marcados e até dependentes das redes sociais, é igualmente natural que muitas pessoas partilhem momentos pessoais, em família e em comunidade, ligados a essa alegria.

São assim frequentes e recorrentes as partilhas que vão desde felicitações de uma boa e feliz Páscoa até às iguarias colocadas nas mesas: o assado de cabrito ou de vitela, o pão-de-ló, os doces e bolos, etc., etc. Tudo coisas boas, bonitas e saborosas, que de facto comprovam o sentido de alegria que ainda se associa à Páscoa, à ressurreição de Jesus. 

Apesar disso, sem moralismos, até porque, talvez, já algo ultrapassado face às tendências e modos de vivência actuais, pergunto-me se, em cada 100 pessoas que partilham a Páscoa nesses moldes, cinco delas participaram em alguma cerimónia religiosa durante a Quaresma, se percorreram esse caminho de introspecção e preparação espiritual, se na Semana Santa participaram em alguma das celebrações - na Quinta-Feira Santa, na Sexta-Feira Santa, no Sábado de Aleluia - ou se apenas, ou nem sequer, na missa do próprio dia de Páscoa?

Cada um e cada uma responderá por si, mas, pelo que se vai vendo e constatando, nomeadamente na nossa comunidade, parece-me que, no geral, a forma como vivemos a Páscoa e tudo o que a antecede, se tornou muitas vezes um mero formalismo, uma tradição sobretudo material. Coisas de igreja e de padres, de orações e contemplações mais profundas, dispensam-se. O assado, esse sim, é tradição, antiga, da casa e da familia! Esse é que conta!

Pessoalmente, não concebo celebrar a Páscoa, a ressurreição do Senhor, sem a vivência desses momentos fundamentais da nossa espiritualidade, até para a sacralizar. Contudo, muitos há que, não ligando patavina a essa dimensão, seguem a vida como se nada fosse, dormindo descansados com isso. Entre uma celebração religiosa e um jogo de futebol ou um qualquer evento, social ou desportivo, a escolha é fácil, demasiado fácil. 

Em resumo, em tudo, nestas questões, cada um falará por si e, de um modo ou de outro, encontrará uma justificação pessoal para a sua fé, ou para a sua “fezada” e a encontrar a habitual justificação de que não é por isso que são melhores ou piores dos que fazem por participar nas cerimónias religiosas alusivas (e com certeza que não). Mas, numa reflexão mais profunda, parece-me que andamos, de facto, muito afastados do essencial e vivemos estas realidades com a mesma profundidade com que festejamos um Carnaval ou um jogo de futebol. Não há como não dizê-lo. Isto é bom? É mau? Indiferente? Cada um que responda por si.

Continuação de um feliz e santo tempo pascal!

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