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26 de junho de 2022

O sabor das coisas



Faz-me sempre confusão que algumas pessoas teçam elogios à paisagem e aos lugares, quando passam por elas e por eles a correr, apressados, com minutos contados e metas por destino. É, pois, um quase paradoxo, senão total. 

Não poder ver ao longe uma torre de igreja a rasgar o verde, nem um ponto branco de uma capela a luzir na crista do monte, o apreciar uma flor, o pormenor e contraste de uma folha, ver um lagarto a absorver o sol, seguir com o olhar um pássaro a saltitar de ramo em ramo, ouvir o canto lamuriento, alegre ou impetuoso de um regato ou ribeira é tudo menos saborear a natureza. E nestas coisas não podemos estar com Deus e com o diabo. São incompatíveis e os meios termos são apenas pretextos filosóficos.

Quem engole apressado um prato de assado no forno, sem se deter nos pormenores que levaram a isso, desde o que esteve na origem daquele animal sacrificado para nosso deleite, o lavrar, o semear e o colher dos ingredientes, até ao saber e paixão de quem preparou, confeccionou e serviu, não pode simplesmente exclamar, de boca cheia - Isto está bom p´ra caralho! Quem assim procede está a passar pela vida demasiado apressado, sem se deter a questionar se aquele aroma e sabor é de tomilho, de hortelã ou alecrim..

Em suma, há coisas que só nos são plenas se absorvidas da mesma forma, cheia e intensa. O resto são cantigas de trovadores mal amanhados.

31 de maio de 2022

Números astronómicos e reencarnação

Há quem goste, adore até, de assitir a “reality shows” e outros programas de entretenimento em que a nossa TV é farta, sobretudo a envolverem gente do jet-set. Afinal a nossa TV prima por espetar os espetadores com coisas de que gostam, mesmo que baseadas em boçalidades que nada acrescentam. Mas nada a obstar. Afinal na diferença e diversidade, dizem, é que está a riqueza,. 

Como nestes coisas fujo um pouco à norma, e daí na anormalidade, prefiro e gosto de documentários sobre cultura, natureza e ciências. Fascina-me tudo relacionado ao universo, ao sistema solar, às galáxias, às estrelas e aos planetas. E por aqui impressionam-me sempre os números, desde as distâncias medidas em anos-luz até à idade do universo após o big-bang, por si só uma teoria em que se procura justificar a criação  a partir do nada, ainda a idade do sol e a forma como há-de terminar os seus longos dias, expandindo-se a ponto de engolir, no caso incinerar o nosso belo berlinde azul, ambora quanto a isto, acho que pela nossa loucura a Terra há-de durar bem menos tempo. E nestes dias de guerra irracional, há dedos nervosos ao lado de botões vermelhos, prontos a isso.

Estimam os cientistas, mesmo que em controvérsias, que o universo terá cerca de 14 biliões de anos (13,82), qualquer coisa como o número 14 seguido de 12 zeros e nem importa saber se pela medida da Europa, em que um bilião são mil milhões, se dos Estados Unidos, Reino Unido e Brasil, em que um bilião afinal são mil milhões. Mais zeros menos zeros, são muiiiiiiiiitos anos.

Quanto à Terra, dizem que terá um pouco menos, ou seja 3,5 biliões. Aqui, o conceito de “pouco menos” é mesmo uma questão de semântica. 

Já o sol, a nossa estrela, terá qualquer coisita como 4,5 biliões de anos e estima-se que tem combustível (hidrogénio) para queimar (600 milhões de toneladas por segundo) no seu reactor por mais durante 5 biliões de anos. Está, pois, a metade da sua previsível vida. Mas esse processo englobará várias etapas e uma vez queimado o hidrogénio o sol consumirá os elementos remanescentes mais pesados, como o hélio, o carbono, o oxigénio e por fim o ferro  e como este não poderá ser queimado, já que a energia necessária é superior à produzida, então a nossa estrela colapsará e explodirá espalhando todos os elementos acumulados pelo universo. Afinal a continuação de um ciclo, já que em rigor todos os seres vivos, incluindo nós humanos, são formados por essa massa primordial de átomos. Em rigor, dizem os cientistas, nesse processo de transformação da parte final da vida do sol, este irá expandir-se, crescendo para o dobro, transformando-se numa "gigante vermelha", e incinerar literalmente o nosso planeta  e todos os demais que o orbitam.

Neste contexto de distâncias e idades expressas em números gigantescos, quase imensuráveis à nossa percepção terrena,  ficamos todos com a plena certeza que a nossa vida (dos humanos) e a de todos os seres vivos, animados e inanimados, não é mais que uma ínfima fracção de segundo quando comparada aos tais números astronómicos. Uma borboleta ou uma abelha vivem poucos dias ou semanas e mesmo os seres vivos com mais expectativa de vida, como algumas espécies de corais, baleias, tubarões, que podem andar pelos 200, 500 ou mesmo 1000 anos, são sempre vidas curtas. Há até um estudo de 2012 que sugere que uma esponja do mar, a Monorhaphis chuni terá a idade de 11 mil anos. Mesmo tendo em conta estes 11 mil anos, a coisa continua ínfima na escala da vida do universo, do sol e da terra.

Por conseguinte, para aqueles que acreditam que todos nós havemos de reencarnar mesmo que enquanto um animal, não restam dúvidas que durante um milhão ou bilhão de anos temos tempo de viver e reviver na pele de todos os seres vivos que existem na terra, nas águas e no ar. Podemos assim vir a ser um cão, um gato, uma cabra, um rato, uma cobra, uma minhoca, um papagaio, uma sardinha, um atum, uma lula, uma mosca, uma borboleta, um morcego, etct, etc, etc, etc,. Tempo  ao universo é o que não falta.

Assim sendo, pelo sim e pelo não, dentro do possível e desde que não nos ponham em risco, será preferível que respeitemos todos os seres vivos na sua dignidade, pois podemos vir a ser um deles. Se daqui a 100, 200, 500, mil, cem mil ou um milhão de anos, não sabemos. Mais vale prevenir.

E vamos deixar por ora esta questão, porque tanto número e ordens de grandeza deixa-nos baralhados, confusos, e a perspectiva de podermos vir a ser um qualquer insecto rastejante ou um escaravelho-da-bosta não é lá muito inspiradora e muito menos animadora, convenhamos.

Boa Terça-Feira!

12 de maio de 2022

Estados de alma


Dou razão ao amigo Luís: O Facebook não é o melhor sítio para virmos expressar as nossas dores de alma, seja na alegria, mas sobretudo na tristeza. Não porque o não possamos fazer ou não tenhamos esse direito, mas essencialmente porque não deixa de ser uma banalização dos nossos momentos mais íntimos, como se precisássemos de um palco do tamanho do mundo para o fazer, para os mostrar.

Na tristeza bastará o recolhimento e tantas vezes a solidão. E sim, o conforto dos amigos próximos, mas daqueles que nos conhecem nas nossas virtudes e misérias e não, tantas vezes, de meros desconhecidos.

Na alegria, também não importará extravasar para além do círculo de quem realmente nos quer bem e capazes de se alegraram, em comunhão, de forma verdadeiramente sentida. Ademais, podemos ter um grande "grupo de amigos" nas redes sociais mas na verdade e no geral, se espremido é um limão amargo, quase sem sumo.

Posto isto, longe de mim pretender dar lições de moral ou de comportamento, mas tenho como válido que há coisas que ainda devem ser reguladas pelo bom senso, pela razoabilidade, pela discrição. 

Não é fácil, pois não, porque no fundo queremos, de uma forma ou outra, ser sempre o centro do mundo ou o palco das atenções e é incessante a busca por despertar invejas com as nossas belas estampas, os nossos feitos, o nosso estilo de vida e as nossas vaidades ou então, em sentido oposto, procuramos com avidez a comiseração alheia para as nossas fatalidades, os nossos desencantos e as nossas tristezas. 

Em última análise, somos seres gregários e da condição evolucionista não conseguimos desprender-nos dessa teia de dependência social. Está-nos no sangue e no instinto.

2 de maio de 2022

O valor do agradecimento


Tenho, em diversas ocasiões, contribuido com donativos para causas que me sensibilizam, pessoal, animal ou pela natureza, mas com pena por não o poder fazer mais vezes e de forma mais substancial. Todavia, mesmo que de forma simbólica, procuro fazê-lo sempre que a causa me parece honesta, justa e fundamentada. Mais recentemente, na campanha do Movimento Gaio para aquisição de um terreno na serra da Freita, para reflorestação com arborização autóctone (objectivo já conseguido). Também ali deixei o meu simbólico donativo.

Isto sem bandeiras, mas apenas para salientar que em várias dessas ocasiões em que contribuimos era expectável um agradecimento, mesmo que simples e breve, ou mesmo, vá lá, automático. Mas nem sempre há esse retorno. 

Ora o agradecimento fica sempre bem a quem pede e recebe.Não é necessário que seja público, acompanhado de fanfarra e foguetes, mas bastará que discreto e pessoal.

Por conseguinte, em alguns dos serviços de partilhas de ilustrações em que participo, recebo muitas vezes alguns donativos, a que no meio se designam por "café"; ou seja, alguém gosta do nosso trabalho, aproveita-o e de forma reconhecida pode doar um qualquer valor para "se tomar um café". Ora sempre que isso acontece, e felizmente muitas vezes, procuro sempre agradecer, mesmo que seja 50 cêntimos ou 1 euro. 

Ainda agora, a troco da imagem aqui publicada, uma ilustração muito simples como fundo (background), base decorativa para mensagens, recebi 50 euros de uma italiana. Dá para cafés para o mês todo e ainda sobra, mas naturalmente que, para mais de forma expressiva, dá gosto ser reconhecido e por isso o agradecimento é tão saboroso como a recompensa.

Infelizmente o valor do agradecimento anda pelas ruas da amargura porque enfunados com a nossa importância e com os nossos reis na barriga, somos pouco dados ao agradecimento, ao reconhecimento ao "obrigado!",ao "obrigada!, ao "parbéns!". Em contraposição, o normal é a inveja. 

Somos, no geral, uns mãos largas no que toca a distribuir inveja e ressentimentos.

Se chegou até ao fim de texto, obrigado!

29 de abril de 2022

O caminho da infância perdida



Era uma vez um caminho como muitos outros, sinuoso e largo quanto baste para nele transitar o carro-de-bois, essa importante máquina de simbiose de homem e animal, que ajudou a mover montanhas, a arrotear e a lavrar campos, a transportar milho, uvas, pasto, lenha, madeira, pedra e tudo o mais que importasse à sobrevivência de quem labutava no dia a dia no campo e na floresta.

Vieram outros tempos, outras capacidades, e o difícil tornou-se fácil, o longínquo chegou-se ao perto, o estreito alargou-se e assim esse velho caminho também foi ampliado nas suas costuras e de um carro-de-bois à justinha, poderiam agora passar grandes tractores e maiores camiões.

Mas, ironia, esse alargar, vestido de uma semântica chamada progresso, afinal não serviria de nada porque os campos há muito abandonados e ocupados por uma fila de enormes lipares de betão, os pinhais e matos desprezados e entregues aos incêndios e a urbanização dos sítios estrangulada pela burocracia dos PDMs definidos nos gabinetes. 

Desse ímpeto inicial, parecia que a coisa era para ser pavimentada e assim o povo de Cimo de Vila pouparia 2 minutos caso quisesse ir ver a bola ao Reguengo. Pela poupança e comodidade, valia o esforço e o investimento. Mas até a bola deixou de rolar e o velho caminho, agora dito novo, continuou ali inoperacional na sua largura, sem pavimento cinzento que o aplainasse, sem trânsito, sem gente de Cimo de Vila para ir à bola.

Depois, numa magestosa manhã de Primavera vieram os construtores da auto-estrada que haveria de mutilar a amazônia cá do sítio e ali ao pé do campo da bola, vazio e deserto, montaram um estaleiro. Alguém ganhou com isso. Então essa gente de capacete nas cabeças, começou, por conveniência, a usar esse velho novo caminho e para nele transitarem dezenas de camiões e máquinaria pesada, aplainaram-no e parecia um tapete de barro e saibro. 

Foi assim durante  largos meses. Na altura falava-se que como compensação, essa gente das obras iria no final dos trabalhos pavimentar o dito cujo caminho novo. O tanas! Foi usado e abusado e ao contrário de uma mulher da má vida, a quem no final se paga pelo uso, o velho caminho, fodido a valer, nada recebeu em troca para além do abandono. Em pouco tempo voltaria a ser um caminho erodido pelas águas, um depósito de lixo, onde oficinas de carros, jardineiros e empresas de construção ali cagavam à tripa farra os seus dejectos. Tudo boa gente.




Pois bem, por estes dias voltei por ali a passar e no mesmo sítio onde há bem pouco existia uma pilha de pneus e lixos de uma qualquer oficina automóvel, encontrei ali mais uma descarga de lixo, essencialmente roupas e calçado de criança, mas também brinquedos.

Para quem vê estas coisas sem poética, era apenas um monte de lixo ali deixado cobardemente por alguém a coberto do lusco-fusco ou mesmo da noite, num caminho por onde ninguém passa a não ser raposas e texugos. Mas aquele lixo era mais do que isso, era nitidamente a memória de uma qualquer infância ali despejada, sem qualquer pejo ou constrangimento. Porventura cada um daqueles brinquedos tinha uma história a contar porque usado por uma ou mais crianças. Aqueles pequenos sapatos devem ter servido aos primeiros passos e passeios pela casa ou jardim. 

Tudo ali naquela anarquia disruptiva, num universo distópico. Com um pouco de atenção por ali ainda se ouviriam os primeiros passos, titubeantes, os choros, os risos, as algazarras infantis.


Poderiam ainda ser resgatados naquele inferno alguns brinquedos, em que alguns bonecos descompostos e desarticulados pareciam gritar a pedir que os salvassem. Às suas feridas, de nada lhes valeria aquela bisnaga de Betadine. 

Não os pude salvar, mas sempre lá resgatei um pequeno elefante cinzento, de tromba esticada como se o seu pedido de socorro soasse como uma trombeta nos últimos dias do Apocalipse. Está agora em casa, depois de um banho de álcool. Está mais sorridente e os seus dentes mais brilhantes e os olhos mais luminosos.

Chama-se Agrelas, lembrando o sítio onde esteve às portas do desprezo de uma infãncia da qual fez parte. A vida como ela é.

Entretanto, convinha que alguém que representa a nossa incapacidade colectiva mandasse limpar aquele montão de infância destroçada. Em nome do ambiente e da decência. Mas será sempre um caso perdido porque a seguir virá mais do mesmo, porventura lixo com outras histórias a contar.

6 de abril de 2022

Pormenores


Apressados, em correria, a olhar para o relógio, para o telemóvel, para as médias e ritmos, tantas vezes passamos ao lado de alguns pormenores, mesmo que com uma lanterna na testa. 

Já nem falo das pessoas com quem nos cruzamos, às quais,  mutuamente, já não cumprimentamos, nem com palavras ou gestos ou olhares. Apenas uma indiferença maquinal.

Deste modo, como o da foto, na maior parte das vezes nem reparamos nos pormenores que nos surgem, como esta pedra na borda do caminho, envolvida por "aleluias". 

Uma pedra escavacada mas que nos diz muito. Foram umas alminhas, certamente, a que por motivos que se desconhecem ou puro vandalismo, retiraram os elementos interiores e porta. Há quantos anos, feita e colocada por quem?

Seja como for, este elemento na borda de uma das ruas na nossa freguesia está ali, para muitos apenas uma simples pedra, para outros, certamente menos, a merecer um olhar atento.  Quem sabe quantas histórias podem estar ali?

Mas queremos saber delas? No geral não! É passar e andar!

13 de março de 2022

A cabidela e o destino


Entre muitas outras definições, a enciclopédia livre, conhecida como a Wikipédia, diz-nos que " O destino é geralmente concebido como uma sucessão inevitável de acontecimentos relacionada a uma possível ordem cósmica. Portanto, segundo essa concepção, o destino conduz a vida de acordo com uma ordem natural, segundo a qual nada do que existe pode escapar".

Assim, sem grandes empirismos, o destino é o desfecho das coisas e das pessoas. Por mais voltas que demos à nossa vida, todo o desfecho dela é um destino. Em resumo, o destino é uma fatalidade, uma inevitabilidade. Como um buraco negro na astronomia, não há como fugir a ele, nem que luz fôssemos, porque a sua condicionalidade é impossível.

Em todo o caso, a forma como vemos ou interpretamos o destino e as coisas que para ele concorrem, é no fundo um mistério insondável, mesmo que o seu desfecho ocorra por decisões próprias, nossas, individuais.

Assim, sendo certo certo que todos os nossos actos, concorrem necessariamente para o nosso destino, também é verdade que por vezes, porventura muitas, também decidimos o destino dos outros.

Vejamos um caso tão paradigmático quanto real: A D. Brilhantina (e já é abusar do destino dar a uma filha tal nome) decidiu prendar os filhos, noras e genros, com um fausto arroz de cabidela e vai daí, agarrou pelo pescoço do galo maior da capoeira, daqueles com espigões nas patas maiores que navalhas, e num ápice e sem qualquer estremecimento, sangrou-o para a tijela imaculada como numa oferenda bíblica. Mas, coisas do destino, a Brilhantina foi pouco brilhante de tanta rudeza no apertar do gaulês que este estremeceu como se ainda a anunciar a derradeira aurora, e nesse esbracejar alado lá se foi para o caneco, em cacos, o pequeno alguidar e com ele a vitalidade líquida ali sangrada.

Mas, o destino tem destas coisas e o que não tem remédio, remediado está, e o segundo galo na hierarquia da capoeira, que já se preparava para usufruir dos prazeres de tão vasto harém, viu-se logo destronado, agarrado pela manápula dura da Brilhantina e pouco depois o seu sangue já estava reservado para a cabidela. 

Há destinos assim, que se escrevem num instante, como num fogacho de palha seca, que tudo transforma e que não permitiu que o reinado de um galo durasse mais que um golpe de faca afiada. 

5 de março de 2022

Descrença


...E quando damos por ela, os canalhas da guerra usam sempre a violência da invasão como finalidade. Com Hitler, a nazificação, com Putin, a "desnazificação", ou o que isso queira dizer. Por pura semântica ou mero eufemismo, a guerra é assim um pau-para-toda a colher, porque quando há maldade, pura ou disfarçada, as palavras e o seu valor não têm nenhuma significância e mais do que elas, as palavras, as pessoas, as mulheres, idosos e crianças.

Neste contexto, os valores de humanidade e os direitos nacional ou internacional valem absolutamente nada. Uma ONU anacrónica  vale zero porque apenas uma nação se sobrepõe às demais. É urgente a sua refundação. O poder da loucura dos mandantes associado ao das armas, o juntar da vontade à capacidade, valerão sempre mais e impor-se-ão. 

Foi sempre assim ao longo da História e não estou a ver como possa ser diferente. Houve essa réstia de esperança e crença fundada sobre o sangue e destroços das guerras mundiais, mas reerguidas as cidades e esquecidas as vítimas, as lições são ignoradas e tudo volta à estaca zero. No fundo, a vontade de um homem sobrepõe-se à da humanidade porque milhões sempre obedecerão a um.

18 de fevereiro de 2022

Ousadia de ser

Pessoas como eu, que gostam de criticar e chamar à atenção do que acham que é incorrecto e está mal, levam-nos a ter mais inimigos do que amigos.

(..)

O problema para quem escreve, opina, intervém publicamente, tem que ver entre uma linha de se incomodar e uma linha de não se incomodar, não ligar, ser manso, dócil e tudo aceitar. A tentação de nada fazer, por vezes, é mais forte e cómoda do que actuar e intervir.

(...)

Seria mais cómodo, nada fazer e dizer, mas ser "livre" é uma opção política e de vida. Se falamos caímos no ridículo e julgam-nos por segundas intenções. Se nos calamos e nada fazemos , portámo-nos como cobardes e mansos à espera de algo.

(...)

Devemos e temos que ter a ousadia e a determinação de incomodar, chamando à atenção, fazer pensar quem nos lê, escuta e vê, ter uma visão diferente do poder instalado. É importante assinalar os abusos, imbecilidades, cinismo, desfaçatez, as suas razões grotescas, por fim, exigir que nos prestem contas e que expliquem as suas decisões.


Joaquim Jorge

Biólogo, fundador do Clube dos Pensadores

[fonte e artigo completo: Diário de Notícias]

20 de dezembro de 2021

Estás um homem!


Ah, e coisa e tal, estás um homem! Lindo! Que mulheraça! Bonita!|

Quantas vezes, sobretudo nestes vazadouros sociais, não lemos ou assistimos a estas considerações sobre alguém, só porque deitou corpo e está com boa estampa? 

Pode ser uma observação simpática, pois claro que sim, mas tantas vezes superficial como um placebo que nada acrescenta mas que ilude, como se o que define um homem ou uma mulher, seja apenas o físico, o corpo, a estampa, o bom aspecto. 

Ui! Muito mais do que isso! E tanto e na justa medida que andamos uma vida a compor essa definição, como que a braços com um edifício inacabado por mais pedras que lhe acrescentemos.

Mas pronto! Por ora, e sobretudo por aqui, contentámo-nos com uma apreciação simplista de que "Estás um homem! Estás uma mulher!".

Coitado daquele rapazito que algures no espaço e no tempo, com apenas seis anitos já marchava à frente de um rebanho ou, rapazote como o Manuel Jeirinhas de lições passadas, guiando pela soga uma parelha de bois, fossem mansos ou teimosos. 

Não deitou corpo, porque a míngua das coisas boas e saudáveis o amarfanharam no desenvolvimento e o furtaram à infãncia, mas cedo feito um homem que ajudava na casa, os pais e os ainda mais pequenos. Esses e essas sim! Verdadeiros homens e mulheres e que, afinal de conta, são hoje o sedimento na nossa socidade. Mas a erosão é uma inevitabilidade e já anda a fazer das suas. 

Equanto houver humanidade, haverá sempre homens e mulheres, é certo, mas importa que cresçam não só em corpo, mas na verdadeira substância de seres pensantes, humanos, preenchidos plenamente, sem espaços ocos, vazios, ou mesmo, se quisermos, cheios de nada. 

8 de novembro de 2020

Portas fechadas

 

Das restrições anunciadas há pouco pelo chefe do Governo, António Costa, com limitações de circulação e recolher obrigatório nos próximos dias e próximos dois fins-de-semana, para além dos aspectos que se esperam como positivos no controlo da pandemia, não há como ignorar que foi também um "decretar oficial" de falência de milhares de empresas, sobretudo do sector da restauração e estabelecimentos similares. Costa reconheceu que as medidas são duras para o sector, mas não percebi que tivesse anunciado apoios concretos ao mesmo. 

Assim, de uma cajadada, aniquila de vez um sector que já vinha a registar enormes quebras e prejuízos. Poderiam ser tomadas excepções intermédias e com janelas de horários compatíveis, por exemplo,  entre as 18:00 e as 22:30 horas, mesmo que restringidas a um raio de circulação, mas não. Foi mesmo a "matar". Assim, sendo, engrossa-se a lista de falências e insolvências, o desemprego e a miséria.

Espera-se que pelo lado do controlo da propagação da pandemia os resultados sejam manifestamente positivos no final desse período, caso contrário poderemos começar a assistir ao que um pouco por todo o lado na Europa, e não só, se começa a perceber, com manifestações contra a dureza de algumas medidas e restrições às liberdades e garantias sem aparentes resultados porque contra uma realidade que porventura terá que percorrer o seu curso de forma inevitável mesmo que com todas as consequências inerentes. Pode parecer que sim, mas lutar contra a natureza é ainda uma luta impossível e inglória.

Mas oxalá que todas estas percepções não sejam mais que dúvidas e pessimismos e que entretanto tudo volte à normalidade, mesmo que aparente.


[foto: UrbanRider-DeviantArt]

1 de novembro de 2020

Serenidade

Se nos barram a entrada, se nos mutilam a liberdade de expressar os nossos sentimentos e memória por tantos próximos que partiram, que fique pelo menos a serenidade de um olhar, porque ainda não houve tempo para nos cegarem.

25 de setembro de 2020

Quem anda à chuva...

Segundo a imprensa de hoje, o "pirata", um "anjinho", foi um dos criminosos soltos há meses no âmbito de combate à Covid-19, com o beneplácito do Governo, autoridades judiciais e do presidente da República.

Aproveitou bem a liberdade e num destes dias voltou ao que melhor sabia fazer, ao crime, arrastando consigo a namorada que na sequência de um assalto em S. João da Madeira, foi inadvertidamente baleada pela polícia em auto-defesa quando esta foi alvo de uma tentativa de atropelamento que podia ser mortal. O bandido bem que fez por isso.

Gravemente ferida, foi depois abandonada à porta do hospital daquela cidade, despejada, por quem viu e testemunhou, a pontapé pelo bandido que arrancou covardemente para parte incerta deixando a companheira entregue a si própria e à sua sorte, que, infelizmente, foi nenhuma.

Morreu, uma jovem, em grande parte pelas consequências da vida que levava e das opções de seguir alguém nada recomendável. Sem outros juízos de valor, certo é que não há como não dizê-lo, molhou-se fatalmente porque andava à chuva.

Espera-se agora que os maus da fita não venham a ser os polícias, como é tão na moda. Por cá a norma é abusar e desrespeitar a polícia e esta nem sempre exerce a autoridade porque se sente desprotegida. 

Uma cota de responsabilidade da morte desta pessoa, pertence, obviamente, a quem soltou de ânimo leve alguma desta gente cujo único papel na sociedade é atentar contra os bens e vidas dos demais.

10 de agosto de 2020

Mortes anunciadas

O JN online dá-nos hoje a notícia da morte de um motociclista em Vila Verde, depois de um choque com uma carrinha.

Infelizmente, estas notícias de acidentes fatais de motociclistas ou motards, são mais que recorrentes e em muito contribuem para os números de mortes nas nossas estradas.

Todavia, não generalizando nas causas, muitas vezes estes acidentes parecem tão óbvios e mesmo pré-anunciados, porque quem anda na estrada, vê a forma de conduzir de muitos motards, sempre a acelerar, a furar por entre o trânsito, sempre no desrespeito pelas mais elementares regras de trânsito e segurança, colocando-se eles em permanente risco mas, pior do que isso, aos outros, tantas vezes quem vai a conduzir com segurança e respeito. As linhas contínuas, limites de velocidade e sinais de proibição de ultrapassagem são apenas para os outros. Para agravar, muitos dos motards não gostam de circular sozinhos e andam quase sempre aos grupos e se numa ultrapassagem perigosa vai um, então lá vão os demais de seguida. Neste aspecto são solidários e partilham as asneiras.

Ainda há dias, numa das minhas voltas de bicicleta, corri sério risco pois praticamente fui empurrado para a berma porque um grupo de uma dúzia de motas desceu a estrada com curvas e contra-curvas como se apenas eles ali circulassem. Chamar-lhes "cabrões" e outros "mimos" verbais de pouco valeu porque obviamente não me ouviram nem se incomodaram quando me viram a resvalar e a tombar para a berma. Estes são apenas alguns dos muitos maus exemplos e asneiradas das grossas a que já assisti e que me puseram a mim e a outros em perigo, e que, a quem anda na estrada, quase todos já assistimos.

Como se disse, contudo, não se pretende generalizar e concerteza que há motociclistas ou motards conscientes e que fazem uma condução segura e responsável. Mas pelo que se vai vendo, e quem já não viu, parecem ser aves raras.

Importaria, pois, mão pesada para estes recorrentes abusos e acima de tudo uma maior consciencialização e educação cívica e rodoviária de modo a que estas notícias de acidentes envolvendo motas e seus condutores fossem fortuitas e ocasionais.

26 de julho de 2020

Varredura


A propósito de uma denúncia com fotografia (acima) que o Sr. presidente da Câmara de Santa Maria da Feira , Dr. Emídio Sousa, deixou na sua página do Facebook, entristecendo-se pelo abate de árvores "a varrer" num terreno marginal ao rio Uíma e junto ao trajecto da extensão do passadiço que irá ligar Lobão a Caldas de S. Jorge,  numa primeira vista, e desconhecendo as causas por parte do proprietário, de facto é de se lamentar.

Em todo o caso, convém lembrar que uma grande parte dos terrenos envolventes ao Uíma, nomeadamente em toda a zona conhecida por ribeiras, e de resto em todas as zonas de vale de qualquer rio ou ribeira, num passado não muito distante, os terrenos eram isso mesmo, ribeiras, campos de cultivo, com poucas árvores, eventualmente na bordadura dos ditos campos e na margem do rio, para sustentar videiras. Imaginemos que agora o proprietário pretende voltar ao cultivo. Pode não ser o caso, mas coloca-se a questão. Também me parece que alguma diversidade de ocupação (agrícola e florestal) ao longo do passadiço pode ser positiva.

Também não sei se foi feito e se o terreno em questão abrange o novo passadiço, mas se sim, nos protocolos de cedência ou venda das parcelas, deveria ser acautelada a preservação das árvores e manta vegetal, não só na galeria do rio como até determinado afastamento. Mas, como referi, não conheço esta situação em concreto, suas causas e motivações, pelo que é apenas uma reflexão com algumas questões.

Mas sim, numa primeira impressão, afigura-se como injustificável esta varredura, sem qualquer sensibilidade ambiental.

22 de julho de 2020

Matilhas e manadas


Confesso que não conheço a realidade concreta do canil DZG de Canedo, que dizem ilegal e edificado numa zona de Reserva Ecológica, onde supostamente (salvo uma auto-estrada) não se pode construir um galinheiro). Ouço dizer que não tem condições, que não tem as ideais mas as possíveis, que não é tão feio e mau como o pintam, que seria possível fazer melhor com mais ajudas, etc. Certo é que há muita desconfiança e muitos dizem que a coisa da Berta deveria estar fechada.

Em todo o caso, para além do problema da incapacidade de recolher e tratar condignamente os animais, que é geral, e que de facto começa a ser um problema grave, porque se percebe que os animais, no caso cães e gatos, merecem ser tratados com respeito e dignidade e não como uma coisa qualquer numa qualquer China, e por outro lado não são criadas por parte do Governo condições para o seu controlo e apoios concretos às adopções responsáveis. 

Como exemplo, o Silva até tem condições e gostava de adoptar dois ou três cães, mas do último que teve, coitado, o Ticas, porque latia, como qualquer cão, o vizinho tanto reclamou que a coisa parou em Tribunal e este deu razão ao vizinho do Silva e o Ticas lá teve que ir à vida. Por isso, o Silva, por causa do animal do vizinho, lá teve que se contentar em ter como companheiro doméstico um periquito, se bem que em vez de o ouvir cantar, o Silva preferia que cagasse na cabeça do vizinho.

Mas, realmente onde queria chegar, para além de tudo, esta agora mediatizada questão a envolver o canil de Canedo, a reboque do trágico e lamentável incidente num canil ilegal em Santo Tirso, que escusado será pormenorizar porque tem sido notícia constante dos alertas CM, demonstra em muito que uma grande parte da nossa sociedade está longe de agir por causas concretas a partir de atitudes com pés e cabeça e em que cada um pense por si. O que está na moda é o efeito "maria vai com as outras", ou efeito manada, seja para partir montras, provocar distúrbios, derrubar estátuas ou dar uma coça em alguém que não consiga dar frango estufado aos cães nem os acomode num hotel canino. 

Esta gente, ditos activistas, age por impulso e desde que seja para fazer crescer uma multidão para aparecer nas notícias, estão lá, na manada, a vociferar impropérios e a espetar o dedo nos narizes dos polícias ou guardas da GNR. Tão pior que dar maus tratos a animais é tratar mal as pessoas e não me parece que seja dar uma tareia a alguém que a coisa se resolva. Infelizmente o mau trato concreto a pessoas e à falta de condições de muita gente, não geram estas manifestações gregárias e enfurecidas. Os animais merecem todo o respeito e tratamento com dignidade e estima mas quando estes passam a ser tratados como pessoas e as pessoas como animais, algo vai mal, Não porque os primeiros não devam ser bem tratados, obviamente, mas porque alguns valores começam a ser subvertidos.

Mas voltando à mediatização do assunto do canil de Canedo, do que vi na TV, parece que apesar da ilegalidade da coisa, a mesma ía sendo tolerada, mas frente aos microfones e câmaras, parece que muita gente foi enfiando o rabinho no meio das pernas. Afinal ninguém quer assumir responsabilidades. A culpa, coitados, será dos cães e gatos por existirem.

Vida de cão.

29 de junho de 2020

Os extremismos gostam de caviar

Se depender do meu voto, André Ventura e o seu Chega não terão qualquer relevância política neste nosso Portugal. 
Apesar disso, parece-me que pela negativa lhe tem sido dado demasiado protagonismo e mesmo a forma como alguns opinion makers e sectores da nossa política e alguma da imprensa adocicada pelos apoios estatais o têm considerado ou desconsiderado, com posições reveladores de um forte extremismo e mesmo laivos de muita intolerância e discriminação, nomeadamente por parte de uma certa esquerda caviar que se considera a detentora da ortodoxia ideológica. 

Esta certa esquerda tem sido ela própria extremista e preconceituosa e paradoxalmente tem sido o suprimento de gás que vai enchendo o balão do populismo do Chega. O Ventura pode ter os tiques de muita coisa negativa e condenável, mas também partilha os defeitos e demagogia comuns à  nossa classe política, da esquerda à direita, mas pelo menos, parece-me, não se tem esquivado numa farsa do politicamente correcto, com que muitos pretendem moldar a nossa sociedade, com os seus julgamentos facciosos da História, verdadeiros mestres no toque de Midas, fazendo de merda ouro, mostrando-se alérgica no que toca a chamar os bois pelos nomes. 

Ora quem tem ajudado o Ventura e o seu Chega a ganhar algum arrasto,  pelo menos para já nas sondagens, é precisamente quem está farto desta gosma política de gente muito moralista quanto aos valores dos direitos, liberdades e garantias, mas com uma tendência do caralho para esquecer as obrigações, as responsabilidades, a lei, a ordem e a disciplina, ignorando que aqueles valores só têm sentido se acompanhados por estes. Quem come a carne também tem que provar os ossos. Quem quer respeito tem que respeitar. Quem quer direitos não pode fugir aos deveres. Quem quer liberdade não pode relevar a disciplina e dispensar a ordem. Afinal quem tem medo destes equilíbrios?

Assim, em resumo e como aviso à navegação, continuem com essa abordagem extremista, com as vossas piadolas ofensivas, vão para manifs e antifs extremifs derrubar estátuas e partir montras que os Venturas e os Chegas agradecem. Depois chamem-lhes nomes feios, que ele gosta.

22 de junho de 2020

Antes do Centro Escolar, quando a escola era o centro

Hoje pergunto se não há escolas porque não há crianças, ou se não há crianças porque não há escolas, ou porque não há uma coisa nem outra porque queremos um futuro baseado num presente que cada vez mais desrespeita o passado?
 
É claro que há escolas, super-escolas, concêntricas, sem dúvida, com mais condições, mais confortáveis, com mais de tudo e porventura com mais de nada.

Pobre país, que até rasgou o mapa com auto-estradas, de norte a sul, de poente a nascente, mas pouco ou nada fez para impedir a desertificação do interior, ajudando à eutanásia das nossas aldeias. Na maior parte delas restam poucos, os "entas", porque com raízes profundas presas ao granito ou ao xisto, mas crianças, nem vê-las ou se sim,  raridades. 

Estamos definitivamente em extinção e não é só demográfica.  É mais do que isso. Muito mais. É também de valores e da desvalorização do conceito de família e comunidade. Até a porcaria da reforma administrativa veio dar um golpe nessa coisa de identidade comunitária e orgulho de pertença às raízes. Até isso!

As velhinhas escolas primárias, como a da imagem, algures numa das nossas aldeias, são agora monumentos  ao vazio. Mas nesta puta de dicotomia do copo poder ser visto meio cheio ou meio vazio, há sempre quem ache que o que importa é que tenha alguma coisa para beber. 
É isso! Habituámo-nos a meias doses, a meios copos meio cheios ou meio vazios, e talvez por isso andemos sempre insaciados! A plenitude é apenas filosofia! 

11 de junho de 2020

Foge, Mário!


A propósito da saída do Governo de Mário Centeno, ministro das Finanças, o primeiro-ministro António Costa contextualizou para justificar o abandono  que "...a vida é feita de ciclos e que por isso compreendia e respeitava a decisão do seu ministro".
Não deixa de ser verdade o que disse António Costa, mas esqueceu-se que na política e sobretudo num Governo, os ciclos são determinados por legislaturas e por compromissos assumidos para com o país e os eleitores. Ora definir o términus de um ciclo quando ainda não está decorrido um ano sobre a tomada de posse do actual executivo, convenhamos que assim os ciclos são quando cada um quiser e o compromisso é uma mera balela, sobretudo quanto não há motivos fortes e pessoais que o justifiquem bem como aparentemente também não de incompatibilidades políticas e de confiança até porque a saída foi anunciada com beijinhos e abraços entre Centeno e Costa.

Mas adiante. Certo é que este desfecho estava já anunciado pelas entrelinhas e sobretudo depois do disse-que-não disse sobre a injecção de milhões no Novo Banco.
Confesso que não tenho grande opinião técnica sobre o ministro em saída. Foi mais um.

Do apelidado "Ronaldo das Finanças", a percepção que eu, e muitos entendidos, têm de Mário Centeno, é que foi sobretudo o "ministro das cativações" e daí não surpreende que se vanglorie pelo tal excedente orçamental histórico. De resto falar num excedente orçamental soa a ridículo quando sabemos o valor da dívida pública. É como estarmos a fazer contas a poupanças ignorando a quem devemos. Mas, ok, linguagem técnica.

Neste contexto de cativações, em que vários sectores do Estado sofreram fortes impactos, como o SNS - Serviço Nacional de Saúde, faz-me lembrar uma história que por cá se conta sobre um certo rapazola, já reformado, que terá muitas economias, não porque tenha tido grandes empregos nem seja reformado da função pública ou de antigas edps, cps e telecoms, mas porque, simplesmente, fazia uma vida de forreta e de pendura. Dizem, até, que ainda terá guardada a nota de 500 escudos que terá recebido de prenda da comunhão solene. Ora este Centeno, de algum modo, mostrou ter estes dotes da poupança, no que é positivo, pois claro, poupar é preciso, mas não de uma forma quase obsessiva, retendo e cativando em quase todos os ministérios, inviabilizando e adiando obras e investimentos. 

Trazendo a coisa para o nosso contexto, é quase seguro dizer-se que o facto de o nosso Centro Social de S. Mamede de Guisande ainda não estar a funcionar plenamente devido à tal falta do acordo de cooperação com a Segurança Social resulta disso mesmo, de adiamento de anteriores decisões tomadas porque sem a disponibilidade de verbas, tudo porque o abaixamento do défice tornou-se uma obsessão para lá mesmo do tal limite dos 3%.

A meu ver, Mário Centeno sai precisamente num momento e num contexto em que o Governo e o país mais precisariam. É pena e de algum modo uma desilusão. Mas há quem prefira abandonar o barco  enquanto está calminho, antes da tempestade chegar ao cais.

Foge, Mário!

10 de junho de 2020

Interrogatório


Marcelo Rebelo de Sousa, no discurso deste Dia de Portugal e de Camões, fez sobretudo perguntas. Mas às suas perguntas não pode esperar unanimismos nas respostas, mesmo dando de barato que a nossa sociedade parece que começa a embrutecer nos cânones do politicamente correcto e a estreitar o caminho para quem pense diferente. Não tarda a democracia a ser ela mesmo uma ditadura a definir os parâmetros politicamente correctos, legislando sobre os bons, os maus e os vilões, como numa clássica cowboyada.

A determinada altura do discurso interrogatório do nosso presidente, diz que "...Portugal não pode fingir que não existiu e existe pandemia, como não pode fingir que não existiu e existe brutal crise económica e financeira. E este 10 de Junho de 2020 é o exacto momento para acordarmos todo para essa realidade”.

É verdade que não podemos fingir mas isso em grande parte é o que todos temos estado a fazer desde o início da coisa. Fingimos que estávamos preparados, fingimos que o SNS estava à altura, fingimos que o uso das máscaras era contraproducente, fingimos que todas as outras doenças, consultas, exames, cirurgias, tratamentos, eram adiáveis, fingimos que por estes dias os únicos mortos eram da pandemia, fingimos que o acréscimo médio de mortes para além dos relacionados à Covid-19 era um número sem importância porque fora do radar geral da imprensa e do escrutínio de uma comunicação social amestrada, fingimos que decretar a suspensão do país era algo imperioso, porque ou isso ou a extinção da humanidade e dos bravos lusitanos.

É verdade que a "brutal crise económica" existe mas as reais consequências ainda estão para vir, sendo que o Governo, incluindo o presidente, não podem "tirar o cavalinho da chuva", para o bem e para o mal, e fugir às suas  responsabilidade de que uma boa percentagem desta "brutal crise económica" decorre das suas medidas de determinar a suspensão do país. Não podemos atirar a pedra e esconder a mão atrás das largas costas da pandemia. Muitas decisões terão sido necessárias, claro que sim,  mas outras terão tido uma enorme dose de exagero e desproporcionalidade, incluindo o anedótico estado de emergência e a patética proibição de saída dos concelhos, sobretudo na forma e nos critérios.

A pandemia é uma realidade, séria, que pode arrastar qualquer um de nós, sobretudo os mais idosos e vulneráveis, que não pode merecer desvalorização, mas exige simultaneamente  medidas equilibradas e proporcionais e não como uma rede de arrasto onde vai peixe graúdo e miúdo. 

Neste 10 de Junho,  no geral Marcelo foi igual a ele próprio, com um discurso redondo, moldado para agradar a gregos,  troianos, fenícios e cartagineses. Não duvido que também tenha agradado à maioria dos portugueses  mesmo que porventura tenham sido poucos a dar-se ao trabalho do o ouvir em directo, porque começa a ser mais do mesmo.