" Eu e a minha aldeia de Guisande: Reflexões" "" Eu e a minha aldeia de Guisande
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08/04/2026

Já não se leva água aos nossos moinhos

 


Ontem foi o Dia Nacional dos Moinhos. Por cá, pelo que se vai publicando, ficamos todos com a impressão que só há moinhos nas bordas do Uíma. Isto resulta de uma realidade de que só conhecemos o que nos dão a conhecer. Também porque o nosso poder central (concelhio) é isso mesmo, central, e para além da visão do seu umbigo nada mais há nem mexe.

Guisande, mesmo que terra minguada em léguas, tem a sua boa dose de moinhos. É certo que já não funcionais porque o desinteresse por estas coisas é estrutural e cultural, alguns em ruínas e outros já desaparecidos ou apenas com os alicerces. Os mais novos, não os conhecem nem conhecerão. Uma auto-estrada não deixa de se fazer ou não se desvia por causa de dois ou três moinhos e como tal esses foram-se à vida com a A32. Foi o progresso que trouxe à nossa aldeia que, como parasita, só leva e nada deixa. Deixou um rasto de destruição ambiental e paisagística. Sem qualquer esmorecimento de quem nos competia defender ou minimizar os prejuízos.

Mesmo assim, há condições para que pelo menos uns três possam ser restaurados, mas, para sermos realistas, milagres fez Jesus e foi morto por isso.

Posto isto, resta-nos (aos mais velhos) as memórias dos nossos moinhos, algumas fotografias e a certeza de que para lá do Uíma não há ribeiras nem moinhos. Isto é, o resto é paisagem.

Mesmo assim, fica a evocação de um dia que nos passa esquecido. Já não levamos a água aos nossos moinhos.


07/04/2026

O que é que se pode dizer?


Quando somos notícia pelos piores motivos. Ainda há dias falava-se aqui da estranha frequência de incêndios ali naquela zona. 

Pessoalmente, mesmo sem saber quem é em concreto, se um dos nossos, fico triste, mas pergunto qual o papel das autoridades quando se diz que, afinal, já havia antecedentes.  Muitos dos incêndios neste nosso Portugal têm origem em incendiários recorrentes, gente à solta ou sem tratamento. Quando assim é....

06/04/2026

Cada um que responda


A Páscoa, na boa e secular tradição cristã, é, sem dúvida, a mais importante das celebrações e aquela que deve corresponder a uma alegria não material, mas espiritual, por todo o seu significado e simbolismo. Por conseguinte, são naturais e compreensíveis todas as manifestações desse júbilo, nas mais diferentes formas. Nos tempos actuais, muito marcados e até dependentes das redes sociais, é igualmente natural que muitas pessoas partilhem momentos pessoais, em família e em comunidade, ligados a essa alegria.

São assim frequentes e recorrentes as partilhas que vão desde felicitações de uma boa e feliz Páscoa até às iguarias colocadas nas mesas: o assado de cabrito ou de vitela, o pão-de-ló, os doces e bolos, etc., etc. Tudo coisas boas, bonitas e saborosas, que de facto comprovam o sentido de alegria que ainda se associa à Páscoa, à ressurreição de Jesus. 

Apesar disso, sem moralismos, até porque, talvez, já algo ultrapassado face às tendências e modos de vivência actuais, pergunto-me se, em cada 100 pessoas que partilham a Páscoa nesses moldes, cinco delas participaram em alguma cerimónia religiosa durante a Quaresma, se percorreram esse caminho de introspecção e preparação espiritual, se na Semana Santa participaram em alguma das celebrações - na Quinta-Feira Santa, na Sexta-Feira Santa, no Sábado de Aleluia - ou se apenas, ou nem sequer, na missa do próprio dia de Páscoa?

Cada um e cada uma responderá por si, mas, pelo que se vai vendo e constatando, nomeadamente na nossa comunidade, parece-me que, no geral, a forma como vivemos a Páscoa e tudo o que a antecede, se tornou muitas vezes um mero formalismo, uma tradição sobretudo material. Coisas de igreja e de padres, de orações e contemplações mais profundas, dispensam-se. O assado, esse sim, é tradição, antiga, da casa e da familia! Esse é que conta!

Pessoalmente, não concebo celebrar a Páscoa, a ressurreição do Senhor, sem a vivência desses momentos fundamentais da nossa espiritualidade, até para a sacralizar. Contudo, muitos há que, não ligando patavina a essa dimensão, seguem a vida como se nada fosse, dormindo descansados com isso. Entre uma celebração religiosa e um jogo de futebol ou um qualquer evento, social ou desportivo, a escolha é fácil, demasiado fácil. 

Em resumo, em tudo, nestas questões, cada um falará por si e, de um modo ou de outro, encontrará uma justificação pessoal para a sua fé, ou para a sua “fezada” e a encontrar a habitual justificação de que não é por isso que são melhores ou piores dos que fazem por participar nas cerimónias religiosas alusivas (e com certeza que não). Mas, numa reflexão mais profunda, parece-me que andamos, de facto, muito afastados do essencial e vivemos estas realidades com a mesma profundidade com que festejamos um Carnaval ou um jogo de futebol. Não há como não dizê-lo. Isto é bom? É mau? Indiferente? Cada um que responda por si.

Continuação de um feliz e santo tempo pascal!

13/03/2026

Os sonhos, alegres ou medonhos


Já muito foi escrito e estudado sobre os sonhos e o sonhar. Filósofos, psicólogos e cientistas dedicaram anos e vidas a tentar compreender esse território misterioso que se abre todas as noites quando fechamos os olhos. Ainda assim, os sonhos continuam a escapar a explicações completas, como se fossem uma linguagem íntima da mente que apenas sentimos, mas raramente dominamos.

Os sonhos têm uma capacidade extraordinária: permitem-nos viajar ao passado. De repente, voltamos à infância, à juventude, a lugares que já não existem, reencontramos pessoas que desapareceram da nossa vida e revivemos emoções que julgávamos esquecidas. O tempo, nos sonhos, deixa de obedecer às regras do relógio. Tudo pode acontecer outra vez.

Mas os sonhos não são apenas memórias. Neles somos muitas vezes aquilo que nunca conseguimos ser na realidade. Sentimos emoções, alegrias, medos, dores e prazeres, tantas vezes reflectindo o nosso estado real. Tornamo-nos heróis improváveis, mágicos capazes de transformar o mundo com um gesto, ou pessoas que dominam talentos que nunca aprendemos. Nadamos não sabendo nadar, voamos mesmo que uma impossibilidade, enfrentamos perigos, resolvemos problemas impossíveis. A mente cria cenários onde as limitações desaparecem e a imaginação governa. 

No entanto, essa liberdade fundamenta-se na realidade presente. Os sonhos usam aquilo que somos. Utilizam os nossos sentimentos mais profundos, as nossas inseguranças, as fraquezas que escondemos e até os vícios ou pequenas obsessões que carregamos. Como um espelho imperfeito, eles reorganizam tudo isso em histórias estranhas, por vezes desconfortáveis, mas sempre reveladoras.

Também é nos sonhos que a vida emocional se expande sem regras sociais. Podemos namorar, apaixonar-nos ou amar alguém, mesmo quando na vida real já temos um compromisso, casados, com filhos ou netos. Não se trata de traição, mas de uma liberdade simbólica da mente, onde desejos, curiosidades e afectos se misturam sem julgamento.

E, no entanto, por mais livres que pareçam, os sonhos nunca conseguem fugir completamente à realidade. Podem distorcê-la, exagerá-la ou reinventá-la, mas a sua matéria é sempre feita daquilo que vivemos, sentimos e tememos. No fundo, os sonhos são apenas outra forma de a realidade falar connosco, porventura mais silenciosa, mais estranha, mas profundamente humana.

Os nossos sonhos são alegres ou medonhos. Mas são sempre aquilo que somos, mesmo o que não fomos ou o que aspiramos a ser.

09/03/2026

Vergonha

De si, a viver entre o Minho e o Algarve, ninguém espera que ao acordar, ou mesmo pelo dia adiante, se aflija com a situação da Pátria, pois são as voltas da vida quem estabelece prioridades. Uma vista de olhos ao jornal ou as notícias na televisão podem, um instante, picar-lhe a curiosidade ou arreliá-lo, mas logo depois o trabalho, a família, pesos e obrigações de toda a ordem se encarregam de envolvê-lo num manto que pouco tempo, e ainda menos apetite, lhe deixa para se preocupar  com "os interesses superiores da Nação".

Eleições também só há de longe a longe, e a vida, a verdadeira vida, não é a escolha de fantoches ou o medo do FMI, mas o preço do bacalhau, os problemas do colesterol, a hipoteca, o saldo no banco, os sapatos da Mariazinha.

O emigrante, falo por experiência, também não anda com as dores da Pátria às costas. Conseguiria até, dada a confortável distância da separação, olhar com certo desprendimento as peripécias da terra onde nasceu. Conseguiria, digo, mas não o deixam. A gente à sua volta constantemente o interroga, quer explicações, pasma-se, sem ironia, de que Portugal seja na Europa.

Perguntam-lhe, perguntam-me, como é possível os milhares de milhões que desaparecem sem rasto, a corrupção de cima abaixo, , os estádios faraónicos, o fausto dos políticos, as desigualdades de um Terceiro Mundo.

Perguntam de boa-fé e sem querer me envergonham, nos envergonham.


[J. Rentes de Carvalho]

28/02/2026

Entre o 8 e o 80, o bom senso, o equilíbrio


Entre o 8 e o 80 há, certamente, um ponto de equilíbrio. Quando essa realidade é ignorada e se opta por um dos extremos, raramente os resultados são os melhores.

Se é verdade que, em determinados contextos, o radicalismo pode ter utilidade, em regra produzem melhores efeitos as soluções equilibradas, sobretudo quando está em causa uma decisão pública e comunitária.

A limpeza ou abate da maioria das plantas que, há anos, adornam o adro da nossa igreja matriz - tanto na parte pública como na pertencente à paróquia - e que tem sido realizada nestes dias, poderá revelar algum excesso de radicalismo.

É evidente que as plantas, como quaisquer seres vivos, envelhecem, adoecem e acabam por morrer. Também é legítimo substituí-las por espécies mais adequadas, restituindo em pouco tempo o aspecto bucólico e primaveril que há décadas caracteriza a envolvente da nossa igreja. Ainda assim, parece-me que a intervenção poderia ter sido mais gradual. Em matérias que envolvem uma comunidade, decisões abruptas tendem a dividir: há quem concorde, quem discorde e quem, como eu, entenda que o bom senso e o equilíbrio favorecem não só o objectivo pretendido, mas também a conciliação de diferentes perspectivas.

Pelo que tenho ouvido, alguns compreendem a intervenção, esperando uma renovação; outros manifestam desagrado e até revolta.

Independentemente de quem tenha tomado a decisão e da legitimidade que lhe assista, creio que teria sido desejável maior ponderação e, eventualmente, a auscultação da comunidade.

Em suma, reconheço que decidir nunca é fácil e que agradar a todos é impossível. Contudo, abdicar da procura de consensos e de equilíbrio, bem como do respeito por opiniões divergentes, representa uma falha.

Da minha parte, não assumo uma posição de indignação, longe disso, mas não escondo alguma tristeza. Julgo que teria sido possível uma intervenção menos radical e faseada, talvez antecedida de algum tipo de consulta à comunidade.

Perante o que já foi feito, resta esperar que o resultado final venha a revelar-se positivo. Para já, o que se vê é um cenário de desolação. Este não é o adro que sempre conhecemos; espero que rapidamente recupere a sua identidade.

27/02/2026

Vazia sensação


Tenho para mim, em jeito de confissão e reconhecimento, que as redes sociais, e o Facebook em particular, por via do hábito, encerram o potencial de espelhar tudo o que a sociedade possui de virtuoso. Todavia, sendo elas o reflexo fiel da condição humana, constituem igualmente um palco privilegiado para o seu reverso. Subsiste, sob o jugo dos filtros e a discreta ditadura dos algoritmos, um oceano de banalidades, onde o ego e a vaidade se sobrepõem à substância. Impera e prevalece o antes parecer que ser. São, por assim dizer, vinhas de muita parra e parca uva, solo onde a vindima raramente compensa o esforço.

Seria, decerto, um exercício de rara fruição observar mentes dotadas de rasgo e saber partilharem o que de facto enriquece o espírito: o pensamento crítico, a erudição artística e a reflexão fecunda. Na escrita, nas artes e na cultura em geral, não escasseia o talento; contudo, aqueles que o detêm tendem a exilar-se destes púlpitos. Compreende-se o recato: o mesmo espaço que num instante ensaia um aplauso, logo de seguida urra a vaia e a desconsideração gratuita.

É, por conseguinte, um terreno insidioso para quem ousa a diferenciação. Percebe-se, assim, a escassez de vozes de relevo e a raridade das suas aparições. Perante o panorama vigente, o dilema do espírito culto permanece insolúvel: entre a sensação de lançar pérolas a porcos e a futilidade de atirar pedras a águas estagnadas, a escolha revela-se um exercício de amarga resignação.

Enquanto isso, resiste-se, mas numa amarga ou vazia sensação de que inutilmente. 

25/02/2026

Meu caro Portugal


Meu caro Portugal:

Dizem-me que mais uma vez está você em maus lençóis, mas essa é, creio, a opinião dos que o conhecem mal a sua História. Tanto quanto sei, e para falar apenas da experiência dos meus mais que muitos anos, você raro esteve em bons.

Recorda o que lhe aconteceu depois dos Descobrimentos? Lembra-se do Volfrâmio? Tem presente como há vinte e poucos anos se deixou ir no vigário de que para ser feliz e rico bastava fazer-se pequenino e chupar as tetas da UE? Porque os gajos eram mesmo burros e você esperto sem igual?

Que fez com os milhares de milhões que lhe deram para que crescesse e melhorasse? Descanse, não vou esfregar sal nas feridas, mas para quê esses estádios, essas inúmeras e inúteis Casas da Cultura em terra de analfabetos? Não se envergonha do quarto miserável que em sua casa é o Nordeste transmontano?

Deram-lhe fortunas para aplicar no bem comum, gastou-as você, pobre novo-rico, em relógios de ouro, Mercedes, Jaguars, e reformas milionárias, esquecendo que um terço dos seus familiares não tem dinheiro para aquecer o lar no inverno, que são sem conta os miseráveis, os desesperados, os que sofrem porque ninguém lhes acode na doença e morrem sem amparo.

Entretanto, você, meu caro Portugal, dança, esbanja dinheiro que não é seu, gasta em férias exóticas o sustento dos seus filhos. Já alguma vez lhe passou pela cabeça que o que paga pelos almoços de gourmet em restaurantes chiques é tirado da boca dos seus compatriotas?

E diga-me: que cara devo pôr quando aqui onde vivo, sabendo-me português, me apontam e se riem, me envergonham dizendo de si as verdades cruas? Já nem o comparam às repúblicas bananeiras, que essas são de longe, não pertencem à Europa, mas colocam-no numa categoria à parte, a dos trafulhas, (*) os que sabem que um dia virá em que inevitavelmente se descobre a trafulhice, o que pouco importa, porque lhes falta vergonha na cara e outros terão de pagar o desfalque.

Poupo-lhe o que me contam da sua Justiça, da suas autoridades, das camarilhas e quadrilhas que, fingindo governá-lo, lhe sugam o que tem e o que lhe emprestam.

Para mim, meu caro Portugal, e isso desde que nos conhecemos, você sempre foi uma dor. Mesmo naquele momento de euforia dos cravos não pude esquecer quem você é e como sempre se comporta. Quer acreditar que não dei vivas? Em coisa de meses já as quadrilhas e as camarilhas se deitavam ao bolo, deixando ao povo dois ossos: o da democracia e o da liberdade, ambos fraco sustento para quem tem fome.

Muitos anos passados, com um humor que escondia o pesar, sugeri que, para o salvar de si próprio, um consórcio de nações o comprasse e transformasse numa reserva. Mas nesta altura creio que ninguém o quererá, mesmo dado. Teremos de continuar a suportá-lo nós, seus maltratados e desprezados filhos, da mesma maneira que fazemos há séculos: mourejando no chão de pedras ou indo amargar em terra alheia.

J. Rentes de Carvalho

24/02/2026

Há quem vá ao "Barrigas"; Há quem vá ao "Fidalgus"

Quase todos, eu e os que gostam de, pelo menos de vez em quando, ir almoçar ou jantar a um restaurante, já passaram por isto: Por vezes, relativamente próximos, em tempo e distância, dois mundos parecem colidir: Num local, o restaurante "Barrigas do Povo": sem peneiras, sem guardanapos de pano, um bacalhau, à casa ou à "liberdade", que precisa de dois pratos para caber, um vinho da região honesto e uma conta que nos faz sair a sorrir, mesmo com entradas, saídas e o habitual "cheirinho". Ainda a pedir um saco para levar as sobras para o cão ou mesmo para uma refeição no dia seguinte.. 

Noutro sítio, o "Fidalgus", com fundo musical suave, decorações estilosas: aí, uma dose que parece uma amostra grátis, uma lasca de bacalhau solitária no meio de um grande prato, pintalgada por azeite ou molho inglês, uma qualidade que, para além do estilo, não deslumbra de todo, e no final uma conta que parece o orçamento de defesa de um pequeno país. O vinho que sabemos que na loja do Pingo Doce custa 4,00 euros, ali não se contenta a custar, compreensivelmente, 10, mas 20 euros. Se for um Giroflé ou Giroflá, coisa de autor, ui, ui!

O mistério, diga-se e em boa verdade se esclareça.  não é só gastronómico, antes sociológico. Senão, vejamos: O "Imposto de Vaidade" - Por que é que no "Fidalgus", se a comida , não sendo pior, não é seguramente melhor? Quiça com umas pétalas de rosas, umas raspas de cenoura e duas folhinhas de beldroegas? A resposta é simples: o cliente não está ali para comer. O que está na mesa é um acessório, como um relógio de marca ou uma mala que custa mais que todo o dinheiro que nela se consiga meter dentro. O preço inflaccionado não é um erro de cálculo do dono ou do empregado de mesa; é apenas um filtro social, de estatuto, de diferenciação.

Num mundo (digamos, pelo nossa zona) onde qualquer um pode comer bem por 20 €, o verdadeiro luxo, para alguns mais abonados ou com reformas de médico ou professor, é pagar 50 € por algo parecido, apenas para garantir que o vizinho da mesa do lado tem o mesmo extracto bancário (ou, pelo menos, a mesma pretensão). É o chamado consumo conspícuo: a arte de gastar dinheiro para sinalizar que se tem dinheiro. Por regra, a ementa funciona apenas como um guião teatral.

Na verdade, no "Fidalgus", a dose é, regra geral, minimalista, apelidade de "gourmet", inversamente proporcional ao ego. Quanto menos comida houver no prato, mais "sofisticado" o cliente se sente. Afinal, comer até ficar satisfeito é coisa de quem trabalha no duro, de um qualquer trolha ou pedreiro; a elite, essa prefere a "experiência" da fome, do gourmet, da "comida de autor", seja lá que caralho isso queira dizer.

O vinho: É o mesmo que custa 4 € no supermercado, mas aqui, baptizado pela iluminação ambiente e por um escanção que nos olha de cima, que saca a rolha, e cerimoniosamente dá a provar e a cheirar, passa a valer 30 ou50 €. E o cliente paga, não pelo sabor, por vezes até a saber a rolha como um qualquer Malaquias, mas pelo som da rolha a saltar num sítio onde "toda a gente" o vê, num gestual teatral, de especialista, a percebe der "terroir".

O paradoxal da realidade: O mais irónico é que muitos destes clientes nem sequer têm o estatuto que tentam comprar. São os aspiracionais. Pagam o bife duro e caro com o cartão de crédito no limite, apenas para poderem dizer, no dia seguinte, que "estiveram lá". É uma espécie de masoquismo social: sofrem no estômago para brilhar na conversa de café ou nas redes sociais. Não falta gente dessa.

Enquanto isso, por vezes em local próximo, o cliente "esperto" mas ruidoso, delicia-se com um lombo de bacalhau suculento ou com um bife à Zé de Ver. E cebolada à fartazana. E queijo com marmelada, ambos fatiados sem cerimónia ou facas da Tramontina.

Conclusão: Qual é a sua fome? No final do dia, a restauração divide-se em dois tipos de serviço: os que alimentam o corpo e os que alimentam a vaidade. Mais ou menos isso.

Se procura qualidade e quantidade, siga o cheiro da comida boa e o barulho das pessoas satisfeitas, mesmo com algumas moscas no ambiente, toalhas e guardanapos de papel. Se procura sentir-se "superior" enquanto mastiga um bife médio, prepare a carteira. O estatuto tem um preço, e normalmente, esse preço é uma má digestão e uma conta pesada. Mas nada que não se aguente. Afinal, o estatuto paga-se.

A pergunta que fica é: da próxima vez que sair para jantar, vai levar o seu paladar ou o seu currículo?

Segue-se uma tabela toda bonita que compara ambas as experiências:

Característica Restaurante "Barrigas do Povo" (20 €) Restaurante "Fidalgus" (50 €)
Foco principal O estômago (Satisfação real) O ego (Satisfação social)
Perfil do cliente O "Esperto" (Procura valor) O "Vaidoso" (Procura sinalizar)
Pós-Refeição "Comi um bacalhau incrível e barato!" "Estive ontem no "Fidalgus""
Estratégia Passa-palavra da qualidade Exclusividade e preço como filtro

23/02/2026

Tempos estranhos, estes.


O Rodrigo, um rapazinho de 9 anos, de Castelo Branco, que ajudou a salvar a sua mãe de uma situação de saúde crítica após um corajoso e esclarecido telefonema para o INEM, tem sido promovido a herói nacional. Depressa se tornou figura pública, desdobrando-se em aparições em programas de televisão e tendo até direito a assistir de perto a um jogo do Benfica, com as regalias de qualquer figura famosa: contacto com jogadores e com o treinador e exposto às câmara e aos média.

Convém dizer, desde já, que o Rodrigo teve, de facto, uma atitude de grande maturidade. A sua capacidade de reacção e de entendimento, ajudou a mãe e pode ter feito a diferença entre a vida e a morte. Ponto final.

Quanto ao resto, só surpreende que hoje em dia se dê esta extraordinária importância à maturidade de uma criança com quase uma década de vida porque, convenhamos, a norma actual é a total infantilização. Mesmo adolescentes e jovens adultos, já com formação, revelam muitas vezes uma imaturidade gritante, com atitudes e compartamentos infantilizados. Este nível de irresponsabilidade ou imaturidade, não é culpa destas gerações, mas sim dos pais e do nosso sistema e modelo de sociedade, que os têm moldado, desresponsabilizando-os, mantendo-os numa redoma durante mais de 20 anos, onde não há lugar a risco ou a pôr o pé fora da zona de controlo e de conforto. 

Noutros tempos, no meu, há que dizê-lo, uma criança de 9 anos, ou até menos, era já um "homenzinho" ou uma "mulherzinha". Tinham maturidade de adultos, com responsabilidades, canseiras e trabalhos condizentes. Mesmo que à sua medida, eram frequentes as tarefas de vulto, não só no que toca à mão-de-obra, mas no assumir de compromissos na casa e no campo.

Falando na primeira pessoa: aos 8 anos, eu e o meu irmão, de 10, tínhamos à nossa responsabilidade uma parelha de bois, enormes e cornudos. Levámo-los a pastar, sozinhos, sem a orientação de qualquer adulto. Com 11 anos, já marchava sozinho, de noite, sob chuva ou calor, por caminhos precários do Viso ao fundo das Caldas de S. Jorge para trabalhar numa fábrica. Ir e vir. Durante anos até que o que me calhava do ordenado, depois da quota à casa, desse para comprar bicicleta.

Com pouco mais de 20 anos, já seguia sozinho de comboio para Lisboa, sem ninguém mais velho para me levar ou buscar à estação. Nada de especial; era o normal para mim e para milhares de outros. Serviço militar de 2 anos, sem qualquer mesada ou ajuda paterna. E, recuando ainda mais no tempo, havia crianças que marchavam diariamente a pé para S. João da Madeira e mais além. Ir à escola, fosse longe ou perto, chovesse ou nevasse, era caminho feito a pé e sem companhia de adultos. Na sacola, apenas livros e lousa, nada de merendas e lanches.

Em resumo: os tempos são diferentes? São, com certeza. E ainda bem, no que toca às melhores condições de vida e ao respeito pelas etapas de crescimento, sem suprimir a infância e adolescência. Mas, por outro lado, a desresponsabilização atingiu níveis exagerados. Não surpreende que filhos a caminho dos 30 anos continuem totalmente dependentes dos pais que, tantas vezes, já precisariam desses parcos recursos para uma reforma sem sobressaltos.

Assim, mesmo sem querer generalizar, temos hoje "gândulos" em casa, com cama, mesa e roupa lavada, sem pressa de assumir as rédeas do próprio destino. Os passarinhos já não abandonam os ninhos. Neste contexto, mesmo rodeados de meios e tecnologias com que outras gerações nem sonharam, ficamos todos surpreendidos com estes assomos de maturidade, tratando-os como o que realmente são: raros e inesperados. Aves exôticas.

Até que caia no esquecimento, o Rodrigo continuará a ser o herói do momento, celebrado por uma maturidade que já não se supõe encontrar em crianças da sua idade, ou até no dobro da mesma. Tempos estranhos, estes.

22/02/2026

Racismo e macacada


Racismo no futebol? Não me parece. Nos casos mediáticos, creio haver uma sobrevalorização em tudo o que mexe ou parece. Desrespeito mútuo, falta de cultura, atitudes provocantes e provocatórias, isso sim. Nada justifica o racismo, genuíno ou provocatório, como nada justifica o clima persistente e recorrente de más atitudes, entre adeptos, atletas mas também entre os clubes e seus dirigentes. Os maus exemplos tendem a ser seguidos.

Para além de tudo, supostamente chamar macaco a um futebolista, seja ele branco, amarelo ou negro, para além do desrespeito ao próprio, pode ser uma ofensa aos próprios macacos. Cada macaco no seu galho, mesmo que o futebol assim não passe de uma macacada.

Macacos me mordam se não é isto!

17/02/2026

Pensamento da semana

A propósito das calamidades que varreram o país de norte a sul, com milhares de pessoas e empresas ainda em estado de choque, sem electricidade e sem água, com instalações destruídas e casas alagadas ou desmoronadas, vítimas mortais directas e indirectas, alguém sabe dizer se os eventos carnavalescos foram adiados ou cancelados, em sinal de solidariedade e pesar?

A propósito, ou não, recordo a berreira que se fez quando aqui há uns meses não se adiou uma certa festa no Pontal, enquanto algumas terras sofriam com os incêndios.

Do que consegui ver, claro que não. Apenas o de Torres Vedras foi cancelado, sendo que por dificuldades operacionais. No resto, farra e euforia. Talvez  porque, no Carnaval ninguém leva a mal. 

Pimenta no cuzinho dos outros, no nosso é refresco.

16/02/2026

Merdificação e trends

Nestes tempos em que a "merdificação" das redes sociais é ponto assente, começo a pensar nas vantagens dos poucos que, não tendo qualquer montra digital, não têm as suas vidas expostas, escarrapachadas aos olhares curiosos e escrutinadores dos demais. Assim, fora do universo familiar próximo e do círculo limitado de amigos, ninguém tem de saber em que dia fazemos anos, onde vamos passear, comer ou divertir-nos. Ninguém precisa de saber se temos cães ou gatos, qual o nosso clube ou o nosso partido e posicionamento político.

Num tempo em que a privacidade quase não existe, cultivá-la e preservá-la é um bem inestimável e já uma raridade. De facto, tendo eu próprio esta página numa rede social,  e dispenso todas as demais, por falta de tempo ou "pachorra" para instagrams, tiktoks, xis e afins, começo a medir as vantagens de estar "in" ou "out", dentro ou fora. E estando dentro, pelo menos em grupos privados e com algum controlo sobre trolls.

Na essência, enquanto ferramenta, as possibilidades das redes sociais, como o Facebook, são positivas  e até excepcionais. Não obstante, pouco ou nada é usado nesse sentido. Exceptuando poucos bons exemplos, no geral é uma quitanda de banalidades, laranjas sem sumo. É gente a alinhar em trends, marias a irem com as outras, a exibir egos redondos e vaidadezinhas;  são cães e gatos desaparecidos, a constatação óbvia de que está a chover ou a dar sol, o Manel e o Tono a destilarem ódio contra o Ventura, o Chico e o Quim contra o Montenegro, o Zeca contra o Sócrates e amigos do sistema; o Mário e o Mariano a mostrarem as entradas a matar dos jogadores do Benfica contra o Porto e vice-versa, ambos a reclamam roubos, bandalheiras, favores e desfavores da arbitragem. Enfim, um micro-cosmos fiel da sociedade.

Sem moralismos, mas numa reflexão que a todos deve importar, talvez valha a pena fazermos um esforço para usar estes espaços virtuais a favor de coisas que realmente interessem: sem alinhar em tendências infantis, sem ruído e inutilidades, com mais foco naquilo que realmente somos e temos de positivo, na arte, na cultura, no bem fazer social e comunitário, no que é natural e não artificial. 

Difícil? Concerteza que sim!

19/01/2026

Nacionalmente sem surpresas

 


Nacionamente sem surpresas esta eleição presidencial. Mesmo que um pouco, por constatar que em Guisande, André Ventura vale tanto, e em Lobão,  Louredo e Canedo, ainda mais. Mas é o que é e decidem os eleitores.

Nacionalmente, dizia, tudo dentro do previsível, mesmo a insignificância eleitoral de uma esquerda radical desfazada da realidade, que não acerta o rumo face aos desaires e hecatombes sucessivas em anteriores actos eleitorais, que mesmo falando afanosamente em nome dos trabalhadores, da classe operária, da defesa da democracia e da constituição, o mesmo povo, na hora de votar, remete-os à insignificância eleitoral e política.  Muitos dos valores que apregoam, também eu os defendo e considero. O mal, creio, estará na ortodoxia ideológica e na forma enviesada como os defendem.

Tudo expectável, pois, até mesmo na constatação de um candidato de um partido do sistema valer menos que um bobo da corte e de um candidato que teve menos votos que as as assinaturas que  o validaram como tal, numa demonstração de que, como alguém já escreveu "... a legislação que rege as candidaturas está esclerosada e não serve a democracia nem os portugueses. Uma eleição para o primeiro representante da República, único eleito por sufrágio universal, directo e presencial, não pode ser um concurso de feira para palhaços."

No resto, não acredito que a próxima eleição seja entre a esquerda e a direita. Se fosse, André Ventura já estava eleito. Mas não! Parece-me, será sobretudo entre o radicalismo e a moderação e bom senso. Quando muito, entre as alas mais à esquerda ou à direita do tradicional eleitorado da AD. 

Seja como for, com mais ou menos moralismos, decidirá, como sempre, bem ou mal, o povo. Para além disso, convenhamos, o presidente da república será sempre uma figura menor, pouco mais que um corta-fitas, agindo com mais ou menos discrição, mais  ou menos bom senso, o comum e o político. 

Não obstante, reconheço que, para muitos eleitores, mais moderados, será uma tentação em votar em André Ventura no sentido de remetê-lo a um papel secundário, que é sempre o de presidente da república, assim esvaziando, em muito, o papel do Chega no plano legislativo. Ventura  quer e almeja o poder, não a representação a que se resume o cargo do mais alto magistrado da nação.

A ver vamos o que nos reservará o dia 8 de Fevereiro.!

13/11/2025

Afinar a mira até ao momento Eureka!

É nas pequenas coisas que descobrimos as grandes, como que a partir de uma pequena chave abrirmos a porta de uma gande sala, repleta de surpresas, boas e más.

Tantas vezes, na poeira dos dias e das coisas mundanas, superficiais, procuramos significado apenas nos grandes acontecimentos, nas conquistas, sucessos e mudanças marcantes. Mas, na verdade, são os detalhes que levam às grandes descobertas, como a centelha de fogo, a faísca que despoleta a explosão.

Simulteaneamente, por detalhes, descobrimos que afinal muitas das coisas que temos como certas, fidedignas, inabaláveis, afinal não passam de embarcações de noz, que ao primeiro teste, ao primeiro sopro do vento, à exigência do primeiro teste, baloiça, vira-se e afunda-se.

É assim nas coisas do dia-a-dia, mas também com as pessoas, com as relações, em que temos de perceber pelas pequenas coisas, pelos ínfimos sinais, de que é tempo de ajustar a bússola, ajustar a mira para o que de facto interessa. Não surpreende, por isso, que cheguem ao fim tantos casamentos, seja por grandes questões ou conflitos insanáveis, mas quase sempre por coisas pequenas, por pintelhos, por grãos de areia que incomodam o andar.

Em resumo, a vida é uma constante lição onde sempre aprendemos. É como um inventor a caminho da grande descoberta, em que, por tentativa e erro, vai afinando, ajustando, deixando de lado a peça que parecia ter sentido e perfeito encaixe mas afinal desnecessária, redundante, até ao clique final, até ao momento Eureka!.

12/11/2025

Sempre a aprender

Há momentos na vida de todos nós, em que procuramos ser disponíveis, colaborativos, bondosos até, ajudando a lutar por causas e convicções. Fazemos o melhor que sabemos e podemos porque acreditamos que é assim que o mundo deverá funcionar: com empatia, com generosidade, com respeito mútuo.

Mas há dias em que essa fé, essa forma de ser e estar é abalada. Dias em que a resposta que recebemos é a indiferença ou mesmo a desconsideração. É nesses momentos que batemos de frente no muro, na dureza da realidade da vida porque o que oferecemos com sinceridade, disponibilidade e fraqueza não raras vezes é recebido com frieza ou com acções contraditórias, desajustadas, incompatíveis na dualidade do dar e receber. Não que se esperem recebimento ou recompensas, mas tão somente clareza, consideração, equidade.Tudo menos areia para os olhos e enredos descontextualizados.

É fácil, então, deixar que o desencanto se instale. Pensar que talvez devêssemos ser menos disponíveis, menos gentis, menos envolvidos. No entanto, a verdade é que a bondade e disponibilidade, mesmo quando não são reconhecidas, nunca são perdidas. Cada gesto genuíno molda o que somos — e isso valerá mais do que qualquer reconhecimento ou paga.

Ser bom num mundo que nem sempre valoriza a bondade é, hoje mais do que nunca, um desafio, um acto de coragem. É escolher, dia após dia, não deixar que a desconsideração, dureza ou incompreensão dos outros nos torne duros também. E talvez essa seja a maior recompensa de todas: permanecer inteiros, com a mesma verticalidade, até proque, por mais paradoxal que pareça, ninguém é profeta nas suas terras e qualquer reconhecimento ou agradecimento virá mais depressa de fora, de desconhecidos. 

Esta máxima do profeta irreconhecido, é envangélica e deve fazer sempre parte da nossa bagagem, porque nestas como em tantas outras coisas passamos a vida a aprender e quanto mais julgamos conhecer as pessoas, as suas atitudes, na realidade menos as conhecemos quando, de algum modo, procuramos passar para além da capa do que é visivel.

Aprender até morrer, mesmo que já sem deslumbramentos ou surpresas.

24/10/2025

O que estará a acontecer?

São, de facto, cada vez mais correntes os episódios de agressões de filhos, mesmo de crianças, aos pais, de alunos aos professores, dos bandidos às forças de segurança e autoridade. No limite, como ainda agora esta semana, a notícia chocante de um filho adolescente, com 14 anos, em Vagos, a assassinar a mãe à queima-roupa, por motivos fúteis. Paralelamente parece registar-se uma onda de suicídios de gente jovem.

O que estará a contecer? Estamos a colher os frutos do que temos vindo a semear enquanto sociedade, que, com políticas centrais erradas e permissivas, tem vindo a desleixar ou mesmo a perder valores, como a importância da família, da autoridade e da disciplina?

Algumas reflexões e possíveis causas:

- Crise de sentido e de valores

É certo! Vivemos numa época de grande incerteza — moral, social e emocional. As referências tradicionais (família, religião, comunidade, escola) perderam parte da sua autoridade e coesão. Muitos jovens crescem sem um "norte" claro, sentindo-se perdidos, sem propósito ou esperança.

- Má influência das redes sociais e da cultura digital

As redes sociais têm tido um impacto enorme na autoestima, na perceção da realidade e nas relações humanas.

Comparação constante: Os jovens comparam-se com vidas "perfeitas" e sentem-se inferiores e insatisfeitos com a vida que têm.

Desumanização: O excesso de interações virtuais ajudar a diminuir a empatia e aumentar comportamentos agressivos.

Banalização da violência e morte, nas redes sociais, na televisão, no cinema, nos jogos, etc.

Isolamento: Apesar da hiper-conectividade, há solidão e sensação de desconexão real.

- Famílias fragilizadas e ausência emocional

A família convencional está cada vez mais desestruturada. Os divórcios são coisa vulgar com todos os problemas inerentes quanto ao enquadramento dos filhos. Em muitas famílias, há pais ausentes (mesmo que fisicamente presentes); falta de diálogo e escuta; sobrecarga emocional e económica; inversão de papéis (filhos com demasiado poder, pais sem autoridade).

O amor sem limites e a ausência de estrutura podem ser tão prejudiciais quanto o autoritarismo e a falta de afecto.

- Pressão psicológica e saúde mental

A ansiedade, a depressão e outros distúrbios emocionais estão a aumentar de forma alarmante entre jovens. As causas incluem: exigência de sucesso constante (escola, aparência, popularidade); insegurança quanto ao futuro; falta de espaço para lidar com a frustração e o erro.

Muitos jovens não aprenderam a gerir emoções — e quando a dor se torna insuportável, alguns dirigem-na contra si próprios (suicídio) ou contra os outros (violência).

- Contexto social e cultural mais amplo

Vivemos num mundo marcado por desigualdade e sensação de injustiça; consumo como valor central (o ter a ser mais importante que o ser); perda da confiança nas instituições; percepção de insegurança e descrédito das entidades que a deviam controlar;  discurso público agressivo e polarizado.

Tudo isso cria um ambiente emocional tóxico, onde a empatia e o respeito pelos outros, incluindo próximos, parecem estar em falta.

- Para uma pergunta de100 milhões de euros para a resposta certa, o que se pode fazer, sabendo-se que as coisas já não se resolvem apenas no seio familiar mas com medidas de carácter geral que envolva a sociedade e o próprio Estado, no que parece ser uma impossibilidade de inversão do combóio em movimento?

02/10/2025

Somos o que somos e isso é o que importa


É sabido, a partir das próximas eleições de 12 de Outubro próximo, e passados uns dias a tomada de posse dos vencedores, a nossa freguesia, como centenas de outras que almejaram conseguir a independência face às uniões de freguesia, que duraram 12 anos, voltará a ser dona dos seus destinos, dirigida por pessoas que, nascidas ou residentes, conhecem e gostam da sua freguesia.

Os vencedores formarão a Junta e farão a gestão pelos próximos quatro anos, e procurarão dar o melhor de si. Os vencidos ficarão como oposição da Assembleia de Freguesia e, seja quem for, espera-se que de forma construtiva, de fiscalização e escrutínio, a apoiar se eficiente ou a reclamar se a gestão for danosa, inócua ou desorganizada.

Em todo o caso, importa que todos remem para o mesmo lado e que logo depois dessa etapa da transição o foco seja a freguesia e a comunidade. Divisões, lutas partidárias e até algumas guerrilhas, como no passado, com mal-dizer e difamações pelo meio, felizmente condenadas e julgadas na Justiça, já não têm lugar, porque os tempos são outros e as velhas manhas e intrigas já não funcionam, porque quem  em 2013 tinha 6 anos e andava na escola primária e na catequese, hoje são eleitores, jovens, formados e esclarecidos.

Importa ter em conta que todos somos poucos e que a freguesia, o que tem, o que é, o que representa como território e comunidade, é fruto de várias gerações de guisandenses, de figuras dedicadas, mesmo que nas suas limitações e aptidões frágeis. Tempos houve em que uma acta de reunião de Junta testemunhava o arranjo de um caminho ou lavadouro e na maior parte das vezes, porque não havia tema, o senhor presidente logo depois de abrir a reunião fechava a mesma com a batida frase "...e não havendo mais nada a tratar, o senhor presidente deu por encerrada a sessão".

Mais à frente, as contas faziam-se à mão, com prova dos nove, num qualquer papel de mercearia e os ofícios a pedir dinheiro à Câmara, sem vergonha dos erros de ortografia, escreviam-se com pena de tinta e papel mata-borrão a chupar os excessos, que dinheiro faltava mas tinta sobrava. 

Hoje em dia, na era da informática, da digitalização, ferramentas online, armazenamento na núvem, correio elctrónico, redes sociais, wathsapp, video-conferência, inteligência artificial, etc, as exigências são outras e as de uma qualquer Junta já não se compadecem apenas com as limitações da velhinha e sabida quarta classe ou com iliteracia informática, financeira ou de outra natureza. Quaisquer que sejam aqueles que venham a servir os nossos órgãos de poder local, convém que estejam capacitados para estas modernices, para estas novas exigências porque é com essa música que agora se dançará.

Em resumo, somos nós próprios e as nossas circunstâncias. Somos aquilo que somos, e temos que trabalhar e valorizar o que somos e temos e potenciar com determinação e mesmo inovação o que poderemos ter e ser. Se não, pagaremos todos pelo que adiante não formos capazes de ser e de aspirar a ter. O momento, porque num novo ciclo, é de exigência e responsabilidade. Sejamos capazes, todos, de fazer as escolhas que mais importam. As contas, com ou sem prova dos nove, serão feitas daqui a quatro anos. 

Que seja um período de retoma, não só da independência enquanto território e comunidade, mas sobretudo de valorização e também de união, já não de freguesias mas dos guisandenses.

22/09/2025

Sondagem / Inquérito às eleições autárquicas em Guisande - 2025 - Segunda análise

Depois  de uma primeira análise aos resultados, então com base em 36 participações, fazemos aqui uma segunda análise, já com base em meia centena de participações e respectivas respostas às questões da nossa sondagem /inquérito sobre alguns aspectos que em teoria podem influenciar ou com importância para a escolha eleitoral para a a Assembleia de Freguesia de Guisande no próximo dia 12 de Outubro: Assim

Perfil do Eleitorado (50 participantes anónimos)

Comportamento Eleitoral:

66% respondem que votam independentemente do partido, priorizando a capacidade dos candidatos sobre a filiação partidária

90% valorizam mais a personalidade e competência dos candidatos do que o partido que representam

92% têm intenção de votar, demonstrando elevado interesse cívico

Critérios de escolha dos candidatos

Factores mais valorizados:

Envolvimento cívico local (74% considera decisivo) - o fator mais importante

Experiência autárquica prévia (54% considera decisiva)

Juventude (70% prefere candidatos mais jovens quando a idade importa)

Factores menos valorizados:

Formação académica/profissional (70% considera não decisiva)

Área profissional específica (76% considera irrelevante)

Idade em geral (76% não a considera fator importante)

Prioridades para a freguesia

Obras necessárias:

Arruamentos (44%) - prioridade clara

Igreja matriz (20%)

Sede da Junta (14%)

Acções Esperadas:

Proximidade e envolvimento (40%)

Obras e melhoramentos (38%)

Inovação e capacidade de realização (50% na questão 12)

Avaliação política actual

Gestão da União de Freguesias em 12 anos:

56% avalia como "mau" o trabalho da União de Freguesias

42% considera "razoável"

Apenas 2% considera "bom" - clara insatisfação

Empenho dos habituais partidos:

60% considera que as estruturas partidárias locais do PSD e PS não demonstram interesse pelas freguesias fora do contexto das eleições

Escolhas dos candidatos dos partidos PSD e PS:

Pelo PSD considera-se que Johnny Almeida foi uma boa escolha mas muito equilibrado com a opinião que havia melhor opção.

Já pelo PS, destaca-se a opinião de que havia uma melhor opção a Celestino Sacramento. Mesmo a resposta de que foi uma boa escolha, perde para resposta de que não havia uma melhor opção.

Divisão sobre as escolhas dos cabeças-de-lista em ambos os partidos

Expectativas futuras

Confiança:

62% confia na capacidade dos dois principais candidatos (Johnny Almeida e Celestino Sacramento)

74% acredita que a freguesia ficará unida após as eleições

Conclusões principais:

Eleitorado pragmático que privilegia competência sobre o partidarismo

Forte descontentamento com a gestão anterior no contexto da Uniáo de Freguesias

Prioridade nas infra-estruturas (arruamentos) e proximidade aos cidadãos

Envolvimento cívico local será o critério mais importante na escolha

Optimismo moderado quanto ao futuro, independentemente do vencedor

Elevada participação eleitoral esperada (92%)

Conclusão geral:

O inquérito revela um eleitorado informado e exigente, que valoriza mais a ligação local e a capacidade de realização do que critérios tradicionais como partido ou formação académica.

Para quem ainda não participou pode continuar a votar, aqui ou no link abaixo:


https://tools2web.live/sond_aut_25/

15/09/2025

Recomendações do Dr. Claude

O Claude, um serviço de IA - Inteligência Artificial, disse ao Aparício, rapaz com mais ou menos a minha idade e mais ou menos o meu peso, que para essa relação de motor, digamos assim, pode continuar a correr com ritmos entre o 5:30/6.00 minutos/km, e por vezes mesmo na ordem dos 5 minutos/km, em planos, mas que já são valores que exigem boa capacidade cardiorespiratória e boa base de treino. 

Não obstante, o Claude alerta o Aparício para os problemas de impacto nas articulações, bem como para o risco cardiovascular, sobretudo se houver situações de hipetensão, diabetes e ou problemas cardíacos, que, felizmente o Aparício diz não ter. Eu também, até ver, também não.

Também alerta o Dr. Calude que, no geral e para essa relação de idade/peso, ritmos com 10 Km abaixo de uma hora exigem mais do coração mesmo que saudável.

Em resumo, para além das recomendações que poderiam ser de qualquer médico a cobrar 50 ou 100 euros por consulta, não é difícil admitir que o Dr. Claude tem razão.

De resto, o problema nestas coisas, não disse o Claude mas presumo eu, e falo em modo abstracto e para todos, é acharmos, eu, o Aparício e muita malta, que independentemente da idade e peso, somos todos campeões, como se atletas profissionais, com vinte e poucos anos, com 65 ou 70 kg de peso, boas capacidades físicas e treinos xpto. E no geral não somos. Fui, sim, na tropa, há 40 anos, em que pesava 70 kg e fazia 10 km com ritmos na ordem dos 3 minutos e picos. Em qualquer idade, mas sobretudo acima dos 50 ou 60, somos apenas uns coxos iguais a milhões de outros coxos. Mas com o impacto da moda das corridas e sua exposição mediática, desde logo nas redes sociais, tendemos a exagerar no tempo e distância, tantas vezes em níveis desconfortáveis e mesmo perigosos. Mas queremos dar ares de campeões, de supermans, e no final dos treinos ou das provas, glorificar o esforço e o sofrimento como troféus. Pura idiotice! O cemitério está cheio de campeões. O sensato, o correcto, o aconselhável, quer seja pelo Claude, quer seja por um especialista, é perceber os sinais do corpo, ter noção da idade e do peso, deixar o relógio em casa, cagar nas médias e correr ou caminhar de forma confortável, misturando corrida com caminhada e mesmo pausas se necessário, e em percursos com características adequadas e não andar por aí a fazer de cabras montesas a trepar freitas e caramulos.

Em resumo, assim como quem faz tatuagens e coloca piercings e outros artefactos no corpo, mesmo nos mais recônditos buracos, cada um pode fazer o que quiser, mas caldos de galinha e bom senso nunca fizeram mal a ninguém.

Com  igual idade e peso do Aparício, consigo correr 20 km? Sim, até já corri mais. Mas é recomendado? Não! Seguramente nem metade disso, antes. 4, 5 ou 6, por exagero, mas mesmo que 10,  sempre de forma confortável. Porventura, até de maneira mais saudável, apenas caminhadas entre os 40 e 60 minutos.

Posto isto, o Aparíco faça como quiser, mas por mim, tendencialmente, vou abandonar a corrida, ficando-me pelos trilhos semanais e caminhadas e retomar mais a bicicleta, porque pemite-me uma melhor gestão do esforço e, verdade se diga, a descer é a descer e todos os santos ajudam.

O resto, como diz alguém que gosta de poesia, que se foda!