A atitude aconselhável, seria encolher os ombros, olhar de lado, indiferente, passar adiante, dizer, sorridente, que é assim mesmo, que as coisas levam o seu tempo, que todos estão a fazer os possíveis, que há papéis, despachos, reuniões, competências, pareceres e outras coisas do género. Mas, lá está: ou já nasci com este feitio ou será da idade, mas custa-me ver dinheiro transformado em coisas que apesar de bonitas e com ares de necessárias, na realidade ficam sem a utilização esperada, paradas no tempo.
Na nossa terra há um Centro Cívico que já tem mais de uma década. Aproveitou-se a saudosa velha escola primária do Viso, então abandonada na sequência de perda de população e de uma centralidade que procurava optimizar recursos mas a a contribuir para a desertificação, deu-se-lhe nova vida, fez-se obra, falou-se dela.
Por lá já entraram políticos a prometer apoios e melhores dias. E, no entanto, continua à espera de uma coisa tão simples como cumprir a função para que foi sonhada e concretizada, a de funcionar como um centro de dia para os mais velhos da aldeia.
A obra está feita. As paredes não precisam de mais discursos e de tanta espera já pedem nova pintura. As salas não precisam de novas fitas para cortar. O que falta é a aprovação da Segurança Social e dela da decisão do poder político, que ora à esquerda, ora à direita, vai navegando ao sabor da corrente, como que a advinhar naufrágio. Sócrates esbanjou, Passos Coelho estancou, Centeno cativou e quem veio depois achou por bem não mexer até porque nestas coisas as pessoas de uma pequena freguesia são diferentes das de uma grande. Como diria Jorge Jesus, têm diferentes estatutos. Somos, em boa verdade, por mais areia que nos atirem para os olhos, um concelho a diferentes velocidades. O peso eleitoral é um prato da balença. Para onde mais pende, mais atenção dispensa.
O presidente da Direcção, apesar de esforçado, diligente e mesmo insistente, vai ouvindo desculpas, promessas, desmarcações e adiamentos. Faz o telefone tocar do outro lado mas, sabendo ao que vem, já nem atendem. Comentarão, até, o “é o chato do costume”.
Entretanto, os anos passam. Os mais velhos morrem e os novos envelhecem. Tem funcionado como Centro Cívico, a entreter pouco mais que meia-dúzia a jogar à sueca, às copas ou à bisca, a colher eventos dos grupos e comissões de festas, umas formações disto e daquilo, e pouco mais. A Junta de Freguesia há-de mudar para lá, provisoriamente, mas no essencial o problema manter-se-á.
Mesmo que numa justificada e positiva ocupação, a verdade é que enquanto não for Centro de Dia, devidamente apoiado pelo poder central, que assegure o mínimo de sustentabilidade financeira, o seu modo de funcionamento não passa de um triste remedeio, sem recursos para pagar a quem receba, anime e tome conta da casa a dias e horas certas.
Mesmo com o apoio do IEFP, quem vem não quer ficar e não raras vezes nem chega a aquecer o lugar e as recusas são mais que muitas. O trabalho nunca faltou mas há desempregados neste país. Um paradoxo. Há muito que se normalizou este modo de vida, o estar desempregado e quem o pretender denunciar cai-lhes em cima o Carmo e a Trindade.
Mais abaixo, em Casaldaça, temos o rinque polidesportivo. Quase duzentos mil euros de investimento investidos na sua requalificação. É uma soma que não passa despercebida, sobretudo numa terra quase sempre esquecida pelo poder municipal.
Ficou bonito, certamente. Mesmo que com os balneários em mau estado, por fora ficou novo, renovado, digno de fotografia e de notícia. Só falta uma coisa: Gente.
Avança o tempo para quase dois anos sobre as obras, mas o rinque teima em estar deserto. Uma actividade aqui, outra ali, uma ou outra vez ao ano, um pai com o filho a chutar a bola contra as paredes e pouco mais. Não conseguiu ainda chamar os miúdos, prender os jovens, juntar os menos jovens.
Não houve grupo ou associação a chamar a si a sua gestão e dinamização. Não se tornou lugar de encontro, de movimento, de convívio. É um equipamento desportivo sem desporto, um investimento sem utilização, uma praça cheia de ninguém.
E é aqui neste dois exemplos, e haverá mais, onde ressalta o paradoxo.
Não se trata de dizer que não se deve investir. Deve-se. Guisande precisa. Ainda tem ruas sem redes de água e saneamento e pavimentos dignos de cabras montesas. Nem será de lamentar que se recuperem edifícios ou equipamentos. Muito pelo contrário. A igreja matriz precisa, está com ares de decadência. A sede da Junta, também.
O que causa algum desconforto é esta facilidade com que confundimos investimento com resultado.
Faz-se a obra, anuncia-se o valor, inauguram-se as instalações, registam-se umas fotografias, distribuem-se umas palavras sobre o futuro. E depois?
Depois, se ninguém usar, se ninguém frequentar, se os velhos continuarem sem centro de dia e os novos sem actividades, parece que já não é problema de quem investiu.
Talvez não seja.
Uma obra pública não termina quando se corta a fita. Talvez comece aí a parte mais difícil: fazer com que sirva as pessoas. Ajudar e incentivar que as possa envolver.
Porque umas paredes novas não animam uma aldeia. Um rinque vazio não aproxima os jovens. Um centro cívico fechado à função que se pretendia não envelhece menos os velhos.
E há investimentos que, vistos de longe, parecem grandes feitos. Quando nos aproximamos, percebemos que são apenas coisas feitas.
Entre fazer uma obra e dar-lhe vida vai uma distância que não se mede em euros.
Mede-se em pessoas. Mas o poder político raramente percebe isso. É mais fácil colocar algum dinheiro no chapéu do pobre do que ajudá-lo no essencial. É mais fácil metê-los num autocarro e levá-los, por tuta e meia, a comer, a beber e a dançar numa quinta como se isso fosse desenvolvimento.
E fico-me por aqui, não aconteça que me chamem velho do Restelo. Bem que desejava ter razões para o optimismo, no tempo, na capacidade das pessoas que nos vão governando, na determinação dos nossos mais novos, mas o que vou vendo, ainda que com uns arremedos de esperança, não deixa que me anime.
Podemos esperar que as coisas se invertam, mas não será com mais uma dúzia de habitações e mais alguns moradores que as coisas mudarão. O mal já vem de trás por políticas erradas, centrais e locais. Nunca tivemos tantos meios e recursos e, paradoxalmente, nunca tivemos tanto desligamento da comunidade.
A Festa do Viso terminou há mais de 2 meses e ainda não foram divulgadas as contas nem há notícia de nova equipa. Um mau sinal, mas não surpreendente. As coisas não estão para melhorar. Nunca tivemos tantos jovens formados e licenciados mas com menos interessem e dedicação às causas comuns da nossa comunidade, seus legados e tradições.
Oxalá que esteja enganado! Oxalá!


