" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

27/07/2026

Crónicas do Viegas - Por causa de um 7


O Viegas já teve empregos de toda a espécie. Há alguns anos que trabalha na Agência EXCELCIA. Nem ele sabe explicar muito bem o que aquilo é, mas, quando lhe insistem, responde que se trata de uma prestadora de serviços nas áreas da solicitadoria, contabilidade e afins, onde tanto se trata de assuntos muito finos como de outros bem mais manhosos.

Tanto trata da escritura de compra e venda de um prédio, de um automóvel ou de uma carroça, como trata de licenciar um galinheiro na Câmara, renovar uma carta de condução ou redigir uma intimidação, com ares de parecer jurídico, ao vizinho cujo cão ladra demais ou cujos gansos grasnam sem respeito pelo descanso alheio.

Talvez por esta versatilidade, a agência goza de boa reputação e de uma carteira de clientes tão variada que vai de patrões a empregados, de empresários a pedintes e, segundo dizem as más-línguas, até de alguns chulos do sistema, que também precisam de papeladas, requerimentos, comprovativos e certidões.

Quanto ao nome, EXCELCIA, foi uma invenção do Francisco Frazão — Doutor, como faz questão de ser tratado, apesar de o único diploma conhecido ser o nono ano tirado nas Novas Oportunidades. Na sua brilhante teoria de marketing, o nome resulta da fusão do Excel, pelas extraordinárias capacidades de cálculo e organização de dados e com a CIA, a agência de inteligência norte-americana, pela discrição com que afirma tratar os assuntos e pela alegada capacidade de investigar — ou, como ele prefere dizer, "obter informação privilegiada" — sobre a concorrência.

O Doutor Frazão gaba-se de ter "amigos" em todo o lado: Finanças, Conservatórias, Câmaras, Loja do Cidadão, Notários... Gente que lhe abre portas, acelera processos e atende telefonemas antes dos outros. Também cultiva uma criteriosa rede de restaurantes onde, entre um bacalhau e uma vitela assada, se "descomplicam" certos assuntos administrativos e se alimentam amizades muito úteis, relembradas com consoadas pela Natal e folares pela Páscoa.

O Viegas, por seu lado, é um funcionário raro. Escreve bem, argumenta melhor, domina informática, programação e praticamente todas as ferramentas de escritório. Tem ainda outras habilidades que nem o próprio patrão conhece — e talvez seja melhor assim. Por isso, apesar das frequentes discussões, o Doutor Frazão não prescinde dele.

Aliás, o Viegas já foi despedido centenas de vezes. E readmitido outras tantas... sempre antes de conseguir sair do gabinete do chefe.

Foi precisamente numa dessas habituais "lutas de galos" que aconteceu o episódio seguinte.

O Viegas estava absorvido na elaboração de uma defesa contra uma coima aplicada pela Câmara ao Zeca da Bernarda, que resolvera altear o muro confinante com o terreno do vizinho Simão. Este, mal deixou de poder observar a vizinha a apanhar banhos de sol no relvado, tratou logo de apresentar queixa. A Câmara, sempre diligente quando se trata de fiscalizar muros, galinheiros e capoeiras — embora frequentemente acometida de estranha miopia quando os requerentes são autarcas, doutores, engenheiros ou gente de respeito — enviou prontamente um fiscal que, cheio de zelo e autoridade, lavrou embargo sem pestanejar.

Nisto toca o telefone interno.

O Viegas suspirou.

— Outra vez...

Atendeu.

— Sim, doutor?

Do outro lado ouviu-se aquele tom de voz que anunciava tempestade.

— Ó Viegas, tens aqui uma argolada no requerimento que fizeste para o Dr. Saraiva!

— Uma argolada? Então o que foi?

— No número do processo! Escreveste 779/2024. Tens aí um sete a mais! O processo é o 79/2024!

— Bem... escapou-me. As teclas são sensíveis... carreguei uma vez a mais.

— Ó Viegas, sensíveis são os clitóris! Tens de ter cuidado! Isto não pode acontecer!

— Ok! Tem razão, doutor. Desculpe. Faço já outro.

— Fazes já outro? O Dr. Saraiva já assinou! Queres que eu vá incomodá-lo outra vez para lhe dizer que a EXCELCIA meteu água? Temos um prestígio a manter!

O Viegas respirou fundo.

— Então... não dá para tapar o sete com corrector líquido?

A resposta saiu imediatamente.

— Ó Viegas, foda-se! Achas que vou andar a pintar requerimentos? O Dr. Saraiva é picuinhas! Aqui trabalha-se com rigor! Profissionalismo acima de tudo!

O Viegas começou a achar que toda aquela solenidade era muita parra para pouca uva. Já sabia do que a casa gastava.

— Está bem. Então o que quer que faça? Ligo ao Dr. Saraiva e explico-lhe a situação e certamente ele compreenderá?

— Não! Nem pensar!

Fez uma pausa teatral.

— Imprime outro,  e corrigido traz-mo cá. Como sempre, tenho de ser eu a resolver estas coisas.

— Mas... como é que vai resolver?

O Doutor Frazão terá sorridocom aquele ar de quem revela um segredo de Estado.

— Sabes que nestas coisas não dou milho a pintos. Vou à mesa de luz... e copio a assinatura do Dr. Saraiva. Pronto!

E desligou.

O Viegas pousou lentamente o auscultador.

Não ficou propriamente surpreendido. Conhecia demasiado bem os talentos ocultos do patrão e as suas formas complicadas de resolver coisas fáceis.

Mesmo assim, não resistiu a pensar:

— Foda-se... corrector líquido nem pensar, porque isso atenta contra o rigor profissional... mas copiar a assinatura já faz parte do controlo de qualidade. Olha esta!

Dias depois, o Dr. Saraiva apareceu na agência e a Ana, a boazona da secretaria, entregou-lhe o requerimento já carimbado pela repartição.

Quando o velho cliente olhou para a assinatura durante alguns segundos, franziu o sobrolho e, num raro momento de boa disposição, comentou:

— Ó Frazão... o "S" da minha assinatura ficou hoje muito coninhas. Eu faço-o muito mais largo e fluido. Tremeu-lhe a mão?

O Doutor Frazão lançou um olhar fugidio ao Viegas, engoliu em seco, mas recompôs imediatamente a pose.

— Ó Sr. Doutor, olhe que não! Olhe que não! Aqui trabalha-se com rigor e profissionalismo. Além disso, sabe perfeitamente que duas assinaturas nunca saem rigorosamente iguais. Pergunte aos entendidos nessa coisa da caligrafia...

Fez uma pequena pausa, muito seguro de si.

— Isso só nas fotocópias!



[ilustração: IA]


Nossa Senhora da Saúde - Cartaz programa para 2026

 


Cartaz - Programa da edição de 2026 da popular romaria de Nossa Senhora da Saúde, nos Carvalhos - Pedroso - Vila Nova de Gaia.

Graficamente não deslumbra, mas equilibrado e de bom contraste cromático e, acima de tudo, sem a mão da IA, que agora, numa vulgarização, é pau para toda a colher, tantas vezes sem critério e originalidade. Adiante!

Gosto e valorizo o foco dado à imagem da Senhora da Saúde bem como ao destaque do nome. E numa festa de matriz religiosa deveria ser sempre assim. Quando o artista musical tem mais destaque gráfico que a santa ou santo, vamos mal. Quanto ao programa, o habitual, sem grandes nomes mas a popularidade e matriz da festa não necessita que seja mais um festival de verão. Quando a malta vai à festa apenas para ver os artistas e nem sequer entra na capela ou igreja, diz muito do valor que damos às coisas. Nesses casos, tenho sérias dúvidas que os santos gostem que usem o seu nome apenas para um festival.

Uma curiosidade: O grupo Alfa 2 já actuou em Guisande na nossa festa do Viso, em 2017. Destaque ainda para duas boas bandas de música, a de Arrifana e a Ovarense.

26/07/2026

Crónicas do Viegas - O Cagão


O Viegas é um rapaz maduro, que já não é novo nem velho, antes pelo contrário. Ainda não está na reforma nem tem pressa de envelhecer, mas, como, verdade se diga, já não falta muito, começa a ter inveja dos amigos Jorge Brandão e Alcino Ferreira que, em plenas férias, passam os dias entre passear o cão, hidroginástica, futebol a caminhar e matinés dançantes, entre outras actividades com que o município procura entreter os seniores, eufemismo para os velhotes. E são tantas que já é escusado tentar marcar com eles um jantar ou uma saída sem que isso lhes perturbe a agenda.

A propósito, ainda há dias a Silvana, que não tem papas na língua, soltou:

— Foda-se! Esta gente que já está na reforma agora não tem tempo p'ra nada, nem para limpar a casa. É piscina, é dança, é ginástica, é pintura, é isto, é aquilo, é o caralho! Arre! Não é para mim! Reforma é sem estar a fazer a ponta dum corno!

Passe o exagero e, matutando com ares de sério, a desbocada da Silvana até tem razão. Estes nossos reformados, que ainda têm força nas canetas, ninguém os apanha em casa.

Retomando o fio à meada, o Viegas tem algo de especial e, se no geral todos lhe reconhecem capacidades e inteligência, há nele coisas que só ele sabe e de que desconfia, para si próprio, serem um dom. Não um superpoder, como daquela malta dos filmes em collants, como o Super-Homem ou o Homem-Aranha, mas algo que ultrapassa o instinto, quase como uma capacidade sobrenatural: a de ver o passado e adivinhar, ou prever, o futuro.

E sabe disso desde que, na primeira classe, quando na hora do recreio viu o Soutinho abaixar as calças, pôr-se de cócoras e arriar o calhau atrás de um pinheiro. Mas de forma tão descuidada que, às tantas, sem se aperceber, o cagalhão caía meio no chão, meio nas cuecas. A professora chamou para dentro e ele, de um salto, mal teve tempo para limpar o cu e puxar as calças remendadas de quadrados.

Num instante, o Viegas adivinhou o que se ia passar. Logo que o cheirete a merda inundasse a sala, com queixas do pessoal das cadeiras do fundo, vizinhos do repetente Soutinho, a mestra soltaria a cana preta de bambu na cabeça do desgraçado malcheiroso e, num instante, alterava-lhe o ângulo das orelhas, que escorriam sangue, enquanto era posto fora da sala, com a recomendação severa de ir a casa lavar-se no tanque e mudar de roupa.

E foi exactamente assim. Dali a nada, o Soutinho, acompanhado de moscas, galgava pelo monte abaixo.

Já no fim da aula, regressava a casa o Viegas e, de novo, a sua cabeça foi inundada por uma visão do que ia acontecer no dia seguinte: a mãe do Soutinho a arrastá-lo à escola, agarrado-o pela orelha ferida, a pedir desculpa à professora e contando que, logo que ele chegou a casa fedorento e lhe contou o que se passara, metera-o dentro do tanque e lavou-o por dentro e por fora, como quem lavava tripas de porcos para fazer chouriças. E que a professora não lhas poupasse, porque ela, a mãe, já as tinha acrescentado. E que se livrasse de o pai vir a saber, porque então as contas eram a dobrar.

Pobre Soutinho. Acabrunhado no fundo da sala, já a cheirar a rosmaninho, não se livrou, contudo, da crueldade dos colegas, que doravante passaram a chamar-lhe «o cagão», enquanto reforçavam o título com os dedos a apertar o nariz. Ainda hoje, pelas costas, lembram-se entre riso: - Olha, lá vai o Cagão!

Certo é que o Soutinho, no fundo bom rapaz, fez-se homem, andou por Franças e Araganças e hoje até é o sogro do excelentíssimo senhor presidente da Junta de Vale de Azeiteiros. Ele próprio, desconhecendo a alcunha do sogro, é apelidado pelos opositores, pela sua vaidade e presunção, de «o cagão».

Vá saber-se estas coincidências da vida e das suas voltas.

Mas, retomando a coisa, foram esses os primeiros lampejos de algo sobrenatural do Viegas.

Ora, estas suas capacidades, que ainda hoje não consegue explicar a si próprio, são muito mais do que intuição, mas, para o bem e para o mal, têm marcado toda a sua vida. Destas singularidades resultam muitas das crónicas de memórias do Viegas.

Voltaremos a elas? Talvez!


[ilustração: IA]


23/07/2026

Memória selectiva

Sempre que surgem problemas com os exames nacionais, instala-se a ideia de que estamos perante uma situação sem precedentes. As redes sociais amplificam o descontentamento, a comunicação social dá destaque aos casos mais problemáticos e o debate político rapidamente transforma dificuldades reais em armas de arremesso e a oposição, como é regra, explora ao máximo essa situação, não deixando cicatrizar a ferida.

No entanto, a história recente do ensino português mostra que esta não é a primeira vez que o sistema de avaliação enfrenta uma crise séria. Mesmo que noutro contexto, todos os anos são recorrentes os probelmas com a colocação de professores e alunos sem eles.

Já poucos se recordarão, até porque nestas coisas tendemos a ser selectivos, mas em 1996, poucos meses após a tomada de posse do Governo liderado por António Guterres, com Marçal Grilo como ministro da Educação, o sistema de exames nacionais foi abalado por um episódio que ficou conhecido como o caso do roubo dos exames de Filosofia.

Os enunciados foram furtados antes da realização da prova, obrigando à sua anulação e repetição. O caso desencadeou uma investigação criminal e provocou uma enorme perturbação em todo o processo de exames.

As consequências foram significativas: dezenas de milhares de alunos afectados; cerca de seis centenas de escolas envolvidas; necessidade de reorganizar calendários; forte contestação pública; críticas à organização do Ministério da Educação.

A pressão foi de tal ordem que tiveram de ser encontradas soluções excepcionais para minimizar os prejuízos causados aos alunos, incluindo mecanismos extraordinários de compensação na avaliação. Terão sido inflaccionadas as notas para evitar milhares de notas negativas. Os exames de matemática foram uma calamidade.

É certo que, reconheça-se, os problemas de hoje são diferentes e a crise actual tem uma origem distinta. Em vez de probelmas relacionado com a segurança dos exames, os problemas decorrem sobretudo da implementação de novos procedimentos de digitalização e classificação electrónica das provas. Por sua vez, a classe corporativa dos professores, por mais que diga que não,  naturalmente que não vê com bons olhos a aplicação de um sistema que tenderá a suprimir o número de efectivos dedicados ao contexto da realização dos exames e avaliações. Como a reestruturação das entidades ligadas à Educação, aplicadas pelo ministro Fernando Alexandre, foram extintas várias e respectivos cargos e professores a elas alocados. Ora isto causa sempre reacção.

Em 1996, falhou a segurança e a organização logística dos exames mas igualmente com um forte impacto político. Actualmente, discutem-se sobretudo dificuldades tecnológicas, plataformas digitais, processos de correcção e prazos.

Em ambos os casos, porém, os principais prejudicados são os alunos, que vivem semanas de incerteza num momento decisivo do seu percurso académico.

Cada geração tende a recordar apenas os problemas do presente e a esquecer que crises semelhantes ou igualmente perturbadoras ocorreram no passado.

Em 1996 ouviram-se críticas muito semelhantes às que hoje se escutam: que o sistema tinha falhado; que existia falta de planeamento; que os alunos estavam a ser prejudicados; que era necessária uma resposta rápida do Ministério. Enfim, a mesma cantoria. Então criticavam uns e agora criticam outros, sendo que em posições opostas.

Recordar o que aconteceu há trinta anos não significa relativizar os problemas actuais nem desculpar eventuais falhas na implementação da digitalização dos exames. Significa apenas reconhecer um facto simples: o sistema educativo português já enfrentou outras crises graves e conseguiu ultrapassá-las. Fosse esse o verdadeiro problema do país, mas este é mais grave, desde logo porque com uma classe política, da esquerda à direita, que apenas age de acordo com as suas agendas, sem uma prioridade para o país.

As soluções encontradas em cada momento podem ser discutidas, algumas terão sido mais acertadas do que outras, mas a experiência demonstra que nenhuma geração ficou irremediavelmente marcada por esses episódios. Mais importante do que explorar politicamente cada falha é garantir que se aprendem as lições necessárias para que elas não se repitam. Além do mais, num tempo fortemente marcado pelas tecnologias, digitalização e Inteligência Artificial torna-se inevitável que os processos dos exames escolares sejam também actualizados e adaptados. Claro que isso gera sempre oposição e por via disso empola-se ao máximo os aspectos que ainda padeçam de ajustamentos. 

É legítimo criticar atrasos, erros ou deficiências na organização dos exames nacionais. É igualmente legítimo exigir responsabilidades. Mas também é importante preservar a memória dos factos. A história do ensino em Portugal não começou este ano. Em 1996 houve uma das maiores crises de exames de que há memória, com provas roubadas, exames anulados, centenas de escolas envolvidas e milhares de alunos afectados.

Recordá-lo não serve para desculpar o presente. Serve para colocar os acontecimentos em perspectiva e evitar a ideia, tantas vezes repetida, de que "nunca houve nada assim". A realidade mostra precisamente o contrário: houve, embora por razões diferentes. A diferença está em aprender com essas experiências para que cada nova crise seja menos grave do que a anterior. Para além de tudo, o processo de digitalização do sistema de exames e avaliações é inevitável por mais que muitos se oponham, mesmo dentro da classe.

22/07/2026

Recolha de Sangue - 18 de Julho de 2026


Como resultado da sessão de recolha de sangue no passado Sábado, 18 de Julho de 2026, que decorreu como habitualmente nas instalações do Centro Cívico, no monte do Viso, participaram 45 pessoas e delas validadas 32 colheitas.

Um agradecimento a todo os que participaram bem como aos que organizaram.

Guru Kukuh - 3