" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

26/07/2026

Crónicas do Viegas - O Cagão


O Viegas é um rapaz maduro, que já não é novo nem velho, antes pelo contrário. Ainda não está na reforma nem tem pressa de envelhecer, mas, como, verdade se diga, já não falta muito, começa a ter inveja dos amigos Jorge Brandão e Alcino Ferreira que, em plenas férias, passam os dias entre passear o cão, hidroginástica, futebol a caminhar e matinés dançantes, entre outras actividades com que o município procura entreter os seniores, eufemismo para os velhotes. E são tantas que já é escusado tentar marcar com eles um jantar ou uma saída sem que isso lhes perturbe a agenda.

A propósito, ainda há dias a Silvana, que não tem papas na língua, soltou:

— Foda-se! Esta gente que já está na reforma agora não tem tempo p'ra nada, nem para limpar a casa. É piscina, é dança, é ginástica, é pintura, é isto, é aquilo, é o caralho! Arre! Não é para mim! Reforma é sem estar a fazer a ponta dum corno!

Passe o exagero e, matutando com ares de sério, a desbocada da Silvana até tem razão. Estes nossos reformados, que ainda têm força nas canetas, ninguém os apanha em casa.

Retomando o fio à meada, o Viegas tem algo de especial e, se no geral todos lhe reconhecem capacidades e inteligência, há nele coisas que só ele sabe e de que desconfia, para si próprio, serem um dom. Não um superpoder, como daquela malta dos filmes em collants, como o Super-Homem ou o Homem-Aranha, mas algo que ultrapassa o instinto, quase como uma capacidade sobrenatural: a de ver o passado e adivinhar, ou prever, o futuro.

E sabe disso desde que, na primeira classe, quando na hora do recreio viu o Soutinho abaixar as calças, pôr-se de cócoras e arriar o calhau atrás de um pinheiro. Mas de forma tão descuidada que, às tantas, sem se aperceber, o cagalhão caía meio no chão, meio nas cuecas. A professora chamou para dentro e ele, de um salto, mal teve tempo para limpar o cu e puxar as calças remendadas de quadrados.

Num instante, o Viegas adivinhou o que se ia passar. Logo que o cheirete a merda inundasse a sala, com queixas do pessoal das cadeiras do fundo, vizinhos do repetente Soutinho, a mestra soltaria a cana preta de bambu na cabeça do desgraçado malcheiroso e, num instante, alterava-lhe o ângulo das orelhas, que escorriam sangue, enquanto era posto fora da sala, com a recomendação severa de ir a casa lavar-se no tanque e mudar de roupa.

E foi exactamente assim. Dali a nada, o Soutinho, acompanhado de moscas, galgava pelo monte abaixo.

Já no fim da aula, regressava a casa o Viegas e, de novo, a sua cabeça foi inundada por uma visão do que ia acontecer no dia seguinte: a mãe do Soutinho a arrastá-lo à escola, agarrado-o pela orelha ferida, a pedir desculpa à professora e contando que, logo que ele chegou a casa fedorento e lhe contou o que se passara, metera-o dentro do tanque e lavou-o por dentro e por fora, como quem lavava tripas de porcos para fazer chouriças. E que a professora não lhas poupasse, porque ela, a mãe, já as tinha acrescentado. E que se livrasse de o pai vir a saber, porque então as contas eram a dobrar.

Pobre Soutinho. Acabrunhado no fundo da sala, já a cheirar a rosmaninho, não se livrou, contudo, da crueldade dos colegas, que doravante passaram a chamar-lhe «o cagão», enquanto reforçavam o título com os dedos a apertar o nariz. Ainda hoje, pelas costas, lembram-se entre riso: - Olha, lá vai o Cagão!

Certo é que o Soutinho, no fundo bom rapaz, fez-se homem, andou por Franças e Araganças e hoje até é o sogro do excelentíssimo senhor presidente da Junta de Vale de Azeiteiros. Ele próprio, desconhecendo a alcunha do sogro, é apelidado pelos opositores, pela sua vaidade e presunção, de «o cagão».

Vá saber-se estas coincidências da vida e das suas voltas.

Mas, retomando a coisa, foram esses os primeiros lampejos de algo sobrenatural do Viegas.

Ora, estas suas capacidades, que ainda hoje não consegue explicar a si próprio, são muito mais do que intuição, mas, para o bem e para o mal, têm marcado toda a sua vida. Destas singularidades resultam muitas das crónicas de memórias do Viegas.

Voltaremos a elas? Talvez!


[ilustração: IA]


23/07/2026

Memória selectiva

Sempre que surgem problemas com os exames nacionais, instala-se a ideia de que estamos perante uma situação sem precedentes. As redes sociais amplificam o descontentamento, a comunicação social dá destaque aos casos mais problemáticos e o debate político rapidamente transforma dificuldades reais em armas de arremesso e a oposição, como é regra, explora ao máximo essa situação, não deixando cicatrizar a ferida.

No entanto, a história recente do ensino português mostra que esta não é a primeira vez que o sistema de avaliação enfrenta uma crise séria. Mesmo que noutro contexto, todos os anos são recorrentes os probelmas com a colocação de professores e alunos sem eles.

Já poucos se recordarão, até porque nestas coisas tendemos a ser selectivos, mas em 1996, poucos meses após a tomada de posse do Governo liderado por António Guterres, com Marçal Grilo como ministro da Educação, o sistema de exames nacionais foi abalado por um episódio que ficou conhecido como o caso do roubo dos exames de Filosofia.

Os enunciados foram furtados antes da realização da prova, obrigando à sua anulação e repetição. O caso desencadeou uma investigação criminal e provocou uma enorme perturbação em todo o processo de exames.

As consequências foram significativas: dezenas de milhares de alunos afectados; cerca de seis centenas de escolas envolvidas; necessidade de reorganizar calendários; forte contestação pública; críticas à organização do Ministério da Educação.

A pressão foi de tal ordem que tiveram de ser encontradas soluções excepcionais para minimizar os prejuízos causados aos alunos, incluindo mecanismos extraordinários de compensação na avaliação. Terão sido inflaccionadas as notas para evitar milhares de notas negativas. Os exames de matemática foram uma calamidade.

É certo que, reconheça-se, os problemas de hoje são diferentes e a crise actual tem uma origem distinta. Em vez de probelmas relacionado com a segurança dos exames, os problemas decorrem sobretudo da implementação de novos procedimentos de digitalização e classificação electrónica das provas. Por sua vez, a classe corporativa dos professores, por mais que diga que não,  naturalmente que não vê com bons olhos a aplicação de um sistema que tenderá a suprimir o número de efectivos dedicados ao contexto da realização dos exames e avaliações. Como a reestruturação das entidades ligadas à Educação, aplicadas pelo ministro Fernando Alexandre, foram extintas várias e respectivos cargos e professores a elas alocados. Ora isto causa sempre reacção.

Em 1996, falhou a segurança e a organização logística dos exames mas igualmente com um forte impacto político. Actualmente, discutem-se sobretudo dificuldades tecnológicas, plataformas digitais, processos de correcção e prazos.

Em ambos os casos, porém, os principais prejudicados são os alunos, que vivem semanas de incerteza num momento decisivo do seu percurso académico.

Cada geração tende a recordar apenas os problemas do presente e a esquecer que crises semelhantes ou igualmente perturbadoras ocorreram no passado.

Em 1996 ouviram-se críticas muito semelhantes às que hoje se escutam: que o sistema tinha falhado; que existia falta de planeamento; que os alunos estavam a ser prejudicados; que era necessária uma resposta rápida do Ministério. Enfim, a mesma cantoria. Então criticavam uns e agora criticam outros, sendo que em posições opostas.

Recordar o que aconteceu há trinta anos não significa relativizar os problemas actuais nem desculpar eventuais falhas na implementação da digitalização dos exames. Significa apenas reconhecer um facto simples: o sistema educativo português já enfrentou outras crises graves e conseguiu ultrapassá-las. Fosse esse o verdadeiro problema do país, mas este é mais grave, desde logo porque com uma classe política, da esquerda à direita, que apenas age de acordo com as suas agendas, sem uma prioridade para o país.

As soluções encontradas em cada momento podem ser discutidas, algumas terão sido mais acertadas do que outras, mas a experiência demonstra que nenhuma geração ficou irremediavelmente marcada por esses episódios. Mais importante do que explorar politicamente cada falha é garantir que se aprendem as lições necessárias para que elas não se repitam. Além do mais, num tempo fortemente marcado pelas tecnologias, digitalização e Inteligência Artificial torna-se inevitável que os processos dos exames escolares sejam também actualizados e adaptados. Claro que isso gera sempre oposição e por via disso empola-se ao máximo os aspectos que ainda padeçam de ajustamentos. 

É legítimo criticar atrasos, erros ou deficiências na organização dos exames nacionais. É igualmente legítimo exigir responsabilidades. Mas também é importante preservar a memória dos factos. A história do ensino em Portugal não começou este ano. Em 1996 houve uma das maiores crises de exames de que há memória, com provas roubadas, exames anulados, centenas de escolas envolvidas e milhares de alunos afectados.

Recordá-lo não serve para desculpar o presente. Serve para colocar os acontecimentos em perspectiva e evitar a ideia, tantas vezes repetida, de que "nunca houve nada assim". A realidade mostra precisamente o contrário: houve, embora por razões diferentes. A diferença está em aprender com essas experiências para que cada nova crise seja menos grave do que a anterior. Para além de tudo, o processo de digitalização do sistema de exames e avaliações é inevitável por mais que muitos se oponham, mesmo dentro da classe.

22/07/2026

Recolha de Sangue - 18 de Julho de 2026


Como resultado da sessão de recolha de sangue no passado Sábado, 18 de Julho de 2026, que decorreu como habitualmente nas instalações do Centro Cívico, no monte do Viso, participaram 45 pessoas e delas validadas 32 colheitas.

Um agradecimento a todo os que participaram bem como aos que organizaram.

Guru Kukuh - 3

 


20/07/2026

Guru Kukuh - 1

 


Quem não é para comer...

 


Ontem fiquei triste. Vá lá, desapontado. Não por mim, mas por aquele conjunto de festeiros que tem trabalhado de forma incansável em diversas iniciativas para angariação de receitas para a nossa festa em honra de Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António, festa de Guisande, que se realiza no Viso. 

Havia almoço disponível por 15 euros, com boas entradas, massa  à lavrador (massa à bolonhesa para menu infantil), duas bebidas, fatia de bolo, com várias opções, e café.

É certo que alguns almoços foram levados para casa, mas a participação no local ficou muito abaixo do que se esperava, pelo que a receita, presumo, não terá coberto as despesas. 

De facto é triste e desmotivador que, mesmo já a apenas a duas semanas da festa, a freguesia, a comunidade, uma vez mais não tenha correspondido num evento que se pretendia de apoio mas também de convívio à mesa. Talvez no dia da festa haja fotografias nas redes sociais a reclamar orgulhosamente frases como orgulho, tradição, fé e bairrismo, mas a avaliar pelo evento de ontem, nem uma coisa nem outra. Como diz o outro, nem para comer a malta deu sinal positivo.

Bem sei que para alguns, habituados a coisas finas na mesa aos Domingos, franziram a testa e torceram o nariz à ementa, mas quem não gosta de uma massa à lavrador, ainda por cima para uma boa causa, nunca soube o que é trabalho. 

Enfim, é o que é, e temos de respeitar porque hoje em dia anda toda a gente assoberbada com opções, mas que não ajuda nem motiva, isso não. Eu próprio não terei participado em todas, é certo, mas há algumas em que, pelo seu simbolismo e importância, seria importante que a comunidade no geral desse um bom sinal de apoio.

Apesar de tudo, a Comissão de Festas certamente levará a sua avante, até porque já na recta final e com o programa definido, e daqui a poucas semanas passará o testemunho com o sentido de orgulho e dever cumprido, mas o apoio da comunidade deveria ser mais participado e não apenas vir à festa no dia pagar a nota de vinte e beber um copo. 

Parabéns à equipa que esteve no local, dinâmica, simpática e esforçada. É gente dessa fibra que precisa a nossa maior festa, mesmo que com uma comunidade que nem sempre apoia, nem sempre participa. 

Já tivemos melhores dias! Pois já!