" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

18/09/2026

O efeito borboleta

Em todo o lado as há: boas pessoas, excelentes pais, filhos amorosos, avós ternurentos, vizinhos prestáveis. Mas, no geral, para bem de todos, convém que a proximidade e a confiança se resumam a episódicas conversas de circunstância: «Como vai? Passou bem? Saúde lá para casa! Dê cumprimentos à patroa!»

Mais do que isso, as relações nem sempre batem certo e, às tantas, sobrevivem apenas graças a uma boa dose de hipocrisia ou fingimento. 

O cada vez maior número de divórcios mostra que também nos casamentos já não há vínculo, sagrado ou civil, que resista a tanto. As promessas mútuas e juras de amor e fidelidade não passam de banalidades pró-forma e ante-câmara de uma festança à grande e à francesa, onde até os pobres e remediados parecem ricos. Mas tudo assenta no vazio, na falta comum de compromisso, na incapacidade de compreensão, aceitação e, vá lá, algum espírito de sacrifício, seja lá o que isso for.

É assim, de um modo geral, mas de forma mais vincada onde o contexto propicia e implica comunidades ou grupos, como, por exemplo, no contexto das paróquias — esses redutos muito particulares onde nem sempre a bota dos ensinamentos evangélicos bate com a perdigota das ações e dos exemplos.

Por conseguinte, são todas excelentes pessoas, no geral prestáveis e voluntariosas quando toca a rebate, mas transformam-se num verdadeiro saco de gatos assanhados numa luta de egos, temperada com invejazinhas, recados indiretos e coscuvilhices. Todos querem ser o galo do poleiro ou o manda-chuva ou, pelo menos, que para além de preces e hóstias, lhes sejam dispensadas reverências ou, mais prosaicamente, colinho e mimos.

É certo que não é por aí que vem o mal ao mundo, mas ajuda a compreender e a aceitar a teoria do efeito borboleta: o bater de asas desse delicado e inofensivo insecto num canto do mundo que pode muito bem dar corpo a uma valente ventania no outro lado.

Resulta daqui, que quando sentimos o efeito de algumas "tempestades", mesmo caseiras, não será mais que alguma inocente borboleta, algures, a bater as asinhas coloridas.

PDM - Aprovada a versão que esteve em discussão pública


Após um atraso de vários anos (desde 2019) e um período de discussão pública de 180 dias, a versão final do novo Plano Diretor Municipal (PDM) para o território de Santa Maria da Feira foi aprovada por unanimidade em reunião de Câmara realizada a 7 de setembro de 2026. A proposta será agora submetida à Assembleia Municipal, prevendo-se a sua aprovação e posterior publicação em Diário da República para, finalmente, a entrada em vigor.

Impacto e Decisões sobre a Freguesia de Guisande:

A versão submetida a discussão pública, no que respeita ao território de Guisande, revelava-se fortemente penalizadora. Registava-se uma perda notória de solo urbano em comparação com o plano de 2015 em vigor, inclusivamente em áreas servidas por arruamentos centrais. Esta situação constituía um entrave significativo ao crescimento urbano e limitava a oferta de terrenos com capacidade construtiva, prejudicando a contenção do fenómeno de despovoamento e perda de habitantes.

A versão agora aprovada — embora mantendo algumas limitações que se afiguram injustificadas — acolheu contudo uma parte substancial dos pedidos apresentados na discussão pública, mitigando assim o impacto da proposta inicial.

Da análise à tabela de ponderação das participações, conclui-se que foram identificados 20 processos respeitantes a pretensões localizadas na freguesia de Guisande.

O balanço global revela uma maioria de decisões favoráveis. Dos 20 processos registados (que perfazem 24 análises, em virtude do desdobramento de um deles):

9 foram acolhidos;

4 foram acolhidos parcialmente;

5 não foram acolhidos;

1 obteve uma decisão mista, face às seis pretensões integradas (2 acolhidas, 2 parcialmente acolhidas e 2 não acolhidas);

1 foi considerado repetido.

Análise dos Critérios e Condicionantes:

Da leitura detalhada dos processos deferidos, depreende-se que o acolhimento não dependeu exclusivamente da existência prévia de infraestruturas. Verificam-se casos em que o acolhimento ficou sujeito a programação temporal e/ou à existência de compromissos urbanísticos (tais como processos de licenciamento ou pedidos de informação prévia aprovados).

Em termos práticos, tal implica que, findo um determinado prazo (em princípio, de 6 anos), os terrenos classificados como urbanos que não sejam edificados ou dotados das respetivas infraestruturas viárias reverterão para solo rural (agrícola ou florestal, consoante o caso).

Trata-se de uma medida relevante, uma vez que incentiva os proprietários a edificar ou a alienar os seus prédios para construção, evitando a manutenção indefinida dos terrenos como mero activo patrimonial passivo, sem utilidade a curto prazo para o desenvolvimento urbano local.

Conclusões e Perspectivas:

Conclui-se, assim, que a freguesia de Guisande registou uma participação expressiva na discussão pública do PDM, tendo uma parcela significativa das pretensões sido integrada na proposta final.

A maioria das participações partiu de particulares. A Junta de Freguesia submeteu 8 pedidos, dos quais 2 foram acolhidos, 2 acolhidos parcialmente e 3 recusados. Afigura-se que uma actuação mais proactiva por parte da autarquia local poderia ter favorecido o acolhimento de outras situações elegíveis, mesmo na ausência de iniciativa individual dos respetivos proprietários até porque estes, no geral, desinformados ou sem capacidade de iniciativa.

Em todo o caso, mais do que contabilizar o número absoluto de pretensões deferidas ou indeferidas, cumpre aos interessados analisar a localização concreta dessas parcelas, a comparação entre a classificação atual e a proposta, bem como a existência de infraestruturas ou compromissos urbanísticos. Apenas essa avaliação cruzada permitirá aferir com rigor o impacto real da revisão do PDM na freguesia de Guisande.


Os elementos e documentos referentes ao processo podem ser consultados aqui.

17/09/2026

Questões do riso

O riso desbragado nunca foi especialidade do Vitorino. Por naturalidade ou para esconder os dentes e o céu da boca, ri-se, no geral, com ela fechada. Esporadicamente, lá se ri de forma mais descontrolada, nem sempre pela qualidade da anedota, da história contada ou da situação cómica vista, mas mais pelo contágio de alguém que ao lado também se ri.

Aprecia, naturalmente, uma boa anedota, o vigor de um dito perspicaz ou a habilidade refinada com que as pessoas de talento verdadeiro expõem o absurdo do quotidiano. O humor inteligente, como o inglês, agrada-lhe, a par de séries de comédia com qualidade — que, diga-se, cada vez mais escasseiam.

Mais do que alheias, certas manifestações de hilaridade provocam-lhe espanto, ficando sem conseguir entender o motivo de tais ditos ou piadas. Observar alguém a emitir urros, de boca escancarada e cabeça arremessada para trás num sobressalto quase epiléptico, é para ele uma experiência genuinamente desconfortável. Há na gargalhada desmedida uma perda de compostura que se aproxima do grotesco.

Esta aversão à gargalhada performativa é, aliás, uma das razões fundamentais que condiciona e limita a sua relação com a televisão, sobretudo com os programas de entretenimento, daqueles próprios de salas de espera e ocupação de reformados. Para o Vitorino, o ecrã transformou-se num recinto de histeria coletiva onde se ri em demasia e sem critério. A gargalhada no pequeno ecrã deixou de ser uma consequência natural do cómico para se converter num vício, numa forma artificial. Mesmo em programas e assuntos que mereceriam mais seriedade, os apresentadores e intervenientes comportam-se ao nível de criancinhas num jardim de infância.

Vão longe os tempos em que os locutores e apresentadores da nossa televisão sabiam comportar-se, ou, melhor dito, ser profissionais e conscientes da natureza de cada programa. De facto, na televisão contemporânea, a gargalhada opera como uma claque invisível e coerciva que dita ao telespectador o exacto momento em que deve achar graça, rir e aplaudir.

A gargalhada televisiva tornou-se uma obrigação contratual. Já não se procura o riso pela subtileza ou pelo enquadramento do absurdo, mas sim pela repetição mecânica de estímulos ruidosos. Perante este cenário de alegria forçada e gargalhadas estridentes, a atitude mais razoável e preventiva para o Vitorino continua a ser, invariavelmente, desligar o aparelho ou mudar de canal. Por alguns programas, já sabendo o que a casa gasta, nem perde tempo com eles, mesmo que sejam considerados de boas audiências — o que não o surpreende, pois há sempre testos à medida das panelas e chapéus ajustados a cabeças certas.

Mesmo no panorama nacional dos ditos cómicos ou humoristas (tipo Bruno Nogueira, Fernando Rocha, Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques, etc.), no geral acha que não têm piada alguma e recorrem ao desrespeito, à ofensa e ao palavrão fácil para compensar a falta de originalidade ou talento. A liberdade de expressão concede-lhes desculpa e proteção, as televisões e rádios dão-lhes palco e antena, mas, verdade se diga, quase sempre não passam de uns tristes com pretensões a fazer rir, mesmo que não falte quem se ria do mal alheio.

Nunca, como agora, faz tanto sentido para o Vitorino o velho ditado de que "quem tem muito riso tem pouco siso" ou "muito riso, pouco juízo".


[ilustração: adaptação por IA]

16/09/2026

Se o Monhé não vai à Santa Eufémia, a Santa Eufémia vem ao Monhé

 





É tradição pessoal e antiga ir à Santa Eufémia, que anualmente a 15 de Setembro se realiza na freguesia de Paraíso no município de Castelo de Paiva. Reservo, até, um dia de férias. 

Apesar de já não se abater gado no local e vendido em bifes que logo ali se cozinhavam, bem como os forasteiros já trocarem os merendeiros e farnéis pelas barracas de comes-e-bebes, preserva esta romaria ainda muitos traços do antigamente, até pelas características do local, com acessos estreitos, mas em muito já está convertida numa normal festa onde não faltam os vendedores de bujigangas,  banha da cobra, roupas e calçados contrafeitos, doçaria industrial, etc. 

Há muita gente a ir ali comer e beber, em família ou em grupos, mas deles poucos a entrarem na capela a rezar, a agradecer ou a pagar promessas ou, pelo menos, a pedir saúde, apetite e carteira para o próximo ano. A Santa Eufémia e Santa Luzia são preteridas ao Santo Bife. É o que é! É uma festa de gulas. Devoção, já bem menos.

Este ano, porém, por motivos vários mas também por algum cansaço, nem de véspera ou no dia. Fez-se uma pausa.

Apesar disso, com a mesma qualidade, bem mais em preço,  com menos pó e moscas, mais limpeza e higiene na cozinha, sem mesas inclinadas, o tradicional bife de arouquesa frito com cebolada e acompanhado de batata-frita, veio à mesa cá de casa, no dia próprio.

É certo que o local e o contexto (e talvez o pó) parece acrescentarem valor e sabor, mas na realidade, não. E quanto ao preço, estamos conversados: De um modo geral, como diz o povo, ali paga-se couro e cabelo, seja por bifes ou tripas, e não raras vezes abandona-se a barraca com a sensação ou mesmo a certeza de termos sido "roubados". Talvez seja para compensar aqueles que comem e saem sem pagar, mas isso já são outras lendas e histórias, umas verdadeiras, outras acrescentadas.

Grátis? A sério?

[recorte do Jornal de Notícias]

Vamos lá ver, dissecar, como quem desmancha um porco e tripas para um lado e fêveras para outro: Ofertas? Grátis? Mas então serão os senhores presidentes de Câmara a pagar dos seus próprios bolsos? Também os vereadores? E os funcionários que cozinham e levam as refeições à mesa não se cobram dos seus salários? Quem vende os ingredientes, azeite, cebolas, batatas, arroz, massas, carnes, peixes, etc, dispensam-se dos custos e lucros? Oferecem como se fosse um permanente Natal?

Isto é a brincar com as pessoas, com os contribuintes que na realidade pagam estas "gratuitidades", tal como entre outras "prendas", os passes nos transportes públicos e portagens nas auto-estradas. 

Numa linguagem grosseira mas tão sábia, porque da boca do povo, isto de "foder com a piça dos outros" é fácil e até dá votos.

Andamos todos a ser tomados como palpavos e a comer estes eufemismos modernos. Quando o critério deixa de ser o utilizador/pagador, na realidade pagam todos, pelo que usar o termo "grátis" ou "oferta" é tão falso como Judas. 

Certamente devemos atender a situações sociais, devidamente justificadas, mas alargar este conceito a todos, mesmo aos filhos dos senhores doutores e engenheiros, tanto a quem tem rendimentos de 10 mil ou 100 mil anuais parece de todo desproporcionado. Mas, sobretudo, não publicitem que é "grátis". Não nos façam de lorpas.

Grátis deveria ser o IMI, porque corresponde a um imposto estúpido e injusto, uma renda sobre um bem que é nosso,não do Estado ou dos municípios e sobre o qual já  se pagou IVA na construção, juros no crédito bancário, taxas e licenças na Câmara. 

Pobre país, a fazer-se rico!

15/09/2026

Os biscateiros


Há homens que chegam a uma casa como quem chega a uma obra e há homens que chegam como se a casa já lhes pertencesse. São os biscateiros das obras.

Como numa farmácia, têm um pouco de tudo: um kit de ferramentas manuais e eléctricas, uma chave inglesa, uma serra, um serrote, maços e martelos, pás e picaretas, chaves de fendas, sextavadas, de estrela e a certeza, muito mais resistente do que qualquer material de construção, de que tudo sabem fazer. Derrubam velhas paredes e levantam novas, remendam telhados, mexem em fios, desentopem canalizações, pregam tábuas onde falta madeira. Se alguma coisa fica direita, foi porque tiveram mão para aquilo; se fica torta, a culpa é sempre da casa, do tempo, do material, do fornecedor ou de quem mandou fazer.

Ainda assim, quando aparece um trabalho, transformam-se. A voz amacia, as costas dobram-se ligeiramente, surgem os sorrisos e aquela familiaridade instantânea de quem nunca viu o cliente na vida, mas já lhe chama amigo. Tudo se resolve e as sugestões parecem de gente entendida. O preço pode ajustar-se, o prazo não será problema, a dificuldade é nenhuma. “Deixe connosco.” E o homem, que há pouco parecia capaz de demolir uma parede com as próprias mãos, passa a ser a mansidão em pessoa.

O contrato, porém, tantas vezes, tem uma propriedade curiosa: fecha-se a porta e abre-se o verdadeiro negócio.

A partir daí, qualquer reparo é uma afronta de discípulo ao mestre. Uma torneira que pinga não é uma torneira que pinga; é uma acusação de quem nada percebe de vedantes. Uma parede mal rebocada transforma-se numa ofensa pessoal ou efeito da luz. Um assentamento fora de esquadria é falta de óculos. Se o dono da casa ousa perguntar por que razão a janela não fecha, recebe primeiro um olhar de desprezo e depois um vocabulário que dispensaria dicionário. A obra pode ter ficado por acabar, mas a discussão fica sempre concluída: eles têm razão. 

É uma maneira peculiar de exercer a autoridade de certos biscateiros. Porque lhes sobram os clientes, não precisam de argumentos, porque têm o número. Não precisam de competência, porque têm confiança. E, sobretudo, não admitem contraditório, porque confundem facilmente a liberdade de falar com o direito de mandar calar.

Ao fim do dia encontram-se na tasca. A roupa traz ainda o pó da obra ou os borrões da tinta, as botas deixam marcas no chão e os copos tratam de apagar o que resta da diferença entre um homem e os outros. Ali, todos são iguais — sobretudo quando nenhum admite que o outro possa ser melhor.

Entre goles e pancadas no balcão, contam-se histórias de trabalhos que ninguém conseguiria fazer tão bem, de patrões que aprenderam a respeitá-los e de ocasiões em que “puseram cada um no seu lugar”. A conversa vai subindo de tom, como sobe o vinho, até chegar à grande descoberta política da noite: o mundo mudou, os antigos mandões acabaram e agora são eles quem decide.

E dizem-no com uma satisfação quase infantil, como se a democracia tivesse sido inventada naquela mesa para lhes garantir o direito de fazer tudo como lhes apetece.

Talvez seja essa a parte mais engraçada da história. Confundem o povo com o bando, a igualdade com a impunidade e a autoridade com a capacidade de falar mais alto.

Amanhã, se aparecer outra empreitada, voltarão a sorrir.

Porque até os brutos sabem que, para conseguir trabalho, é preciso parecer civilizado durante os cinco minutos que antecedem o aperto de mão. Depois, não raras vezes, é um inferno.

Deus nos livre destes biascateiros!


[ilustração: adaptação por IA]

14/09/2026

A despedida do Pe. António Santiago


Foi ontem a sepultar o Pe. António Alves de Pinho Santiago. Aconteceu num domingo, Dia do Senhor, como bem lembrou o Bispo Auxiliar do Porto, D. Roberto Rosmaninho, que presidiu às exéquias.

A Igreja Matriz de Guisande tornou-se pequena para todos os que quiseram prestar a sua última homenagem, incluindo muitos fiéis vindos das paróquias de Palmaz e Travanca, em Oliveira de Azeméis, que o Pe. Santiago serviu e estimou ao longo de tantos anos (55 anos em Palmaz e quase 26 em Travanca).  Foi também professor de Moral e Religião na Escola Básica Bento Carqueja, em Oliveira de Azeméis.

Num bonito gesto de comunhão, o acompanhamento musical esteve a cargo do Grupo Coral de Palmaz, enquanto a interpretação do salmo foi generosamente assumida por uma coralista da nossa paróquia. A celebração contou ainda com a presença de diversos sacerdotes e diáconos, entre os quais o vigário Pe. José Carlos, o pároco de Palmaz, o nosso atual pároco, Pe. Cláudio, e o seu antecessor, Pe. António Jorge, que no meio de uma agenda apertada, não quis deixar de se associar.

É verdade que perante a morte e aos olhos de Deus somos todos iguais. Contudo, enquanto servo dedicado à Sua Igreja, o Pe. Santiago teve uma despedida à altura da dignidade da sua missão. Foi uma cerimónia profunda e envolta em afectos, onde a família próxima pôde encontrar algum conforto perante a dolorosa perda de um irmão e tio tão especial.

Embora alguns membros da nossa comunidade não tivessem estado presentes por se encontrarem numa deslocação previamente agendada, acredito que o Pe. Santiago esteve presente na oração de todos. Mas nestas coisas cada um sabe de si e Deus de todos.

Esta partida reveste-se de um sentimento de perda acrescido para Guisande. A nossa terra, que no passado foi berço de várias vocações sacerdotais, vê partir aquele que era, actualmente, o seu único sacerdote. Reflexo dos tempos actuais e da evolução da própria sociedade, as vocações consumadas têm-se tornado escassas para a vastidão da messe. Antes dele, partira o Pe. Delfim Augusto Guedes, em 1961; o Pe. José Oliveira, a 24 de fevereiro de 1986; e o Pe. Agostinho Pereira da Silva, a 8 de março de 1997. Quando voltaremos a ter a bênção de uma nova vocação? O futuro a Deus pertence.

Pessoalmente, devo confessar que nunca mantive uma proximidade profunda com o Pe. António Santiago, para além de cumprimentos cordiais e palavras de circunstância. Recordo, no entanto, com especial afecto, o momento em que acompanhei o Bispo D. Roberto e o Pe. António Jorge numa visita à sua residência, aquando da Visita Pastoral em junho de 2024. Nessa altura, apesar do seu olhar acolhedor e do seu gesto afável, a doença já limitava a sua comunicação.

Do que me recordo, os serviços litúrgicos que prestou em Guisande foram pontuais, dada a entrega dedicada às suas paróquias de adopção. No entanto, o seu amor e apego à terra natal e à casa paterna nunca esmoreceram — prova disso foi o seu desejo expresso de repousar junto dos seus pais e irmãos. Seria natural que optasse por permanecer em Palmaz, onde serviu devotamente durante mais de meio século, mas o seu coração pediu para regressar a casa, ao aconchego da sua terra.

Em certas figuras, não é indispensável uma intimidade diária para que se reconheça a sua relevância. Proveniente de uma das famílias mais estimadas da nossa comunidade e com um percurso exemplar ao serviço da Igreja, o Pe. Santiago deixa um legado que todos honramos. É, e será sempre, uma das grandes referências da nossa história local.

Partiu quando Deus assim o determinou, tendo enfrentado a doença com resignação, amparado pelo carinho dedicado da sua família, em especial da sua irmã Flora, fiel companheira de todo o seu percurso pastoral.

Que Deus o acolha na Sua luz eterna e, na Sua infinita misericórdia, contemple a humanidade do seu servo. O Pe. António Santiago permanecerá vivo na memória dos seus entes queridos e na história emotiva das comunidades de Guisande, Palmaz e Travanca, onde marcou gerações.

Que descanse em paz.