24/02/2026

Há quem vá ao "Barrigas"; Há quem vá ao "Fidalgus"


Quase todos, eu e os que gostam de, pelo menos de vez em quando, ir almoçar ou jantar a um restaurante, já passaram por isto: Por vezes, relativamente próximos, em tempo e distância, dois mundos parecem colidir: Num local, o restaurante "Barrigas do Povo": sem peneiras, sem guardanapos de pano, um bacalhau, à casa ou à "liberdade", que precisa de dois pratos para caber, um vinho da região honesto e uma conta que nos faz sair a sorrir, mesmo com entradas, saídas e o habitual "cheirinho". Ainda a pedir um saco para levar as sobras para o cão ou mesmo para uma refeição no dia seguinte.. 

Noutro sítio, o "Fidalgus", com fundo musical suave, decorações estilosas: uma dose que parece uma amostra grátis, uma lasca de bacalhau solitária no meio do prato pintalgado por azeite ou molho inglês, uma qualidade que, para além do estilo, não deslumbra, e no final uma conta que parece o orçamento de defesa de um pequeno país. O vinho que sabemos que na loja do Pingo Doce custa 4,00 euros, ali não se contenta a custar 10, mas 20 euros. Se for um Giroflé ou Giroflá, coisa de autor, ui, ui!

O mistério, diga-se e em boa verdade se esclareça.  não é só gastronómico, antes sociológico. Senão, vejamos: O "Imposto de Vaidade" - Por que é que no "Fidalgus", se a comida , não sendo pior, não é seguramente melhor? Quiça com umas pétalas de rosas, umas raspas de cenoura e duas folhinhas de beldroegas? A resposta é simples: o cliente não está ali para comer. O que está na mesa é um acessório, como um relógio de marca ou uma mala que custa mais que todo o dinheiro que nela se consiga meter dentro. O preço inflaccionado não é um erro de cálculo do dono ou do empregado de mesa; é apenas um filtro social, de estatuto, de diferenciação.

Num mundo (digamos, pelo nossa zona) onde qualquer um pode comer bem por 20 €, o verdadeiro luxo, para alguns mais abonados ou com reformas de médico ou professor, é pagar 50 € por algo parecido, apenas para garantir que o vizinho da mesa do lado tem o mesmo extracto bancário (ou, pelo menos, a mesma pretensão). É o chamado consumo conspícuo: a arte de gastar dinheiro para sinalizar que se tem dinheiro. Por regra, a ementa funciona apenas como um guião teatral.

Na verdade, no "Fidalgus", a dose é, regra geral, minimalista, apelidade de "gourmet", inversamente proporcional ao ego. Quanto menos comida houver no prato, mais "sofisticado" o cliente se sente. Afinal, comer até ficar satisfeito é coisa de quem trabalha no duro, d eum qualquer trolha ou pedreiro; a elite prefere a "experiência" da fome, do gourmet, da "comida de autor", seja lá que caralho isso queira dizer.

O vinho: É o mesmo que custa 6 € no supermercado, mas aqui, baptizado pela iluminação ambiente e por um escanção que nos olha de cima, que saca a rolha, e cerimoniosamente dá a provar e a cheirar, passa a valer 30 ou50 €. E o cliente paga, não pelo sabor, por vezes até a saber a rolha como um qualquer Malaquias, mas pelo som da rolha a saltar num sítio onde "toda a gente" o vê, num gestual teatral, de especialista, a percebe der "terroir".

O paradoxal da realidade: O mais irónico é que muitos destes clientes nem sequer têm o estatuto que tentam comprar. São os aspiracionais. Pagam o bife duro e caro com o cartão de crédito no limite, apenas para poderem dizer, no dia seguinte, que "estiveram lá". É uma espécie de masoquismo social: sofrem no estômago para brilhar na conversa de café ou nas redes sociais. Não falta gente dessa.

Enquanto isso, por vezes em local próximo, o cliente "esperto" mas ruidoso, delicia-se com um lombo de bacalhau suculento ou com um bife à Zé de Ver. E cebolada à fartazana. E queijo com marmelada, ambos fatiados sem cerimónia ou facas da Tramontina.

Conclusão: Qual é a sua fome? No final do dia, a restauração divide-se em dois tipos de serviço: os que alimentam o corpo e os que alimentam a vaidade. Mais ou menos isso.

Se procura qualidade e quantidade, siga o cheiro da comida boa e o barulho das pessoas satisfeitas, mesmo algumas moscas no ambiente. Se procura sentir-se "superior" enquanto mastiga um bife médio, prepare a carteira. O estatuto tem um preço, e normalmente, esse preço é uma má digestão e uma conta pesada. Mas nada que não se aguente. Afinal, o estatuto paga-se.

A pergunta que fica é: da próxima vez que sair para jantar, vai levar o seu paladar ou o seu currículo?

Segue-se uma tabela toda bonita que compara ambas as experiências:

Característica Restaurante "Barrigas do Povo" (20 €) Restaurante "Fidalgus" (50 €)
Foco principal O estômago (Satisfação real) O ego (Satisfação social)
Perfil do cliente O "Esperto" (Procura valor) O "Vaidoso" (Procura sinalizar)
Pós-Refeição "Comi um bacalhau incrível e barato!" "Estive ontem no "Fidalgus""
Estratégia Passa-palavra da qualidade Exclusividade e preço como filtro

[ilustração: IA]

23/02/2026

Tempos estranhos, estes.


O Rodrigo, um rapazinho de 9 anos, de Castelo Branco, que ajudou a salvar a sua mãe de uma situação de saúde crítica após um corajoso e esclarecido telefonema para o INEM, tem sido promovido a herói nacional. Depressa se tornou figura pública, desdobrando-se em aparições em programas de televisão e tendo até direito a assistir de perto a um jogo do Benfica, com as regalias de qualquer figura famosa: contacto com jogadores e com o treinador e exposto às câmara e aos média.

Convém dizer, desde já, que o Rodrigo teve, de facto, uma atitude de grande maturidade. A sua capacidade de reacção e de entendimento, ajudou a mãe e pode ter feito a diferença entre a vida e a morte. Ponto final.

Quanto ao resto, só surpreende que hoje em dia se dê esta extraordinária importância à maturidade de uma criança com quase uma década de vida porque, convenhamos, a norma actual é a total infantilização. Mesmo adolescentes e jovens adultos, já com formação, revelam muitas vezes uma imaturidade gritante, com atitudes e compartamentos infantilizados. Este nível de irresponsabilidade ou imaturidade, não é culpa destas gerações, mas sim dos pais e do nosso sistema e modelo de sociedade, que os têm moldado, desresponsabilizando-os, mantendo-os numa redoma durante mais de 20 anos, onde não há lugar a risco ou a pôr o pé fora da zona de controlo e de conforto. 

Noutros tempos, no meu, há que dizê-lo, uma criança de 9 anos, ou até menos, era já um "homenzinho" ou uma "mulherzinha". Tinham maturidade de adultos, com responsabilidades, canseiras e trabalhos condizentes. Mesmo que à sua medida, eram frequentes as tarefas de vulto, não só no que toca à mão-de-obra, mas no assumir de compromissos na casa e no campo.

Falando na primeira pessoa: aos 8 anos, eu e o meu irmão, de 10, tínhamos à nossa responsabilidade uma parelha de bois, enormes e cornudos. Levámo-los a pastar, sozinhos, sem a orientação de qualquer adulto. Com 11 anos, já marchava sozinho, de noite, sob chuva ou calor, por caminhos precários do Viso ao fundo das Caldas de S. Jorge para trabalhar numa fábrica. Ir e vir. Durante anos até que o que me calhava do ordenado, depois da quota à casa, desse para comprar bicicleta.

Com pouco mais de 20 anos, já seguia sozinho de comboio para Lisboa, sem ninguém mais velho para me levar ou buscar à estação. Nada de especial; era o normal para mim e para milhares de outros. Serviço militar de 2 anos, sem qualquer mesada ou ajuda paterna. E, recuando ainda mais no tempo, havia crianças que marchavam diariamente a pé para S. João da Madeira e mais além. Ir à escola, fosse longe ou perto, chovesse ou nevasse, era caminho feito a pé e sem companhia de adultos. Na sacola, apenas livros e lousa, nada de merendas e lanches.

Em resumo: os tempos são diferentes? São, com certeza. E ainda bem, no que toca às melhores condições de vida e ao respeito pelas etapas de crescimento, sem suprimir a infância e adolescência. Mas, por outro lado, a desresponsabilização atingiu níveis exagerados. Não surpreende que filhos a caminho dos 30 anos continuem totalmente dependentes dos pais que, tantas vezes, já precisariam desses parcos recursos para uma reforma sem sobressaltos.

Assim, mesmo sem querer generalizar, temos hoje "gândulos" em casa, com cama, mesa e roupa lavada, sem pressa de assumir as rédeas do próprio destino. Os passarinhos já não abandonam os ninhos. Neste contexto, mesmo rodeados de meios e tecnologias com que outras gerações nem sonharam, ficamos todos surpreendidos com estes assomos de maturidade, tratando-os como o que realmente são: raros e inesperados. Aves exôticas.

Até que caia no esquecimento, o Rodrigo continuará a ser o herói do momento, celebrado por uma maturidade que já não se supõe encontrar em crianças da sua idade, ou até no dobro da mesma. Tempos estranhos, estes.

22/02/2026

Racismo e macacada


Racismo no futebol? Não me parece. Nos casos mediáticos, creio haver uma sobrevalorização em tudo o que mexe ou parece. Desrespeito mútuo, falta de cultura, atitudes provocantes e provocatórias, isso sim. Nada justifica o racismo, genuíno ou provocatório, como nada justifica o clima persistente e recorrente de más atitudes, entre adeptos, atletas mas também entre os clubes e seus dirigentes. Os maus exemplos tendem a ser seguidos.

Para além de tudo, supostamente chamar macaco a um futebolista, seja ele branco, amarelo ou negro, para além do desrespeito ao próprio, pode ser uma ofensa aos próprios macacos. Cada macaco no seu galho, mesmo que o futebol assim não passe de uma macacada.

Macacos me mordam se não é isto!

18/02/2026

Quarta-Feira de Cinzas

 


Cozidus Carnavalensis

 





Ontem foi assim. Nada como nos tempos antigos, então de porcos sebados na casa, mas ainda assim com qualidade, pois que as carnes de origem caseira, salgadas e  fumadas com rigor. 

Nota de falecimento - Armandina da Conceição e Santos

 


Porque a viver fora há muitos anos, entre nós passou praticamente despercebido o falecimento de Armandina da Conceição e Santos, no passado dia 13.

Nasceu em Casaldaça, em 21 de Fevereiro de 1937, por isso com 88 anos. Vivia em Fiães. 

Era filha de José Ferreira dos Santos e Maria da Conceição Ferreira da Silva. Neta paterna de Margarida de Jesus. Neta materna de Venância Ferreira da Silva e de Maria Ferreira da Silva.

Era viúva de Joaquim Coelho de Oliveira, com quem casou em 13 de Abril de 1957.

De irmãos em Guisande, já falecidos, o António do Venâncio, a Idalina (esposa do Domingos Sá), a Diamantina (Tina da Gândara, da Casa Neves) e a Maria Isaura (do Vicente).

Foi a sepultar no dia 13, em Fiães.

Paz à sua alma! 

17/02/2026

Pensamento da semana

A propósito das calamidades que varreram o país de norte a sul, com milhares de pessoas e empresas ainda em estado de choque, sem electricidade e sem água, com instalações destruídas e casas alagadas ou desmoronadas, vítimas mortais directas e indirectas, alguém sabe dizer se os eventos carnavalescos foram adiados ou cancelados, em sinal de solidariedade e pesar?

A propósito, ou não, recordo a berreira que se fez quando aqui há uns meses não se adiou uma certa festa no Pontal, enquanto algumas terras sofriam com os incêndios.

Do que consegui ver, claro que não. Apenas o de Torres Vedras foi cancelado, sendo que por dificuldades operacionais. No resto, farra e euforia. Talvez  porque, no Carnaval ninguém leva a mal. 

Pimenta no cuzinho dos outros, no nosso é refresco.