" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

29/05/2026

A previsibilidade enfadonha

Confesso que não sou apreciador de cinema, nem mesmo de séries, mesmo que naturalmente, ao longo do tempo, já tenha assitido a muitos filmes e acompanhe, mesmo que sem fidelidade, o que vai passando na televisão. 

Mesmo assim, percebo que nas séries e filmes de ficção actual, particularmente nos géneros policial, de acção e suspense, verifica-se uma recorrência quase sistemática: o protagonista, o artista, o herói, é confrontado com os criminosos que ameaçam a sua família ou amigos próximos para o forçar a depor as armas, a render-se. Seja a esposa, a namorada, os filhos, os pais, etc. 

O que justifica a persistência desta fórmula tão previsível, como um dejá vu?

A recorrência desse cenário específico nos produtos audiovisuais de ficção,  frequentemente designado na crítica literária e cinematográfica como o tropo do "refém familiar" ou da "donzela em perigo", deve-se a um conjunto de funções narrativas e psicológicas altamente eficazes. Embora previsível, a fórmula continua a ser amplamente utilizada pela indústria por diversas razões estruturais.

Numa narrativa dramática, a tensão é directamente proporcional ao que o protagonista tem a perder. Quando o herói enfrenta o antagonista apenas pela justiça ou pelo dever profissional, a motivação é abstracta. Ao colocar a família ou amigos próximos em risco iminente, o conflito torna-se estrictamente pessoal, elevando a fasquia emocional ao nível máximo percetível pelo espetador.

A maioria dos espectadores pode não se identificar com a rotina de um agente policial ou de um agente secreto, mas compreende universalmente o instinto de protecção em relação aos entes queridos. Este mecanismo gera uma identificação imediata, fazendo com que a audiência partilhe da angústia e da vulnerabilidade da personagem principal. Este recurso força o protagonista a um impasse ético e lógico.

A perda de controlo: O herói, habitualmente caracterizado pela autossuficiência e pelo domínio da situação, vê-se privado do seu poder de acção, o que humaniza a personagem e quebra temporariamente a sua invulnerabilidade.

Do ponto de vista da estrutura do argumento, o momento em que o vilão ameaça os inocentes serve para validar qualquer acção extrema que o herói venha a tomar em seguida. Quando as regras convencionais são quebradas pelo antagonista ao visar a família, o público aceita, e frequentemente deseja, uma resposta do herói que ultrapasse os limites da lei ou da moralidade comum, culminando na catarse da resolução. Quanto mais o bandido sofrer, tanto mais o espectador tende a gostar, como se ele próprio participe na vingança e na justiça, seja lá o que isso for.

A televisão e o cinema operam frequentemente sob restrições de tempo. Utilizar um modelo cuja dinâmica o público já conhece perfeitamente permite avançar a narrativa rapidamente para o clímax, sem a necessidade de construir desenvolvimentos complexos para justificar a confrontação final.

Em suma, trata-se de uma convenção de género que sobrevive devido à sua eficácia mecânica na manipulação da tensão dramática, funcionando como um gatilho psicológico previsível, mas fidedigno, para o desfecho da ação.

Percebendo todo este contexto, a verdade é que, pelo menos para mim a coisa torna-se enfadonha de tão previsível. Quase, sempre, num momento em que o herói parece dominar a situação, lá vem a mulher, a filha e o filho, os amigos, etc, a cairem nas mãos do inimigo, invertendo a situação. Quem pode apreciar isto, esta previsibilidade? Um pouco como assistir a um espectáculo de strip-tease, diria.

A saturação face a este recurso é uma reação partilhada por uma fatia significativa do público e da crítica cinematográfica. Quando um mecanismo dramático é utilizado repetidamente sem inovação, transforma-se num cliché, o que quebra a suspensão da descrença e gera o enfado que menciona.

Ainda assim, este tipo de narrativa continua a ter uma audiência vasta e fiel. Os perfis de público que tendem a apreciar ou a aceitar esta previsibilidade parecem assentar em diferentes factores:

Grande parte da audiência consome entretenimento televisivo ou cinematográfico após a rotina diária, procurando relaxamento e não necessariamente um desafio intelectual ou inovação estrutural. Para este público, a previsibilidade funciona como um elemento de conforto: sabe-se exactamente o que esperar, quem são os "bons", quem são os "maus" e que, no final, a ordem será restaurada. A previsibilidade elimina a ansiedade cognitiva. Deseja-se um final feliz, memso que envolva viongança cruel.

Para os entusiastas do cinema de acção puro, o argumento é secundário, servindo apenas como um pretexto ou uma moldura para o que realmente lhes interessa: a coreografia das lutas, os efeitos especiais, a perícia técnica das perseguições ou o carisma do actor principal. Sabendo que o herói irá recuperar o refém, o prazer do espectador reside em ver como ele o fará, e não se o fará.

Espectadores que não assistem a este género de ficção de forma intensiva ou sistemática não sofrem do mesmo nível de saturação. Para quem consome estas produções de forma esporádica, o tropo mantém a sua eficácia dramática original, uma vez que o efeito de repetição não é perceptível.

A indústria do entretenimento, particularmente nas plataformas de streaming e na televisão generalista, opera frequentemente com base em métricas de retenção. Fórmulas testadas que garantem uma base mínima de audiência são preferidas em detrimento de riscos narrativos. O público que consome estes conteúdos de forma mais passiva acaba por validar o modelo através dos números de visualização.

Precisamente por se ter tornado enfadonho, realizadores e argumentistas contemporâneos têm tentado subverter esta fórmula para apelar a um público mais exigente. Algumas das abordagens incluem a inversão de papéis, onde o suposto refém se liberta autonomamente ou salva o protagonista, subvertendo a fragilidade esperada.

Em resumo, não sendo cinéfilo, sou capaz de perceber um bom filme, mas que estas previsibilidades enjoam, sim. Para além de tudo, a banalização da violência, a níveis extremos não concorrem, de todo, para extraír de uma peça cinematográfica qualquer enriquecimento, seja a que nível for.

Talvez por isso, mal por mal, prefiro filmes e séries com registos menos dramáticos,  sobretudo as comédias, ligeiras ou puras, ou filmes mais realistas ao nível das personalidades, relaçõs e emoções. 

28/05/2026

Ajude o Centro Social de Guisande com 1% do seu IRS

 


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27/05/2026

Orgulho, fé, devoção, tradição, pois sim, mas...

 


Com a banalização e importância das redes sociais enquanto ferramentas de comunicação, a promoção, cobertura e rescaldo das festividades religiosas e populares nas diferentes freguesias , tornaram-se o pão-nosso-de-cada-dia. Eventos e iniciativas de angariação de fundos,  patrocínios, cartazes, programas, artistas, etc, são pretextos de partilha de todas as comissões de festas ao longo do ano, sejam da pequena e singela festividade ou da maior e espalhafatosa.

Nesse contexto, passada a festa e estourados os últimos foguetes, vem o rescaldo com adjectivos e valores como o sentido de dever cumprido, o orgulho, fé, devoção, tradição, bairrismo, etc, etc. São esgrimidos como se uma determinada freguesia e sua festa sejam mais que as outras. E não são, porque nestas coisas, mesmo que em diferentes modos e contextos, com as diversas particularidades, todos puxam a brasa à sua sardinha e procuram fazer o melhor, por regra, muito com pouco, e já quase nada sobra para inventar de diferente. Até os cartazes feitos por Inteligência Artificial começam a banalizar-se e a perder a piada, sem se dar mérito à originalidade e criatividade e não raras vezes com elementos que não reflectem a realidade de cada festa.

Para além disso, muito mais que a fé, devoção e  tradição, sabemos que o que leva muita gente a uma determinada festa raramente são as virtudes dos santos e santinhos, mas antes o prestígio ou popularidade dos artistas que sobem aos palcos. Por conseguinte, hoje em dia valoriza-se mais um qualquer artista, do mais medíocre ao mais conceituado, do que a Nossa Senhora de Não sei Quantos ou o Santo e Mártir lá do sítio. 

Resulta daqui que estas coisas têm que se lhe diga  e nem sempre o que parece é e tantas vezes na simplicidade está a maior virtude e genuinidade. Depende dos olhos com que se vê o valor de uma festa. Por isso, presunção e água benta, quanto baste, não farão mal algum.

Além do mais, de um modo geral, basta olhar para os cartazes oficiais de certas festas e apesar destas terem como base a matriz religiosa e devocional, a tendência está em omitir não só as fotografias dos santos, da capela ou igreja onde se invocam, como até ignorar o seu nome. É um mau princípio, para não dizer desrespeito. Mas é esta a nova realidade. Pessoalmente espero que tal nunca venha a suceder na nossa festa do Viso, dedicada a Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António. Para algum laxismo já basta trocar a figura dos santos, fazendo representar imagens que não correspondem aos que estão nos altares dos locais de culto, como, de resto, já aconteceu.

Posto isto, orgulho, fé, devoção, tradição, bairrismo, etc, etc, pois sim, com certeza, são valores genuínos de quem se dedica na organização, mas importa não esquecer a base, a matriz e nunca deixar que a componente profana e popular abafem ou ignorem a religiosa. Para isso temos os ditos festivais musicais em que são invocados o Santo Lucro e a Santa Farra.

26/05/2026

Nota de falecimento - Maria de Lurdes Bastos dos Santos (de Lobão)

 


Faleceu Maria de Lurdes Bastos dos Santos, de 78 anos, de Lobão. Depois das cerimónias fúnebres, vai amanhã, Quarta-Feira, 27 de Maio, a sepultar em Lobão, pelas 16:00 horas.

Era mãe dos meus amigo Luis Bastos e Mário Bastos, e ainda da Alice Maria. 

Partiu de forma inesperada, apanhada por uma doença que sem aviso, bateu à porta e logo colheu. Foi como quem  parte sem tempo de dizer adeus à vida e aos seus. Mas, doendo mais quando nos toca a alguém de família ou dos amigos próximos, como é o caso, é simultaneamente um avivar da realidade incontornável da efemeridade da nossa passagem por este mundo terreno. 

Sem sermões, mas numa perspectiva cristã, somos peregrinos da esperança e quem a tem e cultiva como bem, é a ela que nos devemos agarrar. Uma esperança de que a nossa vida tenha um sentido e propósito maiores que o mero viver por algumas dezenas de anos ante a imensurável idade do universo. 

Seguramente, passada a dor da separação brusca, virão para os familiares tempos de bonança e a  sua familiar continuará na suas memórias, porque a vida é também isso: Aceitação.

Votos de sentido  profundo pesar aos familiares, sobretudo aos mais próximos, como marido, filhos e filha, e de modo pessoal e particular ao Luís e ao Mário. Um abraço!

Paz à sua alma! Que descanse em paz!

25/05/2026

Paradoxos


Na nossa freguesia ainda há várias estradas com pavimentos em mau estado. Mas, bem pior que mau, porque deplorável, destaca-se a Rua da Zona Industrial e o troço da Rua de Estôze, que liga este lugar ao de Cavadas, na freguesia de Pigeiros.

Na Rua da Zona Industrial a desculpa é a da necessidade da prévia realização de redes públicas água e saneamento. É perfeitamente compreensível, mas, todavia, o tempo passa e não há sinal de que a coisa esteja para breve. De minha parte jé evito por lá transitar e mesmo a caminhar ou em corrida não se aconselha porque é perigosa, tal é o estado de degradação.

Quanto à Rua de Estôze, não há a mínima desculpa para o estado em que se encontra. Mau demais, a juntar ao lixo na berma.

Mesmo parte da Rua dos Quatro Caminhos, no lugar da Gândara, está degradada, com  algumas depressões e é frequente ver-se o trânsito a circular em contra-mão para as evitar.

Enquanto parece haver dinheiro com fartura para festas e festivais, que se estouram e três dias, esquece-se o essencial e de utilização diária . Há dinheiro a rodos para artes de rua mas não para as ruas. 

É pena e lamenta-se que estes paradoxos de gestão ainda subsistam.

O Jorge está de parabéns!

 











Neste dia 25 de um Maio de Primavera, está de parabéns o Jorge Ferreira. Juntos já percorremos centenas de quilómetros de fantásticas caminhadas. 

Que continue a somar, com vigor, saúde e boa disposição, pois ainda há montes e vales para percorrer, mesmo que mais devagar.