O riso desbragado nunca foi especialidade do Vitorino. Por naturalidade ou para esconder os dentes e o céu da boca, ri-se, no geral, com ela fechada. Esporadicamente, lá se ri de forma mais descontrolada, nem sempre pela qualidade da anedota, da história contada ou da situação cómica vista, mas mais pelo contágio de alguém que ao lado também se ri.
Aprecia, naturalmente, uma boa anedota, o vigor de um dito perspicaz ou a habilidade refinada com que as pessoas de talento verdadeiro expõem o absurdo do quotidiano. O humor inteligente, como o inglês, agrada-lhe, a par de séries de comédia com qualidade — que, diga-se, cada vez mais escasseiam.
Mais do que alheias, certas manifestações de hilaridade provocam-lhe espanto, ficando sem conseguir entender o motivo de tais ditos ou piadas. Observar alguém a emitir urros, de boca escancarada e cabeça arremessada para trás num sobressalto quase epiléptico, é para ele uma experiência genuinamente desconfortável. Há na gargalhada desmedida uma perda de compostura que se aproxima do grotesco.
Esta aversão à gargalhada performativa é, aliás, uma das razões fundamentais que condiciona e limita a sua relação com a televisão, sobretudo com os programas de entretenimento, daqueles próprios de salas de espera e ocupação de reformados. Para o Vitorino, o ecrã transformou-se num recinto de histeria coletiva onde se ri em demasia e sem critério. A gargalhada no pequeno ecrã deixou de ser uma consequência natural do cómico para se converter num vício, numa forma artificial. Mesmo em programas e assuntos que mereceriam mais seriedade, os apresentadores e intervenientes comportam-se ao nível de criancinhas num jardim de infância.
Vão longe os tempos em que os locutores e apresentadores da nossa televisão sabiam comportar-se, ou, melhor dito, ser profissionais e conscientes da natureza de cada programa. De facto, na televisão contemporânea, a gargalhada opera como uma claque invisível e coerciva que dita ao telespectador o exacto momento em que deve achar graça, rir e aplaudir.
A gargalhada televisiva tornou-se uma obrigação contratual. Já não se procura o riso pela subtileza ou pelo enquadramento do absurdo, mas sim pela repetição mecânica de estímulos ruidosos. Perante este cenário de alegria forçada e gargalhadas estridentes, a atitude mais razoável e preventiva para o Vitorino continua a ser, invariavelmente, desligar o aparelho ou mudar de canal. Por alguns programas, já sabendo o que a casa gasta, nem perde tempo com eles, mesmo que sejam considerados de boas audiências — o que não o surpreende, pois há sempre testos à medida das panelas e chapéus ajustados a cabeças certas.
Mesmo no panorama nacional dos ditos cómicos ou humoristas (tipo Bruno Nogueira, Fernando Rocha, Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques, etc.), no geral acha que não têm piada alguma e recorrem ao desrespeito, à ofensa e ao palavrão fácil para compensar a falta de originalidade ou talento. A liberdade de expressão concede-lhes desculpa e proteção, as televisões e rádios dão-lhes palco e antena, mas, verdade se diga, quase sempre não passam de uns tristes com pretensões a fazer rir, mesmo que não falte quem se ria do mal alheio.
Nunca, como agora, faz tanto sentido para o Vitorino o velho ditado de que "quem tem muito riso tem pouco siso" ou "muito riso, pouco juízo".
[ilustração: adaptação por IA]

































