Durante o século XIX, a administração local em Portugal
dependia da participação directa dos cidadãos para a manutenção
do bem comum. Este sistema foi consolidado pelo Código
Administrativo, que permitia às Câmaras exigir "braços"
(trabalho manual) e "gados" (tracção animal) para obras
públicas. A Lei de 5 de julho de 1864 introduziu a possibilidade de
remissão, permitindo que os moradores convertessem essa obrigação
física num pagamento em dinheiro, conforme as taxas fixadas
anualmente pelas câmaras municipais.
O propósito central desta obrigatoriedade era garantir a
viabilidade de infraestruturas essenciais perante orçamentos
municipais reduzidos.
- Conservação de Vias: Foco na reparação de caminhos e estradas
para facilitar a circulação e o escoamento de produtos.
- Obras de Engenharia Local: Construção de pontilhões e
manutenção de edifícios públicos utilizando os recursos da
própria comunidade.
- Gestão Financeira: Suprir a falta de numerário através da
mobilização directa da força de trabalho local ou das taxas de
conversão pagas pelos residentes.
A conversão do trabalho em dinheiro seguia uma hierarquia
rigorosa, reflectindo o custo de mercado e a especialização do
serviço. Em 1868, as taxas de conversão diária eram aplicadas da
seguinte forma (valores extraídos de uma acta de reunião de Câmara de Vila da Feira):
O valor mais elevado era atribuído ao Trabalho de Boi e Carro,
fixado na quantia de 700 réis por cada dia. Esta taxa reflectia a
importância crítica da tracção animal para o transporte de
materiais pesados, sendo o recurso mais oneroso para o concelho. Logo
abaixo, a utilização de um Animal de Carga era convertida em 400
réis por dia.
No que respeita ao trabalho humano qualificado, a prestação de
um Oficial de Ofício (como pedreiros ou carpinteiros) tinha o valor
de 320 réis diários. Este valor intermédio reconhecia a
necessidade de competências técnicas para garantir a durabilidade
das obras públicas.
Por fim, o valor de base do sistema era o do Jornaleiro ou Braçal,
estabelecido em 250 réis por cada dia de trabalho. Este valor
correspondia à unidade mínima de esforço físico não qualificado
e servia como padrão de referência para a maioria da população
que optava por remir a sua obrigação laboral através do pagamento
em dinheiro.
Escusado será dizer que na freguesia de Guisande os seus habitantes estavam, naturalmente, sujeitos a esta prestação de trabalho ou ao pagamento correspondente, este tabelado pela Câmara Municipal. Nas actas mais antigas das reuniões da Junta Paroquial de Guisande há várias referências à prestação de trabalho.
Quanto ao fim de tal obrigação:
A obrigatoriedade da prestação de trabalho braçal e de tracção animal em Portugal não desapareceu de um momento para o outro, mas sim através de um longo processo de transição administrativa e fiscal que se estendeu até às primeiras décadas do século XX.
A transição definitiva ocorreu principalmente por dois factores:
- Reforma Tributária e Administrativa:
À medida que o Estado português modernizou o sistema de impostos, as "fintas" (impostos em trabalho ou espécie) foram progressivamente substituídas por contribuições exclusivamente monetárias, como a Contribuição Predial. Este movimento ganhou força com a implantação da República em 1910, que procurava eliminar vestígios de obrigações que remetiam ao período senhorial.
- Código Administrativo de 1936: Foi durante o Estado Novo que se consolidou a estrutura moderna das autarquias. Embora o espírito de "trabalhos para o bem comum" tenha sido mantido em contextos de emergência, a obrigatoriedade regular de braçagem para obras municipais foi formalmente removida da legislação corrente, sendo substituída por taxas municipais e orçamentos financiados pelo governo central.
Embora a lei tenha deixado de obrigar o trabalho físico no início do século XX, a prática sobreviveu de forma voluntária em muitas aldeias portuguesas sob a forma de "roças" ou "balhos". Nestes eventos comunitários, os vizinhos ainda se reuniam para limpar caminhos ou consertar muros de forma gratuita, mantendo vivo o propósito original de cooperação local que os documentos de 1868 registavam como uma obrigação legal.