Já muito foi escrito e estudado sobre os sonhos e o sonhar. Filósofos, psicólogos e cientistas dedicaram anos e vidas a tentar compreender esse território misterioso que se abre todas as noites quando fechamos os olhos. Ainda assim, os sonhos continuam a escapar a explicações completas, como se fossem uma linguagem íntima da mente que apenas sentimos, mas raramente dominamos.
Os sonhos têm uma capacidade extraordinária: permitem-nos viajar ao passado. De repente, voltamos à infância, à juventude, a lugares que já não existem, reencontramos pessoas que desapareceram da nossa vida e revivemos emoções que julgávamos esquecidas. O tempo, nos sonhos, deixa de obedecer às regras do relógio. Tudo pode acontecer outra vez.
Mas os sonhos não são apenas memórias. Neles somos muitas vezes aquilo que nunca conseguimos ser na realidade. Sentimos emoções, alegrias, medos, dores e prazeres, tantas vezes reflectindo o nosso estado real. Tornamo-nos heróis improváveis, mágicos capazes de transformar o mundo com um gesto, ou pessoas que dominam talentos que nunca aprendemos. Nadamos não sabendo nadar, voamos mesmo que uma impossibilidade, enfrentamos perigos, resolvemos problemas impossíveis. A mente cria cenários onde as limitações desaparecem e a imaginação governa.
No entanto, essa liberdade fundamenta-se na realidade presente. Os sonhos usam aquilo que somos. Utilizam os nossos sentimentos mais profundos, as nossas inseguranças, as fraquezas que escondemos e até os vícios ou pequenas obsessões que carregamos. Como um espelho imperfeito, eles reorganizam tudo isso em histórias estranhas, por vezes desconfortáveis, mas sempre reveladoras.
Também é nos sonhos que a vida emocional se expande sem regras sociais. Podemos namorar, apaixonar-nos ou amar alguém, mesmo quando na vida real já temos um compromisso, casados, com filhos ou netos. Não se trata de traição, mas de uma liberdade simbólica da mente, onde desejos, curiosidades e afectos se misturam sem julgamento.
E, no entanto, por mais livres que pareçam, os sonhos nunca conseguem fugir completamente à realidade. Podem distorcê-la, exagerá-la ou reinventá-la, mas a sua matéria é sempre feita daquilo que vivemos, sentimos e tememos. No fundo, os sonhos são apenas outra forma de a realidade falar connosco, porventura mais silenciosa, mais estranha, mas profundamente humana.










