Anda tudo extremado! Não é novidade! Também a eleição presidencial, agora resumida a dois candidatos, parece-me que está nesse caminho, muito por responsabilidade da comunicação social que já não conhece a ética, deontologia e isenção, valores do verdadeiro jornalismo. Mas este há muito que está defunto.
Também eu me considero moderado e a votar no próximo dia 8 de Fevereiro será, sem hesitações, em quem me parece como tal. Mas daí a colocar-se a questão como de uma luta ou batalha em que está em causa a democracia, só porque com duas personalidades com diferentes pontos de vista e posicionamentos, é exageradamente exagerado. Desde logo porque estamos nela, na democracia, e a eleição será democrática e os eleitores é que decidirão. Ou não queremos que sejam os eleitores a decidir?. Afinal a democracia não é isso? Respeitar a decisão da maioria do povo, mesmo que contrária às nossas posições e a favor de candidatos ou partidos com quem não alinhamos? Ou somos ou não somos.
Não obstante, se atentarmos em países onde nos últimos anos têm vencido candidatos e partidos conotados com a direita mais extremada, nem a democracia deixou de existir nem as economias têm recuado, até antes pelo contrário. Veja-se o caso da Itália e Argentina.
Por conseguinte, no que se refere aos efeitos destas presidenciais, não venham com histórias de diabos e papões. A nossa democracia é adulta, mesmo que com intervenientes acriançados e medíocres. Tem regras, tem mecanismos, tem bases sólidas que a garantem. O povo, no geral, ainda consegue saber o que quer. Se, de algum modo, parece juntar-se a quem se extrema, é tão somente porque está descrente nas soluções que se perpetuam há 50 anos.
Mesmo que o suposto papão André Ventura vença, o que será difícil mas não impossível, daqui a umas semanas estará a jurar defender e fazer cumprir a Constituição, mesmo que deseje a sua alteração. Eu próprio a considero caduca em alguns pontos, e nem é de surpreender, pois passaram já 50 anos sobre a sua implementação e de lá para cá o mundo e a sociedade deram muitas voltas. Em vários aspectos é a nossa Constituição de matriz revolucionária e por isso caduca nalgumas questões. Mas isso são outras contas e cabe ao ao povo e aos partidos legitimados pelos votos a decidirem essas questões dentro das regras democráticas. Nem mais nem menos.
Respeite-se, pois, mesmo que a contragosto, o resultado da eleição que se avizinha. Não vejo, de todo, que no actual quadro a democracia esteja em perigo, porque a democracia é a livre escolha e, mesmo que pobre, há escolha.
Para além de tudo, convenhamos, o cargo em eleição, é pouco mais que decorativo, bem diferente dos regimes presidencialistas como a França e Estados Unidos. Até acho que Ventura, na redoma de presidente ficará limitado na sua acção face à que tem enquanto deputado e líder de um partido. Ali fará mesnos estragos, parece-me.
Em todo o caso, espanta que os nossos habituais acérrimos defensores desta democracia muito particular, tão preocupados com o futuro da nossa democracia caseira,a propósito de uma eleição livre e democrática, não se imponham nem se manifestem no que se passa na Rússia, Venezuela, Coreia do Norte, China, etc. Aparentemente, para os paladinos lusos da democracia, nesses países tudo funciona dentro das boas regras da democracia, direitos, liberdades e garantias. Nada que lhes tire o sono.
Viva a democracia, mas também o bom senso!