Vivemos tempos de profunda estranheza, nos quais a realidade parece redefinir-se a um ritmo quase irreconhecível. Este fenómeno, longe de ser exclusivo de Portugal, estende-se à escala global e manifesta-se de forma evidente no nosso quotidiano. A linha que outrora separava o expectável do invulgar tornou-se ténue, diluindo-se num degradê de constantes transformações.
A própria composição das selecções nacionais de futebol, como as de França, Suécia, Suíça ou Noruega, espelha esta mixórdia demográfica e cultural que reina na velha Europa. Para uns, esta diversidade representa o resultado inevitável de uma complexa transição multicultural na Europa moderna; para outros, constitui uma evolução enriquecedora assente na pluralidade. Distantes parecem os tempos em que figuras históricas, como Viriato, se batiam contra influências externas em nome de uma soberania a evitar o progresso da civilização romana. Paralelamente, entidades como a FIFA demonstram frequentemente que a lógica de mercado se sobrepõe a quaisquer outros valores, obedecendo a todos-poderosos, revelando um pragmatismo que, se não surpreende, pelo menos expõe de forma clara as suas prioridades.
A nível interno, assiste-se a uma resistência sistemática a reformas estruturais, quer no plano laboral, quer na justiça ou na educação. Numa era dominada pela transição digital e pela inteligência artificial, subsiste uma persistente relutância em abandonar métodos tradicionais, como as avaliações escolares físicas em papel, não se dispensando os clipes e agrafes, revelando o descompasso entre a velocidade do progresso tecnológico e a inércia institucional. Somos avessos a reformas e as entidades corporativas e sindicais impõem-se a quem ouse desafiar o status-quo.
Por outro lado, deparamo-nos com paradoxos inquietantes: enquanto as farmácias nacionais e seus utentes sofrem com a escassez de determinados fármacos, enviam-se toneladas de ajuda humanitária para países como a Venezuela, uma nação historicamente rica em recursos naturais e petrolíferos. Embora o espírito solidário português perante crises humanitárias seja inegável e louvável, ao qual muitos, de forma altruísta, se associam, como eu na justa medida, gera-se uma inevitável reflexão sobre a eficácia de apoios dirigidos a Estados e a povos que não se ajudam, que falham persistentemente na sua própria governação e autossuficiência.
Ao nível da gestão local, observa-se frequentemente uma canalização desproporcionada de fundos públicos para eventos de lazer e festivais, festas e festarolas, em detrimento do investimento em infraestruturas básicas e duradouras. A escassez de água, como agora em Almada, é o reflexo directo desta fragilidade de planeamento. Mesmo em regiões onde o abastecimento ainda se assegura, como no nosso concelho, o custo do recurso atinge valores exorbitantes, dos mais caros no país, enquanto ainda persistem habitações desprovidas deste bem essencial. A concessão gere-se apenas pelo objectivo de lucro, quanto mais, melhor.
No âmbito comunitário, o investimento de somas avultadas em espectáculos artísticos associados a festividades locais, como ainda agora numa freguesia vizinha, em que alguém estourará qualquer coisa como cem mil euros, em nome de uma santa, duvidando eu que ela aprovasse tal gasto, levanta dúvidas morais sobre as prioridades colectivas, parecendo contradizer o próprio espírito de sobriedade que deveria nortear tais celebrações. No entanto, prevalece frequentemente a máxima clássica do "pão e circo", onde o direito individual ao usufruto do próprio capital legitima qualquer opção de despesa. Além do mais, que importa questionar quem decide gastar o seu dinheiro desta forma e não de outra mais louvável? Responderão que "o dinheiro é meu, queimo-o como quiser". E com razão.
Em suma, enfrentamos uma época de transição e incerteza. A erosão de critérios éticos e de valores de referência parece sugerir que a sociedade contemporânea carece de um fio condutor ou de propósitos colectivos de longo prazo. Ao preterirmos as referências espirituais, humanistas ou metafóricas em favor de um imediatismo puramente material, corremos o risco de viver o presente como se não houvesse amanhã, abdicando da construção de um legado sólido para as gerações vindouras.








