" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

10/09/2026

O Justino quer é paz


Para muitos será da idade, para mim é do temperamento. O Justino sempre teve este gosto pela solidão, desde que me lembro dele. Não a solidão dos que se sentem sós, mas aquela outra, mais rara, de quem encontra nela bem-estar e paz, sem explicações a dar, respostas a preparar ou atitudes a fingir.

Os livros são-lhe boa companhia. Na escrita perde horas sem conta, e não parece haver nesse tempo qualquer queixa ou impaciência. Pelo contrário, dir-se-ia que é aí que mais confortavelmente habita. Não haverá na aldeia quem tenha mais livros que o Justino. Velhos e novos. Ensaios, romances, contos, crónicas, poesia, técnicos e de cultura geral, tudo tem e lê.

A família habituou-se e compreende-o. Os cães e os gatos, esses, nem precisam de compreender: sabem. Há coisas que os animais percebem por um qualquer sexto sentido que nós, humanos, fomos perdendo à medida que aprendemos a complicá-las.

O Justino não vive desligado do mundo. Pelo contrário, está atento ao que acontece, lê, observa, ouve os vizinhos e sabe, como toda a gente, que o mundo não acaba à porta de casa. Mas há muito do que escuta que lhe chega mais por obrigação ou hábito do que por verdadeira curiosidade ou necessidade de participação.

Não é uma ilha, embora faça quanto pode para não deixar que o transformem numa. Vai levantando em redor uma cerca discreta, feita de sorrisos, acenos e concordâncias, não por antipatia, mas para se proteger dos assaltos à sua tranquilidade. Dos assaltos da banalidade, naturalmente, mas também dos das boas intenções, daqueles que julgam que todas as dores devem ser partilhadas e que todo o silêncio esconde um pedido de socorro.

Há ainda os que, por genuína preocupação ou simplesmente por não conhecerem outra maneira de estar com alguém, insistem em oferecer-lhe conselhos para uma vida que ele nunca lhes disse querer mudar. O Justino escuta, agradece, talvez sorria, e continua serenamente no seu caminho.

Quer aprender, isso sim. Nunca me pareceu ter perdido a curiosidade nem a vontade de compreender melhor as coisas. O que dispensa é que lhe ensinem, com ar de descoberta, aquilo que já sabe, ou que lhe receitem companhia como quem prescreve um remédio para uma doença que ele não reconhece. Sabe que a roda e a pólvora há muito que foram descobertas.

Porque talvez seja essa a parte que mais custa aos outros entender: o Justino não precisa de ser salvo da sua solidão. Ele vive nela. E, pelo que vejo, bastante bem. 

Ao contrário, andamos, todos nós, em guerras e guerrinhas, surdas ou estrondosas, como se necessárias para estabelecer, a contento de todos, acordos e estados de paz. E tão pouco basta para a ter. É ver o Justino!


A. Almeida


[ilustração: Adaptação por IA]

09/09/2026

Os mestres da ilusão


Mais do que nunca, vivemos numa época em que mais vale parecer do que ser. O Governo, as autarquias e a comunicação social usam e abusam dos eufemismos e das meias-verdades, jogando constantemente com as percepções. Tal como num espectáculo de ilusionismo, o mágico precisa de distrair para iludir — algo que se torna simples porque, quase sempre, o público tende apenas a ver e a ouvir o que lhe convém.

Com frequência, lemos ou ouvimos anúncios como:

"No município X, os transportes públicos serão totalmente gratuitos";

"Os alunos passarão a ter manuais escolares completamente grátis";

"No município Y, as creches serão gratuitas";

"As autoestradas X, Y e Z deixarão de ter portagens";

"A Junta de Freguesia Z vai incentivar a natalidade com a oferta de um cheque de 500 euros por cada nascimento".

Esta narrativa cria a falsa percepção de que, com tais medidas, tudo se transformará num reino maravilhoso de bens e serviços gratuitos e de ofertas antecipadas de Natal.

Nada é mais falso. Quer seja no Estado Central, nas autarquias ou nas juntas de freguesia, tudo o que se anuncia como "grátis" continua a ter custos, financiados pela totalidade dos contribuintes. Trata-se de um modelo desequilibrado e injusto, uma vez que a factura é paga não só por quem usufrui dessas benesses, mas também por aqueles que delas nunca tirarão qualquer partido. 

É um pouco como a repetida história de que num certo município o evento X deixou um retorno económico de centenas ou milhares. A quem? A todos ou a quem mais bebe por estar perto da fonte. É que, no meu caso, em dezenas de anos de eventos cá no burgo, nunca senti caír um euro no meu bolso, antes, pelo contrário, a pagar quando há prejuízos na gestão ou exploração.

Em suma, assim continuamos: satisfeitos com supostos "benfeitores e altruístas" que, na verdade, não tiram um único cêntimo do próprio bolso para financiar as promessas que fazem ou medidas que implementam nesse conceito de gratuitidade. Antes, quando num populismo bacoco, tiram partido disso em tempos e contextos eleitorais.

Assim vamos andando!


[ilustração: IA]

08/09/2026

Bairrismo: o que ficará sem a valorização das raízes e legados passados?


A propósito de uma publicação sobre as romarias e o futuro das nossas comunidades, num bom artigo de reflexão do Tiago Afonso (de Pigeiros), na sua página de Facebook e no seu blog "Línguas de Perguntador",  troquei alguns comentários com o autor que me levaram a aprofundar uma ideia que, no essencial, partilho.

É evidente que o mundo mudou. Mudaram as famílias, os hábitos, as relações, os locais onde estudamos e trabalhamos, as formas de comunicar e, sobretudo, a própria maneira como nos relacionamos com as comunidades a que pertencemos.

Antigamente, a comunidade era, em grande medida, uma realidade inevitável. Vivíamos perto, conhecíamo-nos, dependíamos uns dos outros e partilhávamos os mesmos espaços de encontro. A paróquia, as associações, os cafés, as festas e as romarias eram muito mais do que lugares ou acontecimentos: eram elementos estruturantes da vida comunitária.

Hoje, nada disso desapareceu por completo, mas deixou de ter a mesma centralidade.

Em concordância com o Tiago, não me parece justo só por si  atribuir essa transformação aos jovens. Eles vivem simplesmente num tempo diferente, com outras oportunidades, outras formas de socialização e outras prioridades. Não podemos pedir-lhes que vivam como nós vivemos, nem que sacrifiquem o futuro para preservar o passado.

Mas é precisamente aqui que reside a minha preocupação: Há uma ruptura.E não sei se aquilo que estamos a construir será capaz de preservar os valores que, durante gerações, considerámos importantes: o sentido de pertença, a entreajuda, a responsabilidade pelas causas comuns, o orgulho nas nossas origens e o respeito pelo legado que recebemos dos nossos antepassados.

As nossas tradições não são apenas manifestações do passado. São uma forma de memória colectiva. Uma romaria, uma festa, uma associação ou uma tradição local representam muito mais do que aquilo que vemos: representam pessoas que, antes de nós, deram tempo, trabalho e dedicação para construir uma comunidade.

É isso que, a meu ver, não devemos perder. Não se trata de querer obrigar os mais novos a repetir os comportamentos dos mais velhos. Trata-se de lhes transmitir o valor daquilo que recebemos, para que possam decidir, à sua maneira, o que merece ser preservado.

O problema é que, perante a notória perda de população, mesmo que mitigada por uma imigração descontrolada, o envelhecimento e o afastamento progressivo das novas gerações, não sei se teremos gente suficiente — e sobretudo vontade suficiente — para assegurar essa continuidade.

Talvez o futuro encontre novas formas de comunidade. Talvez as tradições se adaptem e algumas sobrevivam. Espero sinceramente que sim. Mas continuo triste e céptico. Não tanto pelos jovens, mas porque já não existem as condições que fizeram nascer e crescer o espírito comunitário que conhecemos.

E quando se rompe uma continuidade de gerações, não perdemos apenas algumas festas ou costumes. Podemos perder, pouco a pouco, a consciência de quem somos e de onde viemos.

Por isso, enquanto for possível, penso que devemos continuar a defender as nossas tradições, a valorizar as nossas raízes e a sentir orgulho no legado dos que nos antecederam.

Não para viver no passado, mas para que o futuro não fique sem memória.

E, no fundo, talvez seja essa a nossa responsabilidade: fazer a nossa parte, transmitir o que consideramos ter valor e ter esperança de que alguma coisa fique.

Mesmo que, depois de tudo bem agitado, seja pouco o que fica no crivo.

06/09/2026

Tomada de posse do Pe. António Jorge em S. Pedro Ferreira


Neste Domingo, dia 6 de Setembro de 2026, pelas 10:00 horas, decorreu na bela e mística igreja românica de S. Pedro Ferreira, a tomada de posse do nosso ex-pároco, Pe. António Jorge.
Numa manhã bonita, num ambiente deslumbrante, o Pe. António Jorge certamente sentiu-se como recebido em sua casa e pelos seus, dos mais jovens aos mais velhos. 

A igreja, de boas dimensões, que esteve repleta, de gente sentada e em pé, foi pequena para tanta gente da comunidade local e visitantes, que se associaram a este importante momento. No exterior muita gente que não teve lugar, mas atenta e feliz.

Um simples mas bonito tapete a conduzir à igreja foi elaborado com dedicação e rigor. Um grupo coral fantástico, um númeroso grupo de jovens, leitores e cantores de qualidade.

Desconheço como foi a tomada de posse já no dia anterior, na paróquia de Arreigada (que correu pelo melhor conforme me confidenciou o Pe. António em breve conversa), e depois pelas 11:30 horas na paróquia de Frazão, mas certamente a tónica de acolhimento e alegria manifestada pelas comunidades foi semelhante.

Nas palavras do Pe. António Jorge à comunidade, emocionou-se várias vezes e nos agradecimentos procurou não esquecer ninguém que, nas suas palavras, o ajudaram a crescer e a ser o homem e sacerdote que é hoje. Naturalmente um agradecimento aos seus anteriores paroquianos, incluindo de Guisande, Pigeiros e Caldas.

Deixou à comunidade local a promessa de tudo fazer para o seu crescimento, da catequese, adolescentes, jovens e adultos aos mais velhos, mas na certeza de que nada poderá sem a ajuda de todos, todos, todos.

Pessoalmente, foi um privilégio poder assistir a esta cerimónia muito especial, num misto de agradecimento, de sincero desejo de que corra pelo melhor a sua missão, que não será fácil, até porque com novos desafios e pela dimenensão populacional do conjunto das paróquias, bem como de alguma tristeza pela saída de um bom pároco, certamente que com as imperfeições comuns a todos nós, mas com elevado sentido de seriedade no serviço litúrgico e espiritual, organização das estruturas e respeito pelas idiossincrasias de cada comunidade. 

Certamente que entre nós ficou muito por fazer, mas numa decisão do Bispo, a todos os níveis incompreensível, deixou uma inter-comunidade num tempo em que o seu trabalho começaria a dar frutos e já com tempo para melhor fazer o que até aqui lhe foi impossível de forma ideal.

Em resumo, um dia memorável e uma cerimónia muito bonita onde, como nós que viemos de fora, se percebeu facilmente que o Pe. António tem ali comunidades fortes, com muitas capacidades e que certamente será capaz de aproveitar, valorizar e fazer crescer ainda mais. Oxalá que seja capaz! Mas que o Bispo lhe dê o tempo que não deu nas nossas comunidades.

Por cá, como Jesus, não terá agradado a todos, e ovelhas negras sempre existirão no rebanho, mas creio que na larga maioria deixou amigos e amizades. E já saudades.

Bem-haja, Pe. António, e que Deus o ajude a ser feliz com as suas novas comunidades. É hora de trabalhar na messe de Deus.

Ver-nos-emos, por aí ou por aqui!