Para muitos será da idade, para mim é do temperamento. O Justino sempre teve este gosto pela solidão, desde que me lembro dele. Não a solidão dos que se sentem sós, mas aquela outra, mais rara, de quem encontra nela bem-estar e paz, sem explicações a dar, respostas a preparar ou atitudes a fingir.
Os livros são-lhe boa companhia. Na escrita perde horas sem conta, e não parece haver nesse tempo qualquer queixa ou impaciência. Pelo contrário, dir-se-ia que é aí que mais confortavelmente habita. Não haverá na aldeia quem tenha mais livros que o Justino. Velhos e novos. Ensaios, romances, contos, crónicas, poesia, técnicos e de cultura geral, tudo tem e lê.
A família habituou-se e compreende-o. Os cães e os gatos, esses, nem precisam de compreender: sabem. Há coisas que os animais percebem por um qualquer sexto sentido que nós, humanos, fomos perdendo à medida que aprendemos a complicá-las.
O Justino não vive desligado do mundo. Pelo contrário, está atento ao que acontece, lê, observa, ouve os vizinhos e sabe, como toda a gente, que o mundo não acaba à porta de casa. Mas há muito do que escuta que lhe chega mais por obrigação ou hábito do que por verdadeira curiosidade ou necessidade de participação.
Não é uma ilha, embora faça quanto pode para não deixar que o transformem numa. Vai levantando em redor uma cerca discreta, feita de sorrisos, acenos e concordâncias, não por antipatia, mas para se proteger dos assaltos à sua tranquilidade. Dos assaltos da banalidade, naturalmente, mas também dos das boas intenções, daqueles que julgam que todas as dores devem ser partilhadas e que todo o silêncio esconde um pedido de socorro.
Há ainda os que, por genuína preocupação ou simplesmente por não conhecerem outra maneira de estar com alguém, insistem em oferecer-lhe conselhos para uma vida que ele nunca lhes disse querer mudar. O Justino escuta, agradece, talvez sorria, e continua serenamente no seu caminho.
Quer aprender, isso sim. Nunca me pareceu ter perdido a curiosidade nem a vontade de compreender melhor as coisas. O que dispensa é que lhe ensinem, com ar de descoberta, aquilo que já sabe, ou que lhe receitem companhia como quem prescreve um remédio para uma doença que ele não reconhece. Sabe que a roda e a pólvora há muito que foram descobertas.
Porque talvez seja essa a parte que mais custa aos outros entender: o Justino não precisa de ser salvo da sua solidão. Ele vive nela. E, pelo que vejo, bastante bem.
Ao contrário, andamos, todos nós, em guerras e guerrinhas, surdas ou estrondosas, como se necessárias para estabelecer, a contento de todos, acordos e estados de paz. E tão pouco basta para a ter. É ver o Justino!
A. Almeida
[ilustração: Adaptação por IA]





















































