" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

21/05/2026

Genealogia - Dificuldades


Pesquisar assentos paroquiais (registos de baptismo, casamento e óbito) para a partir deles se estabelecer ligações familiares e as respectivas árvores genealógicas, é uma verdadeira viagem no tempo, mas quem se aventura na genealogia descobre rapidamente que os arquivos paroquiais portugueses podem ser um autêntico labirinto. Embora estes documentos sejam a espinha dorsal da história familiar antes da criação do Registo Civil (em 1911), a verdade é que os párocos da época não tinham a nossa preocupação actual com a padronização dos dados. São, pois, muitas as dificuldades que se apresnetam a quem tem interesse nestas coisas, como é o meu caso.

Caligrafia: 

Uma das barreiras mais imediatas é a paleografia (a leitura da caligrafia antiga) combinada com o hábito cultural de abreviar nomes. Para poupar papel (pergaminho nos primeiros tempos) e tinta, os párocos habitualmente usavam siglas e contracções que hoje nos parecem estranhas. Exemplos comuns: Antº (António), Mª (Maria),`Frco (Francisco), Manl (Manuel) ou Joam (João). E outros mais.

 A Ausência de Avós Paternos e Maternos:

Nos assentos de baptismo mais antigos (geralmente anteriores a meados do século XVIII), a estrutura do registo era muito mais simplificada. Era comum o pároco registar apenas o nome da criança, dos pais e dos padrinhos. Por vezes até só do pai ou da mãe.

Sem a menção aos avós paternos e maternos, perde-se a "ponte" de confirmação para a geração anterior. Se o pai da criança se chamar "João da Silva", e na mesma paróquia existirem três homens com o mesmo nome, torna-se quase impossível adivinhar qual deles é o progenitor correcto sem o nome dos avós para desempatar.

Nomes próprios sem apelidos (Sobrenomes):

Até ao século XIX, era perfeitamente normal que os registos de baptismo indicassem apenas o nome próprio da criança. Pode-se encontrar assentos que dizem, simplesmente:  Maria, filha de Manuel Gonçalves e de sua mulher Maria Vaz.

A criança crescia e, ao casar, adotava um apelido que nunca tinha sido escrito no seu baptismo. Descobrir se a "Maria" que casou em 1780 é a mesma "Maria" que nasceu em 1760 exige um cruzamento exaustivo de idades, nomes de pais e testemunhas e até intuição.


A barreira dos pais e avós incógnitos:

A realidade social da época reflecte-se cruelmente nos registos através das crianças "expostas" e "enjeitadas" (abandonadas na roda dos expostos) ou dos filhos de mães solteiras. Estas situações são muito recorrentes, sobretudo nos séculos XVII e XVIII mas ainda no século XIX e XX.

Geneticamente e documentalmente, a linha de investigação esbarra num muro intransponível. A árvore genealógica daquele ramo específico é forçada a parar ali, restando apenas a hipótese de seguir a linha dos pais adotivos ou focar-se no outro progenitor, quando conhecido ou recorrer a outras fontes que são raras e de difícil acesso e pesquisa.

A fluidez dos apelidos - ausência de linha directa:

Na regra actual e comum pelo séc. XX, os nomes têm uma estrutura em que os filhos recebem os apelidos do pais,  numa ordem mais ou menos fixa, com o apelido da mãe pelo meio e o do pai no final. Antigamente, porém, a escolha do apelido era de uma liberdade caótica. Uma única fratria (irmãos de mesmos pais) podia ter apelidos completamente diferentes. Mesmo com alguma ordem, os rapazes recebiam o apelido final do pai e as raparigas o da mãe. Ainda, um filho homem adoptava o apelido do avô paterno e uma filha mulher adoptava o apelido da avó materna ou mesmo o nome de uma santa de devoção. Era muito comum nas mulheres o apelidos de Jesus. Ainda casos em que um filho tomava o apelido do padrinho ou de um tio rico, por respeito ou esperança de herança.

O impacto: 

Esta falta de consistência quebra a lógica da transmissão familiar e exige que o genealogista comprove a irmandade de várias pessoas para garantir que pertencem à mesma família, em vez de confiar apenas no sobrenome.

Conclusão:

Perante todo este conjunto de dificuldades, há situações que se tornam impossíveis de descer no tempo e nas ramificações familiares. Mesmo nos documentos existentes, é necessária muita intuição e cruzamento de vários registos e com eles procurar harmonizar.

19/05/2026

Não fica bem

 


Esta situação não é de agora, pelo que já tem barbas. Confesso que não sei de quem é a responsabilidade. Para o caso, não interessa nem quero saber. Parece-me, isso sim (e quem pode achar o contrário?), que não fica bem. Para muitos é apenas um conjunto de pedras, mas é um cruzeiro e tem um significado e simbolismo religioso e patrimonial. 

Não fica mesmo nada bem dar-lhe esta utilidade de suporte de sacos de lixo, por mais compreensível e bem intencionada que possa ser, a de deixar os sacos fora do alcance dos cães e gatos. Para isso há solução, que mais não seja, colocar o lixo um pouco antes da hora prevista da passagem do serviço de recolha.

Haja, pois, alguma sensibilidade para estas coisas.

Finalmente, parece-me, que também estará na hora de a alguns dos cruzeiros do percurso do calvário ser-lhes dada alguma dignidade, nomeadamente com a sua requalificação. Este, por exemplo, tem a base praticamente enterrada. Outros estão quase em condições similares. Mesmo o cruzeiro na rua com o mesmo nome, no lugar de Fornos, porque pobre,  em simples cimento armado, poderia ser melhorado com revestimento em granito ou mesmo a sua substituição por um em granito.

São pequenas coisas que se podem melhorar com pouco. Apenas é preciso investir em sensibilidade e sentido de preservar e melhorar o que outros nos deixaram. Não custará muito.

14/05/2026

Historiando - A prestação de trabalho no séc. XIX

Durante o século XIX, a administração local em Portugal dependia da participação directa dos cidadãos para a manutenção do bem comum. Este sistema foi consolidado pelo Código Administrativo, que permitia às Câmaras exigir "braços" (trabalho manual) e "gados" (tracção animal) para obras públicas. A Lei de 5 de julho de 1864 introduziu a possibilidade de remissão, permitindo que os moradores convertessem essa obrigação física num pagamento em dinheiro, conforme as taxas fixadas anualmente pelas câmaras municipais.

O propósito central desta obrigatoriedade era garantir a viabilidade de infraestruturas essenciais perante orçamentos municipais reduzidos.

- Conservação de Vias: Foco na reparação de caminhos e estradas para facilitar a circulação e o escoamento de produtos.

- Obras de Engenharia Local: Construção de pontilhões e manutenção de edifícios públicos utilizando os recursos da própria comunidade.

- Gestão Financeira: Suprir a falta de numerário através da mobilização directa da força de trabalho local ou das taxas de conversão pagas pelos residentes.

A conversão do trabalho em dinheiro seguia uma hierarquia rigorosa, reflectindo o custo de mercado e a especialização do serviço. Em 1868, as taxas de conversão diária eram aplicadas da seguinte forma (valores extraídos de uma acta de reunião de Câmara de Vila da Feira):

O valor mais elevado era atribuído ao Trabalho de Boi e Carro, fixado na quantia de 700 réis por cada dia. Esta taxa reflectia a importância crítica da tracção animal para o transporte de materiais pesados, sendo o recurso mais oneroso para o concelho. Logo abaixo, a utilização de um Animal de Carga era convertida em 400 réis por dia.

No que respeita ao trabalho humano qualificado, a prestação de um Oficial de Ofício (como pedreiros ou carpinteiros) tinha o valor de 320 réis diários. Este valor intermédio reconhecia a necessidade de competências técnicas para garantir a durabilidade das obras públicas.

Por fim, o valor de base do sistema era o do Jornaleiro ou Braçal, estabelecido em 250 réis por cada dia de trabalho. Este valor correspondia à unidade mínima de esforço físico não qualificado e servia como padrão de referência para a maioria da população que optava por remir a sua obrigação laboral através do pagamento em dinheiro.

Escusado será dizer que na freguesia de Guisande os seus habitantes estavam, naturalmente, sujeitos a esta prestação de trabalho ou ao pagamento correspondente, este tabelado pela Câmara Municipal. Nas actas mais antigas das reuniões da Junta Paroquial de Guisande há várias referências à prestação de trabalho.

Quanto ao fim de tal obrigação:

A obrigatoriedade da prestação de trabalho braçal e de tracção animal em Portugal não desapareceu de um momento para o outro, mas sim através de um longo processo de transição administrativa e fiscal que se estendeu até às primeiras décadas do século XX.

A transição definitiva ocorreu principalmente por dois factores:

- Reforma Tributária e Administrativa:

À medida que o Estado português modernizou o sistema de impostos, as "fintas" (impostos em trabalho ou espécie) foram progressivamente substituídas por contribuições exclusivamente monetárias, como a Contribuição Predial. Este movimento ganhou força com a implantação da República em 1910, que procurava eliminar vestígios de obrigações que remetiam ao período senhorial.

- Código Administrativo de 1936: Foi durante o Estado Novo que se consolidou a estrutura moderna das autarquias. Embora o espírito de "trabalhos para o bem comum" tenha sido mantido em contextos de emergência, a obrigatoriedade regular de braçagem para obras municipais foi formalmente removida da legislação corrente, sendo substituída por taxas municipais e orçamentos financiados pelo governo central.

Embora a lei tenha deixado de obrigar o trabalho físico no início do século XX, a prática sobreviveu de forma voluntária em muitas aldeias portuguesas sob a forma de "roças" ou "balhos". Nestes eventos comunitários, os vizinhos ainda se reuniam para limpar caminhos ou consertar muros de forma gratuita, mantendo vivo o propósito original de cooperação local que os documentos de 1868 registavam como uma obrigação legal.

Procissão de Velas - 2026

 


A procissão de velas na paróquia de Guisande realiza-se amanhã, Sexta-Feira, 15 de Maio de 2026. Será celebrada Missa pelas 20:00 horas e no final sairá a procissão pelo percurso assinalado no mapa, numa extensão de 5,0 Km. 

A procissão sai da igreja, segue para as Quintães e Viso, desce até à capelinha do Senhor do Bonfim, sobe para a Barrosa, entra na Rua 25 de Abril  e segue até  Fornos, corta e segue pela Lama até Casaldaça, corta para a Rua de Trás-os-Lagos e segue até à Gandarinha e ali vira a sul seguindo pela Rua Nossa Senhora de Fátima até ao cruzamento da Leira onde cortta para a Igreja, terminando na alameda frontal.

Pede-se que as pessoas sigam ordenadas em duas filas, evitem ir amontoadas, e que ocupem apenas meia faixa da estrada, principalmente na Rua 25 de Abril e Rua Nossa Senhora de Fátima, as mais movimentadas. 

13/05/2026

Nota de falecimento - Mãe do pároco Pe. António

 

Faleceu ontem a mãe do nosso pároco Pe. António Jorge.


A perda de um pai, mas sobretudo de uma mãe, é certamente uma tristeza imensa e um vazio de alma, porque vemos partir quem nos gerou, cuidou e amou.
Consola-nos, como cristãos e crentes, a certeza de que estará já em paz, a viver a sua plena Páscoa, em eterno descanso e certamento continuará viva nas memórias dos filhos, dos seus familiares e comunidade.

De minha parte e certamente da nossa comunidade, um abraço apertado e sentido ao Pe. António neste momento de dor, e certamente ajudará a consolá-lo a nossa solidariedade e a certeza de que sabe que a sua mãe está agora em paz depois de um período de doença e debilidade e que apesar dos seus compromissos, como filho dedicado, sempre procurou acompanhar e estar próximo num esforço e preocupação constantes.

Que descanse eternamente em paz!