Abordou-me no Domingo à tarde na festa, o ti Alcides do Martinho. Num respeito e consideração que é mútuo, soltou no seu característico tom: - Américo, tens que escrever e fazer ver ao povo que a nossa festa é de Guisande, é no Viso e não do Viso!
Afinal, estava em causa a aplicação de uma preposição gramatical. Importantes, mas que podem ter sentidos bem diferentes, a indicar pertença ou apenas localização.
Sem grandes delongas, uma preposição é uma palavra invariável cuja função principal é ligar dois termos numa frase, estabelecendo entre eles uma relação de dependência e de sentido.
Bem sei que o ti Alcides, que conheço dos meus primeiros anos, porque vizinho, ainda antes de rumar para França com os filhos atrás, tem razão. De resto, nem foi a primeira pessoa a dizer-me o mesmo. Eu próprio concordo. Não obstante, é daquelas coisas que, à custa de tanto malhar nelas, acabam por se entranhar na nossa forma de as dizer. Assim, de tão habituados, referimo-nos à nossa romaria como Festa do Viso.
Posto isto, bem ou mal, e sem discordar do ti Alcides e de quem considerar o mesmo, será agora difícil mudar hábitos, porque ambos burros velhos, eu e o ti Alcides, mesmo que uma diferença de mais de vinte anos nos separe.
Bem ou mal, a pedra há muito que rola pela ladeira abaixo e já ninguém a conseguirá deter e teremos de aceitar que no presente e futuro será sempre a Festa do Viso.
Mas mais do que a importância de chamar os bois pelos nomes, este episódio aproveito-o para falar do ti Alcides.
Nasceu em 9 de Janeiro de 1939, filho de pai dado como incógnito e Adelina Rosa de Jesus, neto materno de Martinho Gomes da Silva (daí o apelido de ti Alcides do Martinho) e Olinda Rosa de Jesus. Deu-lhe a mãe, que bem conheci, o nome de Alcides Gomes de Jesus. Casou em Guisande em 31 de de Janeiro de 1959 com Maria Alzira Pereira dos Santos, ambos do lugar de Cimo de Vila. Como tantos portugueses, mesmo de Guisande, emigraram pela década de 1970 para França, onde se fixou na região de Bordéus (Bordeaux). Levaram consigo os filhos, incluindo o Alberto, mais ou menos da minha idade, por isso amigo mais chegado. Durante anos regressavam de férias antes uns dias da festa e o Beto vinha logo a minha casa. Trazia sempre alguma coisa de lembrança, como umas cassetes com músicas ainda desconhecidas por cá, livros, filmes (até mesmo daqueles a fazer-nos perder a inocência), etc. Assim foi até à minha ida para a tropa pelo ano de 1983. Ele próprio casou, teve filhos e a ligação foi quebrada e de há muito que raramente nos vemos e muito menos falamos. A vida é mesmo assim. Cada um na sua.
Mas são mais os filhos do ti Alcides e ti Alzira, como o António, a Conceição, a Fátima e a Armandina. Se alguns esqueci, é mesmo por isso, esquecimento.
Mas um dia, no cumprimento do sonho, embora cada vez menos a saudade seja doença que não se desapegue a ponto de muitos por lá ficarem definitivamente, o ti Alcides e a esposa lá regressaram de vez à mesma casa, que melhorou, e por cá têm estado há já uns valentes anos. É gente boa e gente rija e ambos, ele e a esposa, já quase a queimar os noventa anos. Com queixas e ameixas lá vão indo e andando.
Que continuem por cá, e que o ti Alcides, que frequenta assembleias de freguesia e outras sessões de cidadania, continue postivamente a tentar colacar os pontos nos is, bem como, frequentemente, também como é típico em muitos dos nossos e emigrantes, a bendizer aquelas terras que os acolheu, em contraponto à nossa, tantas vezes apelidando-a de “atrasada”. Como se vê, atrasada era já no tempo da velha senhora, o que levou milhares a procurarem outra vida noutras terras, mas mesmo que ela tenha já morrido e sido enterrada há mais de meio século, ainda continuamos um país e um povo com défices. Bem melhores, certamente, ou não servissem para nada os milhões e milhões que têm vertido da União Europeia e o calote público, mas ainda com um atraso importante, sendo que este já mais de mentalidade e má governação. Daqui a mais cinquenta anos já não estaremos por aqui, eu e o ti Alcides, para ver como será então este nosso país, mas, pelo rumo e qualidade dos nossos governantes e políticos, da esquerda à direita, será um milagre que os nossos netos e bisnetos (quem os tiver ou chegar a ter) vivam num Portugal melhor no que lhe falta de essencial.
Mas, bastando de pessimismo, mal da idade, fazem falta mais ti Alcides na nossa freguesia. Mesmo que à porta dos 90, ainda consegue ter mais intervenção e sentido crítico que muitos com 60 e 70 a menos. É o que é!
Obrigado, ti Alcides! Bem haja por me chamar à atenção de que a nossa maior festa é no Viso e não do Viso. Recado dado e transmitido!



























