28/02/2026

Entre o 8 e o 80, o bom senso, o equilíbrio


Entre o 8 e o 80 há, certamente, um ponto de equilíbrio. Quando essa realidade é ignorada e se opta por um dos extremos, raramente os resultados são os melhores.

Se é verdade que, em determinados contextos, o radicalismo pode ter utilidade, em regra produzem melhores efeitos as soluções equilibradas, sobretudo quando está em causa uma decisão pública e comunitária.

A limpeza ou abate da maioria das plantas que, há anos, adornam o adro da nossa igreja matriz - tanto na parte pública como na pertencente à paróquia - e que tem sido realizada nestes dias, poderá revelar algum excesso de radicalismo.

É evidente que as plantas, como quaisquer seres vivos, envelhecem, adoecem e acabam por morrer. Também é legítimo substituí-las por espécies mais adequadas, restituindo em pouco tempo o aspecto bucólico e primaveril que há décadas caracteriza a envolvente da nossa igreja. Ainda assim, parece-me que a intervenção poderia ter sido mais gradual. Em matérias que envolvem uma comunidade, decisões abruptas tendem a dividir: há quem concorde, quem discorde e quem, como eu, entenda que o bom senso e o equilíbrio favorecem não só o objectivo pretendido, mas também a conciliação de diferentes perspectivas.

Pelo que tenho ouvido, alguns compreendem a intervenção, esperando uma renovação; outros manifestam desagrado e até revolta.

Independentemente de quem tenha tomado a decisão e da legitimidade que lhe assista, creio que teria sido desejável maior ponderação e, eventualmente, a auscultação da comunidade.

Em suma, reconheço que decidir nunca é fácil e que agradar a todos é impossível. Contudo, abdicar da procura de consensos e de equilíbrio, bem como do respeito por opiniões divergentes, representa uma falha.

Da minha parte, não assumo uma posição de indignação, longe disso, mas não escondo alguma tristeza. Julgo que teria sido possível uma intervenção menos radical e faseada, talvez antecedida de algum tipo de consulta à comunidade.

Perante o que já foi feito, resta esperar que o resultado final venha a revelar-se positivo. Para já, o que se vê é um cenário de desolação. Este não é o adro que sempre conhecemos; espero que rapidamente recupere a sua identidade.

27/02/2026

Formação - 17 de Março de 2026

 


Divulgação - Festa do Viso - 27 e 28 de Fevereiro de 2026

 

Vazia sensação


Tenho para mim, em jeito de confissão e reconhecimento, que as redes sociais, e o Facebook em particular, por via do hábito, encerram o potencial de espelhar tudo o que a sociedade possui de virtuoso. Todavia, sendo elas o reflexo fiel da condição humana, constituem igualmente um palco privilegiado para o seu reverso. Subsiste, sob o jugo dos filtros e a discreta ditadura dos algoritmos, um oceano de banalidades, onde o ego e a vaidade se sobrepõem à substância. Impera e prevalece o antes parecer que ser. São, por assim dizer, vinhas de muita parra e parca uva, solo onde a vindima raramente compensa o esforço.

Seria, decerto, um exercício de rara fruição observar mentes dotadas de rasgo e saber partilharem o que de facto enriquece o espírito: o pensamento crítico, a erudição artística e a reflexão fecunda. Na escrita, nas artes e na cultura em geral, não escasseia o talento; contudo, aqueles que o detêm tendem a exilar-se destes púlpitos. Compreende-se o recato: o mesmo espaço que num instante ensaia um aplauso, logo de seguida urra a vaia e a desconsideração gratuita.

É, por conseguinte, um terreno insidioso para quem ousa a diferenciação. Percebe-se, assim, a escassez de vozes de relevo e a raridade das suas aparições. Perante o panorama vigente, o dilema do espírito culto permanece insolúvel: entre a sensação de lançar pérolas a porcos e a futilidade de atirar pedras a águas estagnadas, a escolha revela-se um exercício de amarga resignação.

Enquanto isso, resiste-se, mas numa amarga ou vazia sensação de que inutilmente. 

25/02/2026

Nota de falecimento - Jorge dos Santos Alves

 


Faleceu Jorge dos Santos Alves (Jorge do Teixeira), de 56 anos.

Natural da Pereirada - Guisande, estava emigrado em França.

Cerimónias fúnebres na Sexta-Feira, 27 de Fevereiro, pelas 16:00 horas, na igreja matriz de Guisande. No final irá a sepultar no cemitério local.

Missa de 7.º Dia no Sábado, 28 de Fevereiro, pelas 17:30 horas, na Capela do Viso.

Sentidos sentimentos a todos os familiares, de modo particular à esposa, filhas e irmãos.

Que Deus o tenha em eterno descanso!

Meu caro Portugal


Meu caro Portugal:

Dizem-me que mais uma vez está você em maus lençóis, mas essa é, creio, a opinião dos que o conhecem mal a sua História. Tanto quanto sei, e para falar apenas da experiência dos meus mais que muitos anos, você raro esteve em bons.

Recorda o que lhe aconteceu depois dos Descobrimentos? Lembra-se do Volfrâmio? Tem presente como há vinte e poucos anos se deixou ir no vigário de que para ser feliz e rico bastava fazer-se pequenino e chupar as tetas da UE? Porque os gajos eram mesmo burros e você esperto sem igual?

Que fez com os milhares de milhões que lhe deram para que crescesse e melhorasse? Descanse, não vou esfregar sal nas feridas, mas para quê esses estádios, essas inúmeras e inúteis Casas da Cultura em terra de analfabetos? Não se envergonha do quarto miserável que em sua casa é o Nordeste transmontano?

Deram-lhe fortunas para aplicar no bem comum, gastou-as você, pobre novo-rico, em relógios de ouro, Mercedes, Jaguars, e reformas milionárias, esquecendo que um terço dos seus familiares não tem dinheiro para aquecer o lar no inverno, que são sem conta os miseráveis, os desesperados, os que sofrem porque ninguém lhes acode na doença e morrem sem amparo.

Entretanto, você, meu caro Portugal, dança, esbanja dinheiro que não é seu, gasta em férias exóticas o sustento dos seus filhos. Já alguma vez lhe passou pela cabeça que o que paga pelos almoços de gourmet em restaurantes chiques é tirado da boca dos seus compatriotas?

E diga-me: que cara devo pôr quando aqui onde vivo, sabendo-me português, me apontam e se riem, me envergonham dizendo de si as verdades cruas? Já nem o comparam às repúblicas bananeiras, que essas são de longe, não pertencem à Europa, mas colocam-no numa categoria à parte, a dos trafulhas, (*) os que sabem que um dia virá em que inevitavelmente se descobre a trafulhice, o que pouco importa, porque lhes falta vergonha na cara e outros terão de pagar o desfalque.

Poupo-lhe o que me contam da sua Justiça, da suas autoridades, das camarilhas e quadrilhas que, fingindo governá-lo, lhe sugam o que tem e o que lhe emprestam.

Para mim, meu caro Portugal, e isso desde que nos conhecemos, você sempre foi uma dor. Mesmo naquele momento de euforia dos cravos não pude esquecer quem você é e como sempre se comporta. Quer acreditar que não dei vivas? Em coisa de meses já as quadrilhas e as camarilhas se deitavam ao bolo, deixando ao povo dois ossos: o da democracia e o da liberdade, ambos fraco sustento para quem tem fome.

Muitos anos passados, com um humor que escondia o pesar, sugeri que, para o salvar de si próprio, um consórcio de nações o comprasse e transformasse numa reserva. Mas nesta altura creio que ninguém o quererá, mesmo dado. Teremos de continuar a suportá-lo nós, seus maltratados e desprezados filhos, da mesma maneira que fazemos há séculos: mourejando no chão de pedras ou indo amargar em terra alheia.

J. Rentes de Carvalho

24/02/2026

Há quem vá ao "Barrigas"; Há quem vá ao "Fidalgus"

Quase todos, eu e os que gostam de, pelo menos de vez em quando, ir almoçar ou jantar a um restaurante, já passaram por isto: Por vezes, relativamente próximos, em tempo e distância, dois mundos parecem colidir: Num local, o restaurante "Barrigas do Povo": sem peneiras, sem guardanapos de pano, um bacalhau, à casa ou à "liberdade", que precisa de dois pratos para caber, um vinho da região honesto e uma conta que nos faz sair a sorrir, mesmo com entradas, saídas e o habitual "cheirinho". Ainda a pedir um saco para levar as sobras para o cão ou mesmo para uma refeição no dia seguinte.. 

Noutro sítio, o "Fidalgus", com fundo musical suave, decorações estilosas: aí, uma dose que parece uma amostra grátis, uma lasca de bacalhau solitária no meio de um grande prato, pintalgada por azeite ou molho inglês, uma qualidade que, para além do estilo, não deslumbra de todo, e no final uma conta que parece o orçamento de defesa de um pequeno país. O vinho que sabemos que na loja do Pingo Doce custa 4,00 euros, ali não se contenta a custar, compreensivelmente, 10, mas 20 euros. Se for um Giroflé ou Giroflá, coisa de autor, ui, ui!

O mistério, diga-se e em boa verdade se esclareça.  não é só gastronómico, antes sociológico. Senão, vejamos: O "Imposto de Vaidade" - Por que é que no "Fidalgus", se a comida , não sendo pior, não é seguramente melhor? Quiça com umas pétalas de rosas, umas raspas de cenoura e duas folhinhas de beldroegas? A resposta é simples: o cliente não está ali para comer. O que está na mesa é um acessório, como um relógio de marca ou uma mala que custa mais que todo o dinheiro que nela se consiga meter dentro. O preço inflaccionado não é um erro de cálculo do dono ou do empregado de mesa; é apenas um filtro social, de estatuto, de diferenciação.

Num mundo (digamos, pelo nossa zona) onde qualquer um pode comer bem por 20 €, o verdadeiro luxo, para alguns mais abonados ou com reformas de médico ou professor, é pagar 50 € por algo parecido, apenas para garantir que o vizinho da mesa do lado tem o mesmo extracto bancário (ou, pelo menos, a mesma pretensão). É o chamado consumo conspícuo: a arte de gastar dinheiro para sinalizar que se tem dinheiro. Por regra, a ementa funciona apenas como um guião teatral.

Na verdade, no "Fidalgus", a dose é, regra geral, minimalista, apelidade de "gourmet", inversamente proporcional ao ego. Quanto menos comida houver no prato, mais "sofisticado" o cliente se sente. Afinal, comer até ficar satisfeito é coisa de quem trabalha no duro, de um qualquer trolha ou pedreiro; a elite, essa prefere a "experiência" da fome, do gourmet, da "comida de autor", seja lá que caralho isso queira dizer.

O vinho: É o mesmo que custa 4 € no supermercado, mas aqui, baptizado pela iluminação ambiente e por um escanção que nos olha de cima, que saca a rolha, e cerimoniosamente dá a provar e a cheirar, passa a valer 30 ou50 €. E o cliente paga, não pelo sabor, por vezes até a saber a rolha como um qualquer Malaquias, mas pelo som da rolha a saltar num sítio onde "toda a gente" o vê, num gestual teatral, de especialista, a percebe der "terroir".

O paradoxal da realidade: O mais irónico é que muitos destes clientes nem sequer têm o estatuto que tentam comprar. São os aspiracionais. Pagam o bife duro e caro com o cartão de crédito no limite, apenas para poderem dizer, no dia seguinte, que "estiveram lá". É uma espécie de masoquismo social: sofrem no estômago para brilhar na conversa de café ou nas redes sociais. Não falta gente dessa.

Enquanto isso, por vezes em local próximo, o cliente "esperto" mas ruidoso, delicia-se com um lombo de bacalhau suculento ou com um bife à Zé de Ver. E cebolada à fartazana. E queijo com marmelada, ambos fatiados sem cerimónia ou facas da Tramontina.

Conclusão: Qual é a sua fome? No final do dia, a restauração divide-se em dois tipos de serviço: os que alimentam o corpo e os que alimentam a vaidade. Mais ou menos isso.

Se procura qualidade e quantidade, siga o cheiro da comida boa e o barulho das pessoas satisfeitas, mesmo com algumas moscas no ambiente, toalhas e guardanapos de papel. Se procura sentir-se "superior" enquanto mastiga um bife médio, prepare a carteira. O estatuto tem um preço, e normalmente, esse preço é uma má digestão e uma conta pesada. Mas nada que não se aguente. Afinal, o estatuto paga-se.

A pergunta que fica é: da próxima vez que sair para jantar, vai levar o seu paladar ou o seu currículo?

Segue-se uma tabela toda bonita que compara ambas as experiências:

Característica Restaurante "Barrigas do Povo" (20 €) Restaurante "Fidalgus" (50 €)
Foco principal O estômago (Satisfação real) O ego (Satisfação social)
Perfil do cliente O "Esperto" (Procura valor) O "Vaidoso" (Procura sinalizar)
Pós-Refeição "Comi um bacalhau incrível e barato!" "Estive ontem no "Fidalgus""
Estratégia Passa-palavra da qualidade Exclusividade e preço como filtro