" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

14/07/2026

Tempos estranhos estes


Vivemos tempos de profunda estranheza, nos quais a realidade parece redefinir-se a um ritmo quase irreconhecível. Este fenómeno, longe de ser exclusivo de Portugal, estende-se à escala global e manifesta-se de forma evidente no nosso quotidiano. A linha que outrora separava o expectável do invulgar tornou-se ténue, diluindo-se num degradê de constantes transformações.

A própria composição das selecções nacionais de futebol, como as de França, Suécia, Suíça ou Noruega, espelha esta mixórdia demográfica e cultural que reina na velha Europa. Para uns, esta diversidade representa o resultado inevitável de uma complexa transição multicultural na Europa moderna; para outros, constitui uma evolução enriquecedora assente na pluralidade. Distantes parecem os tempos em que figuras históricas, como Viriato, se batiam contra influências externas em nome de uma soberania a evitar o progresso da civilização romana. Paralelamente, entidades como a FIFA demonstram frequentemente que a lógica de mercado se sobrepõe a quaisquer outros valores, obedecendo a todos-poderosos, revelando um pragmatismo que, se não surpreende, pelo menos expõe de forma clara as suas prioridades.

A nível interno, assiste-se a uma resistência sistemática a reformas estruturais, quer no plano laboral, quer na justiça ou na educação. Numa era dominada pela transição digital e pela inteligência artificial, subsiste uma persistente relutância em abandonar métodos tradicionais, como as avaliações escolares físicas em papel, não se dispensando os clipes e agrafes, revelando o descompasso entre a velocidade do progresso tecnológico e a inércia institucional. Somos avessos a reformas e as entidades corporativas e sindicais impõem-se a quem ouse desafiar o status-quo.

Por outro lado, deparamo-nos com paradoxos inquietantes: enquanto as farmácias nacionais e seus utentes sofrem com a escassez de determinados fármacos, enviam-se toneladas de ajuda humanitária para países como a Venezuela, uma nação historicamente rica em recursos naturais e petrolíferos. Embora o espírito solidário português perante crises humanitárias seja inegável e louvável, ao qual muitos, de forma altruísta, se associam, como eu na justa medida, gera-se uma inevitável reflexão sobre a eficácia de apoios dirigidos a Estados e a povos que não se ajudam, que falham persistentemente na sua própria governação e autossuficiência.

Ao nível da gestão local, observa-se frequentemente uma canalização desproporcionada de fundos públicos para eventos de lazer e festivais, festas e festarolas, em detrimento do investimento em infraestruturas básicas e duradouras. A escassez de água, como agora em Almada, é o reflexo directo desta fragilidade de planeamento. Mesmo em regiões onde o abastecimento ainda se assegura, como no nosso concelho, o custo do recurso atinge valores exorbitantes, dos mais caros no país, enquanto ainda persistem habitações desprovidas deste bem essencial. A concessão gere-se apenas pelo objectivo de lucro, quanto mais, melhor. 

No âmbito comunitário, o investimento de somas avultadas em espectáculos artísticos associados a festividades locais, como ainda agora numa freguesia vizinha,  em que alguém estourará qualquer coisa como cem mil euros, em nome de uma santa, duvidando eu que ela aprovasse tal gasto, levanta dúvidas morais sobre as prioridades colectivas, parecendo contradizer o próprio espírito de sobriedade que deveria nortear tais celebrações. No entanto, prevalece frequentemente a máxima clássica do "pão e circo", onde o direito individual ao usufruto do próprio capital legitima qualquer opção de despesa. Além do mais, que importa questionar quem decide gastar o seu dinheiro desta forma e não de outra mais louvável? Responderão que "o dinheiro é meu, queimo-o como quiser". E com razão.

Em suma, enfrentamos uma época de transição e incerteza. A erosão de critérios éticos e de valores de referência parece sugerir que a sociedade contemporânea carece de um fio condutor ou de propósitos colectivos de longo prazo. Ao preterirmos as referências espirituais, humanistas ou metafóricas em favor de um imediatismo puramente material, corremos o risco de viver o presente como se não houvesse amanhã, abdicando da construção de um legado sólido para as gerações vindouras.

13/07/2026

Festa do Viso 2026 - Cartaz (não oficial)

 





Os presentes cartazes, são apenas meros exercícios gráficos. Sendo um tema que me agrada, o design e elaboração de cartazes, partilho-os aqui, apenas como simples exercícios.
Do cartaz oficial da nossa festa, já divulgado pela laboriosa Comissão de Festas, podendo, ou não, ser do nosso agrado, apenas fico triste pela omissão da referência à freguesia de Guisande e à troca da figura do Santo António. Não havia necessidade. O resto, são opções gráficas que se respeitam mesmo que, eventualmente, não se apreciem.

12/07/2026

Paróquia com novo ciclo


As comunidades paroquiais de Guisande, Pigeiros e Caldas de S. Jorge, foram, neste fim e princípio de semana, confrontadas com a triste e inesperada notícia da decisão do Bispo do Porto em mudar o seu pároco Pe. António Jorge para outra comunidade inter-paroquial (três paróquias de Paços de Ferreira). 

Tal como tive a oportunidade de expressar o meu sentimento em relação a essa decisão, na reunião de Quinta-Feira, 9 de Julho, em que o pároco deu a conhecer a sua partida aos elementos dos conselhos pastorais paroquiais, pessoalmente senti um “murro no estômago”,  triste e decepcionado, porque num contexto e tempo em que tal não era previsível de todo, depois de um período de aprendizagem e conhecimento mútuos, com as comunidades por si e em conjunto, já a dar frutos. No geral, sentia-se uma saudável e interessada união entre as comunidades e o pároco e este já a conhecer relativamente bem as suas ovelhas e características próprias. 

É certo que todos sabemos e procuramos compreender o problema estrutural que é a insuficiência de sacerdotes, e que tal panorama tenderá a agravar-se nos próximos anos, mas estas decisões e mudanças sem aparentes motivos, levam ao desânimo das comunidades, a constantes recomeços nas suas dinâmicas. Se bem repararmos, nestas decisões de mudanças de pároco, muitas vezes trocando apenas as peças, as comunidades nunca são tidas nem achadas e ficam sempre do lado de fora. O que pensam e qual o seu sentimento, são coisas que parecem não preocupar o Bispo. Soam, pois, a falso, certos discursos da hierarquia da Igreja e das Dioceses numa tentativa de mais envolvimento das comunidades e dos leigos, incluindo a tão falada sinodalidade, porque depois, na prática, são tomadas estas decisões unilaterais, incompreensíveis e injustificadas, a quebrar ritmos e crescimento.

Por conseguinte, confrontados com estas decisões e mudanças, e sem sabermos o que nos espera, por melhores que sejam as referências a quem virá como substituto, todos nós temos diferentes formas de encarar e lidar com elas. Uns, verão o copo meio cheio, outros, meio vazio, ou seja, com mais ou menos optimismo e pessimismo, aceitação e decepção, outros, também é certo, com indiferença.

No meu caso, e nestas coisas cada um tem o seu sentimento, esforço-me em procurar compreender ambos os lados, bem como as dificuldades da Diocese e do Bispo mas não fico impedido de ficar profundamente decepcionado, porque neste caso em concreto, nada, vezes nada, parece-me justificar a saída do Pe. António Jorge, porque com as comunidades em harmonia e cooperação e já a frutificarem mesmo ao nível da inter-paroquialidade, mesmo que, é certo, ainda com caminho para fazer.

Quando o Bispo não tem em conta nem em consideração os paroquianos, mudando as peças do xadrez em lances incompreensíveis, também não pode esperar dos mesmos uma compreensão cega.

Posto isto, espero, de facto, que o novo pároco seja bem acolhido, que seja capaz de entender e compreender as particularidades de cada uma das paróquias, que queira retomar o que de positivo já foi construído, que não desvalorize nada, que não haja uma perda de qualidade e regularidade dos serviços, nomeadamente nas celebração nas festividades, Sábados e Domingos, mas por minha parte pretendo passar a ser apenas uma ovelha sem compromissos, atenta mas discreta.

Cada um, por si, terá o entendimento que quiser. Por mim, considero que se fechará um ciclo e começará outro. Como no Estado, um novo governo exige novos ministros. 

Ao Pe. António, que aprendi a respeitar e a valorizar pelo seu rigor nos serviços e organização, fica o meu agradecimento pessoal, pela confiança em mim depositada em algumas tarefas que me incumbiu de colaborar, e faço votos sinceros que seja capaz de enfrentar com ânimo um novo recomeço pastoral e que também ali, nas suas novas paróquias, seja aceite e valorizado e tenha um trabalho profícuo, pastoral, espiritual e social.

 Ficará, certamente, na boa memória da maior parte de nós, mesmo que duma vivência que foi curta, muito curta. Obrigado. Pe. António!

10/07/2026

Datas e enterramentos

 


Com a data de 4 de Outubro de 2010, em artigo publicado no jornal "Terras da Feira", o correspondente Sr, Mário Baptista, aborda algumas datas relacionadas à nossa igreja matriz e interroga se 1910, foi mesmo o ano de construção do cemitério paroquial e se antes disso onde eram enterrados os mortos, se dentro da igreja ou se no adro?

De facto, o cemitério foi realizado em 1808/1909 e concluído por 1910. Antes disso os enterramentos era feitos no adro envolvente à igreja matriz e desde que os sepultamentos foram proibidos no interior da igreja, o que aconteceu por decreto do governo liberal em 1835.

Do que consegui pesquisar, o primeiro enterro no adro aconteceu em 2 de Agosto de 1833, por isso até antes da lei, de um José Jacinto, de 46 anos do lugar da Leira. Foi sepultado em frente da cruz que estava junto à porta-travessa do lado norte.

Apesar disso, posteriormente ainda encontrei alguns enterramentos dentro da igreja, especialmente de crianças, mas a partir de 1837 começaram a generalizar-se no adro, até porque as autoridades agiam sobre os párocos que não cumprissem as determinações legais.

Perante o incumprimento generalizado do decreto de 1835, uma vez que a população e o clero resistiam à mudança por motivos de tradição religiosa e estatuto social, o governo de António Bernardo da Costa Cabral reforçou a proibição com novas penalizações e regulamentos sanitários através da Lei de 28 de novembro de 1845.

Por conseguinte, em Guisande, os enterramentos no adro da igreja decorreram durante quase 70 anos. É pois, tal como o cemitério, solo sagrado.

09/07/2026

Reunião do Conselho Pastoral Inter-Paroquial

Hoje, pelas 21:00 horas, no Salão Paroquial das Caldas de S. Jorge, reunião inter-paroquial com os elementos delegados dos diferentes grupos e movimentos no Conselho Pastoral. ´

Na ordem de trabalhos, a preparação da agenda do próximo ano pastoral e uma importante comunicação do pároco Pe. António Jorge.

Causas perdidas...

 


No melhor pano...

 


A Comissão da Festa do Viso para esta edição de 2026, é malta do melhor, dedicada e incansável nas diversas situações de angariação de fundos e será certamente assim até ao final da festividade.

Apesar disso, pessoalmente lamento e entristece-me pela falta de alguma sensibilidade ou atenção no modo como fez ou mandou fazer o cartaz oficial da festa. Não discutindo a composição gráfica (porque gostaremos ou não), não posso deixar de notar a omissão da referência à freguesia. De facto, GUISANDE deveria constar e em letra destacada.  

A imagem de Nossa Senhora da Boa Fortuna usada é discreta, apenas em rosto e em menor tamanho que o artista pimba José Malhoa. Há valores e princípios que não deveriam ser trocados ou beliscados. Por outro lado, num pecado que não é inédito, volta a usar-se uma figura de Santo António que não corresponde às imagens existentes na capela ou na igreja. Continua a repetir-se esta falha. Esperemos que não aconteça o mesmo nas pagelas.

Um cartaz deveria ser sempre muito cuidado, sobretudo nos elementos que se consideram obrigatórios e identitários, como a imagem dos santos a quem se dedica a festa bem como o nome da freguesia. Mesmo a capela poderia constar.

Posto isto, e quanto ao programa, parecendo modesto, será o possível para os nossos recursos. Apenas de destacar que o Rancho Regional da Vila de Lobão, sem beliscar a sua qualidade, parece ter contrato vitalício com a nossa festa pois tem sido recorrente (em 2022, 2023, 2024 e agora em 2026). Creio que, dentro do possível, devia-se dar atenção à diversidade e por isso contratar com frequência um mesmo grupo não parece ser a melhor opção. De resto, o que não faltam é outros ranchos, mesmo ao perto.

Em resumo, nada belisca no essencial o trabalho e dedicação da Comissão de Festas, mas é pena que certos pormenores sejam deixados ao acaso ou à falta de sensibilidade.