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9 de agosto de 2022

A capela do Viso e outras memórias


Costumo dizer que, até ter casado, eu não ía à Festa do Viso; eu estava na Festa do Viso, já que ali nasci e cresci, mesmo encostadinho à capela e ao arraial. Por conseguinte, são muitas e remotas as memórias ligadas à festa, àquele bonito lugar e aos pormenores e singularidades de outros tempos, que naturalmente foram mudando com o correr dos anos. A própria fotografia, acima, de 1969, evidencia algumas coisas mudadas, sobretudo as árvores, as acácias, que já desapareceram.

A capela, é certo, continua imutável no mesmo sítio, desde que foi edificada por 1859, mas também ela foi sofrendo obras, sobretudo de conservação, umas mais ligeiras, outras mais profundas. Estas, as mais significativas, do que tenho memória ocorrerem em 1969, à passagem do centenário da edificação, com obras de decoração interiores, de trolharia, carpintaria, pintura e douramento os altares, requalificação do tecto e aplicação de azulejo na fachada principal incluindo os paineis das figuras da Senhora da Boa Fortuna e de Santo António, e ainda a construção do arco sineiro. 

Mais tarde, em 2004, com a requalificação da cobertura e destapamento do pavimento em soalho ficando com o interessante pavimento original em lajes de pedra do Monte de Mó. Ainda a reformulação do coro e construção de escada interior, facilitando o serviço. De registar melhoramentos como a instalação de bancos, a colocação do relógio com amplificação, etc.

Depois disso foram sendo dadas umas pinturas ligeiras, ainda o levantamento do arco sineiro para acomodar o automatismo dos toques, mas o certo é que neste momento a capela está de novo a precisar de obras de conservação, sobretudo ao nível das vedações na cobertura e nos rebocos interiores, que se apresentam vergonhosamente em mau estado e aspecto.

Para além das intervenções na capela propriamente ditas, ao longo dos anos, também a sua envolvente foi sendo mexida, com a realização de passeio cimentado e uma parte em calçada de pedrinha de calcário e basalto, mas certo é que ainda continua sem dispor de uma envolvência requalificada com uniformidade e dignidade. É um caminho que falta percorrer.

Ate mesmo o próprio monte ou arraial, depois das obras de transformação durante os anos 90 e seguintes, continua ainda a carecer de melhoramentos. A calçada frontal à capela e guias delimitadoras estão em mau estado, sobretudo decorrente do crescimento das árvores e respectivas raízes. Ainda o parque de merendas que continua bruto e com desorganização de árvores e arbustos. Enfim, não faltam motivos e pretextos para realizar obras de requalificação e melhoramentos. Haja o que não tem havido, vontade e dinheiro.

Já o tenho dito, quando participei na primeira Junta da União das Freguesias, fiz elencar como uma das obras de charneira em Guisande, a requalificação da zona do parque de merendas e envolvente da capela. Infelizmente, como quem não manda não pode, a juntar às dificuldades financeiras herdadas da transição, e com pouca ou mesmo nenhuma vontade política de quem na realidade mandava, incluindo a Câmara Municipal, a coisa passou, como tantas vezes acontece, como uma mera promessa eleitoral não cumprida. Depois disso veio mais um mandato de quatro anos e o assunto continuou na gaveta e a não merecer qualquer interesse e nem mesmo a limpeza regular do espaço foi assegurada, apenas pautada pelo calendário dos eventos. Entretanto o tempo avança e um terceiro mandato já está quase a completar um ano de quatro.

Apesar dessa minha incapacidade, porque apenas um mero vogal, penalizo-me por isso, é por essas e por outras, por não sermos tomados em conta ou até mesmo desconsiderados, que somos levados à desmotivação quanto ao continuar a dar tempo e dedicação à cidadania. Mas, adiante, até porque já correu muita água sob a ponte da Lavandeira.

Tenho esperança que a actual Junta ali faça qualquer coisa de relevante, sabendo que as pedras no sapato são muitas, mas pelo menos nota-se em quem dela faz parte, sobretudo do seu presidente, um maior interesse e abertura a fazer ali obras.

Resumindo  há tanto a escrever sobre a capela e monte do Viso, e mesmo das memórias relacionadas à festa, que espero, de algum modo vir a incluir algumas delas no meu futuro livro de apontamentos sobre a freguesia.

8 de agosto de 2022

Momentos... O Pe. Santiago



A procissão solene, a seguir à celebração da Eucaristia, é e deve ser um dos momentos mais significativos de uma festa de carácter religioso. Iremos muito mal quando a cereja no topo do bolo for um qualquer cantor pimba ou uma espampanante banda de topo. Mas há quem veja a coisa apenas e só por aí. Adiante.

Durante o percurso da procissão solene de ontem ao final da tarde, incorporado no magote de gente que seguia a Banda, a toque de caixa e de marchas próprias, não deixei de reparar que o Pe. António Santiago também assistiu à sua passagem, junto à sacada de sua casa. 

De idade avançada e debilitado, não deixou passar esse vislumbre de solenidade de que tantas vezes fez parte nas paróquias por onde missionou . 

Por comparação, não impedi que me viesse à memória uma fotografia de outros tempos, mesmo que a preto-e-branco, quando pelo 15 de Agosto de 1961, por isso  há mais de 60 anos, então jovem e viçoso, saiu dali, daquela mesma casa, também numa espécie de procissão solene, com a estrada juncada de verdura, flores e alegria humana, a caminho da Igreja onde celebraria a sua Missa Nova.

Há momentos assim, significativos, como tecidos e laboriosamente entrelaçados pelas agulhas prateadas do tempo, que teimam ajustar-se ao nosso corpo como um traje cerimonial. 

Que Deus lhe conceda um fim de vida de paz interior, porque foi longa e bonita a sua missão. 

Bem haja!

26 de julho de 2022

Bandas de cá, de lá, dali e da colá


A propósito da Festa do Viso programada para este ano, parece que alguém terá dito que "...pela segunda vez em Guisande". Não é que seja importante, mas para além de já ter estado por cá recentemente, creio que em 2013, pessoalmente recordo-me de pelo menos duas outras anteriores participações, pelos anos 80 e 90. Por conseguinte, está será pela menos a quarta vez que vem dar música a Guisande.

Os Tekos, de Grijó, Vila Nova de Gaia, são uma das boas bandas musicais neste conceito de reprodutores de músicas de terceiros, habitualmente designadas de bandas de baile. 

Este tipo de bandas, que percorrem vários estilos, desde o popular até ao rock passando pelos ritmos latinos, disco, etc, até às pimbalhadas, geralmente com bons músicos e meninas de boa estampa e quase despidas, são na actualidade mais que muitas e o negócio, apesar dos efeitos negativos da pandemia da Covid 19, que certamente deixaram algumas pelo caminho, parece ser rentável, pois a maior parte delas já exibem um enorme aparato de pessoal, luz e som, até com grandes camiões palco. 

Abaixo, a lista com apenas algumas das bandas do estilo.

Tekos

Função Pública

Banda Universo

AS Band

Banda Vatikano

Grupo Uskadabila

Orquestra Sirilanka

Banda Século 21

Banda Repúblika

Banda Hi-Fi

Banda Implacáveis

Banda TV5

Banda Nova Onda

Banda Jovisom

Banda Top 5

AlmaBand

GBand

Magma

Banda Lux

Banda Katedral

Banda Sense

Banda INNEM

HD Musik

Uskadkasa

Grupo Kapittal

Arkádia

Miranka

Setor Públiko

Banda XCA

Top Som

Soma e Segue

Grupo Impakto

Belcanto Show

Euphoric Show

Terceira Dimensão

Grupo K7

Novasom Band

Novo Século

8 de abril de 2022

Livros escolares antigos - Colecção



Por variadíssimas razões, tenho um especial apreço e carinho por livros escolares, sobretudo pelos do ensino primário. Desde logo, num sentido geral, o gosto pelos livros, depois pelo facto de alguns deles terem sido para mim importantes no ensino das primeiras letras. Também um entusiasmo e afecto pelo lado artístico dos livros, tanto das ilustrações como do grafismo associado aos estilos dos diferentes tempos em que foram produzidos.

Desses livros escolares tenho especial atenção pelos referentes às décadas de 1960 e 1970, naturalmente por serem do período em que andei na escola primária e no ciclo preparatório, fui criança e adolescente. E ainda dentro desses muitos livros escolares, também comummente designados de manuais escolares, tenho preferência pelos livros de leitura, sendo que também me merecem atenção os de história, ciências geográfico-naturais e até mesmo de gramática, aritmética, etc.

Posto esta declaração de interesses, mesmo que a poucos interesse, sei que há quem tenha desses velhos manuais bons exemplares e mesmo excelentes colecções, tanto em número como em qualidade e estado dos exemplares, mas longe dessa importância, também tenho já uma vasta colecção e que abrage tanto as referidas décadas de 1960 e 1970 como outras, sobretudo anteriores.

De um modo geral, dos muitos títulos que foram sendo publicados e que se tornaram mais ou menos generalistas no país, alguns mesmo com carácter de livro único nacional, tenho seguramente uma grande parte e já não serão muitas as publicações a faltar. E se faltam, porque raras e por isso arredadas de alfarrabistas e de outros locais de vendas e leilões onde seja possível tentar a sua aquisição. Vou andando de olho mas pouco ou raramente nada aparece que já não tenha. Ainda por estes dias consegui juntar mais alguns exemplares à colecção.

Nestas coisas não temos certezas, até porque há sempre boas surpresas mesmo ao nosso lado, mas duvido que cá pela zona ou concelho alguém tenha uam colecção tão vasta como a minha quanto a antigos livros escolares do ensino primário. Creio que nem mesmo a Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, pois tendo lá alguns exemplares, a maior parte dos quais também tenho, todavia, pelo que é possível observar pela consulta online, tenho muita coisa que por ali não consta.

À falta de melhor destino, porventura no futuro terei que equacionar a doação à Biblioteca Municipal, naturalmente havendo interesse da instituição. É uma coisa a considerar, mas por ora ainda não.

6 de abril de 2022

Anúncio de Páscoa

 


A fotografia de cima é de hoje. A de baixo é do mesmo dia mas de 2010, por isso já de há 12 anos. Em comum, a igreja, obviamente, até o mesmo tipo de céu nublado e a mesma azálea, uma bonita espécie que floresce antes de deitar folha. 

Desta planta arbustiva, conheço pelo menos outra variedade de folha caduca, mas com flores cor-de- laranja e essa recordo-a sobretudo sempre que pela véspera da Páscoa ia a Serradelo, à freguesia da Raiva, comprar o ali tradicional pão-de-ló, cavacas e melindres à Casa Doçaria Paivense. Existia, mas não sei se ainda lá está no jardim frontal, ali na Rua das Rosas daquela localidade.

Da casa, ouvi notícias de que já terá fechado, pelo que em rigor desconheço se assim foi ou se reabriu. Se foi, foi-se à vida uma casa com história e tradição e com ela muitas memórias associadas à Páscoa e a algumas das nossas boas romarias, como a de Santa Eufêmia.

Ainda quanto às fotografias, é notório o crescimento das árvores defronte da igreja, o azereiro (*) e a magnólia.

(*)nota: corrigi posteriormente de pilriteiro por azereiro, por indicação do Artur Costa. Obrigado!

27 de março de 2022

Grupo de Jovens de Guisande

 


O Grupo de Jovens de Guisande voltou a renascer. Ontem, na missa vespertina, por ele dinamizada, teve início a sua caminhada. Entre outros objectivos, a preparação para a sua participação na Jornada Mundial da Juventude que terão lugar em Lisboa no próximo ano, entre 1 e 6 de Agosto.

De que tenho memória (sim, já fui jovem), pertenci desde os 17 ao Grupo de Jovens de Guisande, então dinamizado pelo saudoso Pe. Alves do Seminário dos Passionistas. Desse grupo, entre outros, faziam parte o Cesário Almeida, o Orlando Lopes, a Georgina Santos a sua irmã Fátima, a Cisaltina Coelho, o saudoso Tomé, o Rui Giro e tantos outros.

Depois dessa excelente fornada, houve outros grupos de jovens, mas certo é que em rigor nunca houve um Grupo de forma continuada, no que naturalmente seria positivo, com os mais novos a integrarem-se com os mais velhos, numa natural sequência e sucessão etária.

Desse meu Grupo, não há muitas fotos, até porque por esses tempos as máquinas fotográficas eram um luxo e não havia telemóveis. Acima uma foto, junto ao balneário das Caldas da Rainha, de uma excursão de dois dias a Lisboa, em que para além de alguns elementos do grupo de Guisande participaram jovens de outras freguesias como de Louredo, Lobão, Gião, Canedo, Caldas de S. Jorge e S. João de Ver. 

Fica o registo e com ele os votos de longa vida a esta nova colheita do Grupo de Jovens de Guisande.


Sobre o Pe. Alves:

O padre Manuel Alves Pereira, filho de José Pereira de Oliveira e Nazaré Alves de Azevedo, nasceu 13 de Julho de 1938 – nascimento em Alvarães (Viana do Castelo). 

Foi baptizado e crismado em Alvarães (Diocese de Viana do Castelo). Entrou no Seminário Passionista de Peñafiel (Espanha) a 17 de Outubro de 1953. 

Entre 1957 e 1958 fez o noviciado em Peñafiel, emitindo a Primeira Profissão a 08 de Dezembro de 1958 (Corella-Espanha) e a Profissão Perpétua a 29 de Setembro de 1961 (Villareal de Urréchua-Espanha). Foi ordenado presbítero a 09 de Março de 1963, em Bilbau.

Foi Superior da Comunidade em Barroselas de 1967 a 1970; em Santo António (Barreiro) de 1994 a 1998. Foi Ecónomo Local em Arcos de Valdevez de 1965 a 1967; 

Em Santa Maria da Feira de 1980 a 1984; 

Em Barroselas de 1984 a 1987 e 1994 a 1994. 

Deu aulas em Antuzede (Coimbra) de 1964 a 1965; Santa Maria da Feira de 1970 a 1979; em Barroselas de 1987 a 1990. Desenvolveu intensa atividade em vários grupos e ação pastoral: Escuteiros (Fundador do Escutismo em Santa Maria da Feira), Grupos Corais (Barreiro, Barroselas), Pastoral Vocacional… Foi um grande missionário, tendo pregado em diversos pontos do país e estrangeiro.


Faleceu a 22 de Maio de 2016, em Viana do Castelo.

A pólvora continua a ser inventada


No início dos anos 1990, a Associação Cultural da Juventude de Guisande - ACJG,  fundia-se com o Centro Cultural e Recreativo "O Despertar", dando lugar à Associação Cultural de Guisande "O Despertar", com a união oficializada no Verão de 1994. Terminava-se a rivalidade, nem sempre positiva e uniam-se esforços e vontades.

Numa  das primeiras acções da nova associação, junto ao Moinho Velho no lugar do Reguengo, junto à ribeira da Mota (foto acima), só nesse sítio foi recolhida uma carroça de tractor completamente cheia de lixo, incluindo garrafas, plásticos e roupas abandonadas por quem ali usava o tanque.

Parece que nos tempos que correm essa acção tem um nome todo catita e até inglês para parecer moderno, embora o conceito parece que surgiu na Suécia. Trata-se do PLOGGING.

Em resumo,  nestes tempos actuais por vezes ficamos com a ideia de que agora é um fartote de descobrir a pólvora.

Em todo o caso, é uma ideia importante e válida, esta a de juntar exercício físico com a limpeza do meio ambiente, mas só peca por... ser precisa.

22 de março de 2022

À biqueirada


Foi já há uns valentes anos. Quantos, não sei ao certo, porque isto de calcular tempo passado, a partir dos 40 perde-se a noção porque um ano parece ter metade. 

O Ramiro, o picheleiro, tinha um grupo de malta já perra dos ossos para as coisas do pontapé na bola, uma mistura de veteranos e reformados, mas que facilmente se vendia por umas trainadas que metessem cabidelas ou rojões à minhota, e de quando em vez, lá combinava um jogo de futebol com outra qualquer equipa que padecesse mais ou menos dos mesmos males, da velhice, dos ossos e da paixão pela bola. 

Assim, de quando em vez, quase sempre ao Sábado à tarde, pegava na cana e no isco da saudade de quem já teve melhores dias e dando a volta pelo Vale, Louredo e aqui em Guisande, lá pescava um grupo suficiente de carapaus de corrida para formar uma equipa e mais alguns suplentes, porque isto de jogar sem treinos e com as pernas já cansadas obrigava a um plantel extenso.

Em Guisande o Ramiro pescava o Jorge Ferreira, o António Ribeiro, velhas glórias do Guisande F.C. e creio que o Álvaro sapateiro. Não sei porque carga de água, porque nem meti cunha, também fui pescado duas ou três vezes, quase sempre para jogar a médio ou a defesa esquerdo, talvez porque mesmo sendo destro, acertava bem como o canhoto. E então lá ía com o grupo, não porque me entusiasmasse o jogo em si, mas sobretudo pelo convívio, pelo banho e pelo jantar depois da jogatana. 

Lembro-me de uma vez em que fomos para os lados de Amarante, não sei se de Verão ou Inverno, mas deveria ser Inverno porque choveu pegado durante o jogo e dos pés à cabeça era um frio gélido e pele de galinha. O equipamento, de manga curta e calçõeszinhos brilhantes à anos 80, pouco ajudava a escapar daquele gelo e o pelado encharcado fazia lembrar um lagar. A bola, essa tinha o peso da cabeça do Zé Grande, bom defesa, e quando vinha lá do ar a cair como um míssil ninguém lhe chegava a cabeça. Só mesmo de capacete.

Para além do frio gélido, do terreno encharcado e a malta, de um lado e outro, a chutar para a frente quase como num jogo de râguebi, pouco mais me lembro, mas há uma coisa que jamais esqueço: Jogando a defesa esquerdo, estava na frente numa jogada de ataque quando a bola veio-me ter aos pés. Posicionei-me, apontei, e numa espécie de canto curto ou cruzamento longo, peguei um valente biqueiro na bola ensopada e ela sobrevoou toda a malta, defesas e atacantes e foi-se encaixar dentro da baliza no ângulo superior direito. Golo! Um bonito golo! Merecia repetição em slow motion!

Já não me recordo do resultado final. Se calhar ganhamos, ou talvez não, mas isso pouco importa, pois afinal o jogo valeu por aquele golo marcado da esquerda pelo pé que tinha mais à mão, e dessa vez, foi mesmo o direito.

Depois, veio o final do jogo, o banho, a pomada nos músculos e o gelo nas pisaduras. Confortados com cuecas quentes lá fomos para os lados da Lixa fazer a segunda parte da jornada, o convívio com uma boa jantarada oferecida pelos lorpas dos visitados. Boa gente!

Chegamos a casa quase de madrugada, perros dos ossos e pesados da barriga. O próximo jogo só dali a uns meses quando a malta estivesse restabelecida.

Há coisas assim, e num desconforto de chuva e frio lá surge um golaço como um raio de sol, mesmo que fosse de pouca dura.

19 de março de 2022

Quando o Monte do Viso era o teatro dos sonhos

 


Nesta fotografia de 1961 vemos um grupo de crianças a celebrar o magusto no terreiro do monte do Viso ao lado da escola e da capela.

Por esses tempos o monte era o verdadeiro teatro dos sonhos da rapaziada porque ali era o palco de tudo quanto era brincadeira, tanto na hora do recreio da escola como aos fins-de-semana.

Nesse tempo havia, escola, havia crianças, muitas. Não havia telemóveis nem internetes. Nem tudo era bom, pois não, mas nem tudo era mau. 

Esta velha foto, mesmo que sem definição HD, mostra o que hoje é impensável, crianças à roda, alegres e felizes numa irmandade sadia e genuina. Havia por ali valores que hoje estão de todo perdidos. Mas as coisas são como são e não são mais que a conseqência natural do andamento do tempo e das mudanças inerentes.

Como se vê pela fotografia, a escola não aparece pois está nas costas de quem fotografou e mesmo a capela aparece apenas parcialmente do lado esquerdo. Mesmo assim é perceptível que a escadaria frontal tem mais degraus e por conseguinte mais desnível bem como o monte, rude e irregular tinha várias árvores nos lados.

A configuração actual resulta de obras de requalificação realizadas pelo final dos anos 1990 e seguintes.

24 de janeiro de 2022

O que é Nacional, é bom!

 


Quem nunca ouviu este slogan?  Certamente que quase todos, pelo menos os mais velhos.

Pois bem, esta marca, a "Nacional", tem já uma longa história, concretamente desde 1849 quando a raínha D. Maria II concede a João de Brito a autorização para a utilização da marca nos seus produtos. 

Volvidos 30 anos, em 1879, os herdeiros de João de Brito constituem a firma com o nome de Companhia Nacional de Moagem e nela os cereais começam a ser processados com diversas finalidades, como para massas alimentícias, bolachas mas também para rações de animais.

Mais tarde, num contexto político conturbado por uma nova república nascida em sangue, a firma muda de nome, para CIPC - Companhia Industrial de Portugal e Colónias, voltando a mudar, em 1986, após a adesão de Portugal à CEE, para a designação Nacional - Companhia Industrial de Transformação de Cereais, S.A. 

Posteriormente, em 1999, é adquirida pelo Grupo Amorim Lage, S.A. e já em 2005 o Grupo Amorim Lage sofre uma reestruturação e a empresa passa a designar-se de Cerealis Produtos Alimentares, S.A.

Em todo o seu percurso a expansão e inovação foram crescentes, numa constante adaptação às tecnologias de fabrico, necessidades e tendências de mercado, sempre com o lançamento de produtos inovadores e que, muitos deles, se tornaram emblemáticos.

A Nacional é, pois, uma marca de prestígio no nosso pequeno país, com produtos de qualidade, e remete-nos para memórias bem antigas, sobretudo as relacionadas às massas e às bolachas, no tempo em que estas eram vendidas a avulso. Ia-se à mercearia  e pedia-se cinco tostões de bolachas.

Muitas vezes consumimos um produto de uma marca antiga e não nos apercebemos da história que a mesma comporta e de todo um percurso de evolução.

Por tudo isto, muitas marcas e delas muitos produtos, fazem parte das nossas memórias, vivências e convivências colectivas. 

21 de dezembro de 2021

O cara de cu


Foi num dia de Natal, a meio da tarde. Enquanto as mulheres da casa se afadigavam nos preparativos para a consoada, a cortar pencas, descascar batatas e pescar as postas do norueguês atado num saco de ráfia bem junto onde chocalhava a bica da fonte, e como o tempo estava frio mas límpido a fazer adivinhar mais uma camada da branquinha lá para os lameiros de Trás-da-Igreja, fui dar uma voltinha de arejamento ali para as bordas do Outeiro e Pereirada onde o Monte de Mó se vem espraiar e chorar em grossas lágrimas que correndo juntinhas aos cômoros vão dar o primeiro impulso à ribeira que por ali abaixo vai a cantarolar noite e dia de encontro ao Inha e logo depois ao Douro.

Contemplei as silhuetas despidas de castanheiros e carvalhos e saltitei o olhar a seguir piscos e melros que nos ramos nus ainda procuravam uns bagos de uvas esquecidas nas latadas ou nos caminhos lamacentos algumas larvas debaixo da folhagem. Ao longe, pelas Quintães e Cimo de Vila, o fumo já ondulava prateado das chaminés do casario onde se adivinhava o calor da consoada que se aproximava.

No regresso decidi tomar o caminho que do norte da Pereirada vem dar ao Pinheiro, no edifício da Junta, até para ver se ainda por ali havia azevinho que em tempos da primária se visitava de mansinho como um segredo bem guardado, na colheita de raminhos verdes com bagas vermelhas. 

Já dentro da sombra densa dos pinheiros e carvalhos, um pouco à frente vi um automóvel preto, a ocupar o caminho. Não estava abandonado porque o raio do carro, como se tivesse vida como o carocha do Herbie, estava a baloiçar num ritmo certinho, acima e abaixo.

- Mau! Será que vou ter que voltar para trás e meter novamente os pés já húmidos na erva molhada e nos carreiros lamacentos? O tanas! P´rá frente que o caminho é público! Siga!

Mas, o raio do automóvel, preto como um melro, ocupava mesmo o caminho projectado apenas para carro-de-bois e assim tive mesmo que passar na nesga entre ele e o mato um pouco mais alto.

Ao passar, os olhos desviaram-se curiosos para o interior e lá estava o casalinho, ela por baixo, ele por cima, ao comprido tanto quanto possível. Creio que só ela me viu e me fixou porque estava de olhos bem abertos, numa quase indiferença àquele aconchego desconfortante com as pernas emaranhadas entre manetes e guiador. A ele, não lhe vi a cara, mas vi-lhe o cu, porque branco e destapado. Um cara de cu.

É claro que esta cena correu ligeira porque o que vi foi mesmo de passagem e não me deti. Passado o carro, uma dezena de metros à frente, olhei para trás e lá continuou no balanço. Ainda com boa memória, fixei o modelo e a matrícula.

Quando cheguei a casa, os preparativos já estavam adiantados e a hora aproximava-se e dali a pouco a família já estava embrenhada na mesa farta e abençoada com as travessas bem prenhas num aconchego de batatas, couves e bacalhau, a que o molho de azeite e cebola caía generoso a escaldar num baptismo de água benta. A memória da cena de há pouco dissipara-se e a imagem daqueles olhos abertos e rosto indiferente e de um cu deslavado a baloiçar depressa se desvaneceu dando lugar às coisas boas da consoada.

Passados alguns dias, a imagem voltou-me à cabeça e de novo aqueles olhos abertos e desconsolados e aquele cu em vai-e-vem. Acabei por indagar colegas e amigos e dentro de algum tempo fiquei a saber quem eram e onde moravam. Das poucas vezes que a vida nos fez cruzar, para mim ele continuou como um desconhecido a quem não lhe vira o rosto mas o traseiro. Quanto a ela, bonita, de olhos profundos, fiquei sempre com a sensação de que me reconheceu naquele encontro imediato na tarde de um qualquer Natal. Quando me via, aqueles olhos que conhecera abertos, baixavam-se tímidos, envergonhados.

O tempo foi passando e poucos anos mais tarde soube que ela já se desprendera daquele triste que se afogava em copos e em expedientes manhosos. Deixou-o sem pena, mas ficando com dois filhos, um nos braços e outro agarrado às pernas. Um deles poderia muito bem ter sido concebido no dia do Menino Jesus.

A vida fora-lhe um pouco ingrata e aqueles olhos grandes, negros e bonitos continuavam, todavia, tristes e desconsolados e quem sabe se todo esse desconsolo não nasceu naquela tarde dentro de um carro preto, também ele triste, sendo montada, afinal, por um simples cara de cu. A vida por vezes tem destas coisas, de uma tristeza tristemente triste. 

Rais´ma parta! Mais valia que naquela tarde de Natal tivesse voltado para trás e encharcado os pés na ribeira. Mais valia!

Feliz Natal!

20 de dezembro de 2021

Quando a sala privada era um auditório público


As emissões regulares da televisão em Portugal começaram em 7 Março de 1957, mas um pouco antes, em 1956, houve emissões de carácter experimental, em instalações na Feira Popular de Lisboa. Apesar de uma programação inicial minimalista e com horário muito reduzido, a televisão depressa se transformou num fenómeno nacional e numa curiosidade que só terminava quando a emissão encerrava diariamente ao som do Hino Nacional.

Os aparelhos naturalmente começaram por ser poucos e caros, e com captura de sinal apenas em certas zonas do litoral, e desse modo não surpreende que as pessoas começassem a frequentar os locais mais ou menos públicos que tinham capacidade de instalação. Como nas demais aldeias, na freguesia de Guisande foram alguns cafés e mercearias como as do Sr. Joaquim Ferreira Coelho, em Fornos, e do Sr. Elísio dos Santos, em Casaldaça, logo na primeira metade da década de 1960, os primeiros a abrir essa janela que, mesmo condicionada por um regime de censura, nos alargava os horizontes. Depois, aos poucos, algumas casas particulares mais abastadas também foram adquirindo a caixa mágica.

Pela minha parte e das minhas recordações, no lugar de Cimo de Vila foi o meu avô, Américo Fonseca, o primeiro a adquirir o aparelho, o que terá sido no ano de 1966 e poucos anos depois, na casa do meu tio Avelino, por onde acompanhei as notícias e os acontecimentos da revolução do 25 de Abril de 1974. Seguiu-se, no Viso, a chegada a casa do meu tio Joaquim e em Casaldaça à mercearia do Sr. Domingos Sá. Aos poucos, pelos diferentes lugares. Em casa de meus pais, creio que por 1979 ou mesmo já no início de 1980. 

As emissões regulares no sistema a cores aconteceram aquando da transmissão do Festival RTP da Canção, em 7 de Março de 1980, em que sairia vencedor o José Cid com a canção "Um grande, grande amor". Todavia, poucos foram os que tiveram capacidade de mudar de televisor capacitado para a recepção a cores e por isso não surpreende que uma vez mais tenham sido os cafés a tomar a dianteira. Só muito mais tarde, aos poucos, os velhos aparelhos, os blaupunkts, os telefunkens e os philcos foram postos de lado.

De lá para cá todos conhecemos mais ou menos a evolução da televisão em Portugal, da RTP, dos seus diferentes canais, como o canal único e depois no Natal de  1968 a RTP2, conhecida como 2º programa, na banda UHF, o pagamento de taxa,  o aparecimento de novos canais privados, com o aparecimento da SIC, em 6 de Outubro de1992 e da TVI em 20 de Fevereiro de 1993, até à internacionalização dos sinais, e mais recentemente a emissão pela internet, cabo e satélite. Haverá certamente muito caminho a percorrer, ainda que tecnologicamento pareça que já não há muito mais a fazer, mas seguramente já sem a dimensão e amplitude das mudanças e evoluções ocorridas nos primeiros 30 ou 40 anos.

Voltando às minhas memórias de televisão desses primeiros tempos, recordo que na casa do meu avô, em Cimo de Vila, aos domingos, e sobretudo no Verão, logo a seguir ao almoço, e porque a sala era pequena, o televisor era colocado à porta da sala e voltado para o pátio comprido e estreito onde aos poucos a gente do lugar se acomodava, formando uma plateia compacta para assitir às novidades. Normalmente a coisa começava com o "TV Rural" onde o Eng.º Sousa Veloso nos trazia as novidades das coisas das lavoura. Também, muito apreciado o programa apresentado pelo Pedro Homem de Melo que nos trazia o folclore nacional. Marcantes, a visita do papa Paulo VI a Fátima, em Maio de 1967, bem como a chegada do Homem à Lua, em Julho de 1969.

Pelo meio, no dia-a-dia, a constante escapadela de casa e das tarefas para ir a casa do avô e padrinho para assitir aos desenhos animados e às séries como "Bonanza", "Daniel Boone", "Skippy", "Daktary"e tantas outras que nos marcaram a infância. Um pouco mais tarde em casa do meu tio Avelino e do meu tio Joaquim, repetiam-se as plateias de vizinhos para assitir aos filmes, como o "Lancer", na sexta-feira à noite, e a outras aventuras de índios e cowboys.

Aos Domingos à tarde, a coisa era complicada para a criançada, pelo que com a obrigação da Catequese, marcada para as 14 horas, seguida da reza do Terço, ou perdia-se a televisão e as aventuras ou ganhava-se uns "galos" nas cabeças, esculpidos à mocada da mão pesada do Sr. Vigário Pe. Francisco. Desse modo, escapar pelo menos ao Terço para fugir até aos cafés de Casaldaça era um misto de aventura e de loucura, já que raramente se escapava ao castigo, e desculpas de dores de barriga ou de dentes, ou outras artimanhas, não serviam de atenuante. Só agravava o peso da coça. Nesses tempos as queixinhas aos papás valiam e duravam tanto como manteiga em nariz de cão.

Seja como for, foi assim que  a malta desses primeiros tempos de televisão lidou com essa novidade mágica e misteriosa da televisão. Mesmo naquele pequeno e arredondado ecrã a preto-e-branco, de reduzida definição, abriam-se as portas largas para a imaginação, para uma realidade fantástica e fantasiada que depois tinha extensão e continuidade nas brincadeiras em comum, tanto no recreio da escola como no terreiro do lugar, espaço polivalente que tanta servia aos jogos de futebol como aos jogos da macaca e do pião. Nesse tempo a televisão não era a cores, nem em alta definição em HD, nem tinha box para gravações, nem era exibida em formato gigante, mas tinha o dom e a magia de nos fazer felizes na simplicidade do pouco quante baste. 

Como dizia alguém, "éramos felizes sem o saber".

4 de dezembro de 2021

Cartaz da Festa do Viso - Antigo - 1949?

 


Encontrar um cartaz da Festa do Viso em honra de Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António, mesmo que relativamente recente, é por si só difícil, já que não há o cuidado e a sensibilidade de se arquivar de ano a ano. Ora, por ordem de razão, encontrar um mais antigo, como aconteceu agora entre papeladas da paróquia, é uma sorte, mas, azar dos azares, o mesmo não faz referência ao ano. 

Todavia, sabendo que a festa se realiza desde tempos imemoriais sempre no primeiro Domingo do mês de Agosto, sabemos que neste caso o dia 7 de Agosto calhou num Domingo. Fazendo um exercício especulativo mas com grande probabilidade, considerei numa primeira estimativa que o presente cartaz se reportava ou ao ano de 1955 ou 1949. Isto porque abaixo dos anos 1960 e até 1940, o primeiro Domingo apenas foi dia 7 nesses dois anos. Por outro lado, os dados mais antigos que temos sobre a nossa festa, incluindo indicação de comissões de festas reporta-se aos anos 1930. Por outro lado ainda, não deverá ser acima dos anos 1960, pois por essa década já tenho memória de cartazes com outros formatos e bem maiores. Este exemplar aqui é aproximadamente do tamanho A4.

E nesta especulação, obviamente que não podemos ter em conta alguma da ortografia e vocabulário, pois o termo Egreja passou a ser escrito  Igreja a partir do Acordo Ortográfico de 1911. Seria de facto extraordinário que este cartaz acima publicado fosse anterior a 1911, o que remeteria para uma data próxima da construção da Capela (em 1859). Sendo pouco provável, é no entanto possível.

A impressão foi feita na Tipografia Heróica, que ainda existe na Rua das Flores, no Porto. Esta empresa entre outras particularidades produz anualmente milhares de folhinhas com as quadras populares que são aplicadas nos vasos de manjericos. Poder-se-á, pois, tentar procurar na empresa caso exista arquivo, mas certamente será tarefa inglória.

Entretanto, por posterior pesquisa, consegui apurar a informação de que a Banda Musical dos Bombeiros Voluntários de Vila da Feira, que consta no cartaz, foi fundada em 1924 e extinta em 1942, o que significa que o referido impresso é ainda anterior a 1949, data inicialmente estimada. Fazendo nova pesquisa dos dias 7 de Agosto entre 1924 e 1942 apenas aparecem os anos de 1927, 1932 e 1938. Ou seja, o cartaz será seguramente de um destes três anos.

Quanto a este cartaz, ele diz-nos que no Sábado, dia 6, estiveram no arraial duas bandas de música, a da Vila de Arouca e a dos Bombeiros Voluntários de Vila da Feira (que já não existe). Não deixa de ser curiosa a indicação de que as bandas se exibiram até às...3 da madrugada.

Ainda a descrição interessante sobre a ornamentação e a iluminação a "acetilene e à minhota" pelos hábeis Sr. Rufino de Almeida Postal e Manoel Pinho, de Oliveira de Azeméis. Repare-se que acetilene ou acetileno é um hidrocarboneto, por isso usado em iluminação. Daí a novidade, já que com toda a certeza nessa altura Guisande ainda não tinha rede eléctrica e iluminação pública.

Descreve ainda, que "além da ornamentação alugada, o arraial estará revestido de admiráveis efeitos pelas mãos delicadas de um grupo de gentis meninas da freguesia". De facto, deliciosa esta descrição.

Quanto ao dia 7 de Agosto, Domingo, bem cedo, pelas 09:30 horas, a imponente procissão da Igreja Matriz para a capela. Pelas 11:00 horas a missa solene com pregação do Rev.mo Abade de Pedroso - Vila Nova de Gaia. Nova curiosidade, as mesmas bandas de música que actuaram no Sábado, voltam a actuar no Domingo. Realmente muito trabalho. Finalmente pelas 17:00 horas, "combate de fogo Chinês entre os referidos pirotécnicos".  Tendo em conta a hora e o dia de Verão, não nos parece que o fogo de artifício tivesse assim tanto impacto, mas pelos vistos era então a norma.

Analisando este cartaz como outros programas, não há dúvida que por esses tempos, anos  1930, 1940 e 1950, a parte de entretenimento da nossa festa centrava-se muito na actuação de bandas de música e fogo de artifício. Já a partir dos anos 1970 tornaram-se habituais os conjuntos típicos e ranchos e só mais tarde, já a partir de meados de 1980 é que começaram a surgir os ditos cantores pimba, "artistas da rádio e televisão".

Interessante como um aparentemente simples papel amarrotado e misturado com outros papéis igualmente maltratados, nos pode dar muitas informações obre aspectos da nossa vivência e história comunitária.

20 de setembro de 2021

Assim não vale!

O tempo já era de desfolhadas e depois de um café no Américo após o jantar, o Jorge Beto lá desafiou a malta para ir dar uma volta "à caça" de gajas e que o destino seria lá para os lados de Pessegueiro ou da Costa Má, na freguesia do Vale, então uma espécie de minas de Salomão no que à riqueza de desfolhadas dizia respeito.

Alguma da malta, como o Tonico do Mota e o Geraldino Flores, ainda torceram o nariz porque a saída naquele sexta-feira estava programada lá para os lados dos Lameiros em Escariz, onde a Fatinha da Inha e as primas diziam que ía haver desfolhada da rija, com regueifa e tudo" Mas, seja! Pés ao caminho, como quem diz, arrancaram as V5 do Jorge Beto, onde na traseira do curto selim se acomodaram as nádegas largas do Geraldino, e a do Tonico do Mota com o Nando do Neca a fazer de lastro. O Fonseca lá seguiu na sua Fórmula 1, preta e luzidia como uma azeitona, levando na pendura o magricelas do Zé Trovincas, então ainda sem ordes de pôr ao relento da noite a Florett do pai, que assim ficava descansada e envolta num lençol de flanela. 

Só que em vez do costumeiro caminho, o raio do atazanado Jorge Beto decidiu atalhar e ali a seguir ao Clemente, para os lados da Manguela, em Louredo, guiou as motorizadas pelos caminhos fundos da zona da Lousa e Cegufe, então como hoje, uma espécie de Amazônia de pinheiros, giestas e tojo. Escusado será dizer que, sem GPS e sem Apps a indicar o caminho, inteligências electrónicas que nessa época nem eram pensadas, andou-se para ali a queimar shell e a derreter pistões a percorrer às voltas e mais voltas uma espécie de labirinto de Creta, de caminhos estreitos, fundos e lamacentos, onde para além das luzes dos faróis da maquinaria não se vislumbrava um palmo à frente do nariz naquele denso breu de pinheiros. Ao fim de meias horas e já com as torneiras dos depósitos na posição de reserva, lá se chegou aos confins da Costa Má, envolta num nevoeiro que mortalhava o lugar. A desfolhada, dentro de umas largas e cinzentas portas-fronhas, já ía avançada e pouco mais deu que para desfolhar por desfastio uma meia dúzia de espigas bichadas, daquelas que já estão disfarçadas no meio do folhedo.

Claro está que o olho da malta e sobretudo do Jorge Beto, não andava nas espigas mas nas Vicentas, três irmãs tão parecidas na falta de beleza que pareciam ter saído da mesma forma defeituosa. O Geraldino, esse arranjou lugar ao lado da mais nova, a Zéza e o Jorge Beto lá se encostou à mais velha, a Beatriz, e daqui a nada o seu rosto vermelho estava mais vermelho e feliz e já a carregar ao ombro cestos para dentro do canastro como se fora rapaz arregimentando na casa. 

O resto da malta, desconsolada, bem dava a volta com os olhos à roda da desfolhada, à procura de raparigas mas airosas, mas só dava de caras com velhos e velhas ou mulherio casadoiro já com as mãos moídas e os rostos cansados, porque a desfolhada começara bem cedo nas amplas leiras do lugar, numa colheita de luta de catanada de foucinha às canas e estrepes.

Fosse como fosse, o resto da noite avançou rápido, mas antes de dar o serão por encerrado o Tonico do Mota ainda quis  tirar satisfações com a jornada e dar o resto da volta, se não desse para Lameiros ou Goim, pelo menos por Cabeçais ou Mascotes. Mas a noite ia mesmo avançada e por cada alpendre ou quinteiro a que se passasse, as portas fronhas já estavam fechadas e os vizinhos que vieram ajudar já se esgueiravam aos pares ou solitariamente para casa, atalhando como fantasmas pelos caminhos fundos e escuros dos lugares.

No dia seguinte, ao balcão do Américo, a malta comentava a saída da véspera e o Geraldino, sempre na sua filosofia acertada, ou não frequentasse o Liceu na vila, lá sentenciou: - Foda-se! Andou a malta perdida e às voltas na selva, a limpar caminhos de carros de bois para ir à Costa Má à desfolhada com as gajas mais feias da freguesia do Vale! Assim não Vale!

O Jorge Beto, sério, não concordou com a classificação de "as mais feias do Vale", mas encolheu os ombros, até porque ninguém, principalmente, o Geraldino, precisava de saber que no final da missa no Vale, mais logo, combinara de se encontrar com a Beatriz.

Mas tudo não passou de uma gargalhada quase geral e dali a pouco a malta já ia a caminho do Café do Manel Paiva, apontada ao jogo de snooker ou das machinas, a abanar a pila pela rua acima, mijando e desenhando na estrada uma serpentina que só acabava ali para os lados do talho ou mesmo às portas da oficina do Matos. Com mais curvas que essa serpente, só mesmo as voltas da véspera nas matas da Lousa e Cegufe para chegar à Costa Má!

19 de janeiro de 2020

Tesourinhos da bola


Quando a bola é apenas um pretexto para momentos de amizade, convívio e partilha. Mas os anos, o tempo, fazem das suas. Uma dúzia de anos tem um peso do caraças.

12 de janeiro de 2020

Uma copada de Castelões e um pires de moelas


Noutros tempos, não muito longínquos, o vinho verde "Castelões" era para os amantes das patuscadas e petiscadas uma espécie de elixir da eterna juventude. Em qualquer tasca, de prestígio ou rasca, pedia-se "Castelões". O acompanhamento eram os petiscos, fosse moelas, orelheira, uma isca, um prego ou churrasco. Sobretudo no Verão, pois, claro, umas copadas de "Castelões", servido bem frio, faziam valer a pena esperar pelo Sábado ou Domingo à tarde. O Nelson Ned cantava que não sabia o que fazer no Domingo à tarde, mas a rapaziada de Guisande, sabia e bem: Namorar e depois, porque o namoro faz sede, umas copadas no balcão dos bancos de pernas altas do Américo ou em mesas de fórmica noutros locais de culto.

Deixou, por isso, saudades, esta emblemática marca de vinho, engarrafada em Vale de Cambra pela empresa Bastos & Brandão, L.da. O vinho era proveniente da região demarcada do Vinho Verde, da qual fazia (e faz) parte Vale de Cambra, com base nas castas Loureiro, Trajadura e Arinto. A malta, mesmo sem perceber de castas, acreditava que sim.

A Brandão & Bastos, L.da foi fundada por Manuel Brandão e Manuel de Bastos, que morreram em 1986 e 1990, respectivamente. A empresa foi fundada em meados da década de 1950. Depois disso mudou de mãos e passou por processos de insolvência. Não consegui apurar se ainda existe e em actividade ou se mudou de nome. Certo é que a marca "Castelões" já não existe desde há alguns anos. Outras marcas engarrafadas pela empresa valecrambrense como a "Aniversário" e a "Valverde", também já desapareceram.
Para avaliar da fama do "Castelões", posso dizer que colhi a informação de que pelo final da década de 1990 as vendas cifravam-se em 6 mil garrafas por semana.

Este "Castelões", a que se refere o rótulo acima, característico na sua forma triangular, era considerado como levemente adamado e a exigir servir-se "muito frio".

No meu tempo de rapazola, este "Castelões" estava para a rapaziada como agora a "Coca-Cola" está para a juventude.  Também fazia arrotar, mas, ao contrário da bebida negra açucarada, o "Castelões" propiciava outras aventuras. Muitas delas poderia aqui contar mas teria que por bolinha vermelha a classificar o texto.
Acrescente-se que por esses tempos, não havia boda de casamento que não fosse fornecida de "Castelões". A malta solteira lá conseguia passar por debaixo da mesa alguns exemplares que mais tarde serviam para refrescar conversas.

O "Campelo" e os "Três Marias" faziam forte concorrência mas a malta não trocava pelo "Castelões". De resto, alguns de nós tínhamos um lema: "Homem que tenha ...lhões, bebe "Castelões".

Aparte alguma brincadeira, o vinho verde "Castelões" é uma das marcas que a malta da minha geração associa a petiscadas e convívios de boa camaradagem. Aquela vinhaça esverdeada em garrafas com aquele inconfundível rótulo triangular ajudaram em muito a cimentar amizades e a fartar barrigas.

7 de novembro de 2019

33 anos


O tempo e os seus dias, as suas datas, podem ser escritas a giz branco sobre um quadro preto, mas depressa passam e o tempo continua a fluir e os dias a galopar e tudo o que é ser vivo entra nessa roda frenética da mudança que passa quase despercebida no dia-a-dia mas significativa ou mesmo dramática quando o salto é de 33 anos.

É esse mesmo o tempo que decorreu após aquela data de 7 de Novembro de 1986, ali escrita no quadro, numa fotografia de grupo na Escola Primária da Igreja - Guisande, com a Professora D. Célia Azevedo com os então seus alunos. Passam precisamente, hoje, 7 de Novembro de 2019, 33 anos.

Todas aquelas crianças, de caras felizes e reguilas, andarão certamente por aí, já não despreocupadas das rotinas infantis e das coisas próprias da escola, mas certamente casados, com filhos, afinal com outras canseiras e responsabilidades, porventura já com algumas rugas que marcam os seus rostos mudados ou com cabelos a menos e a pintar.

Claro que, com vida e saúde, estarão prontos para mais 33 ou mais além, mas bastar-lhes-á que venha um de cada vez, porque eles, os anos, correm e somam depressa demais e por isso não há pressa de os contar.

Mas é apenas a vida e os efeitos do tempo. Uma fotografia antiga tem esta virtude de nos emocionar, como um pedaço de nós ou de alguém, presente ou ausente, que jamais o poderão repetir. Neste quadro com quadro, o máximo que podemos fazer é não matar as memórias mas antes ressuscitá-las.

16 de agosto de 2019

Motorizadas em Guisande - Ali vai o Tozé pela Farrapa abaixo....



Foi um dos eventos míticos dos anos 80 ocorridos na nossa freguesia de Guisande. Estávamos em 24 de Outubro de 1982, um Domingo cinzento e chuvoso, como se esperaria que fosse a meio do Outono.
Num circuito formado por algumas ruas da freguesia, realizaram-se provas de motociclismo com veículos com motores de cilindrada de 50 cm3, vulgo motorizadas.

As provas, nas categorias de juniores e seniores, extra-campeonato, foram organizadas pela Associação Desportiva e Cultural de Lobão, com o carismático Nani, como director das provas. Na época estas corridas de motorizadas eram populares e disputavam-se um pouco por todo o lado já que as exigências regulamentares e de segurança eram, a bem dizer, nenhumas.

Nestas provas em Guisande, rezam as crónicas que participaram cerca de 30 pilotos e respectivas equipas técnicas. Na altura esteve presente o campeão nacional, um tal de José Pereira, o qual não logrou melhor que o 4º lugar.

As provas tiveram o seu início pelas 16:00 horas, com duas horas de atraso em relação ao programado, devido à chuva e à desorganização. 

Pelas 16:00 horas teve lugar o ensaio geral para testes e afinações; Pelas 16:30 horas a sessão de treinos oficiais para a categoria de juniores. Pelas 16:45 horas o treino oficial para os seniores. Pelas 17:15 horas, a prova dos juniores com 15 voltas ao circuito, com 16 pilotos. Pelas 17:45 horas a prova principal, com o seniores a darem também 15 voltas, participando 14 pilotos. Venceu o piloto Nº 1, "Tozé" com um avanço de cerca de 500 m.
Pelas 18:30 horas, já quase de noite, a entrega dos prémios. 

O circuito (ver mapa abaixo), com uma extensão aproximada a 1, 6 Km, englobava aquelas que são hoje partes das ruas S. Mamede (da Farrapa de Baixo à Gândara, passando por Linhares), Rua Nossa Senhora de Fátima (da Gândara à Leira) e Rua Cónego Ferreira Pinto (da Leira à Farrapa de Baixo), com sentido anti-horário. A meta estava colocada na recta da Gândara.


Na altura (em que uma câmara de filmar era um luxo) alguém filmou parte das provas, localizando-se no cruzamento da Leira. Esses vídeos (de onde extraímos as imagens), são de fraca qualidade mas ainda podem ser encontrados pelo Youtube.
Com a ajuda dos referidos vídeos e das memórias desse tempo, porque assisti à prova, percebe-se o amadorismo da organização, com o público nas bermas, circulando e atravessando constantemente a estrada, mesmo com as motorizadas a circular. Os homens da organização estavam equipados com umas bandeirolas (verdes, para mandar "assapar" e vermelhas (para parar) e ainda uns enormes walkie-talkies com umas antenas compridas que mais pareciam canas de pesca, com os quais comunicavam as ocorrências.

Num dos vídeos vê-se mesmo uma aparatosa queda de um dos participantes, com este a dar várias cambalhotas no alcatrão e a motorizada a deslizar quase "varrendo" alguns dos que ali assistiam. "Foge Quim..."



Vistas as coisas à distância do tempo, e já lá vão quase 40 anos, não conseguimos resistir a uns sorrisos, sobretudo pelo amadorismo da organização e condições de segurança e assistência, que em rigor não existiam, para além de uns fardos de palha colocados na saída de algumas curvas. De resto as estradas estavam em péssimo estado, chovia e o público, como já se disse, passeava livre e descontraidamente pelo circuito, numa passividade domingueira, com a indiferença de alguns elementos da GNR que ali estavam de serviço, muito solenes nas suas polainas de cabedal e cassetete a tiracolo.



Bons tempos, esses, em que as motorizadas eram rainhas das nossas estradas e o tal de Tozé acelerava pela Farrapa abaixo, destemido, enfiado no seu fato de napa e montado na sua motorizada toda produzida para "cortar o vento".

13 de agosto de 2019

Rádio Clube de Guisande - Chama intensa


Era uma vez um grupo de jovens, que algures pelo início dos anos 1980 criaram uma associação cultural e nela um jornal mensal entre outras múltiplas actividades. Bem, em rigor foi ao contrário; primeiro o jornal e depois a associação. Não foi em Lobão, Gião ou Louredo, mas em Guisande.

Poucos anos mais tarde, em meados dos anos 80, a febre das rádios locais, rádios livres ou piratas, como vulgarmente eram conhecidas, andava a atacar um pouco por todo o lado e os mesmos jovens, não de Lobão, Gião ou Louredo, mas de Guisande, decidiram criar uma rádio local. Estávamos em Agosto de 1985.

Vai daí, com o nome dado, Rádio Clube de Guisande, escolhido num dia de praia em Espinho, por Américo Almeida e Rui Giro, e com o indispensável apoio técnico do entusiasta da electrónica  António Pinheiro, e com a aderência de muitos outros jovens, em pouco tempo e após a melhoria gradual das condições técnicas, a jovem rádio chegava a muitas casas, não só na freguesia como nas freguesias vizinhas e até mais além, (depois de instalada uma antena - ela própria com uma estória) que ainda hoje resiste).

Certo é que, de acordo com o jornal "O Mês de Guisande", em Dezembro de 1986 a emissão já estava estruturada e com um vasto grupo de pessoas a dar corpo ao manifesto.
Assim: 

Domingo: Das 07:00 às 09:00 horas: "Bom Dia, Domingo", com Mário Costa e Marco Paulo Alves;
Das 09:00 às 12:30 horas: "Domini", com Américo Almeida;
Segunda-Feira a Sábado: Das 14:30 às 17:00 horas "Guisande à Tarde", com David Conceição (uma das figuras emblemáticas da RCG, na foto acima);
Segunda-Feira: Das 20:00 às 23:00 horas: Desporto e Música", com Américo Almeida, Rui Giro e Elísio Monteiro;
Terça-Feira: Das 20:00 às 23:00 horas: A Vez e a Voz", com David Conceição;
Quarta-Feira: Das 20:00 às 23:00 horas: "Rota Nocturna", com Alberto Jorge;
Quinta-Feira: Das 20:00 às 23:00 horas: A Vez e a Voz", com David Conceição;
Sexta-Feira: Das 20:00 às 24:00 horas: Espaço Jovem", com José Higino Almeida;
Sábado: Das 13:00 às 14:30 horas: Quiosque do Som", com Elísio Mota;
Das 17:00 às 18:00 horas: "Sábado Especial", com Mário Costa e Marco Paulo Alves;
Das 18:00 às 20:00 horas: "Tema Livre", com Mário Silva.

Um ano antes, em Novembro de 1985, a programação (com carácter experimental) da rádio publicada no jornal "O Mês de Guisande", com a curiosidade do primeiro logotipo:



Um pouco mais tarde, era imperioso meter ordem na casa e o Governo lá arranjou um processo de candidaturas e atribuição de frequências. Mesmo que candidatando-se com um grupo de outras boas rádios do concelho (Rádio Clbe de Guisande, Rádio de Lourosa, Rádio Santa Maria e Rádio Independente da Feira), num projecto comum designado de "RTF - Rádio Terras da Feira", as duas licenças previstas para o concelho da Feira foram atribuídas à Rádio Clube da Feira (frequência 104.90) e (com enorme surpresa) à Rádio Águia Azul (frequência 87.60 ), em 21 de Abril de 1989.

Poucos dias antes, à margem da apresentação do Programa  de Apoio às Associações Juvenis, que decorreu em Viseu, em 15 de Abril de 1989, o director do jornal "O Mês de Guisande" e da Rádio Clube de Guisande", Rui Giro, ainda teve a oportunidade de falar pessoalmente com o então Ministro da Juventude, Couto dos Santos, mas apesar das palavras de estímulo e esperança deste, tal acabou por ser inconsequente e de nada valeu o esforço.

Depois ainda subsistiu a esperança de atribuição de uma terceira frequência ao concelho numa segunda-fase, mas tal não veio a suceder.  De resto alguém no concelho, se esforçou para que não fosse atribuída uma terceira frequência.

Este foi um processo polémico em que logo se percebeu que quem melhor mexeu os cordelinhos das influências políticas recebeu a prenda.  Deu-se primazia à rádio de uma única pessoa em detrimento de uma rádio que englobava um grupo alargado de pessoas e freguesias.

É claro que depois alguém andou durante anos a fazer as devidas vénias a quem fez por isso. Coisas da política. Mas, já passaram 30 anos e alguns dos então intervenientes já por cá não andam. Coisas passadas que já não movem moinhos, nem de água nem de vento. Apenas as memórias baloiçam na brisa do tempo.

De lá para cá as referidas rádios deram muitas voltas, piruetas e cambalhotas, mas mesmo que longe dos pressupostos iniciais, lá continuam, umas vezes na onda de cima, outras na de baixo.

Pela nossa parte e de quem ficou de fora nessa época, foi pena, mas temos que admitir que era necessária ordem numa anarquia que se instalou, embora salutar. 

Certo é que enquanto durou, a "Rádio Clube de Guisande" tornou-se numa referência de cultura e convívio para muitos jovens na nossa freguesia. As memórias e saudades são, naturalmente, muitas.
De facto aqueles jovens na década de 80 não tinham internet, nem facebook, nem smartphones, e poucos tinham carro, ou, se sim, apenas chaços, mas tinham uma chama intensa e um forte espírito de grupo e partilha.

Hoje em dia, apesar dos meios tecnológicos e fácil acesso a plataformas de comunicação, incluindo de rádio e tv, não se vêem grandes projectos, sobretudo os ligados à cultura e identidade das aldeias, mas fundamentalmente boçalidades e egocentrismos. Mas há que respeitar. Afinal são novos os tempos e os sinais deles. Nem tudo mal, mas nem tudo bem.


30 de julho de 2019

Pré-Primária de Fornos - Quase 30 anos


Pode parecer mentira, mas a verdade é que o Jardim de Infância de Fornos é o único estabelecimento de ensino de Guisande com alunos. E, ao que dizem, nem todos da freguesia. 
Edifícios emblemáticos como a Escola Primária do Viso e Escola Primária da Igreja, por onde passaram e aprenderam gerações de guisandenses, estão agora, do mal o menos, entregues a outros ofícios. A Escola do Viso integrada no Centro Cívico do Centro Social e a Escola da Igreja vai sendo lugar de ensaios do grupo de concertinas " Os Alegres e Divertidos da Feira"  e ainda do Banco Social, dinamizado pelo Grupo Solidário de Guisande. Por sua vez o Jardim de Infância da Igreja está abandonado à espera de melhores dias.

É triste, é pena, mas as coisas são como são. Tal realidade resulta da situação de baixa de natalidade de que também padece a freguesia e por outro lado de algumas más políticas nacionais e caseiras que conduziram os nossos alunos para estabelecimentos vizinhos numa política de centralismo, favorecendo o desligamento das populações e a descaracterização das freguesias mais pequenas. Adiante, que é política. 

Quanto ao Jardim de Infância de Fornos vai sobrevivendo como amostra. Relativamente ao edifício, desconhecemos se com necessidades e se dotado ou não com condições plenas de funcionalidade e conforto, mas pelo lado exterior é notória uma rua em deploráveis condições de pavimento e passeios e com um arbusto verdinho mas a ocultar parte da iluminação do poste frontal, o que no Inverno é um inconveniente. Adiante. 

Quanto à sua história: Já ninguém o saberá, mas o edifício foi inaugurado em 24 de Setembro de 1989, por isso às portas de completar 30 anos.
De acordo com o publicado pelo jornal "O Mês de Guisande" na edição de Outubro de 1989, com reportagem feita pela saudosa D. Rosa de Jesus Santos (então cuidadora de crianças que ali frequentavam a escola), e face à ausência de qualquer representante do jornal "O Mês de Guisande", que não receberam qualquer convite da então Junta de Freguesia ou Câmara Municipal, ao contrário de outros jornais que se fizeram representar bem como esteve presente o saudoso fotógrafo Manuel Azevedo, na cerimónia de inauguração marcaram presença o presidente da Câmara Municipal, Alfredo Henriques, o Vereador do Pelouro da Educação, Prof. Joaquim Cardoso, o Delegado Escolar de Fiães, o presidente da Junta de Freguesia, Manuel Alves, o presidente da Assembleia de Freguesia, Joaquim Ferreira Coelho, o pároco Pe. Francisco Oliveira, que benzeu e abençoou o edifício, e ainda a então educadora, a Prof.ªa Teresina, para além, naturalmente, dos alunos e pais. A educadora usando da palavra,  em contra-corrente com a pompa da inauguração, foi bem mais objectiva e de uma assentada chamou a atenção para a falta de algumas coisas, como material escolar, aquecedores, "baloiços" e "escorregas" para as horas de recreio da pequenada. 

Houve discursos, ofertas de flores pelas crianças e lanche (confeccionado pela Sr.ª Maria Madalena do "Sebastião")
O custo do lanche foi suportado a meias pela Junta de Freguesia e pelos pais (outros tempos).

Num dos discursos da praxe, o presidente da Assembleia de Freguesia, referiu então a necessidade de construção de uma escola de ensino básico no lugar de Fornos, mas obviamente que tal desejo e aspiração não passou disso mesmo, já que tal nunca se veio a concretizar. Pelo contrário, como se disse no início desta lenga-lenga, nem básico nem primário. Nada, ou quase nada. Vale-nos este Jardim de Infância de Fornos, que, poderá não chegar aos 50 anos, mas pelo menos, e porque falta pouco, tudo indica que chegará aos 30.

Notas finais:
O Jardim de Infância de Fornos, como dissemos, foi inaugurado em 29 de Setembro de 1989 mas todo o processo anterior inerente à aquisição do terreno, projecto e construção foi demorado e por diversas vezes mereceu reparos na Assembleia de Freguesia, com os deputados a pressionarem a Junta para esta por sua vez pressionar a Câmara Municipal quanto à urgência e celeridade das obras. Por conseguinte, apesar de um pequeno equipamento, a coisa não foi fácil nem rápida, mesmo então reconhecendo-se a sua necessidade.

Sobre o número de alunos que estão inscritos no Jardim de Infância de Fornos: