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16/06/2026

Como a farra e diversão não são de borla...

 


Dados da contratação do agenciamento de artistas para o Corga da Moura 2026. A este valor  de 60 mil euros pago pelo município somam-se as comparticipações das quatro juntas de freguesia, que, ao contrário do evento, não são divulgados nas redes sociais, apenas nas sessões da Assembleia de Freguesia e nas informações financeiras.

Serva para esclarecer aqueles que ignoram, ou não querem saber, que estas coisas custam dinheiro, muito, ao erário público, aos contribuintes, mesmo aqueles que não usufruiram do evento. 

01/06/2026

Pulseiras e suas canseiras

A ter em conta algums intervenções nas redes sociais em torno do custo das pulseiras para a Viagem Medieval 2026, somos levados a supor que vários munícipes sustentam que, dado o evento ter emergido e desenvolvido no concelho, seria justa a criação de um regime de discriminação positiva para os residentes, consubstanciado em descontos, tarifas minoradas ou outras prerrogativas exclusivas. Parece-me um não assunto.

Pessoalmente sobre tal hipótese, considero que deveria custar 100 euros, tanto para os feirenses como para os de Freixo de Espada à Cinta, espanhóis e marroquinos. 

Passe a ironia, como é um evento de que não sou adepto nem cliente, a verdade é que é-me indiferente o custo do acesso e se os feirenses devem pagar para  frequentar, ou se à borla, como na generalidade das festas e romarias. 

Todavia, o que me parece muito mal, isso sim, é que os feirenses que não põem lá os pés, enquanto contribuintes do município através de um preço pornográfico do serviço de água e saneamento, IMI e outros quejandos,  tenham de pagar eventuais prejuízos, como aconteceu na edição passada.

Haja, pois, bom senso e acima de tudo que se dê sentido ao velho conselho de que quem quer festas, que as pague. Nada mais justo o conceito de utilizador/pagador. Era só o que faltava que assim não fosse!

29/05/2026

A previsibilidade enfadonha

Confesso que não sou apreciador de cinema, nem mesmo de séries, mesmo que naturalmente, ao longo do tempo, já tenha assitido a muitos filmes e acompanhe, mesmo que sem fidelidade, o que vai passando na televisão. 

Mesmo assim, percebo que nas séries e filmes de ficção actual, particularmente nos géneros policial, de acção e suspense, verifica-se uma recorrência quase sistemática: o protagonista, o artista, o herói, é confrontado com os criminosos que ameaçam a sua família ou amigos próximos para o forçar a depor as armas, a render-se. Seja a esposa, a namorada, os filhos, os pais, etc. 

O que justifica a persistência desta fórmula tão previsível, como um dejá vu?

A recorrência desse cenário específico nos produtos audiovisuais de ficção,  frequentemente designado na crítica literária e cinematográfica como o tropo do "refém familiar" ou da "donzela em perigo", deve-se a um conjunto de funções narrativas e psicológicas altamente eficazes. Embora previsível, a fórmula continua a ser amplamente utilizada pela indústria por diversas razões estruturais.

Numa narrativa dramática, a tensão é directamente proporcional ao que o protagonista tem a perder. Quando o herói enfrenta o antagonista apenas pela justiça ou pelo dever profissional, a motivação é abstracta. Ao colocar a família ou amigos próximos em risco iminente, o conflito torna-se estrictamente pessoal, elevando a fasquia emocional ao nível máximo percetível pelo espetador.

A maioria dos espectadores pode não se identificar com a rotina de um agente policial ou de um agente secreto, mas compreende universalmente o instinto de protecção em relação aos entes queridos. Este mecanismo gera uma identificação imediata, fazendo com que a audiência partilhe da angústia e da vulnerabilidade da personagem principal. Este recurso força o protagonista a um impasse ético e lógico.

A perda de controlo: O herói, habitualmente caracterizado pela autossuficiência e pelo domínio da situação, vê-se privado do seu poder de acção, o que humaniza a personagem e quebra temporariamente a sua invulnerabilidade.

Do ponto de vista da estrutura do argumento, o momento em que o vilão ameaça os inocentes serve para validar qualquer acção extrema que o herói venha a tomar em seguida. Quando as regras convencionais são quebradas pelo antagonista ao visar a família, o público aceita, e frequentemente deseja, uma resposta do herói que ultrapasse os limites da lei ou da moralidade comum, culminando na catarse da resolução. Quanto mais o bandido sofrer, tanto mais o espectador tende a gostar, como se ele próprio participe na vingança e na justiça, seja lá o que isso for.

A televisão e o cinema operam frequentemente sob restrições de tempo. Utilizar um modelo cuja dinâmica o público já conhece perfeitamente permite avançar a narrativa rapidamente para o clímax, sem a necessidade de construir desenvolvimentos complexos para justificar a confrontação final.

Em suma, trata-se de uma convenção de género que sobrevive devido à sua eficácia mecânica na manipulação da tensão dramática, funcionando como um gatilho psicológico previsível, mas fidedigno, para o desfecho da ação.

Percebendo todo este contexto, a verdade é que, pelo menos para mim a coisa torna-se enfadonha de tão previsível. Quase, sempre, num momento em que o herói parece dominar a situação, lá vem a mulher, a filha e o filho, os amigos, etc, a cairem nas mãos do inimigo, invertendo a situação. Quem pode apreciar isto, esta previsibilidade? Um pouco como assistir a um espectáculo de strip-tease, diria.

A saturação face a este recurso é uma reação partilhada por uma fatia significativa do público e da crítica cinematográfica. Quando um mecanismo dramático é utilizado repetidamente sem inovação, transforma-se num cliché, o que quebra a suspensão da descrença e gera o enfado que menciona.

Ainda assim, este tipo de narrativa continua a ter uma audiência vasta e fiel. Os perfis de público que tendem a apreciar ou a aceitar esta previsibilidade parecem assentar em diferentes factores:

Grande parte da audiência consome entretenimento televisivo ou cinematográfico após a rotina diária, procurando relaxamento e não necessariamente um desafio intelectual ou inovação estrutural. Para este público, a previsibilidade funciona como um elemento de conforto: sabe-se exactamente o que esperar, quem são os "bons", quem são os "maus" e que, no final, a ordem será restaurada. A previsibilidade elimina a ansiedade cognitiva. Deseja-se um final feliz, memso que envolva viongança cruel.

Para os entusiastas do cinema de acção puro, o argumento é secundário, servindo apenas como um pretexto ou uma moldura para o que realmente lhes interessa: a coreografia das lutas, os efeitos especiais, a perícia técnica das perseguições ou o carisma do actor principal. Sabendo que o herói irá recuperar o refém, o prazer do espectador reside em ver como ele o fará, e não se o fará.

Espectadores que não assistem a este género de ficção de forma intensiva ou sistemática não sofrem do mesmo nível de saturação. Para quem consome estas produções de forma esporádica, o tropo mantém a sua eficácia dramática original, uma vez que o efeito de repetição não é perceptível.

A indústria do entretenimento, particularmente nas plataformas de streaming e na televisão generalista, opera frequentemente com base em métricas de retenção. Fórmulas testadas que garantem uma base mínima de audiência são preferidas em detrimento de riscos narrativos. O público que consome estes conteúdos de forma mais passiva acaba por validar o modelo através dos números de visualização.

Precisamente por se ter tornado enfadonho, realizadores e argumentistas contemporâneos têm tentado subverter esta fórmula para apelar a um público mais exigente. Algumas das abordagens incluem a inversão de papéis, onde o suposto refém se liberta autonomamente ou salva o protagonista, subvertendo a fragilidade esperada.

Em resumo, não sendo cinéfilo, sou capaz de perceber um bom filme, mas que estas previsibilidades enjoam, sim. Para além de tudo, a banalização da violência, a níveis extremos não concorrem, de todo, para extraír de uma peça cinematográfica qualquer enriquecimento, seja a que nível for.

Talvez por isso, mal por mal, prefiro filmes e séries com registos menos dramáticos,  sobretudo as comédias, ligeiras ou puras, ou filmes mais realistas ao nível das personalidades, relaçõs e emoções.