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21/04/2026

O Macaco Nu - Desmond Morris


Aos 98 anos morreu Desmond Morris, autor do célebre livro “O Macaco Nu”.

Publicado originalmente em 1967 pelo zoólogo e etólogo Desmond Morris, "O Macaco Nu" (The Naked Ape) é uma das obras de divulgação científica mais influentes do século XX. O livro analisa o comportamento humano sob uma lente puramente biológica e evolutiva, tratando o Homo sapiens como uma espécie animal entre as outras.

Morris define o ser humano como o "macaco nu": um primata que, por razões evolutivas, perdeu a pelagem corporal. Ao longo do texto, ele ignora as explicações culturais ou religiosas habituais para o comportamento humano, focando-se em instintos herdados que partilhamos com outros animais ou que desenvolvemos para sobreviver na savana.

O autor descreve a transição do antepassado humano de um recolector de floresta para um caçador-recolector em campo aberto. Esta mudança evolutiva conduziu a uma postura erecta para avistar presas e predadores; A perda de pelo para facilitar a regulação térmica durante perseguições longas; Desenvolvimento cerebral para criar ferramentas e estratégias de grupo.

O livro divide-se em capítulos que analisam as funções vitais do "macaco nu":

Sexualidade: Morris argumenta que muitas características sexuais humanas evoluíram para fortalecer o vínculo do casal, garantindo que o macho permanecesse presente para ajudar a cuidar da prole, que nasce extremamente dependente.

Criação: A análise do instinto materno e da necessidade de um período prolongado de aprendizagem infantil.

Agressividade: O autor explora como o comportamento territorial e a hierarquia de dominância (comum em primatas) se manifestam na sociedade moderna e na guerra.

Alimentação e Higiene: Como os nossos hábitos de consumo e cuidados corporais ainda refletem rituais de grupos sociais primitivos.

Uma das teses centrais do livro é que, embora vivamos em cidades tecnológicas, o nosso "equipamento" biológico e instintivo permanece o de um caçador da Pré-História. Morris alerta que ignorar a nossa natureza animal e os nossos limites biológicos (como a sobrepopulação e o stress territorial) pode colocar em risco a sobrevivência da espécie.

Na época do seu lançamento, o livro foi controverso por desmitificar a "superioridade espiritual" humana e por dar grande ênfase à biologia sexual. Hoje, embora alguns dados da antropologia tenham sido actualizados por descobertas mais recentes, permanece um marco por ter popularizado a ideia de que a nossa biologia molda a nossa cultura de formas mais profundas do que gostamos de admitir.

25/03/2026

O Senhor nos valha.

Democracia, liberdade, igualdade, são ilusões num país onde o Estado dá esmolas e a máquina do governo pertence a uns quantos políticos e banqueiros que, com espertezas de quadrilha, se apoderaram da faca e do queijo.

Mas um país que estende a mão à esmola do Estado, e tem por sonho maior a reforma, também não saberia que fazer com a liberdade e a igualdade, as verdadeiras, as que se ganham à custa de espírito cívico, diligência e responsabilidade social.

De modo que por vezes, o que melhor sintetiza a imagem de um povo é o falso mendigo à porta da igreja, pedindo "pelas alminhas de quem lá tem", ao mesmo tempo que, contente da finura, pisca o olho ao comparsa.

O Senhor nos valha.


[J. Rentes Carvalho]

09/03/2026

Vergonha

De si, a viver entre o Minho e o Algarve, ninguém espera que ao acordar, ou mesmo pelo dia adiante, se aflija com a situação da Pátria, pois são as voltas da vida quem estabelece prioridades. Uma vista de olhos ao jornal ou as notícias na televisão podem, um instante, picar-lhe a curiosidade ou arreliá-lo, mas logo depois o trabalho, a família, pesos e obrigações de toda a ordem se encarregam de envolvê-lo num manto que pouco tempo, e ainda menos apetite, lhe deixa para se preocupar  com "os interesses superiores da Nação".

Eleições também só há de longe a longe, e a vida, a verdadeira vida, não é a escolha de fantoches ou o medo do FMI, mas o preço do bacalhau, os problemas do colesterol, a hipoteca, o saldo no banco, os sapatos da Mariazinha.

O emigrante, falo por experiência, também não anda com as dores da Pátria às costas. Conseguiria até, dada a confortável distância da separação, olhar com certo desprendimento as peripécias da terra onde nasceu. Conseguiria, digo, mas não o deixam. A gente à sua volta constantemente o interroga, quer explicações, pasma-se, sem ironia, de que Portugal seja na Europa.

Perguntam-lhe, perguntam-me, como é possível os milhares de milhões que desaparecem sem rasto, a corrupção de cima abaixo, , os estádios faraónicos, o fausto dos políticos, as desigualdades de um Terceiro Mundo.

Perguntam de boa-fé e sem querer me envergonham, nos envergonham.


[J. Rentes de Carvalho]