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16/06/2026

Milhões em "pão e circo"

A despesa do poder local com a contratação de artistas e entretenimento é um dos temas pouco debatidos na opinião pública portuguesa, parece-me, apesar da importância que deveria ter no contexto da definição das prioridades orçamentais das autarquias.

Todos os anos, com a chegada das festas concelhias, das romarias das aldeias e dos festivais de verão, as praças, ruas e arraiais de Portugal, desde a mais remota aldeia à maior cidade, enchem-se de luz, música e multidões. Para os munícipes, traduz-se em momentos de lazer e acesso gratuito, na maior parte das vezes, à cultura; para o erário público, porém, o cenário representa um investimento de milhões de euros por parte do poder local, como quem diz, dos contribuintes.

A linha que separa o investimento na dinamização económica e turística de um concelho do gasto supérfluo em "pão e circo" é historicamente ténue. Enquanto muitas autarquias justificam estes eventos com o retorno financeiro para o comércio e restauração locais, críticos e analistas apontam frequentemente para a opacidade e para o volume astronómico de recursos financeiros canalizados para o entretenimento, de forma efémera, muitas vezes em detrimento de infraestruturas básicas, habitação ou coesão social.

Num mercado altamente centralizado, onde escasseiam os concursos públicos e imperam os ajustes directos por "exclusividade artística", uma mão cheia de agências de representação e produção concentra grande parte dos contratos adjudicados pelas Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia.

Para compreender a verdadeira dimensão deste ecossistema financeiro, analisei os dados oficiais do Portal BASE relativos a uma das entidades mais activas no setor do agenciamento e produção de espetáculos: a Iconikourage Unipessoal, L.da. Os números revelam o raio de acção de uma única empresa no universo da administração local ao longo de um período de sete anos. Outras haverá e a estes gastos somam-se, de modo generalizado as iluminações natalícias que também abrangem todo o país e que ainda recentemente geraram acção do ministério público devido a ilegalidades e esquemas manhosos nos processos de contratação de fornecedores. 

Entre abril de 2019 e junho de 2026, esta única estrutura empresarial. a  Iconikourage, garantiu um encaixe financeiro global de 6 289 394,91 € (valor sem IVA) em contratos públicos.

Este montante foi pulverizado por um universo de 77 entidades adjudicantes únicas, evidenciando uma forte abrangência no território nacional: 60 municípios distintos e 11 juntas de freguesia recorreram aos seus serviços para rechear os respectivos programas de entretenimento. O nosso município é também um cliente, como ainda agora para o agenciamento artístico do Corga da Moura no valor de 60 mil euros. Mesmo da anterior União de Freguesias de Lobão, Gião, Louredo e Guisande, a Iconikourage facturou bem.

Confirmando a tendência deste mercado, a esmagadora maioria das adjudicações foi realizada sem concorrência pública: 89,5% do valor total foi contratado através de Ajuste Dirceto ou Consulta Prévia, com destaque para eventos de grande envergadura como o Palco 1 da EXPOFACIC (282 600,00 €) ou o Varosa Fest (199 980,00 €).

Assim se estoura dinheiro tão necessário para situações mais urgentes e que melhor poderiam contribuir para a qualidade de arruamentos, equipamentos públicos e investimentos duradouros, etc. Certamente o entretenimento e a cultura, seja lá de que modo isso é interpretado, são importantes, mas quando há necessidades mais prementes, é legítimo questionar estes gastos à tripa farra tão do agrado dos autarcas porque o "circo e pão" sempre foram populares e rendem votos. 

Os defensores deste gastar à "tripa farra" argumentarão que todos esses eventos geram retorno económico para os locais. Certamente que sim, algum, mas quase sempre para beneficiários muito restritos, porque sempre mais abundantemente bebeu quem está perto da fonte. No geral, a larga maioria dos contribuintes, mesmo os que não usufruiem dos eventos, nada ganham. É pois, um falso ou manhoso argumento para além de que esse retorno económico raramente se converte em vantagem colectiva, a favor do bem público.

Assim sendo, continuarão a facturar, e bem, empresas como a Iconikourage e outras. É pois, um bom mercado, este ligado ao entretenimento pago pelas autarquias. Enquanto isso, vamos tendo estradas degradadas, equipamentos em falta ou sem condições e abastecimento de água ao preço do whisky de 20 anos. Temos o que merecemos. Desde que nos deem música está tudo ok.

09/06/2026

Perguntas difíceis

Há perguntas que devem ser feitas, mesmo que possam gerar algum constrangimento e ninguém queira responder.

Por exemplo: Quem, como eu, anualmente contribui para as despesas da realização da nossa festa em honra de Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António, e que entre a participação nas diversas campanhas de angariação de fundos, como sorteio do presunto e outras, bem como no consumo nos eventos de comes-bebes, e pagamento da verba referente ao peditório, tudo somado não andará longe de 500 euros, não terá o direito a saber quanto é custou a participação da Banda de Música da Esquina, do Toy, do Canário, do Quim Barreiros, do Pai e Filhos, do Manel da Farra,  do rancho "A" ou rancho "B", ou mesmo o pagamento ao tipo que passa música pomposamente designado de DJ?

Eu creio que sim, porque a festa é pública e recorre-se de verbas públicas para a organizar e promover.

Se assim é, o porquê de alguma reserva e até algum atraso na divulgação das contas como tem acontecido nos últimos anos, em que apenas se divulga valores totais e não ítem por ítem?

A meu ver, não faz qualquer sentido que essa informação seja reservada, nem qualquer motivo para que tal não seja divulgado ao pormenor, não só nos habituais avisos no final das missas como também estampado nas redes sociais da Comissão de Festas, isto porque quando estas são usadas para pedir também devem ser usadas para divulgar e prestar contas finais. 

Até posso tentar perceber o objectivo de algumas reservas na divulgação pormenorizada das contas, porque há sempre quem veja mosquitos em África, mas sendo a coisa pública, tal situação poderá não contribuir para uma total transparência. Eu, pelo menos, contribuindo, não gosto que me apresentem a conta total. Como num restaurante,  não aceito que o empregado me diga apenas que são 50 euros. Gosto e quero saber quanto custaram as azeitonas, o vinho, o bife e a sobremesa.

02/06/2026

Poeira & Fumaça


Quem acompanha as redes sociais, nomeadamente o Facebook, já terá percebido que por ali vão aparecendo algumas páginas que têm em comum uma suposta intenção de escrutinar acções públicas, nomeadamente relacionadas ao Poder Local.  Também em comum, ou de modo indisfarçável, parecem terem como foco e alvo priveligiados as figuras e partido que democrática e legitimamente governa o município e a larga maioria das juntas de freguesia. Ainda uma evidência de não terem rostos, por isso apresentando-se de uma forma anónima. 

Bastaria a parcialidade e o anonimato para não lhes ser dado qualquer crédito. Poderiam ser projectos interessantes se com rosto e com alguém a quem se possa louvar e agradecer  pelo trabalho, quando bem feito, ou responsabilizar por eventuais excessos ou permitir a defesa de  quem se ache posto em causa.

Ora nessas páginas é fácil, muito fácil, adoptar uma postura sensacionalista, tipo "alerta CMTV", mas sem  nome e identificação do autor, atirando a pedra e escondendo a mão. Lança-se fumaradas ou poeiras para o ar, afirmando-se, por exemplo, que alguns moradores de uma certa freguesia questionam e queixam-se de uma determinada situação. 

Independentemente da legalidade, ou não, das situações que possam ser apontadas, e para isso haverá quem, com autoridade, fiscalize, avalie e actue, mas a verdade, hoje em dia é fácil, muito fácil, levantar poeiras e suspeições, tantas vezes sensacionalistas e sem substância, seja sobre particulares ou sobre as autarquias.

Quanto aos moradores que questionam? Mas quem? Não têm nome? E quantos? 1, 2, 50, 100? Questionam apenas por curiosidade, por questões de legalidade ou porque consideram que dessas situações há prejuízos objectivos para eles próprios ou para o bem público, nomeadamente o das freguesias em causa? É que, apesar de tudo, o município e as juntas de freguesia têm canais próprios onde se podem colocar questões e pedir esclarecimentos. Ou seja, os supostos moradores podem queixar-se de forma directa e identificada, até como contributo de cidadania, já que nem sempre as juntas de freguesia têm meios para, em cima da hora e a toda hora, estarem ao corrente de todas as situações diárias que vão surgindo.

Por conseguinte, deve haver cuidado nestas coisas que, de modo fácil e tentador, com ares de sensacionalismo, são estampadas em aparentes arranjos gráficos feitos facilmente por IA (Inteligência Artificial). Valorizar estes canais, com todos os sinais que evidenciam quanto à seriedade ou falta dela,  é um mau princípio.

É positivo, sem dúvida, que estas questões sejam colocadas e que haja escrutínio das coisas e causas públicas, e fazem falta canais sérios, mas porventura e antes de se lançar poeira e suspeições, importará ir primeiramente  à raíz, à fonte saber das razões. São esses os bons métodos e os princípios de quem, de algum modo queira fazer jornalismo, nem que seja amador. Qualquer modelo de IA saberá dizer e ensinar as bases e quais os bons requisitos para um jornalismo ético, responsável e isento, mesmo que a um nível local.

01/06/2026

Pulseiras e suas canseiras

A ter em conta algums intervenções nas redes sociais em torno do custo das pulseiras para a Viagem Medieval 2026, somos levados a supor que vários munícipes sustentam que, dado o evento ter emergido e desenvolvido no concelho, seria justa a criação de um regime de discriminação positiva para os residentes, consubstanciado em descontos, tarifas minoradas ou outras prerrogativas exclusivas. Parece-me um não assunto.

Pessoalmente sobre tal hipótese, considero que deveria custar 100 euros, tanto para os feirenses como para os de Freixo de Espada à Cinta, espanhóis e marroquinos. 

Passe a ironia, como é um evento de que não sou adepto nem cliente, a verdade é que é-me indiferente o custo do acesso e se os feirenses devem pagar para  frequentar, ou se à borla, como na generalidade das festas e romarias. 

Todavia, o que me parece muito mal, isso sim, é que os feirenses que não põem lá os pés, enquanto contribuintes do município através de um preço pornográfico do serviço de água e saneamento, IMI e outros quejandos,  tenham de pagar eventuais prejuízos, como aconteceu na edição passada.

Haja, pois, bom senso e acima de tudo que se dê sentido ao velho conselho de que quem quer festas, que as pague. Nada mais justo o conceito de utilizador/pagador. Era só o que faltava que assim não fosse!

29/05/2026

A previsibilidade enfadonha

Confesso que não sou apreciador de cinema, nem mesmo de séries, mesmo que naturalmente, ao longo do tempo, já tenha assitido a muitos filmes e acompanhe, mesmo que sem fidelidade, o que vai passando na televisão. 

Mesmo assim, percebo que nas séries e filmes de ficção actual, particularmente nos géneros policial, de acção e suspense, verifica-se uma recorrência quase sistemática: o protagonista, o artista, o herói, é confrontado com os criminosos que ameaçam a sua família ou amigos próximos para o forçar a depor as armas, a render-se. Seja a esposa, a namorada, os filhos, os pais, etc. 

O que justifica a persistência desta fórmula tão previsível, como um dejá vu?

A recorrência desse cenário específico nos produtos audiovisuais de ficção,  frequentemente designado na crítica literária e cinematográfica como o tropo do "refém familiar" ou da "donzela em perigo", deve-se a um conjunto de funções narrativas e psicológicas altamente eficazes. Embora previsível, a fórmula continua a ser amplamente utilizada pela indústria por diversas razões estruturais.

Numa narrativa dramática, a tensão é directamente proporcional ao que o protagonista tem a perder. Quando o herói enfrenta o antagonista apenas pela justiça ou pelo dever profissional, a motivação é abstracta. Ao colocar a família ou amigos próximos em risco iminente, o conflito torna-se estrictamente pessoal, elevando a fasquia emocional ao nível máximo percetível pelo espetador.

A maioria dos espectadores pode não se identificar com a rotina de um agente policial ou de um agente secreto, mas compreende universalmente o instinto de protecção em relação aos entes queridos. Este mecanismo gera uma identificação imediata, fazendo com que a audiência partilhe da angústia e da vulnerabilidade da personagem principal. Este recurso força o protagonista a um impasse ético e lógico.

A perda de controlo: O herói, habitualmente caracterizado pela autossuficiência e pelo domínio da situação, vê-se privado do seu poder de acção, o que humaniza a personagem e quebra temporariamente a sua invulnerabilidade.

Do ponto de vista da estrutura do argumento, o momento em que o vilão ameaça os inocentes serve para validar qualquer acção extrema que o herói venha a tomar em seguida. Quando as regras convencionais são quebradas pelo antagonista ao visar a família, o público aceita, e frequentemente deseja, uma resposta do herói que ultrapasse os limites da lei ou da moralidade comum, culminando na catarse da resolução. Quanto mais o bandido sofrer, tanto mais o espectador tende a gostar, como se ele próprio participe na vingança e na justiça, seja lá o que isso for.

A televisão e o cinema operam frequentemente sob restrições de tempo. Utilizar um modelo cuja dinâmica o público já conhece perfeitamente permite avançar a narrativa rapidamente para o clímax, sem a necessidade de construir desenvolvimentos complexos para justificar a confrontação final.

Em suma, trata-se de uma convenção de género que sobrevive devido à sua eficácia mecânica na manipulação da tensão dramática, funcionando como um gatilho psicológico previsível, mas fidedigno, para o desfecho da ação.

Percebendo todo este contexto, a verdade é que, pelo menos para mim a coisa torna-se enfadonha de tão previsível. Quase, sempre, num momento em que o herói parece dominar a situação, lá vem a mulher, a filha e o filho, os amigos, etc, a cairem nas mãos do inimigo, invertendo a situação. Quem pode apreciar isto, esta previsibilidade? Um pouco como assistir a um espectáculo de strip-tease, diria.

A saturação face a este recurso é uma reação partilhada por uma fatia significativa do público e da crítica cinematográfica. Quando um mecanismo dramático é utilizado repetidamente sem inovação, transforma-se num cliché, o que quebra a suspensão da descrença e gera o enfado que menciona.

Ainda assim, este tipo de narrativa continua a ter uma audiência vasta e fiel. Os perfis de público que tendem a apreciar ou a aceitar esta previsibilidade parecem assentar em diferentes factores:

Grande parte da audiência consome entretenimento televisivo ou cinematográfico após a rotina diária, procurando relaxamento e não necessariamente um desafio intelectual ou inovação estrutural. Para este público, a previsibilidade funciona como um elemento de conforto: sabe-se exactamente o que esperar, quem são os "bons", quem são os "maus" e que, no final, a ordem será restaurada. A previsibilidade elimina a ansiedade cognitiva. Deseja-se um final feliz, memso que envolva viongança cruel.

Para os entusiastas do cinema de acção puro, o argumento é secundário, servindo apenas como um pretexto ou uma moldura para o que realmente lhes interessa: a coreografia das lutas, os efeitos especiais, a perícia técnica das perseguições ou o carisma do actor principal. Sabendo que o herói irá recuperar o refém, o prazer do espectador reside em ver como ele o fará, e não se o fará.

Espectadores que não assistem a este género de ficção de forma intensiva ou sistemática não sofrem do mesmo nível de saturação. Para quem consome estas produções de forma esporádica, o tropo mantém a sua eficácia dramática original, uma vez que o efeito de repetição não é perceptível.

A indústria do entretenimento, particularmente nas plataformas de streaming e na televisão generalista, opera frequentemente com base em métricas de retenção. Fórmulas testadas que garantem uma base mínima de audiência são preferidas em detrimento de riscos narrativos. O público que consome estes conteúdos de forma mais passiva acaba por validar o modelo através dos números de visualização.

Precisamente por se ter tornado enfadonho, realizadores e argumentistas contemporâneos têm tentado subverter esta fórmula para apelar a um público mais exigente. Algumas das abordagens incluem a inversão de papéis, onde o suposto refém se liberta autonomamente ou salva o protagonista, subvertendo a fragilidade esperada.

Em resumo, não sendo cinéfilo, sou capaz de perceber um bom filme, mas que estas previsibilidades enjoam, sim. Para além de tudo, a banalização da violência, a níveis extremos não concorrem, de todo, para extraír de uma peça cinematográfica qualquer enriquecimento, seja a que nível for.

Talvez por isso, mal por mal, prefiro filmes e séries com registos menos dramáticos,  sobretudo as comédias, ligeiras ou puras, ou filmes mais realistas ao nível das personalidades, relaçõs e emoções. 

27/05/2026

Orgulho, fé, devoção, tradição, pois sim, mas...

 


Com a banalização e importância das redes sociais enquanto ferramentas de comunicação, a promoção, cobertura e rescaldo das festividades religiosas e populares nas diferentes freguesias , tornaram-se o pão-nosso-de-cada-dia. Eventos e iniciativas de angariação de fundos,  patrocínios, cartazes, programas, artistas, etc, são pretextos de partilha de todas as comissões de festas ao longo do ano, sejam da pequena e singela festividade ou da maior e espalhafatosa.

Nesse contexto, passada a festa e estourados os últimos foguetes, vem o rescaldo com adjectivos e valores como o sentido de dever cumprido, o orgulho, fé, devoção, tradição, bairrismo, etc, etc. São esgrimidos como se uma determinada freguesia e sua festa sejam mais que as outras. E não são, porque nestas coisas, mesmo que em diferentes modos e contextos, com as diversas particularidades, todos puxam a brasa à sua sardinha e procuram fazer o melhor, por regra, muito com pouco, e já quase nada sobra para inventar de diferente. Até os cartazes feitos por Inteligência Artificial começam a banalizar-se e a perder a piada, sem se dar mérito à originalidade e criatividade e não raras vezes com elementos que não reflectem a realidade de cada festa.

Para além disso, muito mais que a fé, devoção e  tradição, sabemos que o que leva muita gente a uma determinada festa raramente são as virtudes dos santos e santinhos, mas antes o prestígio ou popularidade dos artistas que sobem aos palcos. Por conseguinte, hoje em dia valoriza-se mais um qualquer artista, do mais medíocre ao mais conceituado, do que a Nossa Senhora de Não sei Quantos ou o Santo e Mártir lá do sítio. 

Resulta daqui que estas coisas têm que se lhe diga  e nem sempre o que parece é e tantas vezes na simplicidade está a maior virtude e genuinidade. Depende dos olhos com que se vê o valor de uma festa. Por isso, presunção e água benta, quanto baste, não farão mal algum.

Além do mais, de um modo geral, basta olhar para os cartazes oficiais de certas festas e apesar destas terem como base a matriz religiosa e devocional, a tendência está em omitir não só as fotografias dos santos, da capela ou igreja onde se invocam, como até ignorar o seu nome. É um mau princípio, para não dizer desrespeito. Mas é esta a nova realidade. Pessoalmente espero que tal nunca venha a suceder na nossa festa do Viso, dedicada a Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António. Para algum laxismo já basta trocar a figura dos santos, fazendo representar imagens que não correspondem aos que estão nos altares dos locais de culto, como, de resto, já aconteceu.

Posto isto, orgulho, fé, devoção, tradição, bairrismo, etc, etc, pois sim, com certeza, são valores genuínos de quem se dedica na organização, mas importa não esquecer a base, a matriz e nunca deixar que a componente profana e popular abafem ou ignorem a religiosa. Para isso temos os ditos festivais musicais em que são invocados o Santo Lucro e a Santa Farra.

25/05/2026

Paradoxos


Na nossa freguesia ainda há várias estradas com pavimentos em mau estado. Mas, bem pior que mau, porque deplorável, destaca-se a Rua da Zona Industrial e o troço da Rua de Estôze, que liga este lugar ao de Cavadas, na freguesia de Pigeiros.

Na Rua da Zona Industrial a desculpa é a da necessidade da prévia realização de redes públicas água e saneamento. É perfeitamente compreensível, mas, todavia, o tempo passa e não há sinal de que a coisa esteja para breve. De minha parte jé evito por lá transitar e mesmo a caminhar ou em corrida não se aconselha porque é perigosa, tal é o estado de degradação.

Quanto à Rua de Estôze, não há a mínima desculpa para o estado em que se encontra. Mau demais, a juntar ao lixo na berma.

Mesmo parte da Rua dos Quatro Caminhos, no lugar da Gândara, está degradada, com  algumas depressões e é frequente ver-se o trânsito a circular em contra-mão para as evitar.

Enquanto parece haver dinheiro com fartura para festas e festivais, que se estouram e três dias, esquece-se o essencial e de utilização diária . Há dinheiro a rodos para artes de rua mas não para as ruas. 

É pena e lamenta-se que estes paradoxos de gestão ainda subsistam.

19/05/2026

Não fica bem

 


Esta situação não é de agora, pelo que já tem barbas. Confesso que não sei de quem é a responsabilidade. Para o caso, não interessa nem quero saber. Parece-me, isso sim (e quem pode achar o contrário?), que não fica bem. Para muitos é apenas um conjunto de pedras, mas é um cruzeiro e tem um significado e simbolismo religioso e patrimonial. 

Não fica mesmo nada bem dar-lhe esta utilidade de suporte de sacos de lixo, por mais compreensível e bem intencionada que possa ser, a de deixar os sacos fora do alcance dos cães e gatos. Para isso há solução, que mais não seja, colocar o lixo um pouco antes da hora prevista da passagem do serviço de recolha.

Haja, pois, alguma sensibilidade para estas coisas.

Finalmente, parece-me, que também estará na hora de a alguns dos cruzeiros do percurso do calvário ser-lhes dada alguma dignidade, nomeadamente com a sua requalificação. Este, por exemplo, tem a base praticamente enterrada. Outros estão quase em condições similares. Mesmo o cruzeiro na rua com o mesmo nome, no lugar de Fornos, porque pobre,  em simples cimento armado, poderia ser melhorado com revestimento em granito ou mesmo a sua substituição por um em granito.

São pequenas coisas que se podem melhorar com pouco. Apenas é preciso investir em sensibilidade e sentido de preservar e melhorar o que outros nos deixaram. Não custará muito.

04/05/2026

No tempo em que havia mais alma e menos imigrantes

 


Equipa do S.L. Benfica, na época 1974/1975 (Campeão Nacional). Do tempo em que os adeptos não andavam a torcer por uma equipa quase toda composta por estrangeiros. Se quisermos o contrário, no tempo em que as equipas portuguesas tinham mais alma...portuguesa, nacional.

Tenho-me desligado do futebol indústria, e ainda bem. Do meu Benfica, não vejo jogos, não pago televisão para assitir no sofá ou ver no campo (até porque é longe), nem leio jornais. Não rebato alarvidades e provocações nas redes sociais, nem alinho em tira teimas a saber quem tem mais ou menos razão na eterna rivalidade entre clubes e se cada um destes tem mais ou menos razão nas ajudas ou roubos por árbitros. É chover no molhado ou regar a praia.

Não tenho camisolas com as cores e emblema do clube e seria incapaz de andar com elas fora do contexto do estádio. Nunca influenciei esposa, filho, afilhado ou vizinho a ser pelo meu clube. Nestas coisas o respeitinho pela identidade própria é muito bonito. Se tiver que ter em casa alguém adepto de outro clube, que seja, apenas pedindo que haja respeito mútuo e bom senso.

Sei dos resultados, muitas vezes,involuntariamente e apenas no dia seguinte e porque, sem querer, as notícias vão-se ouvindo, na televisão ou na rádio. Das duas ou três vezes que, levado por amigos, fui para a rua festejar mais um título, senti-me um tonto, sem saber o que ali estava a fazer no meio da multidão, na maior parte gente estranha, a olharem uns para os outros, com excessos na bebida e nos gestos. A ressaca deveria servir para alguma vergonha pessoal, mas é pedir muito a quem vive estas coisas a dizer que com orgulho, alma e coração, como se isso os fizesse mais capazes ou melhores seres humanos que os rivais. 

Faz-me confusão ver tantos adeptos, ora com maus fígados quando as coisas não correm de feição, ora com entusiasmo desmedido e até fanatismo, quando, afinal, torcem apenas por uma equipa de estrangeiros, que do clube apenas envergam a camisola e recebem os milionários ordenados e sempre com o olho num patrão de um campeonato com mais prestígio, que lhes dobre ou triplique o ordenado. Os dirigentes, treinadores e atletas são pagos a peso de ouro mas precisam de estádios cheios, mesmo que com gente que ganha o salário mínimo e não tem onde cair morto. Mas, cá está, nem sempre o lado racional do adepto da bola é o que tem mais peso e o futebol tem destas coisas. Faz parte, aqui e em todo o mundo. A indústria faz por isso! It's just business!

Posto isto, talvez pelo efeito da idade, que se presta a encolher umas coisas mas também a servir para aumentar algum distanciamento e lucidez, mesmo que não viva do passado, esta fotografia do Benfica de outros bons tempos, como muitas outras, incluindo as que moram nas minhas dezenas de cadernetas de cromos, servem para lembrar um tempo em que as equipas de futebol, desde os distritais aos nacionais, tinham muito menos estrangeiros e efeitos do marketing da indústria, mas seguramente mais alma, que se estendia de cima para baixo, dos dirigentes e atletas aos sócios e adeptos.

Concerteza que cada tempo é um tempo e o actual é seguramente diferente, mas quando se vende a alma ao diabo (da indústria) alguma coisa tem de ficar pelo caminho. Parece-me! É apenas a opinião de quem se vai desligando. Talvez seja da idade!


Quanto à equipa: Em cima, da esquerda para a direita: Eurico, Toni, Barros, Shéu, Bento.

Em baixo, pela mesma ordem: Nelinho, Artur, Nené, V. Martins, Jordão, Moinhos.

Era treinador:  Milorad Pavic

Mais do mesmo...

 




O problema repete-se indefenidamente, em Guisande e noutros locais. A coisa já não vai lá com recomendações, apelo ao civismo ou ameaças de coimas. A solução seria uma brigada de vigilância armada com uns paus de marmeleiro. Mas, como somos uma sociedade de mansos e humildes e de regras civilizadas para quem não sabe ser cívico, e que pouco ou nada penalizam os prevaricadores, não será solução recomendada. Um polícia para cada português, talvez ajudasse, mas seria incomportável, e os poucos que existem andam ocupados na caça às multas de trânsito ou a acompanhar corridas e desfiles.

Posto isto, há que conviver com a constante acção de gente badalhoca.


29/04/2026

É fartar, vilanagem!

As catástrofes naturais que têm assolado Portugal, desde os trágicos incêndios de 2017 às recentes tempestades que fustigaram, sobretudo, o centro do país no início deste ano, deixam marcas profundas no território e na alma das populações. Perante a destruição de habitações, fábricas e explorações agrícolas, a resposta do Estado foi rápida através de fundos de reconstrução é não apenas necessária, mas um imperativo de solidariedade social. Contudo, a par dos escombros, surge frequentemente um fenómeno igualmente corrosivo: o oportunismo de quem vê na tragédia uma oportunidade de lucro ilícito e que procura tirar proveita das facilidades burocráticas dadas pelo Estado como forma de se dar resposta tão rápida quanto possível aos danos e insuficiências.

É comum ouvirmos críticas contundentes à classe política, à burocracia das instituições e à alegada falta de transparência na gestão da coisa pública. No entanto, os relatos recorrentes de candidaturas fraudulentas (como alguém que pediu à volta de 3 mil euros quando na realidade apenas precisou de meia dúzia de telhas que lhe foram oferecidas) a apoios estatais revelam uma dissonância ética preocupante. Quando indivíduos ou empresas tentam obter financiamento para reconstruir estruturas que já se encontravam abandonadas ou em ruínas muito antes do desastre, ou quando inflaccionam prejuízos de forma desproporcional, estão a replicar precisamente os comportamentos que condenam nos seus representantes. Um pouco como, na estrada, alguém que tendo no seu automóvel umas valentes amassadelas, depois de um ligeiro toque de alguém, alega à seguradora que o carro estava impecável. Um simples Fiat Uno é descrito como um Ferrari.

Todos cohecemos, até por perto, casos de falsificação organizada de acidentes automóveis para enganar as seguradoras, e até mesmo em acidentes a envolver bicicletas, em que há quem se preste a substituir peças danificadas vulgares por mais caras para enganar o perito e aumentar a indemnização pela seguradora. Não somos anjinhos e todos conhecemos estas histórias.

Esta microcorrupção do quotidiano sugere que o problema ético não é exclusivo das esferas de poder, mas sim transversal a uma sociedade que, por vezes, confunde astúcia com sobrevivência e oportunismo com direito.

As ramificações destas acções enganadoras são vastas e prejudicam toda a comunidade. Os fundos públicos são finitos. Cada euro desviado para uma estrutura que já estava em ruínas é um euro retirado a uma família que perdeu o seu único teto ou a um empresário que luta para manter postos de trabalho.

A detecção de fraudes obriga o Estado a endurecer os processos de fiscalização. O resultado é um aumento da burocracia que atrasa o apoio a quem dele necessita com urgência, punindo o justo pelo pecador. Nesta situação o Governo confronta-se com a situação de pecar por excesso de zelo ou de abrir a porta e as mãos ao chico-espertismo e oportunistas, tantas vezes estes com o beneplácito de gente que está nas entidades que deviam fiscalizar e zelar pelo interesse público, usando da velha filosofia de que uma mão lava a outra e que em detrimento do Estado ganham todos.

A fraude alimenta o cinismo. Quando a comunidade percebe que o vizinho beneficiou indevidamente de um sistema de apoio, a confiança nas instituições e na própria solidariedade entre pares dissolve-se, dando lugar ao ressentimento.

Uma sociedade que aspira a instituições íntegras deve, obrigatoriamente, sustentar-se numa base de integridade individual. Criticar a corrupcção "lá em cima" enquanto se pratica o oportunismo "aqui em baixo" é uma falha moral que compromete o desenvolvimento do país.

A reconstrução de uma região após uma catástrofe deve ser física, mas também ética. Exigir transparência do governo é um dever cívico, mas agir com honestidade perante os recursos que pertencem a todos é a única forma de garantir que, na próxima tempestade, a rede de apoio seja robusta, rápida e, acima de tudo, justa. Infelizmente, de Pedrógão à região Centro, os exemplos de oportunismo mostram que nada aprendemos. No meio da catástrofe e miséria haverá sempre gente ao saque como na Idade Média. 

É fartar, vilanagem!


[ilustração: Observador]

23/04/2026

Dia Mundial do Livro - Também dos meus


Hoje, 23 de Abril, celebra-se o Dia Mundial do Livro. Que seja "Mundial" ou "Internacional", é uma data significativa pelo que representa.

O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor foi instituído pela UNESCO em 1995. Esta data tem como objectivo central o reconhecimento do livro como um instrumento fundamental para a educação e o progresso cultural.

O foco primordial da data é incentivar o hábito da leitura em todas as faixas etárias, destacando o prazer da descoberta literária. Em 2026, as iniciativas em Portugal, coordenadas pela DGLAB, sublinham a leitura como um acto de liberdade, cidadania e democracia, integrando as comemorações dos 50 anos da Constituição da República Portuguesa.

O dia serve para reafirmar o papel dos livros como meios insubstituíveis da transmissão de património cultural e informação, desenvolvimento intelectual, expansão de horizontes e combate ao isolamento social e reforço de laços interpessoais.

Não sou, de todo, escritor ou autor, mas modestamente já tenho três livros publicados, um deles recentemente apresentado e que está à venda pelo Guizande Futebol Clube, já que é a esta instituição que é dedicado e os ganhos com a venda servem para ajudar as suas actividades e obras nas instalações desportivas do Campo "Oliveira e Santos".

Apesar disso, escrever e publicar um livro não é apenas um exercício de vaidade mas antes uma consequência de quem cultiva a escrita, a língua  e a literatura. Se para muitos e talentosos escritores é um modo de vida, para pequenos e insignificantes  autores, como eu, que apenas publicam em edições de autor, é um exercício de alguma loucura e gastos que pouco compensam com pequenas edições. As editoras comerciais não apostam em que não tem nome, eventualmente até aceitando publicar mas com condições que se resumem a dar um chouriço para receberem um presunto "pata negra".

Dos meus três livros, o primeiro, "Palavas Floridas", com poemas, contos e textos, foi literalmente para oferecer a familiares e amigos, por isso sem ganhar um tostão. O segundo, de literatura infantil, vendi a pouco mais de preço de custo e desse valor ofereci 2 euros à UNICEF para campanhas de apoio às crianças do "corno de África". Algumas entidades de poder local comprometeram-se a apoiar, adquirindo algumas dezenas de exemplares para a rede de escolas e bibliotecas, mas tal não passou de uma promessa por cumprir. Sem supresa!

O terceiro, ainda fresco e recentemente apresentado (10 de Abril), é um conjunto de apontamentos sobre a história do  Guizande Futebol Clube, que o está a vender pelo que a totalidade dos lucros com a venda são para a colectividade. Uma vez  mais, trabalho e alguma despesa sem qualquer ganho, mas no que é um orgulho poder ajudar, juntamente com quem apoiou nos custos da publicação. Como reconhecimento, do poder local municipal ninguém a representar, mesmo que com convite prévio. Sintomático!

Por conseguinte, para os insignificantes autores como eu, vai valendo a loucura e a vontade de fazer alguma coisa, mesmo sem nada esperar. Tenho mais três projectos, um deles já em escrita avançada, dedicado à capela do Viso e à sua festa. Uma vez mais com foco nas coisas da freguesia. Ainda um outro, uma monografia geral sobre a freguesia nos seus diferentest aspectos, que praticamente está escrita. Ainda em mente um terceiro livro de poemas e contos "Palavras despidas".

São projectos, com  vontade própria e já todos com escrita adiantada, mas confesso que ainda sem saber quando verão a luz do dia. Estas coisas, para além do tempo e cansaço, custam dinheiro, cada vez mais, e não sou pessoa de pedinchar, sobretudo a quem tem obrigação de incentivar e apoiar. Seja como for, venham, ou não, a ser publicados, uma vez mais o objectivo não será ganhar dinheiro. Quando muito a vender a preço de custo para mitigar o prejuízo.

Posto isto, importa valorizar o Dia Mundial do Livro e dar importância ao que lhe dá substância, os autores, os livros e o que neles se imprime, sobretudo quanto temas que são uma forma de valorizar a nossa freguesia, os seus valores, passados e presentes. Apesar disso, sem expectativas porque sabendo que a larga maioria pouca importância dá a estas coisas.

16/04/2026

Pagar o que não se come


Como muitos portugueses, tenho serviço de telefone, televisão e internet. O básico. Não tenho canais prémium nem Netflixes ou coisas parecidas. A minha carteira não dá para tanto.

Apesar disso, um dos motivos que me levam a não subscrever Netflixes e quejandos é que, por regra, paga-se pelo pouco que se come e pelo muito que não se come. Ou seja, paga-se o menú completo, mesmo que só se comam as salsichas e não se toque nos bifes, no polvo ou no camarão. Do género, não comeu, comesse!

Infelizmente, sem regras de quem as devia implementar em defesa dos consumidores, habitualmente somos todos "comidos de cebolada". Por exemplo, pagamos serviço de televisão e mesmo assim temos que gramar doses exageradas de publicidade. Ora se temos de compreender essa filosofia em televisões de sinal aberto, já em serviços pagos a coisa fica estranha. Não surpreende, por isso, que muitos procurem esquemas ilegais de acesso a esses serviços de televisão e streaming.

Em resumo, quase todos comemos pela medida grande e conforme as coisas estão regulamentadas, de pouco ou nada serve reclamar. E isto não só neste género de serviços fornecidos por empresas, como até em alguns prestados pelo Estado.

É comer e não bufar, até porque quem bufa rapidamente passa por estar desalinhado, por negacionista, ovelha tresmalhada ou coisa do género. 

Num país de gente mansa e alinhada, custa até a acreditar que tenha havido uma revolução.

15/04/2026

Livro do Guizande F.C. - Rescaldos

 


Ainda o rescaldo da apresentação pública do livro "Guizande Futebol Clube - Apontamentos para a sua história", da sexta-feira passada (10 de Abril de 2026).

Sala cheia, reunião dos ex-presidentes e ausentes em memória. Atletas e dirigentes. O foco, o clube. Um documento de arquivo e uma forma concreta de apoiar. 

Neste contexto, se é certo que a sala esteve cheia e se mais viessem teriam de ficar de pé, no entanto, normal seria que mais figuras, algumas com peso institucional no passado e presente, marcassem presença. Não o fazendo, certamente que por imperativos legítimos dos seus afazeres e vontades pessoais, mas, todavia, fica essa assinatura de ausência. 

Apesar da presença de alguns jovens,notei a ausência de tantos outros. E se não me surpreende nem fez falta a indiferença de alguém da Câmara Municipal, porque dali nada se espera, preocupa-me, sim, alguma indiferença de alguma da nossa juventude, dos mais novos. Afinal, serão eles o futuro e se assim tão desinteressados por algo de comunitário, como o nosso clube, as perspectivas só poderão ser pessimistas. 

Que mais não seja, também por esta realidade presente, importa remar enquanto há tempo e força.


08/04/2026

O seu a seu dono

 


Os anos vão passando, o período da União de Freguesias (12 anos) foi penoso e negro, e com isso certas coisas vão também passando ao esquecimento. Ora se nos mais velhos isso é verdade, nos mais novos, por razões compreensíveis, a coisa ainda é mais grave.

Falo da velha questão de delimitação do território de Guisande com a freguesia de Caldas de S. Jorge na zona do lugar de Azevedo. De facto, aquando da urbanização daquela parte nascente do lugar, por meados da década de 1980, no mais elementar desrespeito pelos limites, um dos principais marcos de fronteira ali existente foi removido e não reposto, o qual existia aproximadamente no que é a actual esquina da Rua do Rancho Folclórico com a Rua das Escolas, onde existe uma represa do lado nascente da sede do rancho. Desse marco o limite ligaria ao marco mais a sul, aproximadamente no vértice de limite entre Guisande, Pigeiros e Caldas de S. Jorge.

Essa situação, aquando da urbanização, foi reportada à então Junta de Freguesia por um morador do lugar de Azevedo, o Sr. Bernardo Pinheiro, em consequência da então instalação de uma discoteca. Talvez exista na sede da Junta algum documento nesse sentido. Talvez....A Junta de Freguesia de então, que se saiba, de concreto pouco ou nada fez e a situação arrastou-se. 

Creio que já pela final da década de 1990 foi formada uma equipa com técnicos camarários e do Instituto Geográfico e Cadastral de modo a resolver-se o assunto de forma coordenada com as juntas de freguesia. Certo é que, não agradando o trabalho e a delimitação, apesar das evidências e mesmo em lhe ser favorável face ao limite original, e de se arranjar ali uma solução aos zigue-zagues para acomodar a situação aos arruamentos, certo é que o então presidente da Junta de Freguesia de Caldas de S. Jorge (falecido) não assinou o documento.

Significa isto que, no que considerou uma defesa dos interesses da sua freguesia (o que é legítimo) não reconheceu, contudo, uma evidência factual determinada pelos técnicos, naturalmente porque implicava reconhecer que uma parte substancial daquele território pertencia a Guisande.

Apesar disso, dessa recusa, e face às evidências fundamentadas pelos técnicos, oficialmente tem sido reconhecido como o limite oficial, o qual consta dos documentos cartográficos da Câmara Municipal e do Estado.

Apesar de uma perda efectiva de território face ao limite antigo definido por um marco removido de forma criminosa, uma boa parte do território continua a ser considerada, espertalhonamente, como daquela freguesia vizinha. Seria, pois, importante, que de forma conciliada e incluindo a Câmara, essa situação fosse reposta, quer no que diz respeito ao recenseamento eleitoral quer quanto às obrigações inerentes de toponímia, limpeza e obras naquele parte urbana.

O esquema acima mostra, com o quadriculado azul, a parte em questão e a magenta a parte que, de barato, se considera da freguesia de Caldas de S. Jorge, mas que conquistada ao arrepio da remoção criminosa do marco. Por conseguinte, se reclamar a área a magenta será um processo litigioso, demorado e eventualmente irresolúvel, pelo menos há o dever de regularizar administrativamente a parte reconhecida oficialmente, que objectivamenteé  território e prédios de Guisande.

Naturalmente que compete ás entidades, Junta de Freguesia e Câmara Municipal, trazer o seu a seu dono. Deixar passar ao esquecimento esta situação não é bom sinal e demonstra desmazelo pelo que é nosso.

A freguesia das Caldas de S. Jorge foi sempre muito activa na defesa do que considera seu, nomeadamente na disputa do limite com a freguesia de Lobão, junto à fábrica Serafim Reis, e nessa questão não quero meter a colher, mas depois, ao contrário, esquece-se dos direitos legítimos das outras freguesias, nomeadamente nesta situação clara no lugar de Azevedo. Conforme as coisas estão, desleixadas e a cair no esquecimento, bastará que o lugar vá crescendo para nascente ou norte para que se continue a expandir território da freguesia vizinha perante a passividade de Guisande e dos seus responsáveis.

Importará, pois, digo eu, que se dê atenção a esta questão, sem atropelos, chico-espertismos ou desconsiderações, mas tão somente pela legalidade. O seu a seu dono.

Já não se leva água aos nossos moinhos

 


Ontem foi o Dia Nacional dos Moinhos. Por cá, pelo que se vai publicando, ficamos todos com a impressão que só há moinhos nas bordas do Uíma. Isto resulta de uma realidade de que só conhecemos o que nos dão a conhecer. Também porque o nosso poder central (concelhio) é isso mesmo, central, e para além da visão do seu umbigo nada mais há nem mexe.

Guisande, mesmo que terra minguada em léguas, tem a sua boa dose de moinhos. É certo que já não funcionais porque o desinteresse por estas coisas é estrutural e cultural, alguns em ruínas e outros já desaparecidos ou apenas com os alicerces. Os mais novos, não os conhecem nem conhecerão. Uma auto-estrada não deixa de se fazer ou não se desvia por causa de dois ou três moinhos e como tal esses foram-se à vida com a A32. Foi o progresso que trouxe à nossa aldeia que, como parasita, só leva e nada deixa. Deixou um rasto de destruição ambiental e paisagística. Sem qualquer esmorecimento de quem nos competia defender ou minimizar os prejuízos.

Mesmo assim, há condições para que pelo menos uns três possam ser restaurados, mas, para sermos realistas, milagres fez Jesus e foi morto por isso.

Posto isto, resta-nos (aos mais velhos) as memórias dos nossos moinhos, algumas fotografias e a certeza de que para lá do Uíma não há ribeiras nem moinhos. Isto é, o resto é paisagem.

Mesmo assim, fica a evocação de um dia que nos passa esquecido. Já não levamos a água aos nossos moinhos.


06/04/2026

Cada um que responda


A Páscoa, na boa e secular tradição cristã, é, sem dúvida, a mais importante das celebrações e aquela que deve corresponder a uma alegria não material, mas espiritual, por todo o seu significado e simbolismo. Por conseguinte, são naturais e compreensíveis todas as manifestações desse júbilo, nas mais diferentes formas. Nos tempos actuais, muito marcados e até dependentes das redes sociais, é igualmente natural que muitas pessoas partilhem momentos pessoais, em família e em comunidade, ligados a essa alegria.

São assim frequentes e recorrentes as partilhas que vão desde felicitações de uma boa e feliz Páscoa até às iguarias colocadas nas mesas: o assado de cabrito ou de vitela, o pão-de-ló, os doces e bolos, etc., etc. Tudo coisas boas, bonitas e saborosas, que de facto comprovam o sentido de alegria que ainda se associa à Páscoa, à ressurreição de Jesus. 

Apesar disso, sem moralismos, até porque, talvez, já algo ultrapassado face às tendências e modos de vivência actuais, pergunto-me se, em cada 100 pessoas que partilham a Páscoa nesses moldes, cinco delas participaram em alguma cerimónia religiosa durante a Quaresma, se percorreram esse caminho de introspecção e preparação espiritual, se na Semana Santa participaram em alguma das celebrações - na Quinta-Feira Santa, na Sexta-Feira Santa, no Sábado de Aleluia - ou se apenas, ou nem sequer, na missa do próprio dia de Páscoa?

Cada um e cada uma responderá por si, mas, pelo que se vai vendo e constatando, nomeadamente na nossa comunidade, parece-me que, no geral, a forma como vivemos a Páscoa e tudo o que a antecede, se tornou muitas vezes um mero formalismo, uma tradição sobretudo material. Coisas de igreja e de padres, de orações e contemplações mais profundas, dispensam-se. O assado, esse sim, é tradição, antiga, da casa e da familia! Esse é que conta!

Pessoalmente, não concebo celebrar a Páscoa, a ressurreição do Senhor, sem a vivência desses momentos fundamentais da nossa espiritualidade, até para a sacralizar. Contudo, muitos há que, não ligando patavina a essa dimensão, seguem a vida como se nada fosse, dormindo descansados com isso. Entre uma celebração religiosa e um jogo de futebol ou um qualquer evento, social ou desportivo, a escolha é fácil, demasiado fácil. 

Em resumo, em tudo, nestas questões, cada um falará por si e, de um modo ou de outro, encontrará uma justificação pessoal para a sua fé, ou para a sua “fezada” e a encontrar a habitual justificação de que não é por isso que são melhores ou piores dos que fazem por participar nas cerimónias religiosas alusivas (e com certeza que não). Mas, numa reflexão mais profunda, parece-me que andamos, de facto, muito afastados do essencial e vivemos estas realidades com a mesma profundidade com que festejamos um Carnaval ou um jogo de futebol. Não há como não dizê-lo. Isto é bom? É mau? Indiferente? Cada um que responda por si.

Continuação de um feliz e santo tempo pascal!

01/04/2026

Isto não é a "Mata de Pigeiros" mas não mata a imagem de Pigeiros


Do que me parece sobre o assunto:

Há dois aspectos: Por um lado, a questão principal, em que um advogado usa uma referência depreciativa ou ofensiva para com uma colega ("isto não é a mata de Pigeiros"). Não conheço o contexto exacto em que foi proferida, mas mesmo para quem está de fora parece ser ofensiva pois, mesmo que não conhecida de forma generalizada, sem dúvida que é uma referência ao foco de prostituição naquele local de fronteira de Pigeiros, junto à EN1. Parece-me, pois, que foi bem condenado pela injúria.

Quanto à segunda questão: É certo que alguma prostituição naquela zona de Pigeiros é antiga e mesmo que já pouco significativa, ainda existe, o que naturalmente não dá uma boa imagem ao local. Apesar disso, não me parece que a designação "Mata de Pigeiros" seja assim tão conhecida ou publicitada cá pela nossa zona. Eventualmente até é mais popular o local como "Meia Légua".

Em todo o caso, esta referência grosseira usada pelo advogado com intencionalidade, como entendeu o tribunal, parece que era bem conhecida por ele, a ponto de a utilizar. Porventura, com esta publicidade, com cobertura por um jornal nacional, como  "Jornal de Notícias", a designação passe a ser mais conhecida, o que também não é positivo, mas talvez sirva de motivo para que as autoridades possam fazer o que for possível fazer. 

Finalmente, apesar disso, não me parece que esta referência seja assim tão negativa para Pigeiros. A freguesia é mais, muito mais que isso e era só o que faltava que uma ordinarice de um advogado machista pusesse em causa a honra e dignidade de toda uma freguesia. Concerteza que o motivo não é positivo mas, em última análise, penaliza mais as entidades que de algum modo podem e devem lidar com estas situações que decorrem à vista de todos. Prostituir-se em Portugal não é ilegal. Estar numa berma de estrada não é crime por si só. Explorar, controlar ou lucrar com a prostituição de terceiros, lenocínio, isso sim, é crime e é por aqui que tem de se fazer alguma coisa.

27/03/2026

Centro Social - Assembleia Geral - 02 de Abril de 2026

 


Na Assembleia Geral do Centro Social S. Mamede de Guisande, agendada para o próximo dia 2 de Abril de 2026, pelas 21:00 horas (Quinta-Feira Santa), devo participar na cerimónia religiosa, a que darei prioridade, pelo que não sei se a tempo de participar na sessão que, entre outros pontos, decidirá pela aprovação do protocolo tripartido para cedência e uso das instalações do Centro Cívico para funcionamento da Junta de Freguesia.

Enquanto sócio (pagante e com cotas em dia) e elemento da mesa da assembleia da Associação, confesso que estou dividido quanto a este protocolo. Desde logo porque no momento desconheço as suas condições e porque, por outro lado, não vejo vantagens significativas para as partes. Talvez os termos do protocolo esclareçam. A ver vamos.

Para além de tudo, parece-me que a utilização das instalações tem andado um pouco ao sabor dos ventos, nem sempre com critérios claros. Tem sido aproveitado mesmo por quem, num passado recente desconsiderou o Centro Social, as suas instalações, e por pessoas que nem sequer são sócias. É certo que as instalações devem estar ao serviço da freguesia, sem dúvida, mas também importa saber qual o papel dos associados. Enquanto sócio pagante, interrogo-me quanto às vantagens dessa condição, uma vez que os demais, que não pagam, na prática e no essencial do dia-a-dia, usufruiem como os que pagam.

Infelizmente, os actuais corpos gerentes, onde estou incluido, estão numa condição muito especial e apenas porque em tempo próprio não apareceram pessoas e listas interessadas em tomar conta do Centro e dinamizá-lo de uma forma mais consistente ou, pelo menos, renovada.

Por conseguinte, andamos todos mais ou menos a fazer fretes, porque nesta freguesia foi quase sempre assim: Uns a fazer, outros a maldizer, uns a pagar e outros a beneficiar. Não há volta a dar.

Em todo o caso, o Centro Cívico, mesmo que ainda sem atender ao seu propósito basilar, o de ser um Centro de Dia,  tornou-se num equipamento indispensável às diferentes dinâmicas da freguesia e paróquia. Parece-me é que, para além dessa importância e utilização, essa situação não produz efeitos práticos, quer ao nível de gente interessada em fazer parte dos corpos gerentes, quer ao nível do aumento de sócios pagantes, antes pelo contrário.  Daí esta minha apreciação cheia de dúvidas e até algum desapontamento, sendo que esperançado que, aos poucos, as coisas se acertem entre a freguesia e a associação.

10/03/2026

Adeus magnólias


Não o confirmei, mas alguém hoje me informou de que terão sido abatidas as duas magnólias que de há anos existiam defronte da nossa igreja matriz.

Pessoalmente fico com um sentimento dividido, porque é sempre triste ver abater uma árvore (no caso duas) mas por outro lado também considero que o seu crescimento foi desmesurado a tal ponto de estarem a esconder a nossa igreja (principalmente a do lado norte), cuja fachada principal só por si é merecedora de estar bem desafogada e visível a partir do início da alameda. Compare-se ambas as situações nas fotos.

Creio que já falei por aqui, ou noutro espaço, sobre o assunto do crescimento e de um dia ter de se equacionar o abate das árvores ou a sua poda algo radical e desvirtuar as mesmas. Então, como se esperava, as opiniões não foram convergentes.

Neste caso, como disse, por mim fico dividido mas compreendo e aceito a decisão. Alguém tem de tomar decisões mesmo na impossibilidade de agradar a todos. Resulta daqui que certamente haverá opiniões contrárias.

De resto, as árvores também não são eternas e muitas vezes, quando não em espaços adequados ao seu porte, passam a ser prejudiciais. Por outro lado, é frequente que quando se plantam nem sempre se tenha a capacidade de antever o que serão no futuro e se isso será adequado. Eu próprio já cometi esse erro com uns arbustos (tipo cedros) que cá em casa tive à face do muro da rua e que com trabalho e despesa tive de abater e os estragos ainda hoje se fazem sentir. 

Até mesmo no nosso adro, defronte da residência paroquial, já existiu uma cerejeira frondosa e de bons frutos, que por 1956 teve de ser abatida para permitir um adro amplo e um melhoramento do mesmo, então em terra e irregular. Também nessa altura não foi do agrado de todos.

Em resumo, com tristeza mas percebendo e aceitando a decisão, veremos o que ali será colocado, talvez oliveiras, plantas arbustivas e floridas e que não cresçam a ponto de ocultar a igreja.