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04/11/2026

Dia da devolução da identidade

 


Completa-se neste dia 4 de Novembro um ano sobre a tomada de posse dos órgãos de poder local da nossa freguesia de Guisande.

Depois de um período de gestão e administração em contexto de União de Freguesias, que nada acrescentou, e apenas retirou e reduziu investimento, proximidade e identidade das freguesias abrangidas, a freguesia de Guisande, e muitas outras no nosso concelho e país, lograram reaver a sua independência.

Este primeiro ano com a freguesia dirigida por gente nossa, apresenta um saldo deveras positivo a todos os níveis, apesar da inexperiência de uma equipa jovem e das muitas limitações de recursos. Até ao momento, mesmo que sem obras substanciais, muito já foi feito e sobretudo no que respeita à atenção e proximidade, bem como numa demonstração de que é possível fazer coisas interessantes mesmo que sem grandes investimentos.

Tal como o próprio executivo já transmitiu a propósito da data  "...Sabemos que ainda há muito por fazer e que o caminho se constrói passo a passo. Continuaremos a trabalhar, com a mesma vontade e determinação, para fazer de Guisande uma freguesia cada vez melhor. Ainda há muito por fazer, mas a vontade de continuar a trabalhar por Guisande mantém-se!"

Espera-se e deseja-se que sim, que no que resta do mandato se faça uma boa parte do que há para fazer e do que constou do programa elitoral da lista vencedora, com vontade, determinação e até inovação, mas também sem se resvalar para lugares comuns ou em acções que podem ser vistosas mas pouco substanciais.

Há, de facto, muito a fazer, e, pessoalmente creio que o actual executivo saberá dar seguimento a este primeiro ano de sinais muito prometedores.

Quanto ao sentido da data, o executivo está a preparar a celebração pública, que constará da inauguração de um jardim junto à rotunda da Cruz de Ferro, em Fornos, com a instalação de elementos decorativos com a palavra GUISANDE. O evento, aberto à comunidade, será no próximo Sábado, dia 7 de Novembro, pelas 11:30 horas.

Será, pois, um momento de evocação da data e sobretudo do seu significado e simbolismo.

Ainda a propósito, pelas 13:00 horas do mesmo dia haverá no Centro Cívico um almoço comemorativo com a participação da Junta de Freguesia, da Assembleia de Freguesia e elementos ligados ao processo da desagregação. 

Espera-se e deseja-se que doravante, todos os anos nesta data seja evocada a mesma, a sua importância e significado.




30/10/2026

Junta de Freguesia de Guisande - Um ano de trabalho muito positivo


No próximo dia 4 de Novembro, completa-se um ano sobre a histórica tomada de posse da Junta de Freguesia de Guisande e respectiva Assembleia.

Depois do interregno decorrente da vigência da imposta União de Freguesias, Gião, Louredo e Guisande conseguiram, por via da reposição legal, libertar-se do domínio da freguesia de Lobão, que, durante todo o período de 12 anos (três mandatos), nunca foi capaz de olhar para as demais de forma igualitária. Felizmente, isso é, por agora, passado.

Assim, a freguesia de Guisande pode voltar, com a sua própria gente, a ser dona dos seus destinos e da sua gestão, mesmo com as limitações inerentes a uma pequena freguesia e muito dependente, como quase todas, dos apoios e das boas vontades da Câmara Municipal.

Posto isto, e em jeito de apreciação pessoal da actividade desenvolvida neste primeiro ano pela jovem Junta de Freguesia, eleita por maioria nas eleições de 12 de Outubro de 2025, deixo aqui algumas ideias:

Sendo certo que não há registo de grandes obras, estruturais e significativas, e que estas dependem, em larga medida, dos apoios municipais, também importa ter em conta que está cumprido apenas um quarto do mandato. É, por isso, de acreditar que, com o acumular de experiência do executivo, os três anos restantes, até pela expectativa de cumprimento de promessas de apoios por parte do município, possam ser bem mais produtivos, ao ponto de o balanço que se fizer no final do mandato poder ser deveras positivo.

Algumas das acções já concretizadas podem considerar-se superficiais ou de imagem, sendo que algumas delas terão até um interesse e um efeito prático discutíveis, como é o caso do programa de incentivo à natalidade «Nascer em Guisande». Na realidade, nenhum casal toma a decisão de ter um filho com base neste apoio. Mas é bonito para as redes sociais e, nestas coisas, as Juntas, quase todas elas, seguem as modas e tendências das demais. Apesar disso, não deixa de ser um sinal de proximidade.

Dentro desta filosofia de seguir modas e aquilo que outros executivos também fazem, o evento denominado «Passeio Sénior» é outro despesismo que poderia ser evitado, sobretudo quando o orçamento não estica. Ainda assim, é compreensível e todos sabemos que é popular entre aqueles que dele beneficiam. Não obstante, fosse eu presidente da Junta e admito que teria de concordar em realizar o evento.

A iluminação de Natal é ainda outra moda e tendência. No País, é quase obsceno o valor do dinheiro que se aplica numa coisa tão vistosa quanto efémera. Mas, novamente, o povo habitua-se a elas e depois não querem ficar atrás das freguesias vizinhas.

Nestas particularidades, como ficou dito, a Junta de Freguesia de Guisande limitou-se a abordar esses eventos ou programas como algo que faz parte de marcar o ponto. Apesar disso, mesmo dentro desta filosofia de ter de ser, creio que o que fez, fê-lo de forma positiva. Ainda que sejam iniciativas que as demais Juntas de Freguesia também promovem, e por isso uma moda ou tendência, importa haver capacidade e originalidade na forma de as fazer mas sem descurar a contenção nos custos.

Quanto ao essencial, as limpezas das ruas e dos espaços públicos têm sido, no geral, positivas e notoriamente diferenciadoras, quando comparadas com o que acontecia durante a União de Freguesias. Diria mesmo que, nos primeiros dois meses, se limpou mais e melhor do que a União de Freguesias fazia num ano.

Apesar disso, importa assegurar uma boa gestão, nomeadamente no que respeita ao histórico das intervenções, pois há locais que chegam ao ponto de apresentar uma imagem muito má. É o caso, por exemplo, da zona entre Estôze e Pereirada, onde se verifica um crescimento desmesurado da vegetação, enquanto alguns arruamentos secundários, com pouco trânsito e sem habitações, foram entretanto limpos, ficando por tratar um dos principais arruamentos da freguesia.

Tal como tive a oportunidade de dizer na última Assembleia de Freguesia, creio que, com alguma atenção e até experimentalismo, é possível adoptar outro tipo de abordagem e fazer mais com os poucos recursos disponíveis. Por exemplo, dando atenção constante aos pontos que sabemos serem críticos no crescimento da vegetação.

Tenho para mim que, em certas situações, será mais vantajoso limpar determinada rua ou local mais vezes ao longo do ano. Limpar uma determinada rua apenas uma vez por ano pode significar perder um dia completo de trabalho, gastar mais combustível, porque a vegetação está mais densa, e gerar um volume maior de resíduos para recolher. Ora, fazendo-se três intervenções ao longo do ano, estas serão mais rápidas e menos demoradas, certamente com menor consumo de combustível e com muito menos material para recolher, tornando também essa tarefa mais célere.

Quanto a obras e melhoramentos, houve várias acções positivas, mesmo que realizadas com o apoio dos serviços municipais, nomeadamente a renovação dos espaços ajardinados na envolvente da igreja matriz. Também se verificou um melhoramento na calçada e no canteiro do monte do Viso. Não passou de um remendo, mas uma intervenção de fundo estará para além dos recursos do executivo sem o necessário apoio municipal.

Quanto a obras que carecem de apoio e de programas municipais, já ultrapassa o absurdo a situação da Rua da Zona Industrial que, a pretexto da prévia realização das redes públicas de água e saneamento, se tem arrastado no tempo, com todos os inconvenientes para os moradores abrangidos e demais transeuntes. Mesmo a Rua do Sebastião, interrompida a pavimentação há longos meses por causa de um abatimento do piso, mesmo depois deste estar resolvido, continua por concluir o que faltava do novo pavimento. A Junta de Freguesia deve continuar a pressionar o executivo camarário para que estas situações sejam resolvidas com urgência.

A pavimentação da rua envolvente ao Campo de Jogos, no Reguengo, é igualmente uma necessidade mas a Junta não terá capacidade de a fazer sem o apoio dos programas de pavimentações da Câmara Municipal. Mas outras há que se encontram a pedir requalificação.

Também se melhorou muito no atendimento, bem como numa indiscutível maior proximidade à população em geral e aos grupos, incluindo na vertente da paróquia, com apoio às suas actividades e eventos e uma colaboração estreita e interessada.

A mudança do atendimento para as instalações do Centro Cívico, não sendo o ideal, por acontecer em detrimento do edifício-sede, é, ainda assim, aceitável enquanto este não for dotado de condições modernas e adequadas, incluindo no que respeita às acessibilidades para utentes com mobilidade reduzida ou condicionada. Em contrapartida, certamente ajudará a dinamizar o dia-a-dia do Centro Cívico.

Na parte da comunicação e da imagem, nem sempre se tem primado pela melhor forma e objectividade, resvalando-se, muitas vezes, para as banalidades costumeiras nas redes sociais, tão ao gosto de algumas outras Juntas de Freguesia. Mas é compreensível, num tempo em que muito do eleitorado valoriza mais o parecer do que o ser. A Junta deve saber destinguir o essencial do irrelevante.

A página online da Junta só desde há dias, quase um ano depois, é que está online, e chapa 4, igual a muitas outras, e ainda assim sem conteúdo. Pareceu inicialmente  haver alguma pressa na questão da apresentação da imagem e identidade da nova Junta, mas este aspecto da página oficial foi totalmente descurado, e até poderia ter sido feito de forma fácil e gratuita. Uma Junta deve ter um canal institucional, incluindo a partilha de todos os documentos e actas de reuniões de Junta e Assembleia, bem como digitalização e partilha de arquivo histórico. A presença nas redes sociais é importante e no geral tem sido usada razoavelmente, mas não serve os propósitos institucionais.

Mesmo não sendo, por opção, frequentador das sessões da Assembleia de Freguesia, do que vi e dos testemunhos que vou ouvindo, parece-me que tem havido um bom ambiente entre os diversos elementos e que a oposição tem assumido uma postura positiva e cordial, muito longe de outros tempos de crispação, confronto e até desrespeito. Tudo isso ajuda, em muito, a que as coisas se façam bem e a favor de todos, afinal, o mais importante.

Em resumo, e para finalizar, certamente haverá ainda outros aspectos e acções do executivo que merecerão ser realçados e avaliados positivamente, como o melhoramento na capacidade do poço que abastece de água o cemitério, a numeração das sepulturas, os esforços realizados na reorganização dos registos, etc. Também a vontade de resolver de forma definitiva a questão dos limites da freguesia, sobretudo na zona que abrange o lugar de Azevdo e ilegitimamente considerada como sua pela freguesia das Caldas de S. Jorge, a instalação das placas de limites, etc. Por conseguinte, no geral,  na minha apreciação, considero que a actividade da Junta de Freguesia tem sido muito positiva e promete mais e melhor.

Assim, no início deste segundo ano, almejo que o trabalho prossiga e se adense nos aspetos mais significativos, mantendo a evolução contínua em todas as outras áreas. É essencial que nunca se descure a proximidade à comunidade e aos seus representantes e que, em cada ação, se valorizem e exaltem as particularidades da nossa freguesia, respeitando o legado de quem nos antecedeu. Somos pequenos em território e em população, mas únicos na nossa identidade — e é precisamente essa diferença, e o saber honrá-la, que deve guiar o nosso caminho.

Parabéns, pois, a todos: à Junta e à Assembleia de Freguesia!

14/10/2026

A ignorância com montra


Com a generalização da Inteligência Artificial, enquanto modelo de linguagem e gerador de ilustrações, a sua utilização vulgarizou-se a um ritmo vertiginoso. Do cartaz para a festa da Catequese ou festa da aldeia ao esquema gráfico de uma apresentação corporativa, todos, todos, de particulares a associações e empresas, parecem ter rendido a sua criatividade a esta ferramenta.

Em si mesmo, este fenómeno de massificação talvez não incomodasse, não fosse o facto de parecer já ninguém se preocupar com a diferenciação, a personalização ou o talento individual de quem cria com nome e rosto. A tendência é a da adesão acrítica: «a Maria a deixar-se ir com as outras».

É verdade que a tecnologia não é intrinsecamente má; eu próprio a uso: facilita processos e potencia a execução de muitos trabalhos. Contudo, o resultado visível é uma homogeneização estética sufocante: os cartazes e gráficos parecem todos cortados pelo mesmo molde. São bonitos, apelativos e coloridos, mas profundamente vulgares e padronizados. Vivemos, sem dúvida, na era do fast-food gráfico, onde qualquer pessoa produz material visual sem precisar de dominar, ou sequer conhecer, as mais elementares regras de design, composição ou lógica.

A ilustração acima, recolhida numa partilha qualquer do Facebook, é o exemplo perfeito desta utilização cega. Sob o nobre pretexto de divulgar conhecimento,  neste caso, o princípio do «Parafuso de Arquimedes», propaga-se uma enorme e flagrante asneira técnica, ensinando-se, na prática, a ignorância. Dadas as dinâmicas de visualização rápida, arrisco dizer que tanto quem partilhou como a maioria dos que gostaram nem sequer se aperceberam do absurdo: a extremidade superior do mecanismo surge a descarregar a água contra a corrente (e não numa caleira ou conduta adequada) e a própria manivela de accionamento encontra-se na base, junto à água, em vez de estar no topo.

Tudo isto demonstra que, por mais potentes e sofisticadas que sejam as ferramentas, a IA não substitui o conhecimento. Alguém que não saiba fazer contas não aprenderá a calcular simplesmente por ter à frente um gráfico gerado por computador. Da mesma forma, quem desconhece os princípios básicos da mecânica ou da física aceitará sem hesitação aberrações, descontextualizações e erros grosseiros, só porque a imagem é "bonita". 

Nestas como noutras matérias, ter a noção dos mínimos e manter o espírito crítico é essencial. Infelizmente, a julgar pela velocidade da maré, a tendência será para continuar a trocar a literacia visual e o rigor pelo facilitismo da ilusão gerada por algoritmo. 

É o que é! O talento e o conhecimento tendem a perder lugar e importância. Mas quem se incomoda? Talvez, daqui a uns tempos, como na agricultura biológica, alguém esteja disposto a pagar pela arte de um artista e não de uma máquina, como comprar, ainda que mais caro, maçâs e morangos sem pesticidas. Mas desconfio que já não chegaremos lá. A caixa de Pandora foi aberta e tende a alargar-se.

06/10/2026

Paradoxos de um tempo parado


A atitude aconselhável, seria encolher os ombros, olhar de lado, indiferente, passar adiante, dizer, sorridente, que é assim mesmo, que as coisas levam o seu tempo, que todos estão a fazer os possíveis, que há papéis, despachos, reuniões, competências, pareceres e outras coisas do género. Mas, lá está: ou já nasci com este feitio ou será da idade, mas custa-me ver dinheiro transformado em coisas que apesar de bonitas e com ares de necessárias, na realidade ficam sem a utilização esperada, paradas no tempo.

Na nossa terra há um Centro Cívico que já tem mais de uma década. Aproveitou-se a saudosa velha escola primária do Viso, então abandonada na sequência de perda de população e de uma centralidade que procurava optimizar recursos mas a a contribuir para a desertificação, deu-se-lhe nova vida, fez-se obra, falou-se dela. 

Por lá já entraram políticos a prometer apoios e melhores dias. E, no entanto, continua à espera de uma coisa tão simples como cumprir a função para que foi sonhada e concretizada, a de funcionar como um centro de dia para os mais velhos da aldeia.

A obra está feita. As paredes não precisam de mais discursos e de tanta espera já pedem nova pintura. As salas não precisam de novas fitas para cortar. O que falta é a aprovação da Segurança Social e dela da decisão do poder político, que ora à esquerda, ora à direita, vai navegando ao sabor da corrente, como que a advinhar naufrágio. Sócrates esbanjou, Passos Coelho estancou, Centeno cativou e quem veio depois achou por bem não mexer até porque nestas coisas as pessoas de uma pequena freguesia são diferentes das de uma grande. Como diria Jorge Jesus, têm diferentes estatutos. Somos, em boa verdade, por mais areia que nos atirem para os olhos, um concelho a diferentes velocidades. O peso eleitoral é um prato da balença. Para onde mais pende, mais atenção dispensa.

O presidente da Direcção, apesar de esforçado, diligente e mesmo insistente, vai ouvindo desculpas, promessas, desmarcações e adiamentos. Faz o telefone tocar do outro lado mas, sabendo ao que vem, já nem atendem. Comentarão, até, o “é o chato do costume”.

Entretanto, os anos passam. Os mais velhos morrem e os novos envelhecem. Tem funcionado como Centro Cívico, a entreter pouco mais que  meia-dúzia a jogar à sueca, às copas ou à bisca, a colher eventos dos grupos e comissões de festas, umas formações disto e daquilo, e pouco mais. A Junta de Freguesia há-de mudar para lá, provisoriamente, mas no essencial o problema manter-se-á.

Mesmo que numa justificada e positiva ocupação, a verdade é que enquanto não for Centro de Dia, devidamente apoiado pelo poder central, que assegure o mínimo de sustentabilidade financeira, o seu modo de funcionamento não passa de um triste remedeio, sem recursos para pagar a quem receba, anime e tome conta da casa a dias e horas certas. 

Mesmo com o apoio do IEFP, quem vem não quer ficar e não raras vezes nem chega a aquecer o lugar e as recusas são mais que muitas. O trabalho nunca faltou mas há desempregados neste país. Um paradoxo. Há muito que se normalizou este modo de vida, o estar desempregado e quem o pretender denunciar cai-lhes em cima o Carmo e a Trindade.

Mais abaixo, em Casaldaça, temos o rinque polidesportivo. Quase duzentos mil euros de investimento investidos na sua requalificação. É uma soma que não passa despercebida, sobretudo numa terra quase sempre esquecida pelo poder municipal.

Ficou bonito, certamente. Mesmo que com os balneários em mau estado, por fora ficou novo, renovado, digno de fotografia e de notícia. Só falta uma coisa: Gente.

Avança o tempo para quase dois anos sobre as obras, mas o rinque teima em estar deserto. Uma actividade aqui, outra ali, uma ou outra vez ao ano, um pai com o filho a chutar a bola contra as paredes e pouco mais. Não conseguiu ainda chamar os miúdos, prender os jovens, juntar os menos jovens. 

Não houve grupo ou associação a chamar a si a sua gestão e dinamização. Não se tornou lugar de encontro, de movimento, de convívio. É um equipamento desportivo sem desporto, um investimento sem utilização, uma praça cheia de ninguém.

E é aqui neste dois exemplos, e haverá mais, onde ressalta o paradoxo.

Não se trata de dizer que não se deve investir. Deve-se. Guisande precisa. Ainda tem ruas sem redes de água e saneamento e pavimentos dignos de cabras montesas. Nem será de lamentar que se recuperem edifícios ou equipamentos. Muito pelo contrário. A igreja matriz precisa, está com ares de decadência. A sede da Junta, também. 

O que causa algum desconforto é esta facilidade com que confundimos investimento com resultado.

Faz-se a obra, anuncia-se o valor, inauguram-se as instalações, registam-se umas fotografias, distribuem-se umas palavras sobre o futuro. E depois?

Depois, se ninguém usar, se ninguém frequentar, se os velhos continuarem sem centro de dia e os novos sem actividades, parece que já não é problema de quem investiu.

Talvez não seja.

Uma obra pública não termina quando se corta a fita. Talvez comece aí a parte mais difícil: fazer com que sirva as pessoas. Ajudar e incentivar que as possa envolver.

Porque umas paredes novas não animam uma aldeia. Um rinque vazio não aproxima os jovens. Um centro cívico fechado à função que se pretendia não envelhece menos os velhos.

E há investimentos que, vistos de longe, parecem grandes feitos. Quando nos aproximamos, percebemos que são apenas coisas feitas.

Entre fazer uma obra e dar-lhe vida vai uma distância que não se mede em euros.

Mede-se em pessoas. Mas o poder político raramente percebe isso. É mais fácil colocar algum dinheiro no chapéu do pobre do que ajudá-lo no essencial. É mais fácil metê-los num autocarro e levá-los, por tuta e meia, a comer, a beber e a dançar numa quinta como se isso fosse desenvolvimento. 

E fico-me por aqui, não aconteça que me chamem velho do Restelo. Bem que desejava ter razões para o optimismo, no tempo, na capacidade das pessoas  que nos vão governando, na determinação dos nossos mais novos, mas o que vou vendo, ainda que com uns arremedos de esperança, não deixa que me anime.

Podemos esperar que as coisas se invertam, mas não será com mais uma dúzia de habitações e mais alguns moradores que as coisas mudarão. O mal já vem de trás por políticas erradas, centrais e locais. Nunca tivemos tantos meios e recursos e, paradoxalmente, nunca tivemos tanto desligamento da comunidade.

A Festa do Viso terminou há mais de 2 meses e ainda não foram divulgadas as contas nem há notícia de nova equipa. Um mau sinal, mas não surpreendente. As coisas não estão para melhorar. Nunca tivemos tantos jovens formados e licenciados mas com menos interessem e dedicação às causas comuns da nossa comunidade, seus legados e tradições.

Oxalá que esteja enganado! Oxalá!

02/10/2026

Ronaldo e Jesus? Deixem para lá isso!


Já o disse e escrevi: tenho feito um esforço para ignorar o futebol, o clubístico e mesmo o nacional. Não por não gostar, mas porque já não tenho idade para perder tempo e ganhar preocupações e arrelias com algo que não passa de um entretenimento para nós, adeptos, e de um negócio de milhões para os clubes, dirigentes, agentes, jogadores e treinadores. Creio, até, que todos ganham dinheiro com o futebol, menos os adeptos. Afinal de contas, alguém, de uma forma ou outra, tem de pagar os ordenados e as comissões milionárias. Só o tempo que demorei a escrever este bocado de texto, do início até aqui, foi o suficiente para o Ronaldo já ter facturado uns bons milhares.

Em consonância com este meu desligamento,  ainda bem que assim é, porque, por estes dias, vejo que o futebol tem estado no topo das preocupações de quase toda a gente. Com a novela de Cristiano Ronaldo, a selecção e o treinador Jorge Jesus, a imprensa já não fala do problema dos preços dos combustíveis; temas importantes como as guerras, que estão a fazer do mundo uma panela de pressão prestes a explodir, tornam-se secundários, e até a triste política portuguesa tem sido relegada para terceiro plano. Rendas, greves, falta de habitação, tudo é secundário. Até já quase nem se fala do ministro da Administração Interna nem do singular assalto ao gabinete do Chega.

Apetecia-me também escrever longas cartas — abertas e fechadas — a toda essa gente, ao Ronaldo e companhia, para criticar as birras, os egos desmedidos e a falta de senso em admitir que a idade é uma coisa tramada e que acaba por nos retirar capacidades, por mais que nos enganemos a nós próprios com treinos, ginásios, suplementos, vitaminas, cirurgias estéticas, implantes de mamas, de dentes, de cabelo, de lábios, de nádegas, e eu sei lá que mais.

Mas, para além disto, e já me alongo, seria perder tempo, chover no molhado e dar corda a quem já a tem toda. Não há pachorra.

Tanto se me dá que o Ronaldo abandone o futebol e a seleção hoje, amanhã ou daqui a dez anos, que saia pela porta pequena ou pela grande, pela janela ou postigo, levado ao colo, que lhe beijem as mãos, o cu, ou lhe façam uma estátua de ouro e diamantes, ou que lhe reservem um lugar no Panteão. É igual ao litro. 

Ronaldo, Cristiano ou CR7, ficará para a história da bola, indiscutivelmente, da nossa e da mundial, como um futebolista de topo, que se esforçou, trabalhou, bateu recordes e fez dessa profissão um modo de vida que lhe rendeu fama e proveito, tanto dinheiro que jamais conseguirá contar nota a nota durante o tempo de vida que lhe restar.  Tornou-se conhecido no mundo, talvez mais do que os descobridores ou  inventores do fonógrafo, da electricidade, da rádio, da televisão, da penicilina, da fissão nuclear, da máquina a vapor, da esferográfica BIC, da Gilette ou corta-unhas. Alguém que discute como ciência as regras do futebol sabe quem foi Thomas Edison, Alexander Fleming, Alexander Graham Bell, Nikola Tesla, Otto Hahn e Fritz Strassmann? Pois, se fosse o Ronaldo, Messi, Maradona, Eusébio ou o Pélé...

Ronaldo tem tudo: saúde, dinheiro, família, uma esposa que dizem jeitosa, ainda é novo para tudo, mesmo que se engane a si próprio ao pensar que também o é para o futebol. Indiscutivel o seu sucesso e status! Desdizê-lo é como alinhar na teoria de que o homem ainda não pôs os pés na lua ou que as grandes pirâmides de Gizé foram erigidas com a ajuda de extra-terrestres. Mas fazer dele um deus, haja bom senso!

Não obstante, Portugal tem imensos talentos e génios em todas as profissões, nas artes, na cultura, na medicina e na engenharia, mas que não vendam camisolas, carros, perfumes ou champô anti-caspa. Esses serão ilustres desconhecidos. No geral, o país quer é bola e só reconhece quem é da coisa. A arte e a cultura é um pontapé de canto, a ciência é um penalti e a literatura é a lei do off-side. A escrita de Camões, de Eça, de Camilo, de Torga ou Pessoa são preteridas pelo "O Jogo" "Record" ou "A Bola".

Posto isto, que sejam felizes o Ronaldo, o Jesus, o Proença e toda a gente, tanto quanto desejo para mim e para os meus; mas, por favor, desliguem a televisão e não deem importância a esta novela. A vida é mais que isto. Tem coisas bem mais interessantes, tanto para nos preocuparem como para nos alegrarem. Um bom livro, uma poesia, uma ilustração, uma caminhada pela Freita ou um bacalhau ou bife no Zé de Ver.

Do Ronaldo e quejandos, estou cheio! Antes uns enchidos, um bom vinho e um saboroso queijo.

28/09/2026

Clarificação dos limites da freguesia de Guisande

Na próxima Quarta-Feira, dia 30 de Setembro, pelas 20:30 horas, vai reunir a Assembleia de Freguesia de Guisande.

Entre os pontos habituais de aprovação da acta anterior, informação sobre as actividades da Junta de Freguesia e situação financeira, o ponto 3 prevê a apreciação, discussão e votação de moção sobre as conclusões do estudo elaborado pelo Grupo de Trabalho nomeado pela Assembleia, acerca dos limites da freguesia de Guisande.

A Assembleia de Freguesia indicou o meu nome para fazer parte do grupo de trabalho para elaborar o relatório e recomendações que agora vão a apreciação.

Confesso que era minha vontade não fazer parte, e a quem me convidou com antecedência, tinha manifestado a intenção de não participar. Não obstante, o meu nome lá foi apresentado e escolhido.

Apesar desta situação, que não desejava, pela consideração que tenho pela Assembleia e por todos os seus membros, entendi não desconsiderar e lá acedi a apresentar ao grupo a versão do relatório segundo o meu entendimento da situação quanto à clarificação dos limites de freguesia em alguns pontos.

Repito, é o meu entendimento e do que resulta dos meus conhecimentos. Não tem de ser a versão oficial. Outros, mesmo que fora do grupo de trabalho, poderão ter outras opiniões e dados e factos que desconheço.

A minha reserva em aceitar, decorre precisamente de saber que nestas coisas nem sempre há concensos e tantas vezes se tiram conclusões erradas, precipitadas e com base apenas em percepções e achismos. Além do mais já tenho "dado para certos peditórios", com boa vontade e amor à causa, e por vezes a paga tem sido alguma desconsideração. Daí que, tantas vezes, seja melhor ficar de fora. Adiante!

Por conseguinte, serve este apontamento para dizer que é o meu simples contributo e apenas isso. Se virá ou não a ser considerado bem como a partir dele adoptadas as recomendações, é assunto que já me escapará.

Apesar disso, acho que, de modo particular quanto à situação com a freguesia de Caldas de S. Jorge, na zona do lugar de Azevedo, alguma coisa deve ser feita para chamar "o seu a seu dono", mesmo que em versão minimalista face aos limites históricos, mesmo que por mais transtornos que possam causar a alguns. Reclamar e tomar posse do que é nosso não deve ser encarado como coisa menor. Pelo contrário, dar sinais opostos, de ambiguidade, cedência e algum laxismo, é que não ajuda.

A morte saíu à rua


Ontem à tarde, cerca das 15:30, ocorreu um grave acidente na Estrada Nacional 223 (Rua do Comércio), em Lobão, no limite com Fornos, junto à ex-discoteca Hollywood. Passei pela Rua de S. Miguel e vi ao cimo o aparato de gente. Não fui ver mas soube depois que resultou a morte de um jovem de 24 anos, da zona do Porto, ainda feridos graves, e terá envolvido quatro automóveis, incluindo de amigos que se seguiam.

As circunstâncias já terão sido apuradas mas ainda desconhecem-se com rigor. Do que se diz, terá sido resultado de uma corrida (picanço) entre amigos, que em excesso de velocidade e de forma totalmente irresponsável colocaram a sua vida em perigo - como, infelizmente, aconteceu - mas também a de terceiros que íam sossegadamente na sua vida, no caso um carro de família onde até seguiria um bébé de 3 meses, que teve ferimentos ligeiros.

O trânsito que vinha de sul para norte estava a ser desviado pelo Rua Moderna, que tem um STOP no entroncamento coma Rua de S. Miguel. Ora quando eu vinha para casa, do lado de Canedo, faltou pouco para ser abalroado por uma condutora que não respeitou o sinal de paragem obrigatória e que vinha a falar ao telemóvel com este preso entre o ombro e o rosto. Antevendo a situação, consegui parar, apontei-lhe o sinal e, com cara de parva, lá continuou na conversa como se nada fosse. Siga!

De facto, impressiona a irresponsabilidade de tantos que andam na estrada. Um deslize, um erro, uma desatenção acontece a todos, mas que se podem menorizar quando em velocidades de acordo com as regras, mas as coisas andam perigosas e nem os números fatídicos de acidentes demovem os condutores com o pé pesado e a cabeça vazia.

Os motards até vão a Fátima benzer os capacetes, mas a benção deveria ser para as atitudes e mentalidades. Os automobilistas, esses, alguns, pensam que conduzem em pistas de Fórmula 1, ignorando regras e sinalização. 

Nesta onda de pressas e acelarações, a Rua Nossa Senhora de Fátima, no lugar da Gândara, tem sido pista de alta velocidade para muitos, de carro ou mota, novamente colocando-se em risco, a outros condutores e mesmo peões. 

Parece-me que vai sendo tempo da Junta de Freguesia e Câmara Municipal pensarem em colocar ali umas lombas ou outras acções que obriguem à redução da velocidade. Já sabemos que os sinais e as regras pouco valem para esta gente estúpida.

Infelizmente as coisas estão assim. Irresponsabilidade ao máximo, cumprimento das regras de trânsito e de civismo ao mínimo. 

Uma morte lamenta-se sempre, sobretudo de um jovem, mas lamenta-se mais que, desconsiderando as suas, coloquem a vida dos outros em risco. 

Prenda de Natal a Jesus

O Jorge Jesus é tão bom treinador quanto a dizer uns disparates. Ontem no rescaldo do Noruega - Portugal, para a Liga das Nações, a valorizar a vitória tangencial e sofrida, mas importante, comentou que a nossa selecção venceu uma das melhores cinco selecções europeias, que a Noruega não era o Azerbaijão ou o Luxemburgo. 

De uma assentada, desprestigiou aquelas duas selecções. Mas, se estava nessa onda, poderia ter dito que o guarda-redes viking, Nyland, esse foi um desastre e nem na selecção de São Marino tinha lugar no banco. Foram várias as asneiras e uma delas, uma especial oferta de Natal que deu o golo da vitória a Portugal. Não fosse isso...

Por conseguinte, Jesus já não espanta, mas já tem idade para tentar entender o significado de coerente. Se não consegue, pelo menos que se cale.

Mas, louve-se-lhe a coragem de manter Ronaldo no banco. Podia dispensá-lo da convocatória, mas isso já era pedir muito.

27/09/2026

Espectáculos e imoralidade


Já o disse e escrevi e volto a dizer e a escrever: Parece-me um exagero e até imoral, que neste nosso país, muitos municípios, através das suas Câmaras, gastem verbas oxorbitantes do erário público em espectáculos e concertos musicais. Mesmo algumas juntas de freguesia, sempre a "cagar e a tossir" de dificuldades, não se coibem dos seus gastos nesta matéria.

É consultar a plataforma de contratos públicos para se ter uma noção do esbanjamento.

Podem dar as explicações que bem entenderem, mas é imoral  e um paradoxo, porque, na generalidade, apesar dessas festas e festarolas, continuam a existir carências em coisas bem mais essenciais ao dia a dia dos munícipes. Em todo o lado há ruas esburacadas que mais parecem caminhos de cabras, passeios danificadaos e transformados em ratoeiras, lixos depositados em caminhos, habitações ainda sem redes de água e saneamento, etc, etc.

Não osbtante, os responsáveis sabem do que a casa gasta e do que o povo gosta, e esbanjar dinheiro desta forma apresenta um saldo positivo em popularidade e até votos em tempos de eleições. Os que se indignam a reclamam, como eu, são poucos e por conseguinte, colocando-me também no rebanho, acho que, no fim das contas, temos o que merecemos.

18/09/2026

PDM - Aprovada a versão que esteve em discussão pública


Após um atraso de vários anos (desde 2019) e um período de discussão pública de 180 dias, a versão final do novo Plano Diretor Municipal (PDM) para o território de Santa Maria da Feira foi aprovada por unanimidade em reunião de Câmara realizada a 7 de setembro de 2026. A proposta será agora submetida à Assembleia Municipal, prevendo-se a sua aprovação e posterior publicação em Diário da República para, finalmente, a entrada em vigor.

Impacto e Decisões sobre a Freguesia de Guisande:

A versão submetida a discussão pública, no que respeita ao território de Guisande, revelava-se fortemente penalizadora. Registava-se uma perda notória de solo urbano em comparação com o plano de 2015 em vigor, inclusivamente em áreas servidas por arruamentos centrais. Esta situação constituía um entrave significativo ao crescimento urbano e limitava a oferta de terrenos com capacidade construtiva, prejudicando a contenção do fenómeno de despovoamento e perda de habitantes.

A versão agora aprovada — embora mantendo algumas limitações que se afiguram injustificadas — acolheu contudo uma parte substancial dos pedidos apresentados na discussão pública, mitigando assim o impacto da proposta inicial.

Da análise à tabela de ponderação das participações, conclui-se que foram identificados 20 processos respeitantes a pretensões localizadas na freguesia de Guisande.

O balanço global revela uma maioria de decisões favoráveis. Dos 20 processos registados (que perfazem 24 análises, em virtude do desdobramento de um deles):

9 foram acolhidos;

4 foram acolhidos parcialmente;

5 não foram acolhidos;

1 obteve uma decisão mista, face às seis pretensões integradas (2 acolhidas, 2 parcialmente acolhidas e 2 não acolhidas);

1 foi considerado repetido.

Análise dos Critérios e Condicionantes:

Da leitura detalhada dos processos deferidos, depreende-se que o acolhimento não dependeu exclusivamente da existência prévia de infraestruturas. Verificam-se casos em que o acolhimento ficou sujeito a programação temporal e/ou à existência de compromissos urbanísticos (tais como processos de licenciamento ou pedidos de informação prévia aprovados).

Em termos práticos, tal implica que, findo um determinado prazo (em princípio, de 6 anos), os terrenos classificados como urbanos que não sejam edificados ou dotados das respetivas infraestruturas viárias reverterão para solo rural (agrícola ou florestal, consoante o caso).

Trata-se de uma medida relevante, uma vez que incentiva os proprietários a edificar ou a alienar os seus prédios para construção, evitando a manutenção indefinida dos terrenos como mero activo patrimonial passivo, sem utilidade a curto prazo para o desenvolvimento urbano local.

Conclusões e Perspectivas:

Conclui-se, assim, que a freguesia de Guisande registou uma participação expressiva na discussão pública do PDM, tendo uma parcela significativa das pretensões sido integrada na proposta final.

A maioria das participações partiu de particulares. A Junta de Freguesia submeteu 8 pedidos, dos quais 2 foram acolhidos, 2 acolhidos parcialmente e 3 recusados. Afigura-se que uma actuação mais proactiva por parte da autarquia local poderia ter favorecido o acolhimento de outras situações elegíveis, mesmo na ausência de iniciativa individual dos respetivos proprietários até porque estes, no geral, desinformados ou sem capacidade de iniciativa.

Em todo o caso, mais do que contabilizar o número absoluto de pretensões deferidas ou indeferidas, cumpre aos interessados analisar a localização concreta dessas parcelas, a comparação entre a classificação atual e a proposta, bem como a existência de infraestruturas ou compromissos urbanísticos. Apenas essa avaliação cruzada permitirá aferir com rigor o impacto real da revisão do PDM na freguesia de Guisande.


Os elementos e documentos referentes ao processo podem ser consultados aqui.

17/09/2026

Questões do riso

O riso desbragado nunca foi especialidade do Vitorino. Por naturalidade ou para esconder os dentes e o céu da boca, ri-se, no geral, com ela fechada. Esporadicamente, lá se ri de forma mais descontrolada, nem sempre pela qualidade da anedota, da história contada ou da situação cómica vista, mas mais pelo contágio de alguém que ao lado também se ri.

Aprecia, naturalmente, uma boa anedota, o vigor de um dito perspicaz ou a habilidade refinada com que as pessoas de talento verdadeiro expõem o absurdo do quotidiano. O humor inteligente, como o inglês, agrada-lhe, a par de séries de comédia com qualidade — que, diga-se, cada vez mais escasseiam.

Mais do que alheias, certas manifestações de hilaridade provocam-lhe espanto, ficando sem conseguir entender o motivo de tais ditos ou piadas. Observar alguém a emitir urros, de boca escancarada e cabeça arremessada para trás num sobressalto quase epiléptico, é para ele uma experiência genuinamente desconfortável. Há na gargalhada desmedida uma perda de compostura que se aproxima do grotesco.

Esta aversão à gargalhada performativa é, aliás, uma das razões fundamentais que condiciona e limita a sua relação com a televisão, sobretudo com os programas de entretenimento, daqueles próprios de salas de espera e ocupação de reformados. Para o Vitorino, o ecrã transformou-se num recinto de histeria coletiva onde se ri em demasia e sem critério. A gargalhada no pequeno ecrã deixou de ser uma consequência natural do cómico para se converter num vício, numa forma artificial. Mesmo em programas e assuntos que mereceriam mais seriedade, os apresentadores e intervenientes comportam-se ao nível de criancinhas num jardim de infância.

Vão longe os tempos em que os locutores e apresentadores da nossa televisão sabiam comportar-se, ou, melhor dito, ser profissionais e conscientes da natureza de cada programa. De facto, na televisão contemporânea, a gargalhada opera como uma claque invisível e coerciva que dita ao telespectador o exacto momento em que deve achar graça, rir e aplaudir.

A gargalhada televisiva tornou-se uma obrigação contratual. Já não se procura o riso pela subtileza ou pelo enquadramento do absurdo, mas sim pela repetição mecânica de estímulos ruidosos. Perante este cenário de alegria forçada e gargalhadas estridentes, a atitude mais razoável e preventiva para o Vitorino continua a ser, invariavelmente, desligar o aparelho ou mudar de canal. Por alguns programas, já sabendo o que a casa gasta, nem perde tempo com eles, mesmo que sejam considerados de boas audiências — o que não o surpreende, pois há sempre testos à medida das panelas e chapéus ajustados a cabeças certas.

Mesmo no panorama nacional dos ditos cómicos ou humoristas (tipo Bruno Nogueira, Fernando Rocha, Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques, etc.), no geral acha que não têm piada alguma e recorrem ao desrespeito, à ofensa e ao palavrão fácil para compensar a falta de originalidade ou talento. A liberdade de expressão concede-lhes desculpa e proteção, as televisões e rádios dão-lhes palco e antena, mas, verdade se diga, quase sempre não passam de uns tristes com pretensões a fazer rir, mesmo que não falte quem se ria do mal alheio.

Nunca, como agora, faz tanto sentido para o Vitorino o velho ditado de que "quem tem muito riso tem pouco siso" ou "muito riso, pouco juízo".


[ilustração: adaptação por IA]

16/09/2026

Grátis? A sério?

[recorte do Jornal de Notícias]

Vamos lá ver, dissecar, como quem desmancha um porco e tripas para um lado e fêveras para outro: Ofertas? Grátis? Mas então serão os senhores presidentes de Câmara a pagar dos seus próprios bolsos? Também os vereadores? E os funcionários que cozinham e levam as refeições à mesa não se cobram dos seus salários? Quem vende os ingredientes, azeite, cebolas, batatas, arroz, massas, carnes, peixes, etc, dispensam-se dos custos e lucros? Oferecem como se fosse um permanente Natal?

Isto é a brincar com as pessoas, com os contribuintes que na realidade pagam estas "gratuitidades", tal como entre outras "prendas", os passes nos transportes públicos e portagens nas auto-estradas. 

Numa linguagem grosseira mas tão sábia, porque da boca do povo, isto de "foder com a piça dos outros" é fácil e até dá votos.

Andamos todos a ser tomados como palpavos e a comer estes eufemismos modernos. Quando o critério deixa de ser o utilizador/pagador, na realidade pagam todos, pelo que usar o termo "grátis" ou "oferta" é tão falso como Judas. 

Certamente devemos atender a situações sociais, devidamente justificadas, mas alargar este conceito a todos, mesmo aos filhos dos senhores doutores e engenheiros, tanto a quem tem rendimentos de 10 mil ou 100 mil anuais parece de todo desproporcionado. Mas, sobretudo, não publicitem que é "grátis". Não nos façam de lorpas.

Grátis deveria ser o IMI, porque corresponde a um imposto estúpido e injusto, uma renda sobre um bem que é nosso,não do Estado ou dos municípios e sobre o qual já  se pagou IVA na construção, juros no crédito bancário, taxas e licenças na Câmara. 

Pobre país, a fazer-se rico!

14/09/2026

A despedida do Pe. António Santiago


Foi ontem a sepultar o Pe. António Alves de Pinho Santiago. Aconteceu num domingo, Dia do Senhor, como bem lembrou o Bispo Auxiliar do Porto, D. Roberto Rosmaninho, que presidiu às exéquias.

A Igreja Matriz de Guisande tornou-se pequena para todos os que quiseram prestar a sua última homenagem, incluindo muitos fiéis vindos das paróquias de Palmaz e Travanca, em Oliveira de Azeméis, que o Pe. Santiago serviu e estimou ao longo de tantos anos (55 anos em Palmaz e quase 26 em Travanca).  Foi também professor de Moral e Religião na Escola Básica Bento Carqueja, em Oliveira de Azeméis.

Num bonito gesto de comunhão, o acompanhamento musical esteve a cargo do Grupo Coral de Palmaz, enquanto a interpretação do salmo foi generosamente assumida por uma coralista da nossa paróquia. A celebração contou ainda com a presença de diversos sacerdotes e diáconos, entre os quais o vigário Pe. José Carlos, o pároco de Palmaz, o nosso atual pároco, Pe. Cláudio, e o seu antecessor, Pe. António Jorge, que no meio de uma agenda apertada, não quis deixar de se associar.

É verdade que perante a morte e aos olhos de Deus somos todos iguais. Contudo, enquanto servo dedicado à Sua Igreja, o Pe. Santiago teve uma despedida à altura da dignidade da sua missão. Foi uma cerimónia profunda e envolta em afectos, onde a família próxima pôde encontrar algum conforto perante a dolorosa perda de um irmão e tio tão especial.

Embora alguns membros da nossa comunidade não tivessem estado presentes por se encontrarem numa deslocação previamente agendada, acredito que o Pe. Santiago esteve presente na oração de todos. Mas nestas coisas cada um sabe de si e Deus de todos.

Esta partida reveste-se de um sentimento de perda acrescido para Guisande. A nossa terra, que no passado foi berço de várias vocações sacerdotais, vê partir aquele que era, actualmente, o seu único sacerdote. Reflexo dos tempos actuais e da evolução da própria sociedade, as vocações consumadas têm-se tornado escassas para a vastidão da messe. Antes dele, partira o Pe. Delfim Augusto Guedes, em 1961; o Pe. José Oliveira, a 24 de fevereiro de 1986; e o Pe. Agostinho Pereira da Silva, a 8 de março de 1997. Quando voltaremos a ter a bênção de uma nova vocação? O futuro a Deus pertence.

Pessoalmente, devo confessar que nunca mantive uma proximidade profunda com o Pe. António Santiago, para além de cumprimentos cordiais e palavras de circunstância. Recordo, no entanto, com especial afecto, o momento em que acompanhei o Bispo D. Roberto e o Pe. António Jorge numa visita à sua residência, aquando da Visita Pastoral em junho de 2024. Nessa altura, apesar do seu olhar acolhedor e do seu gesto afável, a doença já limitava a sua comunicação.

Do que me recordo, os serviços litúrgicos que prestou em Guisande foram pontuais, dada a entrega dedicada às suas paróquias de adopção. No entanto, o seu amor e apego à terra natal e à casa paterna nunca esmoreceram — prova disso foi o seu desejo expresso de repousar junto dos seus pais e irmãos. Seria natural que optasse por permanecer em Palmaz, onde serviu devotamente durante mais de meio século, mas o seu coração pediu para regressar a casa, ao aconchego da sua terra.

Em certas figuras, não é indispensável uma intimidade diária para que se reconheça a sua relevância. Proveniente de uma das famílias mais estimadas da nossa comunidade e com um percurso exemplar ao serviço da Igreja, o Pe. Santiago deixa um legado que todos honramos. É, e será sempre, uma das grandes referências da nossa história local.

Partiu quando Deus assim o determinou, tendo enfrentado a doença com resignação, amparado pelo carinho dedicado da sua família, em especial da sua irmã Flora, fiel companheira de todo o seu percurso pastoral.

Que Deus o acolha na Sua luz eterna e, na Sua infinita misericórdia, contemple a humanidade do seu servo. O Pe. António Santiago permanecerá vivo na memória dos seus entes queridos e na história emotiva das comunidades de Guisande, Palmaz e Travanca, onde marcou gerações.

Que descanse em paz.

11/09/2026

Mandar e ser mandado


Há pessoas que nasceram com uma admirável vocação para seguir, para serem mandados, obedecer.

Não é tudo defeito. Pelo contrário: há uma grande paz em não ter de decidir nada. Como dizem os italianos, um dolce far niente. Basta olhar em redor, verificar para que lado vai a maioria e acompanhar. Se toda a gente usa a mesma roupa, usa-se também. Se de repente todos descobriram uma nova maneira de comer, dormir, viajar, decorar a casa ou fotografar o almoço, lá se adopta o hábito com a solenidade de quem acaba de inventar uma vida. Nas redes sociais copiam-se as trends e comparece-se  ao chamamento a um qualquer evento, desde, claro, que não envolva trabalho.

Chamam-lhe, uns, personalidade, outros, ser sociável e modernista. É uma das grandes delicadezas do nosso tempo.

A pessoa escolhe cuidadosamente o seu lifestyle, aperfeiçoa o corpo, a barba, o cabelo, a casa, o vocabulário, a alimentação, as viagens e até a maneira de parecer indiferente às coisas que toda a gente deseja. Depois contempla a criatura que construiu e sente-se, legitimamente, única. O seu ego adensa-se e o umbigo é centro gravitacional.

À sua volta estão milhões de pessoas a fazer exactamente o mesmo. Mas não há mal nisso. Haveria, sim, se em contra-mão ou em passo desacertado.

O rebanho tem virtudes que a liberdade, essa velha senhora tão exigente, nunca conseguiu oferecer. O rebanho aquece, protege, recomenda restaurantes, escolhe destinos de férias, fornece opiniões e, sobretudo, poupa-nos ao esforço exaustivo de pensar e decidir pela própria cabeça. A Inteligência Artificial veio acentuar esse desligamento da vontade própria. Pede-se um texto, uma imagem, um relatório como quem na tasca pede moelas, rojões ou um bife com batatas fritas.

Há sempre um pastor. E um pastor é uma bênção para quem não quer perder tempo a descobrir onde fica a erva. Nada como saber que a horas certas, na manjedoura do costume, vai haver palha e ração.

Ele sabe para onde ir, conhece os melhores pastos, define o ritmo e, quando alguma ovelha se atrasa, dispõe de um argumento bastante antigo e de eficácia comprovada: o cajado da crítica e da desconsideração.

Depois existem as outras. As ovelhas que não encaixam. As negras, os rabujentos velhos do Restelo.

As que chegam atrasadas ao aprisco, comem onde não devem, desaparecem quando é preciso formar fila e aparecem precisamente quando ninguém lhes pediu opinião. Não são necessariamente corajosas. Seria bonito dizê-lo, mas nem sempre é verdade. Muitas são apenas teimosas, distraídas, mal-humoradas ou incapazes de perceber a utilidade de obedecer, sobretudo às cegas, sem escrutínio.

São as ovelhas ranhosas. Não melhoram o mundo por serem desobedientes. Apenas o tornam mais incómodo como um grão de areia no sapato ou uma formiga nos colhões.

Quando o cajado lhes acerta no lombo, protestam. Resmungam, afastam-se, fazem cara feia e, passada a indignação, voltam a cometer exactamente o mesmo erro. Há nelas uma espécie de fidelidade ao próprio defeito que chega a ser tão confrangedora quanto enternecedora.

Também não sabem muito bem para onde querem ir. Eventualmente, sabem apenas para onde não querem. E talvez seja esta a pior posição de todas.

Porque há os que mandam e os que aceitam ser mandados. Os que têm como mandamento de que necessários são os patrões e os empregados.

Neste universo, uns poucos descobriram cedo que nasceram para dar ordens; outros, com igual serenidade, que obedecer é muito menos trabalhoso. Entre uns e outros existe uma multidão que prefere não pensar demasiado no assunto, desde que lhe garantam salário, férias e a sensação reconfortante de pertencer a qualquer coisa, a uma seita, um grupo, um clube ou um partido.

Depois ficam os outros. Os que não querem mandar. Os que não querem obedecer.

Os que não aprenderam a andar ao compasso da manada, mas também não possuem talento para conduzir o rebanho. Esses são os verdadeiramente incómodos, porque não oferecem ao pastor nem a disciplina que ele espera nem a ambição que ele sabe utilizar.

São livres apenas na medida em que isso não lhes traz vantagem alguma. E liberdade, quando não vem acompanhada de poder, costuma ser uma coisa bastante mal paga.

O pastor não gosta deles e, com oportunidade, faz-lhes a cama em conformidade. As ovelhas também não.

E eles, para dizer a verdade, nem sempre gostam de si próprios. Talvez por isso existam tão poucos.

Uns nascem com o cajado na mão. Muitos aprendem a baixar a cabeça. E os que insistem em caminhar de lado, recusando tanto o comando como a marcha, descobrem cedo que há uma lei não escrita no rebanho: quem não conduz nem segue fica marcado e ignorado.

E, se houver favas para pagar, pode ter a certeza de que alguém já decidiu quem as come.

Eu sei. Tenho passado boa parte da vida a andar fora do compasso, a reclamar, a apontar defeitos, a irritar-me com chico-espertices, a incomodar quem se tem em conta por algum poder. Não é uma maneira especialmente inteligente de viver, bem o sei. Traz dissabores, rancores e reduz o círculo de gente concordante.

Mas, enfim, há vícios que, depois de tantos anos, já se confundem com carácter. Será, por isso, um problema de idade, em que se dá conta da falta de paciência para andar a seguir rebanhos, a dizer amém a qualquer pastor e a ser prestável com quem não merece mais que a indiferença.

Com a maior parte da vida já passada, o que falta dela é demasido valioso para ser desperdiçado em vénias e reverências. Era só o que faltava!


A. Almeida

09/09/2026

Os mestres da ilusão


Mais do que nunca, vivemos numa época em que mais vale parecer do que ser. O Governo, as autarquias e a comunicação social usam e abusam dos eufemismos e das meias-verdades, jogando constantemente com as percepções. Tal como num espectáculo de ilusionismo, o mágico precisa de distrair para iludir — algo que se torna simples porque, quase sempre, o público tende apenas a ver e a ouvir o que lhe convém.

Com frequência, lemos ou ouvimos anúncios como:

"No município X, os transportes públicos serão totalmente gratuitos";

"Os alunos passarão a ter manuais escolares completamente grátis";

"No município Y, as creches serão gratuitas";

"As autoestradas X, Y e Z deixarão de ter portagens";

"A Junta de Freguesia Z vai incentivar a natalidade com a oferta de um cheque de 500 euros por cada nascimento".

Esta narrativa cria a falsa percepção de que, com tais medidas, tudo se transformará num reino maravilhoso de bens e serviços gratuitos e de ofertas antecipadas de Natal.

Nada é mais falso. Quer seja no Estado Central, nas autarquias ou nas juntas de freguesia, tudo o que se anuncia como "grátis" continua a ter custos, financiados pela totalidade dos contribuintes. Trata-se de um modelo desequilibrado e injusto, uma vez que a factura é paga não só por quem usufrui dessas benesses, mas também por aqueles que delas nunca tirarão qualquer partido. 

É um pouco como a repetida história de que num certo município o evento X deixou um retorno económico de centenas ou milhares. A quem? A todos ou a quem mais bebe por estar perto da fonte. É que, no meu caso, em dezenas de anos de eventos cá no burgo, nunca senti caír um euro no meu bolso, antes, pelo contrário, a pagar quando há prejuízos na gestão ou exploração.

Em suma, assim continuamos: satisfeitos com supostos "benfeitores e altruístas" que, na verdade, não tiram um único cêntimo do próprio bolso para financiar as promessas que fazem ou medidas que implementam nesse conceito de gratuitidade. Antes, quando num populismo bacoco, tiram partido disso em tempos e contextos eleitorais.

Assim vamos andando!


[ilustração: IA]

08/09/2026

Bairrismo: o que ficará sem a valorização das raízes e legados passados?


A propósito de uma publicação sobre as romarias e o futuro das nossas comunidades, num bom artigo de reflexão do Tiago Afonso (de Pigeiros), na sua página de Facebook e no seu blog "Línguas de Perguntador",  troquei alguns comentários com o autor que me levaram a aprofundar uma ideia que, no essencial, partilho.

É evidente que o mundo mudou. Mudaram as famílias, os hábitos, as relações, os locais onde estudamos e trabalhamos, as formas de comunicar e, sobretudo, a própria maneira como nos relacionamos com as comunidades a que pertencemos.

Antigamente, a comunidade era, em grande medida, uma realidade inevitável. Vivíamos perto, conhecíamo-nos, dependíamos uns dos outros e partilhávamos os mesmos espaços de encontro. A paróquia, as associações, os cafés, as festas e as romarias eram muito mais do que lugares ou acontecimentos: eram elementos estruturantes da vida comunitária.

Hoje, nada disso desapareceu por completo, mas deixou de ter a mesma centralidade.

Em concordância com o Tiago, não me parece justo só por si  atribuir essa transformação aos jovens. Eles vivem simplesmente num tempo diferente, com outras oportunidades, outras formas de socialização e outras prioridades. Não podemos pedir-lhes que vivam como nós vivemos, nem que sacrifiquem o futuro para preservar o passado.

Mas é precisamente aqui que reside a minha preocupação: Há uma ruptura.E não sei se aquilo que estamos a construir será capaz de preservar os valores que, durante gerações, considerámos importantes: o sentido de pertença, a entreajuda, a responsabilidade pelas causas comuns, o orgulho nas nossas origens e o respeito pelo legado que recebemos dos nossos antepassados.

As nossas tradições não são apenas manifestações do passado. São uma forma de memória colectiva. Uma romaria, uma festa, uma associação ou uma tradição local representam muito mais do que aquilo que vemos: representam pessoas que, antes de nós, deram tempo, trabalho e dedicação para construir uma comunidade.

É isso que, a meu ver, não devemos perder. Não se trata de querer obrigar os mais novos a repetir os comportamentos dos mais velhos. Trata-se de lhes transmitir o valor daquilo que recebemos, para que possam decidir, à sua maneira, o que merece ser preservado.

O problema é que, perante a notória perda de população, mesmo que mitigada por uma imigração descontrolada, o envelhecimento e o afastamento progressivo das novas gerações, não sei se teremos gente suficiente — e sobretudo vontade suficiente — para assegurar essa continuidade.

Talvez o futuro encontre novas formas de comunidade. Talvez as tradições se adaptem e algumas sobrevivam. Espero sinceramente que sim. Mas continuo triste e céptico. Não tanto pelos jovens, mas porque já não existem as condições que fizeram nascer e crescer o espírito comunitário que conhecemos.

E quando se rompe uma continuidade de gerações, não perdemos apenas algumas festas ou costumes. Podemos perder, pouco a pouco, a consciência de quem somos e de onde viemos.

Por isso, enquanto for possível, penso que devemos continuar a defender as nossas tradições, a valorizar as nossas raízes e a sentir orgulho no legado dos que nos antecederam.

Não para viver no passado, mas para que o futuro não fique sem memória.

E, no fundo, talvez seja essa a nossa responsabilidade: fazer a nossa parte, transmitir o que consideramos ter valor e ter esperança de que alguma coisa fique.

Mesmo que, depois de tudo bem agitado, seja pouco o que fica no crivo.

06/09/2026

Tomada de posse do Pe. António Jorge em S. Pedro Ferreira


Neste Domingo, dia 6 de Setembro de 2026, pelas 10:00 horas, decorreu na bela e mística igreja românica de S. Pedro Ferreira, a tomada de posse do nosso ex-pároco, Pe. António Jorge.
Numa manhã bonita, num ambiente deslumbrante, o Pe. António Jorge certamente sentiu-se como recebido em sua casa e pelos seus, dos mais jovens aos mais velhos. 

A igreja, de boas dimensões, que esteve repleta, de gente sentada e em pé, foi pequena para tanta gente da comunidade local e visitantes, que se associaram a este importante momento. No exterior muita gente que não teve lugar, mas atenta e feliz.

Um simples mas bonito tapete a conduzir à igreja foi elaborado com dedicação e rigor. Um grupo coral fantástico, um númeroso grupo de jovens, leitores e cantores de qualidade.

Desconheço como foi a tomada de posse já no dia anterior, na paróquia de Arreigada (que correu pelo melhor conforme me confidenciou o Pe. António em breve conversa), e depois pelas 11:30 horas na paróquia de Frazão, mas certamente a tónica de acolhimento e alegria manifestada pelas comunidades foi semelhante.

Nas palavras do Pe. António Jorge à comunidade, emocionou-se várias vezes e nos agradecimentos procurou não esquecer ninguém que, nas suas palavras, o ajudaram a crescer e a ser o homem e sacerdote que é hoje. Naturalmente um agradecimento aos seus anteriores paroquianos, incluindo de Guisande, Pigeiros e Caldas.

Deixou à comunidade local a promessa de tudo fazer para o seu crescimento, da catequese, adolescentes, jovens e adultos aos mais velhos, mas na certeza de que nada poderá sem a ajuda de todos, todos, todos.

Pessoalmente, foi um privilégio poder assistir a esta cerimónia muito especial, num misto de agradecimento, de sincero desejo de que corra pelo melhor a sua missão, que não será fácil, até porque com novos desafios e pela dimenensão populacional do conjunto das paróquias, bem como de alguma tristeza pela saída de um bom pároco, certamente que com as imperfeições comuns a todos nós, mas com elevado sentido de seriedade no serviço litúrgico e espiritual, organização das estruturas e respeito pelas idiossincrasias de cada comunidade. 

Certamente que entre nós ficou muito por fazer, mas numa decisão do Bispo, a todos os níveis incompreensível, deixou uma inter-comunidade num tempo em que o seu trabalho começaria a dar frutos e já com tempo para melhor fazer o que até aqui lhe foi impossível de forma ideal.

Em resumo, um dia memorável e uma cerimónia muito bonita onde, como nós que viemos de fora, se percebeu facilmente que o Pe. António tem ali comunidades fortes, com muitas capacidades e que certamente será capaz de aproveitar, valorizar e fazer crescer ainda mais. Oxalá que seja capaz! Mas que o Bispo lhe dê o tempo que não deu nas nossas comunidades.

Por cá, como Jesus, não terá agradado a todos, e ovelhas negras sempre existirão no rebanho, mas creio que na larga maioria deixou amigos e amizades. E já saudades.

Bem-haja, Pe. António, e que Deus o ajude a ser feliz com as suas novas comunidades. É hora de trabalhar na messe de Deus.

Ver-nos-emos, por aí ou por aqui!




















































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