" Eu e a minha aldeia de Guisande: Opinião" "" Eu e a minha aldeia de Guisande
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04/05/2026

No tempo em que havia mais alma e menos imigrantes

 


Equipa do S.L. Benfica, na época 1974/1975 (Campeão Nacional). Do tempo em que os adeptos não andavam a torcer por uma equipa quase toda composta por estrangeiros. Se quisermos o contrário, no tempo em que as equipas portuguesas tinham mais alma...portuguesa, nacional.

Tenho-me desligado do futebol indústria, e ainda bem. Do meu Benfica, não vejo jogos, não pago televisão para assitir no sofá ou ver no campo (até porque é longe), nem leio jornais. Não rebato alarvidades e provocações nas redes sociais, nem alinho em tira teimas a saber quem tem mais ou menos razão na eterna rivalidade entre clubes e se cada um destes tem mais ou menos razão nas ajudas ou roubos por árbitros. É chover no molhado ou regar a praia.

Não tenho camisolas com as cores e emblema do clube e seria incapaz de andar com elas fora do contexto do estádio. Nunca influenciei esposa, filho, afilhado ou vizinho a ser pelo meu clube. Nestas coisas o respeitinho pela identidade própria é muito bonito. Se tiver que ter em casa alguém adepto de outro clube, que seja, apenas pedindo que haja respeito mútuo e bom senso.

Sei dos resultados, muitas vezes,involuntariamente e apenas no dia seguinte e porque, sem querer, as notícias vão-se ouvindo, na televisão ou na rádio. Das duas ou três vezes que, levado por amigos, fui para a rua festejar mais um título, senti-me um tonto, sem saber o que ali estava a fazer no meio da multidão, na maior parte gente estranha, a olharem uns para os outros, com excessos na bebida e nos gestos. A ressaca deveria servir para alguma vergonha pessoal, mas é pedir muito a quem vive estas coisas a dizer que com orgulho, alma e coração, como se isso os fizesse mais capazes ou melhores seres humanos que os rivais. 

Faz-me confusão ver tantos adeptos, ora com maus fígados quando as coisas não correm de feição, ora com entusiasmo desmedido e até fanatismo, quando, afinal, torcem apenas por uma equipa de estrangeiros, que do clube apenas envergam a camisola e recebem os milionários ordenados e sempre com o olho num patrão de um campeonato com mais prestígio, que lhes dobre ou triplique o ordenado. Os dirigentes, treinadores e atletas são pagos a peso de ouro mas precisam de estádios cheios, mesmo que com gente que ganha o salário mínimo e não tem onde cair morto. Mas, cá está, nem sempre o lado racional do adepto da bola é o que tem mais peso e o futebol tem destas coisas. Faz parte, aqui e em todo o mundo. A indústria faz por isso! It's just business!

Posto isto, talvez pelo efeito da idade, que se presta a encolher umas coisas mas também a servir para aumentar algum distanciamento e lucidez, mesmo que não viva do passado, esta fotografia do Benfica de outros bons tempos, como muitas outras, incluindo as que moram nas minhas dezenas de cadernetas de cromos, servem para lembrar um tempo em que as equipas de futebol, desde os distritais aos nacionais, tinham muito menos estrangeiros e efeitos do marketing da indústria, mas seguramente mais alma, que se estendia de cima para baixo, dos dirigentes e atletas aos sócios e adeptos.

Concerteza que cada tempo é um tempo e o actual é seguramente diferente, mas quando se vende a alma ao diabo (da indústria) alguma coisa tem de ficar pelo caminho. Parece-me! É apenas a opinião de quem se vai desligando. Talvez seja da idade!


Quanto à equipa: Em cima, da esquerda para a direita: Eurico, Toni, Barros, Shéu, Bento.

Em baixo, pela mesma ordem: Nelinho, Artur, Nené, V. Martins, Jordão, Moinhos.

Era treinador:  Milorad Pavic

Mais do mesmo...

 




O problema repete-se indefenidamente, em Guisande e noutros locais. A coisa já não vai lá com recomendações, apelo ao civismo ou ameaças de coimas. A solução seria uma brigada de vigilância armada com uns paus de marmeleiro. Mas, como somos uma sociedade de mansos e humildes e de regras civilizadas para quem não sabe ser cívico, e que pouco ou nada penalizam os prevaricadores, não será solução recomendada. Um polícia para cada português, talvez ajudasse, mas seria incomportável, e os poucos que existem andam ocupados na caça às multas de trânsito ou a acompanhar corridas e desfiles.

Posto isto, há que conviver com a constante acção de gente badalhoca.


29/04/2026

É fartar, vilanagem!

As catástrofes naturais que têm assolado Portugal, desde os trágicos incêndios de 2017 às recentes tempestades que fustigaram, sobretudo, o centro do país no início deste ano, deixam marcas profundas no território e na alma das populações. Perante a destruição de habitações, fábricas e explorações agrícolas, a resposta do Estado foi rápida através de fundos de reconstrução é não apenas necessária, mas um imperativo de solidariedade social. Contudo, a par dos escombros, surge frequentemente um fenómeno igualmente corrosivo: o oportunismo de quem vê na tragédia uma oportunidade de lucro ilícito e que procura tirar proveita das facilidades burocráticas dadas pelo Estado como forma de se dar resposta tão rápida quanto possível aos danos e insuficiências.

É comum ouvirmos críticas contundentes à classe política, à burocracia das instituições e à alegada falta de transparência na gestão da coisa pública. No entanto, os relatos recorrentes de candidaturas fraudulentas (como alguém que pediu à volta de 3 mil euros quando na realidade apenas precisou de meia dúzia de telhas que lhe foram oferecidas) a apoios estatais revelam uma dissonância ética preocupante. Quando indivíduos ou empresas tentam obter financiamento para reconstruir estruturas que já se encontravam abandonadas ou em ruínas muito antes do desastre, ou quando inflaccionam prejuízos de forma desproporcional, estão a replicar precisamente os comportamentos que condenam nos seus representantes. Um pouco como, na estrada, alguém que tendo no seu automóvel umas valentes amassadelas, depois de um ligeiro toque de alguém, alega à seguradora que o carro estava impecável. Um simples Fiat Uno é descrito como um Ferrari.

Todos cohecemos, até por perto, casos de falsificação organizada de acidentes automóveis para enganar as seguradoras, e até mesmo em acidentes a envolver bicicletas, em que há quem se preste a substituir peças danificadas vulgares por mais caras para enganar o perito e aumentar a indemnização pela seguradora. Não somos anjinhos e todos conhecemos estas histórias.

Esta microcorrupção do quotidiano sugere que o problema ético não é exclusivo das esferas de poder, mas sim transversal a uma sociedade que, por vezes, confunde astúcia com sobrevivência e oportunismo com direito.

As ramificações destas acções enganadoras são vastas e prejudicam toda a comunidade. Os fundos públicos são finitos. Cada euro desviado para uma estrutura que já estava em ruínas é um euro retirado a uma família que perdeu o seu único teto ou a um empresário que luta para manter postos de trabalho.

A detecção de fraudes obriga o Estado a endurecer os processos de fiscalização. O resultado é um aumento da burocracia que atrasa o apoio a quem dele necessita com urgência, punindo o justo pelo pecador. Nesta situação o Governo confronta-se com a situação de pecar por excesso de zelo ou de abrir a porta e as mãos ao chico-espertismo e oportunistas, tantas vezes estes com o beneplácito de gente que está nas entidades que deviam fiscalizar e zelar pelo interesse público, usando da velha filosofia de que uma mão lava a outra e que em detrimento do Estado ganham todos.

A fraude alimenta o cinismo. Quando a comunidade percebe que o vizinho beneficiou indevidamente de um sistema de apoio, a confiança nas instituições e na própria solidariedade entre pares dissolve-se, dando lugar ao ressentimento.

Uma sociedade que aspira a instituições íntegras deve, obrigatoriamente, sustentar-se numa base de integridade individual. Criticar a corrupcção "lá em cima" enquanto se pratica o oportunismo "aqui em baixo" é uma falha moral que compromete o desenvolvimento do país.

A reconstrução de uma região após uma catástrofe deve ser física, mas também ética. Exigir transparência do governo é um dever cívico, mas agir com honestidade perante os recursos que pertencem a todos é a única forma de garantir que, na próxima tempestade, a rede de apoio seja robusta, rápida e, acima de tudo, justa. Infelizmente, de Pedrógão à região Centro, os exemplos de oportunismo mostram que nada aprendemos. No meio da catástrofe e miséria haverá sempre gente ao saque como na Idade Média. 

É fartar, vilanagem!


[ilustração: Observador]

23/04/2026

Dia Mundial do Livro - Também dos meus


Hoje, 23 de Abril, celebra-se o Dia Mundial do Livro. Que seja "Mundial" ou "Internacional", é uma data significativa pelo que representa.

O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor foi instituído pela UNESCO em 1995. Esta data tem como objectivo central o reconhecimento do livro como um instrumento fundamental para a educação e o progresso cultural.

O foco primordial da data é incentivar o hábito da leitura em todas as faixas etárias, destacando o prazer da descoberta literária. Em 2026, as iniciativas em Portugal, coordenadas pela DGLAB, sublinham a leitura como um acto de liberdade, cidadania e democracia, integrando as comemorações dos 50 anos da Constituição da República Portuguesa.

O dia serve para reafirmar o papel dos livros como meios insubstituíveis da transmissão de património cultural e informação, desenvolvimento intelectual, expansão de horizontes e combate ao isolamento social e reforço de laços interpessoais.

Não sou, de todo, escritor ou autor, mas modestamente já tenho três livros publicados, um deles recentemente apresentado e que está à venda pelo Guizande Futebol Clube, já que é a esta instituição que é dedicado e os ganhos com a venda servem para ajudar as suas actividades e obras nas instalações desportivas do Campo "Oliveira e Santos".

Apesar disso, escrever e publicar um livro não é apenas um exercício de vaidade mas antes uma consequência de quem cultiva a escrita, a língua  e a literatura. Se para muitos e talentosos escritores é um modo de vida, para pequenos e insignificantes  autores, como eu, que apenas publicam em edições de autor, é um exercício de alguma loucura e gastos que pouco compensam com pequenas edições. As editoras comerciais não apostam em que não tem nome, eventualmente até aceitando publicar mas com condições que se resumem a dar um chouriço para receberem um presunto "pata negra".

Dos meus três livros, o primeiro, "Palavas Floridas", com poemas, contos e textos, foi literalmente para oferecer a familiares e amigos, por isso sem ganhar um tostão. O segundo, de literatura infantil, vendi a pouco mais de preço de custo e desse valor ofereci 2 euros à UNICEF para campanhas de apoio às crianças do "corno de África". Algumas entidades de poder local comprometeram-se a apoiar, adquirindo algumas dezenas de exemplares para a rede de escolas e bibliotecas, mas tal não passou de uma promessa por cumprir. Sem supresa!

O terceiro, ainda fresco e recentemente apresentado (10 de Abril), é um conjunto de apontamentos sobre a história do  Guizande Futebol Clube, que o está a vender pelo que a totalidade dos lucros com a venda são para a colectividade. Uma vez  mais, trabalho e alguma despesa sem qualquer ganho, mas no que é um orgulho poder ajudar, juntamente com quem apoiou nos custos da publicação. Como reconhecimento, do poder local municipal ninguém a representar, mesmo que com convite prévio. Sintomático!

Por conseguinte, para os insignificantes autores como eu, vai valendo a loucura e a vontade de fazer alguma coisa, mesmo sem nada esperar. Tenho mais três projectos, um deles já em escrita avançada, dedicado à capela do Viso e à sua festa. Uma vez mais com foco nas coisas da freguesia. Ainda um outro, uma monografia geral sobre a freguesia nos seus diferentest aspectos, que praticamente está escrita. Ainda em mente um terceiro livro de poemas e contos "Palavras despidas".

São projectos, com  vontade própria e já todos com escrita adiantada, mas confesso que ainda sem saber quando verão a luz do dia. Estas coisas, para além do tempo e cansaço, custam dinheiro, cada vez mais, e não sou pessoa de pedinchar, sobretudo a quem tem obrigação de incentivar e apoiar. Seja como for, venham, ou não, a ser publicados, uma vez mais o objectivo não será ganhar dinheiro. Quando muito a vender a preço de custo para mitigar o prejuízo.

Posto isto, importa valorizar o Dia Mundial do Livro e dar importância ao que lhe dá substância, os autores, os livros e o que neles se imprime, sobretudo quanto temas que são uma forma de valorizar a nossa freguesia, os seus valores, passados e presentes. Apesar disso, sem expectativas porque sabendo que a larga maioria pouca importância dá a estas coisas.

16/04/2026

Pagar o que não se come


Como muitos portugueses, tenho serviço de telefone, televisão e internet. O básico. Não tenho canais prémium nem Netflixes ou coisas parecidas. A minha carteira não dá para tanto.

Apesar disso, um dos motivos que me levam a não subscrever Netflixes e quejandos é que, por regra, paga-se pelo pouco que se come e pelo muito que não se come. Ou seja, paga-se o menú completo, mesmo que só se comam as salsichas e não se toque nos bifes, no polvo ou no camarão. Do género, não comeu, comesse!

Infelizmente, sem regras de quem as devia implementar em defesa dos consumidores, habitualmente somos todos "comidos de cebolada". Por exemplo, pagamos serviço de televisão e mesmo assim temos que gramar doses exageradas de publicidade. Ora se temos de compreender essa filosofia em televisões de sinal aberto, já em serviços pagos a coisa fica estranha. Não surpreende, por isso, que muitos procurem esquemas ilegais de acesso a esses serviços de televisão e streaming.

Em resumo, quase todos comemos pela medida grande e conforme as coisas estão regulamentadas, de pouco ou nada serve reclamar. E isto não só neste género de serviços fornecidos por empresas, como até em alguns prestados pelo Estado.

É comer e não bufar, até porque quem bufa rapidamente passa por estar desalinhado, por negacionista, ovelha tresmalhada ou coisa do género. 

Num país de gente mansa e alinhada, custa até a acreditar que tenha havido uma revolução.

15/04/2026

Livro do Guizande F.C. - Rescaldos

 


Ainda o rescaldo da apresentação pública do livro "Guizande Futebol Clube - Apontamentos para a sua história", da sexta-feira passada (10 de Abril de 2026).

Sala cheia, reunião dos ex-presidentes e ausentes em memória. Atletas e dirigentes. O foco, o clube. Um documento de arquivo e uma forma concreta de apoiar. 

Neste contexto, se é certo que a sala esteve cheia e se mais viessem teriam de ficar de pé, no entanto, normal seria que mais figuras, algumas com peso institucional no passado e presente, marcassem presença. Não o fazendo, certamente que por imperativos legítimos dos seus afazeres e vontades pessoais, mas, todavia, fica essa assinatura de ausência. 

Apesar da presença de alguns jovens,notei a ausência de tantos outros. E se não me surpreende nem fez falta a indiferença de alguém da Câmara Municipal, porque dali nada se espera, preocupa-me, sim, alguma indiferença de alguma da nossa juventude, dos mais novos. Afinal, serão eles o futuro e se assim tão desinteressados por algo de comunitário, como o nosso clube, as perspectivas só poderão ser pessimistas. 

Que mais não seja, também por esta realidade presente, importa remar enquanto há tempo e força.


08/04/2026

O seu a seu dono

 


Os anos vão passando, o período da União de Freguesias (12 anos) foi penoso e negro, e com isso certas coisas vão também passando ao esquecimento. Ora se nos mais velhos isso é verdade, nos mais novos, por razões compreensíveis, a coisa ainda é mais grave.

Falo da velha questão de delimitação do território de Guisande com a freguesia de Caldas de S. Jorge na zona do lugar de Azevedo. De facto, aquando da urbanização daquela parte nascente do lugar, por meados da década de 1980, no mais elementar desrespeito pelos limites, um dos principais marcos de fronteira ali existente foi removido e não reposto, o qual existia aproximadamente no que é a actual esquina da Rua do Rancho Folclórico com a Rua das Escolas, onde existe uma represa do lado nascente da sede do rancho. Desse marco o limite ligaria ao marco mais a sul, aproximadamente no vértice de limite entre Guisande, Pigeiros e Caldas de S. Jorge.

Essa situação, aquando da urbanização, foi reportada à então Junta de Freguesia por um morador do lugar de Azevedo, o Sr. Bernardo Pinheiro, em consequência da então instalação de uma discoteca. Talvez exista na sede da Junta algum documento nesse sentido. Talvez....A Junta de Freguesia de então, que se saiba, de concreto pouco ou nada fez e a situação arrastou-se. 

Creio que já pela final da década de 1990 foi formada uma equipa com técnicos camarários e do Instituto Geográfico e Cadastral de modo a resolver-se o assunto de forma coordenada com as juntas de freguesia. Certo é que, não agradando o trabalho e a delimitação, apesar das evidências e mesmo em lhe ser favorável face ao limite original, e de se arranjar ali uma solução aos zigue-zagues para acomodar a situação aos arruamentos, certo é que o então presidente da Junta de Freguesia de Caldas de S. Jorge (falecido) não assinou o documento.

Significa isto que, no que considerou uma defesa dos interesses da sua freguesia (o que é legítimo) não reconheceu, contudo, uma evidência factual determinada pelos técnicos, naturalmente porque implicava reconhecer que uma parte substancial daquele território pertencia a Guisande.

Apesar disso, dessa recusa, e face às evidências fundamentadas pelos técnicos, oficialmente tem sido reconhecido como o limite oficial, o qual consta dos documentos cartográficos da Câmara Municipal e do Estado.

Apesar de uma perda efectiva de território face ao limite antigo definido por um marco removido de forma criminosa, uma boa parte do território continua a ser considerada, espertalhonamente, como daquela freguesia vizinha. Seria, pois, importante, que de forma conciliada e incluindo a Câmara, essa situação fosse reposta, quer no que diz respeito ao recenseamento eleitoral quer quanto às obrigações inerentes de toponímia, limpeza e obras naquele parte urbana.

O esquema acima mostra, com o quadriculado azul, a parte em questão e a magenta a parte que, de barato, se considera da freguesia de Caldas de S. Jorge, mas que conquistada ao arrepio da remoção criminosa do marco. Por conseguinte, se reclamar a área a magenta será um processo litigioso, demorado e eventualmente irresolúvel, pelo menos há o dever de regularizar administrativamente a parte reconhecida oficialmente, que objectivamenteé  território e prédios de Guisande.

Naturalmente que compete ás entidades, Junta de Freguesia e Câmara Municipal, trazer o seu a seu dono. Deixar passar ao esquecimento esta situação não é bom sinal e demonstra desmazelo pelo que é nosso.

A freguesia das Caldas de S. Jorge foi sempre muito activa na defesa do que considera seu, nomeadamente na disputa do limite com a freguesia de Lobão, junto à fábrica Serafim Reis, e nessa questão não quero meter a colher, mas depois, ao contrário, esquece-se dos direitos legítimos das outras freguesias, nomeadamente nesta situação clara no lugar de Azevedo. Conforme as coisas estão, desleixadas e a cair no esquecimento, bastará que o lugar vá crescendo para nascente ou norte para que se continue a expandir território da freguesia vizinha perante a passividade de Guisande e dos seus responsáveis.

Importará, pois, digo eu, que se dê atenção a esta questão, sem atropelos, chico-espertismos ou desconsiderações, mas tão somente pela legalidade. O seu a seu dono.

Já não se leva água aos nossos moinhos

 


Ontem foi o Dia Nacional dos Moinhos. Por cá, pelo que se vai publicando, ficamos todos com a impressão que só há moinhos nas bordas do Uíma. Isto resulta de uma realidade de que só conhecemos o que nos dão a conhecer. Também porque o nosso poder central (concelhio) é isso mesmo, central, e para além da visão do seu umbigo nada mais há nem mexe.

Guisande, mesmo que terra minguada em léguas, tem a sua boa dose de moinhos. É certo que já não funcionais porque o desinteresse por estas coisas é estrutural e cultural, alguns em ruínas e outros já desaparecidos ou apenas com os alicerces. Os mais novos, não os conhecem nem conhecerão. Uma auto-estrada não deixa de se fazer ou não se desvia por causa de dois ou três moinhos e como tal esses foram-se à vida com a A32. Foi o progresso que trouxe à nossa aldeia que, como parasita, só leva e nada deixa. Deixou um rasto de destruição ambiental e paisagística. Sem qualquer esmorecimento de quem nos competia defender ou minimizar os prejuízos.

Mesmo assim, há condições para que pelo menos uns três possam ser restaurados, mas, para sermos realistas, milagres fez Jesus e foi morto por isso.

Posto isto, resta-nos (aos mais velhos) as memórias dos nossos moinhos, algumas fotografias e a certeza de que para lá do Uíma não há ribeiras nem moinhos. Isto é, o resto é paisagem.

Mesmo assim, fica a evocação de um dia que nos passa esquecido. Já não levamos a água aos nossos moinhos.


06/04/2026

Cada um que responda


A Páscoa, na boa e secular tradição cristã, é, sem dúvida, a mais importante das celebrações e aquela que deve corresponder a uma alegria não material, mas espiritual, por todo o seu significado e simbolismo. Por conseguinte, são naturais e compreensíveis todas as manifestações desse júbilo, nas mais diferentes formas. Nos tempos actuais, muito marcados e até dependentes das redes sociais, é igualmente natural que muitas pessoas partilhem momentos pessoais, em família e em comunidade, ligados a essa alegria.

São assim frequentes e recorrentes as partilhas que vão desde felicitações de uma boa e feliz Páscoa até às iguarias colocadas nas mesas: o assado de cabrito ou de vitela, o pão-de-ló, os doces e bolos, etc., etc. Tudo coisas boas, bonitas e saborosas, que de facto comprovam o sentido de alegria que ainda se associa à Páscoa, à ressurreição de Jesus. 

Apesar disso, sem moralismos, até porque, talvez, já algo ultrapassado face às tendências e modos de vivência actuais, pergunto-me se, em cada 100 pessoas que partilham a Páscoa nesses moldes, cinco delas participaram em alguma cerimónia religiosa durante a Quaresma, se percorreram esse caminho de introspecção e preparação espiritual, se na Semana Santa participaram em alguma das celebrações - na Quinta-Feira Santa, na Sexta-Feira Santa, no Sábado de Aleluia - ou se apenas, ou nem sequer, na missa do próprio dia de Páscoa?

Cada um e cada uma responderá por si, mas, pelo que se vai vendo e constatando, nomeadamente na nossa comunidade, parece-me que, no geral, a forma como vivemos a Páscoa e tudo o que a antecede, se tornou muitas vezes um mero formalismo, uma tradição sobretudo material. Coisas de igreja e de padres, de orações e contemplações mais profundas, dispensam-se. O assado, esse sim, é tradição, antiga, da casa e da familia! Esse é que conta!

Pessoalmente, não concebo celebrar a Páscoa, a ressurreição do Senhor, sem a vivência desses momentos fundamentais da nossa espiritualidade, até para a sacralizar. Contudo, muitos há que, não ligando patavina a essa dimensão, seguem a vida como se nada fosse, dormindo descansados com isso. Entre uma celebração religiosa e um jogo de futebol ou um qualquer evento, social ou desportivo, a escolha é fácil, demasiado fácil. 

Em resumo, em tudo, nestas questões, cada um falará por si e, de um modo ou de outro, encontrará uma justificação pessoal para a sua fé, ou para a sua “fezada” e a encontrar a habitual justificação de que não é por isso que são melhores ou piores dos que fazem por participar nas cerimónias religiosas alusivas (e com certeza que não). Mas, numa reflexão mais profunda, parece-me que andamos, de facto, muito afastados do essencial e vivemos estas realidades com a mesma profundidade com que festejamos um Carnaval ou um jogo de futebol. Não há como não dizê-lo. Isto é bom? É mau? Indiferente? Cada um que responda por si.

Continuação de um feliz e santo tempo pascal!

01/04/2026

Isto não é a "Mata de Pigeiros" mas não mata a imagem de Pigeiros


Do que me parece sobre o assunto:

Há dois aspectos: Por um lado, a questão principal, em que um advogado usa uma referência depreciativa ou ofensiva para com uma colega ("isto não é a mata de Pigeiros"). Não conheço o contexto exacto em que foi proferida, mas mesmo para quem está de fora parece ser ofensiva pois, mesmo que não conhecida de forma generalizada, sem dúvida que é uma referência ao foco de prostituição naquele local de fronteira de Pigeiros, junto à EN1. Parece-me, pois, que foi bem condenado pela injúria.

Quanto à segunda questão: É certo que alguma prostituição naquela zona de Pigeiros é antiga e mesmo que já pouco significativa, ainda existe, o que naturalmente não dá uma boa imagem ao local. Apesar disso, não me parece que a designação "Mata de Pigeiros" seja assim tão conhecida ou publicitada cá pela nossa zona. Eventualmente até é mais popular o local como "Meia Légua".

Em todo o caso, esta referência grosseira usada pelo advogado com intencionalidade, como entendeu o tribunal, parece que era bem conhecida por ele, a ponto de a utilizar. Porventura, com esta publicidade, com cobertura por um jornal nacional, como  "Jornal de Notícias", a designação passe a ser mais conhecida, o que também não é positivo, mas talvez sirva de motivo para que as autoridades possam fazer o que for possível fazer. 

Finalmente, apesar disso, não me parece que esta referência seja assim tão negativa para Pigeiros. A freguesia é mais, muito mais que isso e era só o que faltava que uma ordinarice de um advogado machista pusesse em causa a honra e dignidade de toda uma freguesia. Concerteza que o motivo não é positivo mas, em última análise, penaliza mais as entidades que de algum modo podem e devem lidar com estas situações que decorrem à vista de todos. Prostituir-se em Portugal não é ilegal. Estar numa berma de estrada não é crime por si só. Explorar, controlar ou lucrar com a prostituição de terceiros, lenocínio, isso sim, é crime e é por aqui que tem de se fazer alguma coisa.

27/03/2026

Centro Social - Assembleia Geral - 02 de Abril de 2026

 


Na Assembleia Geral do Centro Social S. Mamede de Guisande, agendada para o próximo dia 2 de Abril de 2026, pelas 21:00 horas (Quinta-Feira Santa), devo participar na cerimónia religiosa, a que darei prioridade, pelo que não sei se a tempo de participar na sessão que, entre outros pontos, decidirá pela aprovação do protocolo tripartido para cedência e uso das instalações do Centro Cívico para funcionamento da Junta de Freguesia.

Enquanto sócio (pagante e com cotas em dia) e elemento da mesa da assembleia da Associação, confesso que estou dividido quanto a este protocolo. Desde logo porque no momento desconheço as suas condições e porque, por outro lado, não vejo vantagens significativas para as partes. Talvez os termos do protocolo esclareçam. A ver vamos.

Para além de tudo, parece-me que a utilização das instalações tem andado um pouco ao sabor dos ventos, nem sempre com critérios claros. Tem sido aproveitado mesmo por quem, num passado recente desconsiderou o Centro Social, as suas instalações, e por pessoas que nem sequer são sócias. É certo que as instalações devem estar ao serviço da freguesia, sem dúvida, mas também importa saber qual o papel dos associados. Enquanto sócio pagante, interrogo-me quanto às vantagens dessa condição, uma vez que os demais, que não pagam, na prática e no essencial do dia-a-dia, usufruiem como os que pagam.

Infelizmente, os actuais corpos gerentes, onde estou incluido, estão numa condição muito especial e apenas porque em tempo próprio não apareceram pessoas e listas interessadas em tomar conta do Centro e dinamizá-lo de uma forma mais consistente ou, pelo menos, renovada.

Por conseguinte, andamos todos mais ou menos a fazer fretes, porque nesta freguesia foi quase sempre assim: Uns a fazer, outros a maldizer, uns a pagar e outros a beneficiar. Não há volta a dar.

Em todo o caso, o Centro Cívico, mesmo que ainda sem atender ao seu propósito basilar, o de ser um Centro de Dia,  tornou-se num equipamento indispensável às diferentes dinâmicas da freguesia e paróquia. Parece-me é que, para além dessa importância e utilização, essa situação não produz efeitos práticos, quer ao nível de gente interessada em fazer parte dos corpos gerentes, quer ao nível do aumento de sócios pagantes, antes pelo contrário.  Daí esta minha apreciação cheia de dúvidas e até algum desapontamento, sendo que esperançado que, aos poucos, as coisas se acertem entre a freguesia e a associação.

10/03/2026

Adeus magnólias


Não o confirmei, mas alguém hoje me informou de que terão sido abatidas as duas magnólias que de há anos existiam defronte da nossa igreja matriz.

Pessoalmente fico com um sentimento dividido, porque é sempre triste ver abater uma árvore (no caso duas) mas por outro lado também considero que o seu crescimento foi desmesurado a tal ponto de estarem a esconder a nossa igreja (principalmente a do lado norte), cuja fachada principal só por si é merecedora de estar bem desafogada e visível a partir do início da alameda. Compare-se ambas as situações nas fotos.

Creio que já falei por aqui, ou noutro espaço, sobre o assunto do crescimento e de um dia ter de se equacionar o abate das árvores ou a sua poda algo radical e desvirtuar as mesmas. Então, como se esperava, as opiniões não foram convergentes.

Neste caso, como disse, por mim fico dividido mas compreendo e aceito a decisão. Alguém tem de tomar decisões mesmo na impossibilidade de agradar a todos. Resulta daqui que certamente haverá opiniões contrárias.

De resto, as árvores também não são eternas e muitas vezes, quando não em espaços adequados ao seu porte, passam a ser prejudiciais. Por outro lado, é frequente que quando se plantam nem sempre se tenha a capacidade de antever o que serão no futuro e se isso será adequado. Eu próprio já cometi esse erro com uns arbustos (tipo cedros) que cá em casa tive à face do muro da rua e que com trabalho e despesa tive de abater e os estragos ainda hoje se fazem sentir. 

Até mesmo no nosso adro, defronte da residência paroquial, já existiu uma cerejeira frondosa e de bons frutos, que por 1956 teve de ser abatida para permitir um adro amplo e um melhoramento do mesmo, então em terra e irregular. Também nessa altura não foi do agrado de todos.

Em resumo, com tristeza mas percebendo e aceitando a decisão, veremos o que ali será colocado, talvez oliveiras, plantas arbustivas e floridas e que não cresçam a ponto de ocultar a igreja.

09/03/2026

Mal agradecidos

Confesso que fico um pouco irritado com gente nossa que, pelo estrangeiro, de livre vontade, em trabalho ou férias, se mostre revoltada com o Governo por os não irem buscar a casa de limusina ou jacto privado para regressaram ao país porque apanhados em situações de conflitos. 

Sempre ouvi dizer que somos responsáveis pelas nossas atitudes e pelas nossas opções. Por isso, por que carga de água tem o Governo de gastar dinheiro de todos os contribuintes para ir resgatar quem deu de frosques do país e foi à sua vidinha, em gozo de férias ou para trabalhar?

Andamos todos mal habituados e reclamamos com o Estado quando as coisas correm mal, a exigir transportes, apoios e subsídios, se possível a fundo perdido,  mas quando correm bem, quando ganhamos dinheiro, damos umas curvas aos impostos, declaramos rendimentos baixos e fugimos com o cu à seringa.

Típico, mas irrita, sobretudo quando com o Governo a fazer o possível por ajudar, ainda tenha que ouvir desconsiderações de alguém ao sol numa praia na Tailândia ou a nadar nos dólares das arábias, a queixar-se que ainda não foi contactado. Há limites. 

06/03/2026

O papel do papel de jornal


Aprecio, gosto e sou fã da obra do artista Alexandre Manuel Dias Farto, dito Vhils. Um excelente e talentoso artista de arte contemporânea.

O agora falado retrato, de sua autoria, do presidente da república, de saída de Belém, está dentro da sua  linha plástica. Mas, no que se pretende do retrato da mais alta figura do Estado, não gosto. Não tinha que seguir a linha mais clássica ou conservadora de um Columbano ou Henrique Medina nem um borra telas como Pomar, mas era escusado uma tão grande ruptura. Com jeitinho, teria sido composto com materiais recolhidos no lixo.

Mas, pensando melhor, é bem ao estilo de Marcelo: Mais preocupado pela forma do que pela substância, fazendo do seu umbigo o centro do universo. Espalhafatoso, muito para os média, para as redes sociais, bem ao estilo do papagaio, fala-barato, em que se transformou, sobretudo no segundo mandato. Ficará para a história como o presidente de e para as selfies, em calções de banho e a chupar um gelado.

Um presidente nos nossos dias tem de ser, obviamente, próximo, afectivo e efectivo, atento, uma voz que se faça ouvir e respeitar, mas desvaloriza-se, rebaixa-se, indignifica-se quando se trona popularucho, banal, um influencer no pior sentido.

Mas isto é apenas uma opinião, outros considerarão o contrário, e estamos todos bem. 

Mas insisto, um presidente da república não tem de ser rígído, austero, como Cavaco, cinzento e partidariamente subalterno como Sampaio ou prepotente e espalha-brasas como Soares, mas com o formalismo equilibrado e que, sobretudo, seja uma figura respeitável, que respeite e se faça respeitado. O velho ditado que o "respeitinho é muito bonito" ainda faz sentido. Não fosse isso, e então mais valia eleger o Tino de Rans, o Ena Pá 2000 ou o Batatinha. Iria dar ao mesmo.

Voltando ao retrato, não gosto no sentido da finalidade, mas, porque de encomenda, em nada surpreende e está ao nível do retratado. Afinal bem sabemos o papel que o papel de jornal teve em tempos em que o dito higiénico era luxo de cuzinhos de ricos. É, pois, um respeitável papel e merece estar na galeria de Belém.

Não havia necessidade, é certo, mas os tempos recomendam que se goste e se exalte. A fábula do "rei vai nu" ainda tem peso. Muito peso.

04/03/2026

Coisas bonitas mas sem eficácia


Alguns municípios, sobretudo do interior, têm adoptado medidas de incentivo à natalidade. Apesar de substanciais nalguns casos, quase sempre sem efeitos notórios. Até mesmo o município de Santa Maria da Feira tem um programa em que por cada nascimento concede um apoio de 600 euros por ano até ao 3.º ano de vida, por isso no valor de 1800,00 euros. Até ao momento desconhecem-se resultados práticos dos efeitos de tal medida, mas não custa acreditar que serão nulos ou residuais.

Na mesma onda ou seguidismo, e com menos significado, até pelo peso dos orçamentos, também algumas Juntas de freguesias têm adoptado os seus próprios programas, dando-lhes a mesma e pomposa importância de incentivo à natalidade. Mas este, como se compreenderá, é um problema social, estrutural e afecta todo o país e Europa. As medidas que poderão inverter a baixa de natalidade geral terão de ser muito significativas, estruturais, políticas e  económicas, até sociais, e mesmo assim, eventuais resultados não se verificarão a curto prazo. Não fossem as contribuições dos imigrantes nisto do "crescei e multiplicai-vos", e o nosso país e suas terras estariam a passos largos para a desertificação. E algumas, no interior, já estão,

A União de Freguesias de Lobão, Gião, Louredo e Guisande teve um programa desses, designado de "Bébé União" e para além de ser bonito e dar fotografias para as redes sociais, seria interessante saber, para além do simbólismo,  em quanto tal incentivo resultou num concreto e efectivo aumento da natalidade em cada uma das freguesias e, para o nosso caso, em Guisande. Parece-me que, na realidade, valeu zero e mesmo que sim, certamente que mais por via do tal apoio municipal, porque bem mais substancial. 

Entretanto, alguém avisou-me que também a nossa Junta de Freguesia de Guisande pretende seguir um programa similar, para o que terá já anunciado um período de discussão pública e  recolha de ideias que durará por este mês. 

Por mim não vou concorrer com qualquer ideia, nem dar para esse peditório, desde logo porque não estou em fase de beneficiar do apoio e porque o acho inconsequente quanto ao tal incentivo. Mas sem pretender ser negativo, tenho naturalmente a minha opinião. De resto já a escrevi antes, mais ou menos nestes termos: 

Mesmo que sem qualquer filosofia de incentivo à natalidade, porque na realidade, sejamos realistas,  não resulta apenas com tais iniciativas, deve-se manter o programa similar levado a cabo pela União de Freguesias, com um valor monetário simbólico e um cabaz de produtos adequados aos primeiros tempos do bebé e da mãe. De outra forma, convirá ter em conta os rendimentos e património dos pais sob pena de gerar paradoxos. Por exemplo, que tipo de incentivo resulta em atribuir, 50, 100 ou 500 euros a quem já tem um bom rendimento e património? Será apenas por isso, por essa diferença, que um casal se decidirá por mais um filho?

Em resumo, mesmo batendo de frente na parede da realidade, de que nos últimos anos os nascimentos em Guisande contam-se pelas dedos de uma mão e ainda sobram dedos, concordo com a atribuição de alguma coisa mas apenas pelo simbolismo do que propriamente pela eficácia esperada. Eventualmente com cheques prendas angariados em algumas empresas, nomeadamente de produtos de puericultura, eventualmente uma prendinha com um valor monetário tambem simbólico, quiçá para servir para abrir uma conta no nome do bébé. 

Para além disso, no essenciual, deve haver cuidado com tentações de coisas bonitinhas, exageros para as redes sociais, porque, parecendo interessantes, na realidade estes apoios não têm pernas para andar no que diz respeito a um eficaz e consequente incentivo. Fosse essa a solução e seria fácil, mas, há que admitir, não é! Haja, pois, algum bom senso e realismo e certas coisas, pelo seu irrealismo, podem cheirar a demagogia barata.

02/03/2026

PDM - Proposta em discussão pública

 


Nesta Quinta-Feira passada (26 de Fevereiro) duas técnicas da Câmara Municipal estiveram na sede da nossa Junta de Freguesia a prestar esclarecimentos e a acolher sugestões no âmbito do período de discussão pública do PDM - Plano Director Municipal, o qual na nossa freguesia vai trazer mudanças, com redução de áreas urbanas, comparativamente à versão ainda em vigor. Prevê-se que o novo plano, já demasiado atrasado, possa entrar em vigor num prazo máximo de 180 dias.

Do que vi no local, muito tempo de espera, como se alguns dos consultantes fossem proprietários de meia freguesia. Para quem teve que faltar ao trabalho para ali se deslocar, como eu, não foi nada agradável. No meu caso, esperei quase uma hora enquanto uma das técnicas esteve ocupada com uma únca pessoa e quando saí ainda lá continuou com o mesmo consultante. 

Para além desta particularidade, que  faz parte do processo e temos de respeitar, importa é que as pessoas tivessem sido bem esclarecidas. Todavia, no essencial, e pela experiência profissional neste processo, a larga maioria do que tivesse sido acolhido como reclamação, proposta ou sugestão, será para desconsiderar. É, no essencial, apenas uma etapa legal do processo que já pouco vai alterar o que está em discussão.

No geral, objectivamente, a freguesia sai prejudicada, pois a curto e médio prazo o seu desenvolvimento urbano ficará ainda mais condicionado, até porque uma parte significativa dos prédios urbanos pertence a uma dúzia de proprietários que, não tendo necessidade, não os libertam para o mercado. Paradoxalmente, pela sua natureza, o efeito é cego e pode penalizar quem tem intenção de construir  e vender e beneficia quem não tem essa vontade. 

É o que é, e quanto a isso, nada se pode fazer. A Junta tem sempre um papel importante a desempenhar no processo, mas desconheço se, desde que tomou posse, já fez algum coisa, se está interessada nisso, ou se vai fazer mesmo que já em cima da hora. Do anterior executivo da União de Freguesias, que teve muito tempo para apresentar propostas, para o território da nossa freguesia desconheço o que tivesse sido apresentado e concedido, mas desconfio que nada.

Em resumo, daqui a meio ano faremos as contas quanto ao que, decorrente do processo de discussão pública, foi possível melhorar face à actual proposta. Agora é esperar.

28/02/2026

Entre o 8 e o 80, o bom senso, o equilíbrio


Entre o 8 e o 80 há, certamente, um ponto de equilíbrio. Quando essa realidade é ignorada e se opta por um dos extremos, raramente os resultados são os melhores.

Se é verdade que, em determinados contextos, o radicalismo pode ter utilidade, em regra produzem melhores efeitos as soluções equilibradas, sobretudo quando está em causa uma decisão pública e comunitária.

A limpeza ou abate da maioria das plantas que, há anos, adornam o adro da nossa igreja matriz - tanto na parte pública como na pertencente à paróquia - e que tem sido realizada nestes dias, poderá revelar algum excesso de radicalismo.

É evidente que as plantas, como quaisquer seres vivos, envelhecem, adoecem e acabam por morrer. Também é legítimo substituí-las por espécies mais adequadas, restituindo em pouco tempo o aspecto bucólico e primaveril que há décadas caracteriza a envolvente da nossa igreja. Ainda assim, parece-me que a intervenção poderia ter sido mais gradual. Em matérias que envolvem uma comunidade, decisões abruptas tendem a dividir: há quem concorde, quem discorde e quem, como eu, entenda que o bom senso e o equilíbrio favorecem não só o objectivo pretendido, mas também a conciliação de diferentes perspectivas.

Pelo que tenho ouvido, alguns compreendem a intervenção, esperando uma renovação; outros manifestam desagrado e até revolta.

Independentemente de quem tenha tomado a decisão e da legitimidade que lhe assista, creio que teria sido desejável maior ponderação e, eventualmente, a auscultação da comunidade.

Em suma, reconheço que decidir nunca é fácil e que agradar a todos é impossível. Contudo, abdicar da procura de consensos e de equilíbrio, bem como do respeito por opiniões divergentes, representa uma falha.

Da minha parte, não assumo uma posição de indignação, longe disso, mas não escondo alguma tristeza. Julgo que teria sido possível uma intervenção menos radical e faseada, talvez antecedida de algum tipo de consulta à comunidade.

Perante o que já foi feito, resta esperar que o resultado final venha a revelar-se positivo. Para já, o que se vê é um cenário de desolação. Este não é o adro que sempre conhecemos; espero que rapidamente recupere a sua identidade.

27/02/2026

Vazia sensação


Tenho para mim, em jeito de confissão e reconhecimento, que as redes sociais, e o Facebook em particular, por via do hábito, encerram o potencial de espelhar tudo o que a sociedade possui de virtuoso. Todavia, sendo elas o reflexo fiel da condição humana, constituem igualmente um palco privilegiado para o seu reverso. Subsiste, sob o jugo dos filtros e a discreta ditadura dos algoritmos, um oceano de banalidades, onde o ego e a vaidade se sobrepõem à substância. Impera e prevalece o antes parecer que ser. São, por assim dizer, vinhas de muita parra e parca uva, solo onde a vindima raramente compensa o esforço.

Seria, decerto, um exercício de rara fruição observar mentes dotadas de rasgo e saber partilharem o que de facto enriquece o espírito: o pensamento crítico, a erudição artística e a reflexão fecunda. Na escrita, nas artes e na cultura em geral, não escasseia o talento; contudo, aqueles que o detêm tendem a exilar-se destes púlpitos. Compreende-se o recato: o mesmo espaço que num instante ensaia um aplauso, logo de seguida urra a vaia e a desconsideração gratuita.

É, por conseguinte, um terreno insidioso para quem ousa a diferenciação. Percebe-se, assim, a escassez de vozes de relevo e a raridade das suas aparições. Perante o panorama vigente, o dilema do espírito culto permanece insolúvel: entre a sensação de lançar pérolas a porcos e a futilidade de atirar pedras a águas estagnadas, a escolha revela-se um exercício de amarga resignação.

Enquanto isso, resiste-se, mas numa amarga ou vazia sensação de que inutilmente. 

24/02/2026

Há quem vá ao "Barrigas"; Há quem vá ao "Fidalgus"

Quase todos, eu e os que gostam de, pelo menos de vez em quando, ir almoçar ou jantar a um restaurante, já passaram por isto: Por vezes, relativamente próximos, em tempo e distância, dois mundos parecem colidir: Num local, o restaurante "Barrigas do Povo": sem peneiras, sem guardanapos de pano, um bacalhau, à casa ou à "liberdade", que precisa de dois pratos para caber, um vinho da região honesto e uma conta que nos faz sair a sorrir, mesmo com entradas, saídas e o habitual "cheirinho". Ainda a pedir um saco para levar as sobras para o cão ou mesmo para uma refeição no dia seguinte.. 

Noutro sítio, o "Fidalgus", com fundo musical suave, decorações estilosas: aí, uma dose que parece uma amostra grátis, uma lasca de bacalhau solitária no meio de um grande prato, pintalgada por azeite ou molho inglês, uma qualidade que, para além do estilo, não deslumbra de todo, e no final uma conta que parece o orçamento de defesa de um pequeno país. O vinho que sabemos que na loja do Pingo Doce custa 4,00 euros, ali não se contenta a custar, compreensivelmente, 10, mas 20 euros. Se for um Giroflé ou Giroflá, coisa de autor, ui, ui!

O mistério, diga-se e em boa verdade se esclareça.  não é só gastronómico, antes sociológico. Senão, vejamos: O "Imposto de Vaidade" - Por que é que no "Fidalgus", se a comida , não sendo pior, não é seguramente melhor? Quiça com umas pétalas de rosas, umas raspas de cenoura e duas folhinhas de beldroegas? A resposta é simples: o cliente não está ali para comer. O que está na mesa é um acessório, como um relógio de marca ou uma mala que custa mais que todo o dinheiro que nela se consiga meter dentro. O preço inflaccionado não é um erro de cálculo do dono ou do empregado de mesa; é apenas um filtro social, de estatuto, de diferenciação.

Num mundo (digamos, pelo nossa zona) onde qualquer um pode comer bem por 20 €, o verdadeiro luxo, para alguns mais abonados ou com reformas de médico ou professor, é pagar 50 € por algo parecido, apenas para garantir que o vizinho da mesa do lado tem o mesmo extracto bancário (ou, pelo menos, a mesma pretensão). É o chamado consumo conspícuo: a arte de gastar dinheiro para sinalizar que se tem dinheiro. Por regra, a ementa funciona apenas como um guião teatral.

Na verdade, no "Fidalgus", a dose é, regra geral, minimalista, apelidade de "gourmet", inversamente proporcional ao ego. Quanto menos comida houver no prato, mais "sofisticado" o cliente se sente. Afinal, comer até ficar satisfeito é coisa de quem trabalha no duro, de um qualquer trolha ou pedreiro; a elite, essa prefere a "experiência" da fome, do gourmet, da "comida de autor", seja lá que caralho isso queira dizer.

O vinho: É o mesmo que custa 4 € no supermercado, mas aqui, baptizado pela iluminação ambiente e por um escanção que nos olha de cima, que saca a rolha, e cerimoniosamente dá a provar e a cheirar, passa a valer 30 ou50 €. E o cliente paga, não pelo sabor, por vezes até a saber a rolha como um qualquer Malaquias, mas pelo som da rolha a saltar num sítio onde "toda a gente" o vê, num gestual teatral, de especialista, a percebe der "terroir".

O paradoxal da realidade: O mais irónico é que muitos destes clientes nem sequer têm o estatuto que tentam comprar. São os aspiracionais. Pagam o bife duro e caro com o cartão de crédito no limite, apenas para poderem dizer, no dia seguinte, que "estiveram lá". É uma espécie de masoquismo social: sofrem no estômago para brilhar na conversa de café ou nas redes sociais. Não falta gente dessa.

Enquanto isso, por vezes em local próximo, o cliente "esperto" mas ruidoso, delicia-se com um lombo de bacalhau suculento ou com um bife à Zé de Ver. E cebolada à fartazana. E queijo com marmelada, ambos fatiados sem cerimónia ou facas da Tramontina.

Conclusão: Qual é a sua fome? No final do dia, a restauração divide-se em dois tipos de serviço: os que alimentam o corpo e os que alimentam a vaidade. Mais ou menos isso.

Se procura qualidade e quantidade, siga o cheiro da comida boa e o barulho das pessoas satisfeitas, mesmo com algumas moscas no ambiente, toalhas e guardanapos de papel. Se procura sentir-se "superior" enquanto mastiga um bife médio, prepare a carteira. O estatuto tem um preço, e normalmente, esse preço é uma má digestão e uma conta pesada. Mas nada que não se aguente. Afinal, o estatuto paga-se.

A pergunta que fica é: da próxima vez que sair para jantar, vai levar o seu paladar ou o seu currículo?

Segue-se uma tabela toda bonita que compara ambas as experiências:

Característica Restaurante "Barrigas do Povo" (20 €) Restaurante "Fidalgus" (50 €)
Foco principal O estômago (Satisfação real) O ego (Satisfação social)
Perfil do cliente O "Esperto" (Procura valor) O "Vaidoso" (Procura sinalizar)
Pós-Refeição "Comi um bacalhau incrível e barato!" "Estive ontem no "Fidalgus""
Estratégia Passa-palavra da qualidade Exclusividade e preço como filtro

23/02/2026

Tempos estranhos, estes.


O Rodrigo, um rapazinho de 9 anos, de Castelo Branco, que ajudou a salvar a sua mãe de uma situação de saúde crítica após um corajoso e esclarecido telefonema para o INEM, tem sido promovido a herói nacional. Depressa se tornou figura pública, desdobrando-se em aparições em programas de televisão e tendo até direito a assistir de perto a um jogo do Benfica, com as regalias de qualquer figura famosa: contacto com jogadores e com o treinador e exposto às câmara e aos média.

Convém dizer, desde já, que o Rodrigo teve, de facto, uma atitude de grande maturidade. A sua capacidade de reacção e de entendimento, ajudou a mãe e pode ter feito a diferença entre a vida e a morte. Ponto final.

Quanto ao resto, só surpreende que hoje em dia se dê esta extraordinária importância à maturidade de uma criança com quase uma década de vida porque, convenhamos, a norma actual é a total infantilização. Mesmo adolescentes e jovens adultos, já com formação, revelam muitas vezes uma imaturidade gritante, com atitudes e compartamentos infantilizados. Este nível de irresponsabilidade ou imaturidade, não é culpa destas gerações, mas sim dos pais e do nosso sistema e modelo de sociedade, que os têm moldado, desresponsabilizando-os, mantendo-os numa redoma durante mais de 20 anos, onde não há lugar a risco ou a pôr o pé fora da zona de controlo e de conforto. 

Noutros tempos, no meu, há que dizê-lo, uma criança de 9 anos, ou até menos, era já um "homenzinho" ou uma "mulherzinha". Tinham maturidade de adultos, com responsabilidades, canseiras e trabalhos condizentes. Mesmo que à sua medida, eram frequentes as tarefas de vulto, não só no que toca à mão-de-obra, mas no assumir de compromissos na casa e no campo.

Falando na primeira pessoa: aos 8 anos, eu e o meu irmão, de 10, tínhamos à nossa responsabilidade uma parelha de bois, enormes e cornudos. Levámo-los a pastar, sozinhos, sem a orientação de qualquer adulto. Com 11 anos, já marchava sozinho, de noite, sob chuva ou calor, por caminhos precários do Viso ao fundo das Caldas de S. Jorge para trabalhar numa fábrica. Ir e vir. Durante anos até que o que me calhava do ordenado, depois da quota à casa, desse para comprar bicicleta.

Com pouco mais de 20 anos, já seguia sozinho de comboio para Lisboa, sem ninguém mais velho para me levar ou buscar à estação. Nada de especial; era o normal para mim e para milhares de outros. Serviço militar de 2 anos, sem qualquer mesada ou ajuda paterna. E, recuando ainda mais no tempo, havia crianças que marchavam diariamente a pé para S. João da Madeira e mais além. Ir à escola, fosse longe ou perto, chovesse ou nevasse, era caminho feito a pé e sem companhia de adultos. Na sacola, apenas livros e lousa, nada de merendas e lanches.

Em resumo: os tempos são diferentes? São, com certeza. E ainda bem, no que toca às melhores condições de vida e ao respeito pelas etapas de crescimento, sem suprimir a infância e adolescência. Mas, por outro lado, a desresponsabilização atingiu níveis exagerados. Não surpreende que filhos a caminho dos 30 anos continuem totalmente dependentes dos pais que, tantas vezes, já precisariam desses parcos recursos para uma reforma sem sobressaltos.

Assim, mesmo sem querer generalizar, temos hoje "gândulos" em casa, com cama, mesa e roupa lavada, sem pressa de assumir as rédeas do próprio destino. Os passarinhos já não abandonam os ninhos. Neste contexto, mesmo rodeados de meios e tecnologias com que outras gerações nem sonharam, ficamos todos surpreendidos com estes assomos de maturidade, tratando-os como o que realmente são: raros e inesperados. Aves exôticas.

Até que caia no esquecimento, o Rodrigo continuará a ser o herói do momento, celebrado por uma maturidade que já não se supõe encontrar em crianças da sua idade, ou até no dobro da mesma. Tempos estranhos, estes.