24 de dezembro de 2000

Consoada de Natal - Tradição em Guisande

É sabido que a tradição em Guisande manda que a consoada seja no próprio dia 25 de Dezembro. Todavia, a nossa freguesia não é caso único quanto a este pormenor, mas também Lobão, como Louredo, mas aqui menos generalizado. Mas noutras mais e sobretudo confinadas à zona nordeste do concelho de Santa Feira. 
A justificar esta particularidade, há várias histórias mais ou menos plausíveis, porventura algumas já com elementos lendários. Segundo alguns entendidos, tal situação deve-se ao facto de parte das gentes desta zona, em tempos passados, terem ocupações noutras freguesias do concelho, como criados, jornaleiros ou operários em oficinas e primeiras fábricas (nomeadamente na indústria da cortiça), o que não lhes permitia celebrar o Natal na noite da véspera, pois nesses recuados tempos era normal trabalhar-se todos os dias excepto aos Domingos e dias de feriado como era o caso do Natal. Assim sendo, guardavam a oportunidade para em família celebrar apenas no dia 25. A coisa espalhou-se e de um hábito adquirido pela força das circunstâncias, transformou-se em tradição.

Por outro lado, também se argumenta que mais ou menos pelos mesmos motivos, os patrões ou fidalgos doutros tempos, e a partir do séc. XVI já era prática dar de consoada o então vulgar bacalhau, prendavam os seus criados e jornaleiros com esse peixe salgado. Ora como era salgado, não era possível ser comido no dia em que o recebiam, isto é, no dia 24 de Dezembro, havia a necessidade de o demolhar durante a noite e dia seguinte de  modo a ser possível ser comido no dia seguinte.
Como se vê, são tudo suposições, mas certamente com algum fundo de verdade.

A consoada de Natal em Guisande, tem aspectos comuns a quase todas as famílias, como seja o prato principal composto por batatas cozidas às metades, couve-penca, quase sempre de cultivo próprio na horta ou quintal da casa e plantada com esse propósito por alturas da colheita das batatas. A penca, para ser saborosa e tenra, deve apanhar umas valentes camadas de geada. Depois o indispensável e tradicional bacalhau cozido, previamente demolhado junto a uma bica de água corrente. A envolver, o azeite simples, aquecido ou fervido com cebola picada, eventualmente com alho também picado e, em certas casas, enriquecido com uma colherinha de açúcar ou uma colher de mel. Este azeite, já com nome de molho, é disposto na mesa em malgas de onde se regará, a gosto, a caldeirada.
Em algumas famílias a tradição vai para o peru recheado assado ou mesmo o polvo, mas são seguramente casos pontuais.

A caldeirada de Natal em muitas famílias é servida em generosas travessas de barro a partir da qual comem três ou quatro pessoas. Este aspecto reforça o sentido de partilha e família. Não é comum em todas as casas, mas ainda existe.

Outra tradição é a "Farrapada" que se come no dia seguinte, aproveitando-se as sobras. Neste caso os componentes são reduzidos a bocados pequenos e depois salteados numa frigideira a que se acrescenta broa de milho esfarelada. Claro que há variantes de casa para casa, nomeadamente no modo de preparação, mas há um aspecto comum que é o de aproveitar as sobras. Há mesmo quem prefira esta versão do dia seguinte do que a própria caldeirada no dia de Natal.




Os aperitivos ou entradas, uma componente mais moderna, porque noutros tempos a vida era mais difícil e menos dada a abundâncias gastronômicas, há alguns elementos comuns como as nozes, o queijo e o vinho do Porto.

Já quanto ás sobremesas são variadas, mas as mais comuns e tradicionais ligadas à consoada de Natal em Guisande são as rabanadas, de leite ou de ovos, mas sobretudo de vinho, fritas ou apenas embebidas numa calda de vinho tinto, maduro agora mas noutros tempos de verde-americano, açúcar, canela e mel. Depois surgem os bolinhos de abóbora, entre nós chamada de bolina, a que também designamos de bilharacos. De seguida a indispensável aletria, dourada e polvilhada com pó de canela, por vezes com desenhos ou quadriculados. Talvez a seguir, com mais tradição, o leite creme.

Para além destas, há naturalmente outras mais, como o pudim, a mousse de chocolate, os sonhos, o bolo-tronco e o também tradicional bolo-rei embora este mais relacionado com o Ano Novo ou mesmo o Dia de Reis.

No dia de Ano Novo, em Guisande a tradição volta a ser no próprio dia 1, embora já mais diluída. A ementa é semelhante à do Natal embora já quem, farto de bacalhau, acabe por o trocar por um galo caseiro ou peru assados ou mesmo cabrito ou polvo. Há quem ainda se mantenha fiel ao bacalhau mas já confeccionado de outra forma que não cozido, pelo que assado ou grelhado.

A parte da doçaria é semelhante mas já alargada a outros bolos. Na bebida, destaque para a rainha da noite, o espumante (a champanhe portuguesa). Se a consoada coincidir com a passagem-de-ano, então alarga-se o leque de petiscos, não faltando as passas, o camarão, eventualmente umas moelas e outras mais.

No Dia de Reis, em Portugal com menos realce, comparativamente a Espanha, por exemplo, há novamente lugar a uma consoada mas em regra mais humilde e já menos alargada a familiares. Por vezes, em famílias grandes, o local de convívio é alternado de ano para ano pelo que se aproveita o Dia de Reis para uma réplica do Dia de Natal. Há ainda quem siga o calendário litúrgico, que transporta a celebração para o Domingo anterior mais próximo, mas há quem faça a consoada no próprio dia 6 de Janeiro (noutros tempos feriado).

Voltando à questão do bacalhau como elemento principal da consoada tradicional portuguesa e em Guisande, este peixe pescado nas frias águas dos mares do norte, terá sido integrado nos hábitos alimentares dos portugueses, e sobretudo na ceia de Natal, seguramente a partir do séc. XVI mas há referências ao mesmo no já séc. XV e até mesmo no anterior. Consensual entre os entendidos é o facto do bacalhau ter sido introduzido por motivos de preceitos religiosos, por ser a mais viável opção alimentar para contornar a obrigação da Igreja da penitência e abstenção de se comer carnes nos dias anteriores ao Natal. De facto, só o era permitido já depois da Missa do Galo,

Mais antigo que o bacalhau como elemento principal da consoada, era o peru, uma ave exótica trazida para a Europa pelos espanhóis das Américas. Esta ave, pela sua imponência e porte nobre, tornou-se rapidamente a preferida na mesa do clero e da nobreza, indo à mesa em banquetes de reis e rainhas. Por conseguinte, o peru era um símbolo do poder e da nobreza, inacessível aos portugueses do povo. Só já no séc. XIX é que o peru começou a entrar de forma mais alargada na tradição natalícia do português comum.

O bacalhau nos primeiros tempos da sua introdução na alimentação dos portugueses, inicialmente do Minho para sul, era considerado um alimento de fraca condição e barato. Era frequentemente dado a comer nas prisões. Mas a sociedade e os seus hábitos alimentares dão voltas e hoje o fiel amigo é um produto ainda acessível quanto à variedade de oferta, mas já mais dispendioso, em parte pela redução da espécie e limitações na sua pesca bem como pelo facto dos países com direitos sobre as respectivas águas econômicas, como Canadá, Noruega e Islândia, fazerem eles próprios um aproveitamento econômico deste particular peixe. Por isso a indústria e actividade da pesca do bacalhau, com fortes tradições no nosso país, deram uma enorme reviravolta.

Quanto às batatas, elas foram introduzidas na consoada de Natal mais tarde que o bacalhau, só no séc. XIX. Até então, o peixe era acompanhado apenas pelas couves ou por castanhas, estas sobretudo na zona norte do pais. Não surpreende, pois, que as castanhas ainda façam parte da receita do peru recheado e assado no forno.




- rabanadas de vinho, polvilhadas com açúcar, mel e canela


- aletria polvilhada com canela


- Bilharacos de Bolina


- Bolo-Rei


- Pudim Francês


- Mousse de chocolate


- Leite Creme