16 de janeiro de 2014

Os Loureiros

 

Na aldeia de Sandiães não havia família mais numerosa que a dos Loureiros e só à sua conta formava quase o lugar inteiro de Casal do Viso.
O rasto da origem da família recuava a Bonifácio Loureiro, bisavô daquela gente toda. Ainda criançola e de pés descalços viera ter a Sandiães a casa de um parente afastado, mandado e com recomendações dos pais, pobres caseiros dos lados de Arouca, de muito trabalho e rédea curta. Em troca recebia apenas a escola primária e pouco mais que uma côdea molhada de caldo de couves grossas.

Quase de origem misteriosa, que as poucas falas adensenvam,  cresceu e fez-se homem o Bonifácio Loureiro que à custa de tanto trabalho e de um casamento feliz e espertalhão com a Alzirinha dos Travassos, timbrado debaixo de uma mêda de palha à sombra do estio de um Agosto, conseguiu aumentar o rol de leiras, várzeas e tapadas e morreu de velhinho com fama de lavrador abastado com bens ao sol e ao luar e várias cabeças de gado a pastar pelos viçosos lameiros.

Deixou uma corja de filhos e filhas que entre si dividiram propriedades e nelas, dispostas ao longo do velho caminho, edificaram  um casario juntinho como ramos apegados ao mesmo tronco. É esta a breve história da origem dos Loureiros em Sandiães.

Unida e fraterna, nunca ninguém subtraíu a fama de trabalhadores a essa famelga. Lavradores, pedreiros e trolhas, os Loureiros eram exemplos de como se faz vida cavando e construindo de sol a sol. Apesar dessa imagem de mouros e gente de trabalho, os Loureiros não gozavam de grande fama na freguesia porque poucas vezes íam ao redil do padre Arnaldo e deste pouca farinha faziam da cantilena de que nem só de pão vive o homem. Desde o mais velho, o Joaquim até ao mais novo, o Almiro, os Loureiros gostavam pouco de missa e muito menos de sermões. Por desfastio, eram, todos eles, devotos zelosos de S. Tiago, que se abrigava na capela do lugar e onde, lá pelos calores de Julho, se celebrava uma rija romaria. Por essa altura, então, era ver um dos Loureiros, zeloso e vaidoso a empunhar a vara do juíz da festa. Porém, dançada a útlima cantiga e queimado o último foguete, a famelga voltava à aridez do trabalho e da canseira e para com as demais festas, fossem elas quais fossem, mesmo que pelo Natal ou Reis, a carranca era a cara com que recebiam peditórios e rusgas de Janeiras. Para estas, mal se ouvia o tinir do ferrinho e o chocalhar da pandeireta  lá no alto da curva do caminho velho, trancas à porta e luzes amortiçadas. – Que passassem e andassem! - Dali, esmolas só para o S. Tiago!

 

(fonte: Contos Pequenos)

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