24 de setembro de 2017

Historiando - A sineta da capela de Nossa Senhora da Boa Fortuna no monte do Viso



A construção da capela dedicada a Nossa Senhora da Boa Fortuna e a Santo António, erigida no alto do monte do Viso, remonta a 1869 e à passagem do seu centenário, em 1969, teve profundas obras de restauro e conservação, realizadas antes do Verão desse ano, ainda antes da festa (primeiro Domingo de Agosto).
Um dos elementos identificadores e característicos da capela, para além da fachada revestida  a azulejo em tom creme com contornos e imagens de Nossa Senhora e Santo António em verde, é o seu arco encimado por um cruzeiro em granito e dentro do qual está instalada uma sineta.  Este elemento, designado na arquitectura religiosa como arco sineiro, está edificado sobre o vértice superior central da fachada principal.

Já muitos não se lembrarão, sobretudo os mais novos, mas originalmente e até às referidas obras em 1969, tal arco sineiro não existia, mas apenas o cruzeiro em granito. Também não existia o revestimento da fachada em azulejo, o qual foi colocado nesse ano por oferta do benemérito António Alves Santiago, da Casa do Santiago, das Quintães. Se não me falha a memória de criança, que ainda se recorda das obras, tenho a ideia (a confirmar) de que até essa data a sineta estava instalada numa estrutura de ferro sensivelmente na parte central da cobertura, na zona da transição da nave principal para a nave da capela-mor, sendo accionada por uma corda ligada directamente ao compartimento poente da sacristia (divisão que em dias de festa do Viso é ocupada pela Comissão de Festeiros), junto à reentrância onde há uns anos a comissão assentava o pipo de vinho com que, servido a copo, brindava quem ia pagar a promessa.

Remonta, pois, a 1969 a construção do arco sineiro e a mudança da sineta a qual todavia continuou a ser accionada manualmente por um cabo acedido a partir da sacristia no local atrás referido. Não era tarefa fácil fazer tocar a sineta pois o sistema manual não era muito prático e exigia algum esforço.

Já pelos anos 70, ao arco sineiro foram afixadas umas três cornetas (altifalantes) para propagar o toque do relógio então instalado na sacristia, o qual ainda hoje funciona. Actualmente já não fará sentido o funcionamento e a função de tal relógio, que bate a cada quarto de hora, bem como as cornetas que são apêndices que desfeiam o arco sineiro. Foi pena que nas obras posteriores, nomeadamente em 2003 quando se procedeu à reformulação da estrutura da cobertura e reconstrução do coro, não se tivesse desmontado este sistema ou pelo menos mudado as cornetas para um local com menos impacto visual, eventualmente na zona mais central da cobertura. Em todo o caso, como se disse, este relógio sonoro toca a cada quarto de hora e é ouvido em quase toda a freguesia, dependendo da direcção do vento e já há muitos anos que é companhia de quem vive a contar as horas.
Também em 2016, o arco sineiro sofreu uma intervenção, sendo ligeiramente alteado de modo a ajustar o sistema mecânico de accionamento da sineta anteriormente instalado.

Sineta, no nosso dicionário, significa pequeno sino e porque é feminino, tem um simbolismo de coisa delicada, maneirinha. 
Sobre a sineta da capela do Viso, existe uma espécie de rivalidade ou disputa antigas com a freguesia de Lobão, já que os guisandenses reclamam que a capela de Santo Ovídio em tempos pertenceu a Guisande (e de facto pelo menos uma parte, a nascente, do actual arraial está em território de Guisande)(*) e por sua vez os de Lobão defendem-se argumentando que não, e que a sineta existente na capela do Viso seria a que pertencia à capela do santo mártir e bispo lendário de Braga, advogado das dores de ouvidos e dos maridos infiéis, e que terá sido roubada pelos de Guisande pela calada de uma noite de breu.
Obviamente que a parte que ao roubo ou desvio da sineta diz respeito é pura mentira ou mera brincadeira, já que na sineta da capela do Viso, para quem quiser tirar dúvidas, existe uma gravação em baixo relevo, feita no próprio momento da fundição, com uma legenda que se refere à Senhora da Boa Fortuna. De facto, como se pode ver na foto abaixo, a sineta, do lado nascente, tem fundida a data, 1874, e as iniciais NSBF - G, referentes a Nossa Senhora da Boa Fortuna - Guisande. Mas estes antigos dizeres tornaram-se lendários e fazem assim parte do nosso folclore.
Por esta data, 1874, fica-se a saber que a sineta só foi instalada na capela cinco anos após a sua construção (1869).


Nesta foto abaixo, datada de 5 de Junho de 1969, por alturas da Comunhão Solene, vê-se a procissão a descer o Monte do Viso a caminho da Igreja. Apesar de pouco nítida, observa-se o monte do Viso na sua forma antiga, ainda com a rua central, em terra batida, bem como a capela ao fundo, ainda sem o tal arco sineiro mas apenas o cruzeiro em granito e a fachada ainda sem o azulejo. Tudo indica, pois, que as tais obras acima referidas se realizaram durante o resto do mês de Junho e Julho. Creio que por esta altura da Comunhão Solene já estariam terminadas as obras na parte interior, nomeadamente o restauro/pintura dos altares e colocação do revestimento do tecto.


(*)Ainda a propósito da capela de Santo Ovídio, apesar desta ser considerada como implantada em território de Lobão, no lugar do Ribeiro, no limite com o lugar da Gândara da freguesia de Guisande,  certo é que os mais antigos guisandenses reiteradamente foram defendendo que a mesma sempre esteve totalmente em território de Guisande. Prova disso, ou equivocado, certo é que Pinho Leal, no seu "Portugal Antigo e Moderno" de 1873, a páginas 370 do vol. III, referindo-se a Guisande  diz  que "...tem uma capela dedicada a Santo Ovídio onde se fazem três festas no ano, muito concorridas. A quem tiver padecimento nos ouvidos, tem (segundo a crença da gente d´aqui) um óptimo remédio. É furtar uma telha e levá-la de presente a este santo; fica logo bom e a ouvir perfeitamente. É medicamento muito experimentado e aprovado pela gente da terra da Feira. A telha há-de ser furtada senão não o vale".

Mas admite-se que Pinho Leal (que casou com Maria Rosa de Almeida, do lugar do Carvalhal, freguesia de Romariz, onde construiu casa e nela ali morou) tivesse feito confusão porque na sua descrição referente à freguesia de S. Tiago de Lobão também lhe atribui a pertença da capela do Santo Ovídio. Não nos parece, pois, que a capela fosse meeira das duas freguesias vizinhas nem que existissem duas distintas capelas sob a mesma invocação. Seja como for, essas referências de Pinho Leal, mais do que dissipar dúvidas, porventura aumentou-as.

Certo é, todavia, que parte do actual arraial envolvente à capela, a sua zona a nascente onde se engloba o cruzeiro, está em território de Guisande, mesmo com a mudança indevida e ao arrepio da legalidade de um dos marcos de fronteira localizado no entroncamento do caminho antigo com a actual Rua Nossa Senhora de Fátima. Basta traçar uma linha recta entre os marcos mais próximos para se tal comprovar.
De resto, tal como acontece no lugar de Azevedo, em que a freguesia de Caldas de S. Jorge se apropriou de uma ampla parcela do lugar de Estôze, reclamando-a como sua a pretexto de não perder uma parte das habitações ali edificadas entre os anos 80 e 90, os anteriores e sucessivos presidentes de Junta dessas freguesias nossas vizinhas nunca quiseram admitir a apropriação indevida de território mesmo que desmentidos perante factos. Daí que este tipo de disputas sejam antigas e comuns a muitas outras freguesias por esse nosso Portugal fora, e que invariavelmente não têm solução a não ser por imposição administrativa dos tribunais, o que raramente acontece.

É verdade que hoje as freguesias de Lobão e Guisande fazem parte da mesma União de Freguesias, juntando-se a Gião e a Louredo, mas estas raízes de identidade  e território geram rivalidades e estas hão-de perdurar por muitos e muitos anos. Por isso, a par da sineta, a localização da capela de Santo Ovídio será sempre um tema de discussão sem fim e que de algum modo enriquece o portfólio das nossas histórias e lendas.