" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

05/03/2018

A alegre casinha

Creio que todos reconhecem a casa abaixo retratada. Trata-se da casa do Ti Pereira, no lugar do Viso, ao lado da capela, actualmente propriedade de herdeiros. Entre uma e outra fotografia, passam quase sessenta anos. A primeira foi retratada num dia 4 de Agosto de 1958, um sábado de Festa do Viso e a segunda tem dias.
Na foto de 1958, a casa tinha acabado de ser construída, mas ainda faltava parte do muro de vedação á face do então caminho bem como portões e grade no muro. Esse muro em falta foi feito de seguida e anos mais tarde demolido para possibilitar o alargamento da rua e construção de passeio. Curiosamente, também na parte nascente do prédio, nessa altura existia um espigueiro implantado à face do caminho e que também acabou por ser demolido para permitir o alargamento. Apesar disso, manteve-se o muro em alvenaria de granito defronte da casa, em harmonia com a arquitectura desta.
As fotografias de um mesmo local em diferentes épocas podem dar-nos este ar de surpresa decorrente da transformação das coisas e dos sítios, quase como um passe de mágica.
A casa na actualidade está com bom aspecto até porque foi recentemente alvo de obras de conservação por parte do actual proprietário.



01/03/2018

Venha batê-las

Limpezas e sujidades


Ainda o assunto da obrigatoriedade das limpezas florestais: É certo que a lei não é de agora e para recuperar o desmazelo de anos e face ao drama dos incêndios de 2017, está de regresso a política do 8 para o 80.
Em todo o caso, para além da reconhecida e imperativa necessidade de limpeza, porventura não de forma tão radical como está a ser divulgada, com insuficiente informação à mistura, foi sempre mais fácil para o Estado, e seus governos sucessivos, passar o ónus da (ir)responsabilidade para os cidadãos, desmazelando em muito as suas próprias obrigações, não sendo por isso modelo de virtude para ninguém. Senão, veja-se: É mais ou menos consensual que pelo menos 90% dos incêndios em Portugal têm origem em mão criminosa. Contudo, parece que ainda não se percebeu que a a falta de limpeza na floresta é obviamente um problema, porque potencia os incêndios e os seus efeitos, mas não são seguramente a sua origem. Ora o que tem feito o Estado quanto a isto? Agravamento do contexto penal e sem contemplações para os criminosos, sejam eles bêbados ou tolos (porque têm que ser tratados)? Mais polícias e investigadores específicos para esta área? Mais guardas-florestais? Mais investimento na prevenção, quiçá incentivo  activo e não coimas para as limpezas ou falta delas? Controlo de e para o Estado dos meios aéreos de combate a incêndios de modo a acabar com os obscuros interesses das empresas fornecedoras (muito interessadas em ter trabalho)? Em rigor a resposta a todas as questões será negativa. Ora quando assim é, a coisa acaba necessariamente por descambar em políticas de a torto-e-a-direito, com os exageros e radicalismos que já se estão a ver e a sobrar para os indefesos cidadãos perante os instrumentos legais que se vão criando reactivamente.

Tendo nascido, crescido e vivido uma aldeia rural envolta em floresta, terei visto o primeiro incêndio cá na zona apenas e já depois dos vinte anos e sendo certo que por esses tempos os matos andavam bem mais limpos,  nunca foi preciso cortar a varrer junto a casas, estradas e caminhos. É que nesse tempo não se brincava com o fogo e nem havia empresas a alugar aviões e helicópteros.

Entretanto, com esta semana de chuva, a atrasar a já por si impossibilidade de limpeza no prazo concedido, o que é que o Governo vai fazer? Fiquemos à vontade porque António Costa, seus ministros e deputados já se prontificaram a vir dar uma mãozinha. Está, pois, o assunto resolvido.

28/02/2018

Bate leve, levemente




As notícias de hoje, 28 de Fevereiro, dão conta de fortes nevões que estão a assolar muitos países europeus, incluindo Portugal, sobretudo nas regiões montanhosas do norte e centro, afectando cidades como Bragança, Vila Real, Guarda, entre outras.
Por cá, a neve ainda não caiu e não é expectável que caia, mas, sendo rara, não é novidade em Guisande, como aconteceu nomeadamente em 3 de Fevereiro de 1963, num sábado, como demonstram as fotos antigas que aqui trazemos à memória. Vê-se a zona da igreja matriz  e adro cobertos desse sempre belo manto branco tecido pela mãe-natureza.  Recém nascido, obviamente que não assisti e foi preciso esperar mais vinte e um anos, no Carnaval de 1984 para ver a neve a cair em Guisande e redondezas com alguma significância.


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

(...)
A Balada da Neve - Augusto Gil