1 de janeiro de 2000

Fontanários – Lavadouros Públicos

Os lavadouros/fontanários públicos são infra-estruturas existentes em muitas das nossas aldeias, construídas pelas câmaras municipais e juntas de freguesia, sobretudo nos anos 50 e 60. Eram infra-estruturas que vieram dar resposta a necessidades básicas das populações, como o acesso ao abastecimento de água bem como a locais adequados à lavagem das roupas.

Numa época em que poucas aldeias tinham rede eléctrica, os poços eram raros e os que existiam eram destinados essencialmente a rega, com extracção de água a ser feita pelos tradicionais engenhos, movidos a força animal ou, mais tarde, por motores a petróleo, caros e nem sempre eficientes, os fontanários tiverem um papel importante no quotidiano das populações locais.
Por conseguinte, para abastecimento de água para as necessidades do dia-a-dia, existiam sobretudo as nascentes naturais e minas, nas encostas dos montes, mas implicavam deslocações para o seu transporte, sendo uma tarefa tão necessária quanto dura e difícil. Por esses tempos poucas eram as casas com fontes próprias e delas sobretudo a das casas mais abastadas.

Com os fontanários, distribuídos por vários locais de cada aldeia, tornou-se mais fácil e cómodo aceder a este recurso no que foi uma substancial melhoria das condições do povo.
A freguesia de Guisande também teve o seu período áureo destes equipamentos, quase sempre incorporando as componentes de fontanário e lavadouro.

Correndo o risco de omitir um ou outro, são conhecidos os dos seguintes lugares: Cimo de Vila, Viso, Reguengo, Fornos, Casaldaça, Quintães e Estôse. A maior parte ainda funciona mas, naturalmente, pouco ou nada utilizados, tanto como fontanário como lavadouro.

O lavadouro das Quintães, muito vivo nas nossas memórias, pois ficava num local de passagem habitual de quem se dirigia vindo das Quintães para a Igreja, sobretudo usando o acesso como atalho,  infelizmente  já não existe pois foi vendido há uns anos pela Junta de Freguesia. Para além do mais, e para maior pena, desconhece-se qualquer levantamento fotográfico que tenha sido efectuado, pelo menos para preservar a memória virtual de um equipamento que durante muitos anos serviu as populações e que assim fazia parte do nosso património rural.

Para a criançada da escola da Igreja, foi palco de muitas aventuras e traquinices e era um local de reunião e muitas vezes ali se resolviam as contas, as redacções e as palavras difíceis que a professora encomendava como o trabalho de casa. O acesso a este fontanário realizava-se por uma interessante viela, em calçada de pedra e bordejada de morangos silvestres, com entrada na actual Rua das Quintãse, junto ao limite sul da casa da Rosário Lopes.

Do mesmo modo, quanto ao fontanário/lavadouro de Fornos, artisticamente um dos mais bonitos, o terreno que ocupava foi permutado. Apesar disso, pelo menos neste caso houve o bom senso e o cuidado de ser reconstruído num local próximo, com o aproveitamento dos materiais do original , incluindo o elemento em pedra talhada com lápide em mármore, com a inscrição "Amigos de Fornos e Junta", bem como da tradicional bomba de extracção e a respectiva roda. Do mal o menos. Este lavadouro ainda hoje é utilizado.
Este fontanário/lavadouro localizava-se entre o limite sul da Casa do Bacêlo e o terreno actualmente propriedade do Sr. Valter Neves. O fontanário localizava-se a uma cota baixa, pelo que o acesso era por uma escada estreita.

O fontanário do Viso, localiza-se na zona chamada de Vale Grande, a norte da casa do Sr. Tavares. Por se situar num local um pouco ermo, nos anos 80, não sem alguma polémica, foi edificado um fontanário/lavadouro na encosta do monte do Viso, sendo demolido, em 1990, aquando das obras de requalificação do respectivo local.Este fontanário era muito abundante e de boa água.

O fontanário de Casaldaça, era muito concorrido, sobretudo como lavadouro já que a sua água nunca foi muito apreciada nomeadamente por se considerar ser água infiltrada da ribeira que corre ao lado.
Para os mais novos, convém referir que o antigo caminho passava ali numa cota mais baixa do que a actual estrada. Frequentemente as águas da ribeira, sobretudo no Inverno, eram demasiadas para a estreita passagem e galgavam por cima do caminho o que dificultava a passagem de que descia do Viso e Quintães para Casaldaça, a caminho das mercearias locais.
A Junta da União das Freguesias de Lobão, Gião, Louredo e Guisande, em 2015 realizou ali obras de conservação e voltou e repor a água na fonte mas na actualidade encontra-se novamente sem água na fonte e sem grande utilização.

O fontanário do Reguengo será um dos mais bonitos, sobretudo pelo enquadramento, junto ao moinho e ribeira e até há pouco tempo tinha água abundante e de qualidade. Com a pressão urbana nas proximidades da nascente, a água tem estado classificada como imprópria para consumo, o que é pena. O local envolvente continua abandonado e sem qualquer preocupação por parte das Juntas na sua conservaçãoe requalificação.

Do mesmo modo, o fontanário de Cimo de Vila também tem tido a água imprópria. Este fontanário sempre foi abundante de águas, provenientes da encosta das Corgas e para além de abastecer a fonte e o lavadouro, muito concorrido, as águas sobrantes eram retidas numa presa ao lado e aproveitadas para regas. As águas desta presa, com vários consortes, regavam campos no próprio lugar bem como das Quintães e Viso.
Com a construção da Auto-Estrada A32 a nascente deste fontanário de Cimo de Vila foi destruída e tanto quanto se saiba, sem qualquer compensação ou substituição, numa grave omissão por parte da Junta de Freguesia de então. Para minorar o corte da água, numa acção de  chico-espertice, foi feita uma ligação à rede proveniente da nascente do Monte da Mó, que abastece a fonte no Monte do Viso, mas principalmente no tempo de Verão a água é pouca o que gera situações de descontentamento e conflitos na sua gestão.

O fontanário/lavadouro de Estôse também sempre foi muito utilizado mas foi igualmente, uma "fonte" de problemas constantes para as diversas Juntas, quanto à sua conservação e manutenção, nomeadamente pelo facto de estar implantado à face de um grande muro de sustentação de terras.
Tendo em conta que na altura de Verão a água deixa de cair naturalmente na fonte, a Junta de Freguesia levou a cabo (anos 80) a perfuração de um furo o que tem garantido o abastecimento mas por vezes com cortes nomeadamente por problemas no sistema eléctrico.

Sem a componente de lavadouro, e apenas como fonte, também importa trazer à memória a Fonte do Ribeiro, junto  à ribeira da Mota, onde esta atravessa a estrada. Com as obras da Alameda da Igreja, no início dos anos 90, esta fonte foi, e muito bem, preservada, tendo sido criado um acesso por escada. É um dos bons exemplos de preservação já que mesmo pouco ou nada utilizada, não deixava de ser um elemento do nosso património rural. A esta fonte esteve sempre ligado um mito de que as suas águas teriam como nascente a zona do cemitério, pelo que a criançada dizia que "era água dos mortos". Fosse ou não fosse, era uma água bem viva e refrescante e que ajudou a matar muitas sedes da criançada da escola da Igreja. A este propósito, diga-se em abono da verdade, a malta preferia a bica de frescas águas que caíam abundantes lavadouro particular da Ti´Ana Fontes, hoje desaparecido na sua configuração original e que em horas de intervalo ou recreio da escola ou da catequese, sobretudo em dias quentes, abria-se generosa à sede de magotes de crianças esbaforidas e ofegantes com as correrias e brincadeiras.

Também em 1999, a Junta de Freguesia de Guisande, com a cedência por parte dos consortes, aproveitou uma nascente existente no Monte da Mó para trazer água natural até uma fonte que instalou no Monte do Viso, debaixo da sombra do secular sobreiro.
Conforme atrás referido,a água desta nascente foi dividida com o fontanário de Cimo de Vila.

Para comodismo dos utilizadores destes fontanários e lavadouros, as juntas nos anos 80/90 procederam à sua cobertura, mas nem sempre da melhor forma, com estruturas em chapa ou em betão, mas sem qualquer cuidado estético o que em nada dignificaram estes elementos do nosso património rural.
É verdade que os tempos são outros e já todos temos a água na torneira, mesmo da rede pública que serve a freguesia na maior parte dos lugares, e a roupa é lavada na comodidade de uma máquina eléctrica.
Todavia, pela importância que tiveram noutros tempos e pelo significado que têm, os fontanários ou lavadouros públicos são importantes elementos do nosso património colectivo e que por isso devem ser preservados. O abandono, desmazelo e até a sua alienação, nunca foram grandes decisões, o que só nos tem empobrecido, sobretudo culturalmente.
Ainda antes da generalização dos fontanários e lavadouros públicos, a água era procurada junto das próprias nascentes, obrigando a deslocações permanentes à procura dessas águas sendo a mesma transportadas em recipientes, sobretudo pelas mulheres e crianças. Dessas nascentes algumas ainda existem mas já esquecidas e mesmo abandonadas.

Importa, pois, que haja nas pessoas, e sobretudo nos seus representantes, a sensibilidade necessária à valorização destes e doutros aspectos que fazem parte do património intrínseco de uma terra e da sua população. Quem não for capaz de compreender isto, não é digno de se armar em defensor dos interesses de uma terra e do seu povo.
 
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- Fontanário/Lavadouro do Reguengo (1966)

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- Fontanário/Lavadouro de Cimo de Vila

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- Desenhos (de memória) do Fontanário/Lavadouro das Quintães

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- Fontanário de Casaldaça (1966)

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- Vista geral do fontanário e lavadouro de Casaldaça

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- Lavadouro/Fontanário de Fornos

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- Pormenor do lavadouro/Fontanário de Fornos - Inscrição na lápide: "Amigos de Fornos e Junta"

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- Bomba de roda, existente no Fontanário/Lavadouro de Fornos