O Rodrigo, um rapazinho de 9 anos, de Castelo Branco, que ajudou a salvar a sua mãe de uma situação de saúde crítica após um corajoso e esclarecido telefonema para o INEM, tem sido promovido a herói nacional. Depressa se tornou figura pública, desdobrando-se em aparições em programas de televisão e tendo até direito a assistir de perto a um jogo do Benfica, com as regalias de qualquer figura famosa: contacto com jogadores e com o treinador e exposto às câmara e aos média.
Convém dizer, desde já, que o Rodrigo teve, de facto, uma atitude de grande maturidade. A sua capacidade de reacção e de entendimento, ajudou a mãe e pode ter feito a diferença entre a vida e a morte. Ponto final.
Quanto ao resto, só surpreende que hoje em dia se dê esta extraordinária importância à maturidade de uma criança com quase uma década de vida porque, convenhamos, a norma actual é a total infantilização. Mesmo adolescentes e jovens adultos, já com formação, revelam muitas vezes uma imaturidade gritante, com atitudes e compartamentos infantilizados. Este nível de irresponsabilidade ou imaturidade, não é culpa destas gerações, mas sim dos pais e do nosso sistema e modelo de sociedade, que os têm moldado, desresponsabilizando-os, mantendo-os numa redoma durante mais de 20 anos, onde não há lugar a risco ou a pôr o pé fora da zona de controlo e de conforto.
Noutros tempos, no meu, há que dizê-lo, uma criança de 9 anos, ou até menos, era já um "homenzinho" ou uma "mulherzinha". Tinham maturidade de adultos, com responsabilidades, canseiras e trabalhos condizentes. Mesmo que à sua medida, eram frequentes as tarefas de vulto, não só no que toca à mão-de-obra, mas no assumir de compromissos na casa e no campo.
Falando na primeira pessoa: aos 8 anos, eu e o meu irmão, de 10, tínhamos à nossa responsabilidade uma parelha de bois, enormes e cornudos. Levámo-los a pastar, sozinhos, sem a orientação de qualquer adulto. Com 11 anos, já marchava sozinho, de noite, sob chuva ou calor, por caminhos precários do Viso ao fundo das Caldas de S. Jorge para trabalhar numa fábrica. Ir e vir. Durante anos até que o que me calhava do ordenado, depois da quota à casa, desse para comprar bicicleta.
Com pouco mais de 20 anos, já seguia sozinho de comboio para Lisboa, sem ninguém mais velho para me levar ou buscar à estação. Nada de especial; era o normal para mim e para milhares de outros. Serviço militar de 2 anos, sem qualquer mesada ou ajuda paterna. E, recuando ainda mais no tempo, havia crianças que marchavam diariamente a pé para S. João da Madeira e mais além. Ir à escola, fosse longe ou perto, chovesse ou nevasse, era caminho feito a pé e sem companhia de adultos. Na sacola, apenas livros e lousa, nada de merendas e lanches.
Em resumo: os tempos são diferentes? São, com certeza. E ainda bem, no que toca às melhores condições de vida e ao respeito pelas etapas de crescimento, sem suprimir a infância e adolescência. Mas, por outro lado, a desresponsabilização atingiu níveis exagerados. Não surpreende que filhos a caminho dos 30 anos continuem totalmente dependentes dos pais que, tantas vezes, já precisariam desses parcos recursos para uma reforma sem sobressaltos.
Assim, mesmo sem querer generalizar, temos hoje "gândulos" em casa, com cama, mesa e roupa lavada, sem pressa de assumir as rédeas do próprio destino. Os passarinhos já não abandonam os ninhos. Neste contexto, mesmo rodeados de meios e tecnologias com que outras gerações nem sonharam, ficamos todos surpreendidos com estes assomos de maturidade, tratando-os como o que realmente são: raros e inesperados. Aves exôticas.
Até que caia no esquecimento, o Rodrigo continuará a ser o herói do momento, celebrado por uma maturidade que já não se supõe encontrar em crianças da sua idade, ou até no dobro da mesma. Tempos estranhos, estes.
