Em que as horas pedem pressa
E as rodas reclamam estradas planas,
Já se perderam tantos caminhos;
Carreiros de gente da minha infância,
A ladear regos de águas cristalinas,
A contornar montes, ladeiras,
Ora a descer, ora a subir.
Ainda os percorro às cegas,
Na memória, num dia claro
Ou na noite mais escura;
Pela sombra de carvalhos
Num dia quente de estio,
Pelo orvalho e geada matinal,
Ou pela lama da invernia.
Mas sim, tantos já perdidos,
Outros barrados, envoltos,
Ambos pelo esquecimento.
Esta perda não é só de uso,
É erosão da memória,
Do canto e encanto,
Dos recantos a que chegavam:
Àquela árvore alquebrada,
Ao trecho do muro velho,
À levada no souto, à cancela,
À presa e moinho antigo;
Até à mina fumegante
nas manhãs frias, a vomitar
um jorro de água pura,
Cantante a correr apressada,
A regar o milho sedento,
A encharcar a erva no merujo,
A matar a sede na jornada,
A engrossar a ribeira.
Velhos caminhos da minha infância,
Ainda tendes as marcas
dos meus pés descalços?
Os sulcos fundos dos rodados
Dos carros-de-bois?
Se sim, guardai-os,
Pois há muito que os perdi.
