" Eu e a minha aldeia de Guisande: Velhos caminhos" "" Velhos caminhos

23/03/2026

Velhos caminhos


Na voragem dos tempos novos

Em que as horas pedem pressa

E as rodas reclamam estradas planas,

Já se perderam tantos caminhos;

Carreiros de gente da minha infância,

A ladear regos de águas cristalinas,

A contornar montes, ladeiras,

Ora a descer, ora a subir.

Ainda os percorro às cegas,

Na memória, num dia claro

Ou na noite mais escura;

Pela sombra de carvalhos

Num dia quente de estio,

Pelo orvalho e geada matinal,

Ou pela lama da invernia.

Mas sim, tantos já perdidos,

Outros barrados, envoltos,

Ambos pelo esquecimento.

Esta perda não é só de uso,

É erosão da memória,

Do canto e encanto,

Dos recantos a que chegavam:

Àquela árvore alquebrada,

Ao trecho do muro velho,

À levada no souto, à cancela,

À presa e moinho antigo;

Até à mina fumegante

nas manhãs frias, a vomitar

um jorro de água pura,

Cantante a correr apressada,

A regar o milho sedento,

A encharcar a erva no merujo,

A matar a sede na jornada,

A engrossar a ribeira.

Velhos caminhos da minha infância,

Ainda tendes as marcas

dos meus pés descalços?

Os sulcos fundos dos rodados

Dos carros-de-bois?

Se sim, guardai-os,

Pois há muito que os perdi.