No dia de Todos-os-Santos, 1 de Novembro, no alvorecer de um dia frio, de geadas, nasci à sombra da capela do Viso, onde moram a Senhora da Boa Fortuna e Santo António, que cedo habituei a ver e a honrar como donos daquela bonita capela.
O palco da minha infância, ou do que dela sobrou para além da escola e do trabalho, que por esses tempos era literal e duro, uma exigência grande para um corpo pequeno, a pedir brincadeiras e fantasias, foi o agreste monte do Viso, à volta da capela e da escola primária onde aprendi as primeiras letras, com elas a formar palavras, a ler e a descobrir a magia das primeiras histórias; A conhecer e juntar os números e o resultado das contas que se fechavam com a prova dos nove ou real.
No Verão, os rigores da Catequese e do Pe. Francisco, davam folga à rapaziada, e nos domingos à tarde o arraial do monte do Viso era o nosso teatro dos sonhos, a floresta de Sherwood do Robin dos Bosques, o rancho da Ponderosa do Bonanza, a pradaria do Búffalo Billy ou a selva do Tarzan.
Era também o campo de futebol, onde os muitos rapazes fingiam ser as figuras dos cromos da bola, uns do Benfica, outros do Porto, um ou outro do Sporting, na disputa de jogos aguerridos, em que o intervalo era aos 5 e terminavam aos 10.
As faltas, as caneladas e as teimas, eram resolvidas na razão de quem tinha mais força e corpanzil bastante, e, não raras vezes, a seguir ao futebol acontecia boxe, judo e artes marciais, ou até um filme de índios e cow-boys.
Mas quando se ouvia o brado das mães a chamar, o jogo logo acabava, sem descontos, sem vencedores vencidos, e todos, de novo amigos e companheiros nos mesmos infortúnios, regressavam ligeiros a casa e alguns para acerto de contas. O conselho de disciplina doméstico não tinha contemplações e os cartões eram quase sempre vermelhos e exibidos no lombo.
Os jogos da bola nesse terreiro de pedras e raízes, à sombra de mimosas e austrálias, incluíam todos, dos mais talentosos aos mais desajeitados. Cada equipa era escolhida alternadamente um-a-um, em que o “Eusébio” do Viso ou o Pavão de Cimo de Vila eram os primeiros a ser escolhidos, e o último, o mais azelha do plantel.
Podia ser um jogo a feijões, a cromos ou a render uma laranjada Gruta da Lomba, em jogo combinado com a rapaziada de Casaldaça. Se o resultado não ia de feição, a garrafa de refrigerante, esse troféu refrescante de uma não sonhada Liga dos Campeões, era surripiado do cabeço do cruzeiro grande antes do final do jogo, e a coisa terminava invariavelmente à pedrada, com os de Casaldaça a fugirem a sete pés pelo monte abaixo, não porque os do Viso e Cimo de Vila fossem mais valentes, mas porque a descer todos os santos ajudavam, até às pedras.
A desforra, essa era feita quando os de cima tinham que ir lá abaixo, às mercearias da Sr.ª Amélia ou do Sr. Neca e ao saco com arroz, massa e pão, podiam-se juntar uns sopapos. Umas pelas outras.
Para além dos jogos de futebol no monte do Viso, no início das tardes domingueiras o povo do lugar juntava-se debaixo da sombra da ramada do meu avô materno, então com um dos raros aparelhos de televisão da freguesia. Era a RTP, a preto e branco, com apenas um canal, mas, mesmo assim, era um verdadeiro luxo. A televisão era colocada à porta da sala, voltada para fora, e o cinema ficava montado. Novos e velhos amontoavam-se, não se pagava bilhete e não faltava água do poço. Era o divertimento dominical do povo, com acesso democrático num tempo em que a democracia era apenas sonho.
Num instante, estava ali uma plateia a assistir ao TV Rural, do Engenheiro Sousa Veloso, numa qualquer reportagem entre gado e alfaias na Ovibeja, a falar da cultura do milho, das batatas e do combate ao escaravelho. Nas eiras viam-se dançar ranchos folclóricos apresentados pelo Pedro Homem de Melo. Quando o Papa Paulo VI visitou Portugal, em 1967, nos meus olhos de criança, o terreiro da casa do meu avô parecia ter tanta gente como no Santuário de Fátima.
E eram assim muitos dos domingos à tarde da minha infância, até que, lá pelo meio da tarde, chegava ao Viso e a Cimo de Vila um rumor de gente a gritar em uníssono, lá para os lados da Leira: Gooooooooolo! Gooooooooolo!
Que seria aquilo? Não era seguramente o grito do Tarzan ou do seu filho Bomba, no filme, a voarem na selva, de liana em liana, como trapezistas no circo, antes de enfrentarem furiosos gorilas e panteras. Não! Não era! Os mais velhos logo matavam a curiosidade: Olha, golo do Guisande! Olha, mais um! É contra o Lobão!
Como a curiosidade não dá sossego a quem está a descobrir o mundo, nos domingos seguintes, quando havia jogo na Leira, passei a trocar a televisão e os filmes a preto e branco, pelo jogos de futebol, ao vivo e a cores, no velhinho campo da Leira.
Depressa, os novos heróis passaram a ser aqueles rapazes mais velhos, vestidos de um amarelo vistoso, como canários a esvoaçar fora da gaiola, alguns deles de barbas e bigodaças fartas e cabelo à Beatles. Estavam ali o Valdemar Pinheiro, o Alhinho, o Marinho, o Rodrigo, o Reinaldo, o Alcino dos Matos, e outros tantos. E o Rei! Não o da selva, mas do pelado da Leira.
Eram eles o Guizande, a equipa de futebol de uma terra pequena, que naquela coisa de pontapés na bola, mesmo a chutá-la para a horta da D. Odília, como mísseis balísticos a destruir alfaces, tomates e a abater couves galegas, não temiam os rivais das freguesias maiores, fossem de Lobão, Romariz, Caldas de S. Jorge ou mais além. Antes desse tempo, ainda antes daquele dia 1 de Novembro de 1962, diziam que já era assim, um grupo de rapazes aguerridos, a imporem respeitinho a outros grupos, mesmo que armados em benficas, portos e sportingues.
Foi assim, ali, no campo da Leira, numa moldura humana entusiasta, que vi crescer uma equipa de raça, falada então por todo o lado, e que dali a poucos anos, por 1979, se formava a sério, e já como clube fundado e filiado começava a escrever uma história bonita, singular, muito própria, muito nossa.
Porque de uma pequena e pobre terra, certamente que sem grandes títulos e conquistas, mas sobretudo com uma forte identidade feita de gente boa, nobre e orgulhosa.
É esse clube, essa terra, essa gente de raça, que o livro que aqui estamos a apresentar, de forma muito despretensiosa e humilde, quiçá imperfeita e seguramente incompleta, pretende valorizar e enaltecer e agradecer aos muitos que, em diferentes tempos, contextos e dificuldades, nos deixaram este legado.
Caberá aos nossos mais novos conhecerem e compreenderem o passado para valorizarem o presente e ajudarem a acontecer o futuro.
Importa continuar a fazer muito com pouco. Todos somos poucos!
Goooooolo! Mais um do Guizande!
Viva o Guizande Futebol Clube!
Nota: Este foi um texto que ontem, na apresentação pública do livro sobre a história do Guizande Futebol Clube, foi lido por Carlos Cruz. Foi um privilégio.
O texto procura recuar nas minhas memórias de infância (e de tantos da minha geração) e da ligação aos primórdios do que veio a ser o nosso clube.
