Não é o Ti Domingos Lopes - que nestas coisas de memória e de olhares sonhados nem sempre se acertam os rostos -, mas bem podia ser. E com mais funda razão e propriedade. De facto, foram muitas, tantas que nem se contam, as vezes que, com a sua parelha de bois, passou este portal bonito e singular, ali na casa do lugar da Igreja. Este, se não é peça única no concelho, é seguramente coisa rara: o baixo-relevo talhado na pedra dura, numa bordadura de elementos decorativos e encimado pela cruz, como que envolve e dá respeito ao trabalho diário do laboureiro.
Ora saía com o carro cheio de estrume, a caminho dos campos; ora levava a charrua e a grade, prontas para lavrar e gradar; ora ia de carro vazio, entaipado ou com a caniça, para trazer tojo, palha, espigas ou uvas. Era assim a vida - de lavrador, carreteiro e laboureiro - num tempo em que não havia tractores. E mesmo depois de aparecer o primeiro, para espanto da aldeia, comprado pelo Raimundo da Lama, em Guisande ainda muito trabalho se fez a bois.
Foi então que, devagar mas inexoravelmente, começou a perder-se o ofício. Homens como o Ti Domingos Lopes, o irmão Joaquim ou o Ti António “Simeão” foram ficando para trás. Mas os bois, mansos e certos, por muitos anos rasgaram a terra. Era um trabalho duro mas de paciência, sem pressas, uma arte.
Depois, como tudo, veio o seu fim. Foram-se esses homens, rijos como o chão que lavravam. Os bois deixaram de encher os aidos escuros. Aos poucos, este e outros portais foram-se fechando, a ganhar silêncio, a perder cor.
Mas fica a lembrança. Este olhar sonhado é só um tributo a essa gente de trabalho: homens que, ao romper do dia, emparelhavam os bois ao jugo, prendiam-no à cabeçalha do carro e saíam pelo portal ainda com a capoeira a dormir, para voltarem já noite feita, depois do toque das Trindades, com o luar já a alumiar os caminho do monte do Mó ou das ribeiras.
É bom sonhar e trazer à memória a gente e modos de vida que ajudaram a entretecer o ninho que temos como nossa casa, como nossa aldeia.
Fotografia do Ti Domingos Lopes com a sua parelha de bois.

