" Eu e a minha aldeia de Guisande: Olhares sonhados - A cor do tempo" "" Olhares sonhados - A cor do tempo

02/05/2026

Olhares sonhados - A cor do tempo

 


A casa, não mentindo a bonita pedra lavrada, foi feita por 1909. Hoje e de há alguns anos, voltada a uma estrada relativamente ampla, mas há 115 anos, era um caminho estreito, húmido e fundo, onde mal se caminhava a pé e um carro puxado por bois passava pouco mais que à justa.

Conheci eu ainda esse caminho primordial, não que tenha 115 anos mas porque há 50 anos já o via assim, quando, de Cimo de Vila, ía com o meu irmão ao lugar de Duas Igrejas, à casa do José Lima, para consertar o pequeno rádio a pilhas que ali se comprara e nos ajudava a passar as longas noites de inverno. O caminho era estreito e ladeado pelo monte e pelo alto muro da Casa da Quintão, metia medo se a horas em que o sol já se escondera.

O lugar do Outeiro é dos mais antigos da nossa freguesia e durante muitos anos o mais esquecido e ignorado pelos poucos dinheiros das diferentes juntas. Mas, simultaneamente, um dos mais bonitos e paradisíacos. Infelizmente, o progresso não tem contemplações com lirismos e de uma assentada rasgou  literalmente aqueles montes e por ali e desde 2011 passam milhares de carros, com condutores apressados e sem imaginarem por onde passam.

O gato, no peitoril, porque com sete ou setenta vidas, talvez um espírito do passado, é capaz de saber toda a história do lugar ou pelo menos da casa, deslavada das cores mas a revelar que já teve várias ao longo de mais de um século. Uma casa assim secular merecia um pouco de cal a branqueá-la mas, verdade se diga, neste estado revela as suas feridas, a sua idade, como rugas que não se disfarçam com cremes e botox.