O Viegas já teve empregos de toda a espécie. Há alguns anos que trabalha na Agência EXCELCIA. Nem ele sabe explicar muito bem o que aquilo é, mas, quando lhe insistem, responde que se trata de uma prestadora de serviços nas áreas da solicitadoria, contabilidade e afins, onde tanto se trata de assuntos muito finos como de outros bem mais manhosos.
Tanto trata da escritura de compra e venda de um prédio, de um automóvel ou de uma carroça, como trata de licenciar um galinheiro na Câmara, renovar uma carta de condução ou redigir uma intimidação, com ares de parecer jurídico, ao vizinho cujo cão ladra demais ou cujos gansos grasnam sem respeito pelo descanso alheio.
Talvez por esta versatilidade, a agência goza de boa reputação e de uma carteira de clientes tão variada que vai de patrões a empregados, de empresários a pedintes e, segundo dizem as más-línguas, até de alguns chulos do sistema, que também precisam de papeladas, requerimentos, comprovativos e certidões.
Quanto ao nome, EXCELCIA, foi uma invenção do Francisco Frazão — Doutor, como faz questão de ser tratado, apesar de o único diploma conhecido ser o nono ano tirado nas Novas Oportunidades. Na sua brilhante teoria de marketing, o nome resulta da fusão do Excel, pelas extraordinárias capacidades de cálculo e organização de dados e com a CIA, a agência de inteligência norte-americana, pela discrição com que afirma tratar os assuntos e pela alegada capacidade de investigar — ou, como ele prefere dizer, "obter informação privilegiada" — sobre a concorrência.
O Doutor Frazão gaba-se de ter "amigos" em todo o lado: Finanças, Conservatórias, Câmaras, Loja do Cidadão, Notários... Gente que lhe abre portas, acelera processos e atende telefonemas antes dos outros. Também cultiva uma criteriosa rede de restaurantes onde, entre um bacalhau e uma vitela assada, se "descomplicam" certos assuntos administrativos e se alimentam amizades muito úteis, relembradas com consoadas pela Natal e folares pela Páscoa.
O Viegas, por seu lado, é um funcionário raro. Escreve bem, argumenta melhor, domina informática, programação e praticamente todas as ferramentas de escritório. Tem ainda outras habilidades que nem o próprio patrão conhece — e talvez seja melhor assim. Por isso, apesar das frequentes discussões, o Doutor Frazão não prescinde dele.
Aliás, o Viegas já foi despedido centenas de vezes. E readmitido outras tantas... sempre antes de conseguir sair do gabinete do chefe.
Foi precisamente numa dessas habituais "lutas de galos" que aconteceu o episódio seguinte.
O Viegas estava absorvido na elaboração de uma defesa contra uma coima aplicada pela Câmara ao Zeca da Bernarda, que resolvera altear o muro confinante com o terreno do vizinho Simão. Este, mal deixou de poder observar a vizinha a apanhar banhos de sol no relvado, tratou logo de apresentar queixa. A Câmara, sempre diligente quando se trata de fiscalizar muros, galinheiros e capoeiras — embora frequentemente acometida de estranha miopia quando os requerentes são autarcas, doutores, engenheiros ou gente de respeito — enviou prontamente um fiscal que, cheio de zelo e autoridade, lavrou embargo sem pestanejar.
Nisto toca o telefone interno.
O Viegas suspirou.
— Outra vez...
Atendeu.
— Sim, doutor?
Do outro lado ouviu-se aquele tom de voz que anunciava tempestade.
— Ó Viegas, tens aqui uma argolada no requerimento que fizeste para o Dr. Saraiva!
— Uma argolada? Então o que foi?
— No número do processo! Escreveste 779/2024. Tens aí um sete a mais! O processo é o 79/2024!
— Bem... escapou-me. As teclas são sensíveis... carreguei uma vez a mais.
— Ó Viegas, sensíveis são os clitóris! Tens de ter cuidado! Isto não pode acontecer!
— Ok! Tem razão, doutor. Desculpe. Faço já outro.
— Fazes já outro? O Dr. Saraiva já assinou! Queres que eu vá incomodá-lo outra vez para lhe dizer que a EXCELCIA meteu água? Temos um prestígio a manter!
O Viegas respirou fundo.
— Então... não dá para tapar o sete com corrector líquido?
A resposta saiu imediatamente.
— Ó Viegas, foda-se! Achas que vou andar a pintar requerimentos? O Dr. Saraiva é picuinhas! Aqui trabalha-se com rigor! Profissionalismo acima de tudo!
O Viegas começou a achar que toda aquela solenidade era muita parra para pouca uva. Já sabia do que a casa gastava.
— Está bem. Então o que quer que faça? Ligo ao Dr. Saraiva e explico-lhe a situação e certamente ele compreenderá?
— Não! Nem pensar!
Fez uma pausa teatral.
— Imprime outro, e corrigido traz-mo cá. Como sempre, tenho de ser eu a resolver estas coisas.
— Mas... como é que vai resolver?
O Doutor Frazão terá sorridocom aquele ar de quem revela um segredo de Estado.
— Sabes que nestas coisas não dou milho a pintos. Vou à mesa de luz... e copio a assinatura do Dr. Saraiva. Pronto!
E desligou.
O Viegas pousou lentamente o auscultador.
Não ficou propriamente surpreendido. Conhecia demasiado bem os talentos ocultos do patrão e as suas formas complicadas de resolver coisas fáceis.
Mesmo assim, não resistiu a pensar:
— Foda-se... corrector líquido nem pensar, porque isso atenta contra o rigor profissional... mas copiar a assinatura já faz parte do controlo de qualidade. Olha esta!
Dias depois, o Dr. Saraiva apareceu na agência e a Ana, a boazona da secretaria, entregou-lhe o requerimento já carimbado pela repartição.
Quando o velho cliente olhou para a assinatura durante alguns segundos, franziu o sobrolho e, num raro momento de boa disposição, comentou:
— Ó Frazão... o "S" da minha assinatura ficou hoje muito coninhas. Eu faço-o muito mais largo e fluido. Tremeu-lhe a mão?
O Doutor Frazão lançou um olhar fugidio ao Viegas, engoliu em seco, mas recompôs imediatamente a pose.
— Ó Sr. Doutor, olhe que não! Olhe que não! Aqui trabalha-se com rigor e profissionalismo. Além disso, sabe perfeitamente que duas assinaturas nunca saem rigorosamente iguais. Pergunte aos entendidos nessa coisa da caligrafia...
Fez uma pequena pausa, muito seguro de si.
— Isso só nas fotocópias!
[ilustração: IA]