Sinceramente! Compreendo a curiosidade das pessoas, sobretudo aquelas que pouco percebem de astronomia e das singularidades dos astros. Mas toda esta febre à volta do acontecimento do eclipse solar que será visível no nosso país nesta quarta-feira, e de modo total numa faixa que abrange a zona do Montesinho em Trás-os-Montes, parece-me algo infantil ou, pelo menos, exagerado. Todo o frenesim à volta dos óculos xpto, recomendáveis, é de loucos. Parece que vamos ser invadidos por marcianos. No meu trabalho ouço a rádio e tem sido um excesso sobre o assunto. Fora isto, as nossas crianças podem passar horas e horas com os olhos fixos no telemóvel ou televisão que poucas preocupações parece inspirar com as consequências para a sua visão. Usar óculos em tenras idades, sendo uma fatalidade, já parece moda.
É certo que é um fenómeno impressionante, a que poucas vezes se assiste ao natural (no nosso país a última vez terá sido em 1912), mas daí até esta febre à volta dos óculos e até deslocações para Trás-os-Montes, só para ver a coisa a 100% em vez de 99, 98 ou 95, parece algo irracional. Está visto que somos de modas, de tendências e vamos todos, como maluquinhos, uns atrás dos outros. Um dia dirão: - Eu estive lá!
Sinceramente, para quem não é cientista e procura ver mais além do que o óbvio, e hoje em dia já muito sabemos, não vejo o que de fantástico se possa ver olhando directamente para a lua a tapar o sol. Todos perceberemos que ficará mais escuro, e até com pouco impacto ou menos estranheza já que ocorrerá ao findar do dia. Será assim um crepúsculo adiantado. Não será caso para tanto. As minhas galinhas devem ir para a capoeira à mesma hora.
Mas andam todos a alertar e a comunicação social consulta médicos, oftalmologistas, astrónomos, bruxos e adivinhos e tudo o mais que pareça gente entendida no óbvio. Até as Juntas se juntam ao coro das recomendações: Cuidado! Não olhe directamente para o astro rei, não se aproxime de um poço porque pode cair, não ande à chuva se não molha-se, não atravesse à frente de um carro ou comboio porque será abalroado, não coma nem beba remédio dos ratos porque pode morrer nem beba uma garrafa de Porto porque pode ficar bêbado como um carro.
Parece e é: somos todos tratados como criancinhas. Mas com razão, porque de facto, agimos como tal.
Por mim, não me preocupei com óculos nem com filtros para a máquina fotográfica. Limitar-me-ei a ver o óbvio: Vai ficar escuro, um pouco mais cedo, durantes uns largos minutos. Fantástico! No resto, até será no hora em que habitualmente vou caminhar ou correr. Nada muda. Espero, pelo menos, que fique mais fresco.
Mas isto sou eu, que vejo mais deslumbramento no pôr-do-sol visto do Outeiro ou Viso ou no mar de Espinho. Ignorem-me! Façam como a maioria: Não percam a oportunidade e usem, de facto, os óculos com que tanto interesse e cuidado já compraram. Disfrutem e tirem as habituais fotos (com filtros ou sem olhar directamente) e amanhã inundem as redes sociais com elas. Será um momento único. Ficamos todos à espera das experiências dos novatos na astronomia.
Cuidem-se e sejam felizes!
Nota: Naturalmente, passe algum humor e ironia, cada um é cada um e a minha percepção e entendimento da coisa não tem que corresponder ao pensamento dos outros. Era só o que faltava que todos fôssemos obrigados a gostar de caldo de nabos!
