Há pessoas que nasceram com uma admirável vocação para seguir, para serem mandados, obedecer.
Não é tudo defeito. Pelo contrário: há uma grande paz em não ter de decidir nada. Como dizem os italianos, um dolce far niente. Basta olhar em redor, verificar para que lado vai a maioria e acompanhar. Se toda a gente usa a mesma roupa, usa-se também. Se de repente todos descobriram uma nova maneira de comer, dormir, viajar, decorar a casa ou fotografar o almoço, lá se adopta o hábito com a solenidade de quem acaba de inventar uma vida. Nas redes sociais copiam-se as trends e comparece-se ao chamamento a um qualquer evento, desde, claro, que não envolva trabalho.
Chamam-lhe, uns, personalidade, outros, ser sociável e modernista. É uma das grandes delicadezas do nosso tempo.
A pessoa escolhe cuidadosamente o seu lifestyle, aperfeiçoa o corpo, a barba, o cabelo, a casa, o vocabulário, a alimentação, as viagens e até a maneira de parecer indiferente às coisas que toda a gente deseja. Depois contempla a criatura que construiu e sente-se, legitimamente, única. O seu ego adensa-se e o umbigo é centro gravitacional.
À sua volta estão milhões de pessoas a fazer exactamente o mesmo. Mas não há mal nisso. Haveria, sim, se em contra-mão ou em passo desacertado.
O rebanho tem virtudes que a liberdade, essa velha senhora tão exigente, nunca conseguiu oferecer. O rebanho aquece, protege, recomenda restaurantes, escolhe destinos de férias, fornece opiniões e, sobretudo, poupa-nos ao esforço exaustivo de pensar e decidir pela própria cabeça. A Inteligência Artificial veio acentuar esse desligamento da vontade própria. Pede-se um texto, uma imagem, um relatório como quem na tasca pede moelas, rojões ou um bife com batatas fritas.
Há sempre um pastor. E um pastor é uma bênção para quem não quer perder tempo a descobrir onde fica a erva. Nada como saber que a horas certas, na manjedoura do costume, vai haver palha e ração.
Ele sabe para onde ir, conhece os melhores pastos, define o ritmo e, quando alguma ovelha se atrasa, dispõe de um argumento bastante antigo e de eficácia comprovada: o cajado da crítica e da desconsideração.
Depois existem as outras. As ovelhas que não encaixam. As negras, os rabujentos velhos do Restelo.
As que chegam atrasadas ao aprisco, comem onde não devem, desaparecem quando é preciso formar fila e aparecem precisamente quando ninguém lhes pediu opinião. Não são necessariamente corajosas. Seria bonito dizê-lo, mas nem sempre é verdade. Muitas são apenas teimosas, distraídas, mal-humoradas ou incapazes de perceber a utilidade de obedecer, sobretudo às cegas, sem escrutínio.
São as ovelhas ranhosas. Não melhoram o mundo por serem desobedientes. Apenas o tornam mais incómodo como um grão de areia no sapato ou uma formiga nos colhões.
Quando o cajado lhes acerta no lombo, protestam. Resmungam, afastam-se, fazem cara feia e, passada a indignação, voltam a cometer exactamente o mesmo erro. Há nelas uma espécie de fidelidade ao próprio defeito que chega a ser tão confrangedora quanto enternecedora.
Também não sabem muito bem para onde querem ir. Eventualmente, sabem apenas para onde não querem. E talvez seja esta a pior posição de todas.
Porque há os que mandam e os que aceitam ser mandados. Os que têm como mandamento de que necessários são os patrões e os empregados.
Neste universo, uns poucos descobriram cedo que nasceram para dar ordens; outros, com igual serenidade, que obedecer é muito menos trabalhoso. Entre uns e outros existe uma multidão que prefere não pensar demasiado no assunto, desde que lhe garantam salário, férias e a sensação reconfortante de pertencer a qualquer coisa, a uma seita, um grupo, um clube ou um partido.
Depois ficam os outros. Os que não querem mandar. Os que não querem obedecer.
Os que não aprenderam a andar ao compasso da manada, mas também não possuem talento para conduzir o rebanho. Esses são os verdadeiramente incómodos, porque não oferecem ao pastor nem a disciplina que ele espera nem a ambição que ele sabe utilizar.
São livres apenas na medida em que isso não lhes traz vantagem alguma. E liberdade, quando não vem acompanhada de poder, costuma ser uma coisa bastante mal paga.
O pastor não gosta deles e, com oportunidade, faz-lhes a cama em conformidade. As ovelhas também não.
E eles, para dizer a verdade, nem sempre gostam de si próprios. Talvez por isso existam tão poucos.
Uns nascem com o cajado na mão. Muitos aprendem a baixar a cabeça. E os que insistem em caminhar de lado, recusando tanto o comando como a marcha, descobrem cedo que há uma lei não escrita no rebanho: quem não conduz nem segue fica marcado e ignorado.
E, se houver favas para pagar, pode ter a certeza de que alguém já decidiu quem as come.
Eu sei. Tenho passado boa parte da vida a andar fora do compasso, a reclamar, a apontar defeitos, a irritar-me com chico-espertices, a incomodar quem se tem em conta por algum poder. Não é uma maneira especialmente inteligente de viver, bem o sei. Traz dissabores, rancores e reduz o círculo de gente concordante.
Mas, enfim, há vícios que, depois de tantos anos, já se confundem com carácter. Será, por isso, um problema de idade, em que se dá conta da falta de paciência para andar a seguir rebanhos, a dizer amém a qualquer pastor e a ser prestável com quem não merece mais que a indiferença.
Com a maior parte da vida já passada, o que falta dela é demasido valioso para ser desperdiçado em vénias e reverências. Era só que faltava!
A. Almeida
