Em todo o lado as há: boas pessoas, excelentes pais, filhos amorosos, avós ternurentos, vizinhos prestáveis. Mas, no geral, para bem de todos, convém que a proximidade e a confiança se resumam a episódicas conversas de circunstância: «Como vai? Passou bem? Saúde lá para casa! Dê cumprimentos à patroa!»
Mais do que isso, as relações nem sempre batem certo e, às tantas, sobrevivem apenas graças a uma boa dose de hipocrisia ou fingimento.
O cada vez maior número de divórcios mostra que também nos casamentos já não há vínculo, sagrado ou civil, que resista a tanto. As promessas mútuas e juras de amor e fidelidade não passam de banalidades pró-forma e ante-câmara de uma festança à grande e à francesa, onde até os pobres e remediados parecem ricos. Mas tudo assenta no vazio, na falta comum de compromisso, na incapacidade de compreensão, aceitação e, vá lá, algum espírito de sacrifício, seja lá o que isso for.
É assim, de um modo geral, mas de forma mais vincada onde o contexto propicia e implica comunidades ou grupos, como, por exemplo, no contexto das paróquias — esses redutos muito particulares onde nem sempre a bota dos ensinamentos evangélicos bate com a perdigota das ações e dos exemplos.
Por conseguinte, são todas excelentes pessoas, no geral prestáveis e voluntariosas quando toca a rebate, mas transformam-se num verdadeiro saco de gatos assanhados numa luta de egos, temperada com invejazinhas, recados indiretos e coscuvilhices. Todos querem ser o galo do poleiro ou o manda-chuva ou, pelo menos, que para além de preces e hóstias, lhes sejam dispensadas reverências ou, mais prosaicamente, colinho e mimos.
É certo que não é por aí que vem o mal ao mundo, mas ajuda a compreender e a aceitar a teoria do efeito borboleta: o bater de asas desse delicado e inofensivo insecto num canto do mundo que pode muito bem dar corpo a uma valente ventania no outro lado.
Resulta daqui, que quando sentimos o efeito de algumas "tempestades", mesmo caseiras, não será mais que alguma inocente borboleta, algures, a bater as asinhas coloridas.
