Há homens que chegam a uma casa como quem chega a uma obra e há homens que chegam como se a casa já lhes pertencesse. São os biscateiros das obras.
Como numa farmácia, têm um pouco de tudo: um kit de ferramentas manuais e eléctricas, uma chave inglesa, uma serra, um serrote, maços e martelos, pás e picaretas, chaves de fendas, sextavadas, de estrela e a certeza, muito mais resistente do que qualquer material de construção, de que tudo sabem fazer. Derrubam velhas paredes e levantam novas, remendam telhados, mexem em fios, desentopem canalizações, pregam tábuas onde falta madeira. Se alguma coisa fica direita, foi porque tiveram mão para aquilo; se fica torta, a culpa é sempre da casa, do tempo, do material, do fornecedor ou de quem mandou fazer.
Ainda assim, quando aparece um trabalho, transformam-se. A voz amacia, as costas dobram-se ligeiramente, surgem os sorrisos e aquela familiaridade instantânea de quem nunca viu o cliente na vida, mas já lhe chama amigo. Tudo se resolve e as sugestões parecem de gente entendida. O preço pode ajustar-se, o prazo não será problema, a dificuldade é nenhuma. “Deixe connosco.” E o homem, que há pouco parecia capaz de demolir uma parede com as próprias mãos, passa a ser a mansidão em pessoa.
O contrato, porém, tantas vezes, tem uma propriedade curiosa: fecha-se a porta e abre-se o verdadeiro negócio.
A partir daí, qualquer reparo é uma afronta de discípulo ao mestre. Uma torneira que pinga não é uma torneira que pinga; é uma acusação de quem nada percebe de vedantes. Uma parede mal rebocada transforma-se numa ofensa pessoal ou efeito da luz. Um assentamento fora de esquadria é falta de óculos. Se o dono da casa ousa perguntar por que razão a janela não fecha, recebe primeiro um olhar de desprezo e depois um vocabulário que dispensaria dicionário. A obra pode ter ficado por acabar, mas a discussão fica sempre concluída: eles têm razão.
É uma maneira peculiar de exercer a autoridade de certos biscateiros. Porque lhes sobram os clientes, não precisam de argumentos, porque têm o número. Não precisam de competência, porque têm confiança. E, sobretudo, não admitem contraditório, porque confundem facilmente a liberdade de falar com o direito de mandar calar.
Ao fim do dia encontram-se na tasca. A roupa traz ainda o pó da obra ou os borrões da tinta, as botas deixam marcas no chão e os copos tratam de apagar o que resta da diferença entre um homem e os outros. Ali, todos são iguais — sobretudo quando nenhum admite que o outro possa ser melhor.
Entre goles e pancadas no balcão, contam-se histórias de trabalhos que ninguém conseguiria fazer tão bem, de patrões que aprenderam a respeitá-los e de ocasiões em que “puseram cada um no seu lugar”. A conversa vai subindo de tom, como sobe o vinho, até chegar à grande descoberta política da noite: o mundo mudou, os antigos mandões acabaram e agora são eles quem decide.
E dizem-no com uma satisfação quase infantil, como se a democracia tivesse sido inventada naquela mesa para lhes garantir o direito de fazer tudo como lhes apetece.
Talvez seja essa a parte mais engraçada da história. Confundem o povo com o bando, a igualdade com a impunidade e a autoridade com a capacidade de falar mais alto.
Amanhã, se aparecer outra empreitada, voltarão a sorrir.
Porque até os brutos sabem que, para conseguir trabalho, é preciso parecer civilizado durante os cinco minutos que antecedem o aperto de mão. Depois, não raras vezes, é um inferno.
Deus nos livre destes biascateiros!
[ilustração: adaptação por IA]
