" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

13/05/2026

Nota de falecimento - Mãe do pároco Pe. António

 

Faleceu ontem a mãe do nosso pároco Pe. António Jorge.


A perda de um pai, mas sobretudo de uma mãe, é certamente uma tristeza imensa e um vazio de alma, porque vemos partir quem nos gerou, cuidou e amou.
Consola-nos, como cristãos e crentes, a certeza de que estará já em paz, a viver a sua plena Páscoa, em eterno descanso e certamento continuará viva nas memórias dos filhos, dos seus familiares e comunidade.

De minha parte e certamente da nossa comunidade, um abraço apertado e sentido ao Pe. António neste momento de dor, e certamente ajudará a consolá-lo a nossa solidariedade e a certeza de que sabe que a sua mãe está agora em paz depois de um período de doença e debilidade e que apesar dos seus compromissos, como filho dedicado, sempre procurou acompanhar e estar próximo num esforço e preocupação constantes.

Que descanse eternamente em paz!

11/05/2026

A lição da fábula do ovo de Colombo


Pela década de 1970 aprendi a fábula do Ovo de Colombo  num dos livros de leitura da escola primária. Grosso modo, o navegador e descobridor da América, Cristóvão Colombo, um certo dia, a propósito do valor da sua descoberta, que muitos então desvalorizavam, desafiou os presentes a porem de pé um ovo fresco de galinha sobre a mesa sem que tombasse. Como ninguém encontrasse solução, o genovês, com cuidado quebrou um pouco de casca na extremidade do ovo, e assim, apenas com a película a segurar a gema e a clara, conseguiu uma ligeira base e com isso que o ovo se equilibrasse facilmente.

Depois disso, os presentes desvalorizaram, argumentando que, assim também eles. Então, como remate e lição da fábula, Colombo terá dito que as grandes descobertas eram mesmo assim, a parecerem fáceis depois de terem sido realizadas, Antes, porém, ninguém teve a ideia ou o valor capaz de as levar a cabo, de as realizar.

Esta lição, mesmo que uma metáfora e sem qualquer rigor histórico de que tenha realmente tenha acontecido, lembra-nos que ainda hoje não falta por aí quem diga ser capaz de equilibrar ovos sobre a mesa depois de ver como o fazer. Antes, porém, sem tomarem a iniciativa, sem mostrarem como se faz. Assim, ao invés de darem mérito e valor a quem o faz pela primeira vez, limitam-se a dizer que "...assim também eu".

Em Guisande, nesta pequena e bonita freguesia, também há quem desvalorize alguns dos nossos Colombos, sem mostrarem como fazer e sobretudo mais e melhor. O mérito raramente é reconhecido, antes desvalorizado, e o copo meio cheio de água é visto como meio vazio.

É a vida!

No mínimo, uma taça...

Um clube de futebol de topo, já consagrado campeão nacional, que venceu com justiça (e muita azelhice dos principais adversários), mas  que na penúltima jornada perde de forma categórica com o clube último classificado e já despromovido à divisão inferior, no mínimo deveria ter direito a uma taça dourada a lembrar esse feito. Não sendo inédito, não é para qualquer um. 

Tendemos a valorizar os grandes feitos, mas é injusto que os enormes defeitos sejam esquecidos. Também eles têm o seu quê de poético.

Quanto ao Benfica, depois de uma época miserável, mesmo depois de ter perdido a hipótese de conseguir o 2.º lugar, importante apenas pelo lado monetário, arrisca-se a ficar em 3.º sem perder qualquer jogo. Se a concretizar-se, também a merecer uma taça pela mediocridade invencível.


Américo Santos - Ex atleta e dirigente do Guizande Futebol Clube



Américo Pereira dos Santos foi um dedicado  atleta e dirigente do Guizande Futebol Clube. Teve direito ao livro sobre a histório do clube. 

Como atleta era guarda-redes. Foi também responsável por algumas equipas do Despertar.

Em muito, o livro é um tributo a todos quantos ao longo dos tempos se dedicaram ao clube, quer como dirigentes quer como atletas e associados, mesmo daqueles que não são identificados de forma pessoal..

Recordo que o livro está a ser vendido pelo clube, na Loja Agrícola em  Fornos e no Café Fornos e, naturalmente, junto do clube.

A receita total com a venda do livro reverte  favor do clube.

06/05/2026

Grupo "Guisande: Ontem e hoje" - 2.º aniversário

 


Completam-se, hoje, dois anos sobre a criação do "Guisande: Ontem e hoje", um grupo de carácter privado na rede social Facebook.

O grupo destina-se apenas a pessoas naturais e residentes na nossa freguesia, com ligações familiares  ou outras, reconhecidas pelo administrador.

O grupo conta actualmente com 412 membros, sendo que já terá sido recusada mais de uma centena de pedidos de pessoas não reconhecidas ou que, convidadas à identificação, não prestaram os esclarecimentos relativamente à sua ligação à freguesia.

A adesão tem sido de livre vontade e ninguém entrou por convite da administração. Quem quiser sair, sai quando desejar e de livre vontade, sendo que depois de o fazer não voltará a entrar.

Não as contabilizei, mas seguramente já foram mais de 500 publicações, na sua larga maioria com assuntos e temas relacionados à nossa história passada, das nossas coisas comuns, património, cultura, tradições e gente.

Tenho plena noção de que destes 412 membros, a larga maioria passa por cá apenas por curiosidade e com interesse reduzido. Apenas um pequeno grupo segue com interesse e participa com reacções ou comentários. Esta sitguação não é novidade porque sei do que a casa gasta. Infelizmente, no geral, damos pouca atenção ao que é nosso, ao que nos valoriza como comunidade, do passado e do presente, antes alinhando facilmente em minudências e culto do umbigo.

Posto isto, sem ilusões, mas antes remando contra a maré, o espaço vai continuando, com mais ou menos regularidade e na certeza de que muitos destes assuntos um dia poderão ser passados para um outro suporte, nomeadamente para um livro na forma de monografia sobre a freguesia. Material não falta e quase todo escrito. O problema até será de excesso de conteúdo pelo que obrigará a uma selecção.

Assim sendo, deixo um  agradecimento especial aos membros do grupo, de modo particular aos mais fiéis, que ao fim de dois anos ainda continuam a passar pelo grupo, a valorizar e reconhecer o interesse do espaço e dos temas ali abordados e partilhados. 

05/05/2026

Estaminé pessoal

 


Um espaço pessoal com algumas simples mas úteis aplicações e alguns visualizadores topográficos. Aos poucos, a lista será ampliada.

O espaço serve também, e sobretudo, de apoio ao nível de servidor de algumas das minhas coisas e projectos online.

04/05/2026

No tempo em que havia mais alma e menos imigrantes

 


Equipa do S.L. Benfica, na época 1974/1975 (Campeão Nacional). Do tempo em que os adeptos não andavam a torcer por uma equipa quase toda composta por estrangeiros. Se quisermos o contrário, no tempo em que as equipas portuguesas tinham mais alma...portuguesa, nacional.

Tenho-me desligado do futebol indústria, e ainda bem. Do meu Benfica, não vejo jogos, não pago televisão para assitir no sofá ou ver no campo (até porque é longe), nem leio jornais. Não rebato alarvidades e provocações nas redes sociais, nem alinho em tira teimas a saber quem tem mais ou menos razão na eterna rivalidade entre clubes e se cada um destes tem mais ou menos razão nas ajudas ou roubos por árbitros. É chover no molhado ou regar a praia.

Não tenho camisolas com as cores e emblema do clube e seria incapaz de andar com elas fora do contexto do estádio. Nunca influenciei esposa, filho, afilhado ou vizinho a ser pelo meu clube. Nestas coisas o respeitinho pela identidade própria é muito bonito. Se tiver que ter em casa alguém adepto de outro clube, que seja, apenas pedindo que haja respeito mútuo e bom senso.

Sei dos resultados, muitas vezes,involuntariamente e apenas no dia seguinte e porque, sem querer, as notícias vão-se ouvindo, na televisão ou na rádio. Das duas ou três vezes que, levado por amigos, fui para a rua festejar mais um título, senti-me um tonto, sem saber o que ali estava a fazer no meio da multidão, na maior parte gente estranha, a olharem uns para os outros, com excessos na bebida e nos gestos. A ressaca deveria servir para alguma vergonha pessoal, mas é pedir muito a quem vive estas coisas a dizer que com orgulho, alma e coração, como se isso os fizesse mais capazes ou melhores seres humanos que os rivais. 

Faz-me confusão ver tantos adeptos, ora com maus fígados quando as coisas não correm de feição, ora com entusiasmo desmedido e até fanatismo, quando, afinal, torcem apenas por uma equipa de estrangeiros, que do clube apenas envergam a camisola e recebem os milionários ordenados e sempre com o olho num patrão de um campeonato com mais prestígio, que lhes dobre ou triplique o ordenado. Os dirigentes, treinadores e atletas são pagos a peso de ouro mas precisam de estádios cheios, mesmo que com gente que ganha o salário mínimo e não tem onde cair morto. Mas, cá está, nem sempre o lado racional do adepto da bola é o que tem mais peso e o futebol tem destas coisas. Faz parte, aqui e em todo o mundo. A indústria faz por isso! It's just business!

Posto isto, talvez pelo efeito da idade, que se presta a encolher umas coisas mas também a servir para aumentar algum distanciamento e lucidez, mesmo que não viva do passado, esta fotografia do Benfica de outros bons tempos, como muitas outras, incluindo as que moram nas minhas dezenas de cadernetas de cromos, servem para lembrar um tempo em que as equipas de futebol, desde os distritais aos nacionais, tinham muito menos estrangeiros e efeitos do marketing da indústria, mas seguramente mais alma, que se estendia de cima para baixo, dos dirigentes e atletas aos sócios e adeptos.

Concerteza que cada tempo é um tempo e o actual é seguramente diferente, mas quando se vende a alma ao diabo (da indústria) alguma coisa tem de ficar pelo caminho. Parece-me! É apenas a opinião de quem se vai desligando. Talvez seja da idade!


Quanto à equipa: Em cima, da esquerda para a direita: Eurico, Toni, Barros, Shéu, Bento.

Em baixo, pela mesma ordem: Nelinho, Artur, Nené, V. Martins, Jordão, Moinhos.

Era treinador:  Milorad Pavic

Mais do mesmo...

 




O problema repete-se indefenidamente, em Guisande e noutros locais. A coisa já não vai lá com recomendações, apelo ao civismo ou ameaças de coimas. A solução seria uma brigada de vigilância armada com uns paus de marmeleiro. Mas, como somos uma sociedade de mansos e humildes e de regras civilizadas para quem não sabe ser cívico, e que pouco ou nada penalizam os prevaricadores, não será solução recomendada. Um polícia para cada português, talvez ajudasse, mas seria incomportável, e os poucos que existem andam ocupados na caça às multas de trânsito ou a acompanhar corridas e desfiles.

Posto isto, há que conviver com a constante acção de gente badalhoca.


02/05/2026

Olhares sonhados - A cor do tempo

 


A casa, não mentindo a bonita pedra lavrada, foi feita por 1909. Hoje e de há alguns anos, voltada a uma estrada relativamente ampla, mas há 115 anos, era um caminho estreito, húmido e fundo, onde mal se caminhava a pé e um carro puxado por bois passava pouco mais que à justa.

Conheci eu ainda esse caminho primordial, não que tenha 115 anos mas porque há 50 anos já o via assim, quando, de Cimo de Vila, ía com o meu irmão ao lugar de Duas Igrejas, à casa do José Lima, para consertar o pequeno rádio a pilhas que ali se comprara e nos ajudava a passar as longas noites de inverno. O caminho era estreito e ladeado pelo monte e pelo alto muro da Casa da Quintão, metia medo se a horas em que o sol já se escondera.

O lugar do Outeiro é dos mais antigos da nossa freguesia e durante muitos anos o mais esquecido e ignorado pelos poucos dinheiros das diferentes juntas. Mas, simultaneamente, um dos mais bonitos e paradisíacos. Infelizmente, o progresso não tem contemplações com lirismos e de uma assentada rasgou  literalmente aqueles montes e por ali e desde 2011 passam milhares de carros, com condutores apressados e sem imaginarem por onde passam.

O gato, no peitoril, porque com sete ou setenta vidas, talvez um espírito do passado, é capaz de saber toda a história do lugar ou pelo menos da casa, deslavada das cores mas a revelar que já teve várias ao longo de mais de um século. Uma casa assim secular merecia um pouco de cal a branqueá-la mas, verdade se diga, neste estado revela as suas feridas, a sua idade, como rugas que não se disfarçam com cremes e botox.

01/05/2026

Em dia de maias, pela Freita entre elas - 15 km

 


Em dia de maias, nada como uma boa caminhada pelas encostas da sempre bela Freita. 15 km com valentes subidas e magestosas paisagens salpicadas de amarelo.













30/04/2026

Viver não custa, custa é saber viver


Viver não custa, custa é saber viver


Dizem que nasceu torto

Sem ter onde caír morto;

Sem que durma na rua

Não tem casa só sua;

Não, tem, pois, eira nem beira

Trabalha, pouco, sem canseira,

O futuro é apenas presente, 

Poupar não é coisa premente.

Contudo, vive à francesa,

Não dá folga nem moleza.

Dinheiro não falta p´ra cigarro

E, mais que tudo, tem um bom carro.


Ora foda-se lá, se dizem que ele não pode,

Pois, afinal, quem trabalha é que se fode!

Olhares - Céu de trovão

 


29/04/2026

Olhares sonhados - O lavadouro de Cimo de Vila

 


Os meus olhares sonhados voltam ao velho lavadouro de Cimo de Vila, ali onde dizem que é o Quartel, mesmo que sem tropa, fandanga ou militar.

Como já por aqui escrevi há dias, os meus olhos de criança teimam em sonhar e de novo ali a ver as mulheres do lugar ocupando as pedra de lavar, numa tagarelice quotidiana, a esfregaram as roupas cardidas de quem trabalhava no campo ou nas obras. Sentia-se, então, um cheiro a água fresca e sabão. Ao lado, a presa, recolhia a água que escorria da fonte para o lavadouro. Essa água, na altura vinha da generosa nascente de Centes e desde as obras destruidoras da A32 chega do Monte de Mó, partilhada com a fonte do Monte do Viso. Essa água, através de rego, que no lugar passava a descoberto, regava campos na encosta que descai de Cimo de Vila para a Igreja e Quintães mas também até ao fundo do lugar do Viso. Escusado será dizer que a maior parte desses regos já não existem, apenas na memória de quem a tem.

Nesse lavadouro de Cimo de Vila, lavavam mulheres como a Ti Laurinda do "Canão", a Ti Gracinda do "Repolho", a Ti Isaura,  mulher do Ti João do "Cabreiro", a Ti Madalena do Martinho, as do Sebastião, as irmãs Fonsecas, a Ti São, mulher do Ti Franquelim do Martinho, e outras mais, todas mulheres que eram uma força da natureza.

Em casa de meus avôs sempre existiu um tanque também com lavadouro, com água corrente vinda de uma abastada mina localizada no Monte de Mó, e que ainda hoje lá cai. Por isso a minha mãe, ocasionalmente e dependendo da roupa, também lavava em Cimo de Vila. Apesar disso, eu criança, pela proximidade da casa e pelo facto de, com o meu irmão mais velho, andar ao cuidado de minha bisavó Margarida, a mãe Guida, como a tratáva-mos, era por ali que passáva-mos o tempo ainda antes de ir para a escola e mesmo durante.

Por conseguinte, muito do meu imaginário de infância situa-se ali entre o Viso e Cimo de Vila e todo o pedaço de terra, de monte e ribeiras, entre esses lugares e a freguesia de Louredo.

É fartar, vilanagem!

As catástrofes naturais que têm assolado Portugal, desde os trágicos incêndios de 2017 às recentes tempestades que fustigaram, sobretudo, o centro do país no início deste ano, deixam marcas profundas no território e na alma das populações. Perante a destruição de habitações, fábricas e explorações agrícolas, a resposta do Estado foi rápida através de fundos de reconstrução é não apenas necessária, mas um imperativo de solidariedade social. Contudo, a par dos escombros, surge frequentemente um fenómeno igualmente corrosivo: o oportunismo de quem vê na tragédia uma oportunidade de lucro ilícito e que procura tirar proveita das facilidades burocráticas dadas pelo Estado como forma de se dar resposta tão rápida quanto possível aos danos e insuficiências.

É comum ouvirmos críticas contundentes à classe política, à burocracia das instituições e à alegada falta de transparência na gestão da coisa pública. No entanto, os relatos recorrentes de candidaturas fraudulentas (como alguém que pediu à volta de 3 mil euros quando na realidade apenas precisou de meia dúzia de telhas que lhe foram oferecidas) a apoios estatais revelam uma dissonância ética preocupante. Quando indivíduos ou empresas tentam obter financiamento para reconstruir estruturas que já se encontravam abandonadas ou em ruínas muito antes do desastre, ou quando inflaccionam prejuízos de forma desproporcional, estão a replicar precisamente os comportamentos que condenam nos seus representantes. Um pouco como, na estrada, alguém que tendo no seu automóvel umas valentes amassadelas, depois de um ligeiro toque de alguém, alega à seguradora que o carro estava impecável. Um simples Fiat Uno é descrito como um Ferrari.

Todos cohecemos, até por perto, casos de falsificação organizada de acidentes automóveis para enganar as seguradoras, e até mesmo em acidentes a envolver bicicletas, em que há quem se preste a substituir peças danificadas vulgares por mais caras para enganar o perito e aumentar a indemnização pela seguradora. Não somos anjinhos e todos conhecemos estas histórias.

Esta microcorrupção do quotidiano sugere que o problema ético não é exclusivo das esferas de poder, mas sim transversal a uma sociedade que, por vezes, confunde astúcia com sobrevivência e oportunismo com direito.

As ramificações destas acções enganadoras são vastas e prejudicam toda a comunidade. Os fundos públicos são finitos. Cada euro desviado para uma estrutura que já estava em ruínas é um euro retirado a uma família que perdeu o seu único teto ou a um empresário que luta para manter postos de trabalho.

A detecção de fraudes obriga o Estado a endurecer os processos de fiscalização. O resultado é um aumento da burocracia que atrasa o apoio a quem dele necessita com urgência, punindo o justo pelo pecador. Nesta situação o Governo confronta-se com a situação de pecar por excesso de zelo ou de abrir a porta e as mãos ao chico-espertismo e oportunistas, tantas vezes estes com o beneplácito de gente que está nas entidades que deviam fiscalizar e zelar pelo interesse público, usando da velha filosofia de que uma mão lava a outra e que em detrimento do Estado ganham todos.

A fraude alimenta o cinismo. Quando a comunidade percebe que o vizinho beneficiou indevidamente de um sistema de apoio, a confiança nas instituições e na própria solidariedade entre pares dissolve-se, dando lugar ao ressentimento.

Uma sociedade que aspira a instituições íntegras deve, obrigatoriamente, sustentar-se numa base de integridade individual. Criticar a corrupcção "lá em cima" enquanto se pratica o oportunismo "aqui em baixo" é uma falha moral que compromete o desenvolvimento do país.

A reconstrução de uma região após uma catástrofe deve ser física, mas também ética. Exigir transparência do governo é um dever cívico, mas agir com honestidade perante os recursos que pertencem a todos é a única forma de garantir que, na próxima tempestade, a rede de apoio seja robusta, rápida e, acima de tudo, justa. Infelizmente, de Pedrógão à região Centro, os exemplos de oportunismo mostram que nada aprendemos. No meio da catástrofe e miséria haverá sempre gente ao saque como na Idade Média. 

É fartar, vilanagem!


[ilustração: Observador]

28/04/2026

Santos da casa....

Não deixa de ser uma mero reparo, mas também curioso, quiçá sintomático, que fora do contexto da sessão pública de apresentação do meu livro de apontamentos sobre a história do Guizande Futebol Clube, em 10 de Abril passado, não tenha tido alguém da freguesia que de forma pessoal me reconhecesse o valor e importância do livro mas, em contrapartida, já algumas pessoas de fora da freguesia o fizeram, algumas delas mal conhecidas por mim.

Vale o que vale, porventura não mais que um acaso, mas, ainda assim, a fazer pensar. Seja como for, é velhinha a sentença de que "santos da casa não fazem milagres" e daí que não seja de surpreender alguma indiferença. Afinal,  nos dias que correm, vale mais um peidinho nas redes sociais, do que algo mais substancial como um livro a valorizar o que é nosso, o colectivo, o legado de muitos. 

O incentivo e apoio são fundamentais em qualquer área, em qualquer empreendimento, mas por aqui o que quer que tenha de ser feito terá de ser sem expectativas ou, pelo menos com estas em baixo.

É o que é!


 

Nota de falecimento - Rosa de Castro Linhares

Faleceu de forma inesperada, Rosa de Castro Linhares, de 81 anos, do lugar de Casaldaça.

Nasceu em 21 de Abril de 1945. Era esposa de Fernando de Oliveira Pinho com quem casou em 11 de Janeiro de 1970.

Era filha de António Ferreira Linhares e Rosa Ferreira de Castro.

Era neta paterna de Manuel Ferreira Linhares e Olívia Margarida dos Santos.

Era neta materna de José Ferreira de Castro e de Ana de Oliveira.

Era bisneta paterna de José Custódio e Margarida Gomes.

Era irmã de Maria Rosa, Olívia de Castro, de Maria Laura, de Manuel Ferreira Linhares, de Margarida Maria, de Maria Adelaide e de Maria Margarida.

Neste momento de perda e pesar, expresso os meus sentidos sentimentos a todos os familiares, de modo particular ao seu marido Sr. Fernando e a seus filhos Fernando e Valdemar.

Funeral na Quarta-Feira, 29 de Abril pelas 15:30 horas, com cerimónias da igreja matriz de Guisande, indo no final a sepultar no cemitério local.

Missa de 7.º Dia na Sexta-Feira, 8 de Maio, pelas 19:30 horas na igreja matriz de Guisande.

Que a sua alma descanse em paz e permaneça na memória dos seus e da comunidade onde era estimada pela sua simpatia e trato fácil.

27/04/2026

Olhares sonhados - 2


Não é o Ti Domingos Lopes - que nestas coisas de memória e de olhares sonhados nem sempre se acertam os rostos -, mas bem podia ser. E com mais funda razão e propriedade. De facto, foram muitas, tantas que nem se contam, as vezes que, com a sua parelha de bois, passou este portal bonito e singular, ali na casa do lugar da Igreja. Este, se não é peça única no concelho, é seguramente coisa rara: o baixo-relevo talhado na pedra dura, numa bordadura de elementos decorativos e encimado pela cruz, como que envolve e dá respeito ao trabalho diário do laboureiro.

Ora saía com o carro cheio de estrume, a caminho dos campos; ora levava a charrua e a grade, prontas para lavrar e gradar; ora ia de carro vazio, entaipado ou com a caniça, para trazer tojo, palha, espigas ou uvas. Era assim a vida - de lavrador, carreteiro e laboureiro - num tempo em que não havia tractores. E mesmo depois de aparecer o primeiro, para espanto da aldeia, comprado pelo Raimundo da Lama, em Guisande ainda muito trabalho se fez a bois.

Foi então que, devagar mas inexoravelmente, começou a perder-se o ofício. Homens como o Ti Domingos Lopes, o irmão Joaquim ou o Ti António “Simeão” foram ficando para trás. Mas os bois, mansos e certos, por muitos anos rasgaram a terra. Era um trabalho duro mas de paciência, sem pressas, uma arte. 

Depois, como tudo, veio o seu fim. Foram-se esses homens, rijos como o chão que lavravam. Os bois deixaram de encher os aidos escuros. Aos poucos, este e outros portais foram-se fechando, a ganhar silêncio, a perder cor.

Mas fica a lembrança. Este olhar sonhado é só um tributo a essa gente de trabalho: homens que, ao romper do dia, emparelhavam os bois ao jugo, prendiam-no à cabeçalha do carro e saíam pelo portal ainda com a capoeira a dormir, para voltarem já noite feita, depois do toque das Trindades, com o luar já a alumiar os caminho do monte do Mó ou das ribeiras.

É bom sonhar e trazer à memória a gente e modos de vida que ajudaram a entretecer o ninho que temos como nossa casa, como nossa aldeia.

Fotografia do Ti Domingos Lopes com a sua parelha de bois.

26/04/2026

Olhares sonhados - 1

 

Cimo de Vila - Casa da Ti Ilda Fonseca (prima de minha mãe), que foi de seus pais, Joaquim José da Fonseca e Albertina Oliveira (do Grilo).

Na minha infãncia por ali passei muitos dias a brincar. Ali, daquela janela no sobrado, era uma sala de costura em que trabalhavam algumas das irmãs Fonseca.

Tempo bonito que não volta. O tempo passado deixou as rugas nas fachadas. As rosas ainda são perfumadas mas já não há meninice nem crianças a brincarem no largo com o Ti Manel do Martinho sentadito na escada da rua.  Já não há rego de água vindo do lavadouro de Cimo de Vila onde, junto ao campo da Cancela, montava rodízios de bogalhos ou lançava à aventura barcos moldados de casca de pinheiro.

Tudo mudou e apenas um olhar sonhado permite uma viagem a esse passado já longínquo. Mas dizem que é bom sonhar...

Podia ser verdade... Olhares sonhados

 

Em tempos passados, as nossas juntas de freguesia, ali pela década de 1980 e seguinte, procuraram dar melhores condições a quem utilizava os lavadouros públicos, nomeadamente dotando alguns deles com coberturas. Apesar disso, fizeram-no sempre sem qualquer assomo de estética, preferindo uns mostrengos em betão ou umas miseráveis chapas, numa filosofia de gastar o menos possível. Foi assim nos lavadouros em Estôze, Casaldaça, Fornos e Cimo de Vila. 

Num mero exercício do que poderia ficar mais de acordo com uma estética rústica, ilustro aqui o lavadouro de Cimo de Vila, com a sua abundante fonte de água corrente. É certo que os tempos em que os meus olhos de criança ali viam as mulheres do lugar ocupando toda a pedra de lavar, numa tagarelice quotidiana, a esfregaram as roupas cardidas de quem trabalhava no campo ou nas obras. Sentia-se um cheiro a água fresca e sabão.

É certo que os tempos mudaram e são pontuais os casos em que alguém ainda utiliza os lavadouros mas, pelo valor patrimonial e de memória colectiva que representam deviam ser uma preocupação das juntas de freguesia na sua conservação. Um castelo também já não tem utilidade prática e apesar disso conserva-se. 

Pretender comparar um singelo lavadouro a um vetusto castelo pode não fazer sentido para muitos, mas deve fazer. Afinal, um castelo podia ser morada de um qualquer senhor feudal enquanto que um lavadouro é do povo, o que era explorado pelo fidalgo.

Podia ser verdade...

23/04/2026

Dia Mundial do Livro - Também dos meus


Hoje, 23 de Abril, celebra-se o Dia Mundial do Livro. Que seja "Mundial" ou "Internacional", é uma data significativa pelo que representa.

O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor foi instituído pela UNESCO em 1995. Esta data tem como objectivo central o reconhecimento do livro como um instrumento fundamental para a educação e o progresso cultural.

O foco primordial da data é incentivar o hábito da leitura em todas as faixas etárias, destacando o prazer da descoberta literária. Em 2026, as iniciativas em Portugal, coordenadas pela DGLAB, sublinham a leitura como um acto de liberdade, cidadania e democracia, integrando as comemorações dos 50 anos da Constituição da República Portuguesa.

O dia serve para reafirmar o papel dos livros como meios insubstituíveis da transmissão de património cultural e informação, desenvolvimento intelectual, expansão de horizontes e combate ao isolamento social e reforço de laços interpessoais.

Não sou, de todo, escritor ou autor, mas modestamente já tenho três livros publicados, um deles recentemente apresentado e que está à venda pelo Guizande Futebol Clube, já que é a esta instituição que é dedicado e os ganhos com a venda servem para ajudar as suas actividades e obras nas instalações desportivas do Campo "Oliveira e Santos".

Apesar disso, escrever e publicar um livro não é apenas um exercício de vaidade mas antes uma consequência de quem cultiva a escrita, a língua  e a literatura. Se para muitos e talentosos escritores é um modo de vida, para pequenos e insignificantes  autores, como eu, que apenas publicam em edições de autor, é um exercício de alguma loucura e gastos que pouco compensam com pequenas edições. As editoras comerciais não apostam em que não tem nome, eventualmente até aceitando publicar mas com condições que se resumem a dar um chouriço para receberem um presunto "pata negra".

Dos meus três livros, o primeiro, "Palavas Floridas", com poemas, contos e textos, foi literalmente para oferecer a familiares e amigos, por isso sem ganhar um tostão. O segundo, de literatura infantil, vendi a pouco mais de preço de custo e desse valor ofereci 2 euros à UNICEF para campanhas de apoio às crianças do "corno de África". Algumas entidades de poder local comprometeram-se a apoiar, adquirindo algumas dezenas de exemplares para a rede de escolas e bibliotecas, mas tal não passou de uma promessa por cumprir. Sem supresa!

O terceiro, ainda fresco e recentemente apresentado (10 de Abril), é um conjunto de apontamentos sobre a história do  Guizande Futebol Clube, que o está a vender pelo que a totalidade dos lucros com a venda são para a colectividade. Uma vez  mais, trabalho e alguma despesa sem qualquer ganho, mas no que é um orgulho poder ajudar, juntamente com quem apoiou nos custos da publicação. Como reconhecimento, do poder local municipal ninguém a representar, mesmo que com convite prévio. Sintomático!

Por conseguinte, para os insignificantes autores como eu, vai valendo a loucura e a vontade de fazer alguma coisa, mesmo sem nada esperar. Tenho mais três projectos, um deles já em escrita avançada, dedicado à capela do Viso e à sua festa. Uma vez mais com foco nas coisas da freguesia. Ainda um outro, uma monografia geral sobre a freguesia nos seus diferentest aspectos, que praticamente está escrita. Ainda em mente um terceiro livro de poemas e contos "Palavras despidas".

São projectos, com  vontade própria e já todos com escrita adiantada, mas confesso que ainda sem saber quando verão a luz do dia. Estas coisas, para além do tempo e cansaço, custam dinheiro, cada vez mais, e não sou pessoa de pedinchar, sobretudo a quem tem obrigação de incentivar e apoiar. Seja como for, venham, ou não, a ser publicados, uma vez mais o objectivo não será ganhar dinheiro. Quando muito a vender a preço de custo para mitigar o prejuízo.

Posto isto, importa valorizar o Dia Mundial do Livro e dar importância ao que lhe dá substância, os autores, os livros e o que neles se imprime, sobretudo quanto temas que são uma forma de valorizar a nossa freguesia, os seus valores, passados e presentes. Apesar disso, sem expectativas porque sabendo que a larga maioria pouca importância dá a estas coisas.