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6 de novembro de 2023

Momentos...

Há momentos que são isso mesmo, momentos, lapsos de tempo, olhares fugazes.

No último Domingo, de manhã, antes das 8, uma ida ao Viso e num instante este vislumbre do sol a nascer por detrás do monte. Mas 2 minutos depois, lá chegado, o céu já estava fechado numa aguarela densa em tons de cinza e aquele momento de luz morreu ali.

Há neste simples instante, na sua efemeridade, um ponto de partida para várias reflexões, mais ou menos intimistas, introspectivas, mas na pressa do nosso viver, no trilho da rotina dos nossos dias, poucas vezes as fazemos.

É certo que todos os dias há o nascer e o por-do-sol, como diz o povo, mais marés que marinheiros, mas convenhamos que são sempre irrepetíveis, singulares e, como na nossa vida, cada momento é unico e o ponto de transição entre o presente e o passado é constante porque acontece a cada fracção de segundo.

Nesse processo avançamos irremediavel e simultaneamente para o passado e para o futuro, que não é daqui a um ano, mês ou amanhã, mas já no exacto segundo a seguir à escrita do ponto com que termina este texto.

22 de outubro de 2023

A Sr.ª Iria e o Pe. José Oliveira

 



Decorreu na manhã deste Domingo, 22 de Outubro, o funeral da Iria Santos da Conceição. Foi uma longa vida (96 anos) que teve a graça de receber de Deus.

Pela data e horário, esperava eu que fosse mais participado pela comunidade. Talvez por ser de poucos conhecida (excepto os mais velhos) e por há longos anos viver em Lisboa.

Pessoalmente também não gosto de funerais, por razões óbvias, porque de pesar e tristeza, seja pela partida mais ou menos esperada ou inesperada de familiares ou de gente nossa, da nossa comunidade.

Assim, até por razões de trabalho e com os horários dos funerais pouco adequados a quem tem horários e compromissos de emprego, também não participo em todos mesmo que de uma forma ou outra, procure transmitir os sentimentos aos familiares, sobretudo aos mais chegados.

Apesar disso, e sem qualquer ponta de moralismo, porque sou fraco exemplo, verifico que para além dos mais velhos da nossa comunidade, e dos familiares por razões óbvias, nos funerais na nossa comunidade quase não se vê a participação de jovens ou mesmo adultos na casa dos 35/50 anos. Ora se em dias de semana há uma natural justificação, já em dias de fins de semana, sábados e domingos, a razão é menos válida.

Claro que cada um faz como quer e nestas coisas em nada somos obrigados. Liberdade acima de tudo. Mas se entendemos a participação num funeral como um gesto de solidariedade fraterna para com gente da nossa comunidade, em momentos de dor, perda e tristeza, então neste aspecto, no geral estamos a ser pouco solidários e participativos. Ainda não é caso para tanto, mas a este ritmo, não tardará que as cerimónias de exéquias sejam só participadas por familiares e um ou outro amigo mais chegado, dos falecidos ou dos familiares.

Em todo o caso, em Guisande, mesmo havendo notoriamente gente que não vai a funerais, no geral ainda são bastante participados no que denota ainda um espírito positivo de fraternidade comunitária, respeito e solidariedade pelos seus elementos.

Quanto à Sr.ª Iria, conversei com ela pessoalmente umas três ou quatro vezes, algumas por telefone e quem a conhecia sabe que tinha a tendência de nos prender e de um assunto simples falava-se largos minutos.

Das duas últimas vezes que falamos, uma por telefone e outra pessoalmente, como então eu fazia parte da Junta da União de Freguesias, confessou-me que gostaria de ver atribuída à actual Rua dos Quatro-Caminhos, da Gândara ao lugar de Azevedo, o nome do Pe. José Oliveira, por ter ele nascido ali no lugar da Gândara, bem ao lado do caminho que hoje é a tal rua.

Pela minha parte considerei a proposta e até disse que achava muito bem, já que o Pe. Oliveira foi uma figura notável da freguesia, mesmo que desconhecida para as actuais gerações. Na altura, como mero vogal sem quaisquer competências, transmiti o assunto ao presidente que, alegando dificuldades e transtornos na mudança, não mostrou interesse. Poderia, pelo menos, ter tentado e promovido a consulta aos moradores, que com legitimidade poderiam ou não concordar com a mudança e aceitar ou não os inconvenientes dela, nomeadamente pela actualização de dados de morada em diferentes instituições. Ficou, pois, por concretizar essa possibilidade e vontade proposta pela Sr. ª Iria e que, também concordando eu com ela, de algum modo seria de justiça por relembrarmos o nome, vida e obra do Pe. José Oliveira, um filho da terra, gente nossa.

Nunca é tarde, seja pelo nome da rua ou por outra iniciativa, para dar destaque a essa figura nascida no lugar da Gândara.

Mas, em abono da verdade, fica aqui partilhada essa vontade manifestada de forma interessada pela Sr. Iria. Mesmo que não tivesse sido concretizada, da sua proposta e vontade saberá disso, estou certo, o Pe. Oliveira.

Que Deus a guarde!


20 de outubro de 2023

Não gosto do mar, pronto


Tenho uma paixão pelos rios mas não tanto pelo mar. Nunca gostei dessa massa monstruosa, caminho ondulante de embarcações e marinheiros, sempre em tempestade e raramente em bonança. Tragou ao longos dos tempos, desde que o homem em frágeis canoas se aventurou a passar da orla das praias, uma infinidade de gente, em exploração, em recreio, em trabalho, em guerra. Quantos corpos e esqueletos de embarcações jazem nas suas profundidades?  Mas, em contraponto, tenho um fascínio pelo mesmo, mesmo que apenas de relação apenas visual e poética.

Como dizia Pessoa, 

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Apesar do significado profundamente poético, a verdade é que o mar nunca foi nosso nem de ninguém, porque indomável. 

Na praia, que todos gostamos quando os calores apertam, basta-me que me chegue aos tintins. Mesmo que fosse um exímio e intrépido nadador não arriscaria mais do que a distância de sentir os pés em terra e mesmo assim, di-lo a experiência, é demasiado risco. Mais vale um cobarde vivo que um corajoso morto, é sentença que aplica-se na perfeição na nossa relação com o mar quando toca a desafiá-lo.

Apesar disso reconheço a sua importância para a vida e para na Terra, da forma como regula o clima e todas essas coisas mais ou menos aprendidas nas escolas. 

Mas mesmo assim, a relação do homem com o mar, com o oceano vasto, foi sempre temerosa, de respeito. Alguns, muitos, dizem que de fascínio, quase de enfeitiçamento, mas mesmos esses, não raras as vezes, pagam com a própria vida essa ligação.

Há coisas assim, tão grandes, imensas, que a nossa relação com elas ou é de fascínio ou temor, porque um e outro estão sempre interligados.

Assim em jeito de análise, algumas considerações por essa nossa contradição permanente em relação ao mar, ao oceano.

O fascínio e o temor pelo mar ou oceano são sentimentos profundos e contraditórios que têm fascinado a humanidade ao longo da história. Esses sentimentos reflectem a complexidade e a imprevisibilidade dos mares, bem como a profunda ligação entre os seres humanos e a água.

Fascínio:

1. Beleza natural: O oceano é conhecido por sua beleza impressionante, com suas vastas extensões de água azul profunda, praias de areia branca e uma rica diversidade de vida marinha. A beleza natural do mar muitas vezes atrai as pessoas para a costa e as inspira.

2. Mistério e descoberta: O oceano cobre grande parte da superfície da Terra e, no entanto, grande parte dele permanece inexplorada. As profundezas marinhas escondem uma infinidade de segredos e mistérios que a humanidade ainda não desvendou.

3. Fonte de recursos: Os oceanos fornecem uma abundância de recursos, incluindo alimentos, energia, minerais e até mesmo rotas de comércio. As atividades marítimas desempenham um papel fundamental na economia global.

4. Recreação e turismo: Muitas pessoas têm um fascínio pelo mar devido às atividades de lazer que ele oferece, como natação, mergulho, surf e passeios de barco. O turismo costeiro, os cruzeiros, também representam uma indústria significativa e em crescimento.

Temor:

1. Poder destrutivo: O mar tem o potencial de ser incrivelmente destrutivo, especialmente em tempestades e tsunamis. Inundações costeiras, erosão e perda de vidas são ameaças associadas ao poder do oceano.

2. Isolamento e solidão: No alto mar as pessoas podem sentir-se isoladas e solitárias, longe da civilização e da ajuda. Isso pode gerar sentimentos de temor e vulnerabilidade. Estes ingredientes foram motivo de obras literárias e de cinema como o Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, que explora as situações de naufrágio e sobrevivência em terras desertas e isoladas colocando o homem em extrema solidão e perante os elementos.

3. Desconhecido e incontrolável: A imprevisibilidade do oceano, com suas correntes, tempestades e mudanças climáticas, cria uma sensação de incontrolabilidade que pode causar ansiedade e medo.

4. Mitos e lendas: Muitas culturas têm mitos e lendas que retratam o oceano como um reino misterioso e habitado por criaturas sobrenaturais. Essas histórias contribuem para a aura de temor em torno do mar. São mais que muitos os seres míticos ou de ficção associados ao oceano como o Kraken, as sereias, o bíblico Leviatã, Kelpie, Moby Dick, o nosso Adamastor, etc.

5. Impacto ambiental: À medida que a humanidade compreende melhor o impacto das actividades humanas nos oceanos, como a poluição e a pesca excessiva, cresce o temor pelo estado de saúde dos ecossistemas marinhos e o seu futuro. As alterações climáticas, o degelo nos polos e a consequente subida dos mares e inundações de zonas costeiras estão na ordem do dia das preocupações da humanidade.

Em resumo, o fascínio e o temor pelo mar ou oceano são reflexos da complexidade e da dualidade desse ambiente. Enquanto o oceano inspira admiração por sua beleza e vastidão, ele também gera temor devido ao seu poder e à sua capacidade de desafiar o controle humano. Esses sentimentos continuam a influenciar a nossa relação com o oceano e a forma como o exploramos e o protegemos. Continuamos assim com uma relação de temor e fascínio.

18 de outubro de 2023

Momentos

Há momentos que são isso mesmo, momentos, lapsos de tempo, olhares fugazes. 

No último Domingo, de manhã, antes das 8, uma ida ao Viso e num instante este vislumbre do sol a nascer por detrás do monte. Mas 2 minutos depois, lá chegado, o céu já estava fechado numa aguarela densa em tons de cinza e aquele momento de luz morreu ali.

Há neste simples instante, na sua efemeridade, um ponto de partida para várias reflexões, mais ou menos intimistas, introspectivas, mas na pressa do nosso viver, no trilho da rotina dos nossos dias, poucas vezes as fazemos. 

É certo que todos os dias há o nascer e o por-do-sol, como diz o povo, mais marés que marinheiros, mas convenhamos que são sempre irrepetíveis, singulares e, como na nossa vida, cada momento é unico e o ponto de transição entre o presente e o passado é constante porque acontece a cada fracção de segundo.

Nesse processo avançamos irremediavel e simultaneamente para o passado e futuro, que não é daqui a um ano, mês ou amanhã, mas já no exacto segundo a seguir à escrita do ponto com que termina este texto.

8 de outubro de 2023

Catequese em Guisande - Ontem e hoje

 


Ontem, Sábado, 7 de Julho, a comunidade paroquial de Guisande passou um pouco ou mesmo muito ao lado do centésimo aniversário do seu mais velho cidadão vivo, mas nem sempre a estas coisas é marcado aquele bocadinho de merecimento, mesmo que na ondulação da brisa dos dias. Falta-nos, no geral, alguma poesia para ver em algo centenário um pouco mais para além do óbvio.

Também ontem na missa das 17:30 horas, animada musicalmente pelo Grupo de Jovens de Guisande, aconteceu a simbólica apresentação e o envio do grupo de catequistas e sua distribuição pelos diferentes anos de catequese. Como muito bem referiu o pároco Pe. António, este grupo de catequistas não é composto por pessoas suas funcionárias nem criados ou criadas dos pais dos catequisandos, mas antes colaboradores. 

É pois, de louvar e enaltecer quem, privando-se de algum do seu tempo pessoal e familiar, semana após semana, encontra tempo, espaço e dedicação para assegurar o serviço de catequese às nossas (cada vez menos) crianças.

Infelizmente, sem paninhos quentes e falsos moralismos, bem sabemos que a catequese enfrenta também os sinais dos novos tempos e são já muitos os pais que consideram ser a catequese um frete e que sem qualquer problema dispensam os seus filhos dessa hora semanal de convivência, orientação moral e cívica. Preferem levá--los aos treinos e jogos do futebol ou qualquer outra coisa de lazer. Um pleno e legítimo direito e não é por isso que são piores ou melhores que os demais. Apenas opções e no uso de liberdades, direitos e garantias. De resto, já ninguém quer o esforço de semear e plantar para depois colher. Numa sociedade consumista, queremos já  comprar pronto a consumir, sem o trabalho de semear e colher. Por conseguinte, a jusante, nem sempre os frutos são bons e até, tantas vezes, podres, mas é o que é e cada um faz como muito bem entende. 

Todavia, apesar destes novos tempos tão singulares, importa valorizar ou pelo menos relembrar o importante papel que a catequese sempre teve na nossa paróquia e que de algum modo ajudou a modelar positivamente várias das nossas gerações. Por exemplo, na foto acima, vê-se o retrato de um grupo de catequese no ano de 1974. Era catequista a Sr.ª Aida Almeida (que não tendo sido minha catequista, ajudou-me na aprendizagem da doutrina para a comunhão solene).

Alguns do grupo. embora de uma geração anterior à minha, consigo identificar, mas deixo essa tarefa para outros ou mesmo para os felizes retratados. Digo felizes porque são escassas as fotografias relacionadas à catequese por esses tempos.

21 de setembro de 2023

...estás tolinho!

Já não sei o que faça. Ontem, ao passar por ele em passo de corrida, e não querendo parar, não por desconsideração mas para não perder o ritmo, o meu amigo Carlos Cruz ali no ecoponto de Fornos cumprimentou-me com um "...estás tolinho!". 

E porventura, concordando, devo estar mesmo tolinho por já com esta bonita idade andar por estas nossas estradas e caminhos a correr, não a treinar para corridas a sério, que isso é coisa para campeões, com provas marcadas a cada semana e que pagam para nelas participar, mas apenas para ter algum controle de peso, pois este descontrola-se mesmo que ande só a pão e água. Caprichos dos metabolismos, dizem-me.

Mas o problema destas coisas, destas tolices, é que dá a impressão a alguns, incluindo ao Carlos, que isto de me verem a correr é coisa de agora e de modas. E não é, de todo,  já que corria em solteiro, e mesmo já depois de casado, e só não com a frequência de agora porque com problemas estruturais que me faziam desistir, a ficar-me pelo futebol, e volta e meia voltar a retomar.

Também joguei futebol de salão semanalmente durante mais de 20 anos e pelo menos há 15 anos a pedalar com regularidade por montes e vales arouquenses e arredores, a subir freitas, bonecas e camoucos, enfrentando subidas de 15% ou mais. Para além da fininha de estrada, mesmo de BTT, com o Luis B (outro tolinho com que me cruzei ontem) andei alguns anos a correr tudo quanto é caminho e mato pelas redondezas. Ou seja, esforcei-me para não desmazelar a actividade física mas sempre sem preocupações de grandes feitos e sem qualquer espírito competitivo que me faça sequer sonhar em participar em qualquer uma das milhentas provas, porque, desde logo, quem andou não tem para andar.

Mas sim, alternando com bicicleta e caminhada tenho corrido com regularidade há quase ano e meio, sem qualquer preocupação de ritmos e tempos, que nem sempre registo, mas percebendo que com a minha idade e ainda o com o meu peso, acima do que devia saudavelmente pesar,  não faria má figura ao lado de alguns campeões bem mais novos e mais leves.

Mas feito o desabafo e a explicação, o Carlos teve a consideração certa e que a maioria pensa, porque na realidade eu e muitos vamos andando por aí a correr, a queimar calorias, umas vezes ao sol outras à chuva, parecendo "tolinhos", quando é bem mais fácil ficar parado, quando muito a aventurar a as umas curtas caminhadas nos passadiços a ver a beleza que passa como em Ipanema, e a evitar desníveis que façam soltar a língua de fora. 

Sendo assim, lá vamos andando, correndo e saltando, mesmo que com ares de "tolinhos", pelo menos até que os ossos, digam: -parou, parou, parou!

Festa, hoje há festa...

Pode ser apenas uma percepção minha, mas verifico, e não é naturalmente só no nosso município e nas nossas freguesias, que as autarquias gastam cada vez mais dinheiro em eventos notoriamente recreativos, em que se aliam a dita gastronomia, na forma popular de comes-e-bebes, com programas musicais, supostamente para todos os gostos mas tantas vezes sem gosto nenhum, mas de modo geral com grandes gastos. Para além disso, muito dinheiro dos escassos orçamentos são também canalizados como apoios para eventos desportivos, nomeadamente corridas, que agora são mais que as mães, msmo aquelas, quase todas, promovidas com fins lucrativos.

Admito e compreendo que o recreio, o lazer e a actividade desportiva são importantes e fundamentais, mas dá para perceber que começa a haver algum desequilíbrio entre as necessidades de pão e circo e outras que realmente melhoram o quotidiano e as condições de vida das pessoas, nomeadamente ao nível das nossas estradas, equipamentos, apoios sociais, etc.

Veja-se, ainda agora a Câmara Municipal de Arouca vai gastar, creio que li ou ouvi, 400 mil euros, para as Feira das Colheitas que terão lugar neste próximo fim-de-semana. Todavia, e como paradoxo, eu que percorro de carro e bicicleta muito desse belo concelho, há ainda estradas que são óptimos caminhos de cabras, por isso em muito mau estado e ainda com redes públicas de águas e saneamento a não chegar a grande parte das fregusias. Por conseguinte, poupa-se na requalificação de estradas mas traz-se à praça uns tais de Calema, Pedro Mafama e outros. O povo até é chamado a escolher os artistas, por isso tudo muito democrático.

Claro que Arouca aparece aqui como mero exemplo, porque cá pelo nosso concelho a coisa não fica por menos, nem nos demais. Todos tendem a copiar e aplicar a receita porque hoje em dia estas coisas têm repercussões nos mídia e redes sociais. Justificam-se com um certo senhor "retorno económico"  mas na realidade é daquelas coisas que se atiram para o ar porque regra geral esse senhor fica-se por um grupo priveligiado de grupos e empresas que acedem a esses espaços. No geral, no bolso das populações, não cai um cêntimo que seja desse "senhor retono".

Mas é isto e é assim porque, percebem os diferentes autarcas, são medidas populares, popularuchas e com elas ganha-se simpatia e depois os votos quando chegar a hora. Por conseguinte, a velha fórmula do tempo dos romanos de manter a populaça satisfeita ainda reside no pão e no circo. Ontem como hoje as coisas pouco mudaram a este nível.

Em resumo, tudo é importante, incluindo o pão e o circo, e também gosto, mas importa que as autarquias não padeçam da tentação do desequilíbrio e gerando paradoxos, ficando-se apenas pelo que é popular. Esse equilíbrio não é fácil, pois não, mas na dúvida ganha o que em cada momento parecer mais popular.

Fruta da época e os senhores Necas

O senhor Manuel Alves, o nosso Nequita, apesar dos seus já 90 e picos, ainda vai à missa, a conduzir e leva com ele a esposa, a senhora Tina. É bonito, caso raro e contrasta ou acentua a cada vez mais notória ausência de jovens e adolescentes que, desobrigados daquelas celebrações da catequese que ainda vão tendo enquanto são menores, pouco mais que crianças e ainda guiados pelas mãos dos pais, deixaram de frequentar a igreja. Mas isto nada tem de falso moralismo porque eu próprio tenho cá em casa um exemplo dessa ausência que caracteriza a juventude, mesmo considerando que, no caso, tem um turno de trabalho (nocturno) que não ajuda. Mas nestas e noutras coisas, como os outros, é de maior idade, livre e decide por si próprio.

Seja como for, são sinais dos tempos e parece-me (cá está este pessimismo de quem já não vai para novo) que mesmo com o êxito da recente Jornada Mundial da Juventude que refrescou de juventude as nossas paróquias e o país, com mais de um milhão e meio a desaguar no Tejo em Lisboa no início de Agosto passado, em rigor pouco vai inverter esta tendência. 

Mesmo o nosso e os outros grupos de jovens ligados à Igreja e ás paróquias, sendo que formados por bons rapazes e raparigas, em rigor pouco acrescentam à diversidade etária das assembleias nas nossas missas porque quase sempre estão ausentes. De resto, tirando um ou outro momento, têm pouco tempo para participar porque a escola, a universidade e já responsabilidades profissionais, deixam pouco tempo para a  assiduidade, mesmo que dominical.

É o que é, mas, sem falsos moralismos, não vejo como inverter. Os novos tempos têm novos desafios e excelentes oportunidades, mas com eles perdem-se também bons velhos hábitos. Boas excepções sempre haverá, aqui e em todo o lado, mas já não são regra.

Assim, ainda bem que ainda temos a juventude de alguns senhores Necas para contrabalançar esta realidade. Sem ironias.

12 de setembro de 2023

Gatões e ratinhos

Na vida real ninguém, presumo, gosta de ver um adulto a bater numa criança ou num inadaptado, mas no futebol de selecções ao mais alto nível isso acontece sem esmorecimento. 

Não se percebe, pois, o que selecções de futebol como Luxemburgo, S. Marino, Andorra, Ilhas Faroé, Liechtenstein, Gibraltar, Malta e outras que tais, andam por ali a fazer, a não ser de figuras de meigos passarinhos para os gatões os depenarem e se lambuzarem.

Mas dizem os entendidos nesta matéria difícil do chuto na bola, que as senhoras FIFA e UEFA, duas gatonas gorduchas e ávidas por whiskas com cifrões, não se incomodam com isso porque quanto mais selecções, mais jogos e mais direitos. Com jeitinho ainda lá metem os Açores, a Madeira e as Canárias.

Poderia e deveria haver um sistema de divisões,  ou então, mal por mal, um sorteio puro e duro, pelo menos para se garantir um princípio de aleatorieadde; Mas não, a FIFA e a UEFA não querem saber disso e para além desse desequilíbrio notório, ainda o potencia e confina com o sistema de potes, à moda dos antigos fojos que os pastores usavam para caçar os malvados dos lobos que lhes apanhavam os mansos cordeirinhos. Assim, com este sistema de pirâmide, garante-se o direito de que a dois gatos mais fortes, cabem sempre um ou dois ratinhos tenros. 

Mas a quem incomoda isto? À maioria era vê-los, ontem, todos rejubilosos, no Algarve, a festejarem a cabazada ao Luxemburgo, como se fosse um jogo de hóquei em patins. Só lá faltava o Ronaldo para somar mais uns quantos.

Se o futebol competitivo é isto...

11 de setembro de 2023

Coretos pequeninos - A propósito


A propósito do poema que há pouco aqui publiquei com o tema do coreto pequenino, importará, creio, alguma explicação. De facto a inspiração surgiu da foto que acompanha o poema, com o pequeno e bonito coreto junto à capela de Nossa Senhora da Ribeira, na freguesia de Fajões, concelho de Oliveira de Azeméis, onde decorria a festa. Ali vazio, inútil, porventura a estorvar, e ao lado dois grandes e modernos palcos onde se exibiam alternadamente duas boas bandas de música, vizinhas, a de Fajões e a de Carregosa ( e que pena que raramente venham à nossa festa). 

Ao som da bem executada abertura da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner. (1845) pela centenária Banda de Carregosa, não deixei de reflectir sobre essa situação que é sinal dos tempos. De facto há pelo país e mesmo pela nossa região centenas de bonitos coretos, outros nem por isso, abandonados à sua função e que agora não passam de inutilidades. 

No seu tempo foram feitos à medida das filarmónicas, então com pouco mais que uma dúzia de músicos ou um pouco mais se bem apertadinhos. Mas as bandas cresceram, duplicaram e até mesmo triplicaram em executantes e hoje em dia qualquer modesta banda tem meia centena de músicos. Ainda bem, digo eu, porque é sinal que apesar de ainda muito desconsideradas no seu papel, e facilmente preteridas numa qualquer festa por um vulgar cantor pimba e suas bailarinas, são um expoente da nossa melhor cultura e congregadores de comunidades. 

Recordo, da minha infância, e muitos se lembrarão, mesmo na nossa festa do Viso onde quase todos os anos se montavam dois pequenos coretos, em madeira, vindos da Casa da Quintão e da Casa do Sr. Gomes, onde se alojavam duas bandas de música que só por si compunham o programa musical da festa. O palco, para os ranchos e mais tarde para os conjuntos típicos, era um simples estrado em tábuas de madeira que se montava no próprio local. Só mais tarde é que começaram a surgir os palcos com estrutura metálica e cobertura em lona e de lá para cá, como os eucaliptos, vão crescendo em tamanho, em altura. Não sei onde irá parar tal crescimento e um dias destes no Viso será montado um palco mais alto que o velho sobreiro. Haja limites, até porque um palco enorme para acomodar um comediante ou um artista a solo ou alguém a pôr discos, acaba por ser despropositado.

Mesmo o actual coreto, construído pelo final dos anos 90, depressa se tornou atarracado e dispensado à sua função e já pouco serve. Qualquer cantorzeco pimba recusa ali actuar. Para um rancho é pequeno e obriga a montar o estrado que é complicado e trabalhoso e já nem sei se em condições. Para uma banda é igualmente pequeno, mas ainda capaz.  Está, pois,  ali como um mero ornamento, a precisar de pinturas e manutenção que se não fazem. 

Mas, nesse crescimento das bandas filarmónicas, naturalmente que os velhos e pequenos coretos deixaram de ser prestáveis e assim são dispensados da tarefa. Alguns, apesar do seu valor histórico e patrimonial, foram mesmo abaixo ou mudados para não estragarem os planos às comissões de festas para ali montarem enormes palcos, alguns que até chegam em camiões. Veja-se que mesmo em Guisande, na nossa festa do Viso, ainda o ano passado, para além do coreto sem qualquer função prática como atrás justificado, havia um palco enorme e, como se não bastasse, chegou ainda um enorme camião palco, dos Tekos, que se colocou à frente da capela pondo esta num plano secundário. Opções!

Nestas coisas não há contemplações: O tempo é feito de mudanças e com ele e com elas é deixado para trás tudo o que não serve nem se adequa. É inevitável e não há aqui qualquer surpresa mas apenas uma constatação e igualmente uma impotência para suster ou mudar seja o que for, porque a força do tempo é cósmica e não há como nos opormos a ela.

Em todo o caso, quanto aos coretos, mesmo que inúteis porque pequenos e inadapatados às modernas grandezas, importa que sejam conservados e valorizados, até porque os há como autênticas obras de arte. A destruição ou o abandono à ruína é que será mais lamentável que ficarem vazios sem o só-li-dó.

8 de setembro de 2023

Figuras típicas e castiças e pouco ou nada

Há pelas nossas terras, sobretudo pelas pequenas aldeias, pessoas que pelas suas particularidades se tornaram de algum modo emblemáticas, castiças ou ditas típicas. Seja pelas características físicas e de idade, de linguagem, de profissão ou outras, certo é que adquiriram esse estatuto perante a comunidade, mesmo que em rigor nada fizessem por isso.

Ora nos tempos que correm, tão ligados à importância da imagem e do antes parecer que ser, temos a tendência de colocar essas pessoas num certo pedestal, que mais não seja a modos de exibição, e neste aspecto as redes sociais dão uma grande ajuda, senão toda.

Apesar disso, e dessas pessoas só por si representarem esse estatuto perante os seus concidadãos, nem sempre correspondem a uma valorização decorrente de um ponto de vista de qualidade de cidadania e intervenção cívica no próprio meio onde habitam e têm o seu espaço.

Não faltam, pois, por aí, figuras bem típicas e castiças mas que em rigor nunca nada fizeram de concreto como acto de cidadania ou de participação em todos os momentos comunitários. Nunca fizeram parte dos movimentos políticos, de uma junta ou assembleia de freguesia; nunca integraram uma comissão de festas de arraial ou de igreja; jamais participaram num passeio ou num evento comunitário; nunca articiparam em grupos ligados à igreja ou ao apoio social; também passaram ao lado das responsabilidades numa associação cultural ou clube desportivo; mesmo quando solicitados em peditórios e campanhas de angariação de verbas para os diversos fins da comunidade, não aparecem à porta ou se sim com as mãos vazias e ainda a soltar cães ou pregar sermões.

Apesar de tudo, mesmo com todo este estatuto de nada fazerem nem mexerem uma palha a favor da comunidade onde se inserem, continuam a ser tidos como figuras importantes, singulares. Pelo contrário,  aqueles que em todos os momentos foram participando activamente, contribuindo e colaborando na vida comunitária, só porque não tão típicos ou castiços, porventura mais discretos nas suas acções, acabam tantas vezes esquecidos e pouco ou nada valorizados e até mesmo desconsiderados. Esta é uma situação que ocorre em muitas comunidades e mesmo aqui em Guisande temos exemplos concretos de ambas as situações, os típicos que nada fizeram e os que muito contribuiram mas desconsiderados.

Em resumo, devemos valorizar todos os nossos concidadãos, é certo, mas sempre na justa medida e dar mais apreço a quem de facto se destingue pelo que faz e não apenas pelo que parece ser, por mais típico que seja. Acima de tudo devemos, tanto quanto possível, ser justos já que nem sempre o somos e custa-nos a reconhecer os méritos de tantos só porque não são das nossas relações, do nosso clube, do nosso partido ou não vão connosco à bola.

Nesta como noutras situações, fica sempre bem "o seu a seu dono" ou mesmo "separar as águas".


[imagem: D´Évora com Amor]

7 de setembro de 2023

1.º Direito e 2.º Esquerdo

A propósito, ou não, de um certo programa de apoio e acesso à habitação, em sequência ou consequência de uma certa  estratégia local de habitação, que grosso modo aproveita financiamento da teta europeia do dito Plano de Recuperação e Resiliência (PRR):

O tal programa visa apoiar a promoção de soluções habitacionais para pessoas que vivem em condições habitacionais indignas e que não dispõem de capacidade financeira para suportar o custo do acesso a uma habitação adequada. Coisas bonitas.

Mesmo tendo lido na diagonal os documentos e apesar dos bons pressupostos, há à partida, parece-me, um princípio de igualdade que não é lá muito bem equacionado.

Um exemplo: Um agregado familiar que reúna os requisitos de baixos rendimentos para ser apoiado, mas que tem uma habitação de razoável qualidade e com todas as condições de habitabilidadde, e têm-na porque para a construir ou comprar contraiu um empréstimo ao Banco, à qual está hipotecada, e que paga mensalmente até à sua idade da reforma, fica de fora desta equação apesar de continuar com as dificuldades económicas inerentes ao peso da prestação do crédito habitação. 

Assim vamos tendo gente em habitação social acomodada, com bons carros, bom viver e a escapar aos inconvenientes de comprar terreno, fazer projecto, construir casa e pagar o crédito habitação e ainda os injustos IMIs como uma renda. Em rigor, o Estado e muitas autarquias limitam-se a apoiar a habitação a quem pouco ou nada faz por tê-la, mesmo que com as mesmas condições e rendimentos de milhares que o fizeram. Os exemplos estão à vista de todos. O pior cego é aquele que não quer ver.

Em resumo, estas políticas apresentam-se como boas intenções, e aproveitará sempre a uns quantos, mas que depois na realidade não servem nem se adaptam à generalidade dos casos.

Além do mais, muitos dos pressupostos do programa cheiram a esturro porque casos há em que os cidadãos se metem a requalificar uma velha habitação e só porque abrem uma janela ou uma porta extra, são esbarrados, coimados e confrontados com a  necessidade de licenciamentos que regra geral são demorados e caros, desde os projectos às taxas de urbanização e licenças. Poderia passar por aí alguma ajuda até porque os ditos planos de reabilitação dos nossos núcleos urbanos não passam dos PDFs e das intenções.

Por conseguinte, é tão bonito passar as ideias para PDFs e lançar uns programas jeitosos que depois, na realidade, servirão a poucos. Um pouco como certas câmaras municipais e juntas de freguesias a darem cheques a mamás e e papás, pobres ou ricos, como se isso sirva para alterar os problemas de fundo da natalidade e demografia. Quem não gosta de prendas? Todos gostamos e tiramos fotografias sorridentes a recebê-las. Mas isso, para além de poder render mais uns votos futuros aos promotores, resolve o quê em concreto? 

Seja como for, tudo o que se possa fazer por quem realmente tem necessidades e dificuldades nesse direito básico que é a habitação condigna, é sempre positivo, mas dispensa-se o folclore e acima de tudo que haja um critério rigoroso para ajudar a quem realmente precisa. 

4 de setembro de 2023

Santa farturinha ou vender cabritos sem ter cabras

Creio que já abordei por aqui esta particularidade, mas tenho para mim que um dos bons indicadores da saúde financeira dos cidadãos, tanto ou mais que o INE - Instituto Nacional de Esatatística, é o ligar para alguns dos restaurantes cá da zona e mesmo que com duas horas de antecedências, e outros de dias ou semanas, e de lá informarem recorrentemente que estão cheios em reservas. 

Ainda um dia destes, num dos locais envolventes à ria de Aveiro, à porta de um certo restaurante onde se diz comer bom "peixinho", antes duas horas de abrir ao meio-dia informou estar todo reservado e com lista de espera para depois das 14 horas. Arranjei um alternativo, próximo, mas mesmo esse a partir das 12 horas começou a encher e ainda antes das 13 estava a abarrotar.

Mesmo por cá, ainda no Sábado, para jantar, dos três que contactei uma hora antes, já estavam reservados na totalidade. Na insistência e com o compromisso de estar à mesa às 19, e a despachar, lá se conseguiu mesa para dois num deles. Escusado será dizer que saí e ainda havia mesas vazias, porque isto de reservas tem que se lhe diga, sobretudo quando os restaurantes aceitam que uma mesa reservada fique ali vazia até que os senhores doutores lá cheguem às horas que entenderem. Coisas, mas é lá com eles. Por mim, as reservas teriam que ser preenchidas logo à primeira hora. 

É certo que este meu indicador de boa saúde nos bolsos e carteiras da nossa malta, por vezes são tiros ao lado, pois o que não falta por aí é rapaziada boa que goza férias à grande e à francesa, em locais mais ou menos paradisíacos, e fazem por o mostrar nas redes sociais, com empréstimos contraídos para o efeito. Mesmo que nunca o tenha feito (credo em cruz), é legítimo e nada contra com quem o faz, mas é uma situação que nos faz ter em conta que nem sempre o que parece, é. De resto a este propósito, gosta de dizer o meu amigo  José H. que o seu carro é modesto mas que não está em nome de um qualquer Banco ou empresa de leasing. - Estás fora de moda, caro JH!

Mas como é tão típico dos portugueses, primeiro gozar, segundo gozar e depois logo se vê, quem sabe se com uma ajuda do Governo...

Seja como for, a malta no geral ainda anda folgada, pelo menos o suficiente para encher depósitos de combustível dos seus bons carros, ocupar alojamentos e reservar restaurantes. Perante estas evidências, que dizer? É positivo, digo eu, que, com desconsolo, ainda não descobri como vender cabritos sem ter cabras.

Viva la vida! Olé, olé!

27 de agosto de 2023

Zé brasileiro português de lado nenhum


Não é apenas uma percepção de quem anda por zonas urbanas e frequenta serviços, sobretudos ligados ao turismo, como alojamentos e restauração, de que estamos "infestados" de estrangeiros e principalmente de brasileiros nessas actividades, mas, também me parece, é mesmo uma constatação notória.

Confesso que nada tenho contra estrangeiros, incluindo os brasileiros, até porque uso a máxima de que todos são bem-vindos se vierem por bem e acrescentarem valor, a eles próprios, naturalmente, mas também ao país, cidades, vilas e aldeias que escolheram para, de algum modo, encontrarem melhores condições de vida para si e para os seus. Quem não vier nem estiver cá com esses pressupostos básicos, para além do respeito por cultura, religião e história locais, querendo impor as suas, não é bem-vindo e estará cá a mais. Nós, portugueses, sempre fomos exímios nesse respeito e por isso sempre fomos bem sucedidos e admirados nas várias partes do mundo para onde emigramos.

Apesar de termos em Portugal um historial de crimes recheado de brasileiros, e quem percebe da poda vai dizendo que a bandidagem brasileira encontra por cá bom paradeiro, políticas displicentes, uma autoridade sem autoridade, um regime penal suave, etc, creio, todavia, que no global são pessoas de bem e que facilmente se integram e também são bem acolhidos pela sua natural proximidade linguística, de simpatia e mesmo de competência. Vejo isso, por exemplo, na minha dentista, que é brasileira ou junto de outros profissionais com quem tenho cruzado. De resto tenho familiares e amigos do e no Brasil.

Por conseguinte, com uma politica de décadas que tem levado a uma baixa de natalidade consistente e por isso com a população a regredir a olhos vistos, mesmo com um território pequeno, resulta claro que o nosso país está a ficar despovoado, concretamente no interior. Assim, o fluxo imigratório é importante se bem orientado para que, de algum modo, se possa pelo menos estagnar algumas hemorragias no nosso tecido populacional. Mas mesmo isso será sempre difícil porque no geral quem cá chega como imigrante, tal como os portugueses, opta pelo litoral, pelas zonas urbanas e assim as zonas interiores continuam a padecer do mesmo problema. Os que por lá passam são no geral em contextos de trabalho sazonal e mesmo precário e por isso o problema continua e até, porventura, agravado pela natureza dessa precariedade e descontrolo.

Em todo o caso, este é um assunto para os especialistas da demografia e das políticas de migração e trabalho. A minha opinião e percepção é apenas a de um simples cidadão.

Mas todo este prefácio para chegar a uma questão que, pelo menos a mim, importa: Por exemplo: Ainda por estes dias, num hotel de uma zona interior deste nosso Portugal, fui servido por um funcionário, português, a quem me interessou saber o nome e se era dali da zona ou de outro local do país. O Rui disse-me que sim, que era mesmo dali e por conseguinte, durante as várias refeições, com ele fui travando uma certa relação com alguma simpatia e cordialidade. Não sei como os outros fazem e gostam de fazer, mas seja num hotel ou num restaurante, gosto de saber o nome das pessoas que me servem e de onde são. Talvez um dia sejamos servidos por máquinas - o que já é verdade em muitas situações - e nessa altura saber se é a Maria ou o Manel, a Alexa ou a Siri, servirá de tanto como limpar o cu a um ouriço de castanhas. Mas por enquanto é algo a que ainda valorizo e faço por cultivar.

Assim, nesse contexto de alguma proximidade que se foi gerando, naturalmente que a um nível meramente profissional, fui questionando o Rui sobre alguns aspectos locais, sobre um ou outro lugar, monumento ou até de tradição e cultura. E o Rui mostrou que sabia da poda e mais do que isso, sentia o que dizia porque, afinal, falava de coisas que conhecia mas que fizeram parte da sua condição de homem daquela terra e região. 

Ora eu pergunto-me se a experiência seria a mesma se fosse servido por um qualquer Édson brasileiro de Florianópolis ou um ucraniano de olhos azuis? O homem até poderia aprender e dominar a língua, estudar a geografia e a história e informar-me, se eu fosse inculto ou ignorante a esse ponto, sobre as coisas daquele local ou região. E até poderia fazê-lo com eficiência mas não seria a mesma coisa pela simples e natural razão de que falaria como um autómato, porque a verdadeira vivência e conhecimento intrínseco, esses nunca os poderia ter. O Rui explicou-me, com um brilho no olhar, o "gancho de Loivos", o atalho para o Senhor do Monte, as particularidades do Arcossó, a tradição do S. Frutuoso, a recta do Sabroso e suas histórias, e muitas outras coisas que não vêm nos mapas ou nos roteiros nem nunca seriam do conhecimento de um Zé brasileiro. 

Nestas, como noutras coisas, cada um que coma o que gosta, e há até quem vá aqui, ali e acolá, só para marcar o ponto como na baliza de uma prova de orientação, para dizer à malta e ao mundo que já esteve em todos os sítios XPTO, incluindo na galeria de vinhaça do Oxalá, mas nada se compara a ir a uma aldeia remota e deixar-se embalar pelas memórias e vivências de um velhinho alquebrado, a descansar à sombra de um pé de videira ou de um Rui, profissional da restauração, a servir Arcossó branco e a falar não só do que percebe mas do que sente.

Boas férias!

26 de agosto de 2023

Paradoxos do tempo





Há neste nosso Portugal, em todo o lado mas sobretudo no profundo, no interior, resquícios de outros tempos, de outras formas de ser e viver, que expostos ao diafragma dos olhares destes dias, apresentam-se como nostálgicos, mas em muitos casos como simbólicos e verdadeiros paradoxos, como que dedos indicadores em riste, a acusar quem durante décadas deixou que isto acontecesse. 

Poderia o passar dos tempos ser de renovação constante e serena, sem revoluções ou, como agora é tão na moda dizer-se, de adequação, valorizando-se em nome do respeito pelos esforços de passados e antepassados, mas não. Nada, ou muito pouco se fez, porque a voragem de visões políticas com equações que nunca tiveram em conta as pessoas e muito menos as suas terras e aldeias, não se compadeceram com lirismos e assim elas padeceram e pereceram. Atenuaram-se aqui e ali uma ou outra ferida, mas no geral elas são profundas e já cicatrizes e por isso irreversíveis à delicadeza da pele dos tempos. Não é um jogo de palavras ou um fácil trocadilho de circunstância, mas a realidade.

Esta placa, na fotografia acima, ainda caiada e vigorosa na sua função de aviso, foi deixada ali na berma de um ramal de caminho de ferro, hoje em dia uma ruína, um simples passadouro de cabras ou lagartixas. Os poucos humanos que por ela passam, a correr ou de bicicleta, é para aproveitar o traçado para uma corrida de exercício físico e a maior parte deles nem se dará à canseira de ver para além do sítio onde põem os pés ou a roda dianteira. E parar para tirar umas fotografias é estragar a merda da média ou então estar a quebrar o ritmo. É pouco, é muito pouco!

A correr, por estes dias, percorri por essa, dita agora ecovia, uns quase 20 quilómetros (a ir e voltar), e se o olhar se foi enchendo de paisagens  e da aspereza delas, como são em grande parte as desse reino maravilhoso de Miguel Torga, a alma condoía-se por essa pobreza do abandono e da incúria.

Esta placa é assim uma pura inutilidade quanto ao alerta que faz, porque ali nem passam pessoas, mesmo animais, poucos e desassossegados pela dureza das fragas, alguns pássaros livres, mas seguramente por ali já não palma a terra e os carris o comboio que outrora ligava Vila Real a Chaves, ali pelos vales e encostas do Corgo e do Tâmega. De resto, dos carris, já nem sinais deles. 

Já não há comboio, nem locomotiva num lufa-lufa, nem gente a caminho das aldeias, vilas e cidades transmontanas e os apeadeiros e estações são apenas lúgubres ruínas e se neles se ouvem ecos, são seguramente de fantasmas. E serão muitos esses espíritos que por ali ainda vagueiam, mortificados por perceberem ao que isto chegou. Em grande parte, é simbólico que uma grande fatia do nosso pequeno território não seja mais que terra de fantasmas. Mas para os ver e sentir os seus ecos, é preciso sair das autoestradas e dos IP,s e entrar em ruas estreitas e vielas cagadas por algum gado que ainda é a razão de ser de alguns idosos resistentes ao apelo do litoral, e pouco mais.

Vamos ver no que a coisa dará, mas já não haverá plano de resiliência, ou seja lá o que isso for, que nos valha. O mal já foi feito há muito. 

20 de agosto de 2023

Panis et circenses, sufficiunt

Quando percorro uma certa freguesia vizinha, seja de carro, de bicicleta ou como ainda hoje a correr, pergunto-me se esta terra tem alguma coisa parecida com uma junta de freguesia que cuide e trate das suas coisas mais elementares, para além de registar uns cães ou mandar abrir as covas para quem falece, mesmo que a cobrar por isso? A resposta a mim próprio é de dúvida e não de certeza, porque pelo menos por aquilo que é dado a observar, pelo aspecto de abandono e desmazelo dos espaços públicos, ruas, valetas e passeios, parece que não, que não tem.

Mas tem, concerteza, porque de tempos a tempos lá vai havendo eleições e alguém, por vezes repetidamente, acaba por vencer. Mas volto a perguntar a mim mesmo quais são os critérios dos eleitores que escolhem aqueles que serão eleitos? Pela sua capacidade de fazerem bem, em prol de todos, com qualidade e competência, ou no caso e como no caso, em contexto de uniões de freguesias, por alguém que trata melhor da sua do que a  dos outros? Talvez sim, talvez não. Em rigor, por mais que nos digam que a fantástica democracia é isto mesmo, que somos todos nós a escolher e a legitimar quem nos representará, a verdade é que isso é mais ou menos uma treta, poque na realidade 51 decidirão sempre por 49. Dirão, concerteza, que é na aceitação dos 49 pela escolha dos 51 que reside a virtude da democracia. Será, pois será, até porque em rigor não há sistemas alternativos perfeitos, mas para qualquer um dos 49, será indiferente que sejam 51 a decidir por si ou se apenas 1. 

Em todo o caso, não há volta a dar nestas equações e continuará a ser assim até que o povo queira. Por isso, e tomando como exemplo de que nem vale a pena citar nomes, até porque é chapéu que facilmente encaixa em várias outras cabeças, os eleitores das freguesias maiores, mesmo que sem essa objectividade e propósito, decidirão sempre o que fazer com as menores, incluindo o seu esquecimento, já para não dizer desprezo. 

Mas, verdade se diga, esta minha interrogação e dúvidas, que poderão ou não ser partilhadas por outros, no geral não preocupam, porque, mais arroba menos quintal, somos pouco exigentes e havemos sempre de marcar o nosso voto em gente de boa vontade mas incapaz, honrada mas ineficaz, no que toca a esta coisa de gerir os interesses comuns de forma justa, equilibrada e proporcional e até no princípio de reduzir a velocidade de quem vai à frente para que os mais atrasados se aproximem e todos possam caminhar à mesma velocidade. 

Ao fim e ao cabo,  para manter esta pouca exigência do povo,  bastará à maioria que na devida medida não lhes falte o pão e o circo, tal como já há  mais de dois milénios os romanos tinham como orientação para governar Roma e o resto do império. Por isso, no geral, lá vamos nós todos contentinhos com pulseiras nos pulsos abastecer-nos das nossas doses de pão e circo e assim vamos andando acomodados, pelo menos pouco exigentes com quem nos deve servir num sentido de cidadania de todos para todos e não de alguns apenas para alguns. A quem interessa que uma rua esteja esburacada há longos meses, se não é a nossa rua ou por ela não temos necessidade de transitar? A quem interessa que alguém deixe uma obra pública inacabada durante longos meses, num laxismo e desresponsabilização, quase mesmo num desprezo absoluto pelos contribuintes e cidadãos? A quem interessa que os orçamentos se esvaiam significativamente em pão e circo?

As nuvens são macias e dizem que doces, pelo que a muitos pouco importará descer à terra,  à dureza da realidade. Assim sendo "panis et circenses, sufficiunt".

6 de agosto de 2023

Quem se importa?

Quando um evento de entretenimento se transforma num parque de diversões a cobrar bilhete e  impede o cidadão comum de usufruir do direito constitucional à liberdade de circulação de um amplo espaço público, que é de todos, e tanto mais em zona nobre de uma vila ou cidade, não por duas ou três noites mas por duas semanas, algo está mal ou pelo menos e seguramente desproporcional. Mas há quem se entusiasme e regozije por isso e até ajude à festa. 

Não surpreende, pois, que, sendo assim numa suposta democracia, seja demasiado fácil implementar as ditaduras. A História está repleta desses guias ou manuais de como o bem fazer.

Falta-nos sentido crítico, porque em nome do políticamente correcto e porque parece bem às hordas, vamos andando, já amestrados, a toque de caixa, e tudo nos parece normal mesmo se privados de valores essenciais em nome do não sei de quê e das quantas. 

Tum, tum, ta, ta, tum, tum, tum, ta, ta, tum! - Acerta o passo, ó 21!

3 de agosto de 2023

Coerência ou falta dela

Em regra sofremos todos do mesmo mal no que à coerência ou falta dela (incoerência) diz respeito. Portanto o problema é transversal e não adianta estar aqui a considerar qualquer reflexão como moralista, mas apenas como acto de penitência e num humilde auto-reconhecimento de que somos falíveis quando toca a tomar atitudes consentâneas com o que deveria ser a ordem natural das coisas.

Feita a introdução, como caso concreto falo dos largos milhares de euros que algumas comissões de festas gastam anualmente em foguetes, em bandas e artistas, tudo para puro entretenimento, quase sempre de qualidade duvidosa mas de agrado fácil, e, no entanto, e lá está, sem uma coerência de base, as capelas e igrejas de que cujos patronos motivam a festividade, estão tantas vezes com mau aspecto, a precisar de investimento em obras de conservação. 

Veja-se, como mero exemplo, o caso da bonita e honrada freguesia de Romariz que por estes dias e coincidindo com a nossa festa terá gasto, assim com umas contas feitas por alto, mais de 50 mil euros, com um naipe de artistas de renome no campeonato da música pimbó-popular, e, contudo, com a sua linda igreja matriz a oferecer uma má imagem com as fachadas a precisarem de pintura. Bem sei que a Senhora dos Remédios habita numa tão pequena quanto bonita capela, ali pela proximidade a cerca de 1 Km, mas é certo que o centro da festa ocorreu nas imediações da igreja.

Mas como dizia, este mal é geral e nós, em Guisande, não somos melhor exemplo do que Romariz ou de qualquer outra freguesia, pois mesmo que com um orçamento muito mais humilde e contido quanto aos gastos com a festa, temos igualmente a nossa capela, no exterior, mas sobretudo no interior, com muito mau aspecto, com as paredes salitradas a descascarem e a cobertura a meter água, por isso a precisar de obras de conservação urgentes, de resto já previstas realizar. E ali o probema não é de agora mas de há anos. Vale-nos, pelo menos como atenuante, que já há algum dinheiro angariado para tais obras e que resultou do saldo da festa das edições anteriores e parece-me que se sobrar dinheiro da festa deste ano (o que se espera), também terá o mesmo objectivo. E de um modo geral com a festa do Viso sempre foi assim, com os saldos positivos (felizmente na maior parte dos anos) a reverterem sempre para obras e melhoramentos na capela.

Em todo o caso, como disse, esta reflexão não pretende ser moralista porque o mal é mais ou menos geral, mas talvez devêssemos ter em consideração que tão ou mais importante que ter um artista ou banda de renome numa qualquer festa, importará haver brio, bairrismo e amor próprio com as nossas coisas comuns, como são as nossas igrejas e capelas, pela importância que representam para as comunidades em termos históricos, identitários e sócio-culturais.

Nestes casos em concreto, têm que ser as comunidades a avançar, porque mesmo e com a desculpa que são edifícios que pertencem à Diocese ou à Sé, certo é que se estivermos à espera que tais donos ou entidades do estado as conservem, como seria normal, bem que depressa cairão de ruína, sem apelo nem agravo.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome...

José Saramago, 1922-2010,  escreveu que “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos"

Na realidade todos nós tempos um nome, mais ou menos vulgar, mais ou menos raro e estapafúrdio, mas temos, por imperativos culturais, sociais mas sobretudo administrativos, mesmo que Teixeira de Pascoaes, 1877–1952, tenha escrito que "o nome desfigura as coisas".

Por outro lado, Miguel de Unamuno, 1864–1936, dizia que "o nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a denominação é o acto da posse espiritual".

Hà nestas três fases e pensamentos subjacentes uma estranha contradição e complementaridade. Mas em ambos os casos é um tema interessante e com essência filosófica.

Da frase de Saramago, escrita no seu "Ensaio sobre a cegueira", leva-nos a navegar num mar de várias considerações e uma profunda reflexão filosófica sobre a essência do ser humano e sua identidade intrínseca. 

- A natureza do ser: A frase sugere que existe uma essência, uma característica fundamental dentro de cada indivíduo que é única e que define quem somos verdadeiramente. Essa essência pode ser entendida como a parte mais profunda e autêntica de nossa existência, algo que transcende nossas experiências superficiais e a própria linguagem que usamos para nos descrever.

- O inominável: Ao dizer que essa coisa dentro de nós não tem nome, pode-se inferir que essa essência é tão profunda e singular que não pode ser adequadamente expressa por palavras ou conceitos comuns. É algo que escapa à linguagem e que vai além das categorias usuais em que classificamos as nossas identidades.

- Auto-conhecimento: A frase também nos convida a questionar e a explorar quem realmente somos. O auto-conhecimento é um processo profundo de introspecção e reflexão sobre as nossas motivações, desejos, medos e valores. Procurar compreender essa "coisa" sem nome dentro de nós é uma jornada em busca de entender a nossa verdadeira essência e autenticidade.

- Identidade em constante mudança: Ao afirmar que "somos" essa coisa, a frase sugere que a identidade é fluida e está em constante evolução. Somos seres em processo, e a nossa essência pode ser moldada pelas nossas experiências, relacionamentos e escolhas ao longo da vida.

- Ligação com o universo: Essa "coisa" sem nome dentro de nós pode ser vista também como uma conexão com algo maior, com a totalidade do universo ou com uma dimensão espiritual, com Deus. É uma maneira de reflectir sobre nossa relação com o mundo ao nosso redor e sobre o nosso papel no cosmos.

Em última análise, essa reflexão filosófica convida.nos a mergulhar em questões existenciais profundas e a procurar um maior entendimento de nossa própria natureza e do significado da vida. É um convite para explorar os mistérios do ser humano e de sua conexão com o universo que o cerca. Cada indivíduo pode encontrar significados e interpretações pessoais nessa afirmação, o que torna a reflexão ainda mais rica e diversa.


A.Almeida - 23062022

18 de julho de 2023

Dor, angústia


Será mais dolorosa a angústia

Ou angustiante a dor?

Que poder tem uma sobre a outra?

Complementam-se, antagonizam-se?

A dor e a angústia são experiências humanas profundas e complexas, e é difícil determinar qual delas é mais intensa ou dolorosa. Cada pessoa pode vivenciá-las de maneira única, de acordo com sua história, personalidade e circunstâncias individuais.

A dor pode ser física, causada por lesões, doenças ou traumas, e também emocional, proveniente de perdas, desilusões ou sofrimentos psicológicos. Ela se manifesta como um alerta, um sinal de que algo está errado, e pode ser avassaladora, exigindo cuidados, tratamentos e tempo para a cura.

Por outro lado, a angústia é um estado emocional caracterizado pela ansiedade, pelo desconforto e pela sensação de apreensão. Ela pode surgir diante de incertezas, dilemas morais, conflitos internos ou diante do vazio existencial. A angústia não possui uma causa direta e tangível como a dor física, mas é igualmente impactante e debilitante.

Dessa forma, a dor e a angústia podem entrelaçar-se e influenciar uma à outra. A dor física intensa pode gerar angústia, levando-nos a questionar a própria existência e a lidar com a limitação imposta pelo corpo. Da mesma forma, a angústia prolongada pode desencadear dores físicas, como tensões musculares, dores de cabeça e distúrbios do sono.

Embora possam parecer opostas, a dor e a angústia muitas vezes se complementam e se entrelaçam. Ambas são experiências humanas que nos desafiam, nos colocam em contato com nossa vulnerabilidade e nos convidam a refletir sobre nossa condição. Através delas, podemos desenvolver resiliência, empatia e um maior entendimento de nós mesmos e dos outros.

Porventura, em vez de buscar respostas e determinar qual é mais dolorosa ou angustiante, é importante reconhecer e acolher ambas as experiências como partes integrantes da jornada humana. Ao enfrentar a dor e a angústia com coragem e compaixão, podemos encontrar caminhos de superação, crescimento e transformação. Mas, claro, não é fácil.