Em tudo o que toco, reluz,
O brilho da saudade passada.
Será esta, em bem, a minha cruz:
O ter tudo sem, por mal, ter nada?
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Em tudo o que toco, reluz,
O brilho da saudade passada.
Será esta, em bem, a minha cruz:
O ter tudo sem, por mal, ter nada?
Quando temos algum tempo livre, mesmo que já no queimar dos últimos cartuchos de uma pausa no trabalho, designado por muitos, de férias, há a tentação de deitar mãos à obra e mexer em velhas papeladas, dando o devido destaque a umas, organizando outras e queimando outras mais.
Com esta minha velha mania de guardar caixas e embalagens e outros papéis (e ainda bem, porque à conta disso tenho cadernetas de cromos dos anos 70 a valerem 500 e mais euros, e cromos a valerem 5 euros por unidade), às tantas damos de caras com a box do telemóvel Nokia 6600, da máquina fotográfica Sony DSC-P71, do CD da Sapo ADSL, de uma colecção do “Bits & Bytes” – suplemento do Jornal de Notícias, da colecção da revista PC Guia dos anos 90, revistas dos anos 70, como a Tele Semana e a Crónica Feminina, etc, etc, coisas e tecnologias que ainda há duas ou três dezenas de anos eram a cereja no topo do bolo e que hoje nos parecem as velhas mocas dos homens das cavernas.
As coisas são como são. Nem sempre é saudável mexer no estrume com que plantamos e fizemos crescer as nossas vivências e convivências, mas verdade se diga, tudo o que somos hoje, para o bem e para o mal, somos o fruto dessas árvores.
E posto isto nestes termos, porque guardados, damos de cara com os cadernos diários dos primeiros tempos de escola dos nossos filhos, e dos seus desenhos inocentes, e percebemos que, como num flash, passaram vinte anos, duas décadas.
E o lugar comum de que "ainda parece que foi ontem" torna-se mesmo realidade.
Ficamos assim atados nesta dicotomia do que é mais certo, se o guardar tudo aquilo que um dia nos vem dar um murro no estômago sobre a saudade do reviver em imagens o tempo passado se, pelo contrário, queimar tudo na primeira oportunidade e com isso fazer das memórias e testemunhos apenas cinza que o vento leva.
Tem que se lhe diga. E se há gente que queima os vestígios do seu passado sem o mínimo de esmorecimento, já outros, como eu, teimam em guardar tudo o que um dia nos possa abrir a janela do passado, mesmo que isso nos possa fazer chorar. Se de dor ou de saudade, ou de vergonha, isso pouco importa.
Mas, verdade se diga, com tanto já vivido e incerto quanto ao que virá, pouco importa mudar agora a agulha como num velho gira-discos. O sulco já é demasiado profundo.
Hoje em dia, em qualquer cemitério, mesmo no de Guisande, impera o luxo e a ostentação. Cada vez os jazigos são mais polidos, com decorações e inscrições feitas, não pela mão do artista e do seu cinzel, mas por máquinas comandadas por computadores, com sistemas de laser e outras tecnologias. Arte sem arte.
Mas são sinais dos tempos e, sem julgamentos, nem sempre a ostentação corresponde à memória serena e sentida dos nossos entes queridos.
Noutros tempos, os mausoléus, capelas e jazigos vincavam a riqueza e importância social dos seus proprietários, mas hoje em dia, se é certo que já ninguém os manda fazer em pedra lavrada, a coisa está mais nivelada e a mais humilde família é capaz de mandar assentar um jazigo de pedra cara e todo luzidio.
Na foto acima, no cemitério de Guisande, pelo início dos anos 1960 predominava a simplicidade das campas rasas, apenas com uma simples lápide em lousa. Os canteiros eram delimitados com o buxo, arbusto sempre verde, tão característico dos cemitérios por esses tempos.
Porventura, os cemitérios deveriam ser sítios singelos e tão despidos quanto possível, até em consonância com a simbologia de nada mais sermos que pó. Há culturas que assim fazem.
Mas, de um modo ou outro, as coisas são como são e no fundo o nosso modo de vida em sociedade leva-nos a acompanhar as modas e as tendências, com os seus defeitos e virtudes, e quanto a isso pouco ou nada há a fazer.
Para quem ali é sepultado tudo termina, mas para os que cá ficam, continua a roda do dia-a-dia e com ela a engrenagem lubrificada pelas nossas vaidades, na demonstração do antes parecer que ser.
Assim, como paradoxo, e mesmo reflexão, a singeleza do buxo em contraposição com o luxo.
Sou dador benévolo de sangue desde 1983, altura em que iniciei o serviço militar, mas com regularidade desde Fevereiro de 1991, altura em que em Guisande se iniciaram as colheitas com regularidade bi-anual.
Inicialmente os primeiros eventos de colheita estiveram a cargo do Instituto Português do Sangue – Porto, e posteriormente passaram para a o núcleo de Coimbra, situação que ainda se mantém.
Inicialmente os cartões de dador eram em formato de papel, sendo as dádivas ali anotadas. Depois deu-se a transição para o formato digital com micro-chip.
Em Agosto de 2019, questionei os serviços centrais do IPS para confirmar o número total das minhas dádivas e foi-me respondido que à data contabilizava 27 dádivas. Ora este número não podia estar certo, até porque até 2009 eu já tinha recebido dois certificados correspondentes a 20 dádivas e por isso com direito a uma medalha cobreada, pelo que com mais 10 anos em cima, num total de 20 episódios de recolha, a que sempre compareci, era pouco crível que apenas me fossem contabilizadas apenas mais 7 dádivas.
Questionei ainda o serviço da Associação de Dadores de Santa Maria da Feira mas também não foram capazes de dar a informação global, para além da indicada pelos serviços centrais. Voltei a questionar, anexando novas informações, mas nem sequer obtive resposta.
Na última sessão de recolha efectuada aqui em Guisande - Santa Maria da Feira, em 23 de Julho de 2022, foi-me informado que atingi um número superior a 30 dádivas, ficando, por isso, abrangido com a isenção definitiva de taxas. Mas obviamente poderei continuar a doar sangue, até aos 65.
Inconformado com este número, por estes dias voltei a questionar o serviço central e voltei a juntar argumentos e documentos, incluindo o anterior cartão em formato papel, e finalmente, reconheceram o erro e relacionaram ambos os históricos, pelo que tenho neste momento 45 dádivas efectivadas, e com o tal direito à medalha prateada (40 dádivas).
A medalha é obviamente uma questão menor, mas mais importante é a reposição da verdade. Se um dador concedeu 45 dádivas, porque carga de água lhe hão-de ser consideradas apenas 32?
Lamenta-se que, nestas como noutras coisas, os serviços por vezes falhem e não sejam capazes de agir com rigor e justiça. Felizmente, por força da minha insistência e com provas e argumentos mais que válidos, lá reconheceram a falha e prontificaram-se a repor a verdade e a actualizar o histórico.
Serve esta conversa para fazer ver a outros dadores, nomeadamente de Guisande, que certamente estarão na mesma situação. Por conseguinte, quem assim o entender, por uma questão de justiça e rigor, que procure accionar os seus direitos.
Parece-me, finalmente, que à própria Associação de Dadores de Santa Maria da Feira caberia e ficaria bem ajudar a resolver esta disparidade e a repor a justeza. Infelizmente, nos contactos que tive, não me pareceu haver essa disponibilidade em ir mais além.
Quando temos algum tempo livre, mesmo que já no queimar dos últimos cartuchos de uma pausa no trabalho, designado por muitos, de férias, há a tentação de deitar mãos à obra e mexer em velhas papeladas, dando o devido destaque a umas, organizando outras e queimando outras mais.
Com esta minha velha mania de guardar caixas e embalagens e outros papéis (e ainda bem, porque à conta disso tenho cadernetas de cromos dos anos 70 a valerem 500 e mais euros, e cromos a valerem 5 euros por unidade), às tantas damos de caras com a box do telemóvel Nokia 6600, da máquina fotográfica Sony DSC-P71, do CD da Sapo ADSL, de uma colecção do “Bits & Bytes” – suplemento do Jornal de Notícias, da colecção da revista PC Guia dos anos 90, revistas dos anos 70, como a Tele Semana e a Crónica Feminina, etc, etc, coisas e tecnologias que ainda há duas ou três dezenas de anos eram a cereja no topo do bolo e que hoje nos parecem as velhas mocas dos homens das cavernas.
As coisas são como são. Nem sempre é saudável mexer no estrume com que plantamos e fizemos crescer as nossas vivências e convivências, mas verdade se diga, tudo o que somos hoje, para o bem e para o mal, somos o fruto dessas árvores.
E posto isto nestes termos, porque guardados, damos de cara com os cadernos diários dos primeiros tempos de escola dos nossos filhos, e dos seus desenhos inocentes, e percebemos que, como num flash, passaram vinte anos, duas décadas.
E o lugar comum de que "ainda parece que foi ontem" torna-se mesmo realidade.
Ficamos assim atados nesta dicotomia do que é mais certo, se o guardar tudo aquilo que um dia nos vem dar um murro no estômago sobre a saudade do reviver em imagens o tempo passado se, pelo contrário, queimar tudo na primeira oportunidade e com isso fazer das memórias e testemunhos apenas cinza que o vento leva.
Tem que se lhe diga. E se há gente que queima os vestígios do seu passado sem o mínimo de esmorecimento, já outros, como eu, teimam em guardar tudo o que um dia nos possa abrir a janela do passado, mesmo que isso nos possa fazer chorar. Se de dor ou de saudade, ou de vergonha, isso pouco importa.
Mas, verdade se diga, com tanto já vivido e incerto quanto ao que virá, pouco importa mudar agora a agulha como num velho gira-discos. O sulco já é demasiado profundo.
A velhinha Festa de Vila Seca - Louredo. Uma procissão como deve ser: Solene, majestosa, digna e espelho do bairrismo e devoção de uma terra e da sua gente. Por ser tão próxima, é um pouco como a irmã da nossa Festa do Viso, por isso também um bocadinho nossa, de resto numa relação de proximidade que vem de outros tempos..
Para além de tudo, e como foi tanto tanto, a fatídica data da morte de Carlos Paião, a 26 de Agosto de 1988, ficará sempre associada à minha data de casamento, que aconteceu um dia depois, porque nessa véspera de fadigas e canseiras para que tudo corresse bem, a nós, noivos, e aos familiares e amigos, foi a única coisa que a entristeceu. E ainda a entristece porque, pela circunstância, dela sempre me lembro.
Já não se fazem artistas do calibre do Paião, e em 34 anos passados aparecerem mãos cheias deles e delas, mas no geral feitos e projectados sobretudo pela máquina televisiva e do entretenimento, em que uma qualquer loura enche um arraial sem que nada, artisticamente, o justifique.
Mas é assim que as coisas vão funcionando e quanto mais fora da linha ou da “box”, como se diz, mais gente arrastam para a frente de um palco.
A música já não é apenas uma experiência sonora, auditiva, mas sobretudo visual, das roupas, das luzes, das poses, dos tiques. Mais do que a música, a melodia, a letra, o ritmo, importa o aspecto de quem a debita. As câmaras, que todos temos no bolso, são ávidas destas “drogas” e precisam delas como do pão para a boca.
Carlos Paião era um artista puro e daí tudo o que escrevia, compunha e cantava, era igualmente puro e mágico, e bastava ser ouvido. A sua música não precisava de condimentos para lhe dar sabor, nem de corantes e conservantes. Perdura.
Tal como a outros grandes nomes da música que partiram demasiado cedo, em que destaco Mozart (e nem me refiro aos que por força de excessos, como é comum a figuras do pop rock), fico sempre angustiado, não pelo muito e belo que produziram, mas sobretudo pelo muito mais que teriam deixado como legado caso o destino lhes tivesse concedido mais uns anos de vida, uma dezena que fosse.
Mas a vida é assim e Carlos Paião, então a caminho de uma actuação em Penalva do Castelo, ficou-se ali numa curva da EN1 perto de Rio Maior, deixando o país consternado.
Mas ainda que jovem (30 anos), deixou muito e bom e por isso continua a viver