15 de setembro de 2022

Romaria de Santa Eufêmia





15 de Setembro, o dia grande da festa em honra de Santa Eufémia, na freguesia de S. Pedro do Paraíso, concelho de Castelo de Paiva. 

É sempre no próprio dia, seja à semana ou ao fim-de-semana, faça sol ou chova a potes.

Para quem não conhece, desengane-se se está à espera que a capela fique situada no corucho de um monte altaneiro, como o S. Domingos, Santo Adrião, Senhora da Mó ou S. Marcos. Na verdade fica ali numa quase cova, uns metros abaixo da estrada municipal que liga os lugares da Cruz Carreira ao Pejão. 

Também perca as esperanças quem está levado em crer que o local é muito povoado e concorrido em qualquer dia do ano, como se fora Espinho, Miramar ou Ribeiras de Porto e Gaia. Na verdade, tirando estes dois ou três dias, conforme se aproxima do fim-de-semana, no resto do ano é ali um sossego quase sepulcral,  e nem mesmo o parque, repleto de sombras de frondosas tílias e carvalhos, dado a convívio e piqueniques, recebe gente forasteira em número que quebre o sossego daquela gente.

Mas, verdade se diga, chegados o 14 e 15 de Setembro, a coisa enche a transbordar como uma presa de abundantes águas e nascentes de bifes tão tenros quanto enormes.

Não sou de tradições ferrenhas, mas a verdade é que ali vou com regularidade e devoção há pelo menos 30 anos. E tempos houve em que ia de véspera e no próprio dia.

É esta festa, uma das romarias mais populares da nossa região e que ainda mantém muitas das características antigas. Já não se esventra ali gado, como noutros tempos, é certo, e mesmo os merendeiros já não são tantos, mas há ali ainda muita devoção e popularidade com santidades diferentes mas genuínas.

Pelas características do lugar e dos acessos, não é propício a invasões e instalações de divertimentos infernais e roulotes modernaças com som e luzes, e talvez por isso a coisa ainda esteja um pouco salvaguardada dessa voracidade que caracteriza muitas das nossas festas.

Também, talvez por isso, não é propriamente uma festa de juventude e às tantas, avaliando as caras à nossa volta, já parece mais um encontro nacional de reformados. Mas ainda bem. Para isso os festivais de Verão são mais que as moscas em vacaria e a malta nova no geral prefere cocas colas a canecas de vinho verde e cachorros a bifes à Santa Eufémia. E ali não caberia um palco maior do que a capela.

Ademais, tudo tem o seu tempo, lugar e oportunidade.

Seja como for, cumprida está a tradição e a devoção. Mas até Domingo há tempo e lugar para outras visitas e outros visitantes. Por ora, depois da missa solene, vão animando a tarde a quase bi-secular Banda de Musical de Arouca e a Banda da Associação Cultural e Musical de Avintes.

Quanto a Santa Eufêmia, que se diz protectora sobretudo de quem tem males de pele, era descendente de uma família nobre da Calcedónia, cidade próxima de Bizâncio, actual Istambul na Turquia, por preservar na sua fé a Cristo, foi mártir aos 15 anos, em 304 DC, morta por enormes leões numa cena de martírio no tempo das grandes perseguições aos cristãos, pelo imperador romano Diocleciano.

O seu corpo foi recolhido pelos cristãos e depositado numa pequena igreja. Mais tarde, em 620 DC a cidade foi alvo das invasões pelos persas pelo que o corpo da jovem mártir foi deslocado para outro local e guardado numa nova igreja mandada edificar para o efeito pelo imperador Constantino. Posteriormente, já com o imperador Nicéforo, voltaram as ameaças aos cristãos ao seu culto e símbolos pelo que com medo, os devotos de Santa Eufémia voltaram a fazer nova mudança do corpo para lugar incerto. 

Depois disso, reza a lenda que a seguir a uma noite de violenta tempestade o sarcófago com a mártir desapareceu e em Julho do ano 800 acabou por dar á costa  do mar Adriático, junto a Rovinj, na Croácia. Os locais abriram o sarcófago e nele observaram o corpo de uma bonita rapariga, vestindo um luxuoso vestido e junto dela, um pergaminho com a inscrição HOC EST CORPUS EUFEMIAE SANCTAE... (este é o corpo de Santa Eufémia, virgem e mártir da Calcedónia, filha de um nobre senador, nascida para o céu em Setembro 16, ano 304 AD...).

Os habitantes locais tentaram retirar das águas o sarcófago mas apesar dos esforços, a tarefa estranhamente parecia impossível e acabou por ser um rapazinho guiando uma parelha de bezerros quem o retirou facilmente e então foi depositado na igreja local, onde na actualidade na sua bela catedral se venera o corpo intacto da santa e mártir a qual atrai anualmente milhares de peregrinos e turistas.