O Viegas é um rapaz maduro, que já não é novo nem velho, antes pelo contrário. Ainda não está na reforma nem tem pressa de envelhecer, mas, como, verdade se diga, já não falta muito, começa a ter inveja dos amigos Jorge Brandão e Alcino Ferreira que, em plenas férias, passam os dias entre passear o cão, hidroginástica, futebol a caminhar e matinés dançantes, entre outras actividades com que o município procura entreter os seniores, eufemismo para os velhotes. E são tantas que já é escusado tentar marcar com eles um jantar ou uma saída sem que isso lhes perturbe a agenda.
A propósito, ainda há dias a Silvana, que não tem papas na língua, soltou:
— Foda-se! Esta gente que já está na reforma agora não tem tempo p'ra nada, nem para limpar a casa. É piscina, é dança, é ginástica, é pintura, é isto, é aquilo, é o caralho! Arre! Não é para mim! Reforma é sem estar a fazer a ponta dum corno!
Passe o exagero e, matutando com ares de sério, a desbocada da Silvana até tem razão. Estes nossos reformados, que ainda têm força nas canetas, ninguém os apanha em casa.
Retomando o fio à meada, o Viegas tem algo de especial e, se no geral todos lhe reconhecem capacidades e inteligência, há nele coisas que só ele sabe e de que desconfia, para si próprio, serem um dom. Não um superpoder, como daquela malta dos filmes em collants, como o Super-Homem ou o Homem-Aranha, mas algo que ultrapassa o instinto, quase como uma capacidade sobrenatural: a de ver o passado e adivinhar, ou prever, o futuro.
E sabe disso desde que, na primeira classe, quando na hora do recreio viu o Soutinho abaixar as calças, pôr-se de cócoras e arriar o calhau atrás de um pinheiro. Mas de forma tão descuidada que, às tantas, sem se aperceber, o cagalhão caía meio no chão, meio nas cuecas. A professora chamou para dentro e ele, de um salto, mal teve tempo para limpar o cu e puxar as calças remendadas de quadrados.
Num instante, o Viegas adivinhou o que se ia passar. Logo que o cheirete a merda inundasse a sala, com queixas do pessoal das cadeiras do fundo, vizinhos do repetente Soutinho, a mestra soltaria a cana preta de bambu na cabeça do desgraçado malcheiroso e, num instante, alterava-lhe o ângulo das orelhas, que escorriam sangue, enquanto era posto fora da sala, com a recomendação severa de ir a casa lavar-se no tanque e mudar de roupa.
E foi exactamente assim. Dali a nada, o Soutinho, acompanhado de moscas, galgava pelo monte abaixo.
Já no fim da aula, regressava a casa o Viegas e, de novo, a sua cabeça foi inundada por uma visão do que ia acontecer no dia seguinte: a mãe do Soutinho a arrastá-lo à escola, agarrado-o pela orelha ferida, a pedir desculpa à professora e contando que, logo que ele chegou a casa fedorento e lhe contou o que se passara, metera-o dentro do tanque e lavou-o por dentro e por fora, como quem lavava tripas de porcos para fazer chouriças. E que a professora não lhas poupasse, porque ela, a mãe, já as tinha acrescentado. E que se livrasse de o pai vir a saber, porque então as contas eram a dobrar.
Pobre Soutinho. Acabrunhado no fundo da sala, já a cheirar a rosmaninho, não se livrou, contudo, da crueldade dos colegas, que doravante passaram a chamar-lhe «o cagão», enquanto reforçavam o título com os dedos a apertar o nariz. Ainda hoje, pelas costas, lembram-se entre riso: - Olha, lá vai o Cagão!
Certo é que o Soutinho, no fundo bom rapaz, fez-se homem, andou por Franças e Araganças e hoje até é o sogro do excelentíssimo senhor presidente da Junta de Vale de Azeiteiros. Ele próprio, desconhecendo a alcunha do sogro, é apelidado pelos opositores, pela sua vaidade e presunção, de «o cagão».
Vá saber-se estas coincidências da vida e das suas voltas.
Mas, retomando a coisa, foram esses os primeiros lampejos de algo sobrenatural do Viegas.
Ora, estas suas capacidades, que ainda hoje não consegue explicar a si próprio, são muito mais do que intuição, mas, para o bem e para o mal, têm marcado toda a sua vida. Destas singularidades resultam muitas das crónicas de memórias do Viegas.
Voltaremos a elas? Talvez!
[ilustração: IA]
