Sempre que surgem problemas com os exames nacionais, instala-se a ideia de que estamos perante uma situação sem precedentes. As redes sociais amplificam o descontentamento, a comunicação social dá destaque aos casos mais problemáticos e o debate político rapidamente transforma dificuldades reais em armas de arremesso e a oposição, como é regra, explora ao máximo essa situação, não deixando cicatrizar a ferida.
No entanto, a história recente do ensino português mostra que esta não é a primeira vez que o sistema de avaliação enfrenta uma crise séria. Mesmo que noutro contexto, todos os anos são recorrentes os probelmas com a colocação de professores e alunos sem eles.
Já poucos se recordarão, até porque nestas coisas tendemos a ser selectivos, mas em 1996, poucos meses após a tomada de posse do Governo liderado por António Guterres, com Marçal Grilo como ministro da Educação, o sistema de exames nacionais foi abalado por um episódio que ficou conhecido como o caso do roubo dos exames de Filosofia.
Os enunciados foram furtados antes da realização da prova, obrigando à sua anulação e repetição. O caso desencadeou uma investigação criminal e provocou uma enorme perturbação em todo o processo de exames.
As consequências foram significativas: dezenas de milhares de alunos afectados; cerca de seis centenas de escolas envolvidas; necessidade de reorganizar calendários; forte contestação pública; críticas à organização do Ministério da Educação.
A pressão foi de tal ordem que tiveram de ser encontradas soluções excepcionais para minimizar os prejuízos causados aos alunos, incluindo mecanismos extraordinários de compensação na avaliação. Terão sido inflaccionadas as notas para evitar milhares de notas negativas. Os exames de matemática foram uma calamidade.
É certo que, reconheça-se, os problemas de hoje são diferentes e a crise actual tem uma origem distinta. Em vez de probelmas relacionado com a segurança dos exames, os problemas decorrem sobretudo da implementação de novos procedimentos de digitalização e classificação electrónica das provas. Por sua vez, a classe corporativa dos professores, por mais que diga que não, naturalmente que não vê com bons olhos a aplicação de um sistema que tenderá a suprimir o número de efectivos dedicados ao contexto da realização dos exames e avaliações. Como a reestruturação das entidades ligadas à Educação, aplicadas pelo ministro Fernando Alexandre, foram extintas várias e respectivos cargos e professores a elas alocados. Ora isto causa sempre reacção.
Em 1996, falhou a segurança e a organização logística dos exames mas igualmente com um forte impacto político. Actualmente, discutem-se sobretudo dificuldades tecnológicas, plataformas digitais, processos de correcção e prazos.
Em ambos os casos, porém, os principais prejudicados são os alunos, que vivem semanas de incerteza num momento decisivo do seu percurso académico.
Cada geração tende a recordar apenas os problemas do presente e a esquecer que crises semelhantes ou igualmente perturbadoras ocorreram no passado.
Em 1996 ouviram-se críticas muito semelhantes às que hoje se escutam: que o sistema tinha falhado; que existia falta de planeamento; que os alunos estavam a ser prejudicados; que era necessária uma resposta rápida do Ministério. Enfim, a mesma cantoria. Então criticavam uns e agora criticam outros, sendo que em posições opostas.
Recordar o que aconteceu há trinta anos não significa relativizar os problemas actuais nem desculpar eventuais falhas na implementação da digitalização dos exames. Significa apenas reconhecer um facto simples: o sistema educativo português já enfrentou outras crises graves e conseguiu ultrapassá-las. Fosse esse o verdadeiro problema do país, mas este é mais grave, desde logo porque com uma classe política, da esquerda à direita, que apenas age de acordo com as suas agendas, sem uma prioridade para o país.
As soluções encontradas em cada momento podem ser discutidas, algumas terão sido mais acertadas do que outras, mas a experiência demonstra que nenhuma geração ficou irremediavelmente marcada por esses episódios. Mais importante do que explorar politicamente cada falha é garantir que se aprendem as lições necessárias para que elas não se repitam. Além do mais, num tempo fortemente marcado pelas tecnologias, digitalização e Inteligência Artificial torna-se inevitável que os processos dos exames escolares sejam também actualizados e adaptados. Claro que isso gera sempre oposição e por via disso empola-se ao máximo os aspectos que ainda padeçam de ajustamentos.
É legítimo criticar atrasos, erros ou deficiências na organização dos exames nacionais. É igualmente legítimo exigir responsabilidades. Mas também é importante preservar a memória dos factos. A história do ensino em Portugal não começou este ano. Em 1996 houve uma das maiores crises de exames de que há memória, com provas roubadas, exames anulados, centenas de escolas envolvidas e milhares de alunos afectados.
Recordá-lo não serve para desculpar o presente. Serve para colocar os acontecimentos em perspectiva e evitar a ideia, tantas vezes repetida, de que "nunca houve nada assim". A realidade mostra precisamente o contrário: houve, embora por razões diferentes. A diferença está em aprender com essas experiências para que cada nova crise seja menos grave do que a anterior. Para além de tudo, o processo de digitalização do sistema de exames e avaliações é inevitável por mais que muitos se oponham, mesmo dentro da classe.