" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

29/04/2026

Olhares sonhados - O lavadouro de Cimo de Vila

 


Os meus olhares sonhados voltam ao velho lavadouro de Cimo de Vila, ali onde dizem que é o Quartel, mesmo que sem tropa, fandanga ou militar.

Como já por aqui escrevi há dias, os meus olhos de criança teimam em sonhar e de novo ali a ver as mulheres do lugar ocupando as pedra de lavar, numa tagarelice quotidiana, a esfregaram as roupas cardidas de quem trabalhava no campo ou nas obras. Sentia-se, então, um cheiro a água fresca e sabão. Ao lado, a presa, recolhia a água que escorria da fonte para o lavadouro. Essa água, na altura vinha da generosa nascente de Centes e desde as obras destruidoras da A32 chega do Monte de Mó, partilhada com a fonte do Monte do Viso. Essa água, através de rego, que no lugar passava a descoberto, regava campos na encosta que descai de Cimo de Vila para a Igreja e Quintães mas também até ao fundo do lugar do Viso. Escusado será dizer que a maior parte desses regos já não existem, apenas na memória de quem a tem.

Nesse lavadouro de Cimo de Vila, lavavam mulheres como a Ti Laurinda do "Canão", a Ti Gracinda do "Repolho", a Ti Isaura,  mulher do Ti João do "Cabreiro", a Ti Madalena do Martinho, as do Sebastião, as irmãs Fonsecas, a Ti São, mulher do Ti Franquelim do Martinho, e outras mais, todas mulheres que eram uma força da natureza.

Em casa de meus avôs sempre existiu um tanque também com lavadouro, com água corrente vinda de uma abastada mina localizada no Monte de Mó, e que ainda hoje lá cai. Por isso a minha mãe, ocasionalmente e dependendo da roupa, também lavava em Cimo de Vila. Apesar disso, eu criança, pela proximidade da casa e pelo facto de, com o meu irmão mais velho, andar ao cuidado de minha bisavó Margarida, a mãe Guida, como a tratáva-mos, era por ali que passáva-mos o tempo ainda antes de ir para a escola e mesmo durante.

Por conseguinte, muito do meu imaginário de infância situa-se ali entre o Viso e Cimo de Vila e todo o pedaço de terra, de monte e ribeiras, entre esses lugares e a freguesia de Louredo.

É fartar, vilanagem!

As catástrofes naturais que têm assolado Portugal, desde os trágicos incêndios de 2017 às recentes tempestades que fustigaram, sobretudo, o centro do país no início deste ano, deixam marcas profundas no território e na alma das populações. Perante a destruição de habitações, fábricas e explorações agrícolas, a resposta do Estado foi rápida através de fundos de reconstrução é não apenas necessária, mas um imperativo de solidariedade social. Contudo, a par dos escombros, surge frequentemente um fenómeno igualmente corrosivo: o oportunismo de quem vê na tragédia uma oportunidade de lucro ilícito e que procura tirar proveita das facilidades burocráticas dadas pelo Estado como forma de se dar resposta tão rápida quanto possível aos danos e insuficiências.

É comum ouvirmos críticas contundentes à classe política, à burocracia das instituições e à alegada falta de transparência na gestão da coisa pública. No entanto, os relatos recorrentes de candidaturas fraudulentas (como alguém que pediu à volta de 3 mil euros quando na realidade apenas precisou de meia dúzia de telhas que lhe foram oferecidas) a apoios estatais revelam uma dissonância ética preocupante. Quando indivíduos ou empresas tentam obter financiamento para reconstruir estruturas que já se encontravam abandonadas ou em ruínas muito antes do desastre, ou quando inflaccionam prejuízos de forma desproporcional, estão a replicar precisamente os comportamentos que condenam nos seus representantes. Um pouco como, na estrada, alguém que tendo no seu automóvel umas valentes amassadelas, depois de um ligeiro toque de alguém, alega à seguradora que o carro estava impecável. Um simples Fiat Uno é descrito como um Ferrari.

Todos cohecemos, até por perto, casos de falsificação organizada de acidentes automóveis para enganar as seguradoras, e até mesmo em acidentes a envolver bicicletas, em que há quem se preste a substituir peças danificadas vulgares por mais caras para enganar o perito e aumentar a indemnização pela seguradora. Não somos anjinhos e todos conhecemos estas histórias.

Esta microcorrupção do quotidiano sugere que o problema ético não é exclusivo das esferas de poder, mas sim transversal a uma sociedade que, por vezes, confunde astúcia com sobrevivência e oportunismo com direito.

As ramificações destas acções enganadoras são vastas e prejudicam toda a comunidade. Os fundos públicos são finitos. Cada euro desviado para uma estrutura que já estava em ruínas é um euro retirado a uma família que perdeu o seu único teto ou a um empresário que luta para manter postos de trabalho.

A detecção de fraudes obriga o Estado a endurecer os processos de fiscalização. O resultado é um aumento da burocracia que atrasa o apoio a quem dele necessita com urgência, punindo o justo pelo pecador. Nesta situação o Governo confronta-se com a situação de pecar por excesso de zelo ou de abrir a porta e as mãos ao chico-espertismo e oportunistas, tantas vezes estes com o beneplácito de gente que está nas entidades que deviam fiscalizar e zelar pelo interesse público, usando da velha filosofia de que uma mão lava a outra e que em detrimento do Estado ganham todos.

A fraude alimenta o cinismo. Quando a comunidade percebe que o vizinho beneficiou indevidamente de um sistema de apoio, a confiança nas instituições e na própria solidariedade entre pares dissolve-se, dando lugar ao ressentimento.

Uma sociedade que aspira a instituições íntegras deve, obrigatoriamente, sustentar-se numa base de integridade individual. Criticar a corrupcção "lá em cima" enquanto se pratica o oportunismo "aqui em baixo" é uma falha moral que compromete o desenvolvimento do país.

A reconstrução de uma região após uma catástrofe deve ser física, mas também ética. Exigir transparência do governo é um dever cívico, mas agir com honestidade perante os recursos que pertencem a todos é a única forma de garantir que, na próxima tempestade, a rede de apoio seja robusta, rápida e, acima de tudo, justa. Infelizmente, de Pedrógão à região Centro, os exemplos de oportunismo mostram que nada aprendemos. No meio da catástrofe e miséria haverá sempre gente ao saque como na Idade Média. 

É fartar, vilanagem!


[ilustração: Observador]

28/04/2026

Santos da casa....

Não deixa de ser uma mero reparo, mas também curioso, quiçá sintomático, que fora do contexto da sessão pública de apresentação do meu livro de apontamentos sobre a história do Guizande Futebol Clube, em 10 de Abril passado, não tenha tido alguém da freguesia que de forma pessoal me reconhecesse o valor e importância do livro mas, em contrapartida, já algumas pessoas de fora da freguesia o fizeram, algumas delas mal conhecidas por mim.

Vale o que vale, porventura não mais que um acaso, mas, ainda assim, a fazer pensar. Seja como for, é velhinha a sentença de que "santos da casa não fazem milagres" e daí que não seja de surpreender alguma indiferença. Afinal,  nos dias que correm, vale mais um peidinho nas redes sociais, do que algo mais substancial como um livro a valorizar o que é nosso, o colectivo, o legado de muitos. 

O incentivo e apoio são fundamentais em qualquer área, em qualquer empreendimento, mas por aqui o que quer que tenha de ser feito terá de ser sem expectativas ou, pelo menos com estas em baixo.

É o que é!


 

Nota de falecimento - Rosa de Castro Linhares

Faleceu de forma inesperada, Rosa de Castro Linhares, de 81 anos, do lugar de Casaldaça.

Nasceu em 21 de Abril de 1945. Era esposa de Fernando de Oliveira Pinho com quem casou em 11 de Janeiro de 1970.

Era filha de António Ferreira Linhares e Rosa Ferreira de Castro.

Era neta paterna de Manuel Ferreira Linhares e Olívia Margarida dos Santos.

Era neta materna de José Ferreira de Castro e de Ana de Oliveira.

Era bisneta paterna de José Custódio e Margarida Gomes.

Era irmã de Maria Rosa, Olívia de Castro, de Maria Laura, de Manuel Ferreira Linhares, de Margarida Maria, de Maria Adelaide e de Maria Margarida.

Neste momento de perda e pesar, expresso os meus sentidos sentimentos a todos os familiares, de modo particular ao seu marido Sr. Fernando e a seus filhos Fernando e Valdemar.

Funeral na Quarta-Feira, 29 de Abril pelas 15:30 horas, com cerimónias da igreja matriz de Guisande, indo no final a sepultar no cemitério local.

Missa de 7.º Dia na Sexta-Feira, 8 de Maio, pelas 19:30 horas na igreja matriz de Guisande.

Que a sua alma descanse em paz e permaneça na memória dos seus e da comunidade onde era estimada pela sua simpatia e trato fácil.

27/04/2026

Olhares sonhados - 2


Não é o Ti Domingos Lopes - que nestas coisas de memória e de olhares sonhados nem sempre se acertam os rostos -, mas bem podia ser. E com mais funda razão e propriedade. De facto, foram muitas, tantas que nem se contam, as vezes que, com a sua parelha de bois, passou este portal bonito e singular, ali na casa do lugar da Igreja. Este, se não é peça única no concelho, é seguramente coisa rara: o baixo-relevo talhado na pedra dura, numa bordadura de elementos decorativos e encimado pela cruz, como que envolve e dá respeito ao trabalho diário do laboureiro.

Ora saía com o carro cheio de estrume, a caminho dos campos; ora levava a charrua e a grade, prontas para lavrar e gradar; ora ia de carro vazio, entaipado ou com a caniça, para trazer tojo, palha, espigas ou uvas. Era assim a vida - de lavrador, carreteiro e laboureiro - num tempo em que não havia tractores. E mesmo depois de aparecer o primeiro, para espanto da aldeia, comprado pelo Raimundo da Lama, em Guisande ainda muito trabalho se fez a bois.

Foi então que, devagar mas inexoravelmente, começou a perder-se o ofício. Homens como o Ti Domingos Lopes, o irmão Joaquim ou o Ti António “Simeão” foram ficando para trás. Mas os bois, mansos e certos, por muitos anos rasgaram a terra. Era um trabalho duro mas de paciência, sem pressas, uma arte. 

Depois, como tudo, veio o seu fim. Foram-se esses homens, rijos como o chão que lavravam. Os bois deixaram de encher os aidos escuros. Aos poucos, este e outros portais foram-se fechando, a ganhar silêncio, a perder cor.

Mas fica a lembrança. Este olhar sonhado é só um tributo a essa gente de trabalho: homens que, ao romper do dia, emparelhavam os bois ao jugo, prendiam-no à cabeçalha do carro e saíam pelo portal ainda com a capoeira a dormir, para voltarem já noite feita, depois do toque das Trindades, com o luar já a alumiar os caminho do monte do Mó ou das ribeiras.

É bom sonhar e trazer à memória a gente e modos de vida que ajudaram a entretecer o ninho que temos como nossa casa, como nossa aldeia.

Fotografia do Ti Domingos Lopes com a sua parelha de bois.

26/04/2026

Olhares sonhados - 1

 

Cimo de Vila - Casa da Ti Ilda Fonseca (prima de minha mãe), que foi de seus pais, Joaquim José da Fonseca e Albertina Oliveira (do Grilo).

Na minha infãncia por ali passei muitos dias a brincar. Ali, daquela janela no sobrado, era uma sala de costura em que trabalhavam algumas das irmãs Fonseca.

Tempo bonito que não volta. O tempo passado deixou as rugas nas fachadas. As rosas ainda são perfumadas mas já não há meninice nem crianças a brincarem no largo com o Ti Manel do Martinho sentadito na escada da rua.  Já não há rego de água vindo do lavadouro de Cimo de Vila onde, junto ao campo da Cancela, montava rodízios de bogalhos ou lançava à aventura barcos moldados de casca de pinheiro.

Tudo mudou e apenas um olhar sonhado permite uma viagem a esse passado já longínquo. Mas dizem que é bom sonhar...