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2 de abril de 2019

Pe. Joaquim de Oliveira Pinto

 


Joaquim de Oliveira Pinto, filho de António Caetano Pinto e de Maria Joaquina de Oliveira, nasceu no lugar de Fornos, freguesia de Guisande, concelho de Santa Maria da Feira em 06 de Junho de 1894.

Neto paterno de Manuel Caetano Pinto e de Joaquina Maria de Jesus, do lugar de Casaldaça e neto materno de Manuel de Oliveira e Ana Joaquina, do lugar do Reguengo.

Foi baptizado na igreja matriz de Guisande em 09 de Julho de 1984 pelo então pároco António Domingues da Conceição (1), tendo como padrinhos Alberto Caetano Pinto e Amélia Maria de Oliveira.

Joaquim de Oliveira Pinto, recebeu a ordem de presbítero, em 22 de Julho de 1917. 

Foi pároco de S. André de Gião, concelho de Santa Maria da Feira, onde ali tem um busto no topo nascente da antiga igreja matriz, uma homenagem dos seus paroquianos.

Faleceu com 87 anos de idade em 23 de Outubro de 1981. Está sepultado no Cemitério Paroquial de Guisande.

(1) -António Domingues da Conceição, natural de Caldas de S. Jorge, ordenou-se em 21 de Setembro de 1850 e foi colado, em Guisande, a 21 de Dezembro de 1877. Gravemente enfermo, retirou para S. Jorge, em 1904, e faleceu em 19 de Novembro de 1906.

Extracto da certidão de baptismo do Pe. Joaquim de Oliveira Pinto.

16 de fevereiro de 2019

Quando a dignidade vale a luta

Tenho, por vontade própria, estado afastado da rede social Facebook, com a conta desactivada temporariamente, pelo que só soube praticamente em cima da hora das cerimónias fúnebres, do falecimento do Sr. José Pinto da Silva, das Caldas de S. Jorge. Terá ido a sepultar na manhã de hoje. 
Não fosse uma casualidade de encontro com quem me deu a triste notícia e teria sabido apenas já depois de sepultado. Infelizmente, porque em cima da hora acabei por não participar no funeral, mas em nada diminui a memória, consideração e respeito para com a figura e personalidade.

Precisamente através do Facebook, onde o Sr. Pinto intervinha com regularidade e qualidade, soube pelo próprio que tinha tido nos últimos tempos alguns problemas de saúde, adicionados à debilidade da mesma,  que o remeteram para o hospital, pelo que de certa maneira foram factores que atenuaram a surpresa do desfecho.

Nunca tendo sido chegado, contactamos, falamos e opinamos as vezes suficientes para o considerar como amigo e pessoa de muita estima e consideração, activo, inteligente e um lutador por causas que considerava basilares. Que mais não fosse, porque celebrava o aniversário no mesmo dia que eu, 1 de Novembro.

Lembro-o sobretudo pela sua intervenção cívica e política. Pela verdade, transparência e rigor, travou várias lutas, uma delas relacionada com a verdade da cota máxima de cheia alguma vez registada e testemunhada no rio Uíma, nas Caldas de S. Jorge, que todos os anos relembrava em 24 de Outubro, dia em que em 1954 se registou a maior cheia de sempre na nossa zona, incluindo Pigeiros, Guisande, Caldas de S. Jorge, Lobão e Fiães.

Creio que apesar dessas muitas lutas, eventualmente, e de algum modo, terão sido de resultados inglórios, porque travadas contra quem detinha poderes de mandar e decidir, mesmo a de compor e enfeitar a verdade adequando-a a certos interesses ou propósitos. Não teria sempre a razão do seu lado, ou pelo menos toda, mas esgrimia como ninguém as suas convicções, sendo-lhe reconhecida a sua qualidade de discurso e de escrita. Também era com toda a naturalidade que reconhecia estar enganado ou equivocado quando se provasse o contrário, recuando, se preciso fosse, nos seus ímpetos.

Seja como for, foi um digno e nobre  lutador, qualidades que lhe honraram a vida e o perpetuarão na memória do tempo, sobretudo nos que lhe eram mais próximos.
Não duvido que tinha muitos adversários, alvos das suas lutas, alguns que agora certamente, deduzo, se apresentaram de gravata e semblante pesado nas cerimónias fúnebres, mas é justo que lhe seja reconhecida a nobreza e dignidade das suas variadas intervenções, mesmo nas mais inflamadas. Tivesse, Caldas de S. Jorge, Guisande ou outra terra qualquer, mais Pintos da Silva. 

Que descanse em paz!

6 de fevereiro de 2019

Você não tem um pingo de vergonha....

Agora José Mourinho, antes Cristiano Ronaldo. Ambos condenados por fuga de impostos. Ambos portugueses famosos, ambos tidos como cidadãos exemplares e embaixadores de prestígio de Portugal e dos portugueses. Ambos agraciados pelo Estado com a Ordens do Infante D. Henrique.
Ambos, porém, como canta a canção, deviam ter um pingo de vergonha e retratar-se aos portugueses e devolver as condecorações. A sua notoriedade e exemplo deviam servir como isso mesmo, exemplo. Mas não. A ganância também os tocou apesar de serem ambos detentores de enormes fortunas. Chega quase a ser ridículo para quem tanto tem e que mesmo assim procura fugir às suas obrigações.

Infelizmente, parece que tudo se lhes perdoa e não estou, de facto, a ver o presidente Marcelo a retirar-lhes as condecorações. Em nome do politicamente correcto a coisa vai ficar por aqui porque são ambos gente graúda e coisa e tal e os coitados nem sabiam que tinham ocultado os rendimentos.

 O português comum, que ganha o ordenado mínimo e cumpre as suas obrigações, porque o Fisco é impiedoso, forte com os fracos e fraco com os fortes, esse não tem condecoração nem é falado.
Em resumo, tudo uma palhaçada e uma enorme hipocrisia. Mas é disto que a casa gasta. Goste-se, ou não. Marcelo ainda se vai rir e fazer de conta que foi coisa de somenos importância, nada que belisque tão famosos portugueses. 

3 de novembro de 2018

Figuras guisandenses - José de Pinho



Como qualquer terra, Guisande sempre teve e tem, ainda, figuras que por uma ou outra característica pessoal, profissional ou de outra natureza, acabam por ser justamente consideradas como carismáticas ou "castiças", isto é, de boa casta, peculiares, com carisma e características únicas. Assim, não é condição para tal adjectivo que seja alguém formado como doutor, professor ou engenheiro. De resto, neste lote, há por aí doutores e engenheiros que pouca ou nada fizeram ou fazem a favor do bem comum e da comunidade onde se inserem e o seu contributo é o mesmo de que um qualquer iletrado ou até bem menos. Mas isso são outras histórias.

Neste contexto, e assente que uma boa e importante figura não tem que ser doutor ou engenheiro, podíamos aqui evocar figuras guisandenses, bem castiças, carismáticas, que porventura, fruto dos tempos, até não passaram de ilustres analfabetos, iletrados, daqueles incapazes de ler uma palavra do tamanho da torre da nossa igreja, mas em contrapartida, isso sim, doutorados na universidade da vida, alguns verdadeiros mestres nas cadeiras do saber, da manha, da cultura geral, da história, da natureza e das suas coisas, tão especialistas na arte de estrumar um campo lavradio como na poda da vinha ou como parteiros de uma vaca prenha.

Destas muitas figuras, é claro que gostaria de, amiúde, evocar algumas, mesmo que de forma breve e sem preocupações biográficas, mas também, reconheça-se, não é tarefa fácil e nem sempre o tempo disponível é simpático.

Aqui nesta minha casa digital, já falamos de algumas importantes figuras, desde logo o Pe. Francisco Gomes de Oliveira, como também o Cónego António Ferreira Pinto, Pe. Agostinho da Silva e o Pe. José Pereira de Oliveira. Todavia, muitas outras figuras guisandenses, do passado e do presente, mereciam ser aqui lembradas, mesmo que os seus feitos não fossem os ligados às letras, artes e ciências, como atrás se disse. Mas, quem sabe, aos poucos vá preenchendo a caderneta.

Neste pensamento e vontade, recordo que pelo início dos anos 90 o jornal "O Mês de Guisande" procurou saber um pouco mais de outras figuras e a algumas fez entrevistas onde se ficou a saber um pouco mais das suas histórias e estórias, nomeadamente dos já falecidos Joaquim Dias,  o "Pisco", Belmiro da Conceição Henriques e Ti Ana Alves. Deles já só resta a saudade mas através dessas páginas ficaram gravadas memórias que têm o mesmo valor que livros e diplomas.

Neste enredo todo, e tendo vós já visto as imagens acima, muitos, os mais velhos, terão já reconhecido a figura do Sr. José Pinho, morador que foi no lugar da Gândara, vizinho da Casa Neves, no gaveto do velho caminho para o Santo Ovídeo.
Para os mais novos, menos dados a estas coisas de outros tempos, o que é normal, podemos referenciar que era o avô da Marisa Pinho e por conseguinte pai do Sr. Ramiro Pinho, que desde há anos habita no lugar do Casal, na freguesia de Gião, onde tem um escritório de contabilidade.

José de Pinho nasceu em 28 de Agosto de 1912 e faleceu com quase 82 anos em 26 de Março de 1994. Do que conheço e me lembro, era irmão do também conhecido e carismático Miguel de Pinho (cabo cantoneiro) que viveu longos anos próximo da Ponte da Lavandeira e da também conhecida  Miquelina Pinho que viveu em Casaldaça. Como filhos, do meu conhecimento, deixou o Ramiro (a viver em Gião) e a Fernanda (creio que a viver por Vila Maior).

Já quanto ao recorte de uma primeira página do jornal semanário "O Correio da Feira", datado de 11 de Agosto de 1978, digamos que é ele o acender do rastilho para esta simples evocação ou memória que pretendo fazer sobre o Sr. José de Pinho. Como poderão observar, o tal recorte ainda tem colada a vinheta da assinatura do jornal. De facto José de Pinho foi durante vários anos assinante deste centenário e histórico jornal feirense, o qual ainda se publica. Não eram muitos os assinantes em Guisande, mas ele era um deles.

Do uso deste jornal, vem precisamente a minha primeira memória sobre o Sr. José Pinho. Era eu ainda criança e sempre que ia à Missa ou ao Terço, lá estava ele, na sua figura imponente, pois era homem de porte avantajado, com uma altura muito próxima dos 1,90 m, e nos momentos em que as regras pediam aos fieis para se ajoelharem, ele sacava do bolso do casaco um exemplar do jornal "O Correio da Feira", dobrado em quatro partes e o pousava no soalho da igreja para nele assentar os joelhos. Não que fosse grande almofada o jornal, mas porque impedia de sujar as calças. Era assim naqueles tempos e esse gesto era muito frequente. Alguns homens tinham um lenço só para esse propósito, mas de todos apenas me lembro de ser feito com um jornal por esse morador da Gândara. Ora como era assinante, todas as semanas lá recebia um novo exemplar que certamente guardava no bolso para ler e reler e  usar como tapete nas suas devotas genuflexões, fosse na missa à consagração fosse no terço ou adoração ao laudate.

José de Pinho, que se conste não era doutorado, mas era notoriamente um homem culto e de letras. De resto, sempre ouvi apregoar que "quem lê jornais, sabe mais". Para além do referido jornal "O Correio da Feira", era simultaneamente assinante de outros títulos da imprensa escrita, como o "O Comércio do Porto", o "Tempo" e ainda o nosso jornal mensal "O  Mês de Guisande", do qual sempre foi um carinhoso assinante. Por inúmeras vezes, quando eu ali ia distribuir o jornal, antes do correio o fazer, ficava largos minutos á conversa com este "doutor" da Gândara. Creio que quem o bem conheceu e com ele conversou não lhe recusará este estatuto.

Por conseguinte, pela amostra dos jornais que assinava e por conseguinte lia com regularidade, notoriamente era um homem bem formado e informado das actualidades, não só do concelho como do país, nomeadamente nesses tempos tão conturbados dos anos 70, politicamente muito marcantes no período pós 25 de Abril de 1974.

De José de Pinho sabe-se que era uma pessoa muito conservadora, homem de ideologia de direita, de resto a justificar a sua relação com o CDS de Freitas do Amaral e Adriano Moreira, que sempre foi apoiante convicto. Não surpreende, pois, que tenha sido assinante do jornal semanário "Tempo", um órgão informativo conotado com a direita. Não se sabe até que ano José de Pinho foi assinante deste jornal marcadamente político, mas eventualmente apenas até finais da década de 1980. De resto os anos 80 foram bem mais calmos e a jovem democracia portuguesa  aos poucos ia ficando estabilizada. Talvez por isso e por algumas convulsões internas entre redacção e administração, o "Tempo" terminou o seu tempo e  sua missão findou no final do ano de 1990. Todavia, foi marcante e vários jornais retomaram muito das suas orientações, tanto gráficas como de abordagem jornalística.



Ainda quanto ao semanário "Tempo" designado de "liberal e independente", para o contextualizar na figura e personalidade do seu assinante Nº 1881, José de Pinho, este jornal foi fundado em 29 de Maio de 1975 por Nuno Rocha (Porto, 13 de Fevereiro de 1933- Cascais, 5 de Julho de 2016). Este jornalista, que alguém caracterizava como cosmopolita, passou antes por títulos como o "Primeiro de Janeiro", "Diário Ilustrado", "Diário de Lisboa" e "Diário Popular". Considerado controverso e conservador, implementou um estilo no jornal que depois Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso levariam para "O Independente".
Por tentar fundar o "Tempo" Nuno Rocha foi preso a 13 de Abril de 1975, em casa, por membros do COPCON (Comando Operacional do Continente), ficando detido durante 17 horas em Caxias. Este facto não deixa de ser significativo pois mesmo depois da revolução, continuou a haver actos persecutórios criticados ao antigo regime recém derrubado, nomeadamente privação do exercício da liberdade, incluindo a de imprensa e prisão por motivos políticos. No fundo, era fruta da época e para além dos fascistas de direita havia os de esquerda. Coisas.
Em 1976, em pleno "Verão Quente", o semanário chegou a vender mais de 100 mil exemplares. Paulo Portas, conhecido político, estreou-se nele como cronista e mais tarde veio a fundar o jornal "O Independente".

Como já referi, o"Tempo" era assumidamente de centro-direita e surgiu então para contrariar a tendência de esquerda dos jornais da época que dominava a imprensa portuguesa. Os articulistas do semanário "Tempo" escreviam e davam conta das preocupações perante o rumo que Portugal levava, durante o PREC e na sua aventura que indiciava resultados catastróficos para o país. Pressentia-se que o país saíra de uma ditadura de direita e que se encaminhava para uma de esquerda, traindo o que diziam ser a gênese da revolução de Abril de 74.
O "Tempo" era assim uma contra-corrente e talvez por cá José de Pinho encontrasse nele e nas suas posições editoriais uma linha de pensamento ideológico que entendia ser a melhor para o rumo do país e daí o tronar-se assinante.

Naturalmente que para além desta faceta de homem de leituras, há muitos outros episódios ligados à figura e personalidade de José de Pinho, mas creio que para além deles, e outros terão melhores testemunhos, por mim quero simplesmente realçar um aspecto que ressaltava, o seu lado de homem culto, que lia muito e procurava estar fundamentado e informado das suas ideias e ideais. Por mim, é essa a memória que guardarei desse homem e dessa figura guisandense.

2 de novembro de 2018

Pe. Domingos, Abade de Pigeiros

Biblioteca Abade de Pigeiros


Como a casamentos e a baptizados vão os convidados..., apenas hoje tive a oportunidade de visitar a Biblioteca Pe. Domingos A. Moreira - Abade de Pigeiros. Foi uma visita guiada pela simpática responsável, Maria de Fátima, precisamente a sobrinha do Pe. Domingos, que demonstrou conhecimento e sobretudo amor e paixão pelo rico legado deixado por seu tio. Desde os simples mas emblemáticos objectos de uso pessoal e que demonstram o sentido arquivista do sacerdote e professor, até às obras mais significativas, passando pelos manuscritos, há de facto um imenso e importante espólio, naturalmente na sua maior parte a precisar de catalogação. 

Por conseguinte, não me surpreendeu que não tivesse resposta a algumas questões ou eventuais referências documentais deixadas pelo Pe. Domingos relativamente a Guisande onde foi administrador paroquial durante uma dezena de anos para além da frequente colaboração com o Pe. Francisco. Talvez noutra altura. Mas, registei, com emoção, o facto de também ter guardado um exemplar do jornal "O Mês de Guisande", precisamente o número especial sobre a celebração das Bodas de Ouro Sacerdotais do Pe. Francisco G. Oliveira, de Agosto de 1989.

Quanto ao espaço, tem a suficiente dignidade,  mas obviamente muito longe do que seria expectável e condizente. O pé-direito é baixo e o espaço livre nas diferentes salas é exíguo e nada compatível com o que se espera de uma moderna biblioteca com amplos e iluminados espaços para além dos requisitos técnicos de controlo de temperatura e ambiente. A este respeito colhi o sentir da responsável  mas obviamente que não interessa ao caso aqui o reproduzir.

Em todo o caso, é uma biblioteca rica e diversificada, obviamente que predominando as temáticas de interesse do Pe. Domingos A. Moreira, mas também com conteúdos mais generalistas e que podem colher a atenção de visitantes ou utilizadores menos estudiosos. No entanto, a interesse de todos e do próprio espaço convém que tenha a devida dinamização de modo a que, passada a novidade, não se torne num mero arquivo morto. Um espaço na internet, individualizado ou ligado à Biblioteca Municipal, será importante pelo menos, para já, como apresentação ainda que sumária, do espaço, dos seus objectivos bem como alguns apontamentos biográficos do Pe. Domingos. O trabalho até já está feito, bastando procurar reproduzir o que sobre ele publicou a revista "Villa da Feira" edição Nº 28 de Junho de 2011, da Liga dos Amigos da Feira. Certamente que com tempo farão isso, mas não deixo de me espantar que ainda não esteja online esse espaço próprio mesmo que numa versão simplificada.

24 de outubro de 2018

Biblioteca Abade de Pigeiros


Será já no próximo sábado, dia 27 de Outubro, que na freguesia de Pigeiros ocorrerá a inauguração da Biblioteca Pe. Domingos Azevedo Moreira - Abade de Pigeiros, com o espólio documental deixado por este, testamentado a favor do município de Santa Maria da Feira.
Presidirão à cerimónia os presidentes da Câmara Municipal e da Junta da União de Freguesias local.

Apesar da pompa e circunstância, o acontecimento está revestido de alguma pré-polémica quanto ao esgrimir de responsabilidades sobre o local que acolherá o espólio (antiga sede da Junta de Freguesia de Pigeiros em vez do Centro Cívico Feliciano Martins Pereira). De resto, refutando acusações do Vereador da Cultura do município, o ex autarca pigeirense, que dá nome ao Centro Cívico, respondeu e esclareceu por escrito em jornal concelhio, negando ("...em defesa de carácter e dignidade") quaisquer responsabilidades e remetendo as mesmas para a Câmara, ao encolher o projecto do Centro Cívico.

Nota à margem: Sobre o assunto do projecto e seu propósito, escreveu o Sr. Pinto da Silva, das Caldas de S. Jorge, em Maio de 2016 um artigo em que põe o dedo na ferida de alguns aspectos do processo inerente à criação da biblioteca e a sua mudança para o actual espaço. No fundo, feridas que ainda parecem doer e que fazem gemer alguns dos intervenientes e daí a polémica. Resta saber se após a cerimónia da inauguração essas feridas vão sarar e cicatrizar).

É uma polémica que se lamenta. Mesmo que não conhecendo em rigor as razões de fundo e delas poder identificar as verdadeiras responsabilidades, certo é que a polémica existe e de algum modo veio acinzentar a inauguração. Todavia, mais do que a cerimónia, e o Pe. Domingos Moreira era tudo menos de cerimónias, a inauguração do espaço é um desfecho que se aguardava desde o falecimento do sacerdote, em Janeiro de 2011 e cumprindo-se o seu testamento (abaixo reproduzido). Creio que, tendo o testamento sido feito ainda em vida e sido aceite nas suas condições pelo município, seria de esperar que a obra já estivesse há muito concretizada. De resto, a ter em conta o testamento, esperava ainda o Pe. Domingos poder frequentar o respectivo novo espaço e aceder ao seu espólio. Infelizmente, eventualmente por precipitação do seu stado de saúde, tal não veio a acontecer durante a sua vida.

É certo que alguns pigeirenses na altura ficaram com um sentimento de algum desapontamento por verem o testamento dirigir à custódia do município o seu vasto e rico espólio documental (fala-se em cerca de 20 mil documentos entre livros, jornais e outros escritos e manuscritos) e não apenas à freguesia e paróquia, mas as coisas são como são e há que respeitar a última vontade do pároco. Certamente que a sua intenção, conforme expressa no testamento, foi apenas a de responsabilizar uma entidade que desse garantias presentes e futuras quanto à preservação e segurança do seu património.

O outro legado, porventura não menos importante, o do homem, humanista, estudioso e pároco dedicado e humilde, esse pertence em exclusivo aos paroquianos pigeirenses, mesmo que também na justa e devida parte às paróquias por onde passou e deixou marcas, como a de S. Mamede de Guisande, em que esteve como responsável durante 10 anos, para além da ligação ocasional que sempre manteve nomeadamente no tempo do Pe. Francisco Gomes de Oliveira.

Programa da inauguração:

16h00 – Missa Paroquial em memória do Padre Domingos Moreira;
17h10 – Romagem ao cemitério e aposição de flores no jazigo do Padre Domingos Moreira;
17h20 – Momento musical com o Ensemble da Banda Sinfónica de Jovens de Santa Maria da Feira;
17h50 – Sessão inaugural;
18h15 – Visita guiada à biblioteca.

Testamento do Pe. Domingos Azevedo Moreira (transcrito do blog das Caldas de S. Jorge, )

É um assunto de que várias pessoas me têm falado. Recentemente o Prof. De História de Arte, da Faculdade de Letras de Coimbra, Dr. Nelson Correia Borges, no seu estudo de antropologia cultural sobre o culto da Senhora da Boa Morte, ainda florescente no século XVIII, cita nas páginas 6 e 7 as sugestivas palavras do Pe. António Vieira nos seus sermões, edição Lello e Irmão, Vol. II, 1959, 187-188: “A morte tem duas portas: uma porta de vidro por onde se sai da vida; outra porta de diamante por onde se entra à eternidade. Entre estas portas se … se acha subitamente um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás nem parar nem fugir nem dilatar senão entrar para onde não se sabe e para sempre […]”. 
Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis a mais terrível é a morte. Disse bem, mas não entendeu o que disse. Não é terrível a morte pela vida que acaba mas pela eternidade que começa. Não é terrível a porta por onde se sai, terrível é a porta por onde se entra. Se olhais para baixo, um precipício que vai parar no inferno. É tudo incerto” e, cristãos, “se quereis morrer bem” “morrei em vida moralmente”.
Depois desta introdução, escrita com alegria ao som da banda musical minhota, irei começar.

Em nome de Deus, Amén.
A minha vontade, Padre Domingos de Azevedo Moreira, após conversações com os sobrinhos com quem vivo, e com o seu consentimento, é que a minha biblioteca seja cedida a uma instituição que me dê garantias da sua segurança, conservação, dinamização, de forma que esta seja sempre uma biblioteca viva. Assim, decidi ceder, como cedo, a minha biblioteca ao Município de Santa Maria da Feira nas seguintes condições:
a)      Biblioteca especial (cujo critério de selecção será feito pelo meu testamenteiro): contém os exemplares mais valiosos. Quero que estes sejam instalados em caixa-forte em condições de conservação adequadas a cargo da Câmara Municipal.
b)      A restante biblioteca (livros, revistas, jornais, fotocópias, apontamentos, objectos musicais, discos, etc.) será alojada em sala (ou salas) própria (s), com o nome do doador na porta da sala – P. Domingos de Azevedo Moreira, Abade de Pigeiros. Será instalada no pólo de Pigeiros, depois de estar a casa pronta (em Pigeiros). O espólio será acessível ao Declarante e aos seus dois sobrinhos (MARIA DE FÁTIMA DE PINHO MOREIRA MAGALHÃES E MARIDO) em cuja casa vivo. Falecendo um e outros, cessa o direito de fruição.
Quanto a cuidados: gostava que fosse criado uma espécie de CONSELHO PEDAGÓGICO com o objectivo de conservação e dinamização da biblioteca para que esta não se torne num mundo fechado. Do citado CONSELHO farão parte a minha sobrinha MARIA DE FÁTIMA DE PINHO MOREIRA MAGALHÃES E O SR. VEREADOR DA CULTURA da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira).
Por questões de segurança ou outras, o espólio pode ser transferido provisoriamente da residência de Pigeiros para instalações em Romariz. Os trabalhos de inventariação poderão ser iniciados de imediato por pessoal a indicar pela Câmara Municipal, sendo minha vontade que a minha sobrinha Fátima e seu marido integre essa equipa.
Nomeio como testamenteiro o meu condiscípulo, Dr. Cândido dos Santos.

27 de setembro de 2018

The Best - Ora bolas


A avaliar pelas opiniões e comentários expressas nos média online e redes sociais, parece que muita gente ficou desiludida ou até mesmo revoltada com o facto de Cristiano Ronaldo ter perdido o troféu de melhor futebolista mundial pela FIFA, para o seu ex-colega de equipa no Real Madrid, Luka Modric.
Certo é que depois do croata ter vencido recentemente o troféu de melhor jogador para a UEFA, adivinhava-se que Ronaldo não teria hipóteses de somar o seu sexto troféu (tem 5 tal como Lionel Messi). 

Pode ser apenas uma teoria, mas o facto de Cristiano Ronaldo ter deixado o Real Madrid no contexto em que o deixou, pode ter feito toda a diferença. Há quem garanta que se o CR7 ainda estivesse no Real o troféu não lhe fugiria. Não custa nadinha a acreditar.

Certo é que, como Messi, que nem sequer estava nomeado, Cristiano Ronaldo certamente pré-avisado do resultado, nem se dignou a aparecer à cerimónia. Verdade se diga, para além de todas as grandes qualidades de Ronaldo, tanto quanto atleta como homem, o saber perder nunca foi uma das suas boas qualidades. Daí, mesmo que com as habituais e legítimas desculpas, acabou por não aparecer. Ora é bom saber ganhar mas mais importante saber perder, independentemente dos critérios e do sentido de justiça da atribuição do troféu a Modric.

Pessoalmente acho sempre uma piada que os defensores de Ronaldo esgrimam a seu favor o número de golos e de títulos. Ora por estes critérios, pode-se pôr de lado a possibilidade de atribuição do troféu a um jogador na posição de defesa e mesmo a um guarda-redes (coitados, poucos ou nenhuns golos marcam). Por conseguinte, dito isto, creio que a atribuição de tal troféu não pode de todo corresponder tão somente aos golos e aos títulos mas à classe e qualidade intrínseca de um futebolista, em suma, a genialidade (no que Messi tem de sobra). Ora a conquista do "The Best" por Luka Modric veio de alguma forma fazer jus ao nome do troféu, mostrando que os golos não podem nem devem ser factor decisivo. Caso assim não fosse seria preferível e menos hipócrita que a FIFA tivesse um prémio semelhante para cada um dos sectores do futebol conforme a sua organização, ou seja, o melhor avançado, o melhor médio, o melhor defesa e o melhor guarda-redes. Seria preferível porque mais consentâneo com as características próprias de cada atleta na respectiva posição. Eventualmente até um prémio para cada posição específica, no que resultaria em 11 troféus. 

Mas manda quem pode e afinal de contas este tipo de troféus e cerimónias a eles associadas não passam de show-off e entretenimento à volta de quem ganha milhões a dar chutos numa bola. Portanto merece a importância que merece ou aquela que cada um de nós lhe quiser dar. Por mim, dou pouca.

19 de setembro de 2018

José Coelho, que também é Gomes de Almeida



(Há uns anitos, à sombra do sobreiro junto à capela de Nossa Senhora da Conceição - Abelheira - Escariz )


(num encontro da LIAM em Fátima, ao lado das já saudosas D. Laurinda e D. Lucinda)

Quem não conhece o Zé Coelho? Pois bem, está hoje de parabéns. 92 anos feitos, porque quis o destino que nascesse no dia 19 de Setembro de 1926. Será já dos homens mais velhos da freguesia de Guisande. 
Tenho uma carinho e consideração especiais por este cidadão do mundo com o qual comecei a ter algum relacionamento a partir do momento em que recém chegado de África do Sul, por volta do final dos anos 80 veio ao estúdio da então Rádio Clube de Guisande, cantar umas cantigas acompanhadas pela sua guitarra de fados. Mais tarde, por volta da viragem do século, uma maior e frequente proximidade, participando nas reuniões, iniciativas e convívios do Núcleo da LIAM de Guisande, no qual estávamos então envolvidos. Eu de viola e ele de guitarra, foram muitas as cantigas ao desafio e a fazer dançar muita e boa gente com ritmos de viras e chulas. Mais tarde, que o instrumento era velho, comprou uma nova guitarra e deu-me a velha, que ainda guardo.
Infelizmente os anos passam e pesam para todos, sobretudo para quem já passa dos 90. Apesar disso, certamente que mais debilitado, passando já os dias no Centro Social em Gião, ainda temos a alegria de ter por cá o Zé do Coelho. Que ainda seja por muitos e bons anos. Parabéns Coelho!

Sobre a sua vida, ele próprio, em quadras que escreveu há alguns anitos (doze), faz uma retrospectiva da mesma. Poderia, depois disso, já ter acrescentado mais algumas, mas o que viveu já é muito, em idade e em experiências. De resto, como ele próprio diz na quadra final "...São histórias alegres e tristes, Mas com elas se faz a vida".


Nasci no ano de 1926
No dia 19 de Setembro.
Aqui conto minhas histórias,
De todas elas eu me lembro.

Minha terra é Guisande,
De Santa Maria da Feira,
Meu amor por ela é grande,
Será assim a vida inteira.

Com sete anos de idade
Comecei a ir para a escola,
E desde aí fui crescendo
Ganhando juízo na tola.

É para as queridas crianças
Que vou contar a minha história,
Recordar meus velhos tempos
Que tenho gravados na memória.

Eram tempos bem difíceis
Diferentes do que tendes agora,
Para a escola ia-mos a pé
E a pé vínhamos embora.

Não havia autocarros
Nem estradas alcatroadas,
Caminhávamos só por quelhas
Velhas, sujas e apertadas.

Só existiam três carros
Aqui, na minha freguesia,
Hoje há casas com dois e três,
O que não falta é burguesia.

Findado o tempo de escola
Logo comecei a trabalhar,
Mas procurando novos rumos
A África fui parar.

Foi em Outubro de 1954
Que para Angola emigrei,
Das dificuldades desse tempo
Vou contar-vos o que passei.

Foi Angola a escolhida,
Por ter língua igual,
Assim aprendi na escola,
Angola também era Portugal.

Passei por grandes dificuldades,
Algumas delas vou contar,
Pois não arranjava trabalho
E o dinheiro estava a acabar.

Só ao fim de alguns meses
Consegui o primeiro emprego,
Ali trabalhei vários anos
Com vontade, força e apego.

Era uma fábrica de cerveja,
E Cuca se chamava,
Bebida loura e fresquinha,
A muitos a sede matava.

Assim fui vencendo na vida
E muita coisa melhorou,
Mas foram tempos difíceis,
Comi o pão que o “diabo amassou”.

Durante o dia trabalhava
Só à noite fazia a comida,
Que guardava para o outro dia.
Assim era a minha vida.

Até a pobre roupa
Era eu quem lavava,
Como o clima era quente
Pela noite ela secava.

Assim trabalhei oito anos
Com amor e dedicação,
Mas ao fim desse tempo
Sofri nova desilusão.

Comecei de novo a sofrer
E a perder já a ilusão,
Pois em Angola rebentara
A chamada revolução.

Dez anos tinham passado,
A Portugal tive de voltar.
Angola estava em guerra
E era perigoso lá continuar.

Em Portugal passei dois anos
Sempre na vida a lutar,
Mas com saudades de África
Desejava regressar.

Foi para a África de Sul
Que desta vez emigrei,
E assim com outra história,
Vou contar-vos o que passei.

Facilmente arranjei trabalho,
Era coisa que lá não faltava,
Mas tinha outro problema
Era o inglês que não falava.

Todo o dia trabalhava
Mas à noite ia para a escola
Aprender a língua inglesa
E encaixá-la bem na tola.

Até para ir ao mercado
Comprar o que precisava,
Como não sabia falar inglês
Nem o dinheiro contava.

Assim fui aprendendo
Mas tudo um pouco custou,
É para vós saberdes, meninos,
O que o emigrante passou.

Trabalhando e estudando
Muita coisa aprendi,
Hoje, com meus oitenta anos,
Estou feliz por chegar aqui.

Meus dois filhos estão na África
E eu por cá, vivo sozinho.
É triste a solidão,
Mas Portugal é que é meu ninho.

Hoje tenho meus pensamentos
Em África e em Portugal,
Mas Portugal é minha terra,
Aonde nasci e sou natural.

Todos os anos de avião,
Meus filhos e netos vou rever,
Vou matar a saudade,
E um mês fico lá a viver.

Tenho filhos, também noras
E netos da vossa idade,
Que me fazem recordar
Meus tempos de mocidade.

Nas minhas férias em África
Sempre falo com muita gente
Relembro minha juventude
E vejo como hoje tudo é diferente.

Foi para vós meus meninos
Que escrevi a minha história,
Peço-vos que não a esqueçais
Guardai-a na vossa memória.

Se um dia tiveres que emigrar
Pensai bem antes de o fazer,
Mas por vezes até faz bem
Na vida um pouco sofrer.

 Desta feita vou terminar 
E fazer a minha despedida,
São histórias alegres e tristes
Mas com elas se faz a vida.

José Coelho Gomes de Almeida

9 de setembro de 2018

Barbearia Central ao Domingo


Porque é Domingo, porque as dias continuam a correr e a somar. Barbearia Central, aberta por conveniência e por excelência..

12 de agosto de 2018

Barbearia Central - Contra os canhões, escanhoar



Infelizmente, que se conste, já não faz (desfaz) barbas o Sr. Albertino. Para quem estava habituado a esses luxos, como o Tio Neca, tem agora que se remediar com um escanhoamento às mãos do sobrinho. Mas gosta, sobretudo, do final, quando à moda do saudoso Ti´Antoninho, leva com umas generosas "chapadas" de Pitralon que lhe refresca e perfuma as rugas dos seus quase 95 anos, bem conservados, diga-se.
Esta Barbearia Central só abre portas por encomenda e uma vez por semana,  quando o sol espreita do lado de Vila Seca.

Já agora, a origem do termo escanhoar:

A parte inferior dos pêlos, tal como as penas das aves, está inserida em tubos naturais da própria pele denominados vulgarmente por canhões.
Escanhoar significa «cortar os pêlos da barba até aos canhões», ou seja, até ao limite acima da pele.

[fonte: Ciberdúvidas]

11 de maio de 2018

Pe. Francisco - 20 anos de saudade


Passam na próxima terça-feira, 15 de Maio de 2018, vinte anos, duas décadas, sobre a morte do Pe. Francisco Gomes de Oliveira. São vinte anos de saudade de um homem e pastor que dedicou a maior parte da sua vida à paróquia de S. Mamede de Guisande, um percurso iniciado em Setembro de 1939. Paz à sua alma!

Desconheço se a paróquia de Guisande tem ou não prevista alguma celebração ou evento em memória e evocação da data, mas creio que seria justo.
Pela parte que me toca, disse-o por aqui há algum tempo, estou a elaborar alguns apontamentos biográficos e contextuais à freguesia e paróquia de Guisande, que entretanto serão passados a livro, mesmo que de edição de autor. Tinha como intenção que o livro já estivesse impresso e fosse apresentado neste mês de Maio à passagem da data, mas tal tornou-se impossível. Por um lado devido ao facto de estar a incluir mais apontamentos do que aqueles que inicialmente tinha previsto e por outro lado porque não tenho tido a colaboração de quem inicialmente esperava obtê-la. Vejo que nestas coisas temos que contar apenas connosco próprios. 
Seja como for, tenho a esperança de mais ano menos ano vir a concretizar essa intenção, nem que revista e enquadrada noutro contexto.

A. Almeida

21 de março de 2018

Coisas da bola


Da imprensa: "Cristiano Ronaldo pediu que valorizem mais os futebolistas portugueses e que "pensem grande", sem medo de terem ambição.
"Aborrece-me ver o valor que em Portugal dão aos estrangeiros, não vejo tanto valorizar o que é nosso, os jogadores portugueses", defendeu o avançado da seleção nacional e do Real Madrid, na gala anual da Federação Portuguesa de Futebol.

Ronaldo tem razão de princípio, mas não a tem toda. E não a tem toda porque fala de barriga cheia e não pode pretender que os adeptos dêem valor a "toscos" e a "coxos" em detrimento de verdadeiros artistas, mesmo que estrangeiros.
Mas reconhecendo-se o enorme ego de Ronaldo, no fundo ele estava a falar por si e a criticar aqueles adeptos portugueses que preferem a magia do futebol de Messi e a este classificam como o melhor futebolista de todos os tempos. 
Mesmo reconhecendo a extraordinária categoria de Ronaldo e o seu profissionalismo, obviamente que enquanto artista da bola eu também prefiro o Messi. Mas quanto a preferência cada um gosta do que gosta.
Para além disso, Ronaldo fala em valorizar o que é nosso, coisa que tanto ele como os mais categorizados jogadores portugueses em rigor não fazem, ao optarem, legitimamente, diga-se, por cedo escolherem outros clubes e países, tudo em nome do prestígio deles próprios e da sua carteira, obviamente. Ora se Ronaldo e Companhia fossem assim tão "patriotas" e "valorizassem o que é nosso", ainda estariam por cá em clubes como o Sporting, Benfica, Porto e mesmo outros e mesmo assim a ganharam muito acima dos comuns mortais. Com eles por cá certamente que o nosso futebol e a nossa liga teriam mais qualidade e com menos estrangeiros. Isso sim.
Assim sendo, o que Ronaldo diz ou pensa no que a lições de moral ou de patriotismo diz respeito, vale o que vale e vale pouco ou nada. 
Patriotismo e amor à camisola são coisas que há muito andam afogadas pelos interesses próprios e sobretudo pelo dinheiro, quanto mais melhor. Beijinhos aos emblemas e às camisolas valem tanto como beijos de Judas.

7 de novembro de 2017

Livro de apontamentos sobre o Padre Francisco Gomes de Oliveira


É um projecto, ou pelo menos uma intenção antiga, despontada logo nos anos imediatos à sua morte (em 1998), o elaborar um pequeno livro baseado em alguns apontamentos, biográficos e muitos de carácter pessoal, sobre o saudoso ex-pároco de Guisande, o Pe. Francisco Gomes de Oliveira. 

A ideia tem estado parada, embora com muito material já compilado e escrito, e sempre que encontro alguma disponibilidade tenho estado a acrescentar conteúdo, a passar a limpo e a esquematizar a sua estrutura. Digamos que tem estado a ser cozinhado.

Tive intenção inicial que o mesmo se concretizasse pela evocação dos 20 anos de falecimento mas tornou-se impossível. 
Por outro lado, a determinada altura achei por bem reorientar o objectivo do livro. Será um conjunto de apontamentos históricos e sócio-culturais sobre a nossa freguesia e paróquia em que naturalmente o Pe. Francisco terá um espaço significativo.

Seja como for, será sempre um livro de edição de autor, por isso custeado a expensas próprias a não ser que surja algum apoio mais institucional que deva considerar mas que, em princípio não pedirei.

A ver vamos se será possível essa concretização com a brevidade possível.

Por isso, siga em frente a ver no que dá.

31 de agosto de 2017

Historiando - A lápide da sepultura do Padre Manuel Carvalho

Já nos referimos aqui ao Padre Manuel Carvalho, ilustre figura da nossa paróquia de S. Mamede de Guisande, desde logo por ter sido o fundador, no ano de 1933, da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, irmandade que ainda se encontra activa nos dias actuais, embora já sem a pujança de tempos idos.

Quanto às notas biográficas sobre esse ilustre clérigo, para além da referência que na lista de párocos lhe é feita pelo Cónego Dr. António Ferreira Pinto, na sua monografia sobre Guisande "Defendei Vossas Terras", publicada em 1936, que abaixo se transcreve, pouco mais se sabe para além de que foi pároco de S. Mamede de Guisande em grande parte da primeira metade do séc. XVIII (de 1710 a 1754), 

-Manuel de Carvalho, foi nomeado em 1710. Alma verdadeiramente apostólica, fundou uma obra, que ainda hoje está florescente e é o orgulho de Guisande. Refiro-me à Confraria de N. S. do Rosário, fundada em 1733, com todas as licenças dos Dominicanos e autorizações necessárias, cujos Estatutos foram aprovados em 2 de Setembro de 1734 e modificados em Janeiro de 1794. O segundo livro do registo paroquial foi rubricado por este zeloso pároco, em virtude da comissão que lhe deu o Provisor, em 24 de Novembro de 1733. Por motivo de grave doença, resignou, em 1752, em favor do seu sucessor e faleceu, a 4 de Fevereiro de 1758, deixando muitas esmolas e legados. Esteve sepultado na capela-mor da igreja de Guisande e as ossadas foram removidas para o cemitério, por ocasião do bicentenário da erecção da confraria, acompanhada de 8 dias de sermões, que pregou um sacerdote dominicano, em Dezembro de 1933.

Para além destas escassas mas importantes referências, fica-se a saber que em 1933 (...esteve sepultado na capela-mor da igreja de Guisande e as ossadas foram removidas para o cemitério, por ocasião do bicentenário da erecção da confraria). Os seus restos mortais foram assim enterrados no cemitério, em local à esquerda de quem entra pelo portão principal, o que se pode comprovar pela fotografia abaixo, datada de Julho de 1966. 
O local foi assinalado pela colocação de uma lápide em granito, com uma altura entre um metro e meio a dois metros, encimada por uma cruz e com uma inscrição que fazia referência ao nome, ao motivo e à data da trasladação. Infelizmente não são conhecidas fotografias com mais pormenor da referida lápide que sirvam de fiel testemunho.




Conforme se pode verificar pela fotografia acima, ainda existiam as sebes de bucho a delimitar os quatro canteiros e para além dos jazigos da Casa do Sr. Almeida do Viso, da capela da Casa do Sr. Moreira da Igreja e mais um ou outro jazigo realizados em granito, a maioria das campas eram rasas, em terra, assinaladas com as características lápides negras em xisto. Nesse tempo as dificuldades eram outras e, porque não dizê-lo, as vaidades eram menores. 

Esta configuração do cemitério composto maioritariamente por campas rasas e sem concessão perpétua, durou até ao ano de 1973 altura em que a Junta de Freguesia e Comissão Fabriqueira ali realizaram obras, sendo removidas as sebes de bucho e pavimentados os passeios com calçada em pedrinha de calcário e basalto. A data, lá inscrita, conforme fotografia abaixo, refere-se a 1973, por isso ainda no tempo do Estado Novo. Era nessa altura presidente da Junta Joaquim Ferreira Coelho, o secretário Higino Gomes de Almeida e o tesoureiro Alcides da Silva Gomes Giro.


Com as referidas obras realizadas em 1973, a maior parte do terreno ocupado era ainda pertença da Junta, sendo então este dividido em sepulturas que foram sendo vendidas ao longo dos anos 70 e mesmo ainda em parte da década de 80 até que, já por falta de terreno vendável face à procura, se tornou imperativa a construção do cemitério novo. Infelizmente, esta requalificação decorrente das obras de 1973 resultou em sepulturas com pouca métrica e nenhumas preocupações de alinhamentos, pelo que se nota uma desorganização nos jazigos e nos exíguos espaços de circulação envolventes, mais notória no cantão norte/nascente, precisamente onde estavam os restos mortais do Padre Manuel Carvalho.

Mas mais grave que esta desorganização geométrica das actuais sepulturas, em parte motivada por cada um construir à sua maneira e à necessidade de manter uma ou outra sepultura já vendida com carácter de concessão perpétua, foi o facto de ter sido vendido o espaço ocupado pela sepultura dos restos mortais do padre fundador da Confraria, bem como a remoção da referida lápide cujo paradeiro se desconhece, temendo-se que mais do que o seu desaparecimento ou apropriação indevida por alguém, tenha mesmo sido destruída, despedaçada e enterrada algures no solo do cemitério ou de qualquer outro aterro. Mandava o bom senso e o sentido de preservação, e até o respeito pela memória de figura ilustre, que pelo menos a lápide e os restos mortais, se ainda visíveis, fossem colocados com dignidade num dos canteiros do adro, senão no próprio cemitério.

Apesar de o assunto já ter sido pegado por alguém num passado recente, nomeadamente pelo Sr. Mário Baptista, honra lhe seja feita, certo é que nunca se chegou ao apuramento da verdade quanto ao destino ou paradeiro da lápide. Foi, obviamente uma irresponsabilidade de várias pessoas, mesmo que por negligência involuntária, mas seguramente uma enorme falta de sensibilidade pelas coisas da nossa história e memória colectiva mesmo que na forma de uma pedra. Infelizmente para muitos as pedras são isso mesmo, pedras ou calhaus, mesmo que nos contem histórias, recordem factos, nos lembrem ou evoquem pessoas. 

É triste e revelador de insensibilidade e de ignorância, pelo menos cultural, mas foi o que aconteceu e em muitos aspectos ainda continua a acontecer e tem-se descurado o arquivamento de documentos e anotações que pelo menos no futuro seriam importantes para a história comum da nossa freguesia e paróquia. Não nos serve o mal dos outros como consolo, mas infelizmente este não é apenas um pecado nosso mas de muitas outras paróquias e instituições. Alegra-nos a esperança de pensar que nunca é tarde para se começar a preservar, mesmo que nos entristeça o muito que já foi perdido.


Acima, um desenho rudimentar com a representação aproximada da configuração da lápide de granito que assinalava a localização dos restos mortais do Padre Manuel Carvalho. Obviamente ali falta  a inscrição, que em rigor se desconhece mas que certamente para além do nome faria referência à data e ao motivo.

Américo Almeida

26 de agosto de 2017

Professor Joaquim Ferreira Pinto e outras histórias


Joaquim Ferreira Pinto, nasceu a 14 de Janeiro de 1879, no lugar de Fornos, freguesia de Guisande. Filho de Joaquim Caetano Pinto e de Ana Rosa Duarte. 
Foi baptizado na igreja matriz de Guisande, tendo como padrinho o Abade António Ferreira Duarte (1), então pároco de S. Miguel do Mato - Arouca e Joaquina Rosa Duarte.
Era neto paterno de Manuel Caetano Pinto e de Joana de Jesus e neto materno de Manuel Ferreira Duarte e de Joana Margarida Gomes.
Formou-se em professor e exerceu numa escola privada que tinha no lugar de Casaldaça, Guisande.
Faleceu em 03 de Setembro do ano de 1971 com 91 anos de idade. Está sepultado no cemitério de Guisande.


Extracto da certidão de baptismo do Prof. Joaquim Ferreira Pinto.

Nota: (1) - O Abade António Ferreira Duarte, nasceu em Cedofeita, freguesia do Vale - Vila da Feira, no dia 04 de Janeiro de 1813. Era filho de António Ferreira Duarte e de Maria Eufrásia de Jesus, ambos de Cedofeita. Em 1833 já aparece na freguesia do Vale como padre. Foi abade de S. Miguel do Mato, concelho de Arouca, tendo falecido  no dia 24 de Março de 1888.

Notas complementares: Pelo que referimos em artigos anteriores, nomeadamente aqui e aqui, sabemos que o edifício da Escola Primária do Viso foi edificado no ano de 1949 e que a Escola Primária da Igreja teve a sua construção vinte anos depois, ou seja em 1969. De construção posterior apenas as instalações dos Jardins de Infância ou Pré-Primária da Igreja e de Fornos (esta a única em actividade).

Apesar destes factos relativos aos dois mais conhecidos edifícios escolares na freguesia, o ensino escolar primário em Guisande é anterior, remontando seguramente ao início dos anos vinte, sendo que então apenas para alunos do sexo masculino. Assim as primeiras referências a esta fase inicial da escolaridade primária em Guisande vão para o professor Joaquim Ferreira Pinto, irmão do cónego António Ferreira Pinto, o qual leccionava as quatro classes numa escola em edifício, pertencente ao próprio, situado no lugar de Casaldaça, mais concretamente no local onde actualmente existe a casa da Sr.ª Natália.

Esta escola integrava os rapazes da freguesia, no entanto não extensível à sua totalidade uma vez que então a frequência não era obrigatória e iriam apenas os filhos de gente mais abastada ou pelo menos mais receptiva a dispensar a mão-de-obra tão importante quanto necessária na lide da casa e dos campos.

Tenho indicação que já por essa altura a frequentaram o meu falecido pai (António Gomes de Almeida), nascido em 1917 e o meu tio Neca (Manuel Joaquim Gomes de Almeida), ainda vivo, com quase 94 anos de idade, que ainda relata as memórias desse tempo e de modo particular o seu tempo de escola. Segundo esses mesmos relatos na primeira pessoa, a escola era composta por uma única e ampla sala na qual o professor Joaquim leccionava em simultâneo as quatro classes. O número de rapazes terá chegado aos 80, por isso uma média de 20 por classe. O horário seria das 08:00 horas às 14:30 horas, sem intervalo para almoço e não raras vezes, por castigo, era suprimida a hora de recreio. Para além deste horário exigente, os alunos que estavam em vias de realizar o exame da quarta classe tinham ainda umas horas adicionais no resto da tarde.

Ainda segundo as memórias do meu tio Neca, o professor Joaquim, era extremamente exigente e mesmo muito severo nos castigos e na disciplina que fazia cumprir a reguadas, canadas e até a "biqueiradas e palmadas". Seria o "terror" dos alunos. Não espanta, pois, que muitos dos rapazes simulassem dores de barriga, vómitos (forçados com dedos enfiados pela goela abaixo) e dores de cabeça, para  de algum modo, com o seu ar de doentes e abatidos sensibilizarem os pais (sobretudo as mães) e poderem escapar a umas aulas. A severidade dos regentes/professores desses tempos era quase uma regra. Para o bem e para o mal, as coisas inverteram-se e em poucos anos passamos do 8 ao 80 e por agora a tônica é o desrespeito e mesmo abusos dos alunos para com os professores.

Esta situação de ensino escolar aberto apenas a rapazes, e não a todos, mantinha-se ainda no ano de 1936, pois o cónego António Ferreira Pinto, na sua monografia sobre a freguesia de Guisande, "Defendei Vossas Terras...", fazia uma referência a essa situação, concretamente: 

(...Há escola apenas para o sexo masculino e o edifício, que é pequeno, pertence ao professor por herança. Está criada a escola para o sexo feminino, mas não pode funcionar, porque não há edifício em condições. Todos reconhecem a necessidade duma construção para as duas escolas, mas a pouca vontade de uns, a falta de recursos de outros, o individualismo ou egoísmo de alguns que não têm filhos ou já estão crescidos e educados e talvez outros motivos que desconheço — tudo impede um melhoramento que é de necessidade e de utilidade sobretudo para as meninas. E uma obra de utilidade pública e social. Oxalá que isto seja compreendido por todos para honra da terra, realizando-se a obra para bem e interesse geral.)

Resulta daqui que já por essa época sentia-se a necessidade de abrir o ensino das primeiras letras às raparigas de Guisande, mas a dificuldade, para além de culturais, porque numa época em que era comum o analfabetismo e os filhos eram mão-de-obra não dispensável, era também material já que não havia posses para um edifício público próprio.
Seja como for, a ter em conta a leitura da acta da Junta de Freguesia dessa época (que abaixo se reproduz), em que era presidente o Sr. José Gomes Leite, do lugar do Reguengo, a opinião do ilustre cónego era partilhada pela Junta. Leia-se, por isso, a acta da reunião de Março de 1937, mesmo que num português rudimentar, a precisar de escola:

Acta da sessão da Junta de Freguesia de Guisande, concelho de Vila da Feira.
Aos ... dias do mês de Março do ano de mil nove centos e trinta e sete, se reuniu em sessão ordinária a Junta de Paróquia na sala das sessões. Disse o Sr. Presidente que não tendo escola feminina temos necessidade da criação de um posto escolar para o sexo feminino, para ser a sede no lugar do Reguengo, com os lugares adjuntos, sendo Reguengo, Barrosa, Fornos, Lama, Casaldaça, Quintães e Cimo de Vila. Para a regente ser nomeada a D. Branca Ester dos Santos Cabral de Sousido, o que isto foi resolvido pelo Sr. Presidente para não ficarem as crianças sem escola por não haver escola feminina. Temos a escola criada mas não temos edifício para exercer a escola para a professora. Esperamos ver a criação do posto para benefício de tantas meninas que há na nossa freguesia e que aquelas que precisam aprender e tem vontade andam fora, em Lobão. e outras não aprendem por não ter.
Não havendo mais nada a tratar foi encerrada a sessão lavrando-se o presente acta que vai ser assinada por todos.
José Gomes leite
António Custódio Gonçalves
António Augusto Guedes.


Não deixa de ser curiosa a situação abordada na referida acta da Junta em 1937, sendo que mesmo pela leitura de actas seguintes não é líquido que tal escola ou simplificadamente esse posto escolar tenha mesmo sido concretizado. De resto, por relatos do meu tio Neca, com a autoridade dos seus quase 94 anos e boa memória, não se recorda de ter havido escola ou posto escolar no lugar do Reguengo. Funcionou, isso sim, no lugar do Viso, no local na casa do falecido Sr. Antoninho (sogro do Sr. Manuel Tavares), por isso ao fundo monte. E a professora foi precisamente a referida D. Branca (D. Branquinha, como era conhecida), da freguesia de Louredo. Terá, pois, sido alterada para o lugar do Viso a pretensão inicial da Junta de Freguesia de localizar  o posto escolar no lugar do Reguengo, eventualmente este proposto pelo facto do presidente da Junta da época (José Gomes Leite) ser dali. Eventualmente o edifício a ser considerado para tal função seria até do próprio.
Outra nota curiosa, este posto escolar no lugar do Viso terá sido posteriormente deslocado (cerca de 150 metros para sul) para  o lugar das Quintães, passando a funcionar no edifício actualmente pertencente ao Sr. Rogério Neves, próximo da Casa do Santiago e na altura de propriedade do sogro do Sr. Rogério, precisamente o referido presidente da Junta de então, o Sr. José Gomes Leite.

Um ano depois, em 1937, a mesma Junta de Freguesia, por acta datada de 27 de Março de 1938, faz referência à intenção de abrir um segundo posto escolar para raparigas, a sediar no lugar da Leira e a abranger alunos dos lugares não referidos na acta de 1936 (sendo que por curiosidade não são mencionados os lugares da Igreja e Viso, que viriam precisamente anos depois a ser a sede das duas escolas primárias). Convém referir que por essas alturas os acessos entre os diferentes lugares da freguesia eram poucos e fracos, essencialmente por caminhos, e por isso, sobretudo em tempos de chuva, ir de uma ponta da freguesia à outra era um autêntico cabo dos trabalhos. Não espantaria que para se ir de Estôze ao Reguengo ou vice-versa fosse coisa para demorar uma hora por mau caminho, com covas e lama. Por outro lado, as raparigas eram seguramente mais que as mães pelo que a justificação de dois postos assentaria numa necessidade geográfica mas também de lotação.

Vejamos então a deliberação da referia acta da Junta de Freguesia datada de 27 de Março de 1938:

Aos vinte e sete dias do mês de Março de mil e nove centos e trinta e oito  na sala das sessões da Junta de Freguesia de Guisande, concelho da Feira, compareceram os cidadãos José Gomes Leite, António Custódio Gonçalves e António Augusto Guedes, respectivamente presidente e vogais, às onze horas precisas foi pelo presidente declarada aberta a sessão. Pelo presidente foi dito havendo inteira necessidade de criação de um posto escolar feminino nesta freguesia no lugar da leira, visto os lugares abaixo mencionados ficarem muito distantes do posto escolar que existe e a escola masculina não poder aceitar as meninas a sua frequência por determinação da lei. Mais propôs que este posto escolar venha a servir os lugares de Leira (sede), Gândara, Estôze, Pereirada e Outeiro. Para regente a D. Gracinda Gomes da Silva, habilitada com exame de aptidão desde Outubro de mil e nove centos e trinta e sete, natural desta freguesia, órfã de mãe e ser de absoluta necessidade de haver protecção às famílias numerosas visto serem mais dez irmãos e por lutar com dificuldade para a sustentação e educação dos seus onze filhos. Depois de discutida e apreciada a proposta em todos os pontos, esta Junta deliberou por unanimidade a aprová-la. Não havendo mais a tratar pelo presidente foi encerrada a sessão. Para que conste lavrei a presente acta que vai ser lida em voz alta e assinada por todos.
José Gomes Leite
António Custódio Gonçalves
António Augusto Guedes.

Nesta acta, para além da referência à tal necessidade da abertura de um segundo posto escolar para meninas, a referência pessoal à nomeação da regente (professora), órfã de mãe, uma de onze irmãos. Não deixa de ser notável que alguém de uma família numerosa, sem mãe e com dificuldades inerentes, tenha conseguido fazer exame de habilitação para regente de uma escola primária, mesmo sabendo-se que os requisitos da época para este cargo não fossem obviamente muito exigentes, não sendo para o efeito necessária qualquer licenciatura, mas apenas uma formação básica e um exame. Refira-se, ainda a titulo de curiosidade que esta D. Gracinda, era natural de Guisande e irmã da Sr.ª Celeste, esta mãe da professora Marilda e do Jorge Ferreira,e que também ela durante muitos anos foi regente/professora na freguesia de Caldas de S. Jorge e sobretudo em Lobão, na Escola do lugar do Ribeiro. Esta professora Gracinda casou e viveu posteriormente em S. João da Madeira.

Destas duas actas que se referem à criação de dois postos escolares destinados a raparigas, conclui-se que Guisande pelos meados dos anos 30 e até final dos anos 40 teve assim uma escola para rapazes e dois postos para raparigas. Há ainda a informação de que terá também funcionado um posto escolar no lugar da Gândara, onde actualmente existe a Casa Neves, facto que ainda não conseguimos confirmar. Este edifício, e novamente a curiosidade, seria então de António Augusto Guedes, precisamente um membro da Junta da época, o que é perfeitamente compreensível que se tenha disposto a conseguir disponibilizar um local para o posto escolar. Será, pois, de supor que a tal intenção de sediar o posto escolar feminino dirigido pela D. Gracinda tivesse funcionado um pouco mais a norte, no lugar da Gândara.

Estas situações de postos escolares em edifícios particulares e de carácter provisório e certamente que por isso não vocacionados ou preparados condignamente para o ensino, terão sido resolvidas com a construção da Escola Primária do Viso, com duas salas, uma para rapazes e outra para raparigas, como dissemos, no ano de 1949. A partir daí, com uma construção de raiz e com carácter público, terá ficado centralizado na Escola do Viso todo o ensino primário na nossa freguesia de Guisande. Apenas vinte anos depois, em 1969, a  freguesia sentiu necessidade de edificar um novo edifício, com a construção da Escola Primária da Igreja. Estas duas escolas funcionaram em simultâneo durante pelo menos 40 anos. Infelizmente, com as políticas de centralização dos serviços do ensino primário a par da nítida baixa de natalidade, tornou-se inevitável o encerramento da actividade escolar primária na nossa freguesia (de que é excepção o Jardim de Infância de Fornos e mesmo assim com algumas crianças de fora da freguesia)  e por conseguinte do encerramento dos respectivos edifícios escolares. Do mal o menos, ainda continuam de propriedade pública e por isso ou já integrados ou a integrar em actividades sócio-culturais da nossa freguesia.




Actas da Junta de Freguesia acima referidas.

2 de junho de 2017

Cónego Dr. António Ferreira Pinto



Passam hoje 146 anos (2 de Junho de 1871 - 2 de Junho de 2017)  sobre o nascimento do Cónego Dr. António Ferreira Pinto, ilustre figura guisandense.

Formou-se em Teologia pela Universidade de Coimbra em 1892 e em 1897 foi nomeado professor do Seminário. Foi pároco da paróquia da Vitória - Porto, desde 1898 e 1899 (durante 18 meses). Em 1906 foi nomeado vice-reitor do Seminário Maior da Diocese do Porto e em em 1929 como reitor, cargo que desempenhou até à sua morte, em Abril de 1949. Foi cónego da Sé, vice-oficial da Cúria e arcediago. Foi ainda juiz do Tribunal Eclesiástico.

É certo que pela sua vida sacerdotal e funções como reitor do Seminário do Porto, não teve tempo nem disponibilidade para uma vivência profunda e quotidiana com a sua terra natal, que visitava esporadicamente, mas deixou como principal legado a monografia que escreveu sobre a mesma. "Defendei Vossas terras... - S. Mamede de Guisande, no Concelho da Feira, Bispado do Porto", com primeira edição em 1936 e republicada em 1999 pela então Junta de Freguesia de Guisande, aquando do cinquentenário do seu falecimento.
 
Fica aqui a justa lembrança e evocação da data e da pessoa.

23 de dezembro de 2016

As melhoras para o Sr. António

 

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Soubemos que o Sr. António Henriques, do lugar do Viso, teve um acidente há dias, resultante de uma queda,  pelo que está naturalmente com algumas marcas. Não queremos, pois, deixar de lhe desejar as rápidas melhoras. Certamente que em breve estará recuperado pois é homem de raça e de fibra.

6 de outubro de 2016

António Guterres na ONU



Se ainda há homens bons, genuínos e ao serviço dos outros, daqueles que não enganam, António Guterres é seguramente um deles. Não só pelas actividades que desempenhou já depois de ter deixado a vida política, nomeadamente com o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, mas também enquanto esteve nela, sobretudo como primeiro-ministro. E porque percebeu o pantanal da mesma vida política, saiu como saiu, porventura demasiado cedo, certamente com ainda muito para dar, mas a história é como é.
Ainda bem que parece que finalmente a maratona da eleição para secretário-geral da ONU vai ter como vencedor o melhor atleta que a ela se apresentou. Quem de forma no mínimo deselegante entrou já na parte final da corrida, afinal acabou por ter dor de burro e ficou-se para trás. Pelo peso dos apoiantes, chegou-se a temer o pior mas se invertida a naturalidade das coisas e da maratona, seria um golpe demasiado duro para a credibilidade da ONU e seus membros. Parece que o bom senso e a razão prevaleceram. Ainda bem.
Devemos estar orgulhos por António Guterres, por Portugal e, claro, pela ONU.

Artigo de opinião - A. Almeida

11 de setembro de 2016

Por cá vamos indo

A todos quantos seguem com regularidade este nosso espaço, sobretudo para a comunidade emigrante, pedimos desculpas por nem sempre o actualizarmos com a devida regularidade.
Entretanto, depois de terminada mais uma Festa do Viso (não tendo até ao momento sido divulgadas as contas e o elenco da nova Comissão de Festas), tudo vai seguindo dentro da habitual normalidade.
De realçar nos últimos tempos o falecimento de duas grandes mulheres da nossa comunidade: A Sr.ª Bernardina (82 anos), esposa do Sr. Albertino, do lugar de Casaldaça, no dia 8 de Julho e a Sr-ª D. Laurinda (83 anos), do lugar das Quintães (Rua das Barreiradas), no dia 5 de Setembro. Com diferentes percursos na suas vidas mas ambas mulheres dedicadas às suas causas, fosse à família e ao trabalho do campo, como foi a Sr.a Dina,  fosse à causa da comunidade e das missões como foi a D. Laurinda. Ambas mulheres de fé e de muita dignidade e que apesar do sofrimento na fase final das suas vidas foram sempre capazes de o disfarçar com um sorriso. Foram ambas exemplos de mulheres verdadeiras. Guisande ficou mais pobre mas certamente que as terá na memória colectiva.

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