" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

23/09/2026

Chegou o Outono



Chegou o outono sem avisar que vinha,

com um vento quente, nas asas do destino.

Uma folha desprende-se e, por um instante,

parece que o mundo se esquece de continuar.


Acompanho-lhe a queda:

não há tragédia no declínio,

apenas a leveza irrefutável

de quem cumpriu o tempo de ficar.


Talvez a vida se resuma a isto:

um verão que não soubemos reter,

uma tarde que se dilata enquanto pode,

e, depois, o vento soberano

a ensinar-nos a arte de partir.


Há um espelho de mim

nas árvores despidas.

Também eu vou perdendo as minhas folhas:

lugares, nomes, desejos, rostos,

certezas que julguei imortais

e que hoje se dissolvem em penumbra.


E, contudo, não receio o inverno.

O medo é outro e mais profundo:

é descobrir que atravessei a primavera

sem nunca ter estado, de facto, nela.


Agora a luz declina, suave e rasteira,

e o céu hesita antes de se apagar.

Caminho devagar,

como se cada passo fosse uma pergunta soprada ao ar.


No fim, talvez não exista fim,

apenas a última dúvida que deixamos de ter.

E quando a minha derradeira folha tombar,

que o faça no mais puro silêncio,

como cai uma lágrima sentida.


Lá chegado, que ninguém diga: Olha, morreu!

Digam somente: foi outono, e ele compreendeu.

22/09/2026

Jorge Palma - "O meu amor ensinou-me a partir, nalguma noite triste"


"O meu amor ensinou-me a partir, nalguma noite triste"

Com a partida de Jorge Palma (e nestas coisas fala-se e comenta-se como se a morte nunca entre na equação para certas figuras) poucos mais ficam com a sua genialidade e qualidade. Desses, alguns já em idade avançada. Do resto, no geral, fica a mediocridade mas que enche palcos e concertos, porque hoje em dia o sucesso é marcado e definido por tantas coisas menos pelas que realmente contam para o caso, o talento próprio e natural.

Vamos (eu não) a concertos e festivais como quem faminto se abanca num qualquer fast-food onde não se resiste a fritos e a processados. Mas se toda a gente gosta, siga!

Durante estes dias em que se falará de Jorge Palma, dirão que foi-se o artista mas fica a música e as suas palavras, uma perda enorme para a cultura e música, um dia de luto para o país, um vazio insubstituível, etc. Já o disseram de Amália, Carlos Paião, Fausto, José Mário Branco, Carlos do Carmo, Luís Represas, etc. Dirão o mesmo quando chegar a vez de Sérgio Godinho, Rui Veloso, José Cid, etc.

É a vida. Como alguém costuma dizer, a vida é uma merda e depois morre-se!

Que fique em paz e na nossa memória musical e colectiva!


No bairro do amor a vida é um carrossel

Onde há sempre lugar para mais alguém;

O bairro do amor foi feito a lápis de cor

Por gente que sofreu por não ter ninguém.


21/09/2026

Atendimento nos cartórios e celebrações de missas - Horários

 


Estes horários são os habituais, sem prejuízo de excepções, devida e previamente avisadas.
No caso, em Guisande, no dia 25 de Setembro de 2026, não haverá atendimento.

20/09/2026

Os bons, os maus, os vilões e...os tolos


Houve um tempo em que os loucos tinham um certo ar que lhes emprestava uma aura de fascínio. Nos filmes dos anos sessenta e setenta, conhecidos como spaghetti western, em que os cowboys do oeste americano falavam italiano, sobretudo naqueles em que a realidade parecia ter sido deixada demasiado tempo ao sol, apareciam criaturas singulares, de olhos inquietos, gestos imprevisíveis e uma relação bastante livre com a razão. Não só um Clint Eastwood, como um Lee Van Cleef, mas outros mais, eram magníficos como intérpretes e figuras. Vistos do outro lado do ecrã, podiam ser admirados sem perigo, como se admiram os animais selvagens num documentário: há qualquer coisa de extraordinário neles mas desde que exista vidro entre nós.

O problema começa quando saem do filme. Ter um desses personagens à nossa frente é uma experiência bastante menos cinematográfica. Desaparece a música, acaba o enquadramento e percebemos que não há um Sergio Leone, Sollima, ou Corbucci para dizer quando a cena termina. Ficamos entregues ao homem. E o homem pode ser perfeitamente educado. É isso que mais inquieta.

Diz bom-dia, sorri, pergunta pela família, segura a porta para passarmos. Nas redes sociais agracia-nos com likes e comentários com erros mas lisonjeiros. Parece até um cidadão exemplar. Só que há qualquer coisa no olhar e no historial pessoal que recomenda prudência, uma espécie de meteorologia particular que não conseguimos interpretar. O céu está limpo, mas convém não esquecer o guarda-chuva.

Com certas pessoas, a conversa é uma caminhada sobre gelo fino. Não sabemos exactamente o que fizemos, mas sabemos que alguma coisa fizemos. Talvez o sorriso tenha durado um segundo a mais. Talvez o cumprimento tenha soado pouco sincero. Talvez tenhamos olhado para o lado no momento errado. Talvez uma uma faísca perto de gasolina. Há pessoas que possuem o raro talento de encontrar insultos onde os outros encontram apenas silêncio ou de ver o copo meio vazio quando todos juram que está meio cheio.

E então mudam. Não é preciso grande coisa. Uma sobrancelha levanta-se, a boca endurece, o rosto perde a cortesia e, de repente, aquele homem que há dez segundos parecia incapaz de fazer mal a uma mosca adquire uma expressão bíblica. Não é preciso que tire uma faca do bolso. Às vezes basta a maneira como olha para perceber que a civilização é uma película bastante fina e que, por baixo dela, há ainda qualquer coisa com dentes. Num instante, aquele que parecia todo cortesias, torna-se um inimigo visceral, espalha infâmias e calúnias mesmo que nos mude o nome.

Nessas alturas, fazemos o que a humanidade aprendeu depois de muitas guerras: ignoramos por completo e recuamos com elegância.

Sorrimos, até e continua-se a rotina do cumprimento, o levantar a mão quando passa de carro ou no final da missa ou na caixa do mercado.

Baixamos a voz. Concordamos, quando concordar não custa nada.

Não porque sejamos cobardes, como provavelmente gostaríamos de acreditar, mas porque descobrimos uma verdade prática que os heróis dos filmes com bons  mas sobretudo maus e vilões raramente respeitam: chegar vivo ao fim da conversa ou de uma contenda é uma forma respeitável de vitória.

Depois há os dias bons. Há manhãs em que o céu se conserva azul também dentro daquela cabeça e o homem aparece quase normal, como se voltasse a tomar a medicamentação a horas certas. É precisamente nesses momentos que, tomado talvez por uma estranha necessidade de contacto humano, decide interessar-se por nós, mesmo que sem pedir desculpas, como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse mesmo um filme.

Quer saber por que estamos tão afastados. Pergunta se sempre fomos assim. Questiona a saber de onde nos veio aquele gosto pela solidão, como se a solidão fosse uma doença hereditária que alguém tivesse obrigação de explicar.

É uma situação delicada. Podíamos dizer a verdade, naturalmente, mas a verdade é uma ferramenta que não deve ser usada indiscriminadamente. Há pessoas a quem se pode contar a vida de fio a pavio e há pessoas a quem é preferível falar  de coisas banais como do tempo com ares de meteorologista a antever sol, chuva e trovoada pela aparência das nuvens ou falta delas.

Por isso sorrimos. Dizemos qualquer coisa vaga. Fazemos um pequeno gesto de quem não percebeu bem a pergunta.

E, se percebermos que a conversa começa a tomar uma direcção pouco recomendável, fazemos o que tantos homens sensatos fizeram antes de nós diante de reis, loucos e cobradores de impostos: fazemos-nos de parvos.

É uma arte antiga e subestimada. O idiota, ao contrário do inteligente, raramente é considerado uma ameaça. Já discutir com ele, ganha-nos em experiência. Ademais, são da escola primária as leituras e fábulas das lutas entre moleiros e carvoeiros em que ambos ficam enfarruscados.

Para além de tudo, há momentos em que a melhor maneira de conservar a sanidade é deixar que o outro pense que não temos nenhuma. Afinal, dizem que dois tolos se compreendem como ninguém.

19/09/2026

Zé Coelho - Saudade

 

Fosse vivo e estaria neste dia 19 de Setembro de 2026 a celebrar o seu 100.º aniversário. Mas já partiu, há quatro anos, em 31 de Maio de 2022.

Não estando cá fisicamente, vive espiritualmente entre nós e por isso, de novo o trago aqui em memória.

Apesar de uma relação de amizade um pouco tardia, foram, ainda assim, muitos anos e muitos momentos partilhados.

O seu espírito aberto e alegre ajudaram em muito à sua sociabilidade na nossa comunidade.

Na missa de hoje, Sábado, hoje teve uma missa em sua memória e intenção. 

Que Deus o tenha junto a si.

Mais um livro pela mão do Carlos Cruz

 







Na passada sexta-feira, 11 de setembro, na freguesia de Lomba, em Gondomar, tive o prazer de participar na sessão de apresentação do livro de poesia "Manuel Moreira – Uma forma poética de viver". A obra foi organizada pelo nosso Carlos Cruz, natural daquela freguesia ribeirinha do Douro.

O livro é composto por poemas de Manuel Moreira, um filho da terra e emigrante reformado, que, através de uma poesia simples, realiza uma viagem ao tempo, aos lugares e ao modo de vida de um povo e de uma terra de que já só os mais velhos guardam memória. De certo modo, trata-se igualmente de uma poesia autobiográfica, uma vez que relata o seu percurso e a sua emigração para França, país onde manteve sempre uma forte ligação a Portugal e às suas raízes, nomeadamente através da dinamização de uma rádio e de um jornal, sendo figura reconhecida na comunidade local e imigrante.

Manuel Moreira foi cofundador do Rancho Folclórico de Santa Eufémia de Pé de Moura, motivo pelo qual fez todo o sentido que a apresentação da obra tivesse lugar na sede do próprio rancho, que esteve cheia. Para além da apresentação, houve lugar a fado e à actuação do rancho folclórico.

O livro foi editado pela Junta de Freguesia da Lomba, numa clara demonstração de apoio aos valores culturais da sua gente e da sua terra. Louvável!

Tal como já tinha sucedido com uma publicação anterior dedicada a outra importante figura da Lomba, Joaquim Viana, aceitei o convite do Carlos Cruz para deixar também a minha assinatura na obra, assumindo a paginação, bem como o design e o grafismo da capa.

18/09/2026

O efeito borboleta

Em todo o lado as há: boas pessoas, excelentes pais, filhos amorosos, avós ternurentos, vizinhos prestáveis. Mas, no geral, para bem de todos, convém que a proximidade e a confiança se resumam a episódicas conversas de circunstância: «Como vai? Passou bem? Saúde lá para casa! Dê cumprimentos à patroa!»

Mais do que isso, as relações nem sempre batem certo e, às tantas, sobrevivem apenas graças a uma boa dose de hipocrisia ou fingimento. 

O cada vez maior número de divórcios mostra que também nos casamentos já não há vínculo, sagrado ou civil, que resista a tanto. As promessas mútuas e juras de amor e fidelidade não passam de banalidades pró-forma e ante-câmara de uma festança à grande e à francesa, onde até os pobres e remediados parecem ricos. Mas tudo assenta no vazio, na falta comum de compromisso, na incapacidade de compreensão, aceitação e, vá lá, algum espírito de sacrifício, seja lá o que isso for.

É assim, de um modo geral, mas de forma mais vincada onde o contexto propicia e implica comunidades ou grupos, como, por exemplo, no contexto das paróquias — esses redutos muito particulares onde nem sempre a bota dos ensinamentos evangélicos bate com a perdigota das ações e dos exemplos.

Por conseguinte, são todas excelentes pessoas, no geral prestáveis e voluntariosas quando toca a rebate, mas transformam-se num verdadeiro saco de gatos assanhados numa luta de egos, temperada com invejazinhas, recados indiretos e coscuvilhices. Todos querem ser o galo do poleiro ou o manda-chuva ou, pelo menos, que para além de preces e hóstias, lhes sejam dispensadas reverências ou, mais prosaicamente, colinho e mimos.

É certo que não é por aí que vem o mal ao mundo, mas ajuda a compreender e a aceitar a teoria do efeito borboleta: o bater de asas desse delicado e inofensivo insecto num canto do mundo que pode muito bem dar corpo a uma valente ventania no outro lado.

Resulta daqui, que quando sentimos o efeito de algumas "tempestades", mesmo caseiras, não será mais que alguma inocente borboleta, algures, a bater as asinhas coloridas.