Houve um tempo em que os loucos tinham um certo ar que lhes emprestava uma aura de fascínio. Nos filmes dos anos sessenta e setenta, conhecidos como spaghetti western, em que os cowboys do oeste americano falavam italiano, sobretudo naqueles em que a realidade parecia ter sido deixada demasiado tempo ao sol, apareciam criaturas singulares, de olhos inquietos, gestos imprevisíveis e uma relação bastante livre com a razão. Não só um Clint Eastwood, como um Lee Van Cleef, mas outros mais, eram magníficos como intérpretes e figuras. Vistos do outro lado do ecrã, podiam ser admirados sem perigo, como se admiram os animais selvagens num documentário: há qualquer coisa de extraordinário neles mas desde que exista vidro entre nós.
O problema começa quando saem do filme. Ter um desses personagens à nossa frente é uma experiência bastante menos cinematográfica. Desaparece a música, acaba o enquadramento e percebemos que não há um Sergio Leone, Sollima, ou Corbucci para dizer quando a cena termina. Ficamos entregues ao homem. E o homem pode ser perfeitamente educado. É isso que mais inquieta.
Diz bom-dia, sorri, pergunta pela família, segura a porta para passarmos. Nas redes sociais agracia-nos com likes e comentários com erros mas lisonjeiros. Parece até um cidadão exemplar. Só que há qualquer coisa no olhar e no historial pessoal que recomenda prudência, uma espécie de meteorologia particular que não conseguimos interpretar. O céu está limpo, mas convém não esquecer o guarda-chuva.
Com certas pessoas, a conversa é uma caminhada sobre gelo fino. Não sabemos exactamente o que fizemos, mas sabemos que alguma coisa fizemos. Talvez o sorriso tenha durado um segundo a mais. Talvez o cumprimento tenha soado pouco sincero. Talvez tenhamos olhado para o lado no momento errado. Talvez uma uma faísca perto de gasolina. Há pessoas que possuem o raro talento de encontrar insultos onde os outros encontram apenas silêncio ou de ver o copo meio vazio quando todos juram que está meio cheio.
E então mudam. Não é preciso grande coisa. Uma sobrancelha levanta-se, a boca endurece, o rosto perde a cortesia e, de repente, aquele homem que há dez segundos parecia incapaz de fazer mal a uma mosca adquire uma expressão bíblica. Não é preciso que tire uma faca do bolso. Às vezes basta a maneira como olha para perceber que a civilização é uma película bastante fina e que, por baixo dela, há ainda qualquer coisa com dentes. Num instante, aquele que parecia todo cortesias, torna-se um inimigo visceral, espalha infâmias e calúnias mesmo que nos mude o nome.
Nessas alturas, fazemos o que a humanidade aprendeu depois de muitas guerras: ignoramos por completo e recuamos com elegância.
Sorrimos, até e continua-se a rotina do cumprimento, o levantar a mão quando passa de carro ou no final da missa ou na caixa do mercado.
Baixamos a voz. Concordamos, quando concordar não custa nada.
Não porque sejamos cobardes, como provavelmente gostaríamos de acreditar, mas porque descobrimos uma verdade prática que os heróis dos filmes com bons mas sobretudo maus e vilões raramente respeitam: chegar vivo ao fim da conversa ou de uma contenda é uma forma respeitável de vitória.
Depois há os dias bons. Há manhãs em que o céu se conserva azul também dentro daquela cabeça e o homem aparece quase normal, como se voltasse a tomar a medicamentação a horas certas. É precisamente nesses momentos que, tomado talvez por uma estranha necessidade de contacto humano, decide interessar-se por nós, mesmo que sem pedir desculpas, como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse mesmo um filme.
Quer saber por que estamos tão afastados. Pergunta se sempre fomos assim. Questiona a saber de onde nos veio aquele gosto pela solidão, como se a solidão fosse uma doença hereditária que alguém tivesse obrigação de explicar.
É uma situação delicada. Podíamos dizer a verdade, naturalmente, mas a verdade é uma ferramenta que não deve ser usada indiscriminadamente. Há pessoas a quem se pode contar a vida de fio a pavio e há pessoas a quem é preferível falar de coisas banais como do tempo com ares de meteorologista a antever sol, chuva e trovoada pela aparência das nuvens ou falta delas.
Por isso sorrimos. Dizemos qualquer coisa vaga. Fazemos um pequeno gesto de quem não percebeu bem a pergunta.
E, se percebermos que a conversa começa a tomar uma direcção pouco recomendável, fazemos o que tantos homens sensatos fizeram antes de nós diante de reis, loucos e cobradores de impostos: fazemos-nos de parvos.
É uma arte antiga e subestimada. O idiota, ao contrário do inteligente, raramente é considerado uma ameaça. Já discutir com ele, ganha-nos em experiência. Ademais, são da escola primária as leituras e fábulas das lutas entre moleiros e carvoeiros em que ambos ficam enfarruscados.
Para além de tudo, há momentos em que a melhor maneira de conservar a sanidade é deixar que o outro pense que não temos nenhuma. Afinal, dizem que dois tolos se compreendem como ninguém.