Chegou o outono sem avisar que vinha,
com um vento quente, nas asas do destino.
Uma folha desprende-se e, por um instante,
parece que o mundo se esquece de continuar.
Acompanho-lhe a queda:
não há tragédia no declínio,
apenas a leveza irrefutável
de quem cumpriu o tempo de ficar.
Talvez a vida se resuma a isto:
um verão que não soubemos reter,
uma tarde que se dilata enquanto pode,
e, depois, o vento soberano
a ensinar-nos a arte de partir.
Há um espelho de mim
nas árvores despidas.
Também eu vou perdendo as minhas folhas:
lugares, nomes, desejos, rostos,
certezas que julguei imortais
e que hoje se dissolvem em penumbra.
E, contudo, não receio o inverno.
O medo é outro e mais profundo:
é descobrir que atravessei a primavera
sem nunca ter estado, de facto, nela.
Agora a luz declina, suave e rasteira,
e o céu hesita antes de se apagar.
Caminho devagar,
como se cada passo fosse uma pergunta soprada ao ar.
No fim, talvez não exista fim,
apenas a última dúvida que deixamos de ter.
E quando a minha derradeira folha tombar,
que o faça no mais puro silêncio,
como cai uma lágrima sentida.
Lá chegado, que ninguém diga: Olha, morreu!
Digam somente: foi outono, e ele compreendeu.