" Eu e a minha aldeia de Guisande: Chegou o Outono" "" Chegou o Outono

23/09/2026

Chegou o Outono



Chegou o outono sem avisar que vinha,

com um vento quente, nas asas do destino.

Uma folha desprende-se e, por um instante,

parece que o mundo se esquece de continuar.


Acompanho-lhe a queda:

não há tragédia no declínio,

apenas a leveza irrefutável

de quem cumpriu o tempo de ficar.


Talvez a vida se resuma a isto:

um verão que não soubemos reter,

uma tarde que se dilata enquanto pode,

e, depois, o vento soberano

a ensinar-nos a arte de partir.


Há um espelho de mim

nas árvores despidas.

Também eu vou perdendo as minhas folhas:

lugares, nomes, desejos, rostos,

certezas que julguei imortais

e que hoje se dissolvem em penumbra.


E, contudo, não receio o inverno.

O medo é outro e mais profundo:

é descobrir que atravessei a primavera

sem nunca ter estado, de facto, nela.


Agora a luz declina, suave e rasteira,

e o céu hesita antes de se apagar.

Caminho devagar,

como se cada passo fosse uma pergunta soprada ao ar.


No fim, talvez não exista fim,

apenas a última dúvida que deixamos de ter.

E quando a minha derradeira folha tombar,

que o faça no mais puro silêncio,

como cai uma lágrima sentida.


Lá chegado, que ninguém diga: Olha, morreu!

Digam somente: foi outono, e ele compreendeu.