13/02/2024

Carnaval dos tolos e dos outros

Ainda bem que há Carnaval. Sem psicanalistas, sem psicólogos, sem terapias, revela-nos de mão beijada os tolos, as nossas taras, manias e paranoias. Alguns não terão conserto, outros sem remédio, mas dizem que é libertador e, pelos menos, ficamos a conhecê-los. Antes folia que Xanax!

Bom Carnaval!

12/02/2024

Porque as árvores morrem de pé

 

Esta imagem já não é possível captar, pela simples razão de que a imponente árvore que competia em altura com a esguia e bonita torre da igreja matriz de S. Tiago de Lobão, já foi abaixo, há algum tempo, não porque morresse de pé, como todas as árvores, mas porque certamente foi decidido pelo seu abate.

Estas decisões não são fáceis para quem as toma, porque há e haverá sempre quem veja o copo meio cheio ou meio vazio. Em todas as decisões há prós e contras e encontrar equilíbrios ou decidir pelas vantagens é a parte difícil.

Neste caso, obviamente não tenho opinião, desde logo porque não sou lobonense, e por conseguinte escuso-me a opinar se foi uma boa ou má decisão, ou se inevitável. Certamente que tomaram a decisão que entenderam como justificada. Certo é que se por um lado se ganhou em desafogo no edifício e maior projecção, por outro lado também se perdeu o exemplar imponente de uma bela árvore.

Nem sei como decorreu o processo e se foi ou não pacífico entre a população. A questão aqui, de publicar esta imagem e este texto,  é mesmo só documental e ponto de partida ou chegada para uma eventual reflexão quanto ao peso e importância de certas decisões, na certeza de que, sejam quais forem, nunca serão do agrado de todos.

Neste caso, como noutros, importa saber sempre se os ganhos equilibram ou justificam as perdas, como quem diz se os meios justificam os fins. Como numa boa discussão, as respostas podem ter várias direcções e porventura todas com legítimas razões.

Ainda quanto às árvores, têm este problema e tantas vezes quando as plantamos, sobretudo perto de construções, esquecemos que crescem e dependendo das espécies podem vir a tornar-se belas e imponentes mas simultaneamente inconvenientes. Terá sido este o caso.

11/02/2024

Tio Neca - O simbolismo da partida

 


É meu tio, mas podia ser pai ou tio de qualquer um. A partida definitiva de alguém que tem nos seus ombros  e no seu nome o epíteto de "homem mais velho da freguesia", é e deve ser fortemente simbólica para a freguesia, para a comunidade. Afinal, de quantos compõem a comunidade, do mais velho ao mais novo bebé, todos nasceram depois dele. Por outro lado, de todos quantos nasceram antes e que conheceu, todos partiram à sua frente. Tem que haver nisto um simbolismo forte.

O tio Neca era um homem comum. Inteligente, bem disposto, de gargalhada fácil, e com boa memória até quase aos 100, capaz de recitar de cor longas lengalengas e leituras que aprendeu na escola e na tropa, e que desde que me conheço como seu sobrinho, sempre disponível para brincadeiras, nas malhas ou nas cartas. Não foi homem de grandes feitos ou aventuras. Pelo contrário, desde logo pela sua condição de solteiro, viveu sempre relativamente despreocupado, pacatamente tanto quanto possível, num dia-a-dia sem trabalho de horários e patrões, de criar e educar filhos e aturar ou ser aturado por esposa. Chegou a explorar a mercearia que na casa havia sido do pai, ali pela década de 1950, mas em tempo difícil em que o livro dos calotes andava sempre com as contas em débito, acabou por fechar. 

Ia vivendo dos rendimentos e da venda de uma boa parte do património que herdou dos pais e de muita poupança, inicialmente até em exagero, descontando para a Casa do Povo que lhe assegurou a reforma, mesmo que nos tempos no Lar já não cobrisse as despesas. 

Por si nunca foi homem de gastos, grandes ou pequenos, e não fossem os mais chegados da casa a pô-lo nos carris da normalidade, vestia sempre a mesma roupa e comia o que feito de véspera. Era apesar disso esquisito na comida e nem qualquer coisa o alegrava e com saudade e água na boca recordava amiúde a fartura na cozinha e mesa da casa dos pais, sempre abundante de broa saída a cada semana do grande forno, capoeiras cheias, salgadeiras fartas e panelas de três pernas sempre a fumegar na larga lareira com carnes de porcos de largas arrobas. 

A minha mãe e sua cunhada Eugénia compreendia-lhe os gostos e com frequência, para o desougar, preparava-lhe umas iguarias ainda com os sabores e aromas dos tempos antigos, no que se consolava mas com medida bastante porque a sua idade já não se compatibilizava com salgados e fumeiros. Para ele, ao contrário de qualquer judeu, carne de porco era sagrada, se possível salgada e fumada. Sopa, à lavrador e com muita substância, muito entulho, como dizia. Mas sim, era muito esquisito o que arreliava quem tinha a função de lhe por a comida na mesa. Por essa dificuldade em cozinhar aos seus gostos e escapar dos seus reparos, durante os últimos anos as refeições vinham da cantina do Centro Social de Lobão, mas raramente comia sem torcer o nariz e fazer cara feia à comida que classificava de branquita e desconsolada. Do muito que sobrava fartavam-se os cães e gatos.

É certo que quando vivia na companhia da sua irmã Celeste, portas meias com a de meus pais, tinha os seus momentos de alguma inquietação e mesmo arrelias, porque vivia nessa estranha condição em que lhe era simultaneamente irmão, filho ou mesmo uma espécie de marido no que tocava a orientar a casa e das necessidades do dia-a-dia. Tratava dos campos, das hortas, das podas, das regas, de algum gado, a lenha para a lareira, etc, etc. 

Mas apesar dessas singularidades de cão e gato, próprias de qualquer família, que iam das arrelias comuns, das zangas às rezas, era senhor do seu destino e por isso nunca se "matou" de trabalho. De resto, a morte na sua fatal tarefa só o procurou  agora, bem tarde, uns meses depois de ter soprado as velas do bolo do centésimo aniversário. 

Depois da partida da sua irmã acabou por ter que deixar, com natural tristeza, a parte da casa que durante muitos anos partilhou e teve como sua, mas encontrou abrigo na mesma casa, na parte de meus pais e amparado e cuidado pela minha mãe e sobretudo pelo seu sobrinho Adérito, em larga medida que  lhe foi como um filho, ali esteve independente, à sua vontade, uns bons anos até que já em tempo de pandemia e depois de um episódio que o levou de urgência ao hospital, acabou por ser encaminhado pelos serviços para o lar Hospital da Santa Casa da Misericórdia em Arouca onde esteve durante quase três anos, bem acompanhado, cuidado e com visitas regulares. Pode-se dizer que nada lhe faltou também pela sua condição de saúde sem grandes problemas e esteve sempre relativamente bem, apenas com alguma perda de mobilidade o que se compreende com a idade avançada.

A caminho dos 101 anos acabou por encontrar o seu destino. Uma infecção respiratória, que tem levado muita gente, até a um nada habitual excesso de mortalidade face à média, mas a verdade é que também foi. Estava, apesar de tudo, já a melhorar, mas foi, até com alguma surpresa dos médicos e cuidadores.

Está, pois, no lugar que acreditava que estaria, ao lado dos seus, dos avôs, dos pais e de quase todos os irmãos, ficando ainda a mais nova, a Laurinda, mas também esta já a caminho dos 100, bem cuidada pelas filhas mas já privada da memória e do conhecimento.

A vida é assim e a partida é uma fatalidade que a todos chega, em diferentes tempos e modos mas como diz o povo na sua sabedoria milenar, e de resto óbvia, "quem de novo não vai, de velho não escapa".

No resto, foi-se esse simbolismo do mais velho de todos e alguém certamente fica no seu lugar e será sempre assim nesta roda da vida no seu movimento perpétuo. Vai a sepultar na próxima Quarta-Feira, dia de cinzas, no que aumenta o simbolismo e significado da nossa condição de pó que como tal à terra há-de voltar.

Que Deus o tenha em descanso eterno e em paz!

Gente de ontem e ainda de hoje

 


Fotografia de Julho do ano de 1957, por isso já com quase 67 anos.

1 - Manuel Pinto dos Santos (regedor)

2 - Roberto Pereira da Silva (pai do Pe. Agostinho)

3 - Manuel Pereira dos Santos (Ti Pereira)

4 - Domingos Caetano de Azevedo

5 - Dr. Joaquim Inácio da Costa e Silva

6 - Manuel Gomes de Oliveira (pai do Pe. Francisco)

7 - Domingos "do Sebastião"

8 - António Alves Santiago

9 - Pe. Santos Silva (que foi pároco do Vale)

10- Dr. António Ferreira de Sá (da Casa do Loureiro)

11- Helena, irmã do Pe. Francisco

12 - Elisa, irmã do Pe. Francisco

13 - Prof. Célia Azevedo

14 - Pe. Francisco Gomes de Oliveira

Entre  as irmãs Maria e Elisa parece-me ser a Ti  Madalena, esposa do Ti Pereira do Viso.

O sacerdote entre o Domingos Azevedo e o Dr. Joaquim Inácio, ainda não consegui identificar.

Dos identificados, um ou outro ainda com dúvidas mas que alguém poderá ajudar a melhor identificar.

Nota de falecimento - Manuel Joaquim Gomes de Almeida

 


Faleceu Manuel Joaquim Gomes de Almeida (Ti Neca do Viso), meu tio paterno. Era o homem mais velho da nossa freguesia e tinha completado um centenário de vida em Outubro passado. Estava, pois, a caminho dos 101 anos.

Filho de Joaquim Gomes de Almeida e de Maria da Luz. Neto paterno de Raimundo Gomes de Almeida e de Delfina Gomes de Oliveira. Neto materno de José Joaquim Gomes de Almeida e de Maria da Conceição de Jesus.

Encontrava-se desde há algum tempo no Lar da Santa Casa da Misericórdia em Arouca, bem cuidado, e estava relativamente sempre bem disposto apesar das falhas de memória. Nos últimos dias teve uma infecção respiratória e apesar de já estar em melhoras acabou por não resistir. 

Deus deu-lhe a graça de uma vida longa e relativamente saudável pelo que temos que Lhe dar louvor.

Paz à sua alma! Que descanse em paz!

Sentidos sentimentos aos seus demais familiares,  de modo particular a quem com ele desde há vários anos lhe dedicou apoio e companhia constantes, no caso o seu sobrinho Adérito, como se filho fora, bem como a sua esposa Madalena, e à minha mãe Eugénia, que depois do falecimento da Tia Celeste, com quem até então vivia, o acolheu, tratou e apoiou. 

De irmãos ainda deixa por cá a Tia Laurinda, também já a caminho dos 100.

Ainda não há pormenores das cerimónias fúnebres, sendo aqui divulgadas logo que conhecidas.


Actualização: Funeral na Quarta-Feira, 14 de Fevereiro de 2024, pelas 11.30 horas na igreja matriz de Guisande indo no final a sepultar em jazigo de família.

Missa de 7.º Dia no Sábado, 17 de Fevereiro, pelas 17:30 horas na igreja de Guisande.

09/02/2024

Vazio


Na minha aldeia havia uma escola

Que se enchia de crianças

Aprendendo a escrever, 

A ler,  a juntar letras

Numa descoberta de saber,

A contar, a fazer contas,

A somar esperanças,

A subtrair a ignorância,

A dividir amanhãs com mais sol.

A imaginar histórias, 

Contadas e pintadas.

Diziam a uma voz as tabuadas

Como na igreja a rezar avé-marias.

O recreio era todo folguedos,

Corridas, trotes e galopes,

Jogos, brincadeiras,

Um palco de heróis fingidos,

Nas aventuras duras e reais.

Eram assim os dias, 

A encher as cabeças de ensinamentos

Como de água os cantis, os caminhantes

Antes de atravessar desertos.


Mas os tempos trouxeram a mudança

Como o vento de sul a anunciar chuva.

Foram saindo e crescendo,

Fazendo-se homens e mulheres,

Pedras duras do edifício da vida.

Mas num renovar minguado,

Na velha escola as algazarras

Foram perdendo fulgor e voz

E os companheiros mais solitários.


Um dia, por fim, o fim.

Alguém anunciou

Que não já não havia crianças.

A escola fechou, emudeceu.

Os ecos das leituras,

O cheiro dos lápis de cor,

Deixaram-se de se ouvir

E perderam o aroma.


Na minha aldeia

A escola já não é ela

Mas ainda lá está, triste,

Arrumada noutros ofícios,

Mas ainda a guardar memórias e ecos.

Na minha aldeia os caminhos

Já não fervilham de labuta

Pelo pão de cada dia.

Os campos já não dão pão,

E as águas são lágrimas perdidas.

Muitos partiram ou morreram,

Todos envelheceram.


É agora, a aldeia, um  triste casario, 

Quase sem gente dentro,

Sem vizinhos, 

Bons dias ou boas noites,

Como um crepúsculo permanente 

Onde a noite espera para a amortalhar

E a foice o resto ceifar

Deixando um restolho de nada,

O vazio.

Companheira

 

Já vai longa a jornada.

A tua pele da frescura juvenil

Foi arada em sulcos pelo tempo

E na negrura dos cabelos já neva 

Num anúncio de Inverno.

Também me verás assim,

Já sem o viço da mocidade,

Os olhos mais turvos

E o cantar do pisco mais difuso.

Mas é bom que assim seja,

Porque não há começo sem fim,

Primavera sem Inverno,

Ou vindima sem mosto.


Mas há ainda caminho a fazer,

Com curvas a esconder,

Como cortina do palco da vida,

O que falta percorrer,

Um dueto a representar,

Até que o pano caia.


Vais, pois, seguindo,

Num corpo já dolente,

Com o passo já cansado,

Mas contigo vou indo,

Nem atrás, nem à frente,

Tão somente, a teu lado.

08/02/2024

Com calma


Ainda agora passou por aqui,

O atleta,

Fado a correr,

Num cansaço,

Com os pés no caminho,

Olhos nas horas,

Ns minutos e segundos

Na ânsia de chegar à certa.


Mas foi-se sem ver o que eu vi,

Pela certa;

A ave a tecer,

Passo a passo,

A renda de um ninho;

A cor das amoras,

O verde dos vales fundos

Onde a vida toda desperta.


Onde nos leva a correria,

Neste ritmo, cego, cansado,

Rápido, a direito como seta?

A calma nos minutos do dia

Dá sabor a cada passo dado,

Com alma a alcançar a meta.

07/02/2024

Convívio de Carnaval - Festa do Viso 2024

 



Dúvida permanente


Poderá uma vida inteira

E a sabedoria dela colhida

Dar respostas às perguntas,

Por mera curiosidade

Ou dúvidas, somente?


Será sempre esta a canseira

Da questão não respondida,

Porque palavras já defuntas

Levaram na morte a verdade;

Ficou a dúvida permanente.

Sem contar para nada

Parece que foi ontem, mas em 1992 deu entrada na Câmara Municipal o projecto da minha habitação e pouco depois começou a construção.

Já nessa altura éramos um país de sonhadores e se ainda não havia leis que obrigassem a fazer garagens para nelas caberem três Mercedes (e lá chegaremos), já era obrigatório apresentar projecto de rede de abastecimento de gás natural e a sua ligação à rede pública. Gastei pois, como muitos milhares, mais umas boas massas com o projecto e com o picheleiro a instalar a rede e a caixa-de-contador no muro da rua.

Mas se neste país não faltam politicos sonhadores, sobretudo a fazerem coisas com o dinheiro ganho por terceiros, como uns que defendem agora que os ricos devem repartir com os jovens um pézinho de meia para começarem as extravagâncias da vida, a que chamam como Herança Social, há igualmente outros que, desculpem a boa expressão popular,  "não fodem nem saem de cima" e por isso tantas coisas não passam de projectos. Tem sido assim com os nossos aeroportos, com a ferrovia, com  a habitação, etc, etc.

E também foi assim com a rede de gás natural que apenas foi realizada em certos lugares. Tal como as redes de água e saneamento que foram feitas e obrigados os contribuintes a ligar e pagar, mesmo que as dispensassem, mas outros ainda hoje necessitados delas foram deixados de lado. Tudo isto em nome da vantagem económica das concessões porque o serviço público puro e duro é e será sempre coisa secundária.

Por conseguinte, na minha casa e de muitos portugueses, passados trinta e tal anos a coisa ainda não foi instalada e nem porventura daqui a mais trinta. Assim, a caixa do contador do gás está ali como um monumento e uma lembrança permanente à megalomania dos nossos políticos e autarcas autênticos fazedores de chuva e exímios a andarem com o carro à frente dos bois. 

Tenho uma grande estima por aquela caixa de contador do gás porque tal como uma grande parte dos nossos governantes nacionais e locais, nunca contaram para nada mas contam a qualidade da lata de quem nos obriga a estes paradoxos. 

06/02/2024

Silêncio a cantar



Ainda que a noite esteja

Ofuscada de escuridão,

Há-de haver sempre luz;

Se não um clarão de lua,

Um pirilampo a piscar.


Se a raiva que me sobeja

Ecoa e fere como trovão,

Nos nossos corpos nus,

Enlaçados na cama tua,

Haverá silêncio a cantar.

05/02/2024

Guisande F.C. - Liga Masters AFA - Jogo 11

 

A equipa de veteranos do Guisande F.C. no que foi o seu 11.º jogo da prova, recebeu e defrontou neste Sábado, 3 de Fevereiro de 2024,  o Fiães S.C. e venceu por 3-0. Um excelente resultado contra uma boa equipa, o que estabiliza a equipa aproximadamente a meio da classificação.

Parabéns!

O que é que andam a beber ou a fumar?

Eu pecador me confesso: Comecei a trabalhar numa fábrica um mês antes de completar 12 anos de idade. O meu ordenado começou em 900 escudos. Saí dessa fábrica para cumprir o serviço militar obrigatório, que durou 2 anos completos, em que o valor do pré recebido não dava sequer para as viagens de comboio de Espinho a Lisboa, mesmo que com direito a desconto, quanto mais para outras coisas da juventude. Felizmente não fumava nem bebia. Foram-se as poupanças porque dos pais também não podia esperar ajuda e mesadas é coisa de meninos ricos ou com papás bem remediados e até esses arranjavam quem os livrasse, nem que fosse por uma unha encravada.

Terminei a tropa e vi-me sem emprego porque na fábrica entretanto matara-se o patrão e encerrara a actividade e ainda com algum dinheiro por receber e que jamais recebi. Não tive nem nunca tive subsídio de desemprego e tive que rabiar a arranjar ocupação, mesmo que precária, até chegar a emprego com maior estabilidade o que aconteceu ainda antes de casar. 

Depois casei, comprei terreno, fiz projecto e construi casa, e literalmente, porque com muita mão-de-obra dispensada porque o dinheiro era contado e em parte com um empréstimo que, na parte final, ainda pago e sem incumprimento ao longo de quase 25 anos. Criei e eduquei filhos, cães e gatos, e continuando esse encargo filial mesmo já depois de adultos. Pelo meio, com muita actividade cívica e associativa que me orgulha, consegui completar formações profissionais e escolares e obter o nível secundário e andam por aí doutores e engenheiros a quem não lhes reconheço mais competência ou conhecimentos, mas as coisas são mesmo assim, porque neste país um burro carregado de livros há-de ser sempre doutor. E isto, pouco ou muito, sempre sem qualquer apoio ou subsidiozito. 

Dizia o poeta cubano José Martí que "Há uma coisa que um homem deve fazer na sua vida: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro." Ora árvores plantei muitas, filhos tive dois e livros já escrevi também dois e ainda outros em projecto. Assim, a ter em conta essa filosofia, o dever foi cumprido.

Neste simples percurso de vida pouco ou nada recebi do estado social, incluindo, felizmente, por situações de baixa médica, mas a ele, pelo contrário, sempre paguei e continuo a pagar, impostos, contribuições, desde parte dos rendimentos de trabalho, a IMI da casa que construí com o meu esforço, IUC, como IVA em cada rebuçado chupado, em cada cerveja bebida, em cada litro de gasolina gasto e pão comido. Consultas e exames e um ou outro episódio de urgência médica foram sempre, graças a Deus, raros e rápidos. Apesar disso, e porque agora preciso, uns exames prescritos e marcados no Hospital da Feira vão já no 4.º reagendamento e um ano depois não tenho certeza de quando virão a ser feitos. Se tentar marcar hoje uma consulta no médico de família arrisco-me que seja atendido só lá para a Festa do Viso, em Agosto. É este o nosso SNS tão ideológica e radicalmente avesso a outras opções que deem respostas a quem delas precisam. Mas há quem o defenda assim, sem tirar nem pôr. Perguntem ao neto do sapateiro, o que acha do assunto!

Este é o meu exemplo, retrato comum e vulgar, mas como ele ou semelhante no percurso, o de muitos milhares de portugueses mais ou menos da minha geração, que não nasceram de cu para o ar ou em palhas douradas,  e que tanto deram a este país e pouco ou nada receberam para além de pagar impostos, adiamentos de consultas e exames, multas por dá cá aquela palha e outras desconsiderações como uma reforma tardia mesmo para quem começou cedo, mesmo cedo demais. 

Alguns, mais espertos ou mais ousados, pelo menos foram para outras bandas onde o rácio do dar e receber é bem mais justo e alguns até por uma simples dor de cabeça ou um osso amassado por terras da estranja, e que aqui seriam ossos do ofício porque trabalham no duro velhos e coxos, vivem de há anos com rendimento mensal garantido, sem fazer puto, usufruindo de uma larga e dourada reforma. Por aqui, com esses atributos, só mesmo alguns felizes reformados de um certo funcionalismo público que em certo tempo teve tetas fartas.

Mas são diferentes os tempos e até temos um partido de um homem só que quer criar uma Herança Social para ajudar os jovens entre os 18 e os 35 anos, para começarem a vida, eles que até essas idades limitaram-se a ser encargos pesados para os pais, tantas vezes hipotecando alguma folga na reforma, gastando e investindo nos filhos recursos minguados.

Esta é a realidade e o tempo da subversão das ideias e ideais e sempre à custa de quem trabalha e produz. Certos políticos extremados têm inveja ou mesmo um ódio de estimação a quem produz e a quem teve a descaradeza de trabalhar e poupar. Por ora, armados em robins dos bosques,  a apalogia de dar a cana e ensinar a pescar é uma merdice, uma treta, porque o que se vai defendendo é dar o peixinho pescado e se possível limpo de tripas e já temperado. Mais uns tempos à frente e o peixe será servido em louça da Vista Alegre,  pronto a meter-lhe os dentes. 

Sou a favor do Estado Social e dos justos apoios a quem realmente deles carece, com critérios de aplicação rigorosos e escrutinados a todo o momento, mas não o que promove e apoia a sornice, a subsídio-dependência, o chico-espertismo, e sobretudo sem respeitar, em contraponto, quem trabalhou, trabalha e cumpre deveres e obrigações. 

Que estranhos tempos estes em que se desrepeita quem fez pela vida mesmo que em condições difíceis. Esta gente ou anda a beber e a fumar coisas estranhas, ou a tomar comprimidos para bater na tola, ou então vive numa bolha muito singular mas em ambos os casos a pedirem que os mandem para aquele sítio onde apanhar sabonetes do chão é perigoso.

Desculpem qualquer coisinha os mais sensíveis, mas chegado a esta idade já não há pachorra nem paciência para aturar certos desmandos e para certas pessoas e políticos, pouco mais resta que mandá-os todos à merdinha, isto para ser diplomático e não responsabilizar as mãezinhas que, sem culpa, os pariram.

Obrigado, famílias de acolhimento

O Grupo de Jovens de Guisande promoveu no dia de ontem, Domingo, 04 de Fevereiro de 2024, um encontro com as famílias que na nossa paróquia acolheram no Verão passado vários jovens peregrinos no âmbito da realização da Jornada Mundial da Juventude. Decorreu pelas 18:30 horas no salão do edifício da Junta de Freguesia no lugar da Igreja.

Foi uma forma de agradecerem o envolvimento das famílias bem como darem eco do reconhecimento dos vários jovens peregrinos que por vídeo ou mensagem expressarem à comunidade e às diferentes famílias os seu agradecimento. Também as famílias foram convidadas a manifestarem um pouco da sua experiência. Por minha parte expressei o que por aqui já tenho escrito, que de algum modo ficou a sensação de ter havido pouco tempo para uma efectiva partilha familiar, porque com a agenda oficial muito preenchida, mas no final o saldo foi deveras positivo, certamente que, por ordem de interesses, principalmente para os jovens, mas também para as famílias, mesmo que com diferentes envolvimentos, mais ou menos práticos, mais ou menos emocionais.

A cada família acolhedora o Grupo de Jovens entregou uma moldura com uma fotografia alusiva ao acolhimento.

Foi um bom momento e que de algum modo serve de encerramento desse importante acontecimento que passou pelo nosso país e pela nossa comunidade.

Parabéns ao Grupo de Jovens!






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