No silêncio das noites, sem dormir, impaciente, porque lá fora não se ouve cão a ladrar ou galinheiro a despertar, o Tavares dá por si a fazer um inventário de ausências. Perde-se a contar e a rever os mortos da aldeia, aqueles que desde criança conheceu. Não por uma necrofilia melancólica, mas por um sobressalto da memória: percebe, quase estarrecido, que os nomes gravados no mármore dos seus jazigos e as sombras que habitam a sua lembrança já são em tal número que bastariam para erguer um povoado inteiro.
A sua aldeia sepultada rivaliza agora, em dimensão e pulso, com a aldeia dos vivos. Daria para fundar uma comunidade paralela, uma terra com o seu próprio padeiro, o seu barbeiro, o ferreiro, o calceteiro, o trolha e o pedreiro, as suas mulheres à porta a espreitarem a rua, os seus velhos a discutir as coisas da terra e do gado, no balcão do tasco ou no adro da igreja. Ali estão eles, todos reunidos num silêncio absoluto, a olhar para o lado de cá do muro.
Esta constatação traz consigo uma lucidez desconcertante sobre a perenidade da existência. O Tavares observa a urgência absurda com que nos consumimos diariamente. Discutimos por frações de tempo, exasperamo-nos com prazos falhados, acumulamos invejas, ressentimentos e azedumes, planeamos o próximo ano como se o amanhã fosse um contrato irrevogável assinado com o universo. Vivemos com a ilusão arrogante da eternidade, esbanjando a luz do dia em preocupações insignificantes, enquanto os que partiram nos recordam - em voz baixa - a fragilidade do nosso chão, a efemeridade da nossa existência.
Eles também já tiveram pressa. Também tiveram reuniões adiadas, desavenças por um portelo, um rego foreiro, um muro, partilha de terrenos, noites mal dormidas por dívidas ou caprichos. Hoje, repousam na terra que um dia calcaram com a mesma convicção ingénua com que nós a calcamos agora.
Contar os mortos da aldeia não é um exercício de tristeza, mas um resgate de perspectiva. Diante da vasta aldeia invisível que se ergueu ao seu lado, a vida quotidiana desmascara-se na sua pequenez. Resta-lhe a urgência do que é essencial: olhar para o céu, escutar quem fala connosco, desarmar os rancores e reconhecer hoje que a única verdadeira urgência é saber estar vivo no breve instante em que a luz ainda nos pertence.
Amanhã pode ser tarde.
[ilustração: adptada por IA]