" Eu e a minha aldeia de Guisande: A ignorância com montra" "" A ignorância com montra

14/10/2026

A ignorância com montra


Com a generalização da Inteligência Artificial, enquanto modelo de linguagem e gerador de ilustrações, a sua utilização vulgarizou-se a um ritmo vertiginoso. Do cartaz para a festa da Catequese ou festa da aldeia ao esquema gráfico de uma apresentação corporativa, todos, todos, de particulares a associações e empresas, parecem ter rendido a sua criatividade a esta ferramenta.

Em si mesmo, este fenómeno de massificação talvez não incomodasse, não fosse o facto de parecer já ninguém se preocupar com a diferenciação, a personalização ou o talento individual de quem cria com nome e rosto. A tendência é a da adesão acrítica: «a Maria a deixar-se ir com as outras».

É verdade que a tecnologia não é intrinsecamente má; eu próprio a uso: facilita processos e potencia a execução de muitos trabalhos. Contudo, o resultado visível é uma homogeneização estética sufocante: os cartazes e gráficos parecem todos cortados pelo mesmo molde. São bonitos, apelativos e coloridos, mas profundamente vulgares e padronizados. Vivemos, sem dúvida, na era do fast-food gráfico, onde qualquer pessoa produz material visual sem precisar de dominar, ou sequer conhecer, as mais elementares regras de design, composição ou lógica.

A ilustração acima, recolhida numa partilha qualquer do Facebook, é o exemplo perfeito desta utilização cega. Sob o nobre pretexto de divulgar conhecimento,  neste caso, o princípio do «Parafuso de Arquimedes», propaga-se uma enorme e flagrante asneira técnica, ensinando-se, na prática, a ignorância. Dadas as dinâmicas de visualização rápida, arrisco dizer que tanto quem partilhou como a maioria dos que gostaram nem sequer se aperceberam do absurdo: a extremidade superior do mecanismo surge a descarregar a água contra a corrente (e não numa caleira ou conduta adequada) e a própria manivela de accionamento encontra-se na base, junto à água, em vez de estar no topo.

Tudo isto demonstra que, por mais potentes e sofisticadas que sejam as ferramentas, a IA não substitui o conhecimento. Alguém que não saiba fazer contas não aprenderá a calcular simplesmente por ter à frente um gráfico gerado por computador. Da mesma forma, quem desconhece os princípios básicos da mecânica ou da física aceitará sem hesitação aberrações, descontextualizações e erros grosseiros, só porque a imagem é "bonita". 

Nestas como noutras matérias, ter a noção dos mínimos e manter o espírito crítico é essencial. Infelizmente, a julgar pela velocidade da maré, a tendência será para continuar a trocar a literacia visual e o rigor pelo facilitismo da ilusão gerada por algoritmo. 

É o que é! O talento e o conhecimento tendem a perder lugar e importância. Mas quem se incomoda? Talvez, daqui a uns tempos, como na agricultura biológica, alguém esteja disposto a pagar pela arte de um artista e não de uma máquina, como comprar, ainda que mais caro, maçâs e morangos sem pesticidas. Mas desconfio que já não chegaremos lá. A caixa de Pandora foi aberta e tende a alargar-se.