Já o disse e escrevi: tenho feito um esforço para ignorar o futebol, o clubístico e mesmo o nacional. Não por não gostar, mas porque já não tenho idade para perder tempo e ganhar preocupações e arrelias com algo que não passa de um entretenimento para nós, adeptos, e de um negócio de milhões para os clubes, dirigentes, agentes, jogadores e treinadores. Creio, até, que todos ganham dinheiro com o futebol, menos os adeptos. Afinal de contas, alguém, de uma forma ou outra, tem de pagar os ordenados e as comissões milionárias. Só o tempo que demorei a escrever este bocado de texto, do início até aqui, foi o suficiente para o Ronaldo já ter facturado uns bons milhares.
Em consonância com este meu desligamento, ainda bem que assim é, porque, por estes dias, vejo que o futebol tem estado no topo das preocupações de quase toda a gente. Com a novela de Cristiano Ronaldo, a selecção e o treinador Jorge Jesus, a imprensa já não fala do problema dos preços dos combustíveis; temas importantes como as guerras, que estão a fazer do mundo uma panela de pressão prestes a explodir, tornam-se secundários, e até a triste política portuguesa tem sido relegada para terceiro plano. Rendas, greves, falta de habitação, tudo é secundário. Até já quase nem se fala do ministro da Administração Interna nem do singular assalto ao gabinete do Chega.
Apetecia-me também escrever longas cartas — abertas e fechadas — a toda essa gente, ao Ronaldo e companhia, para criticar as birras, os egos desmedidos e a falta de senso em admitir que a idade é uma coisa tramada e que acaba por nos retirar capacidades, por mais que nos enganemos a nós próprios com treinos, ginásios, suplementos, vitaminas, cirurgias estéticas, implantes de mamas, de dentes, de cabelo, de lábios, de nádegas, e eu sei lá que mais.
Mas, para além disto, e já me alongo, seria perder tempo, chover no molhado e dar corda a quem já a tem toda. Não há pachorra.
Tanto se me dá que o Ronaldo abandone o futebol e a seleção hoje, amanhã ou daqui a dez anos, que saia pela porta pequena ou pela grande, pela janela ou postigo, levado ao colo, que lhe beijem as mãos, o cu, ou lhe façam uma estátua de ouro e diamantes, ou que lhe reservem um lugar no Panteão. É igual ao litro.
Ronaldo, Cristiano ou CR7, ficará para a história da bola, indiscutivelmente, da nossa e da mundial, como um futebolista de topo, que se esforçou, trabalhou, bateu recordes e fez dessa profissão um modo de vida que lhe rendeu fama e proveito, tanto dinheiro que jamais conseguirá contar nota a nota durante o tempo de vida que lhe restar. Tornou-se conhecido no mundo, talvez mais do que os descobridores ou inventores do fonógrafo, da electricidade, da rádio, da televisão, da penicilina, da fissão nuclear, da máquina a vapor, da esferográfica BIC, da Gilette ou corta-unhas. Alguém que discute como ciência as regras do futebol sabe quem foi Thomas Edison, Alexander Fleming, Alexander Graham Bell, Nikola Tesla, Otto Hahn e Fritz Strassmann? Pois, se fosse o Ronaldo, Messi, Maradona, Eusébio ou o Pélé...
Ronaldo tem tudo: saúde, dinheiro, família, uma esposa que dizem jeitosa, ainda é novo para tudo, mesmo que se engane a si próprio ao pensar que também o é para o futebol. Indiscutivel o seu sucesso e status! Desdizê-lo é como alinhar na teoria de que o homem ainda não pôs os pés na lua ou que as grandes pirâmides de Gizé foram erigidas com a ajuda de extra-terrestres. Mas fazer dele um deus, haja bom senso!
Não obstante, Portugal tem imensos talentos e génios em todas as profissões, nas artes, na cultura, na medicina e na engenharia, mas que não vendam camisolas, carros, perfumes ou champô anti-caspa. Esses serão ilustres desconhecidos. No geral, o país quer é bola e só reconhece quem é da coisa. A arte e a cultura é um pontapé de canto, a ciência é um penalti e a literatura é a lei do off-side. A escrita de Camões, de Eça, de Camilo, de Torga ou Pessoa são preteridas pelo "O Jogo" "Record" ou "A Bola".
Posto isto, que sejam felizes o Ronaldo, o Jesus, o Proença e toda a gente, tanto quanto desejo para mim e para os meus; mas, por favor, desliguem a televisão e não deem importância a esta novela. A vida é mais que isto. Tem coisas bem mais interessantes, tanto para nos preocuparem como para nos alegrarem. Um bom livro, uma poesia, uma ilustração, uma caminhada pela Freita ou um bacalhau ou bife no Zé de Ver.
Do Ronaldo e quejandos, estou cheio! Antes uns enchidos, um bom vinho e um saboroso queijo.