03/12/2018

Discrição


Tendo em conta a importância social do evento, tanto para a freguesia como para a União onde se integra, e mesmo para o município, pessoalmente esperava e acharia natural algum prévio enfoque e divulgação da benção oficial da nova igreja matriz da freguesia de Gião, em simultâneo com a festividade local dedicada ao padroeiro Santo André.  Até mesmo pelo valor acrescentado da componente arquitectónica e simbólica do edifício, o que por si só seria motivo maior. 
Admitindo que poderei estar enganado ou distraído na pesquisa que fiz, parece-me que não vi nada publicado, tanto nas redes sociais como nos espaços de divulgação locais, tanto dos jornais como até mesmo da Junta da União das Freguesias.
Passou, pois, um pouco ou muito ao lado. Numa época em que não faltam meios de divulgação, parece-me que ficou algo por fazer. É pena, digo eu, que não sou gionense mas sou da União de Freguesias.
Quando falhamos nas pequenas coisas é legítimo duvidar-se da capacidade de fazermos as grandes.

26/11/2018

Trancas à porta




Longe vão os tempos em que na aldeia saía-se para o campo, para o pinhal ou a qualquer outro destino das voltas do quotidiano e bastava encostar a porta, sem fechos nem trancas. É certo que pouco por ali ficava com valor que despertasse a cobiça dos amigos do alheio ou da curiosidade da vizinhança, mas havia respeito pelos proprietários e pelos bens dos outros, mas também muito medo do castigo por alguma tentação de furto.

Esses tempos, porém, como disse, vão longe e hoje em dia nem com trancas à porta, alarmes ou daqueles cães que nem o próprio rabo respeitam à fúria dos seus dentes. Rouba-se com a maior das naturalidades porque quase sempre encobertos, os artistas do gamanço, pela impunidade e pouca autoridade das forças ditas de segurança e ordem pública. O castigo, quando o há, é invariavelmente macio, quando muito com uma repreensão e umas horitas de trabalho comunitário que não se cumprem. Assim está em alta a gatunagem e para se viver com relativa  qualidade deixou de ser imperativo o trabalho sério e honesto.

Estas duas fotos, são assim significativas e emblemáticas do passado e do presente, do respeito e da falta dele, da autoridade e da falta dela. Mas o politicamente correcto não gosta destas comparações e prefere termos e conceitos bonitinhos e supostamente inclusivos e tem medo de chamar os bois pelos nomes e, mais do que isso, pegá-los pelos cornos. 
Assim sendo, como já se apregoava na Idade Média quando se tomava pela força das armas um castelo ou uma cidade, é fartar vilanagem!

21/11/2018

Deu em pedreira...


Novamente a tragédia e depois dela virão, espera-se, as "trancas à porta". Foi assim em 2001 com a queda da ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios e Castelo de Paiva. 
Desta vez, entre Borba e Vila Viçosa, no Alentejo, com a derrocada de uma estrada ladeada perigosamente por profundas pedreiras de mármore. A tragédia, em números de mortos não se compara à da queda de ponte, mas é igualmente uma fatalidade, para quem nela perdeu a vida, para os familiares, para a região e para o país porque uma vez mais constata-se que as autoridades , as instituições e sobre elas o Estado não sabem tomar conta dos seus. Ainda ontem nos jornais se informava o aumento de fugas e criminalidade entre os menores à guarda do Estado. Um Estado sem autoridade, um pouco, como dizia há dias Manuel Alegre, refém do do fundamentalismo do politicamente correcto.O contexto era diferente, mas a génese é a mesma.

Posto isto, enquanto se procura resgatar os que ainda estão envoltos pelos destroços de uma pedreira lamacenta, surgem as questões de que como tal foi possível, quando parece evidente que os sinais anunciados da tragédia eram notórios desde há anos. Mas, pelos vistos, a começar pelo presidente da Câmara de Borba, estão todos tranquilos e sem peso nas consciências, os industriais do mármore, os técnicos, os autarcas e os políticos. Em 2001, Jorge Coelho, Ministro do Equipamento demitiu-se. Por ora ninguém se chegou à frente.

Certamente que entretanto virá a Justiça averiguar das responsabilidades mas a culpa irá novamente morrer solteira porque já se percebeu que este drama é uma pescadinha de rabo-na-boca e o capote há-de ser bem sacudido. O presidente Marcelo há-de lá ir dar uns abraços solidários, as famílias receberão uns milhares e a coisa há-de passar à história e, infelizmente, dramas acontecem todos os dias, mesmo neste nosso pequenino Portugal. Entretanto os holofotes da nossa ávida comunicação social virar-se-ão para outra qualquer coisa em grande, talvez quando o messiânico Cristiano Ronaldo voltar à selecção. Por ora estão de mármore e cal para os lados de Borba.

Creio que numa qualquer estrada nacional, como foi aquela até há poucos anos, não se podia construir uma casa a menos de 15 metros da via e um insignificante muro a pouco menos, mas ali, às portas de Borba, a pedreira com uma profundidade absurda pôde ir até pouco menos do que isso, sem margem de segurança adequada. Dizem hoje os jornais que licenciada assim pelo Estado.

Como foi possível? Qual a negligência técnica e qual a ganância de se extrair umas toneladas de calhaus até à extrema de uma estrada onde diariamente circulavam pessoas e viaturas?  Qual a lei e os quais os regulamentos que o permitiram? Qual a cegueira de não se ver ali uma eminente tragédia e em face disso tomar medidas de supressão da estrada?

Não faltarão respostas que, contudo, já de nada servem para quem morreu de forma trágica.
Que possam pelo menos ajudar a evitar  outras no presente e no futuro.

20/11/2018

E poupança, não?...


Li por aí que, até 30 de Novembro, estão abertas as inscrições para o Programa de Voluntariado Inter-geracional, dirigido a jovens, maiores de 16 anos, e a seniores, a partir dos 55 anos, disponíveis para colaborar em áreas que permitam a sua intervenção activa na comunidade, a aquisição de novas competências e a valorização do tempo.

Não tenho dúvidas que quem participa em programas de voluntariado, seja em que áreas for, adquire conhecimentos, logo valorização, para além de enriquecimento quanto à cidadania. Já os conceitos de superação e atrevimento, valem o que valem e pelo menos ficam bem no cartaz, porque modernos.

Mas cheira-me também que por detrás destas oportunidades e constantes apelos ao voluntariado, reside um certo oportunismo porque dele o benefício directo com poupança em pessoal. Mas esta, a poupança, nunca é referida nem valorizada nos grafismos. Pode até haver alguma despesa residual com os voluntários, mas não é difícil supor a substancial economia que deles resulta pois que, à falta dessa mão de obra, que se pretende atrevida, a mesma teria que ser suprida por funcionários da casa ou contratados a empresas externas. E sabe-se que esta mão de obra contratada não se paga apenas com lanches ou apelos à superação e ao atrevimento.
Mas sim, são boas oportunidades para quem gosta de fazer alguma coisa e tem muito tempo livre.

Por cá, não é fácil ser-se voluntário em contextos da freguesia e da paróquia, porque para além de nada se ganhar, como é expectável e natural, quase nunca há qualquer reconhecimento pela dedicação, empenho e tempo despendido. Pior do que isso, é, regra geral, receber-se críticas e insinuações de interesses e vaidades. Ora quando assim é, não deve surpreender que cada vez mais se note a indiferença das pessoas em integrarem grupos, movimentos e causas e deles fugirem como o diabo da cruz.
É claro que com isso ficamos, enquanto comunidade, mais pobres, mas também não é menos verdade que esta perspectiva já poucos incomoda. Recusa-se, por isso, fazer parte de uma qualquer comissão de festas ou de uma colectividade com toda a naturalidade e legitimidade inerentes a quem se considera como desligado da sociedade, vivendo apenas de si para si. Afinal de contas quem quer trabalhos, responsabilidades, canseiras e tempo perdido a troco de nada e apenas recebendo críticas e desconsiderações?

19/11/2018

Nota de falecimento


De forma inesperada faleceu Maria Isaura Pereira dos Reis, viúva, de 70 anos (20 de Abril de 1948 - 17 de Novembro de 2018). Vivia no edifício de Habitação Social em Casaldaça - Guisande.
Velório na Capela Mortuária de Guisande, na Quarta-Feira, dia 21 de Novembro de 2018, com chegada do corpo prevista para as 13:30 horas.
Funeral e cerimónias fúnebres com missa de corpo presente na  Igreja Matriz de Guisande, no mesmo dia, pelas 15:00 horas, indo no final a sepultar no cemitério local.
A Missa de 7º dia terá lugar na Igreja Matriz de Guisande na próxima Sexta-Feira, dia 23-11-2018, pelas 17:30 horas.
Sentidos sentimentos a todos os seus familiares. Paz à sua alma! Que descanse em paz!

16/11/2018

Banco Solidário



No próximo Domingo, dia 18 de Novembro, pelas 15:00 horas (Dia Mundial do Pobre), o Grupo Solidário de Guisande vai inaugurar o seu Banco Solidário, em parceria com o Fórum Social da União das Freguesias de Lobão, Gião, Louredo e Guisande.
O Banco funcionará numa das salas da desactivada Escola Primária da Igreja em Guisande. Terá como objectivo a partilha de bens, nomeadamente de vestuário e outros produtos têxteis, com famílias mais carenciadas. 
Para além da doação e partilha estará aberto à recolha e recepção de produtos que possam ser utilizados no contexto e objectivos do Banco Solidário. 

14/11/2018

E dizem que há falta de trabalhadores


Por estes dias a comunicação social virou os holofotes para a situação de três famílias de refugiados sírios que há cerca de um ano e meio foram acolhidos em Portugal à guarda da Fundação ADFP de Mirando do Corvo. Parece que terminado o prazo do programa de acolhimento e apoio, as famílias teriam que deixar as instalações pertencentes à instituição. Não o tendo feito e para forçar a saída terão sido cortados os abastecimentos de electricidade e água.
Por sua vez, os refugiados sírios queixam-se de que a Fundação Assistência para o Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFFP) pretende cobrar uma renda de 340 euros por cada apartamento T3, incomportável para a sua situação económica já que cada agregado  recebe cerca de 500 euros de apoio social da Segurança Social. Dizem assim que se pagarem os 340 euros de renda ficam sem dinheiro para as restantes despesas. Neste pressuposto terão até apresentado queixa na GNR.
Por sua vez a Fundação justificou que terminou o programa de apoio concedido e que de acordo com as regras pré-estabelecidas e acordadas, cada família deveria autonomizar-se e passar a pagar a renda de casa, água, eletricidade. 

Sem querer fazer grandes juízos, parece-me, contudo, que este caso pode essencialmente servir de exemplo para a problemática inerente ao acolhimento de refugiados. De facto, num primeiro tempo, a boa-vontade e o humanismo do Estado e de muitas instituições, de que até se fez alarde e publicidade, mas depois, passado essa primeira fase, surgem as dificuldades de adaptação e integração e os problemas inerentes. Uma coisa será apoiar durante um tempo tido como adequado e razoável à normal inserção social, cultural e profissional das famílias e por conseguinte autonomizarem-se, e outra coisa será prolongar o apoio indefinidamente ou mesmo perpetuamente.

Por conseguinte, admite-se a eventual dificuldade de os membros adultos destas famílias arranjarem emprego, mas não deixa de ser estranho quando ainda há dias um qualquer relatório dizia que Portugal precisa de milhares de emigrantes para corresponder à falta de mão de obra. Por outro lado, pelo que se viu da reportagem na TV, os tais emigrantes já dominavam muito razoavelmente a língua de Camões, muito melhor que alguns futebolistas latinos que por cá andam à cagalhões de tempo. Por isso, a língua já não será para eles um obstáculo, querendo realmente trabalhar e integrar-se. Obviamente se não torcerem o nariz a determinados trabalhos.

Cheira-me, pois, que neste caso haverá por ali alguma falta de verdadeira vontade de trabalhar e a fácil tentação de viver prosaicamente apenas à custa do Estado e das instituições. Ora deste tipo de beneficiários, estamos nós cheios e o que mais há por aí é gente a viver à grande e à francesa à custa do Estado Social e, dele, à custa dos demais contribuintes que passam uma vida a pagar para pouco ou nada receber.
Quem dera à maioria dos portugueses viver sem trabalhar, sem pagar renda, electricidade, água e ainda receber o cheque certinho da Segurança Social todos os meses. Era um totoloto. Mas a realidade não se compadece com estas regalias. Há que trabalhar e fazer pela vida.

Este caso, que sirva, pois, de reflexão para a complexidade do acolhimento de emigrantes, refugiados da guerra ou por motivos políticos ou de outra natureza. Que se dê a cana, os anzóis e até o isco, mas não, pelo menos de forma definitiva, do peixe já pescado, limpo e grelhado e até servido na boca. Como sempre, as coisas são bonitas e compreensíveis quando dentro da razoabilidade. Creio que um ano e meio e algumas condições de apoio foram, senão excessivas, foram pelo menos suficientes. Não somos uma Alemanha ou uma Inglaterra mas quem quiser trabalhar ( e não escolher emprego com conta peso e medida) pode viver com toda a dignidade. Pelo menos é assim que vive a larga maioria dos portugueses.

Não generalizando, malandros, oportunistas e vigaristas já por cá temos de sobra, a sugar a teta do Estado Social, situação a que o povo sabiamente classifica como "meio mundo a viver à custa de outro meio".

12/11/2018

Nota de falecimento


Faleceu Idalina de Oliveira, de 92 anos (11 de Janeiro de 1926 - 10 de Novembro de 2018) , viúva de Manuel José de Sá. Natural da freguesia de  Guisande residia no lugar de Duas Igrejas - Romariz.
Velório na Capela Mortuária de Guisande a partir das 10:30 horas de amanhã, Terça-Feira, 13 de Novembro.
Cerimónias fúnebres no mesmo dia, pelas 16:00 horas, com missa de corpo presente, indo no final a sepultar no cemitério local em jazigo de família.
Missa de 7º dia na  Igreja Matriz de Guisande, na Sexta-feira, dia 16 de Novembro às 17:30 Horas.
Sentidos sentimentos a todos os familiares. Paz à sua alma!

06/11/2018

Centro Social - Edital - Assembleia Geral - 17-11-2018


A Associação Centro Social S. Mamede de Guisande vai ter Assembleia Geral em sessão ordinária a ter lugar nas instalações do Centro Cívico, no Monte do Viso, pelas 20:30 horas do dia 17 de Novembro de 2017 (Sábado).

Ordem de Trabalhos:
1 - Apresentação e aprovação do Plano de Actividades para o ano de 2019;
2 - Outros assuntos de interesse para a colectividade.

04/11/2018

03/11/2018

Figuras guisandenses - José de Pinho



Como qualquer terra, Guisande sempre teve e tem, ainda, figuras que por uma ou outra característica pessoal, profissional ou de outra natureza, acabam por ser justamente consideradas como carismáticas ou "castiças", isto é, de boa casta, peculiares, com carisma e características únicas. Assim, não é condição para tal adjectivo que seja alguém formado como doutor, professor ou engenheiro. De resto, neste lote, há por aí doutores e engenheiros que pouca ou nada fizeram ou fazem a favor do bem comum e da comunidade onde se inserem e o seu contributo é o mesmo de que um qualquer iletrado ou até bem menos. Mas isso são outras histórias.

Neste contexto, e assente que uma boa e importante figura não tem que ser doutor ou engenheiro, podíamos aqui evocar figuras guisandenses, bem castiças, carismáticas, que porventura, fruto dos tempos, até não passaram de ilustres analfabetos, iletrados, daqueles incapazes de ler uma palavra do tamanho da torre da nossa igreja, mas em contrapartida, isso sim, doutorados na universidade da vida, alguns verdadeiros mestres nas cadeiras do saber, da manha, da cultura geral, da história, da natureza e das suas coisas, tão especialistas na arte de estrumar um campo lavradio como na poda da vinha ou como parteiros de uma vaca prenha.

Destas muitas figuras, é claro que gostaria de, amiúde, evocar algumas, mesmo que de forma breve e sem preocupações biográficas, mas também, reconheça-se, não é tarefa fácil e nem sempre o tempo disponível é simpático.

Aqui nesta minha casa digital, já falamos de algumas importantes figuras, desde logo o Pe. Francisco Gomes de Oliveira, como também o Cónego António Ferreira Pinto, Pe. Agostinho da Silva e o Pe. José Pereira de Oliveira. Todavia, muitas outras figuras guisandenses, do passado e do presente, mereciam ser aqui lembradas, mesmo que os seus feitos não fossem os ligados às letras, artes e ciências, como atrás se disse. Mas, quem sabe, aos poucos vá preenchendo a caderneta.

Neste pensamento e vontade, recordo que pelo início dos anos 90 o jornal "O Mês de Guisande" procurou saber um pouco mais de outras figuras e a algumas fez entrevistas onde se ficou a saber um pouco mais das suas histórias e estórias, nomeadamente dos já falecidos Joaquim Dias,  o "Pisco", Belmiro da Conceição Henriques, a Ti Clara e Ti Ana Alves. Deles já só resta a saudade mas através dessas páginas ficaram gravadas memórias que têm o mesmo valor que livros e diplomas.

Neste enredo todo, e tendo vós já visto as imagens acima, muitos, os mais velhos, terão já reconhecido a figura do Sr. José Pinho, morador que foi no lugar da Gândara, vizinho da Casa Neves, no gaveto do velho caminho para o Santo Ovídeo.
Para os mais novos, menos dados a estas coisas de outros tempos, o que é normal, podemos referenciar que era o avô da Marisa Pinho e por conseguinte pai do Sr. Ramiro Pinho, que desde há anos habita no lugar do Casal, na freguesia de Gião, onde tem um escritório de contabilidade.

José de Pinho nasceu em 28 de Agosto de 1912 e faleceu com quase 82 anos em 26 de Março de 1994. Do que conheço e me lembro, era irmão do também conhecido e carismático Miguel de Pinho (cabo cantoneiro) que viveu longos anos próximo da ponte da Lavandeira e da também conhecida  Miquelina Pinho que viveu em Casaldaça. Como filhos, do meu conhecimento, deixou o Ramiro (a viver em Gião) e a Fernanda (creio que a viver por Vila Maior).

Já quanto ao recorte de uma primeira página do jornal semanário "O Correio da Feira", datado de 11 de Agosto de 1978, digamos que é ele o acender do rastilho para esta simples evocação ou memória que pretendo fazer sobre o Sr. José de Pinho. Como poderão observar, o tal recorte ainda tem colada a vinheta da assinatura do jornal. De facto José de Pinho foi durante vários anos assinante deste centenário e histórico jornal feirense, o qual ainda se publica. Não eram muitos os assinantes em Guisande, mas ele era um deles.

Do uso deste jornal, vem precisamente a minha primeira memória sobre o Sr. José Pinho. Era eu ainda criança e sempre que ia à Missa ou ao Terço, lá estava ele, na sua figura imponente, pois era homem de porte avantajado, com uma altura muito próxima dos 1,90 m, e nos momentos em que as regras pediam aos fieis para se ajoelharem, ele sacava do bolso do casaco um exemplar do jornal "O Correio da Feira", dobrado em quatro partes e o pousava no soalho da igreja para nele assentar os joelhos. Não que fosse grande almofada o jornal, mas porque impedia de sujar as calças. Era assim naqueles tempos e esse gesto era muito frequente. Alguns homens tinham um lenço só para esse propósito, mas de todos apenas me lembro de ser feito com um jornal por esse morador da Gândara. Ora como era assinante, todas as semanas lá recebia um novo exemplar que certamente guardava no bolso para ler e reler e  usar como tapete nas suas devotas genuflexões, fosse na missa à consagração fosse no terço ou adoração ao laudate.

José de Pinho, que se conste não era doutorado, mas era notoriamente um homem culto e de letras. De resto, sempre ouvi apregoar que "quem lê jornais, sabe mais". Para além do referido jornal "O Correio da Feira", era simultaneamente assinante de outros títulos da imprensa escrita, como o "O Comércio do Porto", o "Tempo" e ainda o nosso jornal mensal "O  Mês de Guisande", do qual sempre foi um carinhoso assinante. Por inúmeras vezes, quando eu ali ia distribuir o jornal, antes do correio o fazer, ficava largos minutos á conversa com este "doutor" da Gândara. Creio que quem o bem conheceu e com ele conversou não lhe recusará este estatuto.

Por conseguinte, pela amostra dos jornais que assinava e por conseguinte lia com regularidade, notoriamente era um homem bem formado e informado das actualidades, não só do concelho como do país, nomeadamente nesses tempos tão conturbados dos anos 70, politicamente muito marcantes no período pós 25 de Abril de 1974.

De José de Pinho sabe-se que era uma pessoa muito conservadora, homem de ideologia de direita, de resto a justificar a sua relação com o CDS de Freitas do Amaral e Adriano Moreira, que sempre foi apoiante convicto. Não surpreende, pois, que tenha sido assinante do jornal semanário "Tempo", um órgão informativo conotado com a direita. Não se sabe até que ano José de Pinho foi assinante deste jornal marcadamente político, mas eventualmente apenas até finais da década de 1980. De resto os anos 80 foram bem mais calmos e a jovem democracia portuguesa  aos poucos ia ficando estabilizada. Talvez por isso e por algumas convulsões internas entre redacção e administração, o "Tempo" terminou o seu tempo e  sua missão findou no final do ano de 1990. Todavia, foi marcante e vários jornais retomaram muito das suas orientações, tanto gráficas como de abordagem jornalística.



Ainda quanto ao semanário "Tempo" designado de "liberal e independente", para o contextualizar na figura e personalidade do seu assinante Nº 1881, José de Pinho, este jornal foi fundado em 29 de Maio de 1975 por Nuno Rocha (Porto, 13 de Fevereiro de 1933- Cascais, 5 de Julho de 2016). Este jornalista, que alguém caracterizava como cosmopolita, passou antes por títulos como o "Primeiro de Janeiro", "Diário Ilustrado", "Diário de Lisboa" e "Diário Popular". Considerado controverso e conservador, implementou um estilo no jornal que depois Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso levariam para "O Independente".

Por tentar fundar o "Tempo" Nuno Rocha foi preso a 13 de Abril de 1975, em casa, por membros do COPCON (Comando Operacional do Continente), ficando detido durante 17 horas em Caxias. Este facto não deixa de ser significativo pois mesmo depois da revolução, continuou a haver actos persecutórios criticados ao antigo regime recém derrubado, nomeadamente privação do exercício da liberdade, incluindo a de imprensa e prisão por motivos políticos. No fundo, era fruta da época e para além dos fascistas de direita havia os de esquerda. Coisas e singularidades.

Em 1976, em pleno "Verão Quente", o semanário chegou a vender mais de 100 mil exemplares. Paulo Portas, conhecido político, estreou-se nele como cronista e mais tarde veio a fundar o jornal "O Independente".

Como já referi, o"Tempo" era assumidamente de centro-direita e surgiu então para contrariar a tendência de esquerda dos jornais da época que dominava a imprensa portuguesa. Os articulistas do semanário "Tempo" escreviam e davam conta das preocupações perante o rumo que Portugal levava, durante o PREC e na sua aventura que indiciava resultados catastróficos para o país. Pressentia-se que o país saíra de uma ditadura de direita e que se encaminhava para uma de esquerda, traindo o que diziam ser a gênese da revolução de Abril de 74.
O "Tempo" era assim uma contra-corrente e talvez por cá José de Pinho encontrasse nele e nas suas posições editoriais uma linha de pensamento ideológico que entendia ser a melhor para o rumo do país e daí o tronar-se assinante.

Naturalmente que para além desta faceta de homem de leituras, há muitos outros episódios ligados à figura e personalidade de José de Pinho, mas creio que para além deles, e outros terão melhores testemunhos, por mim quero simplesmente realçar um aspecto que ressaltava, o seu lado de homem culto, que lia muito e procurava estar fundamentado e informado das suas ideias e ideais. Por mim, é essa a memória que guardarei desse homem e dessa figura guisandense.

02/11/2018

Pe. Domingos, Abade de Pigeiros

Biblioteca Abade de Pigeiros


Como a casamentos e a baptizados vão os convidados..., apenas hoje tive a oportunidade de visitar a Biblioteca Pe. Domingos A. Moreira - Abade de Pigeiros. Foi uma visita guiada pela simpática responsável, Maria de Fátima, precisamente a sobrinha do Pe. Domingos, que demonstrou conhecimento e sobretudo amor e paixão pelo rico legado deixado por seu tio. Desde os simples mas emblemáticos objectos de uso pessoal e que demonstram o sentido arquivista do sacerdote e professor, até às obras mais significativas, passando pelos manuscritos, há de facto um imenso e importante espólio, naturalmente na sua maior parte a precisar de catalogação. 

Por conseguinte, não me surpreendeu que não tivesse resposta a algumas questões ou eventuais referências documentais deixadas pelo Pe. Domingos relativamente a Guisande onde foi administrador paroquial durante uma dezena de anos para além da frequente colaboração com o Pe. Francisco. Talvez noutra altura. Mas, registei, com emoção, o facto de também ter guardado um exemplar do jornal "O Mês de Guisande", precisamente o número especial sobre a celebração das Bodas de Ouro Sacerdotais do Pe. Francisco G. Oliveira, de Agosto de 1989.

Quanto ao espaço, tem a suficiente dignidade,  mas obviamente muito longe do que seria expectável e condizente. O pé-direito é baixo e o espaço livre nas diferentes salas é exíguo e nada compatível com o que se espera de uma moderna biblioteca com amplos e iluminados espaços para além dos requisitos técnicos de controlo de temperatura e ambiente. A este respeito colhi o sentir da responsável  mas obviamente que não interessa ao caso aqui o reproduzir.

Em todo o caso, é uma biblioteca rica e diversificada, obviamente que predominando as temáticas de interesse do Pe. Domingos A. Moreira, mas também com conteúdos mais generalistas e que podem colher a atenção de visitantes ou utilizadores menos estudiosos. No entanto, a interesse de todos e do próprio espaço convém que tenha a devida dinamização de modo a que, passada a novidade, não se torne num mero arquivo morto. Um espaço na internet, individualizado ou ligado à Biblioteca Municipal, será importante pelo menos, para já, como apresentação ainda que sumária, do espaço, dos seus objectivos bem como alguns apontamentos biográficos do Pe. Domingos. O trabalho até já está feito, bastando procurar reproduzir o que sobre ele publicou a revista "Villa da Feira" edição Nº 28 de Junho de 2011, da Liga dos Amigos da Feira. Certamente que com tempo farão isso, mas não deixo de me espantar que ainda não esteja online esse espaço próprio mesmo que numa versão simplificada.

01/11/2018

1, 2, 20, 30?


Em certa ocasião alguém terá perguntado a Galileu Galilei: - Quantos anos tens?
- Cinco, oito ou dez... - respondeu Galileu, em evidente contradição com as suas rugas, cabelo e barbas brancas.
Mas justificou:- Tenho, na verdade, os anos que me restam de vida, porque os já vividos não os tenho mais.

É verdade, muitos o sabem, faço anos neste emblemático dia 1 de Novembro, dia que a Igreja consagra a todos os Santos e Santas. E todos os anos, invariavelmente, sou cumprimentado por isso. Alguns cumprimentos sentidos, sobretudo de familiares e outros de circunstância, mas igualmente saborosos. Todavia, há sempre um misto de sentimentos porque, pelas características do dia, sou cumprimentado em pleno cemitério, onde me encontram. E assim, não apenas a partir dos 50 anos e da tal  curva do tempo e da vida, em que supostamente o percurso passa a ser de descida (sabe-se lá se aos céus se aos infernos), em tal cenário receber um cumprimento de parabéns lembra-nos de forma mais vincada a efemeridade da vida e o nosso inevitável destino terreno, ali, envolto em terra fria e sob uma pesada lápide de granito. É certo que em face da nossa crença e fé, aspiramos a que haja uma segunda vida, porventura mais gloriosa e menos infernal do que esta terrena, mas isso é apenas fé e tantas vezes fezada, pelo que sem certezas desse lado místico ou espiritual, importa que procuremos fazer desta vida terrena, enquanto por cá andamos, um pequeno céu. Por isso, a amizade e cordialidade entre outros bons valores humanos são sempre rumos certos que devemos procurar seguir e transmitir. É verdade que somos de barro fraco e nem sempre suportamos as pequenas ou grandes colisões do dia-a-dia, mas se formos capazes de fazer algum esforço nesse sentido, pelo menos não teremos passado pela vida  em vão. Não temos que passar a constar nos livros da História, não que sejamos fracos, mas , porra, pelo menos justificar uma ou outra lágrima sentida de quem por cá fica.

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