Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens

29 de janeiro de 2022

Amanhã


Amanhã é dia de Eleições Legislativas antecipadas. 

O único motivo da antecipação, o desentendimento da maioria de Esquerda, com a leitura que cada um dele queira retirar, importará, parece-me, ser tomado em conta.

Uma das vantagens da Democracia é que as estradas não têm sentido único. Importará escolher e respeitar os vencedores e dignificar os vencidos, mesmo que na diferença do que cada um de nós, em consciência e como cidadãos livres e independentes, considera como a melhor alternativa para a nação e para os portugueses.

Não perceber, não compreender e não aceitar isto, é um pouco como ir ao futebol e não reconhecer o mérito ao adversário mesmo que o nosso clube  jogue mal e porcamente.

26 de janeiro de 2022

Pedro e o lobo

Dos políticos podemos dizer que não gostamos deste ou daquele. De resto pelas redes sociais até se vêem alguns ódios de estimação, a meu ver injustificados e sem qualquer sentido democrático e de respeito pelos outros e sobretudo pelas diferenças. Mas adiante.

Pela minha parte, sempre que me refiro a um político, faço-o sem qualquer sentido pessoal até porque confio que no essencial, da esquerda à direita, todos são boas pessoas e excelentes mães, pais e chefes de família. Será, pois, apenas uma mera opinião pessoal e com base numa percepção programática e de personalidade meramente política ou, se quisermos, ideológica.

Neste pressuposto e para as próximas Eleições Legislativas, até admito que no círculo de Aveiro poderia equacionar em votar num qualquer outro cabeça-de-lista do PS, incluindo António Costa se tal fosse o caso e noutro contexto que não o actual, mas não, de todo, em Pedro Nuno Santos, mesmo sendo "nosso vizinho".

Mas, como disse, é apenas uma mera opinião sobre um político que, não tenho dúvidas que, mais coisa menos coisa, virá a tomar de "assalto" o poder no reino da rosa. Nessa altura veremos se o Pedro será um lobo e qual o comportamento dos lobos face a Pedro.

Até poderei estar enganado e com uma percepção desajustada, mas simpatia política por este Pedro, é coisa que por ora não cultivo, entre outros motivos de análise, por o considerar demasiado extremado à esquerda. Ora os extremismos, como a carne gorda, não são nada saudáveis.

23 de janeiro de 2022

A caminho de sei lá o quê


Dei comigo a pensar e a perguntar quantas pessoas residentes em Guisande terão falecido nos últimos 12 meses, isto é, num ano. E a resposta, mesmo que mais ou menos, terão sido umas 10 ou 12. Em sentido contrário, quantas crianças nasceram em Guisande nesse prazo? Confesso que não sei a resposta mas arrisco-me a dizer que eventualmente uma, duas ou mesmo nenhuma.

Não é preciso muito exercício para se pensar neste saldo negativo e perceber para onde é que ele nos leva inexoravelmente  enquanto comunidade. Obviamente que a uma redução da população e o seu envelhecimento. 

Todos sabemos que a baixa natalidade não só é um realidade nas pequenas aldeias do interior, como também nas zonas urbanas do litoral, das pequenas ás grandes cidades. Também não é um problema de Portugal mas da Europa em geral. 

Tratamos a baixa natalidade como um problema mas em rigor por si só não é problema algum. Só é problema à luz dos convencionalismos e modelos das sociedades modernas e ocidentais, em que se espera que uma boa parte da população seja jovem e activa de modo a suportar as outras partes, nomeadamente as que já atingiram a reforma. 

Ora é precisamente este modelo de sociedade e das suas exigências e padrões que acabam por concorrer em muito para a baixa natalidade. Para uma família, mesmo da classe média, ter um filho implica um enorme esforço financeiro durante pelo menos 25 anos, ou mesmo mais. Ora para cada filho a mais, o acréscimo é, naturalmente, proporcional. 

Os pais na sua maior parte investem as suas poucas poupanças na criação, educação e formação de um filho e assim, sem capacidade de realizar um pé-de-meia, arriscam-se a atingir a reforma depauperados e sem protecção, podendo a partir daí passar dificuldades. E na maior parte dos casos, o investimento feito a favor dos filhos, raramente tem retorno porque o modelo familiar tem-se vindo a erodir bem como os seus valores fundamentais. Estão, por isso, os lares a abarrotar e idosos a viverem sozinhos e abandonados por quem em primeiro lugar deles deveriam cuidar.

Posto isto, não surpreende que cada vez mais a opção de se ter um único filho seja adiada para tarde ou mesmo posta de parte. 

E não se pense que esta situação resulta apenas da velha desculpa de falta de apoios e políticas dos diferentes governos à natalidade. Também por aí, certamente, por fracas políticas ou falta delas, mas porque na realidade os padrões modernos estão formatados para isso e não há sistema que aguente um apoio efectivo e que faça a diferença de modo a inverter os gráficos. 

É estrutural mas também  cultural. De resto, veja-se, mesmo pensando em casos concretos à nossa volta em que casais supostamente com bons empregos, bons rendimentos e património, alguns até protegidos no emprego porque ligados ao funcionalismo público, tiveram ou têm apenas um filho, no máximo dois. E porque não tiveram mais? Por dificuldades económicas? No essencial porque não quiseram porque tal era um inconveniente do caraças, mesmo que o pudessem fazer sem problemas financeiros. Paradoxalmente, continuando a olhar ao perto, as poucas famílias que têm mais filhos, são aquelas que aparentemente são de origens mais humildes e sem as costas largas de patrimónios herdados ou de serem trabalhadores do Estado. Será apenas um paradoxo?

Em resumo, e sobre isto as opiniões serão diversas ou mesmo contrárias, as coisas estão neste pé porque desde há décadas que caminhamos nesse sentido, mesmo que com medidas avulsas, como no caso do município de Santa Maria da Feira ao decidir apoiar crianças durante e até aos 3 anos de idade, com um subsídio anual de, creio, 600 euros. Na prática, sendo uma ajuda, isso vai dar em nada no que toca ao incentivo concreto da natalidade e no final, daqui a uma década, se forem feitas contas, os números da natalidade no concelho pouco ou nada terão mudado e o normal será continuar a registar-se um decréscimo. Ninguém toma a opção de ter mais um filho exclusivamente pelo facto de poder receber 1800 euros em 3 anos.

Mas, face a esta realidade e contexto, vamos todos continuar a fazer de conta que isto há-de resolver-se, mesmo que a Segurança Social em breve se torne insustentável. Nem que se escancarem as portas a uma imigração sem critério para repormos os contadores e encher vilas e aldeias. E não faltam por aí Dons Sanchos com ares  e vontades de modernos povoadores. Com eles, até a aldeia de Drave voltará a latejar de gente nova.

Diabos e anjinhos

Considero que António Costa é um político hábil e habilidoso. Apesar disso, na percepção de um simples cidadão, no geral e com alguns descontos, tenho-o como uma boa pessoa e honesto. 

A habilidade é uma qualidade nos políticos e faz parte intrínseca da coisa. Não devia ser, porque a essência de quem é político e candidato ao serviço da causa pública e dela dos cidadãos, importaria ser de verdade e transparência, sem manhas ou subterfúgios que de algum modo ludibriem ou desinformem os cidadãos. Mas, não sejamos ingénuos, mais vale esperar sentados se estamos à espera de que a política e os políticos sejam, no geral, exemplos a toda a prova da boa moral e dos bons princípios.

Talvez por isso, ainda hoje ouvi António Costa em campanha a dramatizar a situação, relacionando os números da Covid, levando a supor ou a ludibriar que perante estes números os portugueses não devem ir em aventuras como se uma questão de saúde pública tenha a ver com políticas e propostas. António Costa está a dizer-nos que se votarmos em qualquer outro partido e sobretudo no PSD é um risco porque aí a Covid vai aumentar e agravar-se nas suas consequência. Não o disse literalmente, mas guiou as águas nesse sentido.

É mau demais ir por aí. Esgrimir de forma enfadonha a metáfora do diabo relacionando-o a um partido concorrente, como se todos fôssemos uns idiotas chapados e um bando de criancinhas sem capacidade de pensamento, e depois, ele próprio, entrar despudoradamente numa narrativa de drama e medo com argumentos despropositados. Em democracia há que respeitar as ideias e propostas dos demais. Apoucá-las e menosprezar os seus intervenientes não ajuda. 

Isto, de parte a parte, porque mesmo Rui Rio, político que igualmente considero boa pessoa e honesto, também tido tido estas tentações e algumas sentenças despropositadas e inúteis. 

21 de janeiro de 2022

Saber usar as palavras


Eu sei que quase ninguém ouve estas coisas, mas ainda nesta semana, na rubrica "Palavras Cruzadas" na Antena 2 (e quem ouve a Antena 2, questiono?), Dalila Carvalho falava com Miguel Bastos, jornalista da RTP a propósito da vulgarização no uso da palavra, sobretudo na imprensa, em que por tudo e por nada se abusa da dramatização de certos termos quando porventura os mesmos se não justificam. 

No caso, a palavra ou adjectivo "caos". A imprensa tanto a usa para se referir a um ligeiro engarrafamento no Porto ou em Lisboa, como com a uma situação vivida recentemente no aeroporto de Kabul aquando da fuga ao regime talibã, ou como consequência de uma catástrofe natural.

E é mesmo assim: o uso e abuso de termos ou adjectivos com impacto por tudo e por nada, até para situações de lana caprina, acabam por esvaziar o sentido dos mesmos e como na história de "Pedro e o Lobo", às tantas quando a mensagem ou a palavra se justificam, acabam por não surtir efeito ou ser encaradas de forma insensível.

Mas esta situação na nossa imprensa não é de todo surpreendente já que o falar bem e correctamente deixou de ser requisito. As redacções não querem profissionais idosos, grisalhos e a usar óculos. Gente nova, no geral impreparada em que uma certa burrice e ignorância são recorrentes, são quem povoam as redacções e nelas fazem falta os velhos mestres do verdadeiro jornalismo e do correcto e contextual uso da palavra. Na actualidade a força da palavra está na vulgarização de adjectivos dramáticos e sensacionalistas. Veja-se o caso do termo "arrasar" que é empregue por tudo e por nada, ao ponto de tornar-se um ridículo. 

Mas é disto que a casa vai gastando e o escrutínio é quase inexistente porque de um modo geral a audiência está tão mal preparada e instruída quanto quem dá a notícia. Assim sendo...

12 de janeiro de 2022

Sentir o cheiro da pocilga

Episódios de desrespeito e mesmo agressões às forças da ordem, guardas da GNR ou agentes da PSP, ou até mesmo a agentes municipais, como visto por estes dias, são mais que muitos, sendo que a maioria passa-nos ao lado da espuma dos dias. Para isso seria preciso assistir ao canal do país real, mas uma certa franja da sociedade tem-lhe aversão por nos mostrar que nem tudo é cor-de-rosa. Por vezes é preciso mesmo entrar na pocilga para lhe sentir o cheiro.

Depois, como se a desautoridade das autoridades fosse normal, os juízes condicionados por uma lei permissiva e por um parque prisional a rebentar pelas costuras, invariavelmente devolvem os suspeitos (e é interessante esta terminologia quando os casos são de flagrante delito), à procedência, e à recorrência do crime, aos furtos, assaltos e agressões, tantas vezes mesmo no próprio dia.

Em suma e em resumo, um sentimento geral de impunidade que leva a que quem anda nessa vida continue a considerar que vale a pena porque o risco e castigo são frouxos. Simultaneamente os agentes sentem-se impotentes para actuar e passam a ser meros bonecos e arriscando as suas vidas face à criminalidade que pela frente não hesita em disparar ou albarroar. 

Por esta recorrência não penalizada, ainda há dias queixava-se alguém da empresa Cavalinho, cujas lojas no nosso concelho têm sisdo sistematicamente assaltadas, que assim é complicado e desmoralizador, com os assaltantes a serem detidos e soltos na hora, prontos para o mesmo, quase numa atitude de gozo e escârneo.

A par disso, temos obviamente um código penal suave em que tanto paga quem mata um como quem mata 1000. Espanta, assim, que António Costa, simultaneamente primeiro ministro e candidato ao mesmo posto, aproveite com demagogia e deturpando o que Rui Rio disse sobre as condições e critérios de aplicação de pena de prisão perpétua, de resto prevista e ou aplicada, e bem, na maioria dos países europeus, porque há crimes tão hediondos e injustificáveis que a quem os pratica de forma planeada, fria, calculista e insensível não é merecedor de qualquer sentimento de humanidade. 

Mas António Costa parece ser dos que acha quem sim. Com ele, os autores dos massacres em Paris ou dos ataques às torres em Nova Iorque apanhavam 25 anos e ao fim de 10 ou 15 estavam cá fora, curados e redimidos para uma vida exemplar e santa ao serviço da sociedade, como se todos aqueles milhares de vítimas e famílias destroçadas para o resto das suas vidas, fossem apenas números e estatísticas. Custa a crer.

É certo que este tema é sensível porque mexe com questões de natureza religiosa, humanista e civilizacional, mas o nosso sistema é no geral muito permissivo e benevolente com o criminoso e desleixado e indiferente para com a vítima e com as forças da ordem sem ordem para exercer a autoridade quando à força é preciso recorrer. 

Obviamente que não se defende aqui a pena de morte, ou a lei do olho-por-olho, dente-por-dente, ou coisa que o valha, mas de facto a prisão perpétua, mesmo que com determinados e proporcionais critérios face à natureza dos crimes, sobretudo de natureza terrorista e de massacres indiscriminados, é mais que racional e compreensível que seja considerada e prevista. 

Para concluir, neste estado de coisas, de desautoridade da autoridade, de laxismo, indiferença e sobretudo de sentimento de impunidade  para os criminosos e desrespeito, injustiça e indiferença por quem é vítima, não surpreende que nos estejamos a pôr a jeito para o crescimento de certos extremismos.  Não tarda, colheremos os frutos da nossa sementeira.

6 de janeiro de 2022

Importa não esquecer

Ouvir Catarina Martins esgrimir com Rui Rio a questão da prisão perpétua, não deixa de ser interessante e paradoxal. 

Concordemos que a justiça não pode ser vingança, mas também não pode ser um ninho de acolhimento de terroristas, como os fascínoras da FP 25 de Abril, que em rigor nunca cumpriram as penas pelos crimes de sangue, incluindo o assassínio de um bébé.

Alguns desses operacionais encontraram ninho no Bloco de Esquerda. Ainda andam por lá! 

Otelo, um terrorista sofisticado, morreu para muitos como um herói nacional. É certo e indesmentível que foi importante o seu papel nos aconteciemntos da revolução de 25 de Abril de 1974 que levaram à queda da ditatura de Direita mas depois o seu caminho tornou-se demasiado tortuosos e pretendia levar a uma ditadura de Esquerda. Não o conseguindo pela via democrática enveredou pela da criminalidade e terrorismo.

Por conseguinte o seu papel na revolução tem que ser reconhecido mas não pode ofuscar ou suplantar todo o seu posterior percurso nomeadamente o que teve na organização terrorista FP-25 de Abril, com graves crimes de sangue dos quais em rigor nunca foi feita justiça, tanto para os criminosos como para as vítimas.

A amnistia soarista foi uma coisa lastimável e vergonhosa em nome de uma certa necessidade de apaziguamento da sociedade. Convinha ao regime fazer de conta que tudo aquilo nunca aconteceu. Optou-se pela erosão de todo o processo e as picadas no balão para que aos poucos fosse esvaziando. 

Tal como do facismo e seu intérpretes, importa igualmente não esquecer. O seu a seu dono e cada coisa no seu lugar. 

4 de janeiro de 2022

Ainda sobre o atraso na vacinação

O regime Casa Aberta no processo de vacinação Covid-19 e gripe sazonal  pode ser interessante e importante para alguns contextos, mas não da maneira que tem sido aplicado ou gerido ou mesmo coexistido com o previo agendamento.. 

Desde logo porque gera situações descontroladas  com picos de acesso. Porque se há muitos que resolvem a situação em meia hora ou 45 minutos, há quem demore duas horas e meia e mesmo mais. Depois, não vejo porque é que alguém em Casa Aberta possa passar à frente de quem agendou com antecedência, sabendo-se que o agendamento tem sido acesível a todos. 

Depois há ainda a questão do facto de a hora previamente agendada pelos serviços não servir rigorosamente para nada. Se alguém que tem agendada a hora de 14:05 horas, por exemplo, mas quem tiver marcado para as 15:00 ou 16:00 horas, se estiver na frente da fila, é vacinado primeiro e até mesmo de quem tenha marcado para as 13:00 horas. O horário deveria ser precisamente um dos parâmetros rigorosos de acesso e ordenamento nas entradas. Não o sendo, gera estas situações aleatórias e de algum modo injustas. Ou será aceitável que a alguém que tem agendamento prévio  para as 14:05 horas, com horário fornecido pelo próprio sistema,, seja vacinado apenas duas horas e meia depois? 

Podemos e devemos aceitar alguma variação no processo, mas tanto é um exagero. Convenhamos que não é nenhuma consulta médica cujo tempo pode variar. Não é mais que uma linha de produção: - Entrada, Check-in, Vacina, Recobro, Saída. 

Quando assim não funciona só pode ser mesmo desorganização e desajustamento dos meios. Seja como for, o remédio é mesmo aguentar, refile-se, proteste-se ou não. Porque se voltar para casa sem a vacina, é apelidado de nagacionista e segregado no dia-a-dia.

3 de janeiro de 2022

Coesão e coisa e tal...

Em 2012, um tal de Relvas (bom exemplo de um mau político), com a aprovação da dita cuja reforma administrativa, dizia que "...demos mais um passo para o aumento da eficiência dos serviços públicos, bem como a sustentabilidade do poder local. A coesão territorial sai reforçada. Esta é uma reforma para as pessoas e não para os políticos".

É certo que a coisa ainda é relativamente recente, mas para amostra, 8 anos e dois mandatos de gestão das novas autarquias, já deram para ver o que valia. Nada! Eventualmente na redução de custos para o Estado, mas para as pessoas, pelo menos por cá, nada vezes nada. Chega até a ser imoral esgrimir que esta reforma foi feita para as pessoas e não para os políticos quando a proximidade que apesar de tudo existia no anterior modelo, levou, com a mudança, um autêntico murro na barriga, ou até mesmo um pontapé nos tomates.

Felizmente, parece que vai ser possível desfazer alguma da cagada, mas pena que não totalmente revertida, pura e dura. Nestas coisas, os governos criticam-se uns aos outros, mas, como porcos esfomeados, empurram-se e esfocinham-se, mas em rigor comem da mesma pia.

Mas voltando à "...coesão territorial", só pode ser mesmo piada. Porque na verdade a lógica de investimento que tem regido estes dois mandatos não tem ido de encontro a um nivelamento dos diferentes territórios das uniões, mas antes acentuado a diferença no grau de importância populacional e dela a eleitoral.

Vejamos, no caso de Guisande: Ainda há ruas completamente às escuras, sem um único poste de iluminação. Mesmo a estrada que liga Louredo a Guisande, entre os lugares de Cimo de Aldeia e Igreja, tem uma grande extensão sem iluminação. Mesmo na rua de Estose que ligar ao território de Guisande anexado pelas Caldas de S. Jorge, no lugar de Azevedo, tudo é escuro como breu. Asssim, no mínimo a dita coesão territorial ainda não passou de um cinzento carregado. 

A nível do concelho é certo que muita coisa foi feita mas ainda padece de um centralismo exagerado e a sede e as freguesias do seu eixo poente são quem mais beneficia em projectos de monta. O resto, é quase paisagem e mesmo essa já para pasto de auto-estradas e centrais eléctricas. E ruas às escuras.... 

27 de dezembro de 2021

No admirável mundo do à borlix


A imprensa escrita queixa-se da perda de leitores e a sua integração no digital online parece não ter resolvido a situação, ou pelo menos disso continuam a lamentar-se. Certo é que se no formato tradicional em papel não há muito a fazer, porque há muito que os hábitos de leitura dos portugueses andam pelas ruas da amargura, também no online as coisas não são apelativas. No geral o que é oferecido é publicidade, insistente e persistente, quase numa forma agressiva, e no fundo pouco oferecem, apenas títulos ou resumos para conteúdos premium que precisam ser pagos para poderem ser lidos. Ou seja, neste momento, os lucros publicitários serão superiores ao que é oferecido. Pelo menos é essa a percepção.

Por outro lado, ainda em 2020, um grupo de vinte directores dos principais títulos da impensa escrita em Portugal apelava aos leitores para comprarem jornais em papel ou os assinaram nas plataformas digitais como premissa para apoiar um jornalismo de qualidade e assim combater a pirataria e a falsa imprensa. Certamente que o apelo caiu na indiferença.

Certo é que a qualidade dos jornais em geral é fraca, muitos deles tendenciosos e a voz dos donos dos seus grupos editoriais e posicionamento político e ideológico ou mesmo clubista no caso dos desportivos.

Em resumo, tal como tem estado, a imprensa, não só a escrita como a televisiva,  também não está a merecer muito mais apoio e interesse. Ainda quanto às edições electrónicas dos jornais, sendo obviamente mais baratas do que na versão papel, no geral ainda são caras porque ainda com bastante publicidade, com valores entre 50 a 100 euros anual. Talvez com valores mais em conta poder-se-ía captar mais leitores assinantes. Mesmo assim, sou assinante de dois títulos, um regional e outro local, mas pergunto-me se não serei um dos poucos casos raros? Já agora, em Guisande, quantos assinantes de jornais teremos? Será difícil responder?

Para além de tudo o mais, a imprensa esbarra-se com outro muro que é o do oportunismo geral, em que ninguém quer pagar seja o que for, dando como adquirido que tudo o que está na net online é de borla. Assim, pagar um serviço, um software, um jornal, um conteúdo artístico, é coisa rara. É estrutural mas é cultural.

Por exemplo, tenho em funcionamento e sou administrador de um fórum sobre um determinado tema em que já vai a caminho dos 20 mil utilizadores. Há tempos abri a hipótese dos mesmos utilizadores poderem dar um contributo, via PayPal, para ajuda dos custos de manutenção(domínio, alojamento e software), que poderia obviamente ser de qualquer valor, msmo que simbólico. Pois bem, durante um ano em que esteve aberta essa oportunidade, apenas um único utilizador contribuíu com 3 euros. Os restantes milhares não se mostraram sensíveis continuando por isso a usufruir de um serviço completamente grátis e que serve os seus propósitos para a finalidade a que se dedica o fórum.

Em resumo, no geral o espírito do portuga é esse mesmo, o de oportunista, o de usufruir de qualquer coisa, desde a mais banal à mais útil e interessante, mas completamente à borlix e, quantas vezes, ainda a reclamar. Mesmo dando como adquirido que no geral todos nós acabamos por baixar e instalar conteúdos sem os pagar, sejam programas, música e outros conteúdos artísticos, mas, porra, pelo menos que alguma coisa paguemos.

26 de dezembro de 2021

Nuvens negras

Há dias, alguém que prezo e estimo, um guisandense ausente mas presente, e que vai seguindo os meus apontamentos sobre algumas coisas relacionadas à freguesia e paróquia, manifestava-me o seu agrado pelos mesmos, e que os acompanha interessado, porque mais do que memórias trazidas à tona do dia, são elementos que guardam um pouco do que é a nossa história comum. E rematava dizendo que entendia que estas coisas deviam ser mais divulgadas e consideradas.

Em resposta, e agradecendo o interesse, ressalvei que porventura a coisa não mereceria tanta atenção. De resto nem o faço para colher bênçãos mas antes para ficar como um simples registo escrito para memória futura e até porque um dia destes alguns desses apontamentos irão para livro. Mas no essencial tenho noção que estas coisas pouco ou nada interessam à generalidade das pessoas. Quando muito a meia dúzia.

Quando alguém sai a caminhar com o céu carregado com nuvens escuras e a ventar, não pode ter a expectativa de que não vai chover e que o sol vai aparecer sorridente. As coisas são como são. Se vires um animal a caminhar como uma galinha, a cacarejar como uma galinha e a pôr ovos, então o mais certo é que seja mesmo uma galinha.

No fundo a freguesia é pequena e cada vez mais, porque esta história das uniões de freguesias, paradoxalmente só veio contribuir para uma desagregação, e nela escasseiam as pessoas com sensibilidade cultural e de amor à terra suficientes para apreciar e valorizar o que por ela se vai fazendo. E dessas poucas, algumas não passam de polícias sempre de bastão levantado, invejosas, com comichão por quem lhes faça sombra ou as incomode nas suas vaidadezinhas. Mas a maioria será mesmo completamente insensível a estas coisas e a freguesia será apenas uma coisa em abstracto, nela apenas exercendo o papel de cidadãos anónimos, sem qualquer tipo de intervenção. Ou seja, daqueles que não levantam uma palheira a favor do todo comunitário.

Neste panorama, seja em que vertente for da nossa comunidade, nunca se pode esperar muito. Vamos, pois, indo e vendo, mesmo a remar contra correntes, e fazer de conta que ainda estamos nos bons velhos tempos em que mesmo com as naturais diferenças, se remava para o mesmo lado e o sentido de comunidade e freguesia era muito vivo.

Bons velhos tempos que já não voltam, ande-se por onde andar.. 

22 de dezembro de 2021

O fado do pau para toda a colher

 


O que por aqui vou dizendo e escrevendo, e isto dever ser perfeitamente natural e compreensível, reflecte sempre e apenas a minha opinião e qualquer outra, em concordância ou em contrário, é legítima, concorde-se ou não. 

A propósito de alguns recentes eventos de cantoria de fados em espaços de igrejas e capelas cá pela zona, parece-me que  o fado não é o tipo musical que mais se adeque à natureza de tais espaços. 

Gosto de fado (mais do clássico do que o moderno), aprecio o fado e julgo, sem falsa modéstia, que conheço minimamente a história e evolução deste género musical, para lhe reconhecer um lugar importante na nossa cultura musical, mesmo que de cariz urbano e limitado no espaço, já que essencial e reconhecidamente identificado a Lisboa e com a variante que se reconhece no ambiente académico de Coimbra, mesmo que o fado ligado à cidade do Mondego e ao contexto universitário, tenha, de algum modo, depois seguido a sua própria evolução e de forma independente da do fado lisboeta. 

O resto é paisagem, mesmo que o fado hoje em dia se cante por todos os lados e os fadistas ou pseudo-fadistas sejam mais que as mães. De resto, pela sua qualidade e valor enquanto elemento identitário, cultural e imaterial, foi já reconhecido pela UNESCO. 

Voltando à questão, apesar dessa qualidade cultural e musical, volto a dizer que não acho que se adeque a ser cantado em espaços de culto religioso. Desde logo porque na sua essência o fado é de origem popular, castiça, vadia e associada à vida boémia da capital, quase subversiva. 

O reportório clássico ou mais moderno, continua a focar temas como o amor romântico, sentimental ou carnal, o desamor, o maternalismo, a paisagem urbana e humana de uma certa Lisboa antiga, e naturalmente outros temas mas seguramente não de índole intrinsecamente  religioso ou espiritual. Pode-se chamar à equação o conhecido Frei Hermano da Câmara, que em determinada altura deu esse toque mais religioso ao fado, popularizando até a balada de fado de Coimbra “Samaritana”, de autoria de Álvaro Cabral (1865/1918), e mesmo outras figuras,  mas no geral foi coisa rara e mais adaptada do que evoluída. De resto, se alguma religiosidade mora no reportório do fado, essa é muito mais notória na variante do fado coimbrão. 

Mesmo hoje em dia, se o fado foi de algum modo moldado na sua essência original, tal deve-se a uma certa modelação que foi inevitável durante o longo período de ditadura do Estado Novo onde a este importava um fado mais domesticado e a tocar em valores a ele mais caros, como o de cariz religioso. Portanto o fado num largo período da sua história viveu muito desta ambiguidade.

Não tenho dúvidas que o fado, sobretudo pela sua matriz puramente musical e melódica, nos seus ritmos lentos, compassados e chorosos, até se pode prestar a uma intervenção mais recatada, introspectiva, mas não é seguramente da sua natureza mais genuína. 

Não basta, pois, que nos poemas cantados no fado se invoque Jesus, Maria ou José, ou os santinhos das aldeias, as capelas de Santo Estevão, S. Domingos ou outras, para que a coisa se possa considerar ou disfarçar de sacra e litúrgica, embora haja quem pense que sim, como se o fado possa ser pau para toda a colher. Um lobo nunca será cordeiro mesmo que lhe vista a pele.

Há por aí uma tese de doutoramento muito interessante e que aborda este tema da relação do fado com a religião e que pode levar a várias leituras e interpretações. Será o documento, dos que conheço, que melhor aborda e aprofunda esta relação sob um ponto de vista analítico e histórico. Interessante mas que, pela minha parte, não me leva a mudar a opinião quanto à legitimidade contextual de classificar o fado como religioso ou litúrgico. De resto, o fado nem precisa desses atributos e só perderia se assim fosse. Já muito mal se tem feito ao fado dentro do próprio contexto de fado.

Em resumo, e porque aqui não se pretende fazer a história do fado, até porque ela está mais ou menos feita e por quem melhor percebe da poda, volto à opinião inicial de que pessoalmente, apesar da tal ambiguidade de relação do fado com a Igreja e a religião, não acho adequada a sua interpretação em ambientes interiores de espaços de oração.  Não que tal me cause surpresa e ou espanto, porque vamos andando num tempo em que a subversão e mistura das coisas é norma corrente, mas apenas porque ainda gosto da velha máxima de que cada coisa no seu lugar, como quem diz, cada macaco no seu galho. 

A este propósito, para perceber o enquadramento, e porque também gosto de saber opiniões, pedi informações na Diocese sobre a realização destes eventos. Em resposta, pelo Vigário Geral foi-me esclarecido que para os referidos concertos ocorridos há pouco tempo, não emitiu a Diocese qualquer autorização.

Gostaria de saber um pouco mais, nomeadamente sobre se há orientações superiores para este tipo de eventos e que de algum modo regulamentem e uniformizem o uso dos templos para eventos não religiosos, em todo o território da Diocese, mas por ora ainda não obtive resposta. Aguardo.

21 de dezembro de 2021

Das Caldas a Paiva, alguma raiva





Pela nossa vizinha Caldas de S. Jorge, não é de agora algum alvoroço a propósito das obras de transformação do Parque das Termas. Da inevitabilidade dos transtornos das obras e da necessidade de se ir de jipe ou de carro-de-bois ao "Lavrador"  comer umas pataniscas, estourou agora outra bomba com o abate, que dizem “à socapa" de um belo e imponente carvalho, que há décadas ali morava a dar fresca sombra ao busto do saudoso médico da terra, apertado num abraço de alvenaria e ocupando meio passeio num tom de fanfarrão. No fundo, o carvalho cometeu o crime de crescer e de ser ele próprio. Terá morrido de pé, mas despido.

Do que li, sobretudo do lamento de um conhecido e ilustre filho da terra, viajado e conhecedor de culturas em que o respeito pela natureza é religião, a crítica saiu dura, contundente para os "responsáveis" e para os súbditos, numa apreciação que não se devia generalizar mas que que de alguma forma, quase literária, pretende ser um "soco" nas consciências dos seus". Ninguém, nem mesmo o Scooby Doo e o seu dono, gostam de ser mimoseados de "cobardes", mas há terapias que só lá vão de choque.

Adiante. Quanto ao busilis da questão, o projecto e as obras do Parque das Termas e do que delas sairá, teria que ser fracturante até porque é lugar comum que as mudanças implicam sempre o desconforto pela perda do que é dado como adquirido. Mas sim, parece-me que, e não sei de que moda, tendência ou escola, o que vai vigorando nos espaços públicos tido como centrais e emblemáticos, é um certo exagero minimalista onde o pavimento de granito é rei e tapete para todo o pé. Deixemos o Parque das Caldas, até porque ainda não vi a ponta do véu do projecto, mas veja-se o que aconteceu no Jardim ou Largo do Conde de Castelo de Paiva, em que as tílias ali existentes que adocicavam o calor no estio, foram varridas para dar lugar ao espaço aberto, agora uma espécie de painel fotovoltaico capaz de estrelar ovos em dias de quentura. Como num poio de comida gourmet, por desfastio polvilharam a coisa com umas ervinhas aromáticas e uns arbustinhos minimalistas.

Porventura os paivenses terão a coisa que merecem, ou talvez não e gostem da mudança, pelo que ainda não li reacções, mas que a coisa no geral vai indo neste sentido, vai. Ora nesta onda de espaços abertos delineados e pavimentos com granito não há lugar para carvalhos, plátanos ou tílias. Quando muito, uns pintelhos por aqui e por ali.

20 de dezembro de 2021

De Rui Rio

Independentemente de outras possíveis e legítimas análises e opiniões, do pouco que ouvi e li do congresso do PSD neste fim-de-semana no Europarque, na Feira, retive alguns apontamentos positivos no discurso de Rui Rio, nomeadamente os seguintes três:

1 - A necessidade de uma fiscalização apertada dos apoios sociais, para que não sejam atribuidos "a quem não quer trabalhar". Sendo indispensáveis para quem deles precisa, os apoios devem ser fiscalizados num sentido de justiça e merecimento.

2 - Que o PSD está pronto para ser um governo "reformista" mas sem pôr em causa tudo o que outros fizeram até aqui.

3 - A visão clubísitica, que trata adversários quase como inimigos, não se coaduna com a forma como diz ver a atividade partidária.

Em relação ao primeiro ponto, parece-me ser uma questão de justiça e de objectividade. Os apoios sociais devem ser isso mesmo e não um modo de vida ou complemento de malandrice e chico-espertismo, em que com expedientes e laxismo do Estado se vai levando a vida sem nda fazer ou produzir.  Com pouco, é certo, mas sem esforço e responsabilidade. Essa cultura deve ser combatida.

Quanto à segunda ideia, também parece sensata. De facto, de qualquer Governo antecedente há sempre aspectos, medidas e políticas positivas. O constante fazer e desfazer o que outros fizeram, não deve ser uma fatalidade ou uma espécie de caça às bruxas. Se tem valor, mantenha-se ou melhore-se.

Finalmente, quanto ao terceiro apontamento, a questão da visão clubista dos partidos por parte de muita gente, é de facto ainda muito marcante e que leva ao apoio, tantas vezes, a incapazes, em detrimento de sufragar a confiança em gente competente, só porque na hora do voto fala mais alto o clubismo e a sigla. 

17 de dezembro de 2021

Zero


Portugal deu neste ano um importante passo rumo à descarbonização com o encerramento da Central Termoelétrica do Pego, deixando assim de produzir energia a partir do carvão. 

Todavia, estas coisas nem sempre são o que parecem já que, não sendo auto-suficiente, terá que compensar a perda de produção comprando a países europeus como a vizinha Espanha, França ou Alemanha. Para além de tudo, vamos comprar energia em grande parte produzida por esses países precisamente a partir do carvão, em que o continuarão a fazer pelo menos até 2030, já que não se comprometeram a abandonar este tipo de produção até essa data.

Resumindo, o nosso contributo em benefício do clima com o encerramento das instalações em Abrantes junto ao Tejo, por ora vale zero. Deixamos de poluir por aqui, é certo, mas alguém polui na justa medida e por nós noutro lado. 

Ademais para trás ficou um enorme investimento que não durou 30 anos, bem como centena e meia de trabalhadores que para já parece que vão continuar a receber o salário e a entreter-se com formação, paga pelos contribuintes, no que se prevê que aconteça até ao final do próximo ano, mas depois o seu futuro será de todo incerto.

15 de dezembro de 2021

Rendeiros e Pinhos


Não partilho, de todo, da opinião de Rui Rio quanto à suposta politização da descoberta e captura do bandido João Rendeiro. E chamo-lhe bandido porque estamos a falar de um condenado pela Justiça, e dela fugitivo com todos os requintes de prévia premeditação e preparação. Quase o argumento perfeito de um filme de mafiosos e conspiração. 

Mas dizia, não corroboro do que escreveu o presidente do PSD, e acho até que para além de um grande disparate e falta de sentido de Estado, foi um tiro no próprio pé.

Em todo o caso, e considerando que a Justiça não faz fretes aos políticos (e se por vezes até somos levados  a pensar que sim, não é correcto nem sensato, sem provas, afirmá-lo), por vezes a coincidência dos timings pode dar um jeito do caraças. Veja-se que toda a imprensa, de malas e bagagens, está concentrada no caso e na casa do bandido Rendeiro e como numa novela temos sido bombardeados com todos os pormenores e a toda a hora. Um autêntico massacre para uns e uma delícia para outros. 

Claro está que, e lá vem o tal jeito para alguns políticos, não se tem falado nem dado o merecido destaque a outros importantes assuntos. Alguém fala da vilanagem dos contratos com as concessões mineiras de lítio? Alguém fala dos desmandos com a TAP? Alguém fala de muitas outras coisas mais importantes do que os Rendeiros, os Linos e os Pinhos e suas estimadas e riquinhas esposas? Há sempre alguém que fala, mas como "gato por brasas", "en passant". 

O turbilhão, esse anda lá para o sul de África. E continuará pelo menos até ser confirmado o que se espera num país ainda muito sujeito à corrupção, que o dinheiro fale mais alto, até porque lá, como cá, quem tem dinheiro consegue percorrer todos os meandros da Justiça, entretê-la com todos os recursos e expedientes possíveis e imaginários e assim adiá-la e mesmo evitá-la, até que o mediatismo se dissolva e a horda de jornalistas levante âncora. 

A ver vamos!

13 de dezembro de 2021

IMI - Áreas brutas privativas e dependentes


Para quem lida com assuntos de inscrição de prédios e edifícios nos serviços de Finanças, nomeadamente no que concerne ao IMI - Imposto Municipal sobre Imóveis, não raras vezes depara-se com dificuldades na diferenciação do que são consideradas áreas brutas privativas e áreas brutas dependentes. E esta diferenciação é importante já que influencia a avaliação do valor patrimonial/tributável, porque ambos os tipos de áreas têm aplicados diferentes coeficientes e em consequência o valor do imposto.

Os números 2 e 3 do artigo 40º do CIMI - Código do Imposto Municipal de Imóveis faz a seguinte caracterização de ambas, concretamente: 

Ponto 2 - A área bruta privativa (Aa) é a superfície total medida pelo perímetro exterior e eixos das paredes ou outros elementos separadores do edifício ou da fracção, incluindo varandas privativas fechadas, caves e sótãos privativos com utilização idêntica à do edifício ou da fracção, a que se aplica o coeficiente 1.

(Redacção dada pela Lei nº 53-A/2006, de 29/12)

Ponto 3 - As áreas brutas dependentes (Ab) são as áreas cobertas e fechadas de uso exclusivo, ainda que constituam partes comuns, mesmo que situadas no exterior do edifício ou da fracção, cujas utilizações são acessórias relativamente ao uso a que se destina o edifício ou fracção, considerando-se, para esse efeito, locais acessórios as garagens, os parqueamentos, as arrecadações, as instalações para animais, os sótãos ou caves acessíveis e as varandas, desde que não integrados na área bruta privativa, e outros locais privativos de função distinta das anteriores, a que se aplica o coeficiente 0,30.

(Redacção dada pela Lei nº 53-A/2006, de 29/12)

Estas caracterizações aparentemente parecem claras, no entanto são, em meu humilde entendimento, confusas, e desde logo porque parecem ser direccionadas para os edifícios ou fracções em regime de propriedade horizontal, onde realmente há áreas exclusivas e eventualmente áreas comuns. Daí o conceito de "privativa" para diferenciar o que é ou não de uso exclusivo. Por conseguinte, no que se refere a prédios e edifícios de propriedade total ou única, isto é, sem fracções constituintes, o conceito de diferenciação por área privativa e área dependente já não faz sentido porque em rigor tudo é privado.

Ora o que acontece nas inscrições ou actualizações de IMI, sobretudo nos tais prédios de propriedade total ou única, o contribuinte ou quem o representa, como um advogado, solicitador, ou qualquer outro técnico, procura reduzir o impacto da avaliação e do consequente valor tributável, sobre o qual incide o imposto e para isso, por regra, inscreve como área privativa apenas aquela relacionada à habitação, como cozinha, quartos, salas e instalações sanitárias, corredores e vestíbulos e o resto, como anexos, garagens ou arrecadações é inscrito como área dependente. 

O código fala de áreas acessórias relativamente ao uso a que se destina o edifício ou fracção, mas em sede de licenciamento da construção, e por exemplo no que se refere a uma moradia, a Câmara licencia o uso para habitação e nesse uso principal estão incluidos todos os elementos, compartimentos e anexos, mesmo que com funções naturalmente diferentes. Ou seja, um anexo pode ter uma função de curral, de garagem ou lavandaria mas integra o conjunto afecto a uma utilização da habitação.

Em resumo, este código como muitos outros, são propícios a diferentes interpretações e os próprios serviços de finanças e respectivos peritos ou funcionários, têm igualmente diferentes interpretações e em face delas diferentes cálculos. Ou seja, para o mesmíssimo prédio, se tal fosse possível, na repartição x pagaria um imposto z mas na repartição y eventualmente pagaria um imposto k.

Em meu entendimento, essa confusão poderia ser sanada ou pelo menos ficar mais clara, desde logo se a tal diferenciação de áreas privativas e dependentes fosse aplicada apenas aos prédios em regime de propriedade horizontal e que todos os restantes prédios em propriedade total fossem apenas caracterizados por áreas privativas com a diferenciação a ocorrer na função e não na utilização do conjunto, de modo a que naturalmente um curral ou uma garagem não tenha o mesmo peso de uma sala, cozinha ou quarto.

Pode parecer que a coisa vai dar ao mesmo, mas não. Outro exemplo, e conheço casos práticos: Se um determinado pavilhão foi licenciado todo ele como de utilização de indústria do tipo3, porque carga de água em sede de IMI tem que se considerar como áreas dependentes parte ou partes desse pavilhão, só porque se entende como área de armazém ou outra pseudo-acessória. Mas então a utilização principal e inerente ao licenciamento não é de indústria? No fundo uma actividade é composta por diferentes áreas e funções, como zonas de laboração, de armazenamento de matéria prima, armazenamento de produto acabado, zonas de expedição, zona administrativa, garagens, oficinas de manutenção, etc, etc, mas sempre tudo afecto à tal utilização principal. 

Por conseguinte, em sede de IMI fazer uma diferenciação de áreas privativas e áreas dependentes resulta no tal exercício algo aleatório e mesmo oportunista,  o tal atirar o barro à parede para ver se cola, e em vez de se ficar a pagar x de imposto ficar a pagar apenas y. E quando cola, a diferença de imposto anual pode ser de milhares, dependendo obviamente da utilização, da área bruta total, bem como de outros factores como área de terreno, localização, idade, etc.

Mas tudo isto e toda esta opinião em rigor vale zero, porque na realidade vai-se continuando com esta duplicidade de critérios e interpretações do que vai fazendo lei e regulamento. 

Recomenda-se, por isso, o que se vai fazendo à fartazana, que áreas que na realidade estão afectas às utilizações principais, seja habitação, serviços, comércio, armazém ou indústria, sejam inscritas nas Finanças como áreas dependentes, nem que se tenha que transformar uma sala numa lavandaria e um quarto numa zona técnica. E já agora, entre o usar a descrição de garagem e/ou aparcamento, para aquela local onde temos temos o automóvel, faz diferença na conta. Confuso, não é? 

É literalmente atirar o barro à parede. Umas vezes cola, outras não. Ah, claro, e como habitalmente, ter bons amigos ou conhecimentos adequados nos serviços, em que de algum modo estes tenham uma interpretação mais favorável e abrangente ao que poder ser abarcado como áreas dependentes, pode eventualmente fazer a diferença entre o pagar balúrdios de imposto ou um valor mais jeitoso. Não está em causa, de modo algum, de manipulação ou actos que configurem corrupção ou favorecimento, mas tão somente uma interpretação eventualmente mais favorával da tal caracterização do código do IMI. Considerar ou não que uma determinada área possa ser elegível como dependente ou privativa faz a toda a diferença.

Já quanto à inscrição de terrenos urbanos destinados a construção, obviamente que importa estimar uma construção com a menor área possível. Uma humilde e alegre casinha tipo T1 é mais que suficiente. É que se não for feito desse modo, as Finanças consideram que todos nós somos ronaldos capazes de edificar uma mansão de 10 assoalhadas.

Seja como for, o IMI é sempre um imposto injusto e estúpido porque em rigor é uma renda que pagamos da nossa própria habitação. Ademais, em sede de licenciamento e construção foram várias as taxas já pagas, incluindo as tais urbanísticas. Um autêntico e permanente meter a mão ao bolso dos contribuintes.

Para além de tudo isto, fugir ao IMI, habitando durante dezenas de anos sem declarar a construção, é um crime que compensa. O pagamento dos quatro anteriores anos pode ser ridículo quando se habita há já 10 ou 20 anos sem pagar ou a apagar apenas o tal valor do terreno destinado a construção. E o que não faltam por aí é desses exemplos.


[foto: arabiscos.com]

9 de dezembro de 2021

Falar mal, escrever pior


De um modo geral, falámos mal e escrevemos pior, ou seja, sem papas na língua, maltratamos a nossa língua. A de Camões, a de Eça, a de Pessoa, etc. E não se pense que este é um problema de gerações, entre os que têm a velhinha quarta classe, ou nem isso, e os que têm já mais tempo passado nas escolas do que fora delas, incluindo muitos dos nossos licenciados. De resto a velhinha quarta classe bem que poderia ser actualmente equiparada ou mesmo superior ao grau de conhecimento supostamente adquiridos com um 9º ano. Porque passei por ela, não tenho nenhumas dúvidas disso. Por outro lado temos visto que as exigências curriculares estão muito infantilizadas, pouco exigentes e os malabarismos das tutelas são mais que muitos em nome do alcançar metas e objectivos de aprovações, em que retenções, este um moderno eufemismo para reprovações, são coisas a evitar, dê por onde der, a não ser, claro, que se falte à disciplina dessa coisa moderna chamada Cidadania e Desenvolvimento, em que se moldam os modernos e politicamente correctos conceitos de posicionamento na sociedade. Será daí, porventura, onde saem burocratas que querem que o termo "natalício" se substitua por "festividade", como se uma tradição de ligações intrinsecamente de uma religião, seja um chapéu que convém caber em todas as cabeças, como se não exista a liberdade e opção de usar e gostar, ou não, de chapéus. Parece que chamam a isso inclusão. Adiante!

Continuando (e aqui devo ter metido a pata na poça porque parece que os puristas recomendam que não se comece um parágrafo com um gerúndio), falamos mal e escrevemos pior porque na realidade não praticamos nem exercitamos de forma continuada e proactiva. E se quanto ao falar, a isso somos obrigados, nem que seja para pedir pão na padaria e carapaus na peixaria, já o escrever, nem por isso. Mesmo que o analfabetismo seja apenas residual nas gerações mais idosas, por motivos compreensíveis, a verdade é que é substancial o analfabetismo funcional no que se refere à escrita, mas não só. Para além de dificuldades de oralidade e escrita, há a somar muita incapacidade de ouvir e de perceber o que se diz e escreve.

Acontece que a proliferaçao e generalização das redes sociais e das mensagens de texto vieram de algum modo obrigar-nos a recorrer à escrita, e aí é que a porca tem torcido o rabo porque, expostos, os maus exemplos de mal escrever são mais que muitos, mesmo que em textos curtos, muitas vezes numa simples frase. Mas ninguém sente pudor por isso, quanto menos vergonha, a ponto de se auto-instruir e melhorar. Siga!

Claro que podem dizer que mesmo escrevendo mal se fazem entender, ou que escrevem mal porque os dedos, finos ou grossos não tocam nas letras certas do ecrã do telemóvel, mas isso não desresponsabiliza quem reiteradamente escreve mal e porcamente e dá testemunho disso, não com pudor mas até com um certo orgulho espertalhão como se o escrever mal seja uma naturalidade e com a desculpa de que  "...para o que é serve". De resto, uma gralha, a falha de uma ou outra vogal, é perceptível, mas  como desculpa do mau escrever, não pega de todo. Mas lá vamos rindo e cantando usando abreviaturas e onamatopeias e emojis, dando chutos no cu das pontuações, como se vírgulas e pontos sejam coisas de somenos importância na nossa língua.

Assim, quem escreve mal, de um modo geral não procura instruir-se, voltar a pegar nos livros de gramática e aumentar o seu vocabulário. Em suma, ler e escrever mais, não apenas curtas frases mas textos com algum significado e estrutura. É a ler, boa literatura, e a escrever, que melhor se pode falar e bem escrever. 

Há estudos que referem que em Portugal mais de 60% da população não lê um único livro durante cada ano, quando muito vai lendo as "gordas" dos jornais ou dos roda-pés dos noticiários televisivos, estes nem sempre bons professores porque tantas vezes com erros e gralhas. Por aqui percebe-se muito do estado das coisas a que chegamos. 

Assim, ainda de um modo geral, mesmo entre os nossos "amigos" das redes sociais, são raros aqueles que se aventuram a publicar textos, opiniões, ideias ou pensamentos com  mais que duas ou três linhas. Temos, pois, uma comunidade que escreve apenas de forma reactiva e raramente activa. Para esses os donos das redes sociais até criaram os tais botões de likes e emojis para com um simples boneco se poder expressar sentimentos e reacções. Somos, definitivamente, reactivos. E percebe-se o porquê de uma grande parte dos utilizadores recorrerem aos ditos memes e partilha de catrefadas de textos e mensagens em vez de os produzirem de sua própria autoria.

Não surpreende que neste contexto a malta da escrita, os opinion makers quase não se encontrem pelas redes sociais, nomeadamente no Facebook. Mesmo em outras contas que frequento, esses autores são raridades e invariavelmente ao fim de algum tempo ausentam-se porque sentem que estão a ser chuva no chão molhado, deslocados como um adepto rival no meio da bancada do clube da casa. Quem os quiser ler e seguir tem que ir aos seus próprios espaços, como blogs ou em artigos de jornais online. Não nas redes sociais. Mas, verdade seja dita, quem os segue ou procura ler, não é quem fala e escreve mal. Esses gostam, no geral, de coisas curtas, divertidas, frases feitas, nada de muito substancial, e num repente um simples "peido" colhe centenas de likes enquanto que um interessante artigo passa ignorado. Não falo por mim, porque sei do que a casa gasta, mas é mesmo assim num sentido geral. É, afinal de contas, a cultura da banalização, se quisermos, da vulgaridade exponenciada.

Em suma, frequentar as redes sociais pode ser interessante para manifestarmos os nossos egos, exibir as nossas habilidades, os nossos recordes nas corridas, mostrar o que comemos, o que vestimos, o desporto que praticamos, os sítios que visitamos, expondo-nos, a nós e aos nossos, mais do que na justa medida, mas em rigor pouco aprendemos sob um ponto de vista de partilha de ideias e raramente damos valor a quem as expressa de forma estruturada, mesmo que não concordemos com elas. E desse modo não deixa de ser paradoxal que em ferramentas capacitadas ou ideais para isso, as usemos de forma desadequada, quase em sentido contrário, um pouco como usar uma motosserra para cortar cabelo ou luvas de boxe para segurar agulhas.

Mas, como diria alguém, é a vida, e na diversidade é que está a riqueza, mesmo que o nivelamento, pelo que se vê,  se vá fazendo por baixo. 

Este é apenas um ponto de vista muito pessoal, susceptível de contraditório. Não é, pois, uma homilia, mas, todavia, como remata o padre no fim dela, "- Que assim seja!".

28 de novembro de 2021

Haverá pranto e rangel de dentes!


Como prova provada de que "não há duas sem três", Rui Rio lá despachou pela terceira vez consecutiva a concorrência nas eleições para presidente do PSD.

Contra todas as expectativas e da maioria dos dirigentes das estruturas distritais e concelhias, que apoiavam Paulo Rangel, Rui Rio contou mesmo com os votos "livres" dos militantes de base.  Aveiro foi um dos distritos que contribuíram para a vitória, escassa mas legítima e notória face ao que se esperava. 

Em resumo, muitos dos ilustres dirigentes e políticos laranja, pela terceira vez consecutiva apostaram todas as fichas no cavalo errado. Acontece. Como Rio disse não ser ingrato, pode ser que a alguns volte a arranjar um lugar na lista de deputados.

Mas Rui Rio não terá a vida fácil, até porque o seu estilo declarado de colocar os interesses do país acima dos do partido e dos pessoais, não é porca que encaixe no parafuso dos políticos de profissão. Seja como for, sai ainda mais legitimado, mas quanto à união do partido, mesmo que reclamada pelo seu adversário derrotado, será sempre num ambiente de hipocrisia porque os rangelistas e montenegristas vão continuar de facas afiadas e voltar ao ataque, que mais não seja logo depois de se saber os resultados das próximas Legislativas, onde apesar do discurso positivo e do "nós vamos ganhar!", será obviamente difícil, porque quem está no poder parte sempre em vantagem.

Mas, é política e, para já, para os derrotados, é tempo de pranto e "rangel" de dentes. Não lhes faltarão outras oportunidades.


[foto: Público]

23 de novembro de 2021

Dictomia


Por razões óbvias, as eleições directas do PSD marcadas para o início do próximo Dezembro, não é coisa que me preocupe. Como tal ser-me-á indiferente que vença Rui Rio ou Paulo Rangel.

Em todo o caso, também por razões óbvias, enquanto cidadão, tenho opinião sobre o assunto e vai no sentido que considero que sob um ponto de vista dos interesses do país e da sua governabilidade, Rui Rio, até porque o tem dito, será uma melhor opção e não é de somenos importância face ao fracasso que foi a governação apenas focada à esquerda, que obviamente com aspectos positivos, mas não abrangentes do todo da sociedade portuguesa. 

Neste contexto, para os militantes do PSD que considerem que os interesses do partido se sobrepõem aos do país, então Rangel será chave que melhor encaixa na fechadura.

Será assim nesta dictomia que os militantes do partido serão chamados a escolher, ou os interesses do país em que o partido abre portas a soluções mais à esquerda ou mais à direita mas que das quais resultem entendimentos necessários, ou então um partido com uma posição mais radical e fileiras mais cerradas, que só dará frutos em caso de vitória com maioria, o que não parece de todo credível.

Assim, sabendo que nas estruturas partidárias, no geral, ainda impera muito caciquismo, em que uma horda de militantes vão onde os levarem, para agitar bandeiras ou comer à borla, não é de todo dispiciendo que Rui Rio corre sérios riscos de perder as eleições. Daí a sua consideração de que espera o voto dos militantes "livres", daqueles que não são apenas números na base de dados a quem alguém, do próprio bolso, lhes paga as cotas na véspera das eleições internas.

A ver vamos, mas claro está que tudo é possível. Todavia, com a frontalidade que se lhe reconhece, sem manhas nem meias tintas, Rui Rio poderá mesmo passar o Natal de pés ao lume, já despreocupado destas lutas, em que o poder, os lugares nas listas e o cheiro a parlamento e as posições cimeiras, ainda valem e valerão. 

Não haja, pois, ilusões, já que nestas coisas de partidos prevalece o carreirismo e o oportunismo, daí que todas as movimentações tenham sempre esses pressupostos.