07/08/2023

O Sr. Manuel Alves que também é senhor Neca





Isto de falar dos outros, tanto mais quando ainda são vivinhos da silva, tem que se lhe diga, porque quem o faz corre o risco de ser injusto ou então excessivamente simpático, o que alguns dirão de lambe-botas. Mas assumo o risco e o que a seguir escreverei resulta apenas da minha percepção e experiência pessoais ao longo de muitos contactos e testemunhos, mais privados ou circunstanciais. E mais do que isso, com sinceridade, porque sem obrigação ou propósito de qualquer outra natureza.

Estou a falar do Sr. Manuel Alves, ainda entre nós apesar da sua já linda e avançada idade. A caminho dos 91 anos já que nasceu a 21 de Agosto de 1932. Uma pessoa quando é muito conhecida, pode ter vários nomes e o Sr. Manuel Alves é tratado de diferentes formas, como apenas Sr. Alves, Sr. Neca ou ainda por Nequita. Ainda Nequita do Viso ou Neca da Loja, por herança dos tempos em que em Casaldaça tinha uma mercearia e tasca. Ainda, não raras vezes, como o Neca da Tina, como é típico dos portugueses relacionar o nome do homem ao da esposa ou vice-versa.

Pessoalmente trato-o por Sr. Neca. Conheço-o desde que ainda criançola descia várias vezes do Viso a Casaldaça à mercearia da Sr.a Amélia. Nunca foram os meus pais clientes da farta mercearia do Sr. Neca, mas mesmo assim era frequentada por mim, porque que mais não fosse para comprar alguma coisa que no momento estivesse em falta na mercearia ao lado. Além do mais, mesmo já em adolescente, muitas vezes aos domingos à tarde alí íamos como gente grande merendar, um pirolito, umas zeitonas, amendoins ou então, quando com algum dinheiro inesperado no bolso, uma sandes de queijo. À fartazana! Também a comprar cromos da bola e dos cowbóys.

Mas, queira-se ou não, o Sr. Neca por um conjunto de razões é uma personalidade muito singular na nossa comunidade e freguesia e de algum modo um seu património ainda vivo mas que perdurará para o futuro. Como se sabe e já o disse, durante muitos anos exerceu a profissão de comerciante explorando a mercearia e tasca em Casaldaça, que a tomou das mãos da Sr.a Conceição e do Sr. Domingos "Patela",  e mais, tarde encerrada porque em edifício arrendado, mudou-se para o lugar do Viso, onde ainda vive, e ali continuou sobretudo com a afamada confecção de boa broa de milho e regueifa doce à moda de Guisande, aproveitando as mãos laboriosas e o saber da esposa de há 70 anos, a senhora Tina. Infelizmente tudo tem um fim e devido às limitações impostas pelo peso da idade, também essa actividade acabou há já alguns anos. Felizmente, no que toca à regueifa, creio que passou alguns segredos à minha prima Cilita. Mas ficam as memórias da azáfama, sobretudo em vésperas de Páscoa com o forno a parir deliciosas regueifas que gente de muito lado procurava.

Para além disso, o senhor Neca foi regedor na freguesia, no período que antecedeu o 25 de Abril de 1974, então um cargo que conferia respeito e autoridade e que a representava e no exercício do qual me contou algumas engraçadas histórias. Pano para outras futuras mangas. Foi por pouco tempo, é certo, e numa época em que os regedores já perdiam importância face à criação e proliferação pelas zonas rurais de postos da GNR, como aqui por perto em Canedo. Logo após o 25 de Abril de 1974 e assente a poeira da revolução, criadas as condições para as primeiras eleições autárquicas, o Sr. Manuel Alves fez parte como presidente da Junta de Freguesia de Guisande de 1982 a 1989, em represnetação do PSD. Mesmo depois disso, e perdidas as eleições em 1989 para o Partido Socialista, voltou a recandidatar-se mesmo que, já noutra dinâmica, não tivesse logrado a reconquista. 

Fez ainda parte da Comissão Fabriqueira e era pessoa muito considerada pelo saudoso pároco Pe. Francisco Gomes de Oliveira.

Foi autarca e presidente de Junta num período muito específico e singular, ainda num contexto muito particular e com uma forma de gerir nem sempre de forma mais escrutinada e com as contas porventura sem o rigor dos actuais tempos, de resto o que era prática em muitas pequenas autarquias, no que se dizia vulgarmente ser de contabilidade de mercearia, mas apesar disso, foi um período em que quase tudo estava por fazer e era preciso desbravar caminho. Mesmo que nem sempre da melhor forma e passível de conbtraditório, a verdade é que durante o seu período de governação fez-se muita obra, com abertura de várias ruas, como as ligações a Louredo e a Gião, que não existiam, alargamentos, pavimentações, melhoramentos vários, etc. Fez-se a sede da Junta, construiram-se os jardins de infância de Fornos e Igreja, fizeram-se obras nas escolas primárias, ampliou-se o cemitério, etc, etc.

Pessoalmente tenho a maior das considerações pela sua pessoa e pelo seu passado mesmo que em determinadas alturas, principalmente quando fazíamos parte do jornal "O Mês de Guisande" tivéssemos tido um papel de escrutínio e tantas vezes de crítica e de algum modo responsáveies pela mudança política. Mas nesse aspecto foi sempre o Sr. Neca de um grande sentido democrático e nunca tomou as coisas a peito, deixando na política o que era da política, o que nem todos foram capazes de fazer pelo que ainda subsistem alguns ódios de estimação que só servem para dividir mesmo em momentos e objectivos comunitários.

Por várias vezes convidou-me a participar em listas a eleições mas sempre recusei por mera opção de não envolvimento na política, mas revela a confiança que tinha nas minhas simples capacidades. Em algumas situações mais pessoais foi sempre de uma enorme consideração, respeito e seriedade. Por diversas vezes ofereceu-se para me ajudar em diversas situações e quando foi preciso não deixou de o fazer e apoiar.

Por conseguinte, estas simples palavras sobre o Sr. Neca, são apenas um reconhecimento pessoal do seu papel e do seu contributo de cidadania na freguesia, mesmo reconhecendo que, como eu e cada um de nós, não é perfeito e terá também e certamente os seus pecados e omissões. Obviamente que pode haver que tenha uma percepção diferente mas, como seres imperfeitos que somos pela nossa própria humanidade, todos estamos sujeitos a análises menos simpáticas e até tantes vezes injustas ou desonestas. Quem de algum modo se envolve em actos ou acções de cidadania, infelizmente e como desmotivação, acaba por merecer mais críticas do que merecimentos. Isto não é novidade e na nossa própria comunidade, apesar de bons exemplos e de muita gente reconhecedora, o que não falta é desconsiderações e em grande parte por pessoas que nunca nada fizeram. Daí a velhinha sentença de que só não erra quem nada faz. Não surpreende, por isso, que não faltem por aí artistas que nunca erraram na vida, na justa medida de que nunca nada fizeram a favor dos outros e da comunidade onde se integram.

Sendo assim, e porque felizmente ainda anda por aqui, parecem-me ser justas estas simples palavras sobre o nosso Sr. Neca. Não me levará a mal. Bem haja por tudo quanto fez.

Jornada Mundial da Juventude 2023 - O deve e o haver

Quem por estes dias foi acompanhando, lendo, ouvindo e vendo, sobretudo pela televisão (e uma palavra de parabéns pelo trabalho fantástico da RTP), o decorrer da Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, no nosso Portugal, só pode ficar com a certeza de que globalmente tudo correu bem, superando todas as expectativas, tanto ao nível da participação como da concretização do programa.

Nada, porém, é perfeito, e o tempo que se fez sentir principalmente no Sábado e Domingo, com temperaturas elevadas, naturalmente que se reflectiu em desconforto para os largos milhares de jovens, porque para além da exigência do programa, tiveram que tentar dormir em condições difíceis e fazer longas caminhadas entre os diferentes pontos. Já depois de terminado o programa, ainda mais deslocações a pé e o enfrentar de longas esperas pelos transportes em avião, combóio e autocarros, e ainda a duração dos mesmos. Mas, enfim, nada que o coração cheio de motivação proporcionada por quem vivenciou a jornada nos diferentes locais do programa, não ajude a superar, e depois do merecido descanso, serão mais notórias e límpidas as experiências e vivências. Como me disse ontem o Pe. António Jorge ao final da tarde, "...cansadinhos mas cheios de felicidade".

Acredito que para todos os jovens e mesmo para quem apenas acompanhou pela comunicação social em geral e pela televisão de forma particular, foi um evento marcante e que por muitos anos perdurará na memória individual e colectiva.

Agora é tempo de fazer contas e balanços. Já foram sendo feitos, nomeadamente pelo Papa Francisco durante a sua conferência de imprensa em plena viagem de regresso a Roma, e com intervenções avulsas do presidente da república, primeiro ministro, membros do Governo e do clero, mas certamente que com tempo serão feitas contas e balanços mais rigorosos.

Apesar disso, e da percepção geral de que tudo correu bem, do reconhecimento internacional, do importante impacto que representa para o país como reforço do lastro económico sobretudo no sector do turismo, naturalmente que se vão levantar vozes contrárias, juntando-se a algumas que durante o evento aqui e ali foram ouvidas ou que a imprensa deu espaço, bem como outras que estrategicamente estiveram caladas mas que se farão ouvir entretanto. Dirão que  foram gastos escandalosamento 80 ou 100 milhões, quando ninguém se impressiona ou escandaliza com uma transferência de um vulgar jogador da bola por 100, 120 ou 200 milhões, que sendo dinheio dos clubes é também em larga medida dos contribuintes e do país. Mas é sempre assim e não faltou nem faltará quem pretenda misturar alhos com bogalhos e a menorizar ou mesmo ressalvar  a árvore no meio da floresta.

É claro que nestas coisas, é importante a contenção, gastar o apenas necessário e quaisquer ostentações desmusaradas e desproporcionais devem ser sempre limitadas, mas enquanto portugueses, para além de mostrarmos ao mundo que sabemos organizar grandes eventos, somos igualmente mestres a fazer disparates, como o caso dos estádios de futebol aquando do Europeu de Futebol em 2004 e que deixaram uma herança de elefantes brancos ao abandono ou utilizados esporadicamente só para não esquecermos que existem. 

No caso tão falado do palco do Campo da Graça, teria sido possível gastar muito menos. De resto os demais placos mostraram que era possível gastar menos com o mesmo efeito visual e funcional. Ainda bem que reduziram os gastos mas poderiam ter ido mais além, embora o tempo já fosse escasso para grandes alterações.

Alguns sectores também fizeram questão de continuar a mexer na ferida dos abusos sexuais, como se ela tenha sido esquecida, o que não foi, a começar pelo próprio Papa Francisco. Importa de facto não esquecer esta triste realidade e tudo fazer para quem nem um único caso fique por justiçar e reparar, ou que volte a acontecer, mas importa igualmente analisar a coisa como um todo. Infelizmente estes casos não são exclusivos da igreja católica e é horrendamente transversal a muitos sectores, como todos os dias somos confrontados pelas notícias de novos e antigos casos. 

Para além de tudo, apontamos o dedo à Igreja, quase esquecendo que os casos de pedofilia e abusos sexuais e morais acontecem tantas vezes no seio da própria família, com crianças a serem abusados por progenitores e familiares. Resulta desta ideia, de que este é um caso grave e que importa combater por todos os meios e com políticas e acções que previnam. Todavia, fazer crer que este é apenas um pecado grave da Igreja é fazê-lo de uma forma discricionária e é em si mesma uma fraca atitude. Pode-se não gostar da Igreja, dos padres, dos cristãos, dos católicos, ou seja lá do que for, mas ignorar igualmente o importante e fundamental papel da igreja no plano espiritual, mas sobretudo social, e tanta e tanta gente boa que se entrega de corpo e alma a causas e a pessoas desprotegidas e vulneráveis, é demonstrar ignorância e apenas uma premeditada repulsa facciosa. E não falta e nunca faltarão acérrimos opositores. É a lei da vida e nem sempre somos capazes de analisar as coisas de forma imparcial.

Neste contexto, a Igreja, no caso a católica, tem que, de facto, admitir e curar os seus pecados, ser mais aberta para tudo e todos e no geral acolher e passar à prática tudo quanto por estes dias foi dizendo por palavras objectivas e claras o Papa Francisco. Em muitos sectores da Igreja, nomeadamente nas células paroquiais, já muito está e vai sendo feito, mas importa ampliar porque os desafios são muitos e grandes. Não ser capaz de fazer isto é deixar para trás o combóio e, pior do que isso, é deixar a sociedade navegar sem objectivos e valores morais e humanistas que conduzam ao bem geral de todas as sociedades e povos, enfiam, da humanidade em toda a sua diversidade de raças, culturas e religiões, mesmo para quem não é crente.

É um lugar comum dizê-lo, mas de facto urge que todos os aspectos positivos decorrentes desta Jornada Mundial da Juventude não caiam em saco roto, em terra infértil, e que entretanto, pousada a poeira e caídas as canas dos foguetes, fique na memória apenas como mais um evento como se fosse apenas um qualquer festival musical, um woodsotck católico, como alguma imprensa sensacionalista o prognosticou, a mesma que escreveu que "jornadas mundiais começam com zaragata entre peregrinos num bar". 

A ver vamos se será a sociedade, no geral, capaz de vir a colher frutos deste enorme evento, católico, cristão mas sobretudo ecuménico. Naturalmente que todos esperamos que sim e creio que mesmo que daquele milhão e meio de jovens se apenas 10% for capaz de frutificar nos diferentes contextos onde se envolvam, já terá valido a pena.  

Rumo a Seul em 2027!

FV2023 - Momentos

 








06/08/2023

Festa do Viso 2023 - Momentos




















Quem se importa?

Quando um evento de entretenimento se transforma num parque de diversões a cobrar bilhete e  impede o cidadão comum de usufruir do direito constitucional à liberdade de circulação de um amplo espaço público, que é de todos, e tanto mais em zona nobre de uma vila ou cidade, não por duas ou três noites mas por duas semanas, algo está mal ou pelo menos e seguramente desproporcional. Mas há quem se entusiasme e regozije por isso e até ajude à festa. 

Não surpreende, pois, que, sendo assim numa suposta democracia, seja demasiado fácil implementar as ditaduras. A História está repleta desses guias ou manuais de como o bem fazer.

Falta-nos sentido crítico, porque em nome do políticamente correcto e porque parece bem às hordas, vamos andando, já amestrados, a toque de caixa, e tudo nos parece normal mesmo se privados de valores essenciais em nome do não sei de quê e das quantas. 

Tum, tum, ta, ta, tum, tum, tum, ta, ta, tum! - Acerta o passo, ó 21!

05/08/2023

Quando a amizade resiste ao tempo



Num bom convívio a envolver gente estranha, e até onde terá estado o Salazar, a avaliar pelo imponente Buick ali estacionado, mas certamente todos boas pessoas, para além de esgotarem o stock de barris de cerveja, mas também com gente conhecida e amiga, a alegria de reencontrar velhas amizades que o tempo e suas vicissitudes levaram para longe. 

De facto o encontro com o David Conceição, a esposa Fátima e ainda o Américo Santos (infelizmente vítima, mas a recuperar de um problema de saúde) valeram mais que a fartura de comida e bebida e das partidas de um certo Mr. Bean. 

Depois do espanto de quem se revê passada uma ausência de dezenas de anos, o retorno a velhas memórias comuns e a constatação que apesar do cinzel do senhor Tempo, esse escultor que nos molda a todos,  ficamos com a sensação que num repente tudo volta aos tempos de outros tempos, isto porque no fundo, mais velhos, mais gordos ou magros, engelhados e com menos cabelo ou este já alvo, continuamos a ser aquilo que sempre fomos, nós próprios.

04/08/2023

Santa trindade

Era pequena a aldeia de Guidães e quem se pusesse bem no coruto do seu mais alto monte  abraçava-a de lés-a-lés a com o olhar. Ao fundo, a serpentear o vale, a ribeira generosa de águas a regar pelo pé os densos milheirais e a fazer rodar as mós dos moinhos do Quintas e da Cesteira. Mais ao lado, por onde o sol se esgueira ao fim de todas as tardes, lá estava a igreja matriz, branquinha como um ovo, com o sino velho a cantarolar o meio-dia. Olha ainda a esguia ponte do Padrão, o cruzeiro dos Três-Caminhos,  a ermida de Nossa Senhora do Desterro pousada numa das duas colinas do Outeiro Grande, estas dois seios revestidos de castanheiros e carvalhos alvarinhos.

Era, pois, maneirinha a aldeia e não surpreeende que toda aquela gente que ali nascia, crescia e fazia pela vida até à hora de se entregar ao Criador, se conhecessem mutuamente como se fossem da mesma família. Mas isto, claro, entre os mais velhos, porque para a criançada, mesmo que pequeno aquele mundo rodeado de soutos e pinhais, era um constante segredo a desvendar, como o descobrir de um ninho de melro entre as espadas de um fiteirão ou de uma carriça no buraco de um muro. 

Era assim também para o Custodinho, que quando calhava acompanhar a bisavô Dina em visita à filha ao lugar da Azenha, mesmo à saída de Guidães, parecia-lhe que pelos seus passos pequeninos, andava a dar a volta ao mundo, tanta era gente, coisas e sítios que nunca conhecera nem por onde passara. Por conseguinte, para além do caminho diário para a escola no lugar da Torre e das frequentes idas à igreja para a catequese, terço e missas, o mundo do Custodinho era o seu lugar, o seu casario, os seus caminhos, os matos e campos próximos. Esses conhecia-os como as suas mãos e os pés quase sempre descalços encresparam-se a percorrê-los todos os santos dias, até mesmo aos domingos nas suas brincadeiras com os da sua igualha do lugar. Conhecia, por isso, toda a gente do lugarejo, desde os mais novos aos mais velhos, que saudava pelo próprio nome quando com eles se cruzava. - Bom dia Ti Laura, dê-me a sua benção! - Boa noite Ti Alfredo! - Bom dia! Boa noite, Deus te abençoe Custodinho! Vai com Deus, rapaz!

Muito do seu pouco tempo livre, do que sobrava da escola, dos deveres e dos trabalhos da casa, matava-o o Custodinho com os filhos da Ti Arminda, o Alberto, um pouco velho que ele, já saído da escola e com os pés fora da catequese porque com a comunhão solene já feita, e ainda o Tonito, mais ou menos da sua idade, colega de escola e de carteira.

Viviam os dois irmãos com a mãe, mulher alta e magra, de rosto triste, enfaixada numa roupa negra como a noite. Moravam os três numa casita térrea, com uma pequena meia cave escura e húmida, voltada para as traseiras, onde morava uma salgadeira que a bem dizer poucos porcos salgou mas que pelo Inverno acomodava uma caixa de sardinhas que ao jantar compunham duas batatas envoltas em couves. Mas se o casebre era pequeno e escuro, era amplo e airoso o quintal em toda a volta, disposto em várias e estreitas leiras desniveladas entre si, repletas de muitas e boas árvores de fruto. Macieiras, pereiras, ameixoeiras, pessegueiros, laranjeiras, tangerineiras, etc, etc. Até uma enorme nogueira brava e um imponente castanheiro que lá pelo fim do Outono abria-se à fartura, com ouriços arreganhados a mostrarem dentes sadios e brilhantes. Até mesmo os muros e cômoros daquelas leiras eram generosos, com morangueiras e amoreiras entre os quais, logo por meados da Primavera, cantavam grilos à porta dos seus buraquinhos.

O Custodinho, naquela amizade e companhia frequente com os dois filhos da Ti Arminda, tinha naquela casa e naquela horta toda a generosidade da natureza e apenas com uma maçã de Santa Isabel, enchia a pança e só com vontade de guloso é que amanhava o condeito que a mãe lhe punha no prato ao jantar Mesmo na casa, em tempos em que a televisão só na tasca do Quim da Lebre, tinham os dois irmãos muitos livros, incluindo de banda desenhada, que lhes eram oferecidos de vez em quando, diziam, por um primo mais riquito, que vivia para os lados da Cruz Velha, a meia dúzia de léguas dali.  

Devorava, pois, o Custódio, todas aqueles aventuras de ver e ler e só saía dali quando ouvia no largo a mãe a barregar pelo seu nome que lhe soava ao habitual “põe-te já em casa!”. Mas imbuído daquele manancial de índios e cow-boys, sempre que tinham tempo ao Domingo à tarde, lá improvisavam um “filme” a condizer como se aqueles matos e pinhais do lugar fossem um far-west. Outras vezes, eram “filmes” de espada e arcos de setas, à laia do Robin dos Bosques, em que o mato da Touça era a Sherwodd e o barracão do Ti Miguel o castelo de Nottingham, ou então os Três Mosqueteiros com lençóis a fazerem de capas.

Vivia, pois, naquela amizade sadia o Custodinho com os filhos da Ti Arminda e em tudo tão absorvido que não dera conta que nunca lhe vira o marido. Mas um dia, à noitinha, comido o condeito e acabado de rezar o terço, ouviu a mãe a falar com o pai e reteve esta conversa: - Ó Manel, então é verdade que o homem da Ti Arminda já saíu da prisão? - Disse-me a São do Lano, que já o viu um destes dias a entrar na casa dela, mas que sai antes de acordarem as galinhas e volta noite cerrada para que ninguém o veja. 

O Custodinho ficou aparvalhado com esta novidade e não a entendeu logo mas no dia seguinte, nascido o sol, pôs-se em casa da Ti Arminda e meio em segredo perguntou colado às orelhas dos irmãos: - Vocês têm pai? Eu nunca o vi! Os irmãos olharam-se tristonhos e numa lição recomendada disseram que a mãe não queria que eles falassem no pai. - Mas onde é que ele mora? - perguntou o Custódio. Que não sabiam e que nunca o viram nem queriam ver.

Os dias passaram e no lugar não se falava noutra coisa até porque entretanto o homem, que ninguém conhecia, começou a acordar mais tarde e a vir para casa mais cedo, agarrado a uma bicicleta, que nunca o viram montar e em breve toda a aldeia era um mexerico, do lavadouro do Cimo da Aldeia até ao fundo do lugar dos Lameiros.

Receoso de dar de cara com alguém que esteve numa cadeia, deixou o Custodinho de procurar os amigos. Certo é que passadas algumas poucas semanas, ainda antes do Natal, chegou-se à casita  mas encontrou-a fechada. Ó Tonito! Ó Beto! Ainda rondou do lado de fora o quintal voltado ao lugar mas não viu sinais de ninguém nem mesmo quando a rondou pelas traseiras do lado norte. Até o cão, o Jani, que sempre que o farejava lhe vinha lamber as pernas, não deu de si, nem xús nem mús. Ficou admirado e sem compreender, mas no dia seguinte ouviu o lugar a comentar que a Ti Arminda e os filhos tinham saído da casa, que era de renda, e que nudaram não se sabe para onde. Talvez para a beira de uma irmã que tinha a Arminda em Duas Igrejas, outros que para mais longe, para a terra do homem, que os levou. 

O Custodinho naturalmente ficou por esses tempos triste e encabucado, já sem a habituada companhia dos irmãos e dos seus livros de aventuras e sem a fartura do quintal. Entretanto, nesse abandono repentino, não tardou que a casa entrasse em ruína e a horta apossada por silvas e tojo e, à falta de cuidado, a morrerem as árvores e os já minguados frutos eram assaltados pela criançada ainda antes do tempo de maduros. Mais tarde o terreno foi vendido ao Zé da Aurora e tudo arrasado para dar lugar a uma casa tipo franciú. Da velha casa e do quintal, hoje já só a memória mas até ela deslavada pelo tempo.

Os anos passaram e o Custódio, já homem e pai de filhos, continuando a viver no lugar, em rigor pouco descobriu do paradeiro daquela santa trindade que fez parte da sua infãncia. Foi, de quando em vez, ouvindo uns zuns zuns de que o Alberto estava a viver longe dali, numa certa terra, mas que bem de vida pois tinha uma oficina automóvel. O Tonito, um pouco mais lerdo, esse seguiu os estudos da nobre arte de pedreiro e trolha e ía andando. A Ti Arminda, que já em criança lhe parecia velha, teria naturalmente morrido, mas não antes sem ter dado mais um irmão ao Alberto e ao António, que o ex-prisioneiro não perdeu tempo a engendrar. Quanto a ele, de tão habituado daquela vida de prisão, que ninguém sabe ao certo por quantos anos, parece que logo depois da mudança e de fazer um filho à triste da Arminda, voltou a pôr a mão no alheio e regressou para trás das grades. Terá, naturalmente, já alcançado a liberdade plena que a morte a todos concede. 

Hoje em dia, quando não lhe vem o sono, põe-se a recordar o Custódio naqueles tempos e dias e nos muitos episódios felizes vividos com os seus amigos. Se pela infância não via a Ti Arminda para além de uma mãe tristonha mas zelosa dos filhos, percebe agora que essa negrura do rosto e da roupa tinham uma semente, uma razão de ser bem mais profunda, e se nessa altura lhe parecia obscura ou não a compreendia, era agora clara e límpida.

A vida é assim e nem sempre os nossos puros olhos de criança veem para além da penumbra das coisas alegres e felizes. Talvez por isso, percebe agora o Custódio, nunca viu naqueles dois olhos uma centelha de brilho e de alegria, nem mesmo nos momentos em que nas brincadeiras, à sua vista, ria e cantava com os seus dois filhos. Nem mesmo nos dias em que o lugar ou a aldeia estavam em festa e estourava-se em foguetes.

Que descanse em paz a Ti Arminda e que o Alberto e o António, mais o irmão serôdio, fruto da liberdade, se vivos, que hão-de ser, que sejam felizes e orgulhem-se da mãe, que sozinha os criou e os manteve naquela ilusão inocente de que o pai ausente não fazia falta porque ela era mãe mas também pai. Uma santa trindade materna. Mãe e filhos de espíritos santos.

03/08/2023

Coerência ou falta dela

Em regra sofremos todos do mesmo mal no que à coerência ou falta dela (incoerência) diz respeito. Portanto o problema é transversal e não adianta estar aqui a considerar qualquer reflexão como moralista, mas apenas como acto de penitência e num humilde auto-reconhecimento de que somos falíveis quando toca a tomar atitudes consentâneas com o que deveria ser a ordem natural das coisas.

Feita a introdução, como caso concreto falo dos largos milhares de euros que algumas comissões de festas gastam anualmente em foguetes, em bandas e artistas, tudo para puro entretenimento, quase sempre de qualidade duvidosa mas de agrado fácil, e, no entanto, e lá está, sem uma coerência de base, as capelas e igrejas de que cujos patronos motivam a festividade, estão tantas vezes com mau aspecto, a precisar de investimento em obras de conservação. 

Veja-se, como mero exemplo, o caso da bonita e honrada freguesia de Romariz que por estes dias e coincidindo com a nossa festa terá gasto, assim com umas contas feitas por alto, mais de 50 mil euros, com um naipe de artistas de renome no campeonato da música pimbó-popular, e, contudo, com a sua linda igreja matriz a oferecer uma má imagem com as fachadas a precisarem de pintura. Bem sei que a Senhora dos Remédios habita numa tão pequena quanto bonita capela, ali pela proximidade a cerca de 1 Km, mas é certo que o centro da festa ocorreu nas imediações da igreja.

Mas como dizia, este mal é geral e nós, em Guisande, não somos melhor exemplo do que Romariz ou de qualquer outra freguesia, pois mesmo que com um orçamento muito mais humilde e contido quanto aos gastos com a festa, temos igualmente a nossa capela, no exterior, mas sobretudo no interior, com muito mau aspecto, com as paredes salitradas a descascarem e a cobertura a meter água, por isso a precisar de obras de conservação urgentes, de resto já previstas realizar. E ali o probema não é de agora mas de há anos. Vale-nos, pelo menos como atenuante, que já há algum dinheiro angariado para tais obras e que resultou do saldo da festa das edições anteriores e parece-me que se sobrar dinheiro da festa deste ano (o que se espera), também terá o mesmo objectivo. E de um modo geral com a festa do Viso sempre foi assim, com os saldos positivos (felizmente na maior parte dos anos) a reverterem sempre para obras e melhoramentos na capela.

Em todo o caso, como disse, esta reflexão não pretende ser moralista porque o mal é mais ou menos geral, mas talvez devêssemos ter em consideração que tão ou mais importante que ter um artista ou banda de renome numa qualquer festa, importará haver brio, bairrismo e amor próprio com as nossas coisas comuns, como são as nossas igrejas e capelas, pela importância que representam para as comunidades em termos históricos, identitários e sócio-culturais.

Nestes casos em concreto, têm que ser as comunidades a avançar, porque mesmo e com a desculpa que são edifícios que pertencem à Diocese ou à Sé, certo é que se estivermos à espera que tais donos ou entidades do estado as conservem, como seria normal, bem que depressa cairão de ruína, sem apelo nem agravo.

Enxadas em vez de espadas


Que bom seria que estes novos cavaleiros

Vaidosos, de vestes e armaduras fingidas,

Lutassem valentes em batalhas sem setas,

Sem desígnio de lema de "morres ou matas".


Mas, que pena, meu Deus, vê-los foleiros,

Cómicos enfarruscados, de tinta nas feridas;

Nobreza, era lutar a limpar ruas e valetas

E de enxadas no campo a cavar batatas.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome...

José Saramago, 1922-2010,  escreveu que “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos"

Na realidade todos nós tempos um nome, mais ou menos vulgar, mais ou menos raro e estapafúrdio, mas temos, por imperativos culturais, sociais mas sobretudo administrativos, mesmo que Teixeira de Pascoaes, 1877–1952, tenha escrito que "o nome desfigura as coisas".

Por outro lado, Miguel de Unamuno, 1864–1936, dizia que "o nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a denominação é o acto da posse espiritual".

Hà nestas três fases e pensamentos subjacentes uma estranha contradição e complementaridade. Mas em ambos os casos é um tema interessante e com essência filosófica.

Da frase de Saramago, escrita no seu "Ensaio sobre a cegueira", leva-nos a navegar num mar de várias considerações e uma profunda reflexão filosófica sobre a essência do ser humano e sua identidade intrínseca. 

- A natureza do ser: A frase sugere que existe uma essência, uma característica fundamental dentro de cada indivíduo que é única e que define quem somos verdadeiramente. Essa essência pode ser entendida como a parte mais profunda e autêntica de nossa existência, algo que transcende nossas experiências superficiais e a própria linguagem que usamos para nos descrever.

- O inominável: Ao dizer que essa coisa dentro de nós não tem nome, pode-se inferir que essa essência é tão profunda e singular que não pode ser adequadamente expressa por palavras ou conceitos comuns. É algo que escapa à linguagem e que vai além das categorias usuais em que classificamos as nossas identidades.

- Auto-conhecimento: A frase também nos convida a questionar e a explorar quem realmente somos. O auto-conhecimento é um processo profundo de introspecção e reflexão sobre as nossas motivações, desejos, medos e valores. Procurar compreender essa "coisa" sem nome dentro de nós é uma jornada em busca de entender a nossa verdadeira essência e autenticidade.

- Identidade em constante mudança: Ao afirmar que "somos" essa coisa, a frase sugere que a identidade é fluida e está em constante evolução. Somos seres em processo, e a nossa essência pode ser moldada pelas nossas experiências, relacionamentos e escolhas ao longo da vida.

- Ligação com o universo: Essa "coisa" sem nome dentro de nós pode ser vista também como uma conexão com algo maior, com a totalidade do universo ou com uma dimensão espiritual, com Deus. É uma maneira de reflectir sobre nossa relação com o mundo ao nosso redor e sobre o nosso papel no cosmos.

Em última análise, essa reflexão filosófica convida.nos a mergulhar em questões existenciais profundas e a procurar um maior entendimento de nossa própria natureza e do significado da vida. É um convite para explorar os mistérios do ser humano e de sua conexão com o universo que o cerca. Cada indivíduo pode encontrar significados e interpretações pessoais nessa afirmação, o que torna a reflexão ainda mais rica e diversa.


A.Almeida - 23062022

02/08/2023

Colheita


Na borda daquele caminho, além,

Num terrão que o sol beija todas as manhãs,

Há uma macieira, não sei se plantada por mão ou vento.


Mas, meu Deus, como sabe tão bem,

Quando no fim do Verão colho nela as maçãs,

Em ansiada canseira em dia e hora marcadas p´lo tempo.


Há frutos assim, que se desejam colher,

Como a chegada cansada ao fim de um trilho,

Ou se no ventre  lançada a semente na mulher,

Que germine pura e, no tempo, se colha um filho.


A.Almeida - 25072023

Um mundo ao contrário


Tenho um mundo todo meu, imaginário

Por onde vagueio absorto, dormente;

Tudo nele é estranho, ao contrário:

Nasce-se da terra, morre-se no ventre.


É de nuvens macias a casa onde moro,

Os regatos e os rios nascem no mar,

As fontes são olhos em eterno choro,

As flores têm lábios e sabem beijar.


Mas nesse mundo estranho, imperfeito,

Vives a meu lado nessa igual desarmonia,

A envolver-me como amante em seu leito 

À luz do sol, porque o luar só nasce de dia.


Tenho um mundo só meu, imaginário,

Por onde corro livre, sem destino;

Sou actor de uma peça sem cenário,

Onde nasci velho e morrerei menino.


A.Almeida - 01082023

01/08/2023

Uma imagem que precisa de mil palavras


É da gíria dizer-se que uma imagem vale por mil palavras, mas nem sempre a imagem só por si é reveladora de tudo quanto possa dizer. Nem sempre tem a objectividade óbvia, a leitura clara e por isso importa que o texto, as palavras, complementem tanto o que os olhos veem como o que está para além dela.

Uma imagem pode mostrar, por exemplo, um simples caminho, com pedras gastas pelo tempo e para muitos olhares não passará disso mesmo, um trecho incaracterístico já gasto por passos e rodados de outros tempos, agora pouco percorrido, desinteressante e mais ou menos similar a muitos outros. Mas as palavras podem acrescentar que é um trecho de uma milenar calçada romana, das muitas realizadas por todo o império e que ligavam cidades, províncias e regiões, da Hispânia, Gália e Britannia a Roma, segundo técnicas de construção que permitiram que chegassem sólidas aos nossos dias, quando, obviamente, não destruídas pela voragem dos tempos modernos e pela indiferença e indistinção dos valores do património histórico e cultural.

Mas adiante, porque a imagem que ilustra este artigo nada tem a ver com romanos, suas estradas ou outras façanhas de engenharia. Mas, como um caminho, ainda que metaforicamente, a imagem com a casa e o espaço onde se ergue, conduzem a outros tempos e lugares, a pessoas e a momentos, unicos e singulares.

Para quem não conhece, esta casa ali nas traseiras da capela do Viso, foi de meu bisavô paterno, Raimundo Almeida, depois de seu filho Joaquim, meu avô, que a ampliou e que já pelo fim da sua vida a transmitiu a alguns dos seus filhos, uma parte das quais a meu pai. Por conseguinte, pertence por herança e por aquisição de algumas das partes a alguns dos irmãos, a meus pais, e ainda uma parte inferior a primos. 

Pela sua antiguidade, pelas vicissitudes e efeitos de desgaste do tempo, bem como ainda por não pertencer todo o edifício a uma só propriedade, por conseguinte com os obstáculos inerentes a um edifício que é de todos e de ninguém, certo é que se tem acentuado o seu desgaste e por isso está hoje em dia com um aspecto triste e decadente, de resto como tantas outras similares construções, espalhadas pelo nosso concelho como por outros, nem sempre, ou nunca, protegidas no seu valor arquitectónico pelos organismos e instrumentos de gestão territorial, ficando assim entregues às garras do tempo e de outras vontades urbanísticas. No fundo são, em muito, umas ilustres casas de Ramires, testemunhando a decadência de homens e seus tempos, porque o tempo e as suas mudanças não se compadecem com lirismos de nobres tempos antigos e dos seus vetustos valores. O progresso e o vendaval das suas mudanças trouxeram igualmente rupturas e decadência porque quase sempre num barco a navegar sem homens ao leme.

Em grande parte, estas casas ditas de lavrador eram os solares de gente abastada mas que vivia essencialmente do seu trabalho e da vida ligada ao campo, à floresta e aos animais. Gente que no geral não nascia já rica por desígnio maior, mas que se fazia a si própria com muito sacrifício, trabalho e esforço. Por conseguinte, são estas casas uma espécie de solares minhotos ou beirões, bem mais modestos, sem brasão no cimo do portão da entrada, porque não foram erigidas sobre dinheiro de emigrantes fazendeiros arrancado lá pelos brasis, ou de condes, viscondes ou morgados, ou de qualquer outro título de nobreza de fachada, tantas vezes cimentada à custa do suor dos demais que os serviam a preço de uma côdea e água por jeira. Ainda por um oportunismo avaro da ignorância inocente de gente mal remediada. Sempre foi assim porque "em terra de cegos quem tinha um olho era rei". 

Não faltam, pois, por aí e mesmo por aqui, histórias de gente e famílias que foram salteadas em cartórios, porque quem sabia ler e escrever redigia contratos e escrituras que eram assinadas literalmente de cruz. Surripiar à luz de contratos ardilosos várzeas e soutos a gente boa mas iletrada, era como roubar doces a bébés. Assim se consolidaram fortunas, ampliaram tapadas e largas ribeiras, ao abrigo do resgate por incumprimento tantas vezes falhado, não por falta de palavra, que era lei e honra, mas por ratoeiras e estratagemas de clérigos e doutores.

Mas adiante, porque ali por aquela casa do Ti Jaquim do Viso sempre morou gente, não tica mas remediada e sobretudo honrada, e não fosse assim, o património de terras ao luar seria imensuravelmente superior. Ainda sobrou um bom naco e feita a partilha ainda em vida, cada um dos muitos filhos pôde herdar um bom quinhão composto de leiras, campos e matos, porque dinheiro vivo esse era raro, mesmo em casa dos mais abastados lavradores. Pena que apenas alcondorados em montes íngremes e ribeiras apertadas, longe das ruas que ladeiam o casario e que o progresso urbanístico valoriza. Servem agora para pasto de chamas e alfobres de giestas e tojo. E nem o raio da auto-estrada ali passou para serem expropriadas a preço de ouro. Por ali até o diabo perderia as sandálias.

Todavia, em rigor não é principal propósito deste texto falar da casa em si, embora naturalmente me entristeça assistir à sua decrepitude num misto de naturalidade e impotência. Acima de tudo,  pela sua proximidade, porque ali à sombra da capela de Nossa Senhora da Boa Fortuna e Santo António, quero realçar a relação da casa com o nossa festa do Viso. 

Tanto a capela como a parte mais antiga da casa serão mais ou menos contemporâneas, por isso construídas ali pelo ano de 1869 onde naquele monte nascia apenas carqueja, esteva e alguns sobreiros. Por conseguinte, a casa e a gente que nela foi habitando, em diferentes tempos e gerações, assistiram a muitas festas, a momentos de devoção, de partilha e diversão. Gente que trabalhava no campo mas que naquele dia, no primeiro Domingo do estival Agosto, celebrava a vida na abundância de uma pipa de vinho aberta e do sacrifício de um porco ou galo subtraídos ao aido ou à capoeira. Ainda e principalmente a celebração da fé e a sua religiosidade na figura e invocação materna de Maria, sob o título de Nossa Senhora da Boa Fortuna. Também a Santo António porque por esses tempos o gado e os animais tinham valor de gente e o lisboeta que morreu francsicano em Pádua era o seguro a quem se recorria. Não surpreende que por ele e na exaltação das suas virtudes ali no púlpito da capela, em dias de festa, se tenham proclamado inflamados sermões por abades mestres da oratória, principalmente em tempos em que a importância de chamar um afamado pregador tinha a mesma que agora contratar um Quim Barreiros ou outro que tal.

Havia foguetes, bandas de música, como sardinhas em lata aninhadas em pequenos e coloridos coretos; tascas a aviar vinho e iscas de bacalhau. Na própria casa funcionou durante muitos anos uma mercearia e taberna que nesses dias de festa eram uma roda viva de forasteiros com o balcão repleto de copos de quarteirão inundados de vinho a empurrar azeitonas, iscas e pataniscas; havia à volta da capela tendas onde se vendia fruta e sobretudo melão que grupos de rapazes e namorados compravam a partilhavam em doces talhadas ali à sombra do velho sobreiro; havia concertinas, harmónicas, violas e bailaricos onde homens e mulheres, rapazes e raparigas ganhavam ali o direito e permissão para se enlaçarem ao ritmo de um vira ou malhão.

Chegava gente com promessas a cumprir, da nossa terra mas também das aldeias vizinhas, de Louredo, do Vale e Romariz, entre outras. Durante muitos anos, ainda criançola, habituei-me a ver ali as mesmas pessoas que depois da missa estendiam a toalha à sombra do sobreiro ou das austrálias e a cesta de verga paria coisas boas, como enchidos, doces e fruta.

É claro que com o tempo foram envelhecendo, os romeiros e a casa  avoenga, esta perdendo as suas cores, atapetando-se já o musgo nas paredes e telhado, cumes levantados pelo vento, que no Viso sopra mais alto. Também as pessoas que ali passaram as suas vidas, subindo e descendo escadas, abrindo e encerrando portas e janelas, também, uma a uma, foram partindo e no que diz respeito à festa, senão radicalmente, é pelo menos diferente, mas com coisas e ritmos que permanecem imutáveis tanto hoje como há cem anos, desde logo a fé, a devoção, o amor à terra e às suas coisas. A casa e a capela, como irmãs, já velhinas, permanecem ali, de algum modo imutáveis nos seus alicerces sob a fraga do monte, na sua essência e na sua alma mesmo que desbotadas na cor e com a cal e o saibro a cairem às lascas. 

Pode mudar tudo, porque até as pedras envelhecem, mas que não se mude nem perca o mais fundamental: a alma, a nossa identidade, o sentido de pertença e o respeito por nós próprios e pelo terrão onde se implantam as nossas mais profundas raízes. Quando estes valores forem desconsiderados e mesmo esquecidos, então, mesmo que não mortos, estaremos irremediavelmente pobres, ocos e escancarados como uma velha casa sem telhado, sem portas e janelas ou se ainda com elas, já empenadas e sem gonzos. 

Há imagens que precisam de mil palavras, mas estas serão sempre escassas e insuficientes na descrição que se queira fazer sobre as visões que apenas estão presentes no mais profundo de cada um de nós.

Esta imagem, pois, para além dela própria, tem muitas outras que mesmo que invisíveis são bem mais indeléveis porque profundas.

Momentos marcantes...

Não sendo, para o caso, importante a identificação, fica aqui, no entanto, o agradecimento das jovens peregrinas alemãs de origem vietnamita, acolhidas cá em casa, em resposta ao também nosso agradecimento e despedida na expectativa de que a sua experiencia entre nós pudesse ter sido plenamente enriquecedora:

"Américo e Preciosa, nós é que devemos agradecer a vocês.

Por concordarem em nos receber sem nem mesmo saberem quem viria, por nos acolherem de braços abertos e permitirem que conhecêssemos seus amigos e familiares.

Foi fascinante aprender, comer e celebrar a cultura. É muito diferente do que estamos acostumados, mas ainda assim conseguimos aproveitar tudo graças a você.

Tivemos um ótimo tempo e esperamos visitar Portugal novamente no futuro. Seria maravilhoso nos vermos novamente.

Do nosso lado, se você algum dia quiser visitar a Alemanha, nós te receberemos de braços abertos.

Devido à nossa herança vietnamita, você também teria a oportunidade de conhecer duas culturas diferentes enquanto estiver lá, então se você quiser fazer a viagem, com certeza valerá a pena.

Mais uma vez, obrigado por nos proporcionar um lugar para descansar e recarregar as energias, por nos dar a oportunidade de conhecer e aprender sobre sua cultura.

Foi realmente uma experiência única na vida. Obrigado.

Desejamos e rezamos por sua saúde, que os momentos felizes sejam sempre longos e os momentos difíceis sejam curtos."


Em resumo, creio que este agradecimento é sincero e revelador da importância que as pré-jornadas da JMJ 2023, nomeadamente os momentos vividos com as famílias de acolhimento, tiveram para os jovens envolvidos. 

Creio ser importante este testemunho, que certamente não será diferente do de qualquer um dos mais de 100 jovens que passaram pela nossa comunidade inter-paroquial, e quiçá os que estiveram espalhados por todo o nosso país e regiões autónomas, e que em muito ajuda a perceber o que de positivo se revelou para ambas as partes, mesmo que, conforme já por aqui escrevi em jeito de resumo,  tivesse sido possível fazer diferente.

Questionário para frequentadores de festas de aldeia

Um estudo de mercado é uma pesquisa sistemática e detalhada que tem como objetivo analisar e compreender o ambiente e as condições em que um determinado produto, serviço ou ideia será comercializado. Ele é realizado para obter informações relevantes sobre o mercado-alvo, os consumidores, os concorrentes, as tendências, as oportunidades e os desafios que possam afetar o negócio em questão. Essa análise é fundamental para auxiliar na tomada de decisões estratégicas de empresas, empreendedores e instituições governamentais e até mesmo uma Comissão de Festas.

Assim, importará, talvez, a quem organiza uma festa de aldeia saber o pensamento da maioria dos potenciais visitantes. Daí e com esse propósito poderá ser feito um questionário junto das populações para apalpar o pulso à coisa e para em face dos resultados ser possível tomar as melhores decisões e assim garantir o êxito da mesma coisa.

Fica, pois, de seguida, uma versão de um questionário possível, com apenas 15 questões de resposta múltipla para não se perder muito tempo a responder:


Questionário para frequentadores de festas de aldeia


1 - Costuma ir à festa anual das aldeias?

A - Sim! Eu vou a todas!

B - Mas ainda se fazem? É dinheiro fodido à toa!

C - Não! Prefiro ficar no sofá a ver a CMTV ou a Fanny.

D - Vou, mas contrariado, só porque a mulher/marido obriga.


2 - Quando vai, entre primeiro na capela ou igreja para rezar aos santos?

A - Primeiro vou à tasca mamar uma bejeca.

B - Vou sempre. Rezo uma oração e depois siga a diversão.

C - Não sei rezar, mas vou ver as flores dos andores. Tão bonitas!

D - Vou rezar, mas não ajuda quando lá fora o Quim Barreiros canta o "Chupa Teresa"


3 - Gosta mais de cantores pimba ou bandas de baile?

A- Gosto mais das bailarinas.

B- O que vier morre.

C- Gosto mais da Cuca Roseta. Aquele traseiro...

D- Prefiro os "Irmãos Leais"


4 - Gosta mais de ficar a assistir ou dançar?

A- Gosto de ficar sentado a ver a banda.

B- Festa sem dança não presta.

C- Eu é mais tasca.

D- Fico só a ver o ambiente e as cenas.


5 - Se fosse parte da Comissão de Festas, como é que gastaria o dinheiro?

A- Primeiro fazia obras na capela/igreja. O que sobrasse era para a festa.

B- Estourava-o todo em foguetes.

C- Contratava os Rolling Stones.

D- Contratava o Padre Borga.


6 - Acha importante que uma festa de aldeia tenha uma Banda Filarmónica?

A - Acho que não pode faltar, pois faz parte da tradição.

B - Dispenso! É sempre a mesma coisa e sempre a mesma banda. Pó. pó, pó, pó!.

C - Se não tiver banda não dou os meus 5 euros de oferta.

D - Adoro! A missa e a procissão solene não seriam a mesma coisa sem a banda.


7 - Se fosse da Comissão de Festas, quem contrataria entre estes 3 artistas, o José Malhoa, o Quim Barreiros e a Mónica Sintra?

A - Nem uns nem outros, antes pelo contrário.

B - Preferia o pequeno Saúl, mas ele agora está grande.

C - Você faz cada pergunta difícil...contratava os 4!

D - Se a Junta de Freguesia e o Mestre da Cor ajudassem contratava os 5 e ainda o Augusto Canário, a bomba da Ana Malhoa e ainda os 3 Carreiras.


8 - O que é que mais aprecia numa procissão solene numa festa de aldeia?

A - Os andores, tão bonitos com flores, lenha de poda, casca de palmeiras e rosas azuis.

B - Gosto de ver os homens de calção e sapatilhas a levaram bandeiras e lanternas. Ficam tão bonitos com aquelas opas vermelhas.

C - Gosto de ver as criancinhas mascaradas de três pastorinhos.

D - Gosto de ver a Banda a passar a tocar a marcha da "Transfiguração" a respirar o incenso.


9 - Costuma participar na missa solene?

A - Raras vezes, pois são sempre em cima do meio dia. Deviam ser pelas 8 horas da matina.

B - Não posso falhar. É o momento mais significativo da festa.

C - Gosto de ouvir o pregador a pregar a pregação.

D - Vou, pois gosto daquele ambiente solene com muita fumarada de incenso e foguetes a Santos. Até me vêm as lágrimas aos olhos.


10 - Costuma pagar a sua oferta à festa antes ou no dia da mesma?

A - Sou muito esquecido pelo que pago quando é feito o peditório.

B - Pago mesmo na última hora. É tradição da casa.

C - Pago só depois de ver se a coisa correu bem.

D - Se puder faço-me esquecido e não apareço para pagar, pois se o dinheiro sobrar eles já não vêm chatear.


11 - Se houver saldo positivo como deve ser aplicado?

A - Todo para o padre.

B - Deve ser gasto na conservação da capela/igreja.

C - A Comissão de Festas deve fazer uma jantarada com marisco e leitão, pois merecem.

D - Deve ser passado para a Comissão do próximo ano na condição de ser aplicado em foguetes.


12 - Na missa e procissão solenes é importante convidar pessoal da Junta e da Câmara?

A - Os da Junta vêm quase sempre a não ser quando vão para o Algarve. Já da Câmara, depende da importância eleitoral da terrinha. Mas é importante porque o respeitinho é muito bonito.

B - Não ligo a isso. Aos olhos de Deus somos todos servos inúteis.Por mim nem me incomodava a convidá-los.

C - É importante, pois são gente importante, e fico sentido quando o presidente da Câmara vai à freguesia vizinha e põe fotografias no Facebook e não vem à nossa. Lá de casa, são menos 5 votos.

D - Acho que não! No fundo é só protocolo e  é tudo uma feira de vaidades. Preferia que viesse o presidente da Confraria do Chouriço Bem Cheio.


13 - No geral o que mais gosta na festa da aldeia, a parte religiosa ou a profana.

A - A parte religiosa deve ser sempre a mais importante.

B - Por mim acabava-se com a parte religiosa. Só pimbas e comediantes a dizer asneirolas.

C - Deve haver um equilíbrio pois há lugar para ambas.

D - Já não há respeito pela parte religiosa. O povo quer é farra e comes e bebes. Uma vergonha!


14 - Acha que a Viagem Medieval prejudica as festas de aldeia quando coincidem?

A - Claro que sim. Mas o que é que se há-de fazer? Acha que isso os incomoda?

B - Não! Não faz mossa e que me importa a mim que vão para lá pagar cerveja a preço de Barca Velha, comer  sandes de porco a preço de Filé Mignon e tremoços como se fossem camarões?

C - Não aquece nem arrefece. De resto quanto mais gente mais pó e cheiro a suor e a mijo.

D - Por mim troco a nossa festa pela Viagem Medieval. Por mim aquilo duraria 13 meses por ano.


15 - Finalmente, uma só palavra que defina as nossas festas de aldeia?

A - Lindas!

B - Tradição!

C - Vaidades!

D - Pró ano há mais! (desculpe mas só sei contar até dois).

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