31/12/2021
Grande Encontro da Juventude - Abril de 1963
Nos dias 20 e 21 de Abril de 1963 realizou-se em Lisboa, com a concentração a ter lugar no Estádio do Restelo, em Belém, a I Assembleia de Dirigentes de Organismos Católicos, que ficou conhecida como “Grande Encontro da Juventude”, realizado sob o lema «Os novos escolhem Deus».
Segundo as noticias da época, o encontro “serviria para despertar nos jovens o significado e as exigências da vida cristã através duma consciencialização progressiva da mensagem do evangelho” (in Notícias de Campelo, nº 11, de 02/1963)
Segundo relato de um dos participantes, o meu primo Zé Almeida, de Fornos, a paróquia de Guisande também se fez representar, indo a Lisboa com um autocarro com vários jovens da freguesia. O próprio facultou o guião do encontro, cuja capa acima reproduzimos. O guião é isso mesmo, com vários textos de abertura e reflexão, o programa, uma via-sacra, vários cânticos e orações e ainda as letras e músicas de hinos do encontro, do adeus e da Acção Católica.
| Foto: Isabel Caeiro |
| Extracto do Jornal "Chama" do Liceu da Covilhã, de 15 de Abril de 1963, antevendo a realização do Grande Encontro da Juventude |
| Extracto do jornal "Notícias de Campelo", de Fevereiro de 1963, também antevendo o encontro |
30/12/2021
O velho Monte
Olha lá o velho monte,
como agora, então bonito,
e nele, bem assente,
linda e simples, a capela.
Não tinha, então, fonte,
nem calçada de granito,
mas crianças e mais gente
à fresca sombra dela.
Juventude Agrária Católica Feminina
Na paróquia de S. Mamede de Guisande existiu noutros tempos um núcleo da JAC/F - Juventude Agrária Católica Feminina, do qual acima reproduzimos a sua bandeira. Não temos, por ora, dados que indiquem quanto tempo durou na freguesia e de quantas mulheres nela participaram, mas, por testemunhos vários, é sabido que teve alguma importância no contexto da paróquia.
Para entender a origem, o fundamento e os objectivos de tal grupo, e outros derivados do movimento mãe da ACP - Acção Católica Portuguesa, importará ler o texto abaixo:
A 10 de novembro de 1933, o Papa Pio XI endereça uma carta ao Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, intitulada «Ex Officiosis Litteris». Menciona que a Acção Católica é a forma mais eficaz de apostolado laical, conforme as necessidades dos tempos. Naquela época, a Igreja portuguesa estava inserida numa sociedade descristianizada, devido ao laicismo e à indiferença religiosa. A Igreja atravessava um momento em que os católicos estavam divididos, que se traduzia numa ausência de intervenção da Igreja na sociedade. A proposta da Acção Católica visava criar um agrupamento de leigos católicos, o qual tornaria a Igreja mais visível. Era este o objetivo assumido pela Acção Católica Portuguesa, a que o Papa Pio XI se referia. Esta organização do apostolado laical formaria os seus militantes, levando-os à ação na família, na sociedade e na vida pública.
A autonomia do pensamento religioso, isto é, a garantia da «presença autónoma da Igreja no mundo moderno», marca o século XX português. Como garantia da autonomia de pensamento, bem como da ação da Igreja, são conjugados diversos meios: a atividade pastoral, a catequese e o ensino da religião nas escolas, bem como o desenvolvimento do associativismo católico. É aqui que a Acção Católica Portuguesa tem lugar, sendo também auxílio na relação da Igreja com o Estado Novo, conferindo ao catolicismo um novo peso na sociedade.
A criação da Acção Católica Portuguesa teve um papel decisivo, que levou os leigos a assumir a ação da Igreja na sociedade. Assim, combateu a tentativa totalitarista do Estado moderno, e iniciou a mobilização e organização dos católicos, tendo em vista a restauração cristã na sociedade. Para aquela restauração, e para que a Acção Católica chegasse a todos, esta organizou-se segundo o sexo, a idade e a profissão, criando assim uma diversidade de especializações.
A Acção Católica agrupou-se em quatro grandes organizações: Liga dos Homens da Acção Católica (LHAC); Liga das Mulheres da Acção Católica (LMAC); Juventude Católica (JC) e Juventude Católica Feminina (JCF). Cada uma delas tinha uma Direção Nacional, sendo todas elas dependentes da Junta Central da Acção Católica, que era o órgão de direção superior. Dentro das quatro organizações mencionadas, surgiram organismos especializados, conforme os cinco setores sociais: agrário, escolar, independente, operário e universitário. Assim surgiram as siglas:
JAC/F (Juventude Agrária Católica/Feminina)
JEC/F (Juventude de Estudantes Católica/Feminina)
JIC/F (Juventude Independente Católica/Feminina)
JOC/F (Juventude Operária Católica/Feminina)
JUC/F (Juventude Universitária Católica/Feminina)
LAC/F (Liga Agrária Católica/Feminina)
LEC/F (Liga de Educadores Católicos/Feminina)
LIC/F (Liga Independente Católica/Feminina)
LOC/F (Liga Operária Católica/Feminina)
LUC/F (Liga Universitária Católica/Feminina)
Cada um dos vinte organismos, contando com a divisão entre masculino e feminino, tinha uma Direção Nacional, por sua vez submetida à respetiva organização federativa. A Acção Católica congregava então vinte estruturas autónomas, tendo cada uma a sua organização nacional, diocesana e paroquial, havendo também outros serviços associados. À semelhança da estrutura nacional, a nível diocesano e paroquial existia uma Junta Central diocesana e paroquial, sendo que os organismos se articulavam entre si. Este tipo de organização visava abarcar a totalidade das iniciativas e organizações de leigos, garantindo uma ação eficaz na diversidade de grupos e meios da sociedade. Esta unidade transmitia a preocupação da vivência em conjunto da Acção Católica, como testemunhava o lema da Acção Católica Portuguesa: «Cor unum et anima una».
[fonte: Joana Veigas - A receção do Concílio Vaticano II em Portugal]
28/12/2021
Tradição com grelos
Não é caso único, mas manda a tradição em Guisande que a consoada oficial de Natal seja no próprio dia 25 de Dezembro.
Assim, no dia 24, algumas famílias têm outras tradições, nomeadamente na alternância de local.
No meu caso, pela parte dos sogros, a tradição manda que seja preparada uma ceia de bons rojões, tão caseiros quanto possível, acompanhados com batatas e grelos. A regar, azeite simples ou em molho com cebola ou ainda a própria gordura da confecção dos rojões. E alho picado, pois claro.
Nada de sofisticado nem de gourmet, mas sempre um prato bem regional.
Festa Diocesana da Infância
Noutros tempos a Diocese do Porto realizava a nível diocesano a Festa da Infância, organizada pelo Secretariado Diocesano da Educação Cristã. Assim, de cada paróquia participavam crianças que frequentavam as diferentes quatro classes de Catequese. O impresso acima refere-se à participação das crianças da paróquia de S. Mamede de Guisande no ano de 1961, que teve lugar no Palácio de Cristal, na cidade do Porto, a 30 de Abril desse ano.
O então pároco Pe. Francisco inscreveu 36 crianças das diferentes classes,logo a abrir com o Jorge Silva Ferreira, presumindo-se que tenham participado todas.
Uma das premissas da participação era de que as crianças tivessem registo de bom comportamento e sem faltas às aulas de Catequese. Para as crianças que se distinguiam na Catequese eram atribuidos prémios, que mais não fosse, uma espécie de Diploma, conforme o abaixo reproduzido, nesse ano atribuído ao menino Manuel Bastos Monteiro, da 2ª Classe.
A festa, para além da parte religiosa, certamente com uma celebração, englobava uma parte recreativa com a exibição de vários números ensaiados pelas crianças, como representação teatral, danças e cantares regionais, etc. A ter em conta uma das reportagens do evento, a coisa era bastante participada e apreciada tanto pelos adultos como pelas próprias crinaças.
Pessoalmente, um pouco mais novo, não tenho memória de ter participado numa dessas festas, não porque fosse mal comportado ou com faltas, mas ou porque não se voltaram a realizar ou porque a paróquia não participou, uma vez que tal englobava custos com o transporte.
Não sei se com os mesmos objectivos, certamente que não, até porque os tempos são outros, mas a participação de crianças da Catequese num evento algo parecido acontece agora anualmente no Santuário em Fátima, na forma de peregrinação, habitualmente no dia 10 de Junho.
Apesar da simplicidade do assunto, não deixa de ter alguma importância o documento acima até porque identifica algumas das crianças que por essa data frequentavam a Catequese.
27/12/2021
No admirável mundo do à borlix
A imprensa escrita queixa-se da perda de leitores e a sua integração no digital online parece não ter resolvido a situação, ou pelo menos disso continuam a lamentar-se. Certo é que se no formato tradicional em papel não há muito a fazer, porque há muito que os hábitos de leitura dos portugueses andam pelas ruas da amargura, também no online as coisas não são apelativas. No geral o que é oferecido é publicidade, insistente e persistente, quase numa forma agressiva, e no fundo pouco oferecem, apenas títulos ou resumos para conteúdos premium que precisam ser pagos para poderem ser lidos. Ou seja, neste momento, os lucros publicitários serão superiores ao que é oferecido. Pelo menos é essa a percepção.
Por outro lado, ainda em 2020, um grupo de vinte directores dos principais títulos da impensa escrita em Portugal apelava aos leitores para comprarem jornais em papel ou os assinaram nas plataformas digitais como premissa para apoiar um jornalismo de qualidade e assim combater a pirataria e a falsa imprensa. Certamente que o apelo caiu na indiferença.
Certo é que a qualidade dos jornais em geral é fraca, muitos deles tendenciosos e a voz dos donos dos seus grupos editoriais e posicionamento político e ideológico ou mesmo clubista no caso dos desportivos.
Em resumo, tal como tem estado, a imprensa, não só a escrita como a televisiva, também não está a merecer muito mais apoio e interesse. Ainda quanto às edições electrónicas dos jornais, sendo obviamente mais baratas do que na versão papel, no geral ainda são caras porque ainda com bastante publicidade, com valores entre 50 a 100 euros anual. Talvez com valores mais em conta poder-se-ía captar mais leitores assinantes. Mesmo assim, sou assinante de dois títulos, um regional e outro local, mas pergunto-me se não serei um dos poucos casos raros? Já agora, em Guisande, quantos assinantes de jornais teremos? Será difícil responder?
Para além de tudo o mais, a imprensa esbarra-se com outro muro que é o do oportunismo geral, em que ninguém quer pagar seja o que for, dando como adquirido que tudo o que está na net online é de borla. Assim, pagar um serviço, um software, um jornal, um conteúdo artístico, é coisa rara. É estrutural mas é cultural.
Por exemplo, tenho em funcionamento e sou administrador de um fórum sobre um determinado tema em que já vai a caminho dos 20 mil utilizadores. Há tempos abri a hipótese dos mesmos utilizadores poderem dar um contributo, via PayPal, para ajuda dos custos de manutenção(domínio, alojamento e software), que poderia obviamente ser de qualquer valor, msmo que simbólico. Pois bem, durante um ano em que esteve aberta essa oportunidade, apenas um único utilizador contribuíu com 3 euros. Os restantes milhares não se mostraram sensíveis continuando por isso a usufruir de um serviço completamente grátis e que serve os seus propósitos para a finalidade a que se dedica o fórum.
Em resumo, no geral o espírito do portuga é esse mesmo, o de oportunista, o de usufruir de qualquer coisa, desde a mais banal à mais útil e interessante, mas completamente à borlix e, quantas vezes, ainda a reclamar. Mesmo dando como adquirido que no geral todos nós acabamos por baixar e instalar conteúdos sem os pagar, sejam programas, música e outros conteúdos artísticos, mas, porra, pelo menos que alguma coisa paguemos.
A beleza...
A verdadeira beleza não se exibe,
não se mostra em poses,
não se anuncia com rótulos, frases feitas e lugares comuns.
A verdadeira beleza é simples mas não simplória.
É discreta, quase envergonhada.
Pode estar numa flor na borda de um caminho,
numa pedra vestindo musgo, numa descolorida ave cinzenta.
A verdadeira beleza é aquela
que os teus olhos vislumbram e não a que exibes numa vaidade vazia.
A verdadeira beleza
não veste seda nem cetim nem se cinge de veludo, mas talvez num aconchego de tojo.
26/12/2021
Nuvens negras
Há dias, alguém que prezo e estimo, um guisandense ausente mas presente, e que vai seguindo os meus apontamentos sobre algumas coisas relacionadas à freguesia e paróquia, manifestava-me o seu agrado pelos mesmos, e que os acompanha interessado, porque mais do que memórias trazidas à tona do dia, são elementos que guardam um pouco do que é a nossa história comum. E rematava dizendo que entendia que estas coisas deviam ser mais divulgadas e consideradas.
Em resposta, e agradecendo o interesse, ressalvei que porventura a coisa não mereceria tanta atenção. De resto nem o faço para colher bênçãos mas antes para ficar como um simples registo escrito para memória futura e até porque um dia destes alguns desses apontamentos irão para livro. Mas no essencial tenho noção que estas coisas pouco ou nada interessam à generalidade das pessoas. Quando muito a meia dúzia.
Quando alguém sai a caminhar com o céu carregado com nuvens escuras e a ventar, não pode ter a expectativa de que não vai chover e que o sol vai aparecer sorridente. As coisas são como são. Se vires um animal a caminhar como uma galinha, a cacarejar como uma galinha e a pôr ovos, então o mais certo é que seja mesmo uma galinha.
No fundo a freguesia é pequena e cada vez mais, porque esta história das uniões de freguesias, paradoxalmente só veio contribuir para uma desagregação, e nela escasseiam as pessoas com sensibilidade cultural e de amor à terra suficientes para apreciar e valorizar o que por ela se vai fazendo. E dessas poucas, algumas não passam de polícias sempre de bastão levantado, invejosas, com comichão por quem lhes faça sombra ou as incomode nas suas vaidadezinhas. Mas a maioria será mesmo completamente insensível a estas coisas e a freguesia será apenas uma coisa em abstracto, nela apenas exercendo o papel de cidadãos anónimos, sem qualquer tipo de intervenção. Ou seja, daqueles que não levantam uma palheira a favor do todo comunitário.
Neste panorama, seja em que vertente for da nossa comunidade, nunca se pode esperar muito. Vamos, pois, indo e vendo, mesmo a remar contra correntes, e fazer de conta que ainda estamos nos bons velhos tempos em que mesmo com as naturais diferenças, se remava para o mesmo lado e o sentido de comunidade e freguesia era muito vivo.
Bons velhos tempos que já não voltam, ande-se por onde andar..
25/12/2021
Feliz Natal!
Pequena, minha aldeia,
Luz serena na candeia
Que no lar doce habita;
Que Deus bem te proteja,
Bendito e Louvado seja
Por graça tão infinita.
Humilde mas honrada,
Com gente tão dedicada
De coração tão grande;
Nesta noite de consoada,
Com mesa abençoada,
Feliz Natal, Guisande!
24/12/2021
O Natal já não é o que era...
O Natal já não é o que era! Dizemos muitas vezes. Não será bem assim, mas haverá alguma verdade. Desde logo porque necessariamente os tempos nunca são os mesmos, mesmo que nem sempre o avançar deles signifique evolução.
Depois, quer se queira ou não, há diferentes percepções do Natal e do seu espírito. Ora a percepção dos mais velhos não é de todo igual às dos mais novos. Estes porque em regra crescerem num contexto de facilidades e abundância, nada lhes faltando, aqueles porque um pouco ou tudo ao contrário. Hoje os mais novos não sentirão a diferença de comer rabanadas, chocolates, aletria, bolo-rei, etc, porque os têm e comem durante todo o ano. Quando muito farão uma cara feia como a uma sopa de nabos. Já os mais velhos sabem que noutros tempos essas coisas eram mesmo só pelo Natal e nunca à fartazana, daí o sentido e percepção do sabor das coisas, tanto na boca como na alma.
Mas adiante. Hoje em dia, de facto, o Natal é muita coisa e coisa nenhuma, porque já pouco do essencial e do que ao longo dos séculos lhe deu substância. É verdade que o espírito de comunhão em família ainda se mantém, bem-haja, mesmo que o conceito de família esteja já a ser subvertido, mas no geral é puramente comercial e consumista. Da componente tradicional e religiosa já pouco resta. Uma larga maioria, mesmo num país dito católico, celebra o Natal sem celebrar o seu motivo nem passar pela igreja. - Coisas de velhos!
Depois é tudo muito rápido e fácil. Já muitos começam a consoar num restaurante chique e a ostracizar o bacalhau, por coisas mais à chef, e daí esta pandemia estar a ser uma chatice do caraças. Não se cozinha, e tudo já se compra feito e pronto. Não se descascam as batatas, as nozes nem os amendoins, sequer. Já não se fatia presunto ou queijo. Compram-se as “tábuas de festa”. Tudo pronto a consumir.
É esse o espírito e o comércio faz questão de no-lo lembrar com a devida antecedência, quando por meados de Outubro já apanhámos com o velhote da Coca-Cola, as marcas do perfume com as gajas boas, as operadores de telecomunicações a dizerem-nos que o que está a dar é o 5G, as marcas de relógios a mostrarem joias como se fôssemos todos Cristianos Ronaldos, os amigos do Sócrates ou os Rendeiros, e as grandes superfícies engalanadas com pirâmides de Ferreros, árvores de bacalhau e azeite, etc, etc.
O Natal está mesmo a mudar e os fundamentalistas da inclusão até lhe querem dissociar o simbolismo e contexto religioso. Ora, para esses, vão-se foder e entalem-se com as trufas! Para os demais, um Feliz e um Santo Natal!
23/12/2021
22/12/2021
Pe. Manuel Francisco de Sá
Do muito que representou para Fiães, pela sua dedicação, destaca-se a importante monografia sobre a terra, de sua autoria e publicada em 1940, cuja capa abaixo se reproduz. De resto, tinha este sacerdote essa vontade e interesse histórico e documental bem vivos pelo que igualmente escreveu e deixou importantes monografias sobre Paramos, que paroquiou, bem como sobre o lugar de Duas Igrejas de Romariz, onde nasceu, numa edição de 1936, a qual em 1968 foi actualizada e acrescentada pelo Pe. José António Ferreira de Castro, a que se refere a capa abaixo.
O fado do pau para toda a colher
O que por aqui vou dizendo e escrevendo, e isto dever ser perfeitamente natural e compreensível, reflecte sempre e apenas a minha opinião e qualquer outra, em concordância ou em contrário, é legítima, concorde-se ou não.
A propósito de alguns recentes eventos de cantoria de fados em espaços de igrejas e capelas cá pela zona, parece-me que o fado não é o tipo musical que mais se adeque à natureza de tais espaços.
Gosto de fado (mais do clássico do que o moderno), aprecio o fado e julgo, sem falsa modéstia, que conheço minimamente a história e evolução deste género musical, para lhe reconhecer um lugar importante na nossa cultura musical, mesmo que de cariz urbano e limitado no espaço, já que essencial e reconhecidamente identificado a Lisboa e com a variante que se reconhece no ambiente académico de Coimbra, mesmo que o fado ligado à cidade do Mondego e ao contexto universitário, tenha, de algum modo, depois seguido a sua própria evolução e de forma independente da do fado lisboeta.
O resto é paisagem, mesmo que o fado hoje em dia se cante por todos os lados e os fadistas ou pseudo-fadistas sejam mais que as mães. De resto, pela sua qualidade e valor enquanto elemento identitário, cultural e imaterial, foi já reconhecido pela UNESCO.
Voltando à questão, apesar dessa qualidade cultural e musical, volto a dizer que não acho que se adeque a ser cantado em espaços de culto religioso. Desde logo porque na sua essência o fado é de origem popular, castiça, vadia e associada à vida boémia da capital, quase subversiva.
O reportório clássico ou mais moderno, continua a focar temas como o amor romântico, sentimental ou carnal, o desamor, o maternalismo, a paisagem urbana e humana de uma certa Lisboa antiga, e naturalmente outros temas mas seguramente não de índole intrinsecamente religioso ou espiritual. Pode-se chamar à equação o conhecido Frei Hermano da Câmara, que em determinada altura deu esse toque mais religioso ao fado, popularizando até a balada de fado de Coimbra “Samaritana”, de autoria de Álvaro Cabral (1865/1918), e mesmo outras figuras, mas no geral foi coisa rara e mais adaptada do que evoluída. De resto, se alguma religiosidade mora no reportório do fado, essa é muito mais notória na variante do fado coimbrão.
Mesmo hoje em dia, se o fado foi de algum modo moldado na sua essência original, tal deve-se a uma certa modelação que foi inevitável durante o longo período de ditadura do Estado Novo onde a este importava um fado mais domesticado e a tocar em valores a ele mais caros, como o de cariz religioso. Portanto o fado num largo período da sua história viveu muito desta ambiguidade.
Não tenho dúvidas que o fado, sobretudo pela sua matriz puramente musical e melódica, nos seus ritmos lentos, compassados e chorosos, até se pode prestar a uma intervenção mais recatada, introspectiva, mas não é seguramente da sua natureza mais genuína.
Não basta, pois, que nos poemas cantados no fado se invoque Jesus, Maria ou José, ou os santinhos das aldeias, as capelas de Santo Estevão, S. Domingos ou outras, para que a coisa se possa considerar ou disfarçar de sacra e litúrgica, embora haja quem pense que sim, como se o fado possa ser pau para toda a colher. Um lobo nunca será cordeiro mesmo que lhe vista a pele.
Há por aí uma tese de doutoramento muito interessante e que aborda este tema da relação do fado com a religião e que pode levar a várias leituras e interpretações. Será o documento, dos que conheço, que melhor aborda e aprofunda esta relação sob um ponto de vista analítico e histórico. Interessante mas que, pela minha parte, não me leva a mudar a opinião quanto à legitimidade contextual de classificar o fado como religioso ou litúrgico. De resto, o fado nem precisa desses atributos e só perderia se assim fosse. Já muito mal se tem feito ao fado dentro do próprio contexto de fado.
Em resumo, e porque aqui não se pretende fazer a história do fado, até porque ela está mais ou menos feita e por quem melhor percebe da poda, volto à opinião inicial de que pessoalmente, apesar da tal ambiguidade de relação do fado com a Igreja e a religião, não acho adequada a sua interpretação em ambientes interiores de espaços de oração. Não que tal me cause surpresa e ou espanto, porque vamos andando num tempo em que a subversão e mistura das coisas é norma corrente, mas apenas porque ainda gosto da velha máxima de que cada coisa no seu lugar, como quem diz, cada macaco no seu galho.
A este propósito, para perceber o enquadramento, e porque também gosto de saber opiniões, pedi informações na Diocese sobre a realização destes eventos. Em resposta, pelo Vigário Geral foi-me esclarecido que para os referidos concertos ocorridos há pouco tempo, não emitiu a Diocese qualquer autorização.
Gostaria de saber um pouco mais, nomeadamente sobre se há orientações superiores para este tipo de eventos e que de algum modo regulamentem e uniformizem o uso dos templos para eventos não religiosos, em todo o território da Diocese, mas por ora ainda não obtive resposta. Aguardo.
Nota de falecimento
Faleceu Diamantina da Silva Santos (a Sr.º Tina da Gândara), de 78 anos (21 de Maio de 1943 a 21 de Dezembro de 2021). Residia no lugar da Gândara, na Rua Nossa Senhora de Fátima, 1745 - Guisande.
O funeral terá lugar amanhã, Quinta-Feira, dia 23 de Dezembro de 2021, pelas 15:30 horas na igreja matriz de Guisande, indo no final a sepultar no cemitério local em jazigo de família.
Matriarca de uma grande família, mulher de luta e mãe dedicada, sempre sorridente, mesmo que as vicissitudes de saúde a limitassem desse há alguns anos. Marcou uma das casas com significado na vivência social e patrimonial da freguesia, a Casa Neves, com o seu marido, o Sr. Alcides Neves, que também já partiu há alguns anos.
Nesta hora de dor e perda, sentidos sentimentos a toda a família, de modo particular a filhos, netos, noras e genros.
Que descanse em paz!
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