19/09/2026

Zé Coelho - Saudade

 

Fosse vivo e estaria neste dia 19 de Setembro de 2026 a celebrar o seu 100.º aniversário. Mas já partiu, há quatro anos, em 31 de Maio de 2022.

Não estando cá fisicamente, vive espiritualmente entre nós e por isso, de novo o trago aqui em memória.

Apesar de uma relação de amizade um pouco tardia, foram, ainda assim, muitos anos e muitos momentos partilhados.

O seu espírito aberto e alegre ajudaram em muito à sua sociabilidade na nossa comunidade.

Na missa de hoje, Sábado, hoje teve uma missa em sua memória e intenção. 

Que Deus o tenha junto a si.

Mais um livro pela mão do Carlos Cruz

 







Na passada sexta-feira, 11 de setembro, na freguesia de Lomba, em Gondomar, tive o prazer de participar na sessão de apresentação do livro de poesia "Manuel Moreira – Uma forma poética de viver". A obra foi organizada pelo nosso Carlos Cruz, natural daquela freguesia ribeirinha do Douro.

O livro é composto por poemas de Manuel Moreira, um filho da terra e emigrante reformado, que, através de uma poesia simples, realiza uma viagem ao tempo, aos lugares e ao modo de vida de um povo e de uma terra de que já só os mais velhos guardam memória. De certo modo, trata-se igualmente de uma poesia autobiográfica, uma vez que relata o seu percurso e a sua emigração para França, país onde manteve sempre uma forte ligação a Portugal e às suas raízes, nomeadamente através da dinamização de uma rádio e de um jornal, sendo figura reconhecida na comunidade local e imigrante.

Manuel Moreira foi cofundador do Rancho Folclórico de Santa Eufémia de Pé de Moura, motivo pelo qual fez todo o sentido que a apresentação da obra tivesse lugar na sede do próprio rancho, que esteve cheia. Para além da apresentação, houve lugar a fado e à actuação do rancho folclórico.

O livro foi editado pela Junta de Freguesia da Lomba, numa clara demonstração de apoio aos valores culturais da sua gente e da sua terra. Louvável!

Tal como já tinha sucedido com uma publicação anterior dedicada a outra importante figura da Lomba, Joaquim Viana, aceitei o convite do Carlos Cruz para deixar também a minha assinatura na obra, assumindo a paginação, bem como o design e o grafismo da capa.

18/09/2026

O efeito borboleta

Em todo o lado as há: boas pessoas, excelentes pais, filhos amorosos, avós ternurentos, vizinhos prestáveis. Mas, no geral, para bem de todos, convém que a proximidade e a confiança se resumam a episódicas conversas de circunstância: «Como vai? Passou bem? Saúde lá para casa! Dê cumprimentos à patroa!»

Mais do que isso, as relações nem sempre batem certo e, às tantas, sobrevivem apenas graças a uma boa dose de hipocrisia ou fingimento. 

O cada vez maior número de divórcios mostra que também nos casamentos já não há vínculo, sagrado ou civil, que resista a tanto. As promessas mútuas e juras de amor e fidelidade não passam de banalidades pró-forma e ante-câmara de uma festança à grande e à francesa, onde até os pobres e remediados parecem ricos. Mas tudo assenta no vazio, na falta comum de compromisso, na incapacidade de compreensão, aceitação e, vá lá, algum espírito de sacrifício, seja lá o que isso for.

É assim, de um modo geral, mas de forma mais vincada onde o contexto propicia e implica comunidades ou grupos, como, por exemplo, no contexto das paróquias — esses redutos muito particulares onde nem sempre a bota dos ensinamentos evangélicos bate com a perdigota das ações e dos exemplos.

Por conseguinte, são todas excelentes pessoas, no geral prestáveis e voluntariosas quando toca a rebate, mas transformam-se num verdadeiro saco de gatos assanhados numa luta de egos, temperada com invejazinhas, recados indiretos e coscuvilhices. Todos querem ser o galo do poleiro ou o manda-chuva ou, pelo menos, que para além de preces e hóstias, lhes sejam dispensadas reverências ou, mais prosaicamente, colinho e mimos.

É certo que não é por aí que vem o mal ao mundo, mas ajuda a compreender e a aceitar a teoria do efeito borboleta: o bater de asas desse delicado e inofensivo insecto num canto do mundo que pode muito bem dar corpo a uma valente ventania no outro lado.

Resulta daqui, que quando sentimos o efeito de algumas "tempestades", mesmo caseiras, não será mais que alguma inocente borboleta, algures, a bater as asinhas coloridas.

PDM - Aprovada a versão que esteve em discussão pública


Após um atraso de vários anos (desde 2019) e um período de discussão pública de 180 dias, a versão final do novo Plano Diretor Municipal (PDM) para o território de Santa Maria da Feira foi aprovada por unanimidade em reunião de Câmara realizada a 7 de setembro de 2026. A proposta será agora submetida à Assembleia Municipal, prevendo-se a sua aprovação e posterior publicação em Diário da República para, finalmente, a entrada em vigor.

Impacto e Decisões sobre a Freguesia de Guisande:

A versão submetida a discussão pública, no que respeita ao território de Guisande, revelava-se fortemente penalizadora. Registava-se uma perda notória de solo urbano em comparação com o plano de 2015 em vigor, inclusivamente em áreas servidas por arruamentos centrais. Esta situação constituía um entrave significativo ao crescimento urbano e limitava a oferta de terrenos com capacidade construtiva, prejudicando a contenção do fenómeno de despovoamento e perda de habitantes.

A versão agora aprovada — embora mantendo algumas limitações que se afiguram injustificadas — acolheu contudo uma parte substancial dos pedidos apresentados na discussão pública, mitigando assim o impacto da proposta inicial.

Da análise à tabela de ponderação das participações, conclui-se que foram identificados 20 processos respeitantes a pretensões localizadas na freguesia de Guisande.

O balanço global revela uma maioria de decisões favoráveis. Dos 20 processos registados (que perfazem 24 análises, em virtude do desdobramento de um deles):

9 foram acolhidos;

4 foram acolhidos parcialmente;

5 não foram acolhidos;

1 obteve uma decisão mista, face às seis pretensões integradas (2 acolhidas, 2 parcialmente acolhidas e 2 não acolhidas);

1 foi considerado repetido.

Análise dos Critérios e Condicionantes:

Da leitura detalhada dos processos deferidos, depreende-se que o acolhimento não dependeu exclusivamente da existência prévia de infraestruturas. Verificam-se casos em que o acolhimento ficou sujeito a programação temporal e/ou à existência de compromissos urbanísticos (tais como processos de licenciamento ou pedidos de informação prévia aprovados).

Em termos práticos, tal implica que, findo um determinado prazo (em princípio, de 6 anos), os terrenos classificados como urbanos que não sejam edificados ou dotados das respetivas infraestruturas viárias reverterão para solo rural (agrícola ou florestal, consoante o caso).

Trata-se de uma medida relevante, uma vez que incentiva os proprietários a edificar ou a alienar os seus prédios para construção, evitando a manutenção indefinida dos terrenos como mero activo patrimonial passivo, sem utilidade a curto prazo para o desenvolvimento urbano local.

Conclusões e Perspectivas:

Conclui-se, assim, que a freguesia de Guisande registou uma participação expressiva na discussão pública do PDM, tendo uma parcela significativa das pretensões sido integrada na proposta final.

A maioria das participações partiu de particulares. A Junta de Freguesia submeteu 8 pedidos, dos quais 2 foram acolhidos, 2 acolhidos parcialmente e 3 recusados. Afigura-se que uma actuação mais proactiva por parte da autarquia local poderia ter favorecido o acolhimento de outras situações elegíveis, mesmo na ausência de iniciativa individual dos respetivos proprietários até porque estes, no geral, desinformados ou sem capacidade de iniciativa.

Em todo o caso, mais do que contabilizar o número absoluto de pretensões deferidas ou indeferidas, cumpre aos interessados analisar a localização concreta dessas parcelas, a comparação entre a classificação atual e a proposta, bem como a existência de infraestruturas ou compromissos urbanísticos. Apenas essa avaliação cruzada permitirá aferir com rigor o impacto real da revisão do PDM na freguesia de Guisande.


Os elementos e documentos referentes ao processo podem ser consultados aqui.

17/09/2026

Questões do riso

O riso desbragado nunca foi especialidade do Vitorino. Por naturalidade ou para esconder os dentes e o céu da boca, ri-se, no geral, com ela fechada. Esporadicamente, lá se ri de forma mais descontrolada, nem sempre pela qualidade da anedota, da história contada ou da situação cómica vista, mas mais pelo contágio de alguém que ao lado também se ri.

Aprecia, naturalmente, uma boa anedota, o vigor de um dito perspicaz ou a habilidade refinada com que as pessoas de talento verdadeiro expõem o absurdo do quotidiano. O humor inteligente, como o inglês, agrada-lhe, a par de séries de comédia com qualidade — que, diga-se, cada vez mais escasseiam.

Mais do que alheias, certas manifestações de hilaridade provocam-lhe espanto, ficando sem conseguir entender o motivo de tais ditos ou piadas. Observar alguém a emitir urros, de boca escancarada e cabeça arremessada para trás num sobressalto quase epiléptico, é para ele uma experiência genuinamente desconfortável. Há na gargalhada desmedida uma perda de compostura que se aproxima do grotesco.

Esta aversão à gargalhada performativa é, aliás, uma das razões fundamentais que condiciona e limita a sua relação com a televisão, sobretudo com os programas de entretenimento, daqueles próprios de salas de espera e ocupação de reformados. Para o Vitorino, o ecrã transformou-se num recinto de histeria coletiva onde se ri em demasia e sem critério. A gargalhada no pequeno ecrã deixou de ser uma consequência natural do cómico para se converter num vício, numa forma artificial. Mesmo em programas e assuntos que mereceriam mais seriedade, os apresentadores e intervenientes comportam-se ao nível de criancinhas num jardim de infância.

Vão longe os tempos em que os locutores e apresentadores da nossa televisão sabiam comportar-se, ou, melhor dito, ser profissionais e conscientes da natureza de cada programa. De facto, na televisão contemporânea, a gargalhada opera como uma claque invisível e coerciva que dita ao telespectador o exacto momento em que deve achar graça, rir e aplaudir.

A gargalhada televisiva tornou-se uma obrigação contratual. Já não se procura o riso pela subtileza ou pelo enquadramento do absurdo, mas sim pela repetição mecânica de estímulos ruidosos. Perante este cenário de alegria forçada e gargalhadas estridentes, a atitude mais razoável e preventiva para o Vitorino continua a ser, invariavelmente, desligar o aparelho ou mudar de canal. Por alguns programas, já sabendo o que a casa gasta, nem perde tempo com eles, mesmo que sejam considerados de boas audiências — o que não o surpreende, pois há sempre testos à medida das panelas e chapéus ajustados a cabeças certas.

Mesmo no panorama nacional dos ditos cómicos ou humoristas (tipo Bruno Nogueira, Fernando Rocha, Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques, etc.), no geral acha que não têm piada alguma e recorrem ao desrespeito, à ofensa e ao palavrão fácil para compensar a falta de originalidade ou talento. A liberdade de expressão concede-lhes desculpa e proteção, as televisões e rádios dão-lhes palco e antena, mas, verdade se diga, quase sempre não passam de uns tristes com pretensões a fazer rir, mesmo que não falte quem se ria do mal alheio.

Nunca, como agora, faz tanto sentido para o Vitorino o velho ditado de que "quem tem muito riso tem pouco siso" ou "muito riso, pouco juízo".


[ilustração: adaptação por IA]

16/09/2026

Se o Monhé não vai à Santa Eufémia, a Santa Eufémia vem ao Monhé

 





É tradição pessoal e antiga ir à Santa Eufémia, que anualmente a 15 de Setembro se realiza na freguesia de Paraíso no município de Castelo de Paiva. Reservo, até, um dia de férias. 

Apesar de já não se abater gado no local e vendido em bifes que logo ali se cozinhavam, bem como os forasteiros já trocarem os merendeiros e farnéis pelas barracas de comes-e-bebes, preserva esta romaria ainda muitos traços do antigamente, até pelas características do local, com acessos estreitos, mas em muito já está convertida numa normal festa onde não faltam os vendedores de bujigangas,  banha da cobra, roupas e calçados contrafeitos, doçaria industrial, etc. 

Há muita gente a ir ali comer e beber, em família ou em grupos, mas deles poucos a entrarem na capela a rezar, a agradecer ou a pagar promessas ou, pelo menos, a pedir saúde, apetite e carteira para o próximo ano. A Santa Eufémia e Santa Luzia são preteridas ao Santo Bife. É o que é! É uma festa de gulas. Devoção, já bem menos.

Este ano, porém, por motivos vários mas também por algum cansaço, nem de véspera ou no dia. Fez-se uma pausa.

Apesar disso, com a mesma qualidade, bem mais em preço,  com menos pó e moscas, mais limpeza e higiene na cozinha, sem mesas inclinadas, o tradicional bife de arouquesa frito com cebolada e acompanhado de batata-frita, veio à mesa cá de casa, no dia próprio.

É certo que o local e o contexto (e talvez o pó) parece acrescentarem valor e sabor, mas na realidade, não. E quanto ao preço, estamos conversados: De um modo geral, como diz o povo, ali paga-se couro e cabelo, seja por bifes ou tripas, e não raras vezes abandona-se a barraca com a sensação ou mesmo a certeza de termos sido "roubados". Talvez seja para compensar aqueles que comem e saem sem pagar, mas isso já são outras lendas e histórias, umas verdadeiras, outras acrescentadas.

Grátis? A sério?

[recorte do Jornal de Notícias]

Vamos lá ver, dissecar, como quem desmancha um porco e tripas para um lado e fêveras para outro: Ofertas? Grátis? Mas então serão os senhores presidentes de Câmara a pagar dos seus próprios bolsos? Também os vereadores? E os funcionários que cozinham e levam as refeições à mesa não se cobram dos seus salários? Quem vende os ingredientes, azeite, cebolas, batatas, arroz, massas, carnes, peixes, etc, dispensam-se dos custos e lucros? Oferecem como se fosse um permanente Natal?

Isto é a brincar com as pessoas, com os contribuintes que na realidade pagam estas "gratuitidades", tal como entre outras "prendas", os passes nos transportes públicos e portagens nas auto-estradas. 

Numa linguagem grosseira mas tão sábia, porque da boca do povo, isto de "foder com a piça dos outros" é fácil e até dá votos.

Andamos todos a ser tomados como palpavos e a comer estes eufemismos modernos. Quando o critério deixa de ser o utilizador/pagador, na realidade pagam todos, pelo que usar o termo "grátis" ou "oferta" é tão falso como Judas. 

Certamente devemos atender a situações sociais, devidamente justificadas, mas alargar este conceito a todos, mesmo aos filhos dos senhores doutores e engenheiros, tanto a quem tem rendimentos de 10 mil ou 100 mil anuais parece de todo desproporcionado. Mas, sobretudo, não publicitem que é "grátis". Não nos façam de lorpas.

Grátis deveria ser o IMI, porque corresponde a um imposto estúpido e injusto, uma renda sobre um bem que é nosso,não do Estado ou dos municípios e sobre o qual já  se pagou IVA na construção, juros no crédito bancário, taxas e licenças na Câmara. 

Pobre país, a fazer-se rico!

15/09/2026

Os biscateiros


Há homens que chegam a uma casa como quem chega a uma obra e há homens que chegam como se a casa já lhes pertencesse. São os biscateiros das obras.

Como numa farmácia, têm um pouco de tudo: um kit de ferramentas manuais e eléctricas, uma chave inglesa, uma serra, um serrote, maços e martelos, pás e picaretas, chaves de fendas, sextavadas, de estrela e a certeza, muito mais resistente do que qualquer material de construção, de que tudo sabem fazer. Derrubam velhas paredes e levantam novas, remendam telhados, mexem em fios, desentopem canalizações, pregam tábuas onde falta madeira. Se alguma coisa fica direita, foi porque tiveram mão para aquilo; se fica torta, a culpa é sempre da casa, do tempo, do material, do fornecedor ou de quem mandou fazer.

Ainda assim, quando aparece um trabalho, transformam-se. A voz amacia, as costas dobram-se ligeiramente, surgem os sorrisos e aquela familiaridade instantânea de quem nunca viu o cliente na vida, mas já lhe chama amigo. Tudo se resolve e as sugestões parecem de gente entendida. O preço pode ajustar-se, o prazo não será problema, a dificuldade é nenhuma. “Deixe connosco.” E o homem, que há pouco parecia capaz de demolir uma parede com as próprias mãos, passa a ser a mansidão em pessoa.

O contrato, porém, tantas vezes, tem uma propriedade curiosa: fecha-se a porta e abre-se o verdadeiro negócio.

A partir daí, qualquer reparo é uma afronta de discípulo ao mestre. Uma torneira que pinga não é uma torneira que pinga; é uma acusação de quem nada percebe de vedantes. Uma parede mal rebocada transforma-se numa ofensa pessoal ou efeito da luz. Um assentamento fora de esquadria é falta de óculos. Se o dono da casa ousa perguntar por que razão a janela não fecha, recebe primeiro um olhar de desprezo e depois um vocabulário que dispensaria dicionário. A obra pode ter ficado por acabar, mas a discussão fica sempre concluída: eles têm razão. 

É uma maneira peculiar de exercer a autoridade de certos biscateiros. Porque lhes sobram os clientes, não precisam de argumentos, porque têm o número. Não precisam de competência, porque têm confiança. E, sobretudo, não admitem contraditório, porque confundem facilmente a liberdade de falar com o direito de mandar calar.

Ao fim do dia encontram-se na tasca. A roupa traz ainda o pó da obra ou os borrões da tinta, as botas deixam marcas no chão e os copos tratam de apagar o que resta da diferença entre um homem e os outros. Ali, todos são iguais — sobretudo quando nenhum admite que o outro possa ser melhor.

Entre goles e pancadas no balcão, contam-se histórias de trabalhos que ninguém conseguiria fazer tão bem, de patrões que aprenderam a respeitá-los e de ocasiões em que “puseram cada um no seu lugar”. A conversa vai subindo de tom, como sobe o vinho, até chegar à grande descoberta política da noite: o mundo mudou, os antigos mandões acabaram e agora são eles quem decide.

E dizem-no com uma satisfação quase infantil, como se a democracia tivesse sido inventada naquela mesa para lhes garantir o direito de fazer tudo como lhes apetece.

Talvez seja essa a parte mais engraçada da história. Confundem o povo com o bando, a igualdade com a impunidade e a autoridade com a capacidade de falar mais alto.

Amanhã, se aparecer outra empreitada, voltarão a sorrir.

Porque até os brutos sabem que, para conseguir trabalho, é preciso parecer civilizado durante os cinco minutos que antecedem o aperto de mão. Depois, não raras vezes, é um inferno.

Deus nos livre destes biascateiros!


[ilustração: adaptação por IA]

14/09/2026

A despedida do Pe. António Santiago


Foi ontem a sepultar o Pe. António Alves de Pinho Santiago. Aconteceu num domingo, Dia do Senhor, como bem lembrou o Bispo Auxiliar do Porto, D. Roberto Rosmaninho, que presidiu às exéquias.

A Igreja Matriz de Guisande tornou-se pequena para todos os que quiseram prestar a sua última homenagem, incluindo muitos fiéis vindos das paróquias de Palmaz e Travanca, em Oliveira de Azeméis, que o Pe. Santiago serviu e estimou ao longo de tantos anos (55 anos em Palmaz e quase 26 em Travanca).  Foi também professor de Moral e Religião na Escola Básica Bento Carqueja, em Oliveira de Azeméis.

Num bonito gesto de comunhão, o acompanhamento musical esteve a cargo do Grupo Coral de Palmaz, enquanto a interpretação do salmo foi generosamente assumida por uma coralista da nossa paróquia. A celebração contou ainda com a presença de diversos sacerdotes e diáconos, entre os quais o vigário Pe. José Carlos, o pároco de Palmaz, o nosso atual pároco, Pe. Cláudio, e o seu antecessor, Pe. António Jorge, que no meio de uma agenda apertada, não quis deixar de se associar.

É verdade que perante a morte e aos olhos de Deus somos todos iguais. Contudo, enquanto servo dedicado à Sua Igreja, o Pe. Santiago teve uma despedida à altura da dignidade da sua missão. Foi uma cerimónia profunda e envolta em afectos, onde a família próxima pôde encontrar algum conforto perante a dolorosa perda de um irmão e tio tão especial.

Embora alguns membros da nossa comunidade não tivessem estado presentes por se encontrarem numa deslocação previamente agendada, acredito que o Pe. Santiago esteve presente na oração de todos. Mas nestas coisas cada um sabe de si e Deus de todos.

Esta partida reveste-se de um sentimento de perda acrescido para Guisande. A nossa terra, que no passado foi berço de várias vocações sacerdotais, vê partir aquele que era, actualmente, o seu único sacerdote. Reflexo dos tempos actuais e da evolução da própria sociedade, as vocações consumadas têm-se tornado escassas para a vastidão da messe. Antes dele, partira o Pe. Delfim Augusto Guedes, em 1961; o Pe. José Oliveira, a 24 de fevereiro de 1986; e o Pe. Agostinho Pereira da Silva, a 8 de março de 1997. Quando voltaremos a ter a bênção de uma nova vocação? O futuro a Deus pertence.

Pessoalmente, devo confessar que nunca mantive uma proximidade profunda com o Pe. António Santiago, para além de cumprimentos cordiais e palavras de circunstância. Recordo, no entanto, com especial afecto, o momento em que acompanhei o Bispo D. Roberto e o Pe. António Jorge numa visita à sua residência, aquando da Visita Pastoral em junho de 2024. Nessa altura, apesar do seu olhar acolhedor e do seu gesto afável, a doença já limitava a sua comunicação.

Do que me recordo, os serviços litúrgicos que prestou em Guisande foram pontuais, dada a entrega dedicada às suas paróquias de adopção. No entanto, o seu amor e apego à terra natal e à casa paterna nunca esmoreceram — prova disso foi o seu desejo expresso de repousar junto dos seus pais e irmãos. Seria natural que optasse por permanecer em Palmaz, onde serviu devotamente durante mais de meio século, mas o seu coração pediu para regressar a casa, ao aconchego da sua terra.

Em certas figuras, não é indispensável uma intimidade diária para que se reconheça a sua relevância. Proveniente de uma das famílias mais estimadas da nossa comunidade e com um percurso exemplar ao serviço da Igreja, o Pe. Santiago deixa um legado que todos honramos. É, e será sempre, uma das grandes referências da nossa história local.

Partiu quando Deus assim o determinou, tendo enfrentado a doença com resignação, amparado pelo carinho dedicado da sua família, em especial da sua irmã Flora, fiel companheira de todo o seu percurso pastoral.

Que Deus o acolha na Sua luz eterna e, na Sua infinita misericórdia, contemple a humanidade do seu servo. O Pe. António Santiago permanecerá vivo na memória dos seus entes queridos e na história emotiva das comunidades de Guisande, Palmaz e Travanca, onde marcou gerações.

Que descanse em paz.

13/09/2026

Recepção e tomada de posse do pároco Pe. Cláudio

 



Conforme previsto, decorreu no dia de ontem a tomada de posse do novo pároco de S. Mamede de Guisande, o Pe. Cláudio Manuel Vieira da Silva.

Pelas 17:30 horas decorreu no Salão Paroquial a recepção e apresentação das entidades e grupos da freguesia e paróquia. Seguiu-se a celebração solene na qual se inclui a tomada de posse.

No final, na Alameda da Igreja, decorreu o convívio da comunidade com o novo pastor. Houve porco-no-espeto, bebidas e sobremesas e momentos musicais intimistas e afechar fogo-de-artifício.

Parabéns a todos, todos, todos, quantos, de uma forma ou outra, tornaram possível a recepção, a celebração e o convívio, de modo particular ao Conselho Económico e Junta de Freguesia.

Já no dia de hoje ocorrem cerimónias semelhantes nas paróquias de Pigeiros e Caldas de S. Jorge, comunidades que também estarão à responsabilidade do Pe. Cláudio.

Votos sinceros ao novo pároco de que seja feliz na sua nova missão e nas comunidades e que contribua para a sua união e que cative as ovelhas tresmalhadas, que são muitas.

Já no dia de hoje, pelas 14:30 horas terá aqui a Guisande o seu primeiro serviço, o funeral do nosso Pe. António Alves de Pinho Santiago, cuja celebração será presidida pelo bispo auxiliar do Porto, D. Roberto Rosmaninho. De algum modo será marcante para o novo pároco e uma lembrança para a comunidade de que a vida comunitária é mesmo assim: hoje alegrias e convívio e amanhã tristezas pela pertida de alguém querido, porque dos nossos.

12/09/2026

Nota de Falecimento - Pe. António Alves de Pinho Santiago


Faleceu o nosso Pe. António Alves de Pinho Santiago.
As cerimónias fúnebres serão neste Domingo,13 de Setembro, com funeral pelas 14:30 horas, na igreja matriz de Guisande. No final irá a sepultar em jazigo de família.

Sentidos sentimentos a todos os seus familiares e próximos, de modo particular a seus irmãos e irmãs.
Com a sua partida, de algum modo esperada pela sua condição de doença prolongada, a comunidade de Guisande perdeu o seu último sacerdote dela natural. Sabe Deus quando teremos outro.

Sobre o Pe. António Alves de Pinho Santiago:

António Alves de Pinho Santiago nasceu no dia 14 de Dezembro de 1937 no lugar das Quintães, na freguesia de Guisande, concelho de Vila da Feira, filho de António Alves de Pinho Santiago, de quem toma o nome, e Maria da Anunciação da Costa e Pinho.
Era neto paterno de Joaquim Alves Santiago e Maria Joaquina da Conceição e neto materno de Custódio Baptista de Pinho e Maria Gomes da Costa.

Ingressou no Colégio de Ermesinde em Outubro de 1949 onde frequentou o 1º ano do Liceu.
Em 1950 transitou para o Colégio de Trancoso, em Vila Nova de Gaia onde fez o 2º e 3º anos do Liceu.
Em 1952 passa para o Seminário de Vilar, na cidade do Porto, onde conclui o 4º, 5º, 6º e 7º anos de escolaridade. Entre os anos de 1956 e 1960 frequenta o Seminário Maior da Sé do Porto. Ainda em 1960 fez o Diaconado e a Ordenação aconteceu no dia 6 de Agosto de 1961.
Foi professor de Moral e Religião na Escola Bento Carqueja em Oliveira de Azeméis.

A Missa Nova na freguesia de Guisande aconteceu no dia 15 de Agosto de 1961, com a paróquia em festa e todo o percurso de sua casa à igreja matriz efusivamente enfeitado com flores e verdura.
Nesse mesmo ano de 1961 recebe do seu Bispo a nomeação para coadjutor da paróquia de Lourosa, concelho de Vila da Feira, onde permaneceu durante dois anos.

Em 30 de Agosto de 1963 foi nomeado pároco de Santa Marinha de Palmaz, concelho de Oliveira de Azeméis. Anos mais tarde, em 1993, ficou também com a responsabilidade da paróquia vizinha de Travanca, no mesmo concelho.



Acima, igrejas de Palmaz e Travanca por onde paroquiou a maior parte da sua vida sacerdotal.

Em 15 de Agosto de 2011 festejou as Bodas de Ouro Sacerdotais, cuja celebração decorreu na igreja matriz de Guisande.
Manteve-se na paróquia de Palmaz durante 55 anos e na de Travanca durante 26 anos. A despedida aconteceu no final de Setembro de 2018. Para assumir as suas funções pastorais, o Bispo nomeou em 25 de Julho de 2018 o Pe. André Bruno Teixeira de Olim, como administrador paroquial de Palmaz e Travanca. Este jovem padre, nascido em 11 de Setembro de 1985, foi ordenado em 12 de Julho de 2015 e anteriormente esteve colocado na Madeira como Vigário Paroquial das paróquias do Caniço e Santo da Serra, no Arciprestado de Machico e Santa Cruz.

Concluída para além das suas forças a sua longa missão de pastor, com o peso das vicissitudes da velhice, regressou à sua terra natal, à casa paterna no lugar das Quintães, onde passou a viver na companhia de alguns dos seus irmãos.
Que Deus o conserve entre nós  por mais anos.


Acima, no dia da sua Missa Nova, a caminho da igreja matriz, ladeado pelos pais e o Pe. Francisco.




Fotografias de momentos da celebração da sua Missa Nova, na paróquia de S. Mamede de Guisande, que teve lugar no dia 15 de Agosto de 1961.
Na foto de baixo, acompanhado pelo então pároco de Guisande, Pe. Francisco Gomes de Oliveira, ainda o Pe. Domingos Moreira, de Pigeiros, e o Pe. José de Almeida Campos, de Fiães.

Abaixo várias outras fotografias de momentos diversos e importantes, como a cerimónia da ordenação na Sé do Porto, missa nova em Guisande e respectiva boda, grupo de irmãos em diferentes datas e ainda alguns momentos na sua paróquia de Palmaz.

















Na foto acima, em 2016, com o então presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, Dr. Hermínio Loureiro, na assinatura de um contrato-programa que permitiria um apoio de 30 mil euros para as obras de requalificação da envolvente da igreja matriz de Palmaz, umas das últimas e várias obras dinamizadas pelo Pe. Santiago. [foto: fonte: cm oaz]



Na foto acima, a ser entrevistado para o jornal "Correio de Azeméis", durante a festa de convívio e homenagem na despedida das suas funções pastorais, em Palmaz, em Setembro de 2018.




Nas imagens anteriores, um momento da visita ao Pe. Santiago pelo bispo D. Roberto e o Pe. António Jorge aquando da Visita Pastoral em Junho de 2024. Já então em debilidade.

Faleceu ontem, 11 de Setembro de 2026, com 88 anos de idade. Deus o guarde e tenha em Sua presença!

11/09/2026

Mandar e ser mandado


Há pessoas que nasceram com uma admirável vocação para seguir, para serem mandados, obedecer.

Não é tudo defeito. Pelo contrário: há uma grande paz em não ter de decidir nada. Como dizem os italianos, um dolce far niente. Basta olhar em redor, verificar para que lado vai a maioria e acompanhar. Se toda a gente usa a mesma roupa, usa-se também. Se de repente todos descobriram uma nova maneira de comer, dormir, viajar, decorar a casa ou fotografar o almoço, lá se adopta o hábito com a solenidade de quem acaba de inventar uma vida. Nas redes sociais copiam-se as trends e comparece-se  ao chamamento a um qualquer evento, desde, claro, que não envolva trabalho.

Chamam-lhe, uns, personalidade, outros, ser sociável e modernista. É uma das grandes delicadezas do nosso tempo.

A pessoa escolhe cuidadosamente o seu lifestyle, aperfeiçoa o corpo, a barba, o cabelo, a casa, o vocabulário, a alimentação, as viagens e até a maneira de parecer indiferente às coisas que toda a gente deseja. Depois contempla a criatura que construiu e sente-se, legitimamente, única. O seu ego adensa-se e o umbigo é centro gravitacional.

À sua volta estão milhões de pessoas a fazer exactamente o mesmo. Mas não há mal nisso. Haveria, sim, se em contra-mão ou em passo desacertado.

O rebanho tem virtudes que a liberdade, essa velha senhora tão exigente, nunca conseguiu oferecer. O rebanho aquece, protege, recomenda restaurantes, escolhe destinos de férias, fornece opiniões e, sobretudo, poupa-nos ao esforço exaustivo de pensar e decidir pela própria cabeça. A Inteligência Artificial veio acentuar esse desligamento da vontade própria. Pede-se um texto, uma imagem, um relatório como quem na tasca pede moelas, rojões ou um bife com batatas fritas.

Há sempre um pastor. E um pastor é uma bênção para quem não quer perder tempo a descobrir onde fica a erva. Nada como saber que a horas certas, na manjedoura do costume, vai haver palha e ração.

Ele sabe para onde ir, conhece os melhores pastos, define o ritmo e, quando alguma ovelha se atrasa, dispõe de um argumento bastante antigo e de eficácia comprovada: o cajado da crítica e da desconsideração.

Depois existem as outras. As ovelhas que não encaixam. As negras, os rabujentos velhos do Restelo.

As que chegam atrasadas ao aprisco, comem onde não devem, desaparecem quando é preciso formar fila e aparecem precisamente quando ninguém lhes pediu opinião. Não são necessariamente corajosas. Seria bonito dizê-lo, mas nem sempre é verdade. Muitas são apenas teimosas, distraídas, mal-humoradas ou incapazes de perceber a utilidade de obedecer, sobretudo às cegas, sem escrutínio.

São as ovelhas ranhosas. Não melhoram o mundo por serem desobedientes. Apenas o tornam mais incómodo como um grão de areia no sapato ou uma formiga nos colhões.

Quando o cajado lhes acerta no lombo, protestam. Resmungam, afastam-se, fazem cara feia e, passada a indignação, voltam a cometer exactamente o mesmo erro. Há nelas uma espécie de fidelidade ao próprio defeito que chega a ser tão confrangedora quanto enternecedora.

Também não sabem muito bem para onde querem ir. Eventualmente, sabem apenas para onde não querem. E talvez seja esta a pior posição de todas.

Porque há os que mandam e os que aceitam ser mandados. Os que têm como mandamento de que necessários são os patrões e os empregados.

Neste universo, uns poucos descobriram cedo que nasceram para dar ordens; outros, com igual serenidade, que obedecer é muito menos trabalhoso. Entre uns e outros existe uma multidão que prefere não pensar demasiado no assunto, desde que lhe garantam salário, férias e a sensação reconfortante de pertencer a qualquer coisa, a uma seita, um grupo, um clube ou um partido.

Depois ficam os outros. Os que não querem mandar. Os que não querem obedecer.

Os que não aprenderam a andar ao compasso da manada, mas também não possuem talento para conduzir o rebanho. Esses são os verdadeiramente incómodos, porque não oferecem ao pastor nem a disciplina que ele espera nem a ambição que ele sabe utilizar.

São livres apenas na medida em que isso não lhes traz vantagem alguma. E liberdade, quando não vem acompanhada de poder, costuma ser uma coisa bastante mal paga.

O pastor não gosta deles e, com oportunidade, faz-lhes a cama em conformidade. As ovelhas também não.

E eles, para dizer a verdade, nem sempre gostam de si próprios. Talvez por isso existam tão poucos.

Uns nascem com o cajado na mão. Muitos aprendem a baixar a cabeça. E os que insistem em caminhar de lado, recusando tanto o comando como a marcha, descobrem cedo que há uma lei não escrita no rebanho: quem não conduz nem segue fica marcado e ignorado.

E, se houver favas para pagar, pode ter a certeza de que alguém já decidiu quem as come.

Eu sei. Tenho passado boa parte da vida a andar fora do compasso, a reclamar, a apontar defeitos, a irritar-me com chico-espertices, a incomodar quem se tem em conta por algum poder. Não é uma maneira especialmente inteligente de viver, bem o sei. Traz dissabores, rancores e reduz o círculo de gente concordante.

Mas, enfim, há vícios que, depois de tantos anos, já se confundem com carácter. Será, por isso, um problema de idade, em que se dá conta da falta de paciência para andar a seguir rebanhos, a dizer amém a qualquer pastor e a ser prestável com quem não merece mais que a indiferença.

Com a maior parte da vida já passada, o que falta dela é demasido valioso para ser desperdiçado em vénias e reverências. Era só o que faltava!


A. Almeida

10/09/2026

O Justino quer é paz


Para muitos será da idade, para mim é do temperamento. O Justino sempre teve este gosto pela solidão, desde que me lembro dele. Não a solidão dos que se sentem sós, mas aquela outra, mais rara, de quem encontra nela bem-estar e paz, sem explicações a dar, respostas a preparar ou atitudes a fingir.

Os livros são-lhe boa companhia. Na escrita perde horas sem conta, e não parece haver nesse tempo qualquer queixa ou impaciência. Pelo contrário, dir-se-ia que é aí que mais confortavelmente habita. Não haverá na aldeia quem tenha mais livros que o Justino. Velhos e novos. Ensaios, romances, contos, crónicas, poesia, técnicos e de cultura geral, tudo tem e lê.

A família habituou-se e compreende-o. Os cães e os gatos, esses, nem precisam de compreender: sabem. Há coisas que os animais percebem por um qualquer sexto sentido que nós, humanos, fomos perdendo à medida que aprendemos a complicá-las.

O Justino não vive desligado do mundo. Pelo contrário, está atento ao que acontece, lê, observa, ouve os vizinhos e sabe, como toda a gente, que o mundo não acaba à porta de casa. Mas há muito do que escuta que lhe chega mais por obrigação ou hábito do que por verdadeira curiosidade ou necessidade de participação.

Não é uma ilha, embora faça quanto pode para não deixar que o transformem numa. Vai levantando em redor uma cerca discreta, feita de sorrisos, acenos e concordâncias, não por antipatia, mas para se proteger dos assaltos à sua tranquilidade. Dos assaltos da banalidade, naturalmente, mas também dos das boas intenções, daqueles que julgam que todas as dores devem ser partilhadas e que todo o silêncio esconde um pedido de socorro.

Há ainda os que, por genuína preocupação ou simplesmente por não conhecerem outra maneira de estar com alguém, insistem em oferecer-lhe conselhos para uma vida que ele nunca lhes disse querer mudar. O Justino escuta, agradece, talvez sorria, e continua serenamente no seu caminho.

Quer aprender, isso sim. Nunca me pareceu ter perdido a curiosidade nem a vontade de compreender melhor as coisas. O que dispensa é que lhe ensinem, com ar de descoberta, aquilo que já sabe, ou que lhe receitem companhia como quem prescreve um remédio para uma doença que ele não reconhece. Sabe que a roda e a pólvora há muito que foram descobertas.

Porque talvez seja essa a parte que mais custa aos outros entender: o Justino não precisa de ser salvo da sua solidão. Ele vive nela. E, pelo que vejo, bastante bem. 

Ao contrário, andamos, todos nós, em guerras e guerrinhas, surdas ou estrondosas, como se necessárias para estabelecer, a contento de todos, acordos e estados de paz. E tão pouco basta para a ter. É ver o Justino!


A. Almeida


[ilustração: Adaptação por IA]

09/09/2026

Os mestres da ilusão


Mais do que nunca, vivemos numa época em que mais vale parecer do que ser. O Governo, as autarquias e a comunicação social usam e abusam dos eufemismos e das meias-verdades, jogando constantemente com as percepções. Tal como num espectáculo de ilusionismo, o mágico precisa de distrair para iludir — algo que se torna simples porque, quase sempre, o público tende apenas a ver e a ouvir o que lhe convém.

Com frequência, lemos ou ouvimos anúncios como:

"No município X, os transportes públicos serão totalmente gratuitos";

"Os alunos passarão a ter manuais escolares completamente grátis";

"No município Y, as creches serão gratuitas";

"As autoestradas X, Y e Z deixarão de ter portagens";

"A Junta de Freguesia Z vai incentivar a natalidade com a oferta de um cheque de 500 euros por cada nascimento".

Esta narrativa cria a falsa percepção de que, com tais medidas, tudo se transformará num reino maravilhoso de bens e serviços gratuitos e de ofertas antecipadas de Natal.

Nada é mais falso. Quer seja no Estado Central, nas autarquias ou nas juntas de freguesia, tudo o que se anuncia como "grátis" continua a ter custos, financiados pela totalidade dos contribuintes. Trata-se de um modelo desequilibrado e injusto, uma vez que a factura é paga não só por quem usufrui dessas benesses, mas também por aqueles que delas nunca tirarão qualquer partido. 

É um pouco como a repetida história de que num certo município o evento X deixou um retorno económico de centenas ou milhares. A quem? A todos ou a quem mais bebe por estar perto da fonte. É que, no meu caso, em dezenas de anos de eventos cá no burgo, nunca senti caír um euro no meu bolso, antes, pelo contrário, a pagar quando há prejuízos na gestão ou exploração.

Em suma, assim continuamos: satisfeitos com supostos "benfeitores e altruístas" que, na verdade, não tiram um único cêntimo do próprio bolso para financiar as promessas que fazem ou medidas que implementam nesse conceito de gratuitidade. Antes, quando num populismo bacoco, tiram partido disso em tempos e contextos eleitorais.

Assim vamos andando!


[ilustração: IA]

08/09/2026

Bairrismo: o que ficará sem a valorização das raízes e legados passados?


A propósito de uma publicação sobre as romarias e o futuro das nossas comunidades, num bom artigo de reflexão do Tiago Afonso (de Pigeiros), na sua página de Facebook e no seu blog "Línguas de Perguntador",  troquei alguns comentários com o autor que me levaram a aprofundar uma ideia que, no essencial, partilho.

É evidente que o mundo mudou. Mudaram as famílias, os hábitos, as relações, os locais onde estudamos e trabalhamos, as formas de comunicar e, sobretudo, a própria maneira como nos relacionamos com as comunidades a que pertencemos.

Antigamente, a comunidade era, em grande medida, uma realidade inevitável. Vivíamos perto, conhecíamo-nos, dependíamos uns dos outros e partilhávamos os mesmos espaços de encontro. A paróquia, as associações, os cafés, as festas e as romarias eram muito mais do que lugares ou acontecimentos: eram elementos estruturantes da vida comunitária.

Hoje, nada disso desapareceu por completo, mas deixou de ter a mesma centralidade.

Em concordância com o Tiago, não me parece justo só por si  atribuir essa transformação aos jovens. Eles vivem simplesmente num tempo diferente, com outras oportunidades, outras formas de socialização e outras prioridades. Não podemos pedir-lhes que vivam como nós vivemos, nem que sacrifiquem o futuro para preservar o passado.

Mas é precisamente aqui que reside a minha preocupação: Há uma ruptura.E não sei se aquilo que estamos a construir será capaz de preservar os valores que, durante gerações, considerámos importantes: o sentido de pertença, a entreajuda, a responsabilidade pelas causas comuns, o orgulho nas nossas origens e o respeito pelo legado que recebemos dos nossos antepassados.

As nossas tradições não são apenas manifestações do passado. São uma forma de memória colectiva. Uma romaria, uma festa, uma associação ou uma tradição local representam muito mais do que aquilo que vemos: representam pessoas que, antes de nós, deram tempo, trabalho e dedicação para construir uma comunidade.

É isso que, a meu ver, não devemos perder. Não se trata de querer obrigar os mais novos a repetir os comportamentos dos mais velhos. Trata-se de lhes transmitir o valor daquilo que recebemos, para que possam decidir, à sua maneira, o que merece ser preservado.

O problema é que, perante a notória perda de população, mesmo que mitigada por uma imigração descontrolada, o envelhecimento e o afastamento progressivo das novas gerações, não sei se teremos gente suficiente — e sobretudo vontade suficiente — para assegurar essa continuidade.

Talvez o futuro encontre novas formas de comunidade. Talvez as tradições se adaptem e algumas sobrevivam. Espero sinceramente que sim. Mas continuo triste e céptico. Não tanto pelos jovens, mas porque já não existem as condições que fizeram nascer e crescer o espírito comunitário que conhecemos.

E quando se rompe uma continuidade de gerações, não perdemos apenas algumas festas ou costumes. Podemos perder, pouco a pouco, a consciência de quem somos e de onde viemos.

Por isso, enquanto for possível, penso que devemos continuar a defender as nossas tradições, a valorizar as nossas raízes e a sentir orgulho no legado dos que nos antecederam.

Não para viver no passado, mas para que o futuro não fique sem memória.

E, no fundo, talvez seja essa a nossa responsabilidade: fazer a nossa parte, transmitir o que consideramos ter valor e ter esperança de que alguma coisa fique.

Mesmo que, depois de tudo bem agitado, seja pouco o que fica no crivo.

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