30/03/2018

Feliz Páscoa 2018


Ilustração: Américo Almeida

Paixão



Na correria dos dias nem sempre damos atenção aos pormenores, porque estes quase sempre são isso mesmo, pormenores ou coisas pequenas, e nos tempos que correm, em sentido contrário, valorizamos tudo o que seja em grande e à grande, até se possível "à francesa". 
Mas há pormenores, simples olhares, que no tempo e no contexto próprios ressaltam da sua natureza discreta e agigantam-se no significado, ou, se quisermos,  na mensagem que transmitem, porque, acreditem, há alturas em que as pedras falam. Creio que é o que acontece com os baixos relevos de cruzes que ornamentam o granito antigo das  fachadas da igreja matriz de Santa Eulália - Arouca. São várias as cruzes, certamente numa alusão às estações da Paixão de Cristo, com um grupo a representar a cena final no Calvário, a meio da fachada norte. E nesta Semana Santa, este olhar ganha um sentido próprio, distinto.
A igreja, um bonito monumento, com alguns traços e elementos que a remetem para a sua origem ou estilo medieval. Está implantada num local pacato e recatado, com um interessante enquadramento no topo de uma alameda de tílias e plátanos, mas com uma envolvente a  nascente e parte a sul algo desmazelada, porventura a merecer mais atenção da Sé e de autarcas.

27/03/2018

Ufa!...Estamos mais descansados!


Depois de um miserável jogo frente à selecção da Holanda, com pesada e condizente derrota por 3-0, em jogo de preparação para o Mundial 2018, o seleccionador Fernando Santos e alguns dos seus jogadores afinal conseguiram vislumbrar coisas positivas, nomeadamente  a postura da segunda parte do encontro realizado em Genebra - Suiça, e que de tão triste e infeliz partida vai recolher preciosos frutos e sábios ensinamentos. Porventura, digo eu, que de todos aqueles jogadores que se equiparam com as cores da selecção, poucos darão garantias de ganhar o que quer que seja.

Já no anterior jogo, com a selecção do Egipto, também na Suiça, a coisa só não correu tão mal porque a selecção africana será um bocadinho mais fraca que a holandesa e o onze que jogou na sexta-feira será um bocadinho menos mau que o escalonado para esta segunda-feira. E não fora a reviravolta de Ronaldo, já para além dos 90 minutos, num duplo golpe de cabeça, e teria sido mais uma derrota , frente aos faraós.

Mas, com estas garantias de Fernando Santos, que viu o que mais ninguém viu, afinal estamos todos mais descansados. Ufa! E de resto, como se viu no Europeu de 2016, para se ganhar uma grande competição internacional nem é preciso jogar bem nem vistoso. Basta acreditar na fezada de Fernando Santos.

24/03/2018

Nota de falecimento


Faleceu Joaquim António dos Santos - 24/04/1937 a 23/03/2018 - 80 anos - Fornos Guisande.
Cerimónias fúnebres na Capela Mortuária e na igreja matriz de Guisande pelas 16:00 horas de Domingo, 25 de Março de 2018, indo no final a sepultar no cemitério local.
Sentidos sentimentos a todos os seus familiares. Paz à sua alma!

22/03/2018

Não assobia, mas é sobreiro, é centenário e é nosso


Pela imprensa destes dias ficamos a saber que " o sobreiro 'assobiador' de Águas de Moura, em Palmela, com 234 anos venceu o concurso da Árvore Europeia do Ano, com 26.606 votos, foi anunciado esta quarta-feira no Parlamento Europeu (PE), em Bruxelas.".
Ainda bem que ganhou e certamente de forma merecida pois é de facto uma árvore imponente. A vitória tem muito simbolismo depois de um ano em que a floresta portuguesa foi massacrada. Não sabemos se esta dramática realidade teve algum efeito para uma certa comiseração europeia por parte do júri ou de quem votou, mas, pensando que não, é um orgulho nacional, tanto mais que o sobreiro é uma árvore muito característica do nosso clima e que para além disso em muito contribui para a riqueza nacional sobretudo pela indústria corticeira.

O sobreiro "assobiador" de Palmela é na realidade uma soberba árvore, mas nós na freguesia de Guisande, no Monte do Viso, também temos um exemplar igualmente frondoso, que no que a imponência diz respeito e até mesmo à sua idade, não deve ficar muito atrás do colega "assobiador".  Não será por si só "assobiador", mas tem igualmente pássaros que lhe dão vida. Se dizem que o de Palmela tem 30 metros de copa, ainda há dias a passo largo medi quase isso no nosso sobreiro no Monte do Viso e quanto à altura de 17 metros, será próxima. De resto basta comparar a espessura do tronco. E ainda dizer que o tronco que se vê actualmente no nosso sobreiro, corresponderá apenas a 1/3, já que da sua base original ao longo dos tempos foi sendo aterrado.

O meu tio Neca, na autoridade dos seus 94 anos, diz que tinha 10 anos e já via o sobreiro do Monte do Viso com o mesmo tamanho. Não custa nada a acreditar que por isso e pelo testemunho da sua imponência tenham pelo menos 200 anos. A idade exacta, só com testes por entendidos e mesmo assim seria sempre uma estimativa.
Apesar de tudo, o nosso sobreiro poderia estar de melhor saúde não fossem alguns atentados que ao longo dos tempos tem sofrido, como o aterro de 2/3 do seu tronco e uma fogueira feita por alguma criançada travessa que queimou parte da sua actual base e que o debilitou. 

Ainda há alguns anos, contactei uma entidade estatal no sentido de se iniciar o processo de classificação como de interesse nacional, mas, infelizmente nunca obtive qualquer recado ou resposta.
Apesar disso, apesar deste nosso sobreiro que a todos os guisandenses deve orgulhar, porque testemunha centenária de muitas vivências e convivências, ainda por cima localizado num sítio de excelência, custa acreditar que ainda há pouco anos um membro de  uma Junta de Freguesia tenha colocado a hipótese de o abater, "para evitar o lixo" das folhas no arraial. Se não fosse um caso grave, até seria de rir, mas chega a ser chocante a insensibilidade de algumas pessoas com responsabilidades para quem uma árvore ou uma pedra não passam disso mesmo, ainda que impregnadas de história e de memórias colectivas.

Pela parte que me toca, tenho muito orgulho no nosso sobreiro do Monte do Viso e simbolicamente chamo-lhe o "homem mais velho da freguesia". Seja estimado e protegido, e que a natureza não lhe seja demasiado dura, com ventos e secas, estará aí para durar e sobreviver a muitos de nós, mas dos mais novos.

Velho sobreiro

De vós, todos vi nascer,
E muitos mais, dos quais
Hoje só a saudade.

Sou ramagem a acolher
Dores, fadigas, vozes, cantigas,
Velhice e mocidade.

Sou vosso! No choro e no riso,
Na descrença como na na fé;
Sou de Guisande, monte do Viso !
Sou até que, enfim, morra de pé.

21/03/2018

Coisas da bola


Da imprensa: "Cristiano Ronaldo pediu que valorizem mais os futebolistas portugueses e que "pensem grande", sem medo de terem ambição.
"Aborrece-me ver o valor que em Portugal dão aos estrangeiros, não vejo tanto valorizar o que é nosso, os jogadores portugueses", defendeu o avançado da seleção nacional e do Real Madrid, na gala anual da Federação Portuguesa de Futebol.

Ronaldo tem razão de princípio, mas não a tem toda. E não a tem toda porque fala de barriga cheia e não pode pretender que os adeptos dêem valor a "toscos" e a "coxos" em detrimento de verdadeiros artistas, mesmo que estrangeiros.
Mas reconhecendo-se o enorme ego de Ronaldo, no fundo ele estava a falar por si e a criticar aqueles adeptos portugueses que preferem a magia do futebol de Messi e a este classificam como o melhor futebolista de todos os tempos. 
Mesmo reconhecendo a extraordinária categoria de Ronaldo e o seu profissionalismo, obviamente que enquanto artista da bola eu também prefiro o Messi. Mas quanto a preferência cada um gosta do que gosta.
Para além disso, Ronaldo fala em valorizar o que é nosso, coisa que tanto ele como os mais categorizados jogadores portugueses em rigor não fazem, ao optarem, legitimamente, diga-se, por cedo escolherem outros clubes e países, tudo em nome do prestígio deles próprios e da sua carteira, obviamente. Ora se Ronaldo e Companhia fossem assim tão "patriotas" e "valorizassem o que é nosso", ainda estariam por cá em clubes como o Sporting, Benfica, Porto e mesmo outros e mesmo assim a ganharam muito acima dos comuns mortais. Com eles por cá certamente que o nosso futebol e a nossa liga teriam mais qualidade e com menos estrangeiros. Isso sim.
Assim sendo, o que Ronaldo diz ou pensa no que a lições de moral ou de patriotismo diz respeito, vale o que vale e vale pouco ou nada. 
Patriotismo e amor à camisola são coisas que há muito andam afogadas pelos interesses próprios e sobretudo pelo dinheiro, quanto mais melhor. Beijinhos aos emblemas e às camisolas valem tanto como beijos de Judas.

05/03/2018

A alegre casinha

Creio que todos reconhecem a casa abaixo retratada. Trata-se da casa do Ti Pereira, no lugar do Viso, ao lado da capela, actualmente propriedade de herdeiros. Entre uma e outra fotografia, passam quase sessenta anos. A primeira foi retratada num dia 4 de Agosto de 1958, um sábado de Festa do Viso e a segunda tem dias.
Na foto de 1958, a casa tinha acabado de ser construída, mas ainda faltava parte do muro de vedação á face do então caminho bem como portões e grade no muro. Esse muro em falta foi feito de seguida e anos mais tarde demolido para possibilitar o alargamento da rua e construção de passeio. Curiosamente, também na parte nascente do prédio, nessa altura existia um espigueiro implantado à face do caminho e que também acabou por ser demolido para permitir o alargamento. Apesar disso, manteve-se o muro em alvenaria de granito defronte da casa, em harmonia com a arquitectura desta.
As fotografias de um mesmo local em diferentes épocas podem dar-nos este ar de surpresa decorrente da transformação das coisas e dos sítios, quase como um passe de mágica.
A casa na actualidade está com bom aspecto até porque foi recentemente alvo de obras de conservação por parte do actual proprietário.



01/03/2018

Venha batê-las

Limpezas e sujidades


Ainda o assunto da obrigatoriedade das limpezas florestais: É certo que a lei não é de agora e para recuperar o desmazelo de anos e face ao drama dos incêndios de 2017, está de regresso a política do 8 para o 80.
Em todo o caso, para além da reconhecida e imperativa necessidade de limpeza, porventura não de forma tão radical como está a ser divulgada, com insuficiente informação à mistura, foi sempre mais fácil para o Estado, e seus governos sucessivos, passar o ónus da (ir)responsabilidade para os cidadãos, desmazelando em muito as suas próprias obrigações, não sendo por isso modelo de virtude para ninguém. Senão, veja-se: É mais ou menos consensual que pelo menos 90% dos incêndios em Portugal têm origem em mão criminosa. Contudo, parece que ainda não se percebeu que a a falta de limpeza na floresta é obviamente um problema, porque potencia os incêndios e os seus efeitos, mas não são seguramente a sua origem. Ora o que tem feito o Estado quanto a isto? Agravamento do contexto penal e sem contemplações para os criminosos, sejam eles bêbados ou tolos (porque têm que ser tratados)? Mais polícias e investigadores específicos para esta área? Mais guardas-florestais? Mais investimento na prevenção, quiçá incentivo  activo e não coimas para as limpezas ou falta delas? Controlo de e para o Estado dos meios aéreos de combate a incêndios de modo a acabar com os obscuros interesses das empresas fornecedoras (muito interessadas em ter trabalho)? Em rigor a resposta a todas as questões será negativa. Ora quando assim é, a coisa acaba necessariamente por descambar em políticas de a torto-e-a-direito, com os exageros e radicalismos que já se estão a ver e a sobrar para os indefesos cidadãos perante os instrumentos legais que se vão criando reactivamente.

Tendo nascido, crescido e vivido uma aldeia rural envolta em floresta, terei visto o primeiro incêndio cá na zona apenas e já depois dos vinte anos e sendo certo que por esses tempos os matos andavam bem mais limpos,  nunca foi preciso cortar a varrer junto a casas, estradas e caminhos. É que nesse tempo não se brincava com o fogo e nem havia empresas a alugar aviões e helicópteros.

Entretanto, com esta semana de chuva, a atrasar a já por si impossibilidade de limpeza no prazo concedido, o que é que o Governo vai fazer? Fiquemos à vontade porque António Costa, seus ministros e deputados já se prontificaram a vir dar uma mãozinha. Está, pois, o assunto resolvido.

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